Um anjo embriagado

XI Capítulo

***Flash back***

- Eu também te amo, Hyoga, beijos! - Shun desligou o celular e pegou uma das pequenas gaiolas com as cobaias colocando na estante onde já havia tantas outras. Olhou um dos bichinhos preocupado; ele estava inchado e aquilo não era bom, significava um perigoso efeito colateral ao medicamento.

Olhou para trás assustado, pois achou ver um vulto; nesse momento as luzes se apagaram e rapidamente voltaram a se aceder.

- Eu, hein! Filme de terror agora? - disse pra si divertido. Caminhou até a mesa e começou a preencher seu relatório, se bem que, não sabia para que a pressa se teria a noite toda pela frente.

Dessa vez, ouviu passos e largou a prancheta, irritado, achando ser um dos colegas fazendo alguma brincadeira.

- Ah, parem com isso, quem está aí... – interrompeu o que diria e sorriu amigavelmente para o homem de jaleco e óculos que estava parado a sua frente.

- Professor Lune, não esperava encontrá-lo aqui essa noite!

O homem sorriu também, passando as mãos em seus longos e cinzentos cabelos que estavam presos num rabo de cavalo frouxo.

- Nem eu, Shun, mas, estou muito preocupado com essa pesquisa. – disse o homem sério, chegando até uma das estantes e verificando a cobaia com problemas – Ah, nada bom!

- Eu já tinha reparado, estou colocando no relatório... – disse o aluno voltando a caminhar até a mesa.

- Deixe um pouco essa prancheta, Shun, vamos tomar um café, vim da aula direto pra cá e estou cansado.

- Não precisava o senhor vim! – disse Shun preocupado – O senhor deve mesmo estar cansado, eu posso preparar o relatório sozinho e o senhor descansa.

- Primeiro pare de me chamar de senhor, me sinto um velho assim! -riu o professor – Depois, para mim é um prazer ficar ao lado de uma mente tão brilhante quanto a sua.

Shun sorriu novamente, corando um pouco, realmente o professor sempre elogiava demais sua atuação nas pesquisas, aquilo, muitas vezes, o embaraçava na frente dos colegas.

- O senhor sabe que o prazer é meu e deveria parar de me fazer tantos elogios, ficarei vaidoso assim! - Ruborizou o rapaz.

- Ah, Shun, você é tão adorável! - disse o homem rindo – Venha, vamos tomar um café.

Ele envolveu os ombros do rapaz amigavelmente e foram para o corredor, encheram os copos de papelão e voltaram para o laboratório.

Shun sentiu a presença de mais alguém ali novamente, e olhou ao redor.

- O que foi, Shun, algum problema?

- Achei ter visto alguém, mas... Veja! – o jovem exclamou chocado percebeu que boa parte das cobaias estava morta e o restante agonizava.

- Que estranho! - disse Mino pasmo – Até alguns instantes todas estavam bem.

- Mas, isso é impossível! - regougou Shun nervoso – Eu monitorei cada uma pessoalmente, estavam bem, muito bem e agora...

- Calma, Shun, a culpa não é sua! - disse o homem levantando o queixo do rapaz e fitando seus olhos desolados.

- Isso não podia ter acontecido, isso significa que o remédio não...

- Ei, eu pedi calma, significa apenas que precisaremos de mais testes – sorriu o homem de cabelos cinzentos – Nossa! Como você é dedicado, Shun.

- Eu... Eu só gosto do que faço, eu havia monitorado todas... Estavam bem – repetia o jovem de cabelos verdes, aquela pesquisa era a tarefa mais importante do semestre e sabia que devia muito a Lune por ter-lhe confiado àquela tarefa, quando havia outros estudantes interessados.

- Professor, eu sinto muito... – Shun quase choramingou baixando a cabeça.

- Deixa isso pra lá, Shun, amanhã refazemos os testes com novas cobaias e veremos em que erramos.

- Mas...

- Shun, você acredita mesmo que eu vim aqui essa noite por causa desses ratos? - perguntou o homem e o mais jovem o olhou com curiosidade.

- Veio por que então? - perguntou sem entender.

- Vim porque sabia que você estaria aqui, na verdade, eu mesmo o escalei pra essa noite, esqueceu?

- Eu sei disso, o senhor sempre me disse que eu era o melhor da equipe. – sorriu mais uma vez o adolescente, porém com certo incômodo, porque o professor estava a alguns centímetros dele somente.

- Sim, realmente você é o melhor, mas, não somente da forma que está pensando... – sussurrou o homem próximo ao seu rosto.

- O senhor tem alguma coisa a me dizer? - perguntou ruborizando e tentando se afastar, mas, o professor segurou seu braço.

- Claro que sim, e acho que você já imagina o que seja.

Shun conseguiu libertar o braço num puxão. Afastando-se dele sem jeito, pois a sua frente estava alguém que ele sempre admirou, um cientista brilhante e agora...

- Desculpe, professor...

- Me chame de Lune, apenas.

- Não, eu não vou chamá-lo assim, prefiro que haja formalidade entre nós... Eu... Eu tenho namorado, sabe? - gaguejou o rapaz.

- Sei, eu também tenho, Shun – tornou o homem se aproximando novamente do mais jovem e o imprensando contra a mesa com o próprio corpo, enquanto a mão segurava o queixo e o ombro dele.

- Isso não tem nenhuma importância para mim, Shun, e sei que na verdade você sempre quis isso também... - disse antes de beijá-lo, Shun lutou contra aqueles lábios e aquelas mãos, mas, o homem era bem mais forte que ele e por mais que se debatesse, não conseguia se soltar.

- Para...professor, por favor! - gritou desesperado quando o mais velho abandonou seus lábios.

