Capítulo 10
― É como tentar cancelar o Dia da Independência ou de Ação de Graças ― reclamou Harry enquanto andava de um lado para o outro do escritório. ― Nunca vi minha madrasta e minha tia tão determinadas. Elas estão decididas a fazer essa festa de noivado para a gente. A festa está marcada para sexta à noite, na véspera do Halloween.
― Então eu acho que é melhor a gente comparecer ― disse Gina.
Fazia pouco mais de duas semanas que Gina e Harry haviam anunciado seu falso noivado. No começo, Gina não percebera que a posição de noiva de Harry Potter exigiria uma considerável mudança de imagem de sua parte.
― Gina, você precisa vestir algo... Como posso dizer isto sem ferir seus sentimentos? OK, vou ser direta: algo menos desleixado para vir trabalhar ― anunciara Hermione no quinto dia do falso noivado.
― Não tem nada de errado com as minhas roupas de trabalho ― declarara Gina com franqueza semelhante. Desde o anúncio, ela começara inconscientemente a tratar Hermione mais como uma igual.
Gina já fizera uma concessão em sua aparência ― não usava mais a trança embutida que Harry odiava tanto. Mas não iria gastar seu dinheiro em novas roupas para usar no trabalho enquanto estivesse representando seu papel de noiva de um Potter, e ninguém iria convencê-la do contrário.
― Os meus ternos são bem-feitos ― acrescentara.
Hermione e Harry fitaram o terno bege e a blusa branca de Gina, depois entreolharam-se.
― Gina, os ternos que você usa para vir trabalhar estariam perfeitos se você tivesse 50 anos ― disse Hermione franzindo a testa. ― Não, não estou sendo justa com a minha mãe e com a tia Erica, que têm mais de 50 anos e nunca usariam um terno como os seus. Eles seriam perfeitos se você tivesse 65 anos e fosse uma freira.
Gina rira. A tendência de Hermione de exagerar a divertia.
― Tudo bem, concordo que as minhas roupas são sem graça, mas são de bom gosto e apropriadas para se usar no trabalho. Pergunte a Harry o que ele acha de assistentes que ficam correndo para lá e para cá de minissaias e blusas de frente única.
― Acho que Harry adoraria ver você correndo para lá e para cá de minissaia e blusa de frente única ― dissera Hermione maliciosamente. ― Que homem quer ver a noiva vestida como uma freira de 65 anos?
― Eu não sou noiva dele ― declarara Gina calmamente. ― Este noivado é só de mentirinha, lembra?
― Hermione tem razão. ― Harry pronunciara-se, surpreendendo Gina. ― Só tem cinco pessoas que sabem que este noivado não é real, então você tem que realmente encarnar a personagem e se vestir como minha noiva, Gina. E a minha noiva vestiria algo mais, ahn... ― Sua voz morrera e seu rosto ficara corado.
― Algo mais sexy!― gritara Hermione. ― Quem pode culpar Harry por querer que você se valorize ao máximo, Gina? Você tem um rosto lindo e um super corpo, embora faça de tudo para esconder. Agora chega! Vamos embora. Vamos fazer umas comprinhas.
― Não vamos não! ― declarara Gina. ― Eu não preciso de mais roupas, tenho um armário cheio.
― Acho que está na hora de fazer uma limpa nesse armário, Gina. ― Harry tirara diversos cartões de crédito da carteira e os entregara à irmã. ― E renová-lo. Hermione, leve-a para fazer compras.
― Uma ordem!― Hermione agarrara o braço de Gina, arrastando-a para fora do escritório. ― Quando o vice-presidente da Potter manda, nós compramos.
― Esta é a primeira vez que vejo você tão disposta a seguir ordens ― resmungara Gina, que acabara cedendo.
Enquanto sentava na cadeira de Harry nesta tarde, observando-o e ouvindo-o descarregar sua irritação com a tal festa de noivado, Gina olhou para seu novo terninho verde musgo, que era uma das roupas mais caras e bonitas que já tivera. As outras duas também tinham sido cortesia dos cartões de crédito de Harry e do gosto de Hermione. Todas as três tinham estilos parecidos, com a parte de cima justa na cintura e saia reta e curta, o tipo de terninhos que ela vira em catálogos, usados por modelos de pernas compridas que nunca haviam estado perto de um escritório.
