XI

"Tenha paciência com ele, Saga..."

A voz reticente e nervosa de Atena ecoava em sua mente enquanto ele quase corria pelos becos da periferia de Atenas, uma zona de baixo meretrício onde sentia que seu irmão fora se enfiar.

Paciência, ela dizia, todos diziam. Como se ele nunca tivesse tido paciência com Kanon em toda sua vida.

Ele simplesmente não conseguia entender como as coisas podiam estar dando tão errado.

Sabia que seu irmão estava ali. Não era a sensação surda e disforme que povoava seus pesadelos – os que o alertaram para o que vivia o irmão sob o jugo do Deus dos Mares, aquele maldito. Sobre a terra firme, longe do escudo que era o mar e o cosmo do Reino Marinho, Saga sentia com clareza que seu irmão estava ali, precisamente ali, no meio de boêmios, vagabundos e prostitutas enquanto enchia a cara de bebida.

Entrou no bar, trombando-se com homens que se beijavam e se desfazendo de mãos intrusivas que tentavam puxá-lo. Não conseguia segurar a própria raiva enquanto pisava duro em direção ao banheiro, empurrando a porta com um estrondo para puxar seu irmão. Que estava de joelhos na frente de outro homem.

- Que é isso, cara – O homem, quase tão bêbado quanto seu gêmeo, avançava em sua direção para cobrar explicações. – Que merda é essa de interromper o meu boq-

- Some daqui, senão eu não respondo por mim. – Saga reluziu seu cosmo de leve, o suficiente para que o homem saísse apressadamente banheiro afora.

Um homem mais velho, barbado, uma cópia mal feita e barata do que seria uma versão 'humana' do Deus dos Mares.

Paciência, eles lhe pediam, depois de tudo que ele arriscara para livrar seu irmão do que ele e Atena julgavam ser um suplício.

A risada mole de Kanon, largado no chão e intoxicado demais para seu próprio bem, o tirava do sério tanto quanto a percebida semelhança existente entre Poseidon e aquele pobre diabo que seu irmão escolhera para fazer o que fazia ali, no banheiro daquele pardieiro.

E já que ele precisou se atacar até aquele fim de mundo, ele não via por que seguir segurando sua indignação.

- O que você está pensando, hein? – Agarrou o irmão pelos cabelos, forte o suficiente até que a dor o fizesse parar de rir. – O que diabos você acha que está fazendo com a sua vida?!

- Credo, Saga, me solta, para com isso... – Kanon cambaleou para longe de seu agarre e terminou apoiado na pia do banheiro, a ponto de ceder sob o peso do seu corpo. – D'jabo é que cê deu pra se meter nas minhas coisas...

- Você acha CERTO estar aqui, fazendo o que estava fazendo com um desconhecido?!

- Sexo, Saga, o que eu tava fazendo era sexo. – A voz de Kanon estava tão engrolada que Saga mal o entendia. – Todo mundo faz o tempo todo.

- Nós não. – Saga vociferou baixo, tremendo de raiva. –Nós não fazemos sexo. Nós nos guardamos em honra à Deusa...

- Que mentira... Você já trepou sim, só não se lembra. – Kanon ria pelo nariz, quase caindo ao tentar se virar na sua direção, ainda agarrado ao balcão da pia. – Grande Mestre do Santuário, n'éra? Comeu muita gente, que eu sei...

- Não era culpa minha. – Saga disse, entre os dentes, a vergonha de saber que seu irmão tinha razão alimentando sua raiva. Porque sim, era verdade que ele se entregara várias vezes aos prazeres carnais quando possuído por sua contraparte maligna. E o não lembrar-se não lhe era nenhum motivo de alívio. – E se eu pudesse voltar atrás... Eu jamais teria feito isso, deixar que minha fraqueza maculasse meus votos.

A resposta de Kanon foi rir. Rir, até que começasse a tossir e enjoar, virando-se desajeitadamente para cuspir na pia onde se sustentava.

Saga arrancou em direção ao irmão para agarrá-lo de novo pelos cabelos.

- Diga o que quiser, desgraçado, mas nós somos santos. Santos, ouviu bem? E já passou da hora de você se portar como um, maldito!

- Você é que é santo. – O hálito de Kanon era álcool puro. - Eu nunca fui...