- Posso ver em seu rosto o quanto você gostou... – sorriu maliciosamente e Shun que já estava com o rosto avermelhado pela força do beijo, ficou ainda pior com suas palavras, porém, por indignação.

- Você está louco, me solta, eu amo outra pessoa!

- Ah, meu pequeno! – volveu o homem afundando as mãos nos cachos de seus cabelos – Isso não tem nada a ver com amor, é desejo, seu namorado não lhe ensinou isso?

- Mas, eu não sinto isso por você, você está louco, me deixa ir embora!

- Bem, se seu namoradinho não ensinou isso a você, seu professor ensinará, certo?

Ele afundou o rosto no pescoço branco de Shun beijando e mordendo levemente.

- Me solta, seu maluco! - gritou o Amamiya mais jovem.

- Pode ficar tranqüilo, não deixarei marcas em você, seria um crime marcar uma pele tão linda.

- Eu não quero... Para... – choramingou o rapaz chocado, nunca esperaria uma atitude daquelas do homem que sempre admirou, era quase um ídolo para ele naqueles dois anos de curso.

- Ah, Shun! Você acha que sou idiota? - falou o professor irritado.

- Por que está me perguntando isso? me solta! - Shun continuava a se debater em vão, além de mais alto e mais forte que ele, o professor ainda o imprensava contra a mesa o que praticamente lhe impedia qualquer movimento.

- Você acha que eu nunca percebi seus olhares, seus sorrisos? Você sorrir demais, Shun, e seu sorriso é tão lindo, me seduziu.

Shun engoliu em seco: lembrou-se de uma briga recente que tivera com Hyoga. Foram a um restaurante e conheceram um grupo de garotas, conversaram e beberam a noite toda e na saída uma delas sem desconfiar do relacionamento dos dois o agarrou e beijou ardentemente, depois disse: "adorei seu sorriso".

Ele e Hyoga acabaram discutindo e o russo o acusou da mesma coisa que agora Lune o acusava, de sorrir demais.

Lágrimas desceram por seu rosto; seria mesmo culpado daquela situação? Não, era somente uma pessoa simpática, como havia dito ao próprio Hyoga.

- Isso... Isso não é verdade, eu não o seduzi... – balbuciou – Eu só tento ser simpático, só isso...

- Ah, Shun, agora é tarde para se fazer de inocente! - disse o professor o jogando sobre a mesa, afastando a prancheta que estava sobre a mesma com a mão, e começando a tirar a roupa do adolescente que resistia a ponto de irritá-lo.

- Escuta, Shun, eu não quero machucá-lo, mas, se for preciso...

Shun arregalou os olhos verdes marejados, se sentindo acuado contra o peso do corpo maior sobre o seu.

- Me solta professor... Por favor... – sussurrou entre os soluços enquanto o homem beijava seu pescoço e apalpava seu corpo.

- Você vai gostar, mon petit, serei delicado... – tornou o mais velho ofegante, tentando conter o jovem que se debatia ferozmente.

Entretanto, nesse momento Shun percebeu que realmente havia mais alguém ali, um homem de preto que sorria maliciosamente atrás de Lune. Seria uma alucinação produzida pelo pavor que estava sentindo com aquele homem o tocando? Não poderia ser, era nítido demais e seu torpor foi tão grande ao perceber aquele estranho, que facilitou a vida do molestador que rapidamente livrou o jovem do jaleco e da camisa verde que ele usava por baixo, enquanto Shun continuava imóvel, hipnotizado por aquela figura.

Lune o virou de bruços na mesa, beijando seu pescoço enquanto desafivelava a calça.

Shun continuava com os olhos presos na figura que agora andava devagar pelo laboratório, tocando as gaiolas das cobaias. Ele percebia que os animais que permaneceram vivos, morriam no momento que o homem chegava mais perto das gaiolas.

Gritou ao sentir o professor dentro de si. Saindo temporariamente do seu torpor, mas, o homem estranho voltou sua atenção para ele, sorrindo com malícia e pedindo silêncio, pressionando o indicador contra os próprios lábios. Aquilo pareceu levar do adolescente sua última gota de força e sanidade, sua única reação a partir daí foram às lágrimas que desciam quentes por seu rosto, mas ele sentia tudo em silêncio: as mãos, o bater do corpo do outro contra o seu, a respiração quente dele, os gemidos e o fim...

Tudo para ele pareceu lento, uma eternidade e depois de se satisfazer como quis com o corpo do aluno, o mestre se afastou e se vestiu, virou o jovem, que permanecia atônito, de barriga para cima, e o beijou carinhosamente, dizendo:

- Como imaginei! – ele pegou as roupas de Shun do chão e começou a vesti-las no rapaz que obedecia como um "autômato" - Lindo e delicioso!

Só então o virginiano voltou a si, o homem de negro havia sumido; Shun piscou os olhos várias vezes, se dando conta de tudo que havia acontecido naquele laboratório.

- Você é louco! - as lágrimas começaram a descer por seu rosto novamente – você... Você me violentou... Você não podia ter feito isso!

- Ah, Shun, você sabe que isso não é verdade. – disse Lune com calma, terminando de afivelar o cinto.

- C-como não? Eu... eu pedi para você parar... eu... amo o Hyoga, eu nunca o trairia se...

- Se isso faz com que se sinta melhor com sua consciência, pode tentar acreditar. – disse o homem com indiferença.

Shun se sentiu minúsculo com aquelas palavras, por que não reagiu? por quê? Será que o professor tinha razão, será que ele...?

- Isso não é verdade, eu não queria isso! - gritou fechando as próprias calças se sentindo sujo e percebendo as marcas avermelhadas no seu corpo.

