É CÔMICO!
Em um velho e pequeno teatro. Santorini, Grécia.
A comédia daquela noite era Lisístrata, obra do antigo poeta grego Aristófanes. Nela, as mulheres atenienses fizeram seus maridos desistirem da guerra através de uma greve de sexo. No entanto, apesar de ser uma obra engraçada e genial, o público ameaçava ir embora querendo o seu dinheiro de volta. A razão disto? As atrizes e os atores eram amadores demais, e o figurino deles estava péssimo. As falas eram esquecidas com uma frequência irritante, e a intérprete da personagem principal falava baixo demais. No entanto, alguém chegava ao teatro com uma empolgação gigantesca:
_Com licença... Eu tou passando. Com licença. Com licença. Sério que eu pisei no seu pé? Ha! Desculpe-me, então, senhor. Com licença... Chega um pouquinho para lá. Obrigada. Ah... Acho que esse lugar aqui já tá bom. Será que eu perdi muita coisa? – perguntou Kieve Hakos, a irreverente dona de uma cabeleira ruiva, volumosa e bagunçada.
Ela se sentou e percebeu que o espectador da cadeira da frente dormia. Acabou roubando o saquinho de pipocas dele. Depois, disse enquanto seus olhos cinzentos brilhavam de ansiedade:
_Aristófanes era um gênio! As mulheres de Atenas não tinham vez ou voz, mas ao deixarem seus homens de "armas na mão" elas impediram que eles seguissem empunhando armas de verdade contra seus inimigos! É inovador, é revolucionário... É cômico!
_Não, minha jovem. Isso é chato, muito chato mesmo – falou o espectador ao seu lado, bocejando de tédio.
Kieve levantou-se e quase subiu na poltrona com seus pés pequenos. Indignada, ela disse:
_Chato?! Como o senhor ousa dizer algo assim? Eu adoro esta comédia!
_Então preste um pouquinho de atenção nela – apontou para o palco, onde uma das atrizes esquecia sua fala pela décima vez. – Pode até ser que a obra seja boa, mas essa companhia de teatro é horrível!
_Ai, não... Isso aqui tá parecendo mais uma tragédia grega! O pobre Aristófanes deve estar se revirando no túmulo agora mesmo – ela deu um suspiro desapontado. – Eu preciso fazer alguma coisa!
Kieve se dirigiu aos bastidores no mesmo instante em que Máscara da Morte chegava ao teatro:
_Sai da frente! – ela gritou ao passar por ele.
O cavaleiro de Câncer abriu caminho, e, sentindo o cosmo que emanava da miúda e agitada jovem, disse:
_Essa coisinha aí é a deusa que eu procuro? Uma das filhas do grande e poderoso Zeus? Isso só pode ser uma brincadeira de muito mau gosto!
Não, não era. E logo o cavaleiro de Câncer teria motivos para gargalhar muito. Ou não.
Templo de Poseidon.
Ao sentir a ausência de Hemera, Destino fechou seu semblante e apertou os punhos, numa demonstração visível de contrariedade. Poseidon percebeu isto, e, tentando esconder a própria satisfação, perguntou:
_Não sinto mais a presença da deusa do Dia em meus domínios. Algo não está saindo conforme os teus planos, Destino?
Poseidon deu um pequeno sorriso, e o seu bom ânimo percebido pelo Destino:
_Tolos são aqueles que ousam me desobedecer. Serão jogados na incerteza das suas próprias decisões, e cedo ou tarde sofrerão as consequências disto. Resta saber se esta também será a tua escolha, deus dos mares – o ser caótico disse num tom firme e deixou o templo na direção de um dos pilares.
Poseidon, então, chamou Sorento de Sirene e ordenou:
_Vá agora, general marina. Éter já procura pelas duas forças, e a nossa tarefa é fazer com que ele não as encontre. Vá agora... E não falhe.