Embora Hermione insistisse para que ela os comprasse, Gina temera que os ternos fossem impróprios para uma funcionária.
Mas Harry fora todo elogios e entusiasmo, e até a encorajara a comprar mais! Gina rapidamente recusara a oferta de mais uma farra de compras. Ainda estava tentando se perdoar por ter aceitado a primeira.
Harry tinha padrões diferentes para suas funcionárias e para sua noiva ― mesmo que ela fosse falsa. E não se importava de pagar para alcançar esses padrões.
Ele parou de andar de um lado para outro e virou-se para Gina.
― Você parece bastante otimista a respeito dessa festa ― disse ele.
― Provavelmente porque ainda faltam dez dias e ela não parece real ― confessou Gina. ― Não consigo me imaginar numa festa na mansão Potter.
― A mansão Potter ― repetiu Harry. ― Nunca penso nela nesses termos.
― Todo mundo que não faz parte da família pensa ― garantiu-lhe Gina. ― É um ponto de referência em Minneapolis, pelo tamanho e pelo luxo. As pessoas dizem coisas como "Bom, esta casa é boa, mas comparada com a mansão Potter, é um barraco". Eu ouço falar na mansão Potter há anos. Parte de mim está ansiosa para conhecê-la ― admitiu timidamente.
― Você já poderia ter conhecido. Eu convidei você para ir lá nas duas últimas semanas e você recusou. ― Harry franziu a testa, ainda descontente com as recusas. Gina declarara veementemente que não podia fazer o papel de sua noiva aos sábados e domingos, e nada a faria mudar de idéia.
Até mesmo Bárbara e Erica, determinadas a dar aquela festa, submeteram-se à vontade de Gina com respeito à data. Elas queriam marcar o evento para o dia de Halloween, que caía num sábado. Quando Gina disse que qualquer sábado era inaceitável, sua expressão era de tamanha determinação que a madrasta e a tia de Harry, acostumadas a lidar com pessoas obstinadas e sabendo quando negociar um ponto, imediatamente transferiram a festa para a noite de sexta.
Harry achou impressionante que, embora tivesse reclamado continuamente sobre a festa, as duas ignoraram completamente a sua resolução e determinação de não fazer a festa e ponto.
― Nós entendemos que você seja introvertido, Harry, mas esta festa tem que acontecer ― dissera a tia, ignorando seus protestos como se ele fosse um adolescente.
― Nós queremos que todo mundo, incluindo Gina, saiba que ela é aceita pela família ― declarara sua madrasta. ― É importante que a gente interfira e preencha a lacuna já que a pobrezinha é órfã. Alvonos contou sobre a morte trágica dos pais dela.
Alvonão lhes contara mais nada sobre Gina, mas a informação sobre sua orfandade mobilizara a família. A imagem da Pequena Órfã Gina ganhando os bondosos Potter como família substituta agradava a todos eles... com a óbvia exceção da mãe de Harry. Lilian ainda estava lamentando as chances perdidas de Harry de agarrar uma herdeira. O fato de que nenhuma filha de um bilionário podre de rico tivesse aparecido ainda não importava; Lilian estava convencida de que ela estava em algum lugar, pronta e disponível para dividir sua fortuna.
― Eu não estou livre aos sábados e domingos, Harry. ― Gina interrompeu-lhe o devaneio com a mesma resposta que dera quando ele a convidara para andar de barco.
― Por que não? ― pressionou Harry.
― Não posso contar ― respondeu Gina.
Harry foi tomado por uma forte frustração. O que havia de tão sagrado nos sábados e domingos? O que ela fazia, aonde ia e por que classificava esses fatos como informações confidenciais?