- Shun, meu querido! - o homem sorriu e o abraçou – Não precisa ficar assim por trair seu namorado, isso acontece, ele não precisa saber.

- Eu não o traí... – balbuciou Shun se livrando dos braços do professor – Eu vou... eu vou denunciar você, isso... Isso... foi um estupro!

- É mesmo? - riu o mais velho – Faça isso, quem vai acreditar em você? esquece com quem está falando? Além do mais, seu namoradinho vai adorar saber da noite que tivemos...

- Seu doente! Não tivemos noite nenhuma, você me estuprou! - gritou Shun desesperado.

- Já disse! Se você quer acreditar nisso é problema seu, mas, não foi o que aconteceu aqui!

Shun saiu correndo do laboratório se sentindo cada vez mais miserável, a dúvida lhe roendo a alma. "você sorrir demais", as palavras do professor e do namorado se repetindo em sua cabeça; uma voz lhe infernizando, lhe dizendo que era culpado, responsável por tudo que havia acontecido naquele laboratório, afinal, sempre correu de certa forma atrás de Lune. Possuía tanta admiração por ele que sempre queria estar por perto, ser notado pelo brilhante professor, talvez, tivesse feito algo, dito algo, flertado?

Vagou por toda a madrugada com esses pensamentos o perturbando, aquelas afirmações fazendo cada vez mais sentido; ele não reagiu ao abuso, permitiu tudo da forma mais condescendente e baixa possível.

Chorou, chorou muito, pensou em ligar para Hyoga ir buscá-lo fosse lá onde estivesse, mas sentia vergonha, o que diria para o namorado? Que era inocente, que lutou e tentou se livrar, mas não conseguiu? Ou que simplesmente não reagiu, permitiu e quem sabe até tenha... Gostado?

Aqueles pensamentos o atormentou por toda a madrugada, as lembranças da reação de seu corpo e sua impotência diante de tudo eram humilhantes demais. Então, tentou fazer o que sempre fez a vida inteira quando se sentia ferido e apavorado, porém, dessa vez, Ikki não lhe atendeu, se sentiu ainda mais infeliz, não poderia contar nem mesmo com quem sempre esteve ao seu lado.

Depois de andar nem sabia por onde, totalmente sem rumo, o sol despontou no horizonte. O jovem de cabelos verdes, resolveu voltar pra casa já com algumas decisões na cabeça: teria que deixar Hyoga, porque ele não merecia alguém podre como ele, alguém baixo que se entregava ao primeiro que aparecia. Resolveu também abandonar o curso de medicina, porque não teria mais coragem de olhar para Lune, conviver com ele seria impossível e doloroso e, em fim, resolveu que mudaria completamente suas atitudes, mudaria para não sofrer mais.

***Fim do Flash Back***

Shun se sentiu extremamente cansado ao terminar de narrar aqueles acontecimentos ao irmão. Mas também, aliviado por conseguir falar algo que achou nunca ser possível. Percebeu que os olhos de Ikki estavam marejados e que ele se esforçava para não chorar.

- Ikki...

- Ah, Shun, a culpa é toda minha! - o Amamiya mais velho escondeu o rosto com as mãos desolado tentando evitar as lágrimas.

- Não, Ikki...

- Claro que é, Shun! Se tivesse atendido seu telefonema, ao menos teria tirado essa bobagem de culpa da sua cabeça!

- Mas, Ikki, você não ouviu nada do que eu falei? Eu fui culpado sim, eu não reagi! – soluçou Shun.

- Isso não é verdade, Shun, você foi vítima da situação, você tentou lutar!

- Eu não lutei o suficiente! - disse o rapaz inconsolável – Acabei percebendo depois que... Aquele homem de preto que eu vi, não passava de uma ilusão que criei para justificar minha fraqueza! Ele... ele nunca existiu... Eu...

Ikki abraçou o irmão, fortemente.

- Não pense isso, Shun, eu sei que ele existiu, se fosse há algum tempo atrás eu pensaria o mesmo que você, mas agora, eu sei que eles existem.

Shun escondeu o rosto no ombro do irmão, soluçando.

- Eu acho que estou louco, Ikki... Eu o vi novamente essa noite...

Ikki engoliu em seco.

- Shun, acredite, você não está louco e também não foi culpado de nada que aconteceu.

- Ah, irmão, eu me senti tão sozinho, eu precisava tanto de você aquela noite...

- Me perdoa, Shun, me perdoa, eu prometo que nunca mais vou deixá-lo sozinho.

Shun apenas balançou a cabeça enquanto tentava conter os soluços.

- E por favor, tire essa história de culpa da cabeça, certo? - pediu o mais velho se afastando pra fitar os olhos verdes do irmão.

- Mas, Ikki...

- Não, Shun, sem mas! Você não teve culpa e farei questão de voltar à França e dar uma lição naquele canalha! Ele nunca mais vai se meter com você!

- Não, Ikki! - pediu Shun desesperado – Eu não quero que você faça nada, ele é um renomado acadêmico, ninguém acreditaria em mim!

- Shun, isso não pode ficar assim! - regougou o Amamiya mais velho, sentindo a fúria nascer dentro de si, se tinha uma coisa que o tirava do sério era mexerem com o irmão mais novo.

- Ikki, eu não deveria ter lhe contado nada! - o rapaz tentava enxugar as lágrimas – Eu só... Eu só queria morrer...

- Não repita isso, Shun! - pediu Ikki desesperado – Você... você só podia estar louco para... para tentar algo assim!

Ikki estava desolado e Shun empalideceu.

- V-você sabe... então...