Sorento percebeu a tensão na voz do seu deus. Não demorou e ele partiu, tentando não ser detectado pelas Erínias ou pelo próprio Destino. Ele não poderia falhar. Simplesmente não poderia.
Santuário. Casa de Áries.
Kiki já estava se preparando para dormir quando escutou passos vindos do salão de Áries. Quem estaria ali uma hora daquelas?
_Mestre Mu? – o pequeno sátiro-lemuriano chamou.
_Não, Kiki. Sou eu.
_Mestre Shion? O que está fazendo por aqui?
_Eu vim para passar a noite.
_Por quê?
_Você não precisa saber – o ariano disse e lembrou-se da deusa Afrodite, decidido a não ceder aos assédios dela.
Os olhos de Kiki se arregalaram de curiosidade, e Shion viu que o garoto não sossegaria até lhe arrancar alguma resposta convincente. Porém, antes que as perguntas insistentes começassem, um cosmo estranho e poderoso chegou ao Santuário.
_O que está acontecendo, Mestre?
_Não sei, mas irei investigar pessoalmente.
_Eu quero ir também!
_Não. Fique aqui, Kiki.
_Mas eu...
_Não me venha com teimosia numa hora dessas!
O aprendiz sentou no chão e cruzou os braços dizendo:
_Parece que alguém aqui está bem estressado.
Shion respirou fundo ao ouvir o comentário e se dirigiu à entrada de Áries com passos ligeiros. O seu mau pressentimento parecia crescer à medida que o tempo passava:
_A situação não me parece boa. Nada boa.
Santuário. Proximidades da Casa de Áries.
Hemera sentia um misto de alívio e temor. O Destino provavelmente já havia percebido a sua traição, mas ela não voltaria atrás:
_Preciso falar com Athena. Preciso dizer que agora eu estou a favor do Olimpo.
Saga olhou ao seu redor, percebendo que estava de volta ao Santuário. Ferido e sentindo alguns ossos quebrados, ele disse:
_Eu preciso voltar.
_Os domínios de Poseidon não são seguros para ti. Esqueça o teu irmão por enquanto.
Saga ignorou as palavras cuidadosas de Hemera, e, com certa dificuldade, afastou-se dela como se estivesse disposto a iniciar uma nova jornada.
_Não estás me ouvindo, cavaleiro? – a deusa do Dia perguntou e sentiu a aproximação de Shion, que elevou o cosmo ao vê-la.
_O que um ser do Caos faz aqui? – o Grande Mestre perguntou.
Hemera transformou instintivamente o seu pingente em lança e respondeu:
_Eu desejo encontrar-me com Athena. Vim em paz e quero unir-me ao Olimpo.
O Grande Mestre desconfiou de tais palavras, entretanto, perguntou ao cavaleiro de Gêmeos:
_Saga... Ela diz a verdade? Saga? Você está bem?
Os sentidos do geminiano falhavam, e a voz de Shion parecia cada vez mais distante. Não demorou e ele caiu ao chão, desacordado.
Ainda no pequeno teatro. Santorini, Grécia.
Chegando aos bastidores, Kieve encontrou-se com o contra-regra, que perguntou:
_Você é da companhia de teatro? Se não for, não pode ficar aqui.
_No momento, eu estou fazendo o papel de salvadora da pátria. Então, eu posso ficar aqui sim. Onde estão os figurinos? – ela colocou as mãos na cintura, decidida.
O homem olhou para o rosto cheio de sardas dela e respondeu:
_Naquele armário – apontou.
Kieve correu e se vestiu como uma mulher da Grécia Antiga. Depois, foi até as cortinas abertas e chamou a atriz mais próxima:
_Psiu... Vem cá – disse baixinho.
_Eu? – apontou para si.
_É, você. Vem logo que é urgente!
A moça abandonou o palco com discrição, aproveitando que não tinha falas naquele momento. Kieve, então, informou:
_Eu vou te substituir.