Ele agarrou-se à sua irritação e frustração e imaginou o que Gina fazia em seus tão preciosos fins de semana. Será que estava se encontrando com outro homem? Um homem cuja posição na vida dela era autêntica, não uma farsa? Que não precisava pagá-la por seu tempo e sua companhia?
Aqueles pensamentos eram tão desagradáveis que Harry imediatamente os bloqueou. Recusava-se a ficar remoendo sobre ela e um fantasma.
Enfiou as mãos no bolso da calça e olhou meditativamente para Gina. Ela estava vestindo um de seus novos terninhos.
A roupa a deixava linda, admitiu Harry, sentindo seu corpo retesar-se. O tecido justo delineava perfeitamente seus seios firmes e redondos e ele se lembrava muito bem daqueles seios, de tocá-los e prová-los durante aqueles breves momentos de êxtase ali mesmo naquele escritório.
A lembrança aqueceu-lhe o sangue e sua mente começou a ficar confusa. Sentiu o suor formando-se em sua testa, embora a sala estivesse fria. Sabia que teria que nadar algumas voltas na piscina, depois correr alguns quilômetros, até conseguir liberar sua crescente e contida energia sexual.
Gina parecia calma, não demonstrando nem um pouco daquele desejo apaixonado, pensou ele ressentido. Ela não estava ardendo de vontade de tocá-lo ― ou de ser tocada por ele. Os pensamentos de Harry o levaram para a última vez em que a tocara, naquela noite em que foram ao Festival de Arte, e a lembrança o excitou.
Gina se mantivera fora de alcance desde aquela noite. Toda vez que ele se aproximava, ela se afastava. Seus movimentos eram lentos e sutis, mas ela sempre dava um jeito de se distanciar. O fato de terem passado diversas noites juntos tornara a situação ainda pior, porque quanto mais tempo passava na companhia dela, mais precisavatocá-la.
Ele fizera reservas para cinco noites de semana nos melhores restaurantes. Gina parecia ter se divertido nessas noites, e ele se surpreendera com o quanto gostara de estar com ela. Ela era ótima companhia, tinha uma conversa inteligente e divertida, bem diferente de sua eficiente personalidade no escritório.
Mas os jantares foram platônicos. Nada de dar as mãos, de roçar as pernas de maneira provocativa debaixo da mesa, de olhar apaixonadamente nos olhos um do outro. Em todas as cinco noites ele deixara Gina em casa depois do jantar e eles se despediram sem sequer um beijo no rosto.
O que era lógico e correto, já que não eram amantes nem se tornariam amantes. Harry lembrava-se deste fato diversas vezes por dia. Depois dizia a si mesmo como estava contente por Gina estar sendo tão sensata. Nada poderia ser mais inconveniente que uma falsa noiva que quisesse aprofundar o relacionamento.
Que confusão seria! O contrato que Alvo redigira provavelmente poderia ser anulado se ele e Gina fossem para a cama. Mas ele não precisava se preocupar com isto, graças a Gina.
― Vou para a academia ― anunciou Harry, e saiu correndo como se os cães do inferno o estivessem perseguindo.
Gina ficou olhando pensativa para a porta que ele esquecera de fechar ao sair. Ela levantou-se da cadeira e voltou para sua sala. Por mais que Harry detestasse a idéia da festa de noivado, e embora ela não conseguisse se imaginar como uma convidada na mansão Potter, gostava das conversas diárias que estavam tendo sobre o evento.
Gostava de estar com Harry, admitiu Gina. Gostava demais. Tanto que não confiava em si mesma para ficar perto dele. Tivera muitos devaneios e muitas noites de insônia revivendo cada momento em que ele a tocara.
Gina pensou nos jantares que tiveram, nas reservas feitas pelo próprio Harry para que fossem vistos juntos. Para ele era simplesmente parte do contrato, mas para ela, estar sentada com Harry numa mesa à luz de velas, com um excelente vinho e uma comida deliciosa, era deixá-la tentada ao ponto de tornar-se quase impossível resistir.