- Claro que sei, Shun, como pode fazer uma coisa daquelas?

- Viver não faz mais sentido pra mim, irmão... – resignou-se o mais jovem – Eu perdi o Hyoga e... você... você havia me abandonado...

- Eu nunca o abandonaria, Shun, eu amo você... – ele voltou a abraçar o irmão, mas Shun o afastou para olhar em seus olhos escuros.

- Ikki, por favor, não conta nada disso pro Hyoga.

- Mas, Shun...

- Eu morreria de vergonha, por favor! – suplicou o mais jovem.

- Certo, tudo bem, eu não direi nada. – falou enxugando o rosto do irmão com as mãos – Mas, acho que sabe que ele te ama e está sofrendo.

- Ikki, eu não o mereço, agora você sabe...

- Eu já disse que você não teve culpa, Shun! Você não confia em mim?

Os olhos verdes do irmão brilharam em hesitação e Ikki engoliu em seco, continuou:

- Sei que tenho sido ausente e egoísta, mas eu prometo que nunca mais deixarei você.

- Eu amo você, Ikki... – disse Shun – Mesmo depois de... tudo.

- Eu sei, Shun... – Ikki sorriu abraçando o irmão e beijando seus cabelos – Eu sei.

Shun sorriu sem jeito ruborizando antes de dizer:

- Ikki... Eu não sabia que você também era...

- Eu também não, Shun... – riu o mais velho corando também.

- Você estava com o Shaka naquela noite?

- Não. – respondeu amargo – Estava com alguém de quem nem me lembro o nome, e por isso não atendi o seu telefonema, nem sei se um dia me perdoarei por isso.

- Tudo bem, Ikki, você não tinha como adivinhar... – suspirou resignado Shun.

- Além de tudo, ainda briguei com você, sou um idiota, mesmo!

-Já passou, Ikki. – sorriu se afastando do irmão – Estou cansando, vou dormir agora, eu... estou preocupado com o Hyoga, aonde será que ele foi?

- O Pato sabe se cuidar. – responde Ikki – Venha, vou colocá-lo na cama.

- Ah, Ikki, para com isso, eu já sou grande! - riu Shun – Não precisa mais contar aquelas histórias ridículas que só eu acreditava!

- Ah é? Pois bem, é exatamente o que farei! - disse o mais velho pegando o mais novo no colo.

- Ikki, para! - riu gostosamente o Amamiya mais jovem.

- Nada disso, vou colocá-lo na cama e cantar pra você dormir, então agüenta, porque continuo um péssimo cantor!

Ikki conseguiu vencer o irmão e colocá-lo na cama. Shun estava muito cansado e também havia o efeito da cerveja, logo adormeceu não precisando suportar os dotes de cantor do irmão mais velho por muito tempo. Então ele voltou para o quarto,deitando ao lado do anjo "apagado"; suspirou, pensando no ocorrido com o irmão, escondeu os olhos num gesto de defesa que não sabia por que, e chorou, chorou muito até adormecer.

***

Hyoga acordou e tentou reconhecer onde estava. Era um quarto todo em tom de azul e uma tênue luz entrava por uma janela. Acontecimentos da noite passada voltavam a sua mente, a briga com Shun, a bebedeira, o ônibus e... O que havia acontecido?

- Bom dia, Alexei! – ele ouviu aquela voz suave e levemente debochada. Virou-se lentamente e vislumbrou aquele sorriso e que sorriso!

- Onde estou?

- Bem, eu poderia dizer que você está na morada dos anjos, mas, você não acreditaria... – disse Milo naturalmente.

-Quem é você? Não foi você que vi ontem...

- Não, não fui eu, foi o Camus, graças a Zeus, eu não tenho protegidos, mas, fico feliz que não estivesse tão bêbado e que se recorde.

- Então devo crer que morri e estou no céu? - perguntou o jovem que por incrível que fosse, não estava com dor de cabeça depois da homérica bebedeira.

- Fico lisonjeado em saber que acordar e dar de cara comigo para você é o paraíso, mas, não, você não morreu.

- E onde estou então?

- Em nossa casa, não se preocupe, logo sairemos daqui.

O homem de cabelos cacheados se levantou e deixou o quarto, enquanto Hyoga tentava se lembrar se havia acontecido alguma coisa entre eles ou entre ele e o seu salvador, sim, porque se não fosse aquele homem, teria sido atropelado por um ônibus.

Observou o quarto, ele lhe trazia tanta paz, mas seu coração continuava pesado e aflito. pensava em Shun e aquilo machucava, sua rejeição machucava demais.

Seguiu por onde o homem havia saído e percebeu que estava numa casa comum, bem arejada e em tons claros, mas totalmente desconhecida.

Saiu andando pela casa; abriu uma porta e se deparou com um quarto decorado em tons vermelhos, ao contrário do outro que lembrava tranqüilidade e paz, esse lhe trouxe uma sensação de movimento e paixão; fechou a porta, porque ouviu vozes vinda de outro cômodo, parecia uma pequena discussão.

- Camus, eu não acho que devemos...

- É nossa missão, Milo, e vamos sim!

- Mas, e se ele nos botar pra fora? Aí a culpa não seria nossa!

- Isso não acontecerá, sem chances!

- Mas...

Os dois pararam a discussão ao sentir a presença de Hyoga. Ele entrou na cozinha olhando de um para o outro, finalmente havia encontrado seu salvador.

- Quem são vocês e onde estou? - perguntou cruzando os braços.

- Digamos que somos amigos. – disse Camus.

- Eu o conheço?

- Sim, a vida toda, porém, não me espanta você não me reconhecer eu sou o Camus e sou seu...

