Capítulo 9
Emerald lies
- Por favor, Ginny, se é por causa do chocolate ela controla-se. Eu posso até ficar com ela, só preciso que a acordes. Por favor!
-Luna, eu... não. - Virou a cara, e encontrou os olhos brilhantes da loira. Vieram-lhe lágrimas aos olhos.
- Por favor, Ginny! - Luna juntou as mãos e olhava fixamente para a outra. Viu as mãos a tremerem-lhe involuntariamente e a cabeça a baixar.
- Está bem. Como é?
Procuraram a chave pela caixa, encontrando-a dentro de uma bolsinha no forro de linho branco. Era pequena e com um aspecto escuro e manchado de tinta preta. E isso deu um estranho arrepio à ruiva, que não era de frio.
- Tens de meter a chave no buraco e rodar. Só isso.
Inseriu a chave nas costas da boneca e rodou. Uma, duas, três vezes. Até ficar cansada e lhe doer a mão. E ficou à espera da reacção.
Uma mão fechou-se e os braços e as pernas contorceram-se, como se se tratasse de alguém num pesadelo. Ergueu-se nas pernas, que estremeciam a cada passo que tentava dar. Os olhos abriram-se e as pupilas contraíram-se. A respiração era lenta, pesada. Contudo, poucos segundos depois parecia tudo bem. Ringo estava como sempre fora ou, pelo menos, como Luna se lembrava dela.
- Então... é só isto? - Ginny voltara a guardar a chave no lugar, enquanto era seguida por um par de olhos azuis.
- Alguém tem de ser o médium dela, e eu não posso. Já sou a médium da Zakuro.
- Sim, sim, já sei. Ginny não podes ser médium dela? Não Luna. Por favor, Ginny! Está bem Luna. O que é que eu tenho de fazer, então? - A ruiva olhava para a aimga e para as duas bonecas.
- Eu sou Ringo, a segunda das Peverell Maiden. Aceitas proteger a segunda Peverell Maiden e a sua Rosa Mystica, honrando o espírito que prevalece mesmo pós a morte?
Estendeu-lhe a mão onde, no dedo anelar, brilhava um anel avermelhado.
- Luna, o que é que eu faço? - Ginny tinha os olhos arregalados, e continuava sem saber o que fazer.
- Beija-lhe a mão. O anel.
- O QUÊ, MAS TU ESTÁS LOUCA? - A ruiva gritou com todas as suas forças.
- Faz isso e cala-te nee!
Relutante beijou o anel e uma sensação de fogo gelado percorreu-lhe o dedo anelar da sua mão direita. Quando olhou para ela havia surgido um anel igual ao da boneca. Ringo massajava a mão de cabeça baixa.
- É bom estar de volta. - Por fim falou, numa voz de gozo, e a ruiva julgou estar a falar com um dos gémeos.
- Ainda bem que o dizes. Deves-me a mim e olha que se eu tivesse que decidir outra vez não voltava a dizer sim. - Ginny voltou a sentar-se na poltrona vermelha.
- Olha a engraçadinha.
As quatro deixaram-se ficar um bocado pela sala, sentadas ou deitadas. Luna falava com a amiga sobre assuntos da escola. Ringo e Zakuro ficaram sentadas, costas com costas, em cima da caixa.
- Quando tu me disseste aquilo no outro dia nee... quem foi nee?
- Quem foi o quê? - A boneca de vermelho evitava a conversa de propósito. Não lhe apetecia falar sobre aquilo.
- Quem é que tu nee... quem é que morreu nee?
- Já disse, não interessa. É passado, está enterrado e não vale a pena recordar agora.
- Mas podias, sei lá, desabafar nee?
A outra continuou calada, como se não tivesse ouvido, ou não quisesse ter ouvido. As mãos raspavam uma das arestas da caixa.
- Ringo nee!
- Olha, não ias entender. És demasiado inocente para compreender.
- Mas eu quero ajudar-te nee! - Desta vez havia preocupação na sua voz. E isso, só de si, trazia lembranças amargas à sua cabeça. Embora não quisesse ainda sentia aquele aperto no estômago.
- Não é preciso. E um dia saberás. Talvez.
As duas permaneceram em silêncio. Zakuro já conhecia aquelas falas. Mentiras, era do que se tratava. A Ringo que ela conhecera já fora de muitas maneiras. E suspeitava daqueles anos anteriores em que a sua frieza precedera todos os limites que ela lhe conhecia.
- Acho que está na hora de irmos. Zakuro?
- Sim, Luna-chan nee. Está a ficar tarde nee.
Ginny agarrou na mala com o círculo de metal na tampa. Apertou-a com as mãos, olhando para o resto da sala.
- Bem, suponho que ela agora vem comigo. - Falou, como que uma meia pergunta para a loira.
- Só se quiseres.
Olhou os seus próprios sapatos por uns bons cinco minutos, antes de ordenar em voz autoritário:
- Vamos Ringo. Tenho trabalho a fazer, aquela maldita composição para o Doninha Fedorenta.
Saíram da sala e separaram-se. Luna e Zakuro deram uma corridinha rápida até à Torre de Ravenclaw. Ginny e Ringo foram até à Sala Comum de Gryffindor, sem se falarem.
Ainda estiveram um bom bocado de tempo a escrever uma composição sobre as maldições não verbais mais eficazes, antes da ruiva se deitar na sua cama e adormecer.
A boneca preparava-se para se deitar e dormir, mas um leve ruído fê-la parar.
- Nova médium? - A mesma voz calma.
- Ichijiku, não é a melhor altura, se bem que tu não escolhes alturas. - Virou-se até estar frente a frente com a irmã mais velha.
- Ora, ora, nada disso. Um sermão do Dumbledore chega e basta para parar. Eu só vim aqui para me certificar.
- Certificar de quê? Que ainda respiro?
Uma mão voou e a própria ficou paralisada. Uma estalada vinda da irmã. Dejá-vu.
- Que ela não seja outra Danya, Ringo. Não se esqueça.
Desapareceu nas sombras sem deixar rasto. Apenas uma pontada de culpa memorizada.
