CAPÍTULO 11 - NARRADO POR DRACO MALFOY
Eu registrava muito superficialmente em meu cérebro as visões da nova cidade que seria meu lar durante um tempo. Tinha imaginado que ficaria em Toronto por pelo menos alguns anos, até que a poeira baixasse, mas com a mensagem que Potter tinha espalhado pela Inglaterra sobre nosso falso envolvimento amoroso, talvez eu e minha mãe pudéssemos retornar em alguns poucos meses para a Inglaterra. Ou até semanas. Nunca se sabe que tipo de pressão a comunidade bruxa seria capaz de fazer para inocentar o namorado e a sogra do Eleito.
"...minha retribuição foi ver o homem que eu amo ser tirado dos meus braços". – ele tinha dito, com tanta determinação que acharia crível se não soubesse que não era verdade. Eu entendia porque ele tinha feito aquilo, não era nenhum idiota.
Mas algo dentro de mim doía com a mentira.
Acho que existiam coisas sobre as quais não se deveria mentir. Amor era uma delas.
As ruas passavam velozes diante do meu rosto, enquanto eu estava, pela primeira vez, dentro de um carro, sentado entre minha mãe e uma janela, com uma grande mala atravessada sobre nossas pernas, visto que mesmo que a parte de trás do veículo trouxa fosse grande, não tinha comportado toda nossa bagagem.
Através do vidro escuro, eu via a cidade parcialmente adormecida, composta de grandes edifícios modernos e avenidas largas. Quando nos aproximamos de uma parte da cidade que misturava construções mais antigas com as contemporâneas, Hermione Granger voltou-se para nós.
- Aquele prédio ali é o Victoria College, onde vamos estudar.
Eu, minha mãe e Potter viramos nossas cabeças a tempo de enxergar uma construção em estilo gótico, que me lembrava vagamente uma versão diminuta de Hogwarts.
Seguimos no carro até um prédio alto, onde o taxista parou. Granger foi a primeira a saltar do veículo, seguida pelo resto de nós, que ajudávamos o motorista do táxi com as malas. Foi Potter quem pagou a ele, enquanto sua amiga novamente tomava a dianteira e tocava a campainha do prédio.
Fomos logo autorizados a entrar, e me vi no saguão de um edifício bonito, no qual um homem de meia idade parecia ter sido acordado de um cochilo com a nossa chegada. Hermione Granger foi logo mostrando a ele seus documentos, e uns papéis que, pelo que entendi, provavam que tínhamos alugado um apartamento ali. Não sei como ela e minha mãe tinham conseguido organizar aquilo em tão pouco tempo, estava impressionado.
- Desculpe a chegada a essa hora. – ela disse, com aquele ar animado que não deixava seu semblante desde que tínhamos pousado em Toronto. – Alugamos um apartamento aqui, a proprietária me disse que o senhor me daria a chave quando chegássemos...
Porque diabos aquela garota estava tão feliz?
Talvez fosse parte do disfarce dela, pra que todo mundo só se concentrasse na sua animação e não percebesse as duas criaturas estranhas àquele mundo trouxa que éramos eu e minha mãe.
- Tudo bem senhorita Thomas. – o homem não conseguiu não sorrir. – A sra. Lee é proprietária de vários imóveis neste edifício, ela me avisou do aluguel de um de seus apartamentos. Ela informou que os locatários chegariam de madrugada, por conta do horário do voo. Ontem à noite o apartamento foi limpo e organizado, e já está pronto para vocês.
O homem alcançou a chave pra ela.
- Muito obrigada. – Granger riu pra ele.
Nós subimos todos por um elevador amplo até o sétimo andar, abrindo a porta número 702 e encontrando um apartamento não muito grande, mas perfeitamente útil. Tinha uma cozinha americana, cheia de equipamentos trouxas que eu não tinha certeza da função. O cômodo misturava-se com a sala de jantar e de estar, em um conceito aberto. Na sala, havia uma pequena porta que dava para um lavabo e uma entrada para um corredor que levava a dois quartos, com camas de casal e banheiros privativos.
