Medo

- Vamos Nagisa! Vai ser uma longa viagem e temos que sair cedo! – gritava Rin do andar de baixo.

- Estou indo, estou indo.

Quase sem fôlego Nagisa desce as escadas com várias malas nas mãos, sua vestimenta revelava que não sentia frio naquela gélida manhã de sábado.

- Onde você pensa que vai assim? – perguntou Sesshoumaru, sua sobrancelha esquerda demonstrava incredibilidade no que Nagisa estava usando.

- Ué pra praia!

- Nagisa, minha filha, são seis horas da manhã, as ruas estão domadas de neblina e está um frio horrendo. Vá se trocar, e pelo amor de Deus seja rápida – pediu Rin desejando paciência.

Batendo os pés ela subiu, trocou-se totalmente contra a sua vontade, adentrou o carro e rapidamente colocou os fones de ouvido.

-Filha, por favor, estamos indo pra praia em família é mesmo necessário essas coisinhas?

- É sim, prefiro "essas coisinhas" - abriu aspas no ar com os dedos e sua voz demonstrava um tom desdenhoso - a ouvir as músicas que vocês dois gostam, eca. Ainda por cima me arrasta pra praia, me deixando longe do Matt...

- Matt? Ainda esse cafajeste? Não haviam terminado?- assustou-se Rin ao ouvir tal nome.

- Voltamos... – disse quase que num sussurro não prestando muita atenção no que dizia sua mãe, uma pequena plantação ali fora no frio e chuva parecia mais interessante.

- Você vai sofrer...

Sesshoumaru ouvia a discussão em silêncio, não se atreveria a intervir.

- Ta bom senhora sabe tudo; agora que já deu sua opinião, adeus – recolocou os fones.

Por alguns longos minutos o silêncio tomou conta do carro, apenas podia-se ver os vidros embaçados.

- Nagisa...

Ela não ouvira, apenas balançava a cabeça com os olhos fechados.

- Nagisa! – cutucou o braço da filha.

- Que foi! – tirou um lado do fone.

- Vamos conversar, que tal se eu continuar contando-lhe a história?

- Falta muito pra chegar à praia?

- Sim.

- Ta né. Tanto faz.


Eu fui até o escritório e bati.

- Entre.

Abri devagar a porta e adentrei uma sala totalmente de madeira, com uma gigantesca mesa e vários papéis que cobriam-na.

- Um momento Rin – disse Sesshoumaru segurando o telefone com uma mão e a outra anotando algo – Está bem senhor Nakashima, qualquer problema contate-me. Adeus.

Desligou o aparelho e fitou-me.

- Diga Rin.

- Hm... Eu vim te perguntar alguma coisa, mas esqueci – sorri com cara de boba.

- Aham, quando lembrar volte. Adeus – disse sem olhar-me, apenas ia de papel a papel como se estivesse procurando algo.

- Nossa, não precisava ser tão gentil – ironizou e sussurrou – idiota.

- Hey. Eu ouvi isso!

- Espero que tenha ouvido mesmo – fez careta – eu vim só perguntar uma coisa.

- Eu sei – suspirou e tirou seus óculos de leitura – perdoe-me, estou atolado de coisas da empresa e acabei me estressando. Diga-me o que ia perguntar?

- Eu... – coçou a cabeça tentando lembrar – Ah sim, o que Tomoya disse?

- Tomoya?

- É, você havia dito que ele ligou.

- Ah, que estaria chegando hoje pela tarde.

- Chegando onde? – demonstrei espanto.

- Aqui, pelo menos foi o que disse.

- Que horas? – tentava me controlar.

- Umas quatro – puxou a manga da blusa e mirou para o relógio de pulso – que são exatamente agora.

- Preciso ir. Tchau!

Sai correndo, desci as escadas numa pressa inigualável e assim que pisei no último degrau a campainha tocou. Tomei um pequeno susto e fiquei parada olhando para a porta ali fechada. Após alguns segundos minha avó apareceu.

- Rin querida, atenda a porta.

- Está bem... – hesitando um pouco abri, quando vi o rosto de Tomoya senti uma sensação estranha percorrer meu corpo – Tomoya.

