Capítulo XI – Feliz Natal

Entre os sonserinos havia algo que ninguém imaginava que houvesse: união. Por mais controverso que isso possa parecer, a união dos sonserinos era algo praticamente indestrutível. Apesar de falsidades, passadas de pernas, diferenças, no final das contas, acabavam unidos, mais do que qualquer outro grupo de alunos saídos de Hogwarts. Essa união vinha de algumas questões tão antigas quanto as paredes da escola, desde que Hogwarts era Hogwarts se excluíam ou eram excluídos por natureza. A conduta tão falada e mal falada dos alunos da casa corria os ouvidos de cada aluno muito antes que pusesse os pés na escola, tanto que, se o aluno, por ventura, fosse parar na casa da serpente, imediatamente receberia olhares tortos de boa parte da escola e se fecharia atrás das paredes do salão comunal. Se fosse parar em qualquer outra casa imediatamente escutaria dos alunos mais velhos comentários, ainda piores do que os que recebera de sua família sobre a Sonserina, e trataria de odiar e manter distância de qualquer aluno que pertence a tal casa. Não que não existisse amizades entre sonserinos e alunos de outras casas, até existiam, mas ou não resistiam às rivalidades históricas ou eram tão poucas que não chamavam atenção.

Assistir a escola inteira se voltar contra ela em competições, como a disputa pela taça das casas e o torneio de quadribol, saber que era odiada pela maioria dos alunos das outras casas, fez a Sonserina se fechar cada vez mais, fez com que cada sonserino necessitasse cada vez menos dos alunos das outras casas, criando uma união inimaginável dentro da casa, acompanhada das atitudes altivas, da indiferença, e da frieza dos membros da casa. Hoje, a união da Sonserina é algo natural. Um sonserino não precisa de outras pessoas, exceto os próprios sonserinos.

E era por isso que Draco, depois de tanto tempo desaparecido do convívio de seus colegas de casa, naquele momento se encontrava ao portão da casa de Pansy Parkinson. Depois de seu encontro com Elizabeth, ao chegar em casa recebera uma coruja sendo convidado para a festa de Natal de Pansy. Estava transtornado demais para pensar em festas.

Matar Elizabeth não fora como os outros assassinatos que cometera. Matar Elizabeth teve um gosto diferente. Era engraçado, nas outras vezes, Draco recebia algumas centenas de milhares de galeões, saía de casa com a cabeça em matar alguém por esse dinheiro, e matava. Mas matava com a mesma frieza que matava um inseto. Matava e ia embora, largava o corpo lá para algum pobre infeliz achar, e voltava para casa pensando em receber a grana e desaparecer. Mas matar Elizabeth tinha sido outra coisa. Pela primeira vez Draco sabia que tinha matado alguém que realmente merecia morrer. E, no entanto, isso não conseguia fazê-lo se sentir bem, ou conseguia fazer com que tivesse aquele mesmo sentimento de antes, de ter matado um inseto, de ter, apenas, diminuído o número de pessoas inúteis no mundo. Elizabeth tinha sido um assassinato mais útil, tinha sido como matar um verme parasita, uma pessoa que fazia – ou faria – mal a alguém. E, no entanto, Draco se sentia atordoado.

Depois de ficar muito tempo sentado imóvel em sua janela, olhando a neve que cobria o jardim, Draco não conseguia achar o porquê daquele sentimento. Não conseguia descobrir por que ter matado Elizabeth o incomodava tanto. Por fim, achou a resposta: sabia que tinha matado alguém que merecia morrer. Mas Harry Potter não sabia. Para Potter, sua melhor amiga tinha sido assassinada friamente por algum louco que merecia Azkaban até o fim dos tempos – e Draco se perguntava se realmente não merecia Azkaban até o fim dos tempos. De alguma forma, Harry tinha que saber que Elizabeth não era alguém que merecesse seu sofrimento. E então, Draco se perguntava, por que Harry incomodava tanto seus pensamentos? Por que Harry o fazia se sentir, de certo modo, culpado por ter acabado com alguém como Elizabeth?