_Hã?
_É isso mesmo que você ouviu.
_Como assim? Eu não vou...
Kieve revirou os olhos cinzentos e bateu na cabeça da atriz com algo que arrancara do cenário. Em seguida, ela arrastou a desacordada para dentro do armário de figurinos e a trancou lá dentro.
_O que eu não faço por uma boa comédia? – disse e pulou para o palco, já atuando com grande irreverência.
As pessoas na plateia começaram a prestar atenção na peça, e algumas que estavam saindo voltaram para os seus lugares. O figurino sem graça pareceu mais bonito aos olhos de todos, e as falas não mais foram esquecidas graças ao cosmo de Kieve. Os atores e as atrizes sentiram-se mais confiantes, e passaram a interpretar Lisístrata brilhantemente. Logo o teatro explodiu em gargalhadas contagiantes, tão altas que eram ouvidas à distância.
No entanto...
_Essa baboseira não tem graça nenhuma – disse Máscara da Morte, a única pessoa ali que não estava rindo. – O melhor que eu tenho a fazer é levar essa coisinha divina até o Santuário o mais rápido possível. Musa da Comédia... O cosmo dela é tão feliz que chega a me dar enjoo.
Domínios de Poseidon. Pilar do Atlântico Sul.
Hermes, Athena, Apolo, Dionísio e Ártemis chegaram ao Pilar do Atlântico Sul. Aparentemente o lugar estava tranquilo, mas a deusa caçadora apontou a sua mira numa direção e sussurrou:
_Erínias logo adiante. Ainda não perceberam a nossa presença.
_Podemos atacá-las de surpresa – Dionísio sugeriu e fez o seu dardo surgir numa das mãos. Entretanto, Apolo refutou imediatamente a ideia:
_Não. Se elas estão aqui, significa dizer que a nossa presença já era esperada.
_Ou Poseidon pode estar dando uma festa – brincou o deus do vinho, tentando descontrair.
_Mantenha o foco, Dionísio. Não é hora para brincadeiras – Ártemis o repreendeu e seguiu atenta de cada movimento das três Erínias.
Sentindo a presença do inimigo, Hermes falou:
_O Destino se aproxima. Nós temos um plano?
Saori deu um passo à frente e ordenou:
_Abaixem as suas armas.
_O que? Que estupidez é essa agora? – Ártemis protestou.
_Nós viemos propor uma trégua. Não se faz algo assim apontando armas para o inimigo.
_Faz sentido, mas eu não gosto disso – Dionísio tomou um pouco de vinho. – E se ele resolver nos atacar?
Apolo respirou fundo e respondeu:
_Se ele resolver nos atacar, nós não poderemos fazer nada.
Santuário. Casa de Gêmeos.
Saga começou a recobrar sua consciência. Aos poucos, ele conseguiu distinguir as duas vozes que falavam perto de si:
_O Saga é bem resistente. Já está começando a acordar – disse Aldebaran de Touro.
_Ótimo. Devo voltar agora mesmo para Capricórnio. A presença daquela deusa no templo de Athena me incomoda.
_Ela diz ser uma nova aliada. O que você pensa disso, Shura?
_Não sei, mas nós dois devemos ficar atentos. As defesas do Santuário já estão enfraquecidas demais com a ausência dos demais cavaleiros de ouro, e ter uma provável inimiga aqui dificulta ainda mais as coisas.
Saga abriu os olhos e apertou o braço de Aldebaran, tentando sentar-se.
_Devagar. Você perdeu muito sangue – o Touro advertiu.
_Onde está a deusa do Dia?
Shura e Aldebaran se entreolharam. O primeiro respondeu:
_Ela está com o Grande Mestre.
Saga, então, se levantou com dificuldade da cama. Sem nada dizer, ele tomou o caminho do templo.
_Saga... – chamou Shura.
_Deixe-o. Ele deve saber o que está fazendo.