- Você é Tomoya? Finalmente vou te conhecer – disse minha avó com uma voz acolhedora e abraçou-lhe – entre, entre, venha te mostrarei a casa, quer um quarto para ficar? Acabei de fazer pipoca doce você irá adorar!

Ela encheu-lhe com um turbilhão de informações que ele só conseguiu sorrir e aceitar o que ela estava dizendo, ao ser arrastado ele olhou para trás e olhou no fundo de meus olhos, foi como se ele sorrisse para mim com o olhar. Não compreendi porque ele estava aqui e precisava falar com ele, depois de uns minutos da sua chegada encontrei minha avó na cozinha e perguntei-lhe.

- Cadê o Tomoya avó?

- Está lá em cima arrumando suas coisas, ele não é adorável? Tão educadinho.

- Claro – ri falsamente – licença.

Subi e ao ver a luz de um dos quartos acessa fiquei parada e apoiada no canto da porta.

- Olá... – disse quase num sussurro.

- Hey... – veio em minha direção e eu afastei-o com a palma da minha mão.

- O que está fazendo aqui?

- Nossa! Não está feliz em me ver?

- Hm... Tomoya.

- Olha – sentou-se na cama e suspirou – naquele dia do aeroporto eu estava exaltado, você também e tudo ocorreu tão rápido e de um jeito horrível, vim te ver e conversar sobre isso.

- Você não precisava ter vindo, você podia ter ligado.

- Uau, não queria tanto assim me ver?

- Não é isso, e você sabe... É só que...

Ao longe ouvi uma voz.

- Rin Nani-sensei disse que estaria aqui e... – Sesshoumaru veio em minha direção e ao ver Tomoya dentro do quarto parou – Olá Tomoya – voltou-se a mim e disse – Onde está aquele caderno que você tava mexendo esses dias?

- Hm... Na estante da biblioteca – disse bem baixinho e sentindo que viria uma briga.

- Obrigada – saiu sem dizer mais nada.

- Legal. Pelo o que eu me lembro, você disse pra mim que ele não ia ficar aqui – voltou para o guarda roupa e começou a colocar tudo de volta na mala.

- Tomoya o que vai fazer? Huh? Voltar pro Japão agora?

- Eu vim aqui de idiota – apontava o dedo indicador na minha direção - tentar consertar as coisas, tentar novamente!

- Consertar o que estava quebrado há muito tempo?

- Fala logo! – exclamou um pouco baixo.

- O que?

- Diz que nunca me amou.

- Eu amei. E amei muito, mas...

- Isso não foi suficiente, não pra você. Você sempre queria mais e mais do que eu não poderia te dar.

- Você sempre diz isso, sempre acha isso, mas nunca tentou realmente me dar o que eu queria.

- O que? Se teve alguém que mais lutou nessa relação fui eu! De otário te perdoei, corri atrás de você, fiz tudo por você e ainda assim não consegui satisfazê-la – gritava – Me diz Rin pelo amor de deus o que você tanto queria?

- Eu...

- É, como sempre você não tem argumentos porque você mesmo não sabe o que quer, e eu não vou ficar aqui esperando sempre por você. Uma hora isso tinha que acabar, não se preocupe, amanhã pela manhã já não estarei mais aqui, na verdade tudo isso foi um erro.

- Quer saber? – gritei, agora havia me exaltado por completo – vai! Vai embora, eu cansei do seu lenga lenga, uma hora você é normal, na outra é um paranóico, chega! Acabou e... Eu não quero mais te ver.

Sai dali para o meu quarto sem chorar, apenas com um nó na garganta.

- Espero que encontre o que tanto procura – sussurrou para si mesmo.

Acordei hesitante no dia seguinte, fui até o corredor na ponta dos pés e a porta do quarto em que Tomoya havia dormido estava entreaberta. Empurrei-a devagarzinho e quando a abri por completo nada havia ali. Desci as escadas sem muita animação me dirigi à cozinha onde Nani-sensei cozinhava algo.

- Onde está Tomoya?

- Foi embora pela manhã – seu semblante revelava-se tristonho – o que houve?

- Já não dava mais avó.

- Espero que saiba o que está fazendo.