E então, ele se lembrava que tinha matado Elizabeth por Harry Potter, e mesmo que negasse até o fim de seus dias que Harry não importava, algumas atitudes servem como palavras não ditas. E matar alguém, naquele caso, era quase um grito não dito.

Por fim, chegou à conclusão que o melhor a fazer para tirar Harry e Elizabeth de sua cabeça era ir a tal festa de Pansy, passar o pouco tempo que separava o dia em que se encontrava do Natal arrumando roupa, comprando algum presente que daria a ela, ocupando a mente com qualquer outra coisa.

Pansy abriu a porta com um sorriso de orelha a orelha, jogando-se aos braços de Draco e distribuindo beijos e beijos em seu rosto, ao que retribuiu com a maior cara de tédio que tinha, empurrando o presente para as mãos dela e passando pela porta sem maiores conversas, para cumprimentar os outros convidados. Pansy era loucamente apaixonada por Draco, desde os treze, quatorze anos, e nunca se cansava de tomar foras. Ela sabia muito bem que Draco não tinha interesse nenhum por ela maior do que noites curtas de sexo. Era sempre assim, Pansy só tinha vez com Draco quando estava sozinho, carente de sexo, aí, ela aparecia, tomava a cena e tinha seus momentos de alegria. Sempre que estava sozinho, sem relacionamento fixo, Pansy sabia que poderia procurá-lo, que até mesmo ficaria feliz em vê-la. Exceto nessas condições, ela era um incômodo. A grande esperança de Pansy era que, um dia, Draco ficasse sozinho para sempre, e que tivesse que suprir sua carência para sempre e, assim, acabasse descobrindo que gostava dela, que se casasse com ela. Pansy bem sabia que isso jamais aconteceria, mas sonhar nunca era demais.

Draco se serviu de vinho e por muito tempo passeou pela casa, apenas cumprimentando os convidados, reencontrando pessoas que há muito tempo não via, encontrando-se com alguns que simplesmente vira por aí, outros que desconhecia. Por fim, sentou-se na sala, junto com aqueles com quem estudou.

- Mas quem diria, Malfoy está em Hogwarts! – disse um dos amigos de Draco em tom de deboche. Ele não fez expressão nenhuma em resposta, apenas tomou um gole de seu vinho.

- Quantos milhões a velha bruaca da McGonnagal está te pagando pra te prender com menos de quarenta anos dentro daquele lugar infernal? – perguntou uma jovem bela loira de quem não se lembrava o nome.

- O suficiente para me fazer está lá.

- Você realmente deve estar mal de dinheiro – disse o mesmo que iniciara a conversa, arrancando risos de todos, exceto de Draco, que parecia muito mais entretido com seu vinho do que com a conversa.

- Na realidade eu fui para lá porque está entediado.

- Eu, quando estou entediada, faço qualquer coisa, menos ir trabalhar em Hogwarts – disse Pansy, entrando no cômodo com a garrafa de vinho, servindo novamente Draco e a si própria.

- Pansy tem razão, Draco. Hogwarts é muito fim de carreira – disse a jovem loira.

- Talvez Malfoy esteja no fim de sua carreira – acrescentou aquele que tinha começado a conversa, arrancando mais risadas que já começavam a irritar Draco.

- Eles têm razão, Draco – disse Pansy, sentando-se ao braço da poltrona na qual ele estava sentado. – Ainda mais sabendo que Potter está lá.

"Beba, Draco. Beba, senão você não vai se divertir", pensava, tomando de uma vez só todo seu vinho e estendendo a taça para que Pansy o servisse novamente.

- O papo está muito interessante mas eu já me cansei dele. Vou dar uma volta pela casa – disse finalmente, levantando-se da poltrona. A sala rodou por um instante. O vinho era bom.

Andando a esmo pela mansão de Pansy, Draco se perguntava o que mesmo tinha o motivado a ir ali. Algo o dizia que não fazia parte mais daquele grupo, que aquela Sonserina dos tempos de Hogwarts não era mais lugar para ele, que se assemelhava muito mais a um sonserino do tipo de Elizabeth do que um sonserino de sua idade, como Pansy e todos aqueles que se encontravam ali. Mas só se comparar com Elizabeth o dava náuseas; por mais que soubesse que a comparação era corretíssima. E foi nesse passeio sem destino pela casa, que se movimentava levemente para cima e para baixo graças ao vinho, que Draco foi abordado por aquele homem.