- O que você é, então? – Saga sibilou; o rosto próximo do irmão que, a despeito do agarre do mais velho, pouco resistia e continuava rindo como um paspalho. – Um "general" de Poseidon? – O tom de ironia na palavra 'general' foi inevitável, ele sabia que o irmão perceberia a indireta mesmo bêbado como estava. – Eu sei o que ele fazia com você, o que vocês faziam, pensa que eu não sei? É isso que você é? É esse o valor que você se dá?

Kanon parou de rir, baixou os olhos encarando o nada.

Desde que seu irmão acordou eles mal se falavam; e absolutamente nada foi dito sobre o tempo em que Kanon usara Nibelungo: Conhecendo-o, intuiu que ele rechaçaria suas tentativas de cuidado da mesma forma que fez ao acordar; e provavelmente faria muito pior de que rechaça-lo se descobrisse que ele sabia do real teor de seu serviço para o Rei dos Mares. Por isso Saga optou por não falar do assunto. Kanon não demonstraria fraqueza, Saga lhe daria seu espaço e em algum tempo as coisas se restituiriam à normalidade – ou o distanciamento ressentido que eles sempre chamaram de normalidade.

Mas Kanon não estava se comportando como se 'nada tivesse acontecido'. Kanon estava se comportando pior que o costume – o que não seria uma novidade, não estivesse o mau comportamento de Kanon endereçado a si mesmo numa espiral destrutiva que Saga até então nunca tinha visto no irmão. Irresponsabilidade especialmente com ele e Atena, os que tanto lutaram para coloca-lo são e salvo. Até mais do que isso, talvez uma desfeita deliberada, Kanon lhe fazendo desfeitas era algo muito familiar. Por isso ele bem que estava pronto a jogar na cara de seu irmão, que há minutos atrás parecia bem disposto a ter o membro de um desconhecido em sua boca por sua muito livre e espontânea vontade, que ele não tocou nenhum dos corpos que tocou em posse de sua perfeita consciência.

- Puta que me pariu, Saga, mas como que cê não se cansa de encher a porra do meu saco… Esse escarcéu todo é porque ele me comia, é? Aí agora cê quer um prêmio porque você me "salvou"? Quer o quê, uma medalha? O Grande Saga, salvador dos fracos e oprimidos?

Mais risadas, Saga estava atônito.

- E daí que ele me comia? Hã? – Kanon torceu a boca. – E daí que ele me comia? Pelo menos ele tinha a decência de me fazer gozar, não ficava só se roçando nas minhas coxas nem me batendo se eu ficasse duro!

- O quê? - Saga murmurou, lívido.

- Ah, que foi, perdeu a memória? Vai falar que cê não lembra do que o nosso tão querido Mestre 'ensinava' pra gente? Porque naquela época você não fazia tanta questão assim de ser essa pureza toda que você alardeia tanto agora, não!

- Chega, Kanon! – Saga tremia de raiva. - Me tenha respeito, pelo menos uma vez vida!

- Respeito… - Kanon deixou a palavra escorregar pelos seus dentes e suas narinas aos borbotões, enquanto abafava uma gargalhada. - Porque certamente você parecia de muito respeito enquanto ele se esfregava em você e você ficava mansinho, mansinho, o bom aprendiz que você era. Quer dizer então que naquela época podia? Tava liberado? Porque tinha que ter 'respeito' pelo teu erastes? Era por isso que você deixava e me mandava ficar quieto?

- Eu te mandei calar essa boca! - Saga não conseguiu segurar o grito enquanto afundava as unhas nas palmas das mãos para que os olhos não se enchessem de lágrimas. – Eu não te tirei das mãos dele pra você se acabar no meio de um puteiro! Foi pra isso que eu me arrisquei no Reino Submarino? Sente tanta falta dessa indecência que é para cama dele que você quer voltar?

- Nem se eu quisesse, seu filho de uma puta! – Kanon vociferou em sua direção. – Eu não posso voltar e tudo isso graças a voc-

Saga interrompeu o irmão com um golpe em seu rosto que ele, no estado em que estava, não teria como bloquear.

Inconsciente, Kanon se chocou contra o chão num baque seco.

OOO

"Precisamos falar sobre o segundo Cavaleiro de Gêmeos, Princesa."