- Cala a boca! - disse Milo dando um tapa nas costas do amante e sorrindo para o jovem loiro a sua frente. Depois encheu três canecas de café e entregou aos companheiro, ficando com uma pra si.

- Milo!

- Nem uma palavra, Camus! Por favor... – o arcanjo das águas concordou vencido.

Milo se sentou numa cadeira e pediu que Hyoga e Camus fizessem o mesmo.

- Alexei, é o seguinte... – começou o moreno – Precisamos que nos leve para a casa do morenão do Shaka...

- Shaka, vocês o conhecem? E como sabem meu nome? Ninguém me chama assim...

- Isso não importa, precisamos apenas que você nos leve. – disse Camus, sério.

- Vocês são alguma espécie de lunáticos de seita religiosa? - riu o mais jovem – Eu quero saber o que está acontecendo e o que vocês sabem sobre o Shaka?

- Podemos dizer que somos da mesma família e estamos preocupados com ele. – disse Milo calmamente.

- Vocês nem se parecem! - volveu o jovem loiro com indiferença provando o café.

- Isso não significa nada, nós precisamos encontrá-lo. – tornou Camus com frieza.

- Tudo bem, eu levo vocês até o Shaka e vocês me falam a verdade, sobre o que aconteceu ontem, ok?

Camus e Milo se entreolharam e Hyoga continuou:

- Se não, nada feito.

- Certo, então, vou dizer! - suspirou Camus – Alexei, sou seu anjo da guarda e ontem tive que protegê-lo porque você ficou estranhamente sem juízo. Francamente! Você nunca foi de dar trabalho!

Hyoga ficou boquiaberto enquanto ouvia o homem falar.

- Você é louco, é isso?

Milo foi para trás de Camus e fez um sinal para o jovem loiro indicando que o companheiro era louco mesmo.

- Camus, amor, acho que hoje você não tomou seus remédios! - riu o escorpiano arrastando o amante para fora da cozinha.

- Que remédio, Milo? Você enlouqueceu?

- Quem enlouqueceu foi você! - brigou Milo sussurrando para que Hyoga não escutasse – Não pode ficar dizendo isso, acha que ele acreditaria?

- O que diremos então para convencê-lo?

- Eu não sei, mas... falar a verdade não é a melhor opção!

- A verdade é sempre a melhor opção, Milo! Você nem parece que é um anjo, um arcanjo supremo, um dos doze escolhidos, um dos santos anjo, um...

- Blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá! - caçoou Milo irônico – Não adianta falar essas coisas, agora eu sou humano e cheio de defeitos, ninguém mandou Zeus me trazer pra cá, peguei todos os vícios deles!

- Pode falar o que quiser, para mim a verdade ainda é a melhor opção!

- A melhor opção para irmos os dois para o hospício!

Camus bufou, irritado.

- Então, não sei como convencer Alexei a nos levar com ele.

- Primeiro lugar, pare de chamá-lo de Alexei, ele já disse que ninguém o chama assim.

- Está bem.

- Depois, esse garoto não pode nos impedir de acompanhá-lo e tenho certeza que o morenão do Shaka deixará que fiquemos, ele sabe quem somos.

- Mas, logo o Hyoga saberá também!

- Nisso a gente pensa depois, vamos!

Voltaram para a cozinha e encontraram o jovem loiro olhando para dentro da geladeira.

- Vejo que são mesmo parentes do Shaka, quanta porcaria! - riu o rapaz apontando para as guloseimas dentro da geladeira.

- Ah, com certeza é um problema familiar... – sorriu Milo se encostando a parede sensualmente, evidentemente jogando charme para Hyoga. O arcanjo sabia que seu sorriso era hipnotizante e queria mesmo ganhar a simpatia do loiro russo.

- E então, você nos levará até o Shaka? - perguntou e Hyoga olhou atentamente aquela "tentação grega" à sua frente, que abertamente lhe jogava charme.

- Vou sim, acaso tenho escolha? Sei que me seguirão se eu discordar, não é mesmo? - o russo riu também e percebeu que Camus ruborizava de ciúmes dos olhares trocados pelos dois:

"São amantes com certeza, então por que o tal Milo me joga charme tão abertamente? Tem alguma coisa estranha aí." Pensava o jovem russo.

- Milo, por favor! - disse o arcanjo das águas, fazendo sinal para que o companheiro o seguisse. Quando já estavam na sala, longe dos olhos do mortal, pegou o fogoso arcanjo da guerra pelo braço o levando para dentro do quarto vermelho.

- Ai, Camus! - gemeu Milo massageando o braço machucado – Você não ver que eu consegui convencê-lo?

- Jogando charme assim na minha cara? - bradou Camus, possesso.

- Deu certo, não deu? - perguntou com indiferença.

- Milo, eu te mato se você fizer sexo com algum humano, entendeu?

- É pecado mortal, você vai direito para o tártaro se fizer isso, SEM ESCALA! - provocou o moreno.

- Ah, então você pretende mesmo e com... com meu protegido, Milo? Isso é dupla traição!

- Ah, Camus, para com isso! Eu não quero nada com aquele garoto, eu só quero você, meu amor... – disse e abraçou o ranzinza companheiro lhe beijando a bochecha.

- Você promete? - perguntou Camus desconfiado.

- Ah, amor, não é preciso prometer...

- PRECISA SIM! - gritou o arcanjo das águas.

-...

- Milo...

- ...

- Milo, eu não acredito!

- Ah, Camie, eu tenho curiosidade de saber como é com um mortal!

- Então eu não sou suficiente pra você? - perguntou Camus magoado.

- Você quer voltar para o Olimpo e lá nunca mais faremos isso, você sabe! - cruzou os braços Milo, chateado.