Esperei minha mãe seguir para um deles, para guardar as malas, e fui em seu encalço sem dizer nada.
Eu estava irritado, não queria continuar encarando Potter e Granger. Eu tinha chegado ao meu limite naquele dia. Estava incomodado com a perspectiva de ser visto com pena por Harry Potter, ser enxergado como um homem fraco, que não tinha conseguido suportar pouquíssimo tempo em Azkaban.
Estava mais incomodado ainda com as coisas que possivelmente tinham acontecido na realidade, como estar cantando pra ele no chão daquela prisão, ou olhar pra seu rosto dizendo que ele era um delírio. Coisas constrangedoras que eu tinha feito, enquanto Potter apenas fazia o favor de me salvar.
Depois, quando eu tinha visto aquele pedaço de pergaminho, quando minha mãe me informara que Harry Potter pedira a Weasley para espalhar aquilo, o constrangimento e a raiva tinham me assolado de um jeito ainda mais incisivo.
Potter, Granger, minha mãe e todos os outros. Eles tinham tomado aquela decisão sem mim, como se tivessem me fazendo um enorme favor.
Quando eu voltasse à Inglaterra, se eu voltasse, diga-se de passagem, teria que conviver com o fato de que eu seria, desse dia em diante, para toda a comunidade bruxa, o namoradinho do Eleito. Todos os olhos se voltariam pra mim. Seria questionado, a todo instante, se eu merecia, de fato, me relacionar com o salvador do nosso mundo. Todos os meus erros estariam estampados nas matérias do Profeta Diária, do Semanário das Bruxas e revistas de todo gênero.
E eu ainda deveria ser grato. Ele me salvara do meu pai. Me tirara de Azkaban. O incrível Harry Potter. Eu não podia ser qualquer outra coisa, senão extremamente agradecido. E eu odiava isso.
- Draco... – minha mãe falou meu nome, em tom sério, depois de fechar a porta.
- Não quero ouvir mais nada hoje. – eu a cortei, mais ríspido do que eu pretendia.
Ela arregalou um pouco os olhos, medindo minha reação. Eu não costumava usar esse tom com ela. Na verdade, acho que nunca tinha usado.
- Ok. – ela apontou. – Tire um tempo pra pensar. Mas, enquanto você se recupera, enquanto expurga sua mente desse veneno dos dementadores, não quero ouvi-lo ser cruel com Harry e Hermione. Não desconte a sua raiva em quem não merece.
- Ah sim, temos que ser gratos. – eu murmurei, sarcástico.
"Tenho que ser grato". Aquela era a frase do dia. Talvez fosse a do ano. Aliás, graças a Harry Potter, talvez aquela fosse a minha frase por muito tempo. Já me imaginava daqui a dois ou três anos, quando simulássemos, enfim, um término, e Potter fosse atrás de algum garoto de quem gostasse realmente. Eu ainda teria sorrir para uma jornalista qualquer e dizer que, apesar do relacionamento não ter dado certo, eu ainda era MUITO GRATO POR TUDO QUE HARRY POTTER FEZ POR MIM.
- Você não costuma ser orgulhoso assim. – minha mãe ponderou, e então, pareceu mudar de ideia. – Bom, é fato que Harry Potter sempre foi um caso à parte pra você. Esse garoto sempre despertou seu orgulho, levantou suas defesas, fez você ficar se protegendo. Talvez você deva se perguntar o porquê.
Não era mentira. Se meu pai não tinha conseguido incutir em mim o "orgulho Malfoy" em quase toda circunstância, Harry Potter sempre fora uma exceção. Eu sempre odiara parecer fraco e inferior diante dele, comparado a ele, aos olhos dele.