- Senhor Malfoy?

- Sou eu – disse Draco, virando-se para ver quem o chamava. Um homem baixo, vestido como um trouxa estava encostado no batente da porta de um cômodo escuro. – E o senhor é?

- Uma pessoa interessada em falar com o senhor. Poderia entrar aqui para que possamos conversar com mais privacidade?

Draco o olhou de cima abaixo, procurando em sua mente alguma informação sobre aquele homem. Nunca o tinha visto na vida, nem mesmo nas maiores reuniões de sonserinos, nas quais era apresentado a todos como "o último Malfoy". Nunca o tinha visto em seus negócios, nem nos escritórios das Serpentes Azuis – que Draco já se considerava capaz de entregar boa parte da liderança, visto que vivia fazendo negócios com eles –, nem em lugar algum que pudesse se lembrar. Hesitou por um instante, antes de seguir o homem para dentro do cômodo.

- Senhor Malfoy, eu queria contratar os seus serviços – disse o homem, logo após fechar a porta. Draco ficou um instante olhando para ele sem entender, o vinho atrasando seu raciocínio.

- Meus... Serviços? – disse num tom de voz que não deixava claro nem se entendia, nem se sabia do que o homem estava falando.

- Sim, seus... Serviços.

E Draco teve certeza: o homem queria que ele matasse alguém. Repentinamente, a idéia o trouxe um asco sem fim, como se matar alguém fosse um absurdo sem fim; apesar de já o ter feito diversas vezes. Repentinamente, odiou estar tendo aquela conversa, sendo que sempre gostou da parte das negociações. Como um filme, lembrava de Elizabeth morrendo, do sangue dela espirrando pelas paredes, da vingança que tivera contra ela e que, no entanto, naquele momento o deixava nauseado e transtornado.

- Como você ficou sabendo disso?

- Contatos, senhor Malfoy. Contatos. Seu nome é famoso no submundo.

- Quem lhe informou sobre mim?

- Um amigo nosso em comum que...

- Quero nomes, senhor.

- Não darei nome algum, senhor. Prometi que não contaria quem são meus contatos, e não contarei.

- Então não há negociação – disse, levando a mão à maçaneta da porta do cômodo.

- Eu pago bem, senhor Malfoy. Garanto-lhe que é uma proposta irrecusável.

- De propostas irrecusáveis o mundo está cheio.

- O valor é muito alto, senhor Malfoy. São milhões de galeões.

- Nem que você me desse todas as moedas que estão em Gringotes, senhor – disse, abrindo a porta, por fim. – Tenha uma boa noite e, um Feliz Natal.

Draco saiu do cômodo com a cabeça em turbilhão. Era a primeira vez que recusava um trabalho dessa forma, sem negociação, sem conversa, sem sequer saber quanto ganharia e quem teria que matar. E algo o dizia que assim seria para sempre, que jamais conseguiria matar alguém novamente, Elizabeth o assombraria para todo o sempre, simplesmente porque a tinha matado por iniciativa própria, não porque era um serviço. Nunca antes tinha matado alguém porque queria matar, só porque receberia por isso. Atordoado, serviu-se de mais vinho e voltou a andar a esmo pela casa. Talvez encontrasse Pansy ou alguém para fazê-lo companhia e entretê-lo um pouco naquela festa insuportável. E de tanto pensar em encontrar Pansy a encontrou, ao pé da escada.

- Pansy, Pansy – chamou Draco, sem saber por quê. Ela se virou e foi até ele com um sorriso. Draco a olhava... Pansy era bonita, ele sempre se esquecia disso.

- O que foi, Draco?

- Nada, nada – disse ainda tonto, sem conseguir raciocinar direito. – Eu só queria que você me fizesse companhia.

- Companhia? – disse num tom malicioso, aproximando-se.