Foi assim que Shion começou aquela conversa. Onde ela sabia perfeitamente o que ele iria dizer: Que o comportamento de Kanon estava ultrapassando todas as definições existente no Santuário de Atena para 'inadequado'.

Ela esperava que Shion, polido como era, não fizesse alusões diretas aos inúmeros problemas que Kanon vinha trazendo para si próprio; expondo suas queixas sob camadas e mais camadas de eufemismos. Surprendeu-se, porém: Com olhos baixos e maxilar travado, o novamente Grande Mestre citou nominalmente os vários episódios de abuso de álcool e substâncias, a frequência em ambientes indignos no Baixo Meretrício de Atenas e, não satisfeito, disse com todas as letras o quão ofensivo lhe parecia o comportamento de um Santo que, ao invés de honrar seu celibato, se comportava como um pederasta promíscuo. A gota d'água havia sido há poucos dias, quando Saga atacou o irmão dentro de um bar (de péssima frequência, isso ela sabia) a ponto de Kanon precisar de atendimento médico. Não só pela força do golpe, mas também porque Kanon, no estado em que estava, não teria como defender-se. Uma falta grave de Saga, atacar quem não podia se defender, e a situação escalou a ponto de Shion precisar intervir.

Foi uma reunião a portas fechadas e Shion dizia o que dizia em voz baixa, quase aos sussurros; corado pela vergonha de dizer à sua Deusa que, apesar de ciente da falha de Saga, o Santo que ambos tanto se empenharam em proteger maculava sua pureza repetidas vezes ao entregar-se a homens desconhecidos e sequer fazia segredo disso.

Para a esmagadora maioria dos membros da Ordem, mais uma clara mostra do quanto Kanon não merecia as graças que recebera. Ele, que ao invés de aproveitar mais essa chance, curar suas feridas e seguir em frente, se portava como um indigno, se esforçava como nunca em destruir sua já tão manchada reputação.

Ninguém sabia o que realmente se passara com Kanon. Ninguém, exceto ela, Saga... E Shion.

Atena sabia que Shion, telepata habilidoso que era, fora capaz de ler na mente de Kanon o que lhe acontecera no reino submarino. Não teria como não saber, já que em meio àquele sofrimento excruciante as memórias e sensações daquela ignomínia se repetiam indefinidamente em seu subconsciente. Como não se lembrar do prazer em meio a tanta dor?

Foi por esse motivo que, em vez de sumariamente desterrá-lo da Ordem, Shion lhe chamara. Mesmo que nem ele entendesse o que havia de tão errado com o segundo Cavaleiro de Gêmeos.

A enfermaria próxima à Fonte não tinha muita coisa além de umas poucas camas num quarto de chão e paredes de pedra. Pouca iluminação, poucos confortos, pouco acolhimento no ambiente à sua volta. Parecia-lhe de certa forma triste que uma pessoa ferida, por mais que fosse um guerreiro, fosse levado àquele lugar tão árido, lúgubre até.

Tão diferente dos mimos e dos luxos com que ela foi criada.

E Kanon estava na cama do canto onde não havia tochas nem luzes acesa, o leito se fundia com as sombras da parede. Pedido dele próprio, isso ela até sabia; mas não deixava de ser triste vê-lo ali, sozinho naquela penumbra.

Aproximou-se e puxou uma cadeira para sentar ao lado da cama.

- Bom dia, Kanon. – Forçou-se um sorriso. – Tudo bem?

- Tudo bem.

- Está bem escuro aqui. Posso acender uma tocha para te ver melhor?

- ...Claro.

Com um piscar de olhos, o leito de Kanon foi iluminado pelas tochas acesas ao redor. A luz avermelhada do fogo tornou o ambiente ainda menos acolhedor.

Ele estava recostado na cabeceira elevada da cama, o corpo coberto pela túnica branca destinada aos enfermos que ali ficavam. A luz direta em seu rosto dava a impressão de que seus cabelos eram mais escuros que o habitual, ressaltando também uma sombra rala de barba. Sobretudo marcava também o inchaço e os hematomas no lado esquerdo de seu rosto, mesmo apesar de ele não olhá-la diretamente.

- Perdoe-me a má aparência, Princesa. – Ele disse, a voz mais suave do que ao saudá-la. - Eu não me asseei adequadamente para recebê-la.