E agora eu era isso tudo, e continuaria sendo, graças a ele.
Não respondi minha mãe, deitando-me do lado esquerdo da cama, projetando-me para debaixo das cobertas. Aproveitei o fuso horário, os reflexos de Azkaban que ainda me esgotavam, e mergulhei nos meus pesadelos mais uma vez.
- / -
Em nossa primeira semana em Toronto, ficamos em casa boa parte do tempo, fazendo apenas alguns passeios meticulosamente controlados por Potter e Granger, para que nossa total falta de conhecimento do mundo trouxa não alertasse ninguém. Nossas aulas só começariam em alguns dias, então aquele primeiro momento foi, sobretudo, um "manual de sobrevivência no mundo trouxa sem um pingo de magia", com aulas ministradas, principalmente, por uma eficaz e rigorosa Hermione Granger.
No primeiro dia no apartamento em Toronto, todos nós acordamos um pouco tarde. Por volta das 11h, eu, minha mãe e Granger já estávamos na sala de estar, enquanto as duas conversavam, organizando uma espécie de cronograma de estudos.
- Em algum momento, teremos que ver essas adaptações e diferenças entre a literatura bruxa e a trouxa. – minha mãe apontou, enquanto tomava uma xícara de café, servido por Granger, que mexera nos equipamentos da cozinha e fizera surgir café de uma máquina. – Antes de começarmos a frequentar a Universidade.
- Sim, pensei nisso também. – Granger comentou. – Podemos fazer isso hoje à tarde.
Eu e minha mãe gostávamos muito de ler. E naquele último ano, sobretudo, que tínhamos passado trancados no meu quarto a maior parte do tempo, tínhamos nos dedicado muito àquela atividade. Se havia realmente muita adaptação entre a literatura trouxa e a bruxa, eu imaginava que uma tarde fosse mesmo o suficiente para que cobríssemos as diferenças e nos preparássemos para frequentar o tal curso de Literatura.
- Potter entende de literatura? – eu perguntei, lembrando-me da madrugada anterior, quando ele tinha questionado à Granger sobre a escolha do curso. Não parecia ser muito a praia dele. – Mesmo que ele conheça o mundo trouxa, não vai ser esquisito que ele tenha escolhido um curso de Literatura se não se interessa pelo tema?
- Sim, será estranho. – Granger concordou comigo. – Seria bom que ele passasse essa semana lendo algumas obras principais, algumas resenhas, artigos... enfim, se preparando até segunda-feira que vem, quando as aulas começam. Vou sugerir isso depois que ele acordar.
- E nós também teremos muito que aprender. – minha mãe me disse, nervosa. – A começar por essas coisas que tem na cozinha. Eu e Draco não temos condição de fritar um ovo aqui.
Eu e ela não tínhamos condição de fritar um ovo em lugar nenhum. A vida toda tínhamos sido servidos por Elfos Domésticos, e Terri tinha ficado na Inglaterra, pelo que eu tinha entendido, ajudando minha desconhecida prima Tonks e o professor Lupin com o bebê. Mas optei por não fazer nenhum comentário na frente de Granger e deixar minha mãe mais desconfortável.
- Porque não podemos usar magia? – eu quis saber. – Seria bem mais fácil.
- Não é que não possamos. Se for necessário, vamos usar. – Granger explicou. – Mas magia deixa rastros entre os trouxas, rastros que não são muito difíceis de um bruxo notar. Se formos flagrados confundindo um trouxa, se forem ouvidos ruídos estranhos do nosso apartamento devido a feitiços, se começarmos a encantar objetos trouxas, coisas desse tipo, podemos gerar desconfiança e logo sermos detectados pelas autoridades bruxas canadenses como um grupo de bruxos vivendo entre trouxas. Daí, é um passo para que alguém identifique Harry e se faça contato com o Ministério da Magia, em Londres.
Eu assenti com a cabeça, compreendendo o que ela dizia.