- É, companhia.

- Você está bem, Draco? – perguntou, passando a mão pelos cabelos de Draco devagar. Ele estava se odiando, ficava tão idiota bêbado, parecia que não sabia responder a nada.

- Estou, estou. Eu só...

- Está um pouco bêbado. Eu sei – completou, aproximando-se ainda mais. – Acho que você bebeu vinho demais – e, neste momento, Pansy já tinha os lábios muito próximos dos de Draco.

- Que culpa tenho eu se o vinho que você oferece para os seus convidados é muito bom – respondeu, entrando no jogo de Pansy e a abraçando pela cintura.

- Eu tenho coisas melhores para oferecer para você do que vinho, Draco.

- Tem? E se eu quiser saber o que é?

E então Pansy beijou Draco. E, em pouco tempo, os dois já subiam as escadas da casa em direção ao quarto dela. Logo estavam se beijando violentamente em cima da cama, em pouco tempo já tiravam as roupas. Com Pansy e Draco as coisas eram rápidas assim, sem muita conversa, com muita ação. E Draco fazia tudo por instinto, tudo sem se dar muito conta de que estava numa casa cheia de gente, na cama de Pansy, e que há pouco tempo tinha recebido uma proposta para matar alguém. Beijava o pescoço de Pansy sem nada pensar, enquanto ela arranhava suas costas.

Puxava-o pelos cabelos desordenados, arranhava-lhe a pele, mordia-lhe o pescoço, fechava os olhos e se esquecia do mundo. Era incrível como os momentos nos quais estava com Harry faziam o mundo parar. Estar com Harry era um momento transcendental, no qual nada mais importava. Não importava nem dia, nem noite, problema, crime, morte, Elizabeth, vinho, nada importava. Quando estava com Harry, estava bem. Foi então que Draco abriu os olhos, e viu que não estava com Harry.

Estava com Pansy.

De repente tudo voltou à sua cabeça, enquanto olhava estático o sorriso de satisfação de Pansy deitada na cama. Lembrou-se de Elizabeth, lembrou-se de Harry, lembrou-se do homem pedindo seus serviços, lembrou-se do vinho, lembrou-se de Pansy. Não, Draco jamais seria capaz de fazer aquilo, jamais seria capaz de passar a noite com Pansy, jamais seria capaz de fazer sexo com Pansy, nem sabia como tinha sido capaz de beijá-la.

Levantou-se sem explicações, deixando Pansy atônita na cama, e começou a recolher suas roupas no chão, sem nada explicar. Pansy até tentou perguntar o que estava acontecendo, aonde ele ia, mas nada respondeu. Murmurava algumas coisas ininteligíveis para si mesmo e fazia que não com a cabeça. Já estava com sua roupa quando Pansy resolveu colocar seu vestido também e segui-lo. Mas não houve tempo, ele saiu do quarto como um furacão, desceu as escadas como um furacão, passou pela sala como um furacão, ignorando perguntas e qualquer frase dirigida a ele e, assim que passou da porta da casa, desaparatou de volta para sua casa.


Era incrível como Draco estava feliz em voltar para Hogwarts depois de todos aqueles dias turbulentos. A lembrança da morte de Elizabeth ainda não tinha abandonado sua cabeça, apesar de ter perdido um pouco de espaço em seus pensamentos depois do acontecido na casa de Pansy. Era algo praticamente surreal o fato de que tinha ido para a cama com ela e, no meio do caminho, passou a acreditar que estava com Harry até dirigir o olhar diretamente para ela; nem todo o vinho que tinha tomado servia como justificativa para aquilo. A maneira como Harry estava invadindo seus pensamentos, direta ou indiretamente, estava o incomodando muito. Até mesmo quando Draco ia para cama com outra pessoa Potter parecia invadir seus pensamentos. E aquilo já era passar dos limites, já era mais, muito mais, do que tinha se permitido. Mas aquilo já estava fora do controle dele, fora das suas escolhas.

