Capítulo 11: "00:00"

Era dia trinta e um de Dezembro. Draco estava vestido. Colocava suas botas, tentava engavetar o medo que sentia dentro de sua mente. Uma máscara branca repousava ao seu lado na cama. Snape o aguardava no andar debaixo. Iria para Hogwarts dali a alguns minutos e iria para matar. Para cumprir a primeira tarefa dada pelo seu mestre.

Por um momento ele encarou suas mãos sobre o colo, que estavam com luvas pretas de couro. Respirou fundo. Pegou sua máscara e sua varinha e desceu as escadas. Viu Snape parado perto da lareira, consultando um relógio.

- Está quase na hora – disse o professor. – Nós vamos fazer o seguinte: Dumbledore foi ao Cabeça de Javali e acho que vai voltar antes da meia noite – contou Snape. – Quando chegarmos, você vai até a Torre de Astronomia e lançará a Marca Negra sobre ela – Draco engoliu em seco, apenas assentindo. – Então deve esperar Dumbledore. Vou ficar vigiando e esperando você. Se demorar, subirei para ver o que houve.

Draco concordou com a cabeça novamente, não conseguindo achar palavras dentro de sua boca para se comunicar. Snape ficou encarando o garoto.

- Só coloque a máscara quando eu mandar – disse. – Se toparmos com alguém no caminho não vai ser bom para eu ser visto com um Comensal dentro de Hogwarts.

- Certo – murmurou fracamente.

- Vamos então – disse Snape, prosseguindo até a lareira.

O loiro apenas obedeceu, sentindo-se afundar mais ainda numa fossa escura de sua mente. Antes de entrar nas chamas, deu um gole no seu cantil.

Sometimes it seems – Ás vezes parece

The world is crashing down on me – que o mundo está desabando em cima de mim

So hard these days – tão difíceis esses dias

With nowhere to turn – sem nenhum lugar para ir

So many lost souls with so much to learn – tantas almas perdidas com tanto para aprender

With no direction, I've lost myself - sem direção, eu me perdi

And this is my cry for help – e esse é meu choro por ajuda

Chasing dreams is all that's left for me – perseguir sonhos é tudo que restou pra mim

Thinking this bottle will set me free – pensando que essa garrafa me libertaria

Os dois saíram da sala de Snape rapidamente e rumaram pelos corredores escuros como vultos sem fazer barulho algum. Eventualmente olhavam para os lados quando cruzavam algum corredor, mas não viram sinal de ninguém. Chegando à escada que levava para a Torre, Snape parou, lançando apenas um olhar breve para Draco, que subiu correndo, colocando sua máscara. Ao chegar, murmurou o feitiço e resolveu esperar atrás da porta.

Seu coração começou a bater num ritmo descontrolado. Tentou acalmar a respiração descompassada, sem obter sucesso. Começou a suar frio e a mão que segurava sua varinha tremia. Pensando agora, Draco imaginou que era muito improvável que conseguisse matar Dumbledore. Talvez quem acabasse morto fosse ele mesmo se não conseguisse cumprir a tarefa.

Vacilou um segundo. Lembrou de Ginny. Será que ela estava no castelo? Dormindo segura em sua cama naquele instante? Sentiu um aperto forte na garganta e fechou os olhos. Ainda tinha sérios problemas para não pensar na ruiva.

Foi um mínimo barulho que fez Draco escancarar a porta e pensar "Expelliarmus" com força, ainda vendo o rosto de Ginny na sua mente.

Por incrível que pareça, ele acertou o feitiço e encontrou o diretor desarmado. Draco estava ofegante e ainda sentia sua mão tremer, agora violentamente. Dumbledore não parecia surpreso.

- Boa noite, Draco – ele disse.

O garoto se sobressaltou, perguntando-se como ele sabia quem era, sendo que estava usando a máscara de Comensal da Morte.

- Como...? – murmurou vacilante. Dumbledore não respondeu, continuando com sua expressão serena. Draco retirou a máscara, irritado com a calma do diretor.

- Previ que viria me fazer uma visita um dia desses... – sorriu ele.

Draco ficou confuso com o que pareceu sarcasmo do diretor.

- Então você deve ter previsto por que eu vim – rosnou o loiro.

- Sim, de certo modo consigo concluir pela roupa que está trajando esta noite.

Eles ficaram em silêncio, enquanto se encaravam.

- Draco, você não é um assassino.

- Como você sabe? – retorquiu ele. – Como você sabe que não matei ninguém desde que sai da sua escola?

