Capítulo 10

Moony.

James apoiou as mãos na pia do banheiro e olhou para baixo, pensativo. Depois voltou os olhos para seu reflexo no espelho pequeno e franziu a testa para o corte no supercílio. Não podia aparecer no restaurante daquele jeito, mas estava se perguntando se Marlene ficaria mais furiosa por estar visivelmente machucado ou por simplesmente não aparecer no Cinammon naquele fim de tarde.

Remus Lupin havia sido seu amigo por muito tempo, desde a época em que a torcida do West Ham United era mais uma desculpa para que Sirius, Remus, Peter e o próprio James pudessem dividir uma cerveja juntos no Queens Head. Talvez ela tivesse sido o denominador comum, o elo necessário de que os quatro precisavam em uma época difícil para todos.

Sirius havia finalmente fugido da casa dos Black, que conseguiam manter a casa grande e o estilo de vida aristocrata com seus famosos negócios obscuros. Sirius havia nascido no lugar errado, e James convenceu os pais a abrigá-lo em sua casa. Os Potter o trataram como um filho.

Pouco mais de um ano depois, os pais de James faleceram e restava-lhe de família quase nada. Por aqueles dias, James e Sirius passaram a se envolver nos encontros de uma tímida Green Street Elite, e seu jeito divertido e inconsequente fez da torcida algo muito maior, sem muito esforço. Foi quando conheceram Moony. Professor de História do Ensino Médio, asmático, recém-formado, recém-demitido e recém-expulso da kitnet onde morava, sozinho no mundo. Outro puto desgraçado como todos eles.

Viveram a era de ouro da Green Street Elite. Remus não os abandonara quando Sirius deixou que Snape os seguisse para uma briga e apanhasse o bastante para uma estadia de apenas um dia no hospital, porque James esteve lá para defendê-lo e manda-lo correr. Remus havia apoiado Padfoot quando Regulus morreu, justamente quando o irmão mais novo de Sirius havia decidido que aquela vida não lhe servia mais, e quando o próprio Padfoot decidira o mesmo para si. Moony quisera que participassem da nova etapa de sua vida, ao lado da mulher que jamais pensou que teria, e por quem havia se apaixonado. Remus havia convidado James para ser padrinho de Teddy. Havia até mesmo conseguido soltar um palavrão contra Lily quando pensava que ruiva era a razão de todos os seus infortúnios.

Não havia conversado com Remus sobre a GSE durante muito tempo, em especial detalhes triviais sobre trajetos de metrô e ônibus, especialmente porque, se começasse o assunto, entraria no mesmo loop infinito de argumentos sobre como a vida é boa fora dela. Remus não sabia que iam ao jogo contra o Chelsea, portanto James achava extremamente difícil de comprar a ideia de que Moony pudesse ter planejado a emboscada do dia anterior. James não havia acreditado nem por um minuto que Remus Lupin deixaria de pensar em Tonks e em Teddy para armar um plano contra a GSE.

Sirius estava enganado quanto ao nome, mas sabia que alguém, um filho da puta da Green Street Elite, estava entregando aos seus inimigos de rua todos os seus passos. Aparentemente, estava desesperado para apontar alguém, e para ele fora mais fácil chegar à conclusão de que alguém de fora, como Remus era agora, seria responsável pela queda da torcida do West Ham, porque vivia em sua cabeça a ilusão de que eram unidos e leais uns aos outros, lembrança da época de líder da GSE.

Se não era Remus, James precisava então descobrir quem.

Mas agora isso podia esperar, porque havia uma questão mais perturbadora do que as traições na GSE; não o fato de desconhecer a identidade de seu desertor, mas a hipótese de que essa pessoa não era Lily.

O Cinammon também teria de esperar, porque Potter rumava hoje para Covent Garden.