- Nós transamos, pelas minhas contas, oito vezes desde que viemos para cá... – Começou lentamente, como se ele mesmo estivesse tentando raciocinar o que falava – A possibilidade de você estar grávida é muito alta.

Eu arregalei os olhos, chocada.

Não tinha como, quero dizer, tinha como sim, mas eu me recuso acreditar que eu realmente esteja grávida. Isso soa tão surreal pra mim. Sempre pensei que não me casaria tão fácil, imagina engravidar, então! Sempre que me imaginava casada com um homem muito distinto, a gravidez demorava bastante.

É óbvio que sempre foi um sonho meu, mas não nesse ponto. De certa forma, nunca me imaginei grávida. Sempre gostei da idéia, mas nunca a apliquei em minha vida. Te confesso que minhas pernas começaram a tremer e meu corpo se enrijeceu.

- James – Respirei fundo – Essa é uma brincadeira de péssimo gosto na nossa atual situação.

O observei por um tempo enquanto ele me encarava com um olhar distante. Ele estava sentado no meio da cama, apenas com o lençol branco tampando poucas partes de seu corpo. James estava muito quieto, muito pensativo... o que é incomum quando se fala dele!

Ouvi o vento forte bater na janela. Parecia que uma tempestade cairia daqui a pouco. Logo depois desse meu pensamento, eu ouvi alguns trovões. Se você for associar essa tempestade a situação aqui no quarto, só falta cair alguns raios.

Estou esperando os raios que James me lançará. Será que a culpa foi minha, por ser tão irresponsável? Será que ele acha que a culpa foi minha? E se ele resolver me abandonar nessa situação? Será que Charlie Potter ainda mandaria me matar se soubesse que eu estava esperando um bebê?

E se...?

As poucas velas do quarto se apagaram, deixando um lugar escuro e silencioso. Não havia mais aquelas sombras das velas que dançavam e não dava para ver a expressão do rosto de James. O que eu vi foi muito pouco, o que me deixou apreensiva e um tanto quanto culpada. Será realmente que ele acha que eu planejei isso tudo só para ser uma garantia de que ele não me deixaria?

Não sabia. Ele estava quieto. Não emitia um som, não se movimentava, nem ajeitava os seus óculos, o que ele tem mania de fazer quando começa a pensar longe. Eu ainda estava deitada na cama, enrolada em um lençol branco. Outros trovões e um raio, entrando um brilho azulado no quarto do chalé.

James estava sério, muito sério. Parecia que estava calculando todos os seus pensamentos e sua expressão era de dureza. Sua mandíbula estava tensa, sob uma força exagerada para se manter fechada. Seus olhos ainda estavam distantes. Aqueles olhos castanhos-esverdeados possuíam um brilho inexplicável, uma espécie de mistério que me deixou mais apreensiva do que eu já estava.

- James? – Chamei, me sentindo completamente insegura. Minha voz soou muito estranha naquele lugar tão silencioso. Meu nervosismo estava me deixando rouca.

Ele levantou o olhar para mim, que o observava atentamente em busca de um sinal de segurança que não veio. Ele percebeu que eu estava analisando-o e fechou os olhos com um suspiro exausto. James coçou seus olhos por alguns segundos e logo os abriu.

- O que foi? – Perguntou friamente. Um arrepio de medo subiu pela minha espinha, isso não era típico dele. Pelo menos o que eu achava que não era típico, pois eu só o conhecia há alguns dias! Mas esses alguns dias foram tão reveladores...

Eu mordi meu lábio inferior com uma insegurança dominante. Ele estava sendo frio comigo, não estava importando que eu poderia estar grávida. Nem mesmo se importou de me perguntar se eu estava bem ou alguma coisa do tipo que a gente sempre lê em livros de romances. Os homens são pegos de surpresa pela gravidez da mulher amada e ele ficam eufóricos, beijando a barriga delas, cantando para o bebê ainda dentro do corpo da mulher e tudo mais.

Não é essa reação fria que eu esperava. Óbvio também que eu não estava esperando que ele ficasse feliz, eufórico, mas eu também não estava preparando para uma onde de frieza assim, de repente. Que puta duma instabilidade emocional. Não sei se minha ou dele, só sei que estou variando entre alguns limites de minha mente.

Me sinto... rejeitada. Com um furo certeiro em meu coração.

- Você está bem? – Perguntei ainda insegura. Era como se desse um passo no escuro.