Tinha que ser forte, disse Gina a si mesma. Tinha que ignorar as faíscas de desejo que acendiam nela toda vez que Harry estava perto. Tinha que se lembrar que a química e o carinho entre eles era tão efêmero quanto um sonho. Felizmente suas visitas de fim de semana a Luna tornavam impossíveis quaisquer encontros aos sábados e domingos, dando-lhe quarenta e oito horas para restaurar sua força de vontade.
Gina soube que estava em perigo quando ficara tentada a aceitar os convites de Harry para passear de barco. Até então, nunca sonhara em cancelar uma visita a Luna, mas naquelas duas últimas semanas, tivera que lutar para não fraquejar... passear de barco com Harry ou visitar Luna no hospital? Sua tentação lhe parecera um sinal muito perigoso. Um aviso a ser escutado.
Harry estava passando tempo com ela para sustentar a ilusão do falso noivado. Ela concordara com a farsa porque traria benefícios para Luna. Nunca deveria se esquecer desses fatos, mesmo que quisesse.
E ela queria. Desesperadamente!
A mansão Potter estava completamente iluminada na véspera de Halloween e um fluxo contínuo de convidados chegava para celebrar o noivado de Harry Potter e Gina Weasley.
Harry mantinha o braço em torno da cintura de Gina enquanto a guiava pelo meio da multidão, apresentando-a a pessoas cujos nomes ela ouvira e vira em colunas sociais, mas que nunca esperava conhecer pessoalmente. Toda a situação parecia-lhe irreal.
Gina cumprimentou seus anfitriões ― Sirius e Erica, James e Bárbara ― com a segurança e o entusiasmo de uma noiva verdadeira. Eles realmente pareciam gostar dela, e Gina sentiu mais uma pontada de culpa por os estar enganando. Começara a vê-los como pessoas, não mais como semideuses, e esperava que nunca descobrissem a respeito da farsa depois do rompimento predeterminado do noivado. Seria muito melhor deixar que os Potter mais velhos achassem que ela havia sido dispensada por Harry do que descobrissem que tinham sido enganados pelos dois.
Para Harry a festa era real até demais, uma repetição de inúmeros eventos sociais dos quais já participara ― e viera a odiar ― no decorrer dos anos. Embora fizesse as apresentações e conversasse com desenvoltura com os convidados, dividia seus verdadeiros sentimentos com Gina.
― Eu odeio festas como esta. Odeio os papos insignificantes e as piadas fúteis. Preferia estar comendo salsichão e algodão-doce no Festival de Arte ― anunciou, recusando uma mini-torta de aspargo oferecida por uma das garçonetes. Mas não desprezou a taça de champanhe que um garçom lhe ofereceu.
Gina observou-o virar a taça e colocá-la, vazia, em outra bandeja que passava. Não era o primeiro copo que Harry tomava nesta noite. Ela não tinha certeza se era o terceiro ou o quarto, mas concluiu que sua mente já devia ter sido afetada pela bebida para que ele desejasse estar no meio das barraquinhas de comida do festival.
― Acho que você está esquecendo o quanto odiou o Festival de Arte, Harry ― lembrou-o Gina.
― Pelo menos o festival tinha esculturas feitas de serra. ― Harry lançou-lhe um sorriso cômico. ― Me mostra alguma coisa aqui que se compare com aquilo.
― Você pode não dar valor a este lugar, mas eu estou me sentindo como se estivesse num cenário de filme. ― A Mansão da Ilustre Família, Cena I, Tomada I.
Harry achou a comparação divertida, mas ela estava falando sério. Aquilo não era a vida que ela conhecia. Mais uma vez, Gina deu-se conta da ridícula pretensão daquele falso noivado. Ela e Harry não eram apenas de classes sociais diferentes, eram de mundos diferentes. Como alguém podia acreditar que ele ficaria noivo de alguém como ela? Todos os fatos revelavam o absurdo de um noivado entre Harry Potter e Gina Weasley.
Quando Erica e Bárbara lhe perguntaram os nomes das pessoas que ela gostaria de convidar para a festa, Gina não lhes deu nenhum. O motivo era que não queria envolver mais ninguém naquela farsa. A própria Kia optara por ficar de fora, dizendo que "recusava-se a participar de uma celebração fraudulenta".