Parado em frente ao portão de Hogwarts, com a cabeça encostada nas grades, olhando para o jardim coberto de branco pela neve, Draco se perguntava o que deveria fazer assim que entrasse. Se deveria procurar Harry ou deixar que o procurasse. Uma tranqüilidade já tinha: tinha arranjado sua maneira de fazer Harry ficar sabendo de toda a verdade sobre Elizabeth, só se perguntava se o ideal era estar ao lado na hora para garantir que Potter seguiria a linha de raciocínio correta.

Quando Hagrid abriu os portões Draco nada falou - para a surpresa de Hagrid, acostumado com as grosserias diárias -, apenas seguiu para seu quarto, deixou suas malas e passeou a esmo pelo castelo, decidindo o que fazer. Tinha mandado a carta um minuto antes de desaparatar de sua casa para os portões de Hogwarts e, provavelmente, não tinha chegado até então, talvez fosse melhor preceder a carta. Então, decidiu ir até o quarto de Harry.

Encontrou Harry sentado na janela, encostado no vidro, com a mão na cabeça, olhando para fora silencioso. Sobre a mesa vários papéis com contas incompreensíveis. A lareira estava acessa, com um pote de Pó de Flu do lado e um pequeno rastro no chão, deixando claro que Harry o tinha usado. Sobre a cama, Draco pôde reconhecer a carta que tinha escrito.

- Potter?

Como se saísse de um profundo devaneio, Harry Potter tirou os olhos do jardim e olhou para Draco, parecendo só ter notado naquele minuto que o outro estava ali. Pulou da janela num salto e andou até ele meio sem segurança, sem estar certo do que estava fazendo. Sem nada dizer, abraçou-o, fraco, sem certeza, com medo de passar da tênue linha que separava a saudação do sentimento. Draco ficou por um instante sem ação, com as mãos de Harry encostadas tão de leve em suas costas que nem pareciam estar ali, antes de erguer também os braços e abraçá-lo, com aquela mesmo incerteza com a qual tinha sido abraçado. Naquele instante, sentiu-se seguro, como se ali, naquele abraço, nem Elizabeth, nem Pansy, nem ninguém pudesse atormentá-lo.

Por fim os dois se separaram e se olharam por um instante nos olhos. Harry estava abatido, tinha olheiras profundas, como quem muito tinha chorado e pouco tinha dormido, uma expressão séria, pesada, como se, de repente, tivesse que carregar o mundo nas costas. Permaneceram em silêncio por muito tempo, até que Harry aproximou os lábios dos de Draco, mas antes que os alcançasse, o loiro rapidamente se afastou, como quem não sabia o que estava por vir, e andou até a parede, parecendo que repentinamente tinha notado algo muito interessante ali.

- Você está bem, Potter? Me parece que você andou carregando o mundo nas costas – perguntou no maior tom de desinteresse que pôde, sem se virar para olhá-lo.

Harry permaneceu onde estava por alguns instantes, esperando que Draco voltasse e o abraçasse novamente, e o beijasse, e passasse as mãos em seus cabelos, e o chamasse de Harry. Mas ainda estava aprendendo a sempre esperar o mínimo possível de Draco Malfoy. Por fim, voltou para perto da janela e olhou para fora mais uma vez, antes de começar a dizer, também sem olhar para Draco.

- Elizabeth morreu, Draco.

- Elizabeth? Aquela sua amiga?

- Não sei mais se posso chamá-la de amiga – disse Harry, virando-se para olhar Draco, que estava sentado na cama, com cara de quem só perguntava tudo aquilo para ter algum assunto.

- Não pode? Por que não pode? Morreu como?

- Assassinada. Alguém entrou na ala da presidência da empresa e a matou com um Sectusempra.

Draco ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa, apesar de, dentro dele, um rebuliço acontecer só de se lembrar da cena da morte da secretária, por suas mãos.

- Assassinada, então? Nossa – disse, mantendo o tom de indiferença.

- Pois é, Draco. Eu passei essa droga de férias de Natal inteira chorando por causa dessa mulher. Fui até Londres providenciar as coisas para o enterro dela; ela não tinha família que pudesse fazer isso; me desgastei física e psicologicamente, não dormi, não comi, passei a véspera de Natal enfiado numa funerária, sem uma viva alma que pudesse me ajudar com o enterro de Elizabeth.