Ele me lançou um olhar cortante.

- Ótimo – Respondeu duramente.

Ele respondeu apenas isso. Só.

Me encolhi diante dessa resposta e senti um frio em meu estômago, parecia que o mesmo estava descendo escadas, pulando. Borboletas no estômago, igual eu li em um livro.

Sem pensar direito, e com as mãos e as pernas trêmulas o suficiente para me deixar pior do que eu já estava, eu puxei o lençol branco que eu estava enrolada e me levantei da cama. Compreenda minha situação, eu não sabia o que estava fazendo, tudo estava uma confusão só! Eu só queria me mover, me mexer dali, fazer alguma coisa andar.

Quando eu me levantei, James me observou atento e um tanto quanto agitado. Eu estava procurando minhas roupas para vesti-las, mas eu não sabia pra quê. A angústia me dominava, eu precisava fazer alguma coisa que me deixasse em movimento. Isso aliviava minha frustração.

- O que está fazendo? – Perguntou rouco. Eu não quis olhar pra ele. Minha face estava toda borrada de lágrimas que desciam silenciosamente.

Eu funguei algumas vezes antes de responder. Eu precisava preparar minha voz para que não saísse trêmula ou com voz de choro, o que eu falhei totalmente. Fiquei com voz de nariz entupido e choro.

- Me vestindo – Respondi, tentando buscar alguma força dentro de mim que me deixasse mais segura, o que foi em vão.

Eu não achava minha calcinha, nem nada de minhas roupas. Então fiquei em pé no meio do quarto escuro, de costas para James. Passei minha mão pelo meu rosto, limpando as lágrimas e suspirei, tentando pensar racionalmente. Não tinha como pensar racionalmente quando eu sentia o olhar de James em minhas costas.

- Porquê que você está se vestindo? – Perguntou com a voz baixa – Vai para algum lugar?

Não quis me virar. Eu sabia que iria me deparar com os olhos castanho-esverdeados dele, o que me enfraqueceria mais do que eu já estava.

- Não – Respondi com a voz trêmula. Minha garganta estava em um formato de nó, sendo o mesmo bastante apertado para fazer qualquer coisa, para emitir qualquer som. Soltei um pigarro, tentando desfazer o nó. Mas não surtiu efeito.

Eu simplesmente não falar normalmente. E parecia que James também não.

Eu não sei quantos minutos eu fiquei em pé no meio do quarto, de costas para ele. Não havia o que falar ali, ou pelo menos não conseguíamos falar. Não sei o que James estava pensando de mim, pensando se eu poderia ter feito aquilo de propósito para que ele não tivesse escolha senão me acompanhar para me salvar de seu primo e de minha mãe. Não sei se ele pensou que eu estava fingindo ingenuidade quando ele anunciou que eu possivelmente estava grávida. Esse possivelmente é quase uma certeza.

Reconheço o conhecimento de mundo que James tinha. Ele havia estado em praticamente todos os lugares que eu poderia imaginar! É óbvio que ele sabia como o corpo feminino funcionava, todo homem tem que saber isso para que a mulher não dê o famoso golpe da barriga. Mesmo assim, minha ingenuidade e inexperiência são fatos. Não tinha como ele me questionar esse tipo de coisa. O que eu estava preocupada, uma das coisas que eu estava doente de preocupação, era se houvesse a possibilidade dele me abandonar, estando sozinha no mundo.

Sozinha.

Tentando pensar racionalmente pela décima vez, eu resolvi o que faria.

- Vamos pelos fatos – Comecei, ainda de costas – Nós transamos muitas vezes, estou em um período fértil. Ok. A possibilidade de eu estar grávida é praticamente certa. Então, o que você pensa disso?

Não vi a reação dele, sei que ele fez um movimento na cama mas não chegou se levantar. Acho que ele estava puxando um lençol. O vento batia com violência na janela e o tempo começava a esfriar. Senti um arrepio de frio subindo a minha espinha, o que me fez ficar trêmula de novo.

- Acho melhor, primeiramente, você deitar aqui comigo e se embrulhar – Respondeu lentamente, ainda com a voz rouca. Ele não estava com muito indício de carinho, mas eu tenho que admitir que isso me deixou feliz. Aquela chama dentro do meu coração, por mais apagada que ela estava, começou a queimar de novo.