- Imagine, Kanon. Eu quem lhe devo desculpas, pois estou interrompendo seu descanso...

Ele crispou os dedos, os olhos ainda fixos no nada.

- Algum problema? - Kanon apenas respondeu com um chacoalhar desajeitado de sua cabeça.

Respirou fundo, esperando que, com seu silêncio, ele se sentisse mais à vontade. Esperança vã: Ela tinha tido tempo de conviver com Kanon durante a batalha com as forças de Hades, e conhecia a propensão dele ao silêncio em relação a si próprio, mesmo que aos olhos de todos ele pudesse parecer extrovertido quando tentava convencer alguém de algo.

Era uma das coisas que ele e Saga tinham em comum.

Ela se aproximou para ajeitar delicadamente uma das mechas do cabelo desalinhado atrás da orelha de seu cavaleiro. Ainda assim ela percebia o quão desconfortável ele estava, o quanto ele lutava contra o instinto de apartar-se.

O toque não o fez recuar, mas destravou momentaneamente sua língua.

-...Eu agradeço sua delicadeza, Princesa. Em vir aqui falar comigo pessoalmente. Não era necessário, mas eu agradeço... – Ele engoliu em seco. – Eu prometo que, assim que possível, eu deixarei o Santuário.

- Eu não vim até aqui para te mandar embora, muito pelo contrário. – Ela meneou a cabeça. – Eu vim dizer, pessoalmente, que eu quero que você fique.

- Não. – Kanon balançou a cabeça. – Não posso, Princesa. Eu sei que meu comportamento foi inaceitável. – Crispou os dedos. – Suficiente para que eu seja desterrado da Ordem, sua Alteza sabe disso, todos sabem disso.

- O que, em seu comportamento, me é tão ofensivo a mim a ponto que seja desterrado?

Ele levantou os olhos, incrédulo.

- A senhorita não sabe...?

- Eu sou Atena, Kanon. – A menina, ainda uma menina, respondeu com um brilho de adulta nos olhos. – Deusa da Sabedoria, herdeira da Astúcia. Plenamente desperta em meus poderes... Então não há o que eu não saiba. Então que eu sei, Kanon. E ainda estou aqui, e te digo o que te digo porque sei.

- E o que uma Deusa Donzela, pura e casta, sabe sobre isto? – Ele apontou para si mesmo; era visível o esforço que ele fazia para que lágrimas não caíssem de seus olhos, sua boca torcida. – Você sabe sobre Sabedoria, sobre Justiça e Vitória. Não sobre isso.

- Kanon...

- Eu maculei meus votos, Princesa. Mais uma vez.

- Você não é o Santo de Gêmeos...

- Ainda assim sou seu Servidor.

- ...E quantos servidores meus tiveram relacionamentos dentro de seu Ofício? Quantos filhos de Cavaleiros eu acolhi aqui, em meu Santuário, e que foram treinados e cuidados por seus pais?

- Você está comparando os que formaram uma família ao que eu fiz, Princesa? – Mesmo com a voz embargada, Kanon ironizou. – Eu me deitei com desconhecidos; quase que inconsciente por estar intoxicado demais para reparar no que eu fazia. Vários, desde que...

- ...Eu não me ofendo com o que você fez, Kanon. – Ela respirou fundo, mantendo a serenidade mesmo com as provocações doloridas que recebia.

- Pois deveria. Deveria se ofender, deveria se injuriar. Deveria finalmente me abandonar à minha própria sorte...

- Eu não vou fazer isso, Kanon. Nunca. Pois eu não me arrependo das vezes em que te salvei. Não o queria morto em Sounion, não o queria morto no Reino Submarino...

- E por quê? O que você espera que eu faça que você ainda não percebeu que eu serei incapaz de fazer?

- Como assim?

- Eu… Nunca vou ser essa pessoa que vocês esperam que eu seja. Nunca, então… – Ele respirou fundo. – Você já arriscou demais tentando me salvar.

- A Trégua, você quer dizer?

Ali estava, ela chegara ao cerne da questão que o carcomia por dentro.

- A Trégua – Ele repetiu, a voz um pouco menos rouca, mais modulada. – Você arriscou a Trégua, algo que beneficia toda a Terra, a Humanidade contra a qual eu mesmo já atentei.