E então, Draco pensava em como o feriado de Natal dele também tinha sido e intimamente ligado com o de Harry..

- Mas então... Então eu descobri que essa vaca queria era o meu dinheiro.

- Como? – perguntou, fazendo o maior tom de surpresa que conseguiu.

- É, Draco. Eu recebi essa carta, essa que está aí do seu lado na cama, não está assinada, nem nada, e eu não faço a menor idéia de quem me mandou.

- E o que ela diz? – pegou a carta e correndo os olhos por ela, tentando ver se tinha cometido algum erro em algum lugar dela.

- Basicamente, que Elizabeth, em julho, contratou alguém para me matar e ficar com meu dinheiro.

- Como é? – aumentou o tom de surpresa na voz.

- Pois é, Draco. Ela tanto queria meu dinheiro que mandou me matar.

Era a hora de dissimular.

- E você acreditou nessa carta absurda? – perguntou, erguendo a carta e balançando-a no ar.

- Na realidade, assim que eu abri e li, eu achei tudo um grande absurdo. Mas a carta tinha uma riqueza de detalhes tão... Tão... Absurda, que eu não consegui não desconfiar. Horários de encontros entre ela e o tal do assassino, as quantias pagas; todas retiradas do meu patrimônio.

- Podem ser informações falsas.

- Eu também pensei isso, mas resolvi checar. Checar nunca é demais. Entrei em contato com Gringotes agora há pouco, pedi informações sobre as minhas contas nesses dias que, teoricamente, Elizabeth tirou dinheiro para pagar o assassino e, realmente, quantias muito parecidas, se não idênticas às escritas nessa carta, tinham sido sacadas por Elizabeth. Ainda assim, ela sempre teve livre acesso às contas da empresa. Aí eu entrei em contato com o assessor da presidência. Todo dinheiro sacado das contas empresa deve ser descrito em relatórios dados ao assessor da presidência. Mas não tinha relatório algum sobre esse dinheiro: Elizabeth o sacou e o usou de uma maneira que a empresa não deveria ficar sabendo, no caso, contratando um assassino profissional.

- Isso ainda está muito absurdo, Potter.

- Calma, eu não acabei. A carta relatava sobre minhas relações com William.

- Furion?

- Sim. Não relatava, na verdade, apenas dizia que, na noite em que ele morreu, quem deveria ter morrido era eu.

A jogada de mestre de Draco para convencer Harry. Pura mentira – por mais que Draco tivesse pensado em matar os dois juntos naquele dia –, mas sabia que aquilo convenceria Harry.

- Como o assassino poderia saber que eu estava na casa do William naquela noite sem a informação de Elizabeth? – disse Harry erguendo os braços exasperado, virando-se e voltando para perto da janela. Draco conteve um sorriso, estava dando mais certo do que imaginou que daria. – Draco, William morreu por minha causa. Eu deveria ter morrido no lugar dele àquela noite, mas ele teve que pagar o preço por mim, e tudo por culpa de uma mulher que eu acreditei ser uma amiga.

- Bem... – começou, já convencido de que tinha conseguido o que queria. – Agora já aconteceu, Potter. Furion morreu? Morreu, mas já faz tempo. E Elizabeth morreu, você não tem mais o que temer.

- Como não? – disse quase num grito, virando-se rapidamente para Draco. – Tem um assassino profissional por aí querendo me matar, provavelmente o mesmo que deu cabo de Elizabeth! Eu não tenho mais com o que me preocupar? – e olhou pela janela novamente, como se esperasse ver uma pessoa com um machado pronta para matá-lo andando pelos jardins de Hogwarts.

- Potter, não tem mais.

- Como não tem mais?

- Ora, se a mandante do crime morreu, por que um assassino o tocaria para frente? Ele, pelo que você me disse, já recebeu uma boa grana e, quando se deu conta de que matar você não é nada fácil, resolveu dar um fim na tal da Elizabeth e ficar com o dinheiro.