Ninguém questionara a falta de convidados de Gina. As pessoas simplesmente sorriam e lhes desejavam tudo de bom.
Ela bebericava a segunda taça de champanhe que Harry lhe entregara. Raramente bebi a aquilo, e nas poucas vezes em que o fizera, achara o gosto desagradavelmente amargo. Este, contudo, parecia-lhe leve e adocicado, e descia suavemente.
― O meu rosto está prestes a rachar de tanto sorrir ― resmungou Harry enquanto se afastavam da última roda de convidados que haviam cumprimentado. ― E se alguém fizer mais alguma analogia com a Cinderela, não vou responder pelos meus atos.
― Todo mundo está sendo muito gentil. Mas quando se trata de contos de fadas, Alice no País das Maravilhas é provavelmente o que chega mais perto.
― Esta cena específica seria a festa de chá do Chapeleiro Maluco ― resmungou Harry.
― E talvez tenha um pouco da história da Cinderela também ― disse Gina alegremente. ― Eu sei que você não gosta de ser escalado como fada madrinha, mas o seu cartão de crédito foi a varinha mágica que fez aparecer este vestido.
Ela deu uma olhada para o vestido vermelho curto, sexy,porém elegante, que estava vestindo. Harry insistira que era sua responsabilidade providenciar um vestido para Gina, chegando até a ameaçar trazer Alvo ao escritório para redigir um novo contrato especificando um vestido para a festa de noivado como parte do , lembrando-se do quão longo e tedioso um contrato especificado por Harry podia ser, deixara que ele lhe comprasse o vestido.
― Você está maravilhosa com este vestido ― disse Harry com a voz rouca. O plano de Hermione fora focar a atenção no anel de Minerva, destacando-o por meio da duplicação da cor rubi com o vestido, e mantendo assim a memória de sua avó no centro daquela noite especial.
Mas para Harry a cor rubi não trazia lembranças de sua avó. Sua cabeça estava cheia com pensamentos sobre Gina. Pensamentos de admiração, de luxúria, obsessivos, sobre Gina. Ela estava deslumbrante com aquele vestido, exibindo uma elegância sensual que o deixava tonto. Ele aceitara os cumprimentos dos homens presentes; também teve vontade de socar alguns deles por babarem abertamente por Gina.
― Lá está sua tia Ninphadora ― disse Gina, agarrando-lhe o antebraço. Estava feliz em ver um rosto conhecido, alguém a quem não precisaria ser apresentada.
Harry foi tomado de um calor intenso. Esta era a primeira vez que Gina o tocava em semanas e Harry lembrou-se do momento em que ela tocara uma parte bem mais íntima de seu corpo. Neste momento, ele não estava a fim de conversar com sua tia preferida. Queria ter uma conversa privada com Gina. E queria que a conversa levasse a algo ainda mais privado...
Ninphadora estava sorrindo e caminhando na direção deles. Ela estava acompanhada de um homem alto e musculoso, que Harry reconheceu como sendo Remus Lupin, um detetive particular que Ninphadora contratara para investigar o acidente com o avião de Minerva.
― Gina! ― exclamou Ninphadora, tomando-lhe as mãos. ― Você está linda, está parecendo...
― Por favor, sem referências à Cinderela, Ninphadora ― advertiu Harry. ― Já ouvimos o suficiente por hoje.
― Eu nunca faria uma coisa dessas ― disse Ninphadora. ― Eu acho que a história de vocês está mais próxima de A Bela e a Fera.
Ninphadora apresentou Remus a Gina, explicando que ele era um detetive particular, não seu acompanhante.
― Sei ― disse Gina, intrigada. ― Você está aqui esta noite trabalhando num caso, Sr. Lupin?
Lupin encolheu os ombros.
― Na verdade não.
Ele era um homem de poucas palavras. Depois de trocar mais alguns gracejos com Ninphadora, Gina e Harry afastaram-se lentamente.