Domínios de Poseidon. Pilar do Atlântico Sul.
Athena começou a sentir a proximidade do Destino e caminhou até ele.
_O que nós devemos fazer? – perguntou Dionísio.
_Se a trégua não der certo, devemos nos preocupar também com as Erínas – disse Apolo.
_Eu cuido delas – o deus do vinho respondeu, causando surpresa nos demais. – O que foi? Ao contrário de vocês, que já nasceram em berços divinos de ouro, eu tive de provar o meu valor para ascender ao Olimpo. Posso não estar fazendo muito pela minha autoimagem ultimamente, mas também tenho o meu valor.
_Ah... Está bem, Dionísio – assentiu Apolo. – Hermes e eu acompanharemos Athena. Não quero deixá-la sozinha com o Destino.
_E quanto a mim? – Ártemis já estava irritada com o aparente esquecimento do irmão. No entanto, ele tocou-a no ombro e falou:
_Minha irmã, seja a surpresa.
Ártemis assentiu e desapareceu levando consigo o caduceu de Hermes. A tentativa articulada de trégua estava apenas começando.
Pelas ruas de Santorini, Grécia.
Kieve tinha a sensação de missão cumprida após salvar uma de suas comédias favoritas. Sendo assim, ela agora queria apenas voltar à ilhota onde morava para dormir o sono dos justos. No entanto, alguém tinha outros planos:
_Fique paradinha aí – disse Máscara da Morte.
_Isso é um assalto, por acaso? Se for, você se deu mal: eu sou pobre – ela disse e mostrou que não tinha nada nos bolsos do seu velho macacão jeans.
Máscara da Morte, então, saiu da penumbra e perguntou:
_Por acaso eu tenho cara de ladrão?
Kieve deu um sorrisinho gaiato, mostrando separaçãozinha entre os seus dentes da frente. Depois, disse:
_Quer mesmo que eu responda?
_Escute bem, coisinha: eu vou ter que te levar daqui, e acho melhor você cooperar.
_Como é que é? – Kieve perguntou num sobressalto, mas não esperou uma resposta e saiu correndo numa tentativa ligeira de fuga. – Me levar daqui o caramba!
O cavaleiro de Câncer estava pronto para ir atrás dela, mas sentiu uma perturbação do Caos se materializando e dirigiu-se ao cais de Santorini, onde havia uma considerável concentração de turistas. De longe, ele percebeu que todos ali pareciam hipnotizados por um canto bonito, o qual era entoado por oito sereias. Elas tentavam atrair fatalmente as pessoas para o mar, com o intuito de afogá-las.
_Eu vou acabar com essas coisas com um só golpe – Mask disse e ergueu o indicador no ar, porém, avistou Kieve chegando e se distraiu o suficiente para que cair também no encantamento.
_O que tá acontecendo aqui? Por que todo mundo está agindo estranho? – perguntou Kieve com a sua voz estridente. – Até o sequestrador dos infernos que queria me levar está perambulando que nem um sonâmbulo! Acorda aí, seu desgraçado! Ei... Eu tou falando com você! Ei! – ela chutou a canela de Máscara da Morte, que acabou despertando.
Após situar-se, ele pôde finalmente dar cabo nas sereias:
_Ondas do Inferno!
_Uou! O que é isso?! – perguntou Kieve ao ver o poder do cavaleiro. As sereias se transformaram em manchas que sumiram segundos depois. Aos poucos, as pessoas foram voltando ao normal.
Máscara da Morte voltou a se concentrar em Kieve. Ou não, já que ela havia desaparecido em meio aos turistas.
_Coisinha escorregadia... Deixe estar. O seu cosmo feliz é bem fácil de seguir.
Santuário. Templo de Athena.
Shion estudava Hemera atentamente. Era óbvio que ela havia se envolvido em alguma luta recente, pois sangue divino vertia de algumas feridas espalhadas pelo seu corpo.
_Contra quem você lutou?
_Contra o cavaleiro de Gêmeos. Ele invadiu os domínios de Poseidon, e era meu dever matá-lo.
_Seu dever? Vejo, então, que você o poupou.
Hemera assentiu e disse:
_Ele é um mortal poderoso. Se não fosse, não teria conseguido me ferir.
Shion calou-se por alguns instantes. Depois, encarou Hemera tentando enxergar qualquer traço de mentira. Ela compreendeu a atitude e deixou-se desvendar. Depois, perguntou:
_Onde está Athena?
_Ainda não sei se devo dar esta informação a você.
Não precisou. As coisas começaram a se encaixar na mente de Hemera:
_Ela está nos domínios do deus dos mares e... É por Athena que o Destino espera!
O pressentimento de Shion transformou-se em angústia.
_O Destino já a esperava? Como...?
_Precisamos fazer alguma coisa. Venha comigo.
Hemera armou-se com a sua lança e expandiu o seu cosmo luminoso. Quando Saga chegou ao templo, ela e Shion já tinham desaparecido.
Domínios de Poseidon.
Dionísio caminhava despreocupadamente até as Erínias, assoviando uma canção antiga que Pã costumava tocar. Em determinado ponto do caminho, ele ergueu a sua taça e escondeu o seu dardo, fingindo uma alegria descarada ao vê-las:
_Tisífone! Alecto! Megera!
Alecto era a que tinha a maior fúria, era a de cólera interminável. Com seus cabelos escuros e olhos vermelhos como sangue, ela disse antes mesmo de ver Dionísio:
_Sinto cheiro de soberba... Só pode ser um dos filhos de Zeus – virou-se para encará-lo.
_É melhor cheirar à soberba do que a sangue.
Alecto acendeu o facho de fogo com o qual punia os delitos morais dos humanos e voltou-se contra Dionísio. Ele deu apenas um sorriso divertido e desferiu um soco contra ela, fazendo-a voar longe devido à sua força.
_Agora eu não estou mais entediado – ele disse e bebeu vinho como estivesse numa brincadeira.
Longe dali, Athena ficou cara a cara com o Destino. Ladeada por Hermes e Apolo, ela disse:
_Venho propor uma trégua.
_Eu sei – disse o Destino. – Sinto que as tuas intenções são boas, Athena. Trégua concedida.
Ela abaixou o seu báculo e perguntou:
_Há um propósito maior por trás desta guerra, não há? Não terias ido até mim antes de tudo começar se não houvesse.
Destino aproximou-se dela. Apolo e Hermes ficaram inquietos, mas o deus caótico apenas falou:
_Tu enxergas o mundo com uma benevolência maior do que ele merece. Tudo precisa voltar à Desordem para que tudo se remodele, para que os erros tenham fim.
_Quais erros? Os dos homens?
_Não. Os dos deuses. O Olimpo rachou-se há muito tempo, Athena. É necessária uma nova Ordem, uma sem divergências, dirigida pelos descendentes do Caos. Fomos os primeiros seres, aqueles que nunca deveriam ter cedido o poder. Devemos retomá-lo.
_Não posso permitir isto – ela disse e ergueu o báculo, findando a trégua.
_Falando assim, até parece que tu tens escolha.
O Destino estava prestes a tentar controlar Saori, porém, Ártemis surgiu atrás dele através do poder do caduceu de Hermes. Encostando uma flecha prateada na nuca do inimigo, ela disse num tom vitorioso:
_Nem pense nisto, Destino. Estás em minhas mãos agora.
_Tola. Este era o plano para me derrotar?
Ártemis estava prestes a liberar a flecha de seu arco, mas foi inesperadamente atingida pelo tridente de Poseidon.
_Não! – gritou Apolo ao ver a irmã caindo.
Ligeiro, Hermes alcançou a deusa da caça antes que Poseidon desferisse outro golpe. Apolo, então, atirou uma sequência de flechas douradas contra o deus dos mares, que afastou todas com um movimento do seu tridente. Neste instante, Destino fez Athena cair de joelhos.
_Mate-a, Poseidon.
_Matá-la? – a cor fugiu do rosto de Julian.
_Sim. Prove a tua lealdade e livre-nos de problemas futuros.
Apolo e Hermes tentaram intervir, mas Destino os jogou violentamente ao longe e insistiu:
_Mate Athena, deus dos mares. É uma ordem.
Poseidon aproximou-se de Saori. No olhar dela não havia raiva ou repreensão, não existia medo ou angústia. Ela parecia compreender agora o que se passava no interior dele, as suas razões. Ela via também o amor reprimido e intenso o qual impedia por enquanto o golpe fatal do tridente.
_Athena... – ele deixou escapar num sussurro sofrido.
_Mate-me se for preciso.
Poseidon quis recuar, mas sentia o olhar cego do Destino sobre si. Deveria matar Athena. Este era o preço da sua farsa.
_Faça. Já tens o meu perdão – ela disse e fechou os olhos.
O deus dos mares, então, ergueu o tridente no ar e fez o seu cosmo crescer. Os mares ficaram revoltos, como se isto representasse as lágrimas que ele não poderia derramar na presença do Destino. Tentaria desferir um golpe rápido e limpo, pois Athena não merecia menos. Contudo, no instante em que ele estava prestes a matá-la, Hemera surgiu e golpeou o Destino com a sua lança. Athena ficou livre e impediu o golpe de Poseidon com o seu báculo. Aproximando-se dele, ela disse num sussurro:
_Você nunca traiu o Olimpo. Pude ver isto em teus olhos, ainda que eu não compreenda o motivo por trás das tuas atitudes. Mas não se preocupe, este segredo está seguro comigo.
Tridente e báculo se apartaram num movimento ligeiro, numa simulação de luta. Shion aproximou-se de Athena num gesto protetor. Hermes tomou Ártemis nos braços e abriu uma saída para o Santuário.
_Precisamos ir agora – ele disse.
Apolo assentiu e foi até Dionísio, que já precisava de ajuda contra as Erínias. Os deuses do Olimpo e Shion se foram. Hemera, entretanto, demorou-se um pouco mais:
_Eu não luto mais pelo Caos. Estou fora dos teus planos, e também da tua vontade – ela retirou a lança do abdômen do Destino e se foi. Ele cambaleou para trás, surpreso.
_Hemera conseguiu... Ela conseguiu mesmo se lançar à incerteza de suas próprias decisões, e por isto eu não pude prever a sua chegada.
Enquanto isto, Poseidon experimentava o maior alívio de toda a sua existência. No entanto, ele tinha ainda que manter as aparências:
_Tu estás bem, Destino?
_Sim, eu estou.
_Hemera... Ela...
_Nos traiu. Mas isto não importa. Eu sei como afetá-la, e logo ela sofrerá.
Numa pequena ilhota próxima à Santorini. Grécia.
O dia estava amanhecendo quando Kieve se espreguiçou e saiu da cama num pulo. Bem disposta, ela correu para o banheiro, escovou os dentes, amarrou loucamente os cabelos ruivos e disse:
_Começo a achar que os acontecimentos malucos de ontem foram um pesadelo. Ah, que seja! Tenho muito trabalho a fazer hoje! Uhu!
Descalça e apressada, Kieve desceu as escadas da pousada de sua família. Apesar da paradisíaca localização, o lugar estava caindo aos pedaços e pedindo por uma reforma urgente:
_Conserto do dia? Ah... Telhado! Não adianta consertá-lo depois que cair na minha cabeça.
Kieve passou pelo quarto dos seus pais adotivos, um casal de idosos que tinham lhe tirado das ruas de Santorini anos antes:
_Bom dia! – disse e soltou beijinhos.
_Bom dia – os dois responderam sorrindo.
_Hoje eu irei consertar o telhado, mas antes irei até a feira, certo?
_Sim, filhinha. Que os deuses te guardem – a mãezinha de cabelos brancos disse.
Cantarolando algo feliz, Kieve sorriu e se foi levando consigo uma cesta grande. Ela nem desconfiou que Máscara da Morte a seguia bem de perto:
_Aí está você, coisinha feliz.
_O sequestrador de ontem! – ela gritou ao vê-lo.
_Eu não sou sequestrador coisa nenhuma! Acontece que os seus parentes deuses estão metidos numa guerra escrota, e eu fui encarregado de vir buscar você!
_Parentes deuses? Ih... Parece que alguém aqui é chegado numa birita logo de manhã.
Máscara da Morte bufou e chegou a uma conclusão:
_Eu não vou perder tempo tentando explicar uma coisa que você não vai entender. Cumprirei a minha missão de uma vez por todas e pronto.
De repente, ele ergueu Kieve do chão e a jogou por cima dos ombros.
_Ei... O que você tá fazendo?!
_Eu estou te levando para o Santuário de Athena. Será uma viagem rápida, com apenas uma escala no Inferno – ele agora riu.
Santuário. Templo de Athena.
Ártemis sentia dores, mas dispensou os cuidados do irmão gêmeo:
_Eu estou bem, Apolo.
_Não, não está. Fique quieta para que eu cuide de ti.
Ela gemeu num misto de raiva e dor, mas fez o que Apolo pedia. Enquanto isto, Dionísio ria alto e conversava com Afrodite:
_Eu lutei com as três Erínias de uma vez só! Há tempos eu não me sentia tão vivo!
A deusa do amor e da beleza olhou para Shion e deu um suspiro:
_Sorte sua, Dionísio. Sorte sua.
Percebendo o desânimo dela e a sisudez do Grande Mestre, o deus do vinho perguntou:
_Nada ainda?
_Nada. Nunca alguém resistiu tanto aos meus encantos divinos – ela sussurrou. – E quanto mais ele foge, mais interesse eu sinto.
_Espero que eu tenha mais sorte com a minha amazona zangada.
_Eu não ficaria tão otimista se eu fosse você. Ela é outro caso sério.
Dionísio, então, ficou preocupado:
_O que podemos fazer?
_Insistir. E se as coisas continuarem ruins, eu terei de tomar uma decisão drástica.
_Qual?
_Depois eu digo. Agora me conte o motivo de Hemera ter mudado de lado nesta guerra.
_Eu não sei. Segundo Hermes, ela apareceu do nada e atacou o Destino.
_Sério?
Dionísio assentiu e tomou um pouco de vinho enquanto observava a conversa entre Hemera e Athena:
_Agradeço a tua intervenção, deusa do Dia. E fico feliz com a decisão que você tomou.
_Não precisas me agradecer, Athena. Desejo apenas fazer o que é certo aos meus olhos.
Saori sorriu e se lembrou de Poseidon. Seu coração ficou apertado, mas ela deveria manter o segredo dele. Assim como seus cavaleiros renegados durante a batalha contra Hades, o deus dos mares agia em prol de algo maior, mesmo que ela não compreendesse seus motivos ainda.
_Seu maluco... Me solta agora! – este grito veio do lado de fora do templo.
_Eu ficarei muito feliz em te soltar daqui a pouco, sua coisinha barulhenta! – a voz de Máscara da Morte disse.
_Me coloca no chão agora mesmo! – Kieve gritou.
Ao adentrar no templo, o cavaleiro de Câncer atendeu ao pedido da Musa da Comédia, e a jogou no chão dizendo:
_Pronto!
_Ai!
_Você queria ir para o chão, eu te coloquei no chão. Não reclama agora.
Shion deu um passo à frente e perguntou:
_Máscara da Morte, o que significa isso?
_Eu acabo de cumprir com a minha missão, Grande Mestre. Aqui está a Musa da Comédia – ele respondeu e viu que o templo estava bem cheio de deuses. – Tenho permissão para voltar à Casa de Câncer?
Antes que Shion pudesse dar uma resposta, Dionísio viu Kieve e gritou de empolgação:
_Tália! – correu para o abraço.
_Ei... Sai fora! Quem é você? – a Musa levantou-se do chão e escondeu-se atrás de Hermes.
_Sou eu, Dionísio! Não te lembras de mim?
Kieve olhou ao seu redor. Estranhando o lugar e todas aquelas presenças divinas, ela fechou os olhos e começou a pular como se quisesse sair dali:
_Acorda... Acorda logo, Kieve! Isso só pode ser mais um pesadelo... Eu preciso acordar agora mesmo!
Apolo lembrou a Dionísio:
_Ela não se lembra de nada, meu irmão.
_A minha Musa favorita não se lembra de mim? Não creio!
Athena se aproximou de Kieve:
_Está tudo bem. Não é um pesadelo e nós não queremos o teu mal.
_Não é? – ela abriu os olhos. – Então por que você ainda está aqui? – fechou os olhos de novo. – Eu preciso acordar, eu preciso acordar!
Máscara da Morte resolveu dar uma ajuda. Ele aproximou-se de Kieve e lhe deu um beliscão no braço.
_Percebe agora que você não está dormindo, coisinha? – perguntou e riu.
_Ai! Fica longe de mim, seu estúpido!
Shion lançou ao cavaleiro um olhar de repreensão ao canceriano, mas este pareceu não se importar e disse:
_Voltarei para Câncer agora.
_Ainda não.
Máscara da Morte deu um suspiro irritado. Em seguida, Shion disse:
_A sua missão não acabou.
_Como assim? Aqui está a Musa, não está?
O templo de Athena já tinha deuses demais. Sendo assim, Shion ordenou:
_A sua tarefa agora é protegê-la. Ela deve ficar com você, na Casa de Câncer.
_O que?!
_É isso mesmo que você ouviu.
Kieve percebeu que não estava mesmo num sonho. Ao ouvir a determinação do Grande Mestre, ela protestou:
_Eu não vou a lugar nenhum com esse cara aí! Primeiro ele quis me assaltar, depois ele me sequestrou, e agora...
Athena tentou acalmá-la:
_Ficará tudo bem.
_Olha, você parece ser boazinha, mas eu... Vou dar o fora daqui!
Kieve saiu correndo do templo. Shion olhou para Máscara da Morte e disse:
_Ela é sua responsabilidade.
_Grande Mestre... Eu já encontrei a coisinha fujona. Por que outro não fica com a missão de protegê-la? O Aldebaran está lá em Touro sem fazer nada, e o Shura...
Shion lhe dirigiu um olhar severo o interrompeu dizendo:
_Eu te dei uma ordem, Máscara da Morte.
O cavaleiro deixou o templo resmungando baixinho. Alguns segundos depois...
_Eu não vou a lugar nenhum com você, seu abusado! Ei... De novo não! Eu quero voltar para o chão! Me solta!
_Fique calada, coisinha barulhenta!
_Eu fico calada se eu quiser! Me solta!
As vozes dos dois foram se distanciando do templo, já que ambos se dirigiam à Casa de Câncer.
_A Tália ficará bem? – perguntou a deusa Afrodite.
Dionísio sorriu e respondeu:
_Se eu bem a conheço, digo que ela ficará. O mesmo não posso dizer do cavaleiro de ouro.
Oi!
Aqui está a última Musa! A Kieve é bem moleca, não acham? E foi a primeira a chegar ao Santuário. :)
No próximo capítulo...
Retornaremos à Buenos Aires, Camberra e chegaremos à Brasília. Até mais!