-...

- Está vendo que tenho razão?!

- Certo, Milo, você tem razão.

- Hum?

- Isso mesmo, pode fazer sexo com quem quiser, que farei o mesmo.

- ...

- Algum problema?

- CLARO QUE SIM, VOCÊ NÃO FARÁ SEXO COM NINGUÉM ALÉM DE MIM! - gritou o moreno irritado.

- Se você pode, eu também posso! - sorriu Camus vitorioso.

- Certo, droga! Eu não faço, então! - disse Milo irritado.

- Então promete.

- Eu prometo.

Camus o abraçou e o beijou, entretanto, agora era Milo que estava ranzinza.

- Vamos logo! Disse e o arcanjo das águas concordou e voltaram a reencontrar Hyoga.

"Em breve terei o que quero." Pensaram os dois, mas, por motivos bem diferentes.

No apartamento de Ikki:

O dono da casa saboreava um forte café, enquanto lia o jornal. Estava taciturno, a conversa com Shun na noite anterior ainda o perturbando. Tinha sorte por ser sábado e não precisar trabalhar, pois quase não dormiu, seus olhos estavam inchados e com olheiras.

"Tenho que melhorar, não quero que o Shun me veja assim..." Pensava. Sabia que precisava ser forte e não demonstrar ao irmão a dor que estava sentindo.

Ouviu movimento no quarto e levantou, largando a caneca e o jornal sobre a mesa.

- Ora, ora, ora! - exclamou ao chegar ao quarto e ver Shaka cambaleando – A bela adormecida em fim acordou!

- Fala baixo, Ikki... – pediu o anjo segurando a cabeça, apoiando as costas na parede e escorregando até o chão com um gemido.

Ikki riu:

- Que ressaca, hein, anjo?

- Ikki, você é um humano mau! - choramingou – Não fique rindo porque está doendo muito, me ajuda, por favor...

Ikki foi até ele o puxando do chão e carregando-o até a cama.

- Puxa vida! Tinha esquecido como você é pesado! - disse Ikki jogando o anjo na cama.

- Tinha esquecido... Quer dizer... - Shaka ficou confuso, tentando se lembrar dos acontecimentos da noite, mas a dor de cabeça não ajudava – Você me carregou, ontem?

- Hum hum, e estou com as costas doendo até agora.

- Não sou tão pesado assim, sou bem mais leve que você com certeza. – disse o anjo escondendo o rosto nas mãos – Ikki, me desculpe... Eu... Ai minha cabeça! Parece que tem um sino dentro e badalando!

- Por que você tinha que beber?

- Eu precisava ficar com o Shun, elas estavam lá!

- Elas quem?

- As harpias, as filhas de Tífon, elas cercam as pessoas com tendências suicidadas e autodestrutivas, elas plantam mais desespero nessas pessoas até que elas realmente se matam, aí elas podem...

- Podem o quê, Shaka? O que esses monstros querem com meu irmão?

Shaka ruborizou.

- Elas geralmente seqüestram essas almas para serem seus escravos sexuais...

- Mas, elas não vão ter a chance de fazer isso com meu irmão, Shun já me contou tudo que aconteceu com ele e eu o ajudarei a se recuperar.

- Ai... Que bom.. – Shaka gemeu sentindo a cabeça pesar – Ai, Ikki, eu estou muito mal...

O moreno suspirou:

- Espere aqui, trarei uma aspirina. – resmungou saindo do quarto e retornando logo em seguida com um comprimido e um copo d'água.

- Tome, engole isso que logo se sentirá melhor.

- Obrigado. – falou o anjo engolindo o comprimido e deitando na cama – Ikki, ainda não passou.

- O efeito também não é imediato e sabe o que mais? Bem feito!

- Você está ficando um humano mau de novo...

- E você é um anjo embriagado, que vergonha!

Shaka olhou para o próprio corpo, estava seminu, o robe vermelho cobria parcamente o corpo alvo.

- Saga... aonde... ele...

- Você está cansado de saber que aquele é o Kanon, mas já que tocou no assunto, aproveita e me diz o que há entre você e esse Saga que você tanto fala? - Tornou Ikki enciumado segurando forte o braço do anjo.

- Ai, Ikki! - gemeu o arcanjo da paz – Para de puxar meu braço, você vai acabar quebrando-o!

- Então, responde!

- O Saga é... o arcanjo mais lindo e perfeito do Olimpo...

- E se parece com o Kanon, logo você acha o Kanon bonito, é isso? -Interrompeu sentindo o rosto arder numa mistura de ciúme e vergonha.

- Sim, o Kanon é lindo...

- Sim, lindo e pervertido, mas me diz o que você tem com esse Saga que te desorienta tanto quando ver o Kanon?

- Ikki! - Shaka fez um gesto de desdém com a mão – Não somos como vocês, não vivemos romances lá em cima, caso o que pensa fosse verdade, pra que então eu insistiria tanto em fazer sexo com você?

Ikki corou mais ainda de raiva,ciúmes e embaraço.

- E-entâo... É assim? - perguntou irritado e magoado.

- ...

- Você não quer fazer sexo comigo, você quer fazer sexo, não importa com quem!

Shaka emudeceu mais uma vez.

- Que merda, Shaka! Achei que... Eu achei... Ai, como sou imbecil! - esbravejou levantando da cama e sairia do quarto se o anjo não tentasse correr atrás dele e acabasse caindo aos pés da cama.

Ikki se voltou pra ele que se apoiou em suas pernas, tentando se levantar.

- Ikki, eu amo você, me perdoe... – pediu, mesmo sem entender porque pedia – Eu não entendo muito bem as coisas... E... ai! Minha cabeça está doendo muito...