- Eu não podia te deixar à mercê de Nibelungo...

- Não havia perigo. – Kanon a cortou. – Meu Senh… - Fez uma pausa, passou saliva em sua garganta. - Poseidon prometeu pelas águas do Estige que ele não me usaria contra você.

- Nunca foi esse meu temor – Atena respondeu. – Você sabe disso.

Você sabe do que eu te salvei, era o que ela não disse porque sabia que ele tinha entendido. Kanon se manteve calado, os lábios apertados e a cabeça novamente baixa. A vergonha estampada em seu rosto.

Havia, entre eles, uma série de coisas não ditas - palavras que jamais sairiam dos lábios de Kanon, por mais que seu coração sangrasse.

Mas ela era Atena, portanto ela sabia.

Os deuses não amavam como os mortais. Quando se uniam entre si em laços carnais, quase sempre o faziam por dever ou por luxúria. O amor genuíno, esse em que duas pessoas se amam e se completam, era uma graça que todos os deuses - todos, sem exceção - invejavam, mas que não poderiam ter. Quandos deuses amavam, o mundo sofria; e o Destino acabava por privá-los de seus amores para que se lembrassem - de uma vez por todas - o porquê de serem eles imortais.

O amor romântico, ao contrário do que se crê, não é eterno: Mesmo que seja endereçado a uma só pessoa por toda a eternidade, ele se transmuta; porque a paixão não dura para sempre.

Eros. Philos. Ágape.

Ela, como Atena, sabia disso como ninguém. Pois sabia o que era abdicar de um amor por ser o que era.

Mas os Olimpianos, deuses imperfeitos como eram, não desistiam de tentar. E, se não podiam lidar com as complicações de amarem outros deuses… Voltavam suas atenções e seus afetos aos mortais. Assim, podiam viver suas paixões enquanto se esquivavam das consequências.

No típico egoísmo dos deuses olimpicos, acostumados a tomarem sem nada darem em troca, Poseidon tomou para si o mais próximo de um deus que um mortal poderia ser - A Segunda Estrela de Gêmeos. Uma alma partida, metade de outra, e que também já carregava em si a chaga indelével da rejeição de seu pai. Desejando-o, Poseidon usou Nibelungo para forçá-lo a viver uma mistura de prazer e servidão que mimetizava o amor; e certificou-se que ela fosse o mais fidedigna - e intensa - possível.

Quem não gosta de amar e ser amado? Quem não sente prazer quando o coração acelera, o corpo se eriça pelos beijos e abraços de quem se ama?

Migalhas, um arremedo de amor. Um arremedo de amor permeado por oceanos de violência, coerção, abuso; da negação mais pura de seu livre-arbítrio, a sua própria essência de existir, por um Deus que, por ser um Deus, se achava no direito de simplesmente estender sua mão e tomá-lo para si.

Mas quando foi que Kanon conheceu algo diferente? Ele, a Segunda Estrela, oculto de todos, vivendo nas sombras porque não era Saga?

Por isso, mesmo que Kanon entendesse que fora ofendido, a gravidade do que lhe foi feito, e todos à sua volta lhe repetirem incansavelmente o quanto ele deveria odiar Poseidon pelo que ele lhe fizera; ainda assim uma parte dele queria abandonar a si mesmo para ter essas migalhas de volta.

Kanon jamais diria isso em palavras. Nem a ela, nem a Saga, nem a ninguém. Mas ela sabia, e ele sabia que ela sabia.

- Não era você... Não era real. Você entende que não era real?

Ele mantinha os olhos fixos no nada, apenas acenou levemente em resposta. Sim, ele entendia, ela sabia que uma parte dele entendia. Mas o que Atena queria que ele entendesse era que ela estaria sempre ali, ao seu lado, e que agora as coisas finalmente poderiam ser diferentes. Que ele podia contar com ela, ele sempre teria nela um porto seguro para onde voltar.

Ela queria que ele soubesse que merecia mais, muito mais do que se destruir para ser o ventríloquo dos desejos de um olimpiano narcisista.

- Não tem nada para você lá...

- Não - Ele sussurrou, mais para si mesmo do que para ela. - Não tem nada para mim em lugar nenhum.

OOO