Capítulo 11
O PASSADO SE TORNA PRESENTE

Fazia frio em Hogsmead e Harry sentia o vento cortante do fim de tarde no rosto. Seguia os trilhos do Expresso Hogwarts em alta velocidade, calculando sem base nenhuma a que horas provavelmente chegaria em Londres.

A passagem da bruxa de um olho só lhe levara até o porão da loja Dedosdemel, onde Harry aguardou comendo vários caramelos de uma caixa próxima, um momento seguro para se esgueirar pela porta e fingir ser um dos fregueses. Assim que conseguiu isso, correu até a Estação de Hogsmead, impulsionou a vassoura e começou a rumar em direção ao conserto e melhora do mundo.

Era o que sinceramente seu coração desejava.


Lily Potter, viúva de mais de uma década, tomava seu chá da noite como costumava fazer todos os dias antes de dormir.

Naquela noite em especial, sentia o coração pesando. "Não que ultimamente não esteja sempre assim – pensou ela – em tempos de guerra essas coisas acontecem sempre mas é que... ah, bobagem!".

A verdade era que sentia falta de James. Sentia uma falta desesperada de James em momentos como aquele, quando estava preocupada ou aborrecida, tomando chá antes de dormir e ele vinha com aquelas idéias mirabolantes...


- Não posso deixar que você fique com essa cara! – exclamou James levantando-se do sofá de um pulo só.

- Que cara? – perguntou Lily bebericando o chá de hortelã.

- Como assim que cara? Essa, oras! A nossa vida inteira está prestes a mudar radicalmente e você fica aí com essa cara de eu-sou-Lily-Evans-a-monitora-certinha-da-Grifinória-e-quero-que-você-maroto-desprezível-saia-daqui-agora! – ele fez uma uma careta seguida de uma imitação cruel de Lily nervosa.

- James! – exclamou ela com olhar de censura.

- É o meu nome, não é? – ele riu – já sei o que vou fazer para você se animar um pouquinho!

E saiu correndo.

Lily bebeu o restante do chá e já estava indo para o outro quarto verificar se Harry estava dormindo bem quando se deparou com um James entrando no quarto cantando ao som de uma música que vinha do andar de baixo...

We're caught in a trap

I can't walk out

Because I love you too much baby

- O que é isso, James?

- Oras, não é você que gosta dessas músicas trouxas e vive dizendo que aqueles besouros são melhores que os Duendeiros? – ele levantou a sobrancelha – pois então, agora estou dedicando essa música especialmente para você...

- Essa música é do Elvis Presley, James – explicou Lily rindo – não dos Beatles.

A explicação não pareceu fazer muita diferença a James, que continuou cantando e dançando ao som de Suspicious Minds.

Why can't you see

What you're doing to me

When you don't believe a word I say?

- Oh Lily, não seja assim rabujenta. Venha, dançar comigo – James chegou perto dela, um sorriso malicioso bailando nos lábios.

- Mas Harry vai acordar com esse barulho todo! – exclamou ela tentando se afastar.

- Que nada – falou James – ele é um menino bonzinho e sabe que sua mãe precisa se divertir.

- Ah, Jimmy – fez Lily tentando se desvencilhar.

- Eu já disse o efeito que dá quando você me chama de Jimmy? – ele murmurou no ouvido dela – por favor Lily, dance comigo... Porque agora tudo vai ficar bem...

- Eu não sei do que você está falando e acho que não... – a voz dela morreu e Lily parou de fingir que estava resistindo e foi dançar com James.

Oh let our love survive

Or dry the tears from your eyes

Let's don't let a good thing die

When honey, you know

I've never lied to you

Mmm yeah, yeah

A Lily de anos depois se lembrava daquela cena enquanto tomava o chá da noite e parecia ainda sentir, com saudade, o gosto daquele beijo depois que a música parara de tocar...

- Meu querido James – murmurou ela limpando delicadamente uma lágrima no canto dos olhos – eu ainda te amo tanto...

A campainha tocou e ela forçou uma expressão mais severa no rosto. Pegou a varinha em cima da mesinha e saiu da sala a passos lentos. Ao chegar na porta do hall, olhou através do olho-mágico e quase caiu para trás quando viu que era seu filho Harry na soleira da porta.


- Mas meu querido, por favor, me diga alguma coisa!

Harry encarava sua mãe (que agora tentava de todas as maneiras possíveis aquecê-lo com um cobertor grosso, alimenta-lo e tirar a poeira de suas roupas ao mesmo tempo) abismado. Só tinha visto Lily através de fotos e outras imagens confusas mas na sua opinião, uma fotografia não lhe fazia justiça. Ela era muito mais bonita pessoalmente.