- Sei lá eu por quê. Honra, afinal, ele recebeu pra isso!

- Honra, Potter? Honra? Você realmente acha que uma pessoa que mata outras por dinheiro tem alguma honra para zelar?

Harry ficou em silêncio, olhando para Draco como se não tivesse pensando naquilo até então. Por fim, deu de ombros, e voltou para perto da janela.

- O que você vai fazer, Potter?

- Com relação ao quê?

- A isso, oras.

- Se você quer mesmo saber, Draco, eu não vou fazer nada – era tudo o que mais queria ouvir.

- Nada?

- Nada. Do que adianta fazer alguma coisa? Contar para McGonnagal, para ela enlouquecer de medo que alguém venha tentar me matar aqui dentro, e Hogwarts ser fechada? Contar para o Ministério para me dizerem que eu nunca deveria ter saído de casa e de perto dos aurores que colocaram para me proteger? Não, prefiro correr o risco. Ainda mais agora que você me fez pensar que, de fato, não deve haver risco nenhum.

- É, talvez você tenha razão, Potter – disse, deitando-se na cama e olhando para o teto. Os dois permaneceram um longo tempo em silêncio, Draco milhares de vezes aliviado: aquilo tudo finalmente tinha acabado, finalmente poderia ir embora de Hogwarts e nunca mais voltar. Não havia mais secretária, nem Harry Potter para morrer, nem nada. Mas então, lançou um olhar para figura de Potter pensativo próximo a janela, e um pensamento involuntário correu sua cabeça: "É, talvez eu possa ficar aqui mais algum tempo..." Mas seus pensamentos logo foram cortados pela voz de Harry.

- Mas tem uma coisa que não faz o menor sentido para mim, ainda.

- O que é, Potter? – disse Draco numa voz profundamente entediada, sem olhar para ele.

- Por que diabos Elizabeth insistiu tanto para eu vir para Hogwarts se, ao menos em teoria, aqui dentro é muito mais difícil de se matar alguém do que lá fora?

- Ela insistiu? – disse Draco mantendo a voz entediada.

- Insistiu, e não foi pouco. Sabe, eu já queria vir para cá, mas eu estava começando a desistir, no comecinho de julho. Mas ela insistiu tanto, falou tanto que seria bom, e que eu tinha que vir, que eu acabei vindo boa parte graças à pressão dela, e isso não faz sentido.

- É, realmente, não faz nenhum – disse, tentando cortar a conversa.

- A não ser que ela acreditasse que, aqui dentro de Hogwarts, o assassino tivesse mais chances de me matar.

- Ah, claro, Potter. Assassinos em Hogwarts são coisas super comuns, sabe? Quando eu estava subindo para o seu quarto eu cruzei com três pelos corredores – disse em tom irônico.

- Não faça brincadeiras idiotas com isso, Draco.

- Não me chame de Draco.

- Mas isso não faz sentido – continuou Potter, ignorando totalmente o comentário. – Não me aconteceu nada aqui e...

Silêncio. Um silêncio profundamente incômodo invadiu o quarto, enquanto Harry parecia terminar de formular seu raciocínio, e Draco sentava-se na cama.

- Aconteceu algo comigo aqui!

- O que aconteceu, Potter? – perguntou em tom de impaciência.

- O incêndio no meu antigo quarto.

- Ah, por favor, Potter, que tipo de assassino mata alguém com um incêndio?

- Um assassino que tem que fazer o crime parecer um acidente, o que, provavelmente, era a intenção de Elizabeth. Com certeza ela seria uma das suspeitas imediatas se eu morresse de uma maneira que deixasse claro que eu fui assassinado. Não, não, tinha que parecer um acidente.

- Flitwick examinou seu quarto, Potter, e não achou nada que evidenciasse um incêndio criminoso.

- É claro que não! Quem planejou o crime sabia que uma perícia mais profunda aconteceria no meu quarto.

- Potter, como alguém entraria no seu quarto para pôr fogo nele? É pra que coisas como essas não acontecem que cada quarto em Hogwarts tem senha.

- Ahn... É. É... Você tem razão.