- Está certo. – eu concordei, retirando toda a possível animosidade da minha voz. Aquela garota estava nos ajudando sem nenhuma razão pra isso, afinal. – Se é assim, eu e minha mãe precisamos aprender a ser trouxas comuns, e rápido. Não é bom sermos lidos como esquisitos, como pessoas que não se adaptam bem à sociedade.
- Sim. – Granger apontou. – Mas fiquem calmos, tem razões para eu ter sugerido Toronto. É uma cidade muito cosmopolita, com diversidade cultural, gente de todos os lugares. Então acho que as pessoas serão mais indulgentes quanto a comportamentos que fogem a norma...
Naquele momento, no entanto, qualquer coisa que Granger dizia se embaralhou na minha cabeça. Harry Potter vinha do corredor, vestindo apenas uma calça jeans muito muito justa.
Seus cabelos estavam molhados, evidenciando que acabara de tomar banho. Eu quase podia sentir o cheiro e a textura da sua pele limpa, mesmo que ele estivesse há uns três ou quatro passos de distância do sofá onde eu estava sentado.
Seu corpo bem desenhado que eu já tinha visto em outras ocasiões evidenciava-se pra mim de um outro modo. Sem as preocupações e o pavor que eu sentia no casebre de meu pai, e, também, sem as reverberações de Azkaban na minha mente que eu tinha naquele banho no hotel trouxa, na Dinamarca; sobrava apenas uma espécie de desejo puro, límpido e inquestionável.
Peguei uma almofada rapidamente do sofá, colocando-a de forma nada discreta sobre minha ereção que já se formava. Merda.
Eu tentava desviar meus olhos dele, mas não conseguia. Seu abdome firme desnudo, seus braços não muito musculosos, mas bem desenhados, os ombros largos, a cintura evidenciando um encaixe perfeito para as minhas mãos. A calça extremamente baixa, deixando aparecer parte da cueca boxer azul marinho, o tecido do jeans apertando seu corpo, moldando-se nas coxas firmes.
Como se não bastasse, ele se virou levemente, permitindo-me ver o tecido acompanhar a curva da sua bunda perfeita, um pouco empinada. Não contive um barulho rouco, escapado da minha garganta, ao ser tomado pela lembrança nítida de me perder no corpo dele.
Vi de canto de olho minha mãe me olhar, com uma sobrancelha erguida, e Granger me oferecer uma espécie de sorriso astuto. Que porra, não estava conseguindo disfarçar nenhum pouco.
Mas Harry Potter não parecia se dar conta do que estava causando em mim. Ele tinha nas mãos o que parecia ser uma camiseta colorida, e olhava para sua amiga como quem queria explicações.
- Por que minha mala parece ter sido feita pra outra pessoa? – ele questionou, a confusão em seu rosto limpo, que agora sem maquiagem deixava exposta a famosa cicatriz na testa.
- Todas as nossas malas foram feitas pra outra pessoa. – Granger disse, com condescendência. – Foram feitas para David, Holly, Elen e Simon. Não é intenção refletir nosso estilo individual. Estamos disfarçados.
- Não é intenção refletir meu estilo individual? – Potter perguntou, com descrença. – Hermione, vamos lá, deve ter alguma outra razão pra isso.
E quando disse a palavra "isso", ele sacodiu a camiseta colorida, e a vestiu rapidamente, de modo que o tecido um pouquinho transparente e muito justo colou-se ao seu corpo.
Tentei cruzar as pernas. Parecia ainda pior com a camiseta.
- Harry, de todos nós, você é o rosto mais conhecido, digamos, internacionalmente. Mas, você é tido como um cara sério, derrotou Voldemort e tudo mais. – a menina explicou, calmamente. – Imaginamos que um guarda roupa mais alegre e delicado...
- Alegre e delicado? – a voz de Potter subiu um tom. – Eu sou quase uma bandeira LGBT ambulante.