― Esta noite não está sendo tão ruim quanto pensei que seria. Eu me lembro de um encontro muito ruim que tive, em que o cara não falava nem fazia contato visual. ― Gina riu recordando-se. ― Ele disse oi quando chegou na porta e depois não disse mais nada durante toda a noite. Eu tive que falar pelos dois, e, você sabe, eu também não sou o que se pode chamar de uma grande conversadora.
― Você sempre conseguiu segurar muito bem seu lado da conversa comigo ― disse Harry, virando mais uma taça de champanhe.
― Ah, mas isso é diferente ― disse Gina, terminando sua própria taça. ― Você é meu chefe. E a gente não está namorando de verdade, então não tem... bem, você sabe... aquela pressão.
― Os caras com quem você sai te pressionam para transar? ― O pensamento deixou-o indignado.
― Não! ― O rosto de Gina ficou da cor de seu vestido. Não foi isto que eu quis dizer. Eu estava falando da pressão social, sabe, de manter a conversa e...
― Harry, quando é que você pretende me apresentar à sua noivinha? ― A voz inconfundível de Lilian Potter soou atrás deles.
― O-ou! ― resmungou Harry em voz baixa. ― Falando em pressão social, prepare-se para uma dose cavalar.
Os Potter não queriam convidar Lilian para a festa de noivado, mas depois da insistência de Harry, cederam às regras da etiqueta e estenderam um convite à mãe do futuro noivo. Embora ele estivesse ciente da propensão de Lilian para agitar as coisas, como filho não poderia esnobá-la publicamente.
Ele e Gina viraram-se e a encararam sorridentes.
― Você já conhece Gina, mãe ― disse Harry. ― Você a viu diversas vezes no meu escritório.
― Aquela garota no seu escritório mais parecia um ratinho ― disse Lilian, olhando Gina de cima a baixo. ― Ela chegava a se misturar com o papel de parede de tão sem graça. Eu nunca conseguia me lembrar como era a cara dela, então não me lembro de tê-la conhecido.
Lilian Potter continuou a examinar Gina com seus olhos assustadores. Eles eram acentuados por seu vestido azul-piscina, sem dúvida caríssimo. Contudo, o vestido de Lilian era um pouco escandaloso demais e brega demais. As jóias espalhafatosas e o cabelo armado também não ajudavam muito. Ela tinha uma aparência falsa e seu ar de superioridade era perturbador.
Mas era a mãe de Harry e Gina fora criada para ser educada.
― Olá, Sra. Potter ― disse, mantendo o sorriso. Sabia que Lilian insistia em ser chamada assim apesar de seu divórcio ter ocorrido a quase um quarto de século.
Lilian sacudiu a cabeça e seus longos brincos de diamantes bateram contra seu pescoço.
― Você está grávida? ― perguntou abruptamente.
― Mãe! ― exclamou Harry ofegante. ― De todas as...
― Não, não estou ― disse Gina rapidamente.
― Você não precisa mentir para mim. Eu não sou a Erica nem a Bárbara, que fingem ser amáveis e sinceras. Rá! Todo mundo já pensou nisso, mas eu sou a única honesta o suficiente para perguntar. Por que outro motivo Harry estaria se casando com a secretária dele ou o que quer que você seja? Não posso acreditar que vou ser avó. De novo!― acrescentou Lilian mal-humorada.
― Eu não vou ter um bebê. Nunca sequer fomos para a cama juntos ― Gina a deixou escapar, depois colocou as mãos no rosto corado, terrivelmente envergonhada.
― Então esta é a sua estratégia? Se fazendo de difícil? Se guardando para um anel de casamento? ― Os olhos de Lilian estreitaram-se. ― Você é bem mais esperta do que eu esperava, Ginny. Aquelas suas roupas certinhas eram só um disfarce, ahn? Uma tática eficaz. Ver uma mulher mudar de um ratinho tímido para uma leoa sensual é intrigante. Ah, posso até imaginar como você fez, abrindo alguns botões para deixar as curvas à mostra, subindo um pouquinho a saia para exibir as pernas e...