Os dois fizeram silêncio de novo e Harry voltou para perto da janela devagar.

- Além do mais, que tipo de assassino tentaria te matar só no começo do outono, e somente uma vez? – disse Draco, insistindo que desistisse daqueles pensamentos.

Harry nada respondeu, continuava olhando pela janela, a cabeça sem parar de funcionar nem por um instante, como estava desde que recebera a carta anônima. De repente sua mente deu um estalo e virou para trás rapidamente, falou tão alto que alguém no corredor seria capaz de ouvir.

- Espere, você tinha a senha do meu quarto!

- O quê! – disse Draco, usando seu melhor tom de indignação.

- É claro, é claro... Tudo faz sentido – disse Harry para si mesmo, a cabeça baixa, fazendo movimentos repetitivos com a mão, como que terminando de processar um raciocínio.

- Do que você está falando, Potter?

- Tudo faz sentido! Como você sabia de William e...

- Eu sabia de seu relacionamento com Furion porque eu tinha amigos em comum com ele e...

- Você tinha amigos em comum o caramba! – interrompeu num berro. – Na noite que ele morreu você tinha ido lá me matar! Errou o alvo, matou ele, mas ficou com a informação de que eu tinha um caso com ele!

- Você só pode estar ficando louco – disse, deitando-se novamente na cama.

- Levante agora da minha cama! – o outro disse num berro histérico, antes de se movimentar freneticamente pelo quarto e voltar a falar. – Por isso você me agarrou na sua sala, por isso você fez tanta questão que fosse eu a te ajudar com a aula, você precisava se aproximar de mim de modo a conseguir um assassinato eficiente e, sabendo que eu namorei um homem, podia muito bem usar isso a seu favor, sabia que eu não te repeliria tanto assim, ao menos no que se tratava de sexualidade.

- Cale a boca, Potter, e preste atenção no que você está falando! Você está me acusando de ter tentado te matar?

- Eu estou afirmando que você tentou me matar.

- Eu não preciso ouvir isso!

- Como toda noite você ia embora do meu quarto, eu jamais acharia estranho acordar e não te encontrar, por isso, então, era fácil pôr fogo no meu quarto numa noite fria, que todos acreditariam que eu coloquei a lareira forte demais. E você ainda teve a cara de pau de me levar pra ir dormir no seu quarto no dia seguinte depois do que você fez!

Draco ficou em silêncio, olhava perplexo para Harry. Seu plano perfeito tinha desmoronado. Jamais tinha imaginado que Harry fosse raciocinar até aquele ponto. E simplesmente não tinha respostas, jamais tinha esperado que aquilo fosse acontecer, então, não sabia como reagir, a não ser negar até a morte.

- Bem que Ron disse, bem que Ron disse... E agora está explicado o seu sumiço esses dias do feriado de Natal. Você matou Elizabeth!

- Eu não matei ninguém, Potter. E mesmo se eu tivesse matado, há dois minutos, você parecia muito satisfeito com a morte dela.

- Eu só vou ficar satisfeito, Malfoy, quando você tiver ido fazer companhia para ela no inferno!

- Potter, acorda! Eu passei todo esse tempo com você e você tem cara de dizer que eu queria te matar? – perguntou, levantando-se e tentando segurar Harry pelos braços.

- Me solta! Me solta! Sai daqui, sai do meu quarto, some da minha frente, some dessa escola, some da minha vida! – disse Harry andando para trás e empurrando as mãos de Draco com violência.

- Potter, Potter, me escute, eu... – e tentou tocar Harry novamente.

Mas Harry sacou a varinha e começou a lançar feitiços em direção a Draco, um atrás do outro, dos quais ele tinha dificuldade de fugir e não tinha tempo para pegar a sua varinha.

- SAI DAQUI! SAI DO MEU QUARTO! SAI DAQUI ANTES QUE EU TE MATE!

E, sem opção, atacado por milhares de feitiços de uma única vez, Draco deixou o quarto de Harry, entre perplexo e desesperado. Tudo tinha sido um erro, desde o começo, desde o dia em que aceitara aquele trabalho.