- Eu quero que você morra, anjo do inferno! - gritou Ikki possesso se libertando dos braços dele e saindo do quarto.

Shaka deixou os braços cair ao lado do corpo, derrotado, olhou para cima sentindo as lágrimas descerem por seu rosto:

"Ah, Zeus, por que me abandonaste?! Eu sempre fui um anjo bonzinho, até... até virar mortal, agora eu só faço tudo errado, só penso em sexo! Só penso no Ikki, isso é uma maldição! Preciso sair desse corpo que me deixar tão louquinho, preciso voltar para o Olimpo onde não tem cerveja pra fazer minha cabeça doer... Ai!

Shaka se arrastou até a cama e escondeu a cabeça embaixo do travesseiro.

"Por que Zeus não me leva de volta? O Shun já voltou, está tudo bem, eu não agüento mais essas coisas que estou sentindo, eu sempre fui organizado e equilibrado, eu nunca chorei em toda a minha existência e aqui já fiz isso tantas vezes! Eu quero ir embora, eu não agüento mais meus sentimentos pelo Ikki..."

- Você quer mesmo me deixar? - ele ouviu a voz do protegido e ergueu a cabeça, enxugando o rosto, não percebera que falava alto.

- Ah, Ikki, você estava aí, pensei que tinha ido embora... – disse constrangido – Já falei que nunca o deixaria, estarei sempre com você, só que a vida mortal está sendo demais pra mim, ser humano é muito difícil.

- Ah, que bom que sabe.

- Ikki, eu estou cheio de sentimentos em meu coração e não sei como lidar com eles e meu corpo... Meu corpo não me obedece!

- Como assim? - Perguntou ainda magoado.

- Meu corpo quer ficar perto de você o tempo todo, Ikki! - disse o anjo desolado – Ontem mesmo quando o Saga...

- Kanon!

- Está bem, não grita! Quando o Kanon... Enquanto ele me beijava, eu... eu queria que você me beijasse daquela forma... mas, você não quer.

Ikki emudeceu corando até a raiz dos cabelos, nunca se sentiu tão acanhado. Ninguém nunca conseguiu fazer aquilo com ele, sempre foi seguro e agora, estava daquela forma.

- Shaka...

- Por que você me rejeita? - perguntou o anjo triste.

- É que... não é certo... – disse num fio de voz.

- Então admite que sexo, não é bom.

- Nada disso, sexo é ótimo, só que você é um anjo e vai me deixar em breve e não quero ter mais um motivo pra ficar apegado a você!

Confessou em fim, também não estava agüentando mais o assédio de Shaka, mais um pouco e ele não resistiria. O anjo se calou por um tempo, com uma expressão introspectiva, depois suspirou e disse:

- Entendo você, contudo, não é certo ficar bravo por eu querer experimentar isso com outra pessoa, já que você se recusa.

- Ah, é certo sim! Você é MEU anjo de guarda, meu, entendeu?

- Agora é você que está me tratando como um cachorro que lhe deve obediência!

- E daí? Você faz isso comigo o tempo todo! "Vai, pega o osso, Ikki, isso! Que humano bonzinho você foi!" – caçoou o moreno num tom afetado, imitando o anjo e em resposta recebeu uma "travesseirada" bem no meio da cara.

- Ora, seu... – tornou Ikki se armando com outro travesseiro.

- Não, Ikki, não faz isso, minha cabeça está... – o anjo soprou os fios loiros que caíam sobre seu rosto após o golpe do travesseiro de Ikki – Doendo eu diria...

- Eu pago com a mesma moeda, anjo. – Ele riu.

- Não deveria, estou com dor de cabeça, ainda... – resmungou o loiro se encolhendo na cama.

- Porque bebeu demais.

- E você por um acaso, nunca comete erros? Eu bem sei que os comete o tempo todo.

- Não estamos falando de mim, meu anjo, e sim de um arcanjo celeste que se embriaga.

O arcanjo da paz se jogou na cama com um suspiro e depois ergueu os braços em direção ao protegido.

- Ikki, vamos parar de brigar, me dá um abraço! - pediu manhoso.

Ikki sorriu e o abraçou forte, pesando o corpo sobre o dele sem preocupação.

- Ah, Shaka, como sentirei sua falta... – disse angustiado.

- Eu também, então... Por que não realiza meu desejo?

Ikki suspirou.

- Está bem, eu vou realizar seu desejo, satisfeito? - perguntou erguendo a cabeça para fitar aqueles enormes e brilhantes olhos azuis.

- Agora?

- Não, agora não! - corou Ikki.

- Por quê?

- Ah, Shaka, para com essas perguntar, mais tarde, tudo bem?

- Mais tarde, quando?

- Mais tarde à noite, certo? Vamos a um lugar. – sorriu o moreno e o anjo se conformou, ao menos já havia conseguido que ele concordasse.

No Olimpo:

- Yes! Yes! - Vibrava Hades e Afrodite, fazendo gestos de vitória com as mãos.

- Tenho certeza que o Camus conseguirá impedi-los! - falou Zeus desanimado, pois não tinha certeza de nada.

- Ah, meu caro Zeus, o único empecilho para uma noite de amor desses dois, era o próprio Ikki. Camus e Milo não têm a menor chance! – Foi Afrodite (a deusa) quem falou enquanto enrolava os cacheados fios loiros nos dedos.

- A culpa é toda sua, Afrodite! - gritou Zeus, possesso.

- Minha? - Espantou-se a deusa – Eu não fiz nada, você que criou esses anjos concupiscentes, não eu!