― Mãe, pare com isso agora! ― ordenou Harry. ― E o nome da minha noiva é Gina, não Ginny.
― Eu não vou parar até terminar o que tenho para dizer. Como mãe, tenho direito. ― Lilian lançou um olhar irado para o filho. ― Então a certinha da Ginny lançou a isca e você mordeu direitinho, não foi? Ah, Harry! Apesar de que quando não está bancando a secretária competente, ela até que é uma menina atraente ― disse Lilian de má vontade. ― Esse vestido que ela está usando deve ter lhe custado uma grana preta, Harry. Eu sei que foi você quem comprou para ela. Aquela nojentinha da Hermione contou a Jane tudo sobre as idas ao shopping com Ginny e sobre como você pagou tudo. Francamente, estou abismada. Você jurou que nunca mais compraria presentes para mulheres depois que aquela vadia da Cho que te fez de bobo.
― Aquilo não tem nada a ver com a situação atual ― disse Harry.
― Talvez sim, talvez não ― Lilian encolheu os ombros e olhou para Gina. ― Você conseguiu agradar toda a família, não conseguiu, Ginny? E apesar de estar usando o anel de rubi da avó do Harry, vocês ainda não foram para a cama. ― Ela deu uma risada. ― Tenho certeza de que você não vai transar com ele até estar com a aliança de casamento segura no dedo. Ah, eu conheço tudo sobre o seu tipo, com a aparência de doçura e a mente calculista de um advogado especializado em divórcios. Se você não tivesse posto as garras no meu filho, eu chegaria até a admirá-la, Ginny. Pediria a você que desse alguns conselhos técnicos à minha filha, Jane, que não tem a menor idéia de como lidar com os homens.
Gina não disse nada. Elanão tinha a menor idéia de como lidar com Lilian Potter.
― Mãe, você entendeu tudo errado ― disse Harry. ― Quero que você peça desculpas a Gina e...
― Pedir desculpas por quê? ― Lilian levantou a voz. ― Eu estava parabenizando a menina. Ela demonstrou ser muito mais esperta que você, Harry.
― Tia Lilian! Que bom ver você! ― Rocky Potter correra para o trio e jogara os braços em volta de Lilian. ― Você está linda, como sempre, é claro!
Por cima do ombro, Rocky piscou para Harry e Gina. Ela notara a crescente tensão e correra para dissipá-la.
― Tia Lilian, essa cor é perfeita para você! ― exclamou Rocky com entusiasmo. ― Ninguém consegue usar tons de azul tão bem quanto você.
Pavoneando-se, Lilian concordou.
― Azul é a cor que cai melhor em mim. E você também está linda, querida. Tão natural! Eu vi a sua irmã gêmea e aquele vestido dela é glamouroso demais para uma festa de família. Mas, Rocky, querida, você está perfeita! Aposto que você comprou seu vestido direto da prateleira numa daquelas lojas de shopping, não comprou? Provavelmente numa liquidação. Você é tão prática! .
― Obrigada, tia Lilian ― disse Rocky num tom angelical. Aproveitando que Rocky conseguira distrair sua mãe, Harry puxou Gina para longe das duas.
― Rocky realmente está no ramo certo. Ela tem vocação para encontrar pessoas que precisam ser resgatadas ― murmurou, olhando por cima do ombro e observando sua prima ouvindo pacientemente enquanto Lilian falava sem parar.
― Seja nas florestas de Wyoming ou na mansão Potter, Rocky nunca falha ― concordou Gina. Estava grata por ter sido salva daquela terrível conversa com Lilian. ― A sua mãe parece gostar da Rocky ― acrescentou. Aquilo a surpreendera. Pensava que não gostasse de ninguém.
― Rocky sempre foi simpática e minha mãe nunca teve motivo para invejá-la. Quando era criança, Rocky mais parecia um garotinho, independente, aventureira, e agora pilota aviões. É a irmã gêmea dela, a Allie, que incomoda minha mãe. Allie sempre atraiu muito a atenção dos homens e acabou virando uma modelo de sucesso. Um pecado imperdoável aos olhos de Lilian Potter.