Eu virei para ele, notando uma expressão apreensiva em suas feições. Ele pegou um cobertor e fez um ninho do lado dele. Eu caminhava em direção a cama, mas tentava pensar no que aquilo significava.

- Deite aqui, tem um cobertor – Murmurou enquanto arrumava para que eu me deitasse ao lado dele.

Olhei para a quantidade de pano que havia ali e aquela esperançazinha começou a crescer em mim. Não tive como parar aquilo, é totalmente involuntário. Será se ele ainda me queria?

Me deitei do lado dele enquanto James me cobria com um cobertor pesado. A tempestade do lado de fora caía com toda intensidade possível. Muitas vezes ouvimos raios caindo por perto, o que me fazia encolher toda hora que ouvia o barulho. Nisso, James ainda tentava me cobrir com tudo quanto é tipo de cobertor e lençóis que haviam ali na cama.

- Está bom, já não sinto frio – Murmurei desanimada, evitando olhar em seus olhos. Deixei meus olhos vagarem pelos cobertores que eu estava embrulhada. James estava apenas com dois lençóis brancos, parecia não sentir frio.

Ele parou de colocar o cobertor mais para cima de mim. Eu sentia seu olhar em meu rosto, esperando que eu olhasse para ele. Não quis. Não sabia o que eu sentia, apenas uma confusão e um turbilhão de pensamentos e sentimentos. Me foquei na sua mão, que estava inquieta, próxima à minha. Parecia que ele queria pegar em minha mão, mas não tinha coragem. Ou pelo menos foi isso que eu pensei na hora. Vai saber, né.

- Olhe para mim – Pediu em um sussurro – Quero ver seus olhos verdes tão aterrorizados.

Automaticamente, eu olhei para ele. James estava bem próximo de mim, nossos narizes se tocavam. Ele olhava dentro de meus olhos, aprofundando o contato que estávamos tendo. James estava analisando o meu terror. Sua mão tocou meu rosto levemente, me acariciando de forma delicada.

- Você não está pensando que eu fiz isso por querer, ou está? – Perguntei com a voz trêmula, um tanto quanto insegura – Que eu quero dar um golpe da barriga, não é?

James sorriu tristemente.

- Não vou mentir – Meu estômago caiu de um edifício de dez andares e o nó na minha garganta voltou a se formar, mais forte do que já estava. Seus olhos continuavam calmos, porém tristes. – Isso passou por minha mente quando descobrimos a irresponsabilidade que fizemos. Mas então eu resolvi pensar. Você é tão jovem, tão inexperiente, tão ingênua, como você poderia ficar sabendo de um sistema desses? Como você poderia se proteger sendo que é a primeira vez que chega tão perto de um homem? Estou acostumado com mulheres mais velhas, mais experientes, que sabem evitar isso. Apenas me deixei levar.

Eu mordi meu lábio inferior novamente.

- Então... você não prefere a companhia dessas mulheres? – Perguntou irracionalmente, tentando ainda organizar meus pensamentos e sentimentos. Eu estava uma confusão.

Ele beijou minha testa com um sorriso discreto.

- Não falei isso, sua ciumentazinha – Respondeu divertido, o que me fez sentir segura novamente, com aquele raiozinho de esperança crescendo mais e mais e mais e mais e mais e mais! – Só falei que eu deveria ter agido com mais cautela. Você age, você tem a mentalidade de uma mulher madura e muito experiente, o que me faz esquecer que você é novinha, inexperiente... praticamente, um bebê. Mas um bebê muito sexy, diga-se de passagem.

Eu sorri pela primeira vez desde que ele comentou o negócio da gravidez. James sabia como descontrair uma situação complicada como essa, ele sabia levar a situação, sendo uma das coisas que eu mais admirava nele. Meus olhos voltaram a sorrir, o que fez, automaticamente, os dele sorrir também. Mas ainda havia aquela ruga de preocupação entre suas sobrancelhas, que, definitivamente, me chamava a atenção de que ele estava extremamente tenso.

- Hum, papai – Respondi divertida, tentando deixar a situação mais leve.

Ele alargou o sorriso e me beijou carinhosamente. Coloquei minha mão em sua nuca e a outra em seu cabelo, puxando-o de vez quando, à medida que o beijo ia se intensificando. Uma de suas mãos estava na minha cintura, debaixo das cobertas, e a outra estava em meu rosto, postada delicadamente em minha bochecha.