Não tinha mais os cabelos espessos, compridos e brilhantes; eles agora estavam mais curtos e discretos, mas os olhos eram os mesmos: grandes, verdes e brilhantes. Aqueles olhos que todos diziam parecer tanto com os de Harry... Agora ele discordava. Os de Lily eram muito mais bonitos que os seus.

- O que você está fazendo aqui, Harry? Querido, por favor me fale o que aconteceu? Aconteceu alguma coisa em Hogwarts? – o olhar dela agora era de pura preocupação – com Dumbledore? Você está okay?

- Estou, mãe – respondeu ele maravilhado com a oportunidade de poder pronunciar a palavra "mãe" numa situação com aquela – está tudo bem, comigo. Não se preocupe. Não aconteceu nada no castelo e eu estou inteiro, então não tem porque se preocupar.

Harry pensou que Lily fosse abraça-lo ou mandar que ele fosse dormir, algo que a Sra. Weasley provavelmente faria, mas ela se afastou alguns centímetros, cruzou os braços e colocou uma expressão dura no rosto quando disse:

- Harry James Potter, o que você pensa que está fazendo? Fugir do castelo dessa maneira, no meio da noite, voando numa vassoura... os trouxas poderiam ter te visto! Além do mais, que susto você me pregou! Ou você acha que é fácil ver seu próprio filho do lado de fora de casa, todo sujo e gelado? Você não é mãe, então não sabe do que estou falando e agradeça por não ter esse tipo de preocupação... Quase me matou... eu que pensei que poderia ser um Inferi ou qualquer coisa pior. Sabe em que tempos vivemos e está aí, fazendo estripulias... O que você aprontou em Hogwarts dessa vez? Sabe, você lembra assustadoramente seu pai!

Sem conseguir articular uma palavra sequer, Harry ficou encarando a mãe. Então era assim que Rony se sentia quando a Sra. Weasley lhe dava uma bronca? Suspeitava seriamente que sim.

- Estou esperando uma resposta justificável, mocinho...

Foi aí que Harry percebeu que não havia preparado nada para se justificar. Nunca tivera uma mãe, então não havia sequer passado por sua cabeça que ela provavelmente iria querer ouvir algumas explicações pelo fato de seu filho ter fugido da escola no meio do semestre.

- Mãe... – começou Harry um tanto sem jeito – a verdade é que eu estava... é que eu estava... na verdade eu...

"Diga a ela que você está doente – falou aquela outra voz dentro dele – diga que está realmente mal e se dê tempo para encontrar algo melhor depois".

Harry tremeu ligeiramente quando uma cena toda violou sua mente, mostrando ele mesmo deitado numa cama, fingindo estar mal, enquanto Lily lhe servia bolinhos. "Eram de aveia – pensou Harry um tanto assustado – os bolinhos eram de aveia. Por que eu consigo lembrar disso?".

- O que foi, querido? – perguntou Lily franzindo a testa enquanto colocava a mão na testa do filho para medir sua temperatura – que espasmo é esse?

- Estou doente, mãe – falou Harry tentando usar o máximo de sua interpretação – realmente doente.

- Ah, por Merlin, Harry! – exclamou Lily ainda de cara feia – por que não me disse isso antes? Vamos, já, direto pra cama!


Lily cuidou de Harry até pensar que este caíra no sono.

Mas Harry não conseguia dormir. Estava maravilhado demais para conseguir dormir. Ele tinha um quarto. Não um quarto qualquer que algum parente tivesse lhe dado de má vontade, mas um quarto dele, com as coisas dele, que alguém tinha dado para ele porque o amava de verdade. Acabou descobrindo que talvez o outro Harry não fosse tão diferente dele próprio como imaginara...

O quarto era cheio de coisas que Harry gostaria que realmente estivessem em seu outro quarto. Pôsteres de times de quadribol (tudo bem que do time errado), fotos de amigos, livros pitorescos sobre quadribol, revistas em quadrinhos... tudo de um jeito organizado que Harry teve certeza de que só estava daquela forma porque Lily arrumara depois que o filho fora para a escola.

"É a minha casa. De verdade".

Não era aquela Godric's Hollow morta e cheia de poeira. Era uma casa viva, onde ele tinha uma vida inteira ao lado de sua mãe. Um lugar para chamar de lar.

E pela primeira vez sentiu que talvez aquela nova vida não fosse tão ruim assim.