- Talvez Tonks tenha exagerado na camiseta. – Granger ponderou, como se não pudesse deixar de concordar com o amigo. – Não sei se ela sabe a relação entre o arco íris e o movimento LGBT.
- O que é LGBT? – minha mãe perguntou, com curiosidade.
- LGBT é uma sigla, significa Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais. – a garota disse. – No mundo trouxa, eles formam um movimento que luta por direitos sociais, como o casamento civil, que ainda não é legalizado em todos os países. Mundialmente o símbolo do grupo é uma bandeira com as cores do arco íris.
Eu olhei pra Harry Potter, a calça jeans clara toda apertadinha, a blusa justa no corpo, marcando os braços, um pouco curta demais.
- Bom, você estaria parecendo gay mesmo que a camiseta não fosse de arco íris. – eu apontei, sincero.
- Draco! – minha mãe chamou minha atenção.
- O que? É verdade. – eu respondi, pragmático. – Se ele não se sente à vontade, não deve ser obrigado a se vestir assim.
"E além disso, eu gostaria de preservar minha sanidade", eu pensei comigo mesmo. Seriam muito difícil esses meses com Harry Potter usando essas calças. Eu tinha desejo por ele, não era mais possível negar.
- Tudo bem, eu só achei que ajudaria a proteger nossa localização. – respondeu Granger, sem se dar por vencida. – Harry se tornou mundialmente famoso entre os bruxos nas últimas semanas, mesmo que o Ministério não lance nenhum alarme de busca, que não peça aos trouxas para distribuir cartazes com nossos rostos, qualquer bruxo no mundo tem uma vaga ideia de como Harry se parece. A foto que foi divulgada dele, internacionalmente, mostra um homem cansado, exausto da batalha, um pouco sujo, com alguns ferimentos, e foi tirada de um ângulo que o fez parecer heroico e impassível...
Eu entendia aonde ela queria chegar. Era uma figura bem diferente do estereótipo protagonizado pelo garoto de blusa colorida na minha frente.
- Tudo bem, eu não me importo de as pessoas pensarem que sou homossexual, até porque não seria nenhuma mentira. – ele disse, dando de ombros, como se aquilo não fosse relevante. Granger não disse nada, mas sua expressão denunciava que era a primeira vez que o amigo assumia aquilo assim. – É só que... algumas dessas roupas são tão justas... parece que cada parte minha está exposta.
"De certa forma", eu pensei, apertando ainda mais a almofada contra meu órgão duro, que não parecia querer ficar acomodado dentro das minhas roupas.
- Você não precisa usar assim. – minha mãe disse, com bondade. – Quando for usar essa calça, pode combinar com uma camiseta mais comprida e simples. E a blusa do arco íris pode ser usada com uma calça menos justa, mais escura, com um outro corte.
- Eu não sei combinar roupas. – ele se sentou, inseguro, fazendo a calça apertar ainda mais suas pernas. – Passei metade da vida usando o uniforme de Hogwarts e a outra metade usando as roupas velhas que meu primo Duda não queria mais.
Granger tocou seu braço, em apoio.
- Posso ajuda-lo, Harry. – ela falou, sorrindo encorajadoramente. – Se te consola, mesmo que não seja seu estilo, está melhor assim do que com as roupas do Duda.
- Qualquer coisa é melhor do que as roupas do Duda. – Potter concordou com veemência. – Foi ficando cada vez mais difícil usar as roupas dele. Principalmente quando ele passou a ter mais largura do que altura.
Os dois riram brevemente.
- Porque você usava as roupas dele, Harry? – minha mãe perguntou, confusa. – A parte trouxa da sua família não tem boas condições financeiras?
- Ah, eles tem dinheiro o suficiente. – Potter falou, e pude ouvir um tom amargo em sua voz. – Só não achavam que vale a pena gastá-lo comigo.
- Você soube deles? Depois da guerra? – Granger perguntou a ele.