O diretor deu uma risada fraca.

- Se tivesse a intenção de me matar já teria feito isso – concluiu o professor calmamente.

Draco não falou. Não conseguia.

- A última vez que eu o vi estava acompanhado de sua namorada – falou Dumbledore, descontraído. – Ela por acaso sabe que lado você optou?

- Ela não é mais minha namorada, ela não sabe de nada – retorquiu o loiro. – E eu não optei lado nenhum. Não tive escolha... – ele estremeceu brevemente.

- Então por que não desiste do que veio fazer? – perguntou Dumbledore.

- Eu não tenho escolha, não agora que... – sua voz sumiu. Não agora que já tinha terminado com Ginny, não agora que tinha tatuado a Marca Negra em seu antebraço.

Lembrou-se do seu pai dizendo "Se você sair um dedo da linha, Draco, será pior pra eles. Então pense bem nas atitudes que você vai tomar". Draco fechou os olhos por um momento, sentindo o braço que sustentava a varinha vacilar.

- Eu não tenho escolha – ele murmurou pela terceira vez.

Would someone believe there's more to me – Será que alguém acreditaria que há mais para mim

Than broken dreams? – além de sonhos despedaçados?

Mas antes que algo mais acontecesse, a porta escancarou-se. Snape entrou, varinha erguida.

- A Ordem está aqui – falou para Draco, que abaixou a varinha automaticamente quando ele entrou. – Temos que ir agora.

- Severo... – murmurou Dumbledore.

Os dois se encararam.

- Vá, Draco.

- Mas...

- Agora. Vá para as masmorras e não seja descoberto.

Os olhos cinzentos de Draco foram de Snape para Dumbledore.

- Vá! – exclamou o professor.

Draco atirou-se pela escada, saltando vários degraus. Mas conseguiu ouviu a Maldição sendo proferida. Disparou pelos corredores, ouvidos e olhos atentos, guardando sua máscara dentro das vestes. Não conseguia pensar em outra coisa a não ser sair dali o mais rápido possível. Felizmente, não topou com ninguém no seu caminho para a sala de Snape. Quando chegou, pegou desajeitado um pouco de Pó de Flu e jogou na lareira, sumindo entre as chamas.

Arfando, ele rolou para dentro da sala da casa de Severo, sujando o tapete de cinzas. Tossiu e ergueu-se. Seu corpo ainda tremia. Memórias de tudo que acabara de acontecer ficaram girando na sua cabeça enquanto ele se adiantava para o sofá. Ele não conseguira cumprir sua missão. O que aconteceria agora? Por mais que ele quisesse pensar nisso e ficar com medo da reação de Voldemort, seus pensamentos voaram para Ginny, graças às perguntas que Dumbledore tinha feito.

I wish for nothing more than happiness – eu não desejo nada mais que felicidade

And what I'd give just to hear your voice again – e o que eu daria apenas para ouvir sua voz de novo

Ele cerrou os punhos, bufando. Chega. Não ia mais pensar nela. Estava tudo acabado... Ou pelo menos deveria estar. Draco ficou sentado no sofá, inconscientemente esperando Snape retornar. Imaginou os alunos chegando a Hogwarts amanhã e descobrindo que seu diretor tinha sido morto. Talvez a essa altura os professores já sabiam. O que Snape estaria fazendo ou dizendo?

Draco continuou com a cabeça à mil. Desistindo de esperar o professor, subiu para seu quarto e despiu-se lentamente. Sem camisa, deu passos descalços pelo chão de madeira até a janela embaçada e suja. Os pelos de sua nuca se arrepiaram de frio. Estava tudo coberto de neve lá fora. Mal se dera conta de que era um novo ano agora.

Deitou-se para dormir, mas não conseguiu.

A life forsaken, no I can't sleep at night – uma vida renunciada, não, eu não consigo dormir à noite

I shouldn't be the one alive – eu não deveria ser quem está vivo

Ginny sentia-se mais alegre agora que estava novamente com Colin num vagão do Expresso de Hogwarts. Ele voltava de trem para a escola porque tinha ido passar uns dias em casa depois da viagem que tinha feito à França. O amigo passara boa parte da viagem falando sobre como Paris era bela e sobre a mãe de Blaise ter gostado dele. Sentiu-se secretamente perturbada com o fato do namoro dele estar praticamente perfeito, enquanto o dela nem ao menos existia mais. Preferiu ignorar isso, porque estava feliz por Colin e Blaise.

- Ah, Kiddo – disse ele, quando já estavam nas carruagens. – Você está calada de tanto que eu falei. Me conta como foram suas férias!

- Ah, foram normais – disse ela tentando parecer relativamente feliz. – Estou me sentindo melhor agora, pelo menos...

- Você vai ficar bem – encorajou Colin, passando a mão pelo seu cabelo.

- É – concordou ela fracamente.

Chegaram à porta de entrada e fizeram fila para chegar ao Salão Principal. A decoração estava toda preta. Ginny notou que ela não fora a única a reparar. Todos tagarelavam enquanto iam para suas respectivas mesas. Ela e o amigo avistaram Eleonor e sentaram-se junto dela.

- O que está acontecendo?

- Eu não sei – falou a morena. – Está tudo assim desde que acordamos, mas ninguém nos disse nada!

- Acho que estavam esperando todos voltarem de viagem – disse Ginny. – Será que alguém morreu?

- Provavelmente – disse Colin sombrio.

O estômago de Ginny contorceu-se. Notou a cadeira vazia do diretor, mas lembrou-se que havia meses que ele se ausentava de várias refeições. E também, pensar que Dumbledore estaria morto era quase um absurdo.

Mal ela sabia que, dali a um pouco mais de doze horas, estaria fitando o caixão do ex-diretor e, para sua surpresa, estaria ao lado de Harry, Rony e Hermione.


- Estou feliz com seu trabalho, Draco – disse Voldemort.

- Obrigada, mestre – disse ele, ajoelhado em uma das pernas, cabeça baixa.

Estava no, agora conhecido, aposento escuro. Mas dessa vez seu pai não estava ali, apenas Snape.

- Você voltará ao treinamento imediatamente, Snape lhe fará uma chave de portal – disse Voldemort, indo para as sombras novamente. – Agora vão.

Draco e Snape aparataram de volta para casa. Ao chegar, o loiro tirou sua máscara branca, jogando o objeto contra o estofado do sofá.

- Posso beber um pouco de vinho? – perguntou para Snape.

- Claro – ele disse, erguendo uma sobrancelha. – Quer comemorar?

O garoto lançou um olhar de desdém como resposta. Snape riu baixinho.

- Agora tudo que temos que fazer é deixar isso para trás – falou o professor. – Mais nenhuma palavra será dita, certo?

- Certo – disse Draco.

Snape estava se referindo ao que ambos haviam concordado em fazer. Tinha sido idéia do professor, que convenceu Draco a deixá-lo implantar parte de uma memória modificada do assassinato de Dumbledore em sua mente.

- Por que você fez isso? – perguntou Draco, sentando-se no sofá. – Por que me ajudou?

Severo aproximou-se com um cálice de vinho, crispando os lábios.

- Você sabe o que aconteceria com você se falhasse – disse, sombrio.

Draco assentiu.

- Agora – continuou Snape, depois de um silêncio incomodo. – É melhor fazer suas malas, antes que termine com meu estoque de bebidas de uma vez por todas.

O garoto sorriu levemente.

- Vou voltar para Hogwarts – ele anunciou, se dirigindo para a lareira.

- Obrigado – disse Draco, sem olhar para trás.

Snape não respondeu. No instante seguinte ele não estava mais ali. O loiro jogou a cabeça para trás, recostando-se. Respirou fundo. O momento da morte de Dumbledore agora ficava se repetindo em sua mente sem parar, desconexo das outras memórias que tinha naquela noite. Parecia tão real, era assustador.

Passado alguns minutos, Draco levantou-se e subiu para preparar sua mala.


- Eu não acredito – murmurava Harry, braços ao redor de Ginny.

- Eu sei – ela respondeu desajeitada, tentando afagar suas costas.

Estavam sentados nos jardins, logo após o enterro, junto de Rony e Hermione.

- Agora ele nós deixou sem nada, como vamos continuar com o plano? – disse, soltando a garota e encarando seus olhos. – Desculpa, Ginny – ele falou de repente. – Não posso ficar dizendo essas coisas pra você...

- Não tem problema – ela apressou-se em dizer. – Não precisa me explicar nada...

- Eu queria – disse Harry. – Mas não quero te envolver nisso.

- Tudo bem – respondeu. – Estou feliz que vocês estejam de volta.

- É, acho que agora não tenho outra escolha – murmurou ele sem jeito. – Não tem como continuarmos... – a voz dele foi sumindo.

Mesmo confusa com o que ele dizia, Ginny não se importou. Passou a mão pelos cabelos pretos dele, tentando confortá-lo. Hermione se aproximou, sentando-se ao lado da ruiva e segurou sua mão, sorrindo tristemente. Rony sentou-se ao lado de Harry.