Aquela frase atravessou meu ser ali paralisado, ela fazia tanto sentido porque eu não tinha nem idéia do que estava fazendo, na verdade, há muito tempo que isso já não era de meu conhecimento. Tomamos café calados, eu, Nani e Sesshoumaru.

- Rin, depois venha ao escritório, queria mostrar-lhe algo – disse indiferente.

- Claro – respondi inocentemente.

Minha avó não desconfiava de mim e Sesshoumaru, ou pelo menos eu não desconfiava de que ela desconfiava e... Ok. Muito complicado. Haha, ela não sabia. Cheguei ao escritório, entrei sem bater mesmo, não tava ligando se ele ia gostar ou não e sentei em um sofá que ficava a direita da mesa dele.

- Queria falar comigo? – disse sem atenção enquanto brincava com um enfeite em cima da mesinha de canto.

- Sim, Tomoya... – ele se distraiu ao me ver brincar – Pare com isso Rin, presta atenção.

- Foi mal, estressado – ri.

- Eu ia perguntar porque Tomoya foi embora tão rápido – sorriu de canto.

- Haha – ironizei – o de sempre, brigamos, parece que não conseguimos ficar no mesmo cômodo sem discutir, e então ele se foi. Na verdade foi mesmo um erro ele ter vindo.

- Entendo.

- E agora Sesshy?

- Não me chame assim – revirou os olhos.

- É sério.

- Você vai voltar para o Japão logo mais, eu vou voltar também para a faculdade. Você vai ter que se afastar dele, o que eu creio que vai ser difícil já que moram perto.

- Eu não queria perder a amizade dele – saiu num tom tristonho.

- Não podemos ter tudo Rin.

- É, é, eu sei, todo mundo vive me dizendo isso – bufei.

- Bom, eu preciso continuar trabalhando aqui.

- Ok, quem sabe mais tarde a porta da minha varanda esteja aberta... Sem querer – ri e sai do escritório.

Dito e feito pela noite ele veio para meu quarto, discreto, como quem não quer nada, entrou pela varanda, cerrou-a devagar já que um vento frio soprava lá fora.

- Sabia que você viria.

- Sabia nada – aproximou-se e beijou-me.

Um pouco menos nervosa dessa vez nós aproveitamos muito bem a noite.


- Rin! – exclamou Sesshoumaru revirando os olhos.

- O que?

- Você não devia contar a ela essas partes.

- Pai! Já estou bem grandinha ok? – repreendeu Nagisa.

- Não o suficiente.

- Ah ta. Até parece – riu.

- Continuando...


Esses encontros às escondidas continuaram sucessivamente, não só no meio da noite com a varanda aberta, mas digamos que... Nós conhecemos BEM a casa de Nani-sensei. Toda a casa... Ao chegar próxima a semana que teria que voltar para o Japão, uma coisa estava me incomodando. Vi que Nani estava no andar de cima arrumando o armário de toalhas, puxei o braço de Sesshoumaru e levei-o para o quintal.

- Rin? Que isso?

- Precisamos conversar – recuperava o fôlego.

- O que aconteceu? – mirava-me com um semblante preocupado.

- Eu to atrasada.

- Pra ir onde?

- Mas é um lerdo. Depois dizem que você é o mais inteligente da sala – revirei os olhos – minha menstruação está atrasada – mirava-o como que esperando que ele tivesse a resposta para esse grande problema.

- O que? Impossível, sempre nos prevenimos.

- É, mas, você lembra aquele dia na piscina? – meu rosto ficava quente nesse momento, vermelho de vergonha.

- Lembro... – riu discretamente – mas ainda sim não foi dentro.

- Bom de qualquer maneira pode ter acontecido. O que eu vou fazer Sesshy? Eu não posso ter um filho – meus olhos se encheram de lágrimas e rapidamente elas escorrem sobre meu rosto quente, sesshoumaru envolveu-me em seus braços.

- Calma Rin, nós daremos um jeito – sussurrou em meu ouvido.


- Meu deus! Era eu?- indagou Nagisa com um grande sorriso.

- Viu Rin? É por isso que ela fica de recuperação em matemática na escola.

- Ta bem, ta bem, pêra ai vocês dois, eu preciso abastecer o carro, daqui a pouco eu conto o resto – desceu do carro em direção ao atendente do posto.