― Algumas mulheres vêem as outras como concorrentes, não importa sua idade.
― Você vê? ― perguntou Harry abruptamente. A pergunta surpreendeu Gina.
― Não, por quê?
― Então você não é do tipo competitivo ou ciumento? Se outra mulher se pendurasse em mim, você não se importaria?
Gina surpreendeu-se. Suas conversas com Harry, embora curtase desconexas devido às constantes interrupções nesta noite, tomaram um rumo inesperado.
― Eu não teria o direito de me importar ― lembrou-o. ― Mas se uma mulher se pendurasse em você hoje, os convidados achariam estranho, considerando que esta é nossa festa de noivado.
A tentativa dela de melhorar o humor subitamente sombrio de Harry fora inútil. Harry franziu a testa e desviou o olhar. Confusa, Gina pensou no que dizer em seguida. Não esperava que ele ficasse mudo e pensativo depois de alguns drinques... ou pior, que virasse um grosseirão.
― Oi! ― disse Hermione juntando-se a eles. ― Vi que vocês escaparam ilesos da Lilian, graças à nossa corajosa Rocky. Lilian te tratou muito mal, Gina?
― Para falar a verdade, ela até me elogiou. ― Gina olhou de Hermione, que estava felicíssima em ver, para Harry, ainda emburrado. Ela tentou novamente fazê-lo sorrir. ― Lilian disse que eu sou mais esperta do que o Harry.
Harry não riu, mas Hermione sim.
― A grande sacerdotisa da manipulação elogiou sua esperteza?
Hermione notou o silêncio de Harry.
― O que houve, Harry? ― quis saber ela. ― Você deveria estar feliz pela sua farsa estar funcionando tão bem. Vocês enganaram todo mundo nesta festa, e olha que isto não é pouco! Mas você está com uma cara de...
― Eu odeio a música que a banda está tocando, está bem? ― interrompeu Harry. ― Já ouvi alarmes de carro comum som mais agradável. Quem contratou essa porcaria de banda? Eles tocaram Electric Slideduas vezes na mesma hora!
Hermione olhou-o com estranhamento.
― Você parece o vovô reclamando do declínio do teatro musical. ― Ela virou-se para Gina. ― Nosso avô Ben costumava dizer que nenhuma boa música tinha sido escrita desde o tempo de Jerome Kern.
― Estou começando acreditar que ele tinha razão ― resmungou Harry.
― Harry realmente não é fã de Electric Slide― explicou Gina.
― Tudo bem, mas também não precisa ficar tão revoltado! ― disse Hermione.― Está bem, irmãozão, vou falar com a banda agora mesmo.
Depois que Hermione se afastou, Gina e Harry ficaram em silêncio. Ela lançou um olhar oblíquo na direção dele. Ele estava olhando para o nada, com a expressão distante e indecifrável. Gina tinha certeza de que todo aquele mau humor não se devia apenas ao fato de ele ter ouvido Electric Slide duas vezes na mesma hora.
― Você parece estar num daqueles encontros horríveis sobre os quais estava me contando mais cedo. ― O tom de Harry era zombeteiro. ― A pressão social está te incomodando? Eu não estou fazendo a minha parte para manter a conversa tranqüilamente?
― Eu estou tendo dificuldade em seguir esta conversa. Acho que você está bravo comigo, mas não sei por quê.
Ele não teve tempo de responder. Vinda da outra sala, uma voz soou no microfone.
― Acabaram de me dizer que o noivo tem alguns pedidos especiais. Então, de Harry para Gina...
A banda começou a tocar a canção romântica de Jerome Kern All The Things You Are. Entre comentários brincalhões, oohs e aahs, Gina e Harry foram praticamente forçados a ir para a outra sala e dançar.
― Vou matar Hermione ― disse Harry, irritado.
― Podia ser pior ― disse Gina. ― E se ela tivesse pedido para eles tocarem Electric Slide de novo?
Harry fez um som que era meio risada, meio grunhido. Conduzindo Gina para o meio da pista de dança, puxou-a para seus braços.