- Parece que voltaram para Little Whinging, os aurores os estão protegendo lá de possíveis ataques de comensais que ainda não foram presos. – apontou Potter. – Tonks me contou que disseram aos meus tios que eu tinha vencido Voldemort. Meu tio respondeu que eu finalmente fiz alguma coisa útil, para que ele pudesse voltar pro seu trabalho e retomar a vida sem a minha intromissão.
- Sua intromissão? Mas... mas são seus tios... – minha mãe parecia um pouco indignada.
Pessoalmente, eu também estava. Francamente, dizer que Harry Potter, depois de tudo o que ele tinha passado, que finalmente ele "tinha feito algo útil"?
- Bom, acho que me entende quando eu falo sobre péssimas relações de parentesco. – Potter ponderou, olhando pra minha mãe, seu rosto sorria com alguma cumplicidade.
- Sem dúvida. – minha mãe respondeu. Deveria estar pensando na irmã, Bellatrix, ou nos pais que a tinham vendido a Lucio Malfoy quando ela ainda era tão jovem.
Algum tempo depois, Potter voltou para seu quarto, que dividia com Granger, argumentando que iria trocar a camiseta. A garota, por sua vez, disse que iria sair para comprar almoço e convidou minha mãe para acompanha-la.
Quando Harry Potter voltou, eu já me encontrava sozinho na sala.
Passei a mão nervosamente na perna, sentindo-me estranho de estar sozinho com ele. A presença de minha mãe e Granger suavizavam os efeitos dos sentimentos conturbados que eu tinha por Potter.
- Espero que essas estratégias de disfarce de Hermione deem certo. – ele disse, inseguro, como quem puxava assunto.
Sentou-se no outro sofá, de frente pra mim, agora com uma blusa preta simples, levemente ajustada na cintura, com uma gola V, mas bem mais larguinha e um pouco mais comprida que a anterior.
- Não se preocupe. – eu disse, sem me conter. - Com essa calça, ninguém vai conseguir ficar muito tempo olhando pra sua testa, tentando verificar se você é ou não Harry Potter.
Ele ficou vermelho, mas não disse mais nada.
Aquela primeira semana se passou rapidamente, enquanto eu e minha mãe aprendíamos sobre a cultura trouxa, e exercitávamos nossas habilidades ao manusear os eletrodomésticos, bem como nossos celulares e computadores, mexendo no que os trouxas chamavam de Internet. Eu estava impressionando no quanto eles eram engenhosos e encontravam alternativas inteligentes para magia, estando, em alguns aspectos, até mesmo à nossa frente, em termos de conexão rápida uns com os outros e facilidades da denominada "tecnologia".
Na semana seguinte, começamos a assistir as aulas na Universidade de Toronto, uma universidade pública, situada na cidade que morávamos. Trata-se de uma universidade descentralizada, dividindo-se em doze faculdades distintas. Frequentávamos o campus chamado Victoria College, que reunia programas e cursos voltados para as artes, a História e a cultura. Era um lugar interessante, com todo tipo de gente, onde forma-se uma espécie de comunidade intelectual.
Nosso programa, Literatura e Teoria Crítica, incluía discussões sobre línguas modernas, literatura clássica, teoria política, filosofia, estudos feministas, e outros temas relativos a vários períodos históricos e culturas diferentes, em uma perspectiva multidisciplinar. O criticismo literário era uma das áreas de estudo mais notáveis da Universidade de Toronto.
Logo depois do primeiro dia de aula era possível ver como Granger e minha mãe estavam maravilhadas com o curso. Minha mãe parecia mais leve, mais feliz, tinha feito amizade com Granger e parecia gostar realmente tanto dela quanto de Potter. Eu me permiti ser feliz pela minha mãe, também. Ela merecia, principalmente depois de 18 anos pavorosos, trancada com Lúcio Malfoy naquela mansão.