- Mas, foi você que deu a eles tanta beleza, quando pedi para que lhes desse formas, poderia ter caprichado menos, garanto que se o Shaka fosse um pouquinho menos atraente, eu já teria ganhado essa aposta!

- Então, da próxima vez que criar arcanjos, pede para meu "maridinho" * lhes dar uma forma parecida com a dele! - reclamou a deusa e todos os deuses presente imaginaram doze arcanjos baixinhos e deformados.

- Eca! Que horror! - disseram todos de vez.

- Tudo bem, Afrodite, eu prefiro que você continue dando forma aos seres celestes.

A deusa do amor e da beleza sorriu vitoriosa: Sempre foi encarregada das formas e dos nomes dos arcanjos, inclusive um deles, achou tão perfeito, que lhe deu seu próprio nome. Suspirou irritada:

"Dei-lhe toda a beleza e delicadeza de uma rosa, para ele depois me trair, se tornando o amiguinho colorido da bruxa da Hera." Pensava a deusa enciumada.

- Calma, papai, nem tudo está perdido. – disse Atena – Enviarei alguém que impedirá esse sacrilégio.

Todos os deuses olharam para a bela mulher de cabelos lilases e olhos azuis.

- Não, é melhor não perdermos mais arcanjos, filha! - discordou Zeus.

- O enviaremos num corpo mortal, mas manteremos a maior parte dos seus poderes celestes.

- Isso é contra as regras! - reclamou Hades – O acerto é que todos que fossem ajudar deveriam ser mortais e com poucos poderes.

- Isso mesmo, caso vocês descumpram as regras, serei obrigada a fazer o mesmo! - falou a deusa da beleza.

- Como assim? - perguntou a deusa da sabedoria.

- Quem você mandaria para impedir o Shaka? - Indagou Afrodite fingindo desinteresse.

- Ele, o mais fiel... – tornou Atena com um sorriso – Tenho certeza que ele não sucumbiria aos prazeres humanos.

- Mande-o e eu mandarei meu primogênito... – Continuou a deusa loira e todos arregalaram os olhos.

- M-mas, não... você sabe muito bem o que ele é capaz de fazer...?

- Vocês mudaram as regras, agora tudo está valendo! – sorriu Hades encantado com a idéia de Afrodite.

- Pois bem, ainda acho o meu arcanjo muito mais competente, eu aceito, Afrodite, pode mandar seu filho e eu mandarei o meu arcanjo das armas.

- Pois, bem... – disse a bela deusa se retirando da presença dos outros, esvoaçando seu belo vestido azul.

Seguiu para o jardim de Zeus e encontrou o filho deitado displicentemente ao lado de uma fonte e logo se sentou ao seu lado o beijando nos lábios.

- Meu querido, tenho uma missão para você.

- Estou sempre às ordens minha querida mãe e amada amante... – disse o sedutor jovem de cabelos loiros acastanhados.

Afrodite afagou a pele morena do rosto de feições adolescentes.

- Preciso que mais uma vez, vá a terra, dessa vez, preciso de algo ainda mais avassalador.

O jovem arcanjo fez uma careta sapeca.

- Mamãe, sabe que eu sou sempre avassalador, por onde passo deixo minha marca.

- Aioros, por favor, só não vá se apaixonar novamente, lembre-se que, apesar de ser um arcanjo, você é superior, pois é filho de deuses, assim como seu irmão Aiolia o arcanjo do fogo e da ordem*.

- Ah, mamãe, sabe que não sou como Aiolia, minhas paixões são sempre passageiras, pois meu coração é seu.

Afrodite sorriu.

- Então desça com suas flechas e enlouqueça, Shaka, quero que o deixe tão perdido de amor que ele nunca mais queira sair da terra.

O arcanjo assentiu com a cabeça, pegando seu arco e flecha e se aprontando para sua missão.

"Enlouquecer de amor é comigo mesmo, se bem que pelo que tenho ouvido, parece que nossa Estrela sagrada já está bem perdidinho, então, aproveitarei minha estadia em gaia* para enlouquecer todos seus habitantes." Pensava o arcanjo amarrando sua amada faixa vermelha sobre a testa e iniciando sua descida à terra.

Continua...

Notas Finais: Perdão a todos a confusão desse capítulo é que adoro mitologia então para quem não entende disso vou explicar:

Aioros nesse caso representa o deus Eros (Cupido para os romanos) apesar de haver várias versões para o nascimento do mesmo, eu me apeguei a mais conhecida de que ele seria fruto de uma traição de Afrodite a Hefesto, com seu irmão o sanguinário Deus da guerra Ares. Da união da beleza e do amor e da violência sanguinária nasceu Eros, no caso da fic Aioros, um deus que simboliza as paixões descontroladas, a atração sexual (daí vem à palavra erotismo) etc., ele também era amante de Afrodite vivendo assim uma paixão proibida.

Preocupada por Eros ser sempre criança e recebendo conselhos de Métis (deusa da Prudência), Afrodite tem outro filho Anteros (Ah ha Aiolia) deus da ordem.

Tífon é um Deus primordial, filho de Gaia (terra) e de Tártaro (inferno) representa o ar na sua mais violenta forma, era inimigo dos deuses (no caso da fic dos arcanjos dourados também).

Observação: Gente, durante a fic toda eu me esqueci de escrever um detalhe, nela a diferença de idade entre Shun e Ikki é de dez anos e outra coisa que algumas pessoas podem estranhar: No Japão a maioridade só é atingida com vinte anos.

Bem, sei que a fic está um pouco séria demais, porém, a partir daqui começarei as loucuras novamente.

Obrigada para quem está acompanhando esse meu surto psicótico.

Suplico que deixem reviews!

Beijos!

Sion Neblina