ENCONTROS E DESENCONTROS

Disclaimer: Saint Seiya não me pertence, mas sim a Masami Kurumada. Esta fanfic não possui fins lucrativos.

Aviso: Contém Yaoi/Lemon

CAPÍTULO ONZE

Dois meses depois…

Aeroporto de Atenas, quinta feira, cinco e quinze da tarde. No saguão, uma figura bela e impassível caminhava completamente indiferente aos olhares luxuriosos que recebia. O terno preto bem cortado se ajustava perfeitamente ao seu corpo bem definido, a camisa e a gravata num tom de azul claro harmonizavam com sua pele alva, os óculos escuros escondiam olhos tão azuis e profundos que lembravam a imensidão do mar, e os cabelos loiros caídos sobre seus ombros davam um ar rebelde ao belo homem.

'Um anjo', era o que muitos pensavam enquanto babavam ao vê-lo passar, puxando sua mala pela alça do carrinho e a mochila com seu notebook pendurada no ombro, alheio a tudo e todos. A tristeza do anjo, porém, passava despercebida.

Entrando em uma pequena lanchonete da praça de alimentação, Hyoga, o anjo triste, aproximou-se do balcão e pediu um café, ignorando o sorriso sedutor que a garçonete lhe lançou.

Há dois meses não pisava na Grécia. Pouco tempo depois da situação embaraçosa com Ikki, pediu a Saori permissão para viajar em nome da empresa, não explicou a ela seus motivos, mas deixou bem claro que precisava ficar longe de Atenas por um tempo. Deixando o controle da Fundação Graad nas mãos de Milo, o russo viajou. Cancelou a visita de Halden Sharp e acabou fazendo as negociações com ele em Nova York mesmo. Nesse momento estava retornando de um tour pela Ásia, onde passara vinte dias.

No início, pensava que não ter qualquer contato com Ikki tornaria as coisas mais fáceis, mas logo percebeu que não era bem assim. Mesmo distante, pensava no moreno o tempo todo. Apesar de tudo o que aconteceu, sentiu saudades. Às vezes queria tanto ouvir a voz de Ikki que chegava a pegar o telefone e discar seu número, mas logo o orgulho falava mais alto e o loiro desligava o aparelho, conformando-se com sua solidão.

Terminando o seu café, pegou um táxi e foi direto para casa. Shun já havia esvaziado o apartamento há mais de um mês e pelo que Hyoga ouvira de Milo, o ex-namorado estava dividindo um apartamento com Jabu.

Não estava com aquela sensação de alívio por voltar para casa, isso era o que mais o incomodava. Ou melhor, voltar para uma casa vazia e não ter ninguém esperando ansiosamente sua chegada, era o que realmente o perturbava. Desde que namorara alguém pela primeira vez, sempre emendou um relacionamento no outro, então a situação em que se encontrava agora era completamente estranha para ele, sem contar que fazia sua carência crescer em níveis estratosféricos.

"Carência". Essa era a palavra do dia. Ultimamente, o loiro distanciara-se das pessoas. Até mesmo Milo tinha o maior trabalho para conseguir falar com ele. Tinha seus motivos, justificava Hyoga a si mesmo, precisava evitar perguntas indiscretas, não queria que a história com Ikki chegasse aos ouvidos dos amigos.

O loiro suspirou, olhando a bela paisagem pela janela do carro. Ultimamente atolara-se tanto no trabalho que poderia ser comparado a um robô. Nem se lembrava mais da última vez que recebera um carinho de alguém… Sentia falta de calor humano. Droga! A quem queria enganar? Sentia falta do calor e dos toques dele, daquele frango idiota que não saía de sua mente.

Quando abriu a porta de seu apartamento, perguntou-se se estava mesmo no lugar certo. Depois de alguns segundos, lembrou-se de sua última noite antes da viagem, quando deu carta branca para Afrodite redecorar seu apartamento, junto com um cartão de crédito sem limites. É lógico que estava bêbado quando concordou, mas até que não foi uma má idéia, pois o apartamento estava lindo, a sua cara.