- Eu sei que essa não é a hora pra falar disso – começou a amiga. – Mas achei que Draco viria...

Harry e Rony lançaram-lhe olhares irritados.

- Ah – fez Ginny ficando nervosa. – Não... Eu... Quero dizer, nós acabamos.

Os três a encararam, parecendo surpresos de uma maneira positiva.

- Ah, sério? – emendou Hermione rapidamente, antes de Rony dizer "Eu bem que falei". – Como você está?

- Eu vou ficar bem – respondeu Ginny, tentando sorrir. – Isso não é importante agora...

Realmente não era, pensou a garota, encarando a paisagem. Fazia tempo que não pensava em Draco. Suspirou. Talvez ele nem soubesse o que estava acontecendo, longe dali, começando outra vida nos Estados Unidos com sua nova garota. Ginny fechou os olhos. Tinha que esquecê-lo. Estava tudo acabado. Ou pelo menos deveria estar...

- Ginny? – chamou Harry.

- Hm?

- Está bem? – seus olhos verdes pararam nos seus.

- Sim – ela deu um sorriso torto.

Harry segurou sua mão, entrelaçando seus dedos, e sorriu em retribuição.


O frio estava penetrante. Mais do que quando Draco tinha ido embora. O sol ainda não tinha nascido. Faltava algum tempo até a sirene despertar todos. Foi até seu dormitório o mais rápido que pode e tomou um banho. Vestiu suas roupas de treinamento, sentindo como se nunca tivesse deixado aquele lugar. Mas tinha. E todos notariam a marca no braço dele. Talvez perguntassem onde ele tinha ido todo esse tempo e como conseguira a tatuagem antes de todos. Não pretendia responder.

Dito e feito. Foi só ele tirar o blusão gasto de lã preta no meio de uma briga corporal que os murmúrios começaram. Seu adversário deixou cair os punhos ao reparar. Até seu instrutor pareceu surpreso. Aparentemente, todos os colegas achavam que ele tinha desistido do treinamento ao ir embora. Pelo menos foi isso que ele entreouviu na hora do almoço.

Por mais que soasse mórbido, estar de volta era bom. Os dias de ócio na casa de Snape tinham sido torturantes. Na Rússia ao menos ele poderia socar e estuporar pessoas para aliviar suas frustrações. Seu desempenho não havia caído mesmo passando tantos dias sem treinar. Ele continuava um dos melhores.

Na hora da janta, acenou com a cabeça para Pansy que pareceu alterada ao vê-lo.

- Vem – pediu ela, segurando seu braço, quando ele tinha terminado de comer.

Sem dizer mais nenhuma palavra, seguiu ela até o lugar de sempre – atrás do dormitório feminino. Quando chegaram lá, Pansy o surpreendeu, jogando seus braços em volta do pescoço dele num abraço apertado. Com os olhos arregalados, ele retribuiu vacilante, abraçando a cintura da garota.

- O que houve? – perguntou ela ao seu ouvido, voz alarmada. – Eu vi a Marca...

Então, sem saber por que, Draco sentiu toda a tensão do seu corpo se esvair e escondeu seu rosto no cangote da garota, fechando os olhos. Talvez ele estivesse precisando de um abraço. Não lembrava a última vez que recebera um.

- Não foi nada – ele respondeu, voz rouca. – Tive que cumprir uma missão...

- Sério? Você conheceu o Lorde? – ela perguntou, soltando-se para encará-lo.

- Sim – suspirou Draco.

- Deixe eu ver – pediu ela ainda soando preocupada.

O loiro subiu a manga.

- Doeu? – perguntou.

- Bastante.

Ela sorriu, fitando os olhos do garoto.

- Demorou tanto que achei que não ia voltar – contou. – Pensei que tivesse fugido com a Weasley ou algo assim...

As feições de Draco se endureceram e ele desviou o olhar para o horizonte branco. Para seu incomodo, a amiga continuou a fitá-lo sem hesitar. Começou a nevar lentamente.

- Eu senti sua falta – ela falou.

Pansy o abraçou brevemente e foi embora, deixando o loiro sozinho, enquanto os flocos brancos caíam melancolicamente.

Os dias seguintes se seguiram sob uma nevasca brusca. Mas eles não pararam o treinamento, por mais que o chão ficasse alvo e muitas vezes manchado de vermelho. Nada os impediria. Porque eles eram assassinos destemidos. Porque eles eram os Comensais da Morte.