Quando nos separamos, sorrimos um para o outro.

- Então, meu bebê – Falou carinhosamente em meu ouvido – Eu assumo total responsabilidade em sua gravidez. Para falar a verdade, sempre tive o sonho de ter um filho para que eu o ensinasse a jogar futebol e rugby.

Sorri satisfeita. A sensação de ser bem recebida com uma gravidez é perfeita. Nem tenho como descrever a sensação de sentir que o filho de James Potter estava em meu corpo. Eu ia gerá-lo. Senti um arrepio, deixando minhas pernas trêmulas, só de que dessa vez, de felicidade.

- Mas então, você não pensa que eu deveria abortar ou alguma coisa do tipo? – Perguntei, deixando transparecer uma certa insegurança. Óbvio que isso ficou em minha mente por todo decorrer da história, mas eu tinha que perguntá-lo. Eu tinha que ter certeza que não estava sendo iludida para que ele resolvesse que eu deveria abortar na calada da noite, ou sei lá o quê que um homem faz quando não quer ter um filho.

James me olhou estranhamente e se sentiu ofendido logo depoiis.

- Mas é claro que não! – Respondeu com a voz alta, o que me fez sorrir. Essa reação um pouco eufórica demais é um ponto positivo. James só faz bagunça quando é involuntário. – Mesmo se eu não quisesse ter um filho com você, o que é impossível, eu não faria você correr esse risco. Isso afetaria muito sua saúde, é perigoso, meu bebê. Não poderia correr esse risco.

Meu sorriso se alargou.

- Ok, então temos que planejar direitinho o que vai acontecer – Comentei pensativamente, pensando em Sirius Black e Remo Lupin que poderiam chegar a qualquer hora, afinal, já havia anoitecido. – Temos que saber como vamos nos livrar de minha mãe e seu primo.

Ele arqueeou suas sobrancelhas com um certo ar de que eu falei uma besteira sem nexo. Ou um nexo sem besteira. Ou algo parecido, como diz minha excêntrica mente.

- 'Nós'? Nós, quem? – Repetiu apreensivo – Não vou deixá-la participar de um assassinato. Não com a possibilidade de que você está esperando um filho meu. Seria total irresponsabilidade minha se eu deixasse você no meio do plano.

Fiquei surpresa, mas também deliciada com o fato de que tenho um protetor leal, em que minha saúde estava em primeiro lugar do que qualquer coisa. Fiquei extremamente feliz e me imaginei com um barrigão enorme e James o beijando. Ok, eu acabei de divagar a situação, mas não tive como me conter. Simplesmente, é bom demais pra ser verdade.

Espera, de onde surgiu essa mocinha romântica e encantada? Alguém troca de personagem, pois Lily Evans acabou de sumir! Ou, quem sabe, ela acabou de aparecer, a sua real personalidade. Devo admitir que sempre quis reprimir essa minha face, mas com um James tão carinhoso cuidando de mim, é basicamente impossível!

- Fico sentida, pois adoraria planejar a morte deles – Comentei sonhadora, o que o fez arquear as sobrancelhas novamente, com um pé atrás – É, para nos deixar em paz e tudo mais. Para vivermos nossas vidas.

Ele sorriu divertido.

- Te amo, meu bebê – Sussurrou olhando em meus olhos.

Eu sorri.

- Eu também, papai – Respondi divertida e ele riu levemente.

Logo depois, estávamos nos beijando carinhosamente. Nisso, o que me fez ficar sentida foi quando eu senti a mão de James passando lentamente por minha barriga. Seu olhar estava distante e seu sorriso se alargava cada vez mais. Percebi no que ele estava pensando e sorri, me perguntando se tudo isso poderia dar certo.

Nesse exato momento, ouvimos um alguém gritar do lado de fora, na tempestade.

- James Potter, seu veado! Eu estou batendo nessa porta há mais de meia hora! – Gritou uma voz grossa, de homem.

James soltou um sorriso descontraído, como se reconhecesse quem é.

- Sirius! – Respondeu minha pergunta que nem havia sido pronunciada.

Enquanto James saía do quarto com um sorriso bobo no rosto, eu estava sentada na cama. Será se tudo isso realmente está acontecendo? Será se eu tenho sorte o suficiente para isso continuar? Será se eu posso ser, realmente, feliz?

Eu quero ser feliz. Não importe quantas pessoas que eu tenho que planejar a morte.