Assim que se livrou das malas, ligou para Afrodite. Precisava agradecer ao amigo.

- Alô?

- Não quero incomodar, Dite, mas precisava reconhecer o seu talento.

- Hyoga?

- Eu mesmo…

- Olha, puxar o meu saco não vai te aliviar da surra que eu e Milo daremos em você…

- O que é isso, Dite, eu ligo para te agradecer pelo bom trabalho que você fez na minha casa e é assim que recebe o meu elogio?

- Tudo bem, Oga. Eu fico feliz que você tenha gostado, pois pensei em você em cada detalhe, fiz com muito carinho… Mas isso não muda o fato de você ter adiado o seu retorno em cinco dias e sequer se dar ao trabalho de avisar os amigos! Nós tínhamos preparado uma festa pra te recepcionar, acabamos ficando com a maior cara de tacho. O que há com você, Yukida?

- Desculpa, eu não vou nem tentar me justificar… Pisei na bola com vocês, eu sei, isso não é do meu feitio…

- O que está acontecendo, Hyoga? Pensei que você estivesse seguro na decisão de terminar com o Shun… Se arrependeu, foi isso?

- Não, Dite, eu não me arrependi. Olha, eu só preciso de um tempo, entende? Não está acontecendo nada demais comigo, pode ficar tranqüilo.

- Não vou te pressionar, Oga. Se você diz que está tudo bem, eu aceito, mesmo sabendo que você está mentindo…

- E como estão as coisas?

- Está tudo bem… Você sabe que perdeu a formatura do Shun, não é?

- Putz! Eu tinha me esquecido completamente disso. Apesar de que ele nem deve ter me convidado…

- Engano seu! Sabe que a sua presença era importante pra ele, Oga, não se finja de besta… Ele ainda tem esperanças de…

- De?

- Ah, você sabe! Ele acha que ainda tem chance de voltar com você…

- Quanto a isso, não há a menor possibilidade, Dite.

- Sei. Ele tem recebido muito apoio ultimamente… O Jabu não sai da cola e o Ikki está sempre por perto. – o russo estremeceu só de ouvir aquele nome.

- Ele ficará bem, tenho certeza.

- É, ainda mais com a viagem para Paris…

- Viagem?

- O Shun vai para Paris, fazer um curso por três meses.

- Será muito bom pra ele… Quem sabe não encontra um francês bem gato por lá e me esquece?

- E você acha que o Jabu vai deixá-lo ir sozinho?

Hyoga riu.

- E o restante do pessoal? Estão todos bem? Alguma novidade?

- Tudo está na mesma, dois meses nem é tanto tempo assim…

- É verdade.

- Espera! Já ia me esquecendo… Tem uma fofoca quentíssima sim… Você sabia que o Saga e o Shaka foram namorados? Essa pegou quase todo mundo de surpresa, mas é claro que eu já sabia dessa história há tempos…

- O Saga e o Shaka? Não tinha nem idéia… Mas como o pessoal descobriu? Jogo da verdade?

- Não, o Saga teve uma crise de ciúmes quando viu o Shaka e o Ikki se agarrando no meio da sala, na nossa última reunião. Você tinha que ver, foi uma briga e tanto… Eles quase partiram para as vias de fato…

- … - o russo prendeu a respiração.

- Oga? Você está aí?

- O-O Ikki está namorando o Shaka?

- Não sei se chega a ser um namoro, querido, mas os dois têm se pegado… Principalmente nas nossas reuniões, ficam num grude só…

- … - segurou-se o máximo que podia para não chorar.

- Está tudo bem, Oga? Eu disse algo errado?

- Não, está tudo bem. Eu fiquei surpreso, só isso. Nunca imaginei que o Ikki se envolveria com o Shaka, é estranho… Eu tenho que ir, a gente se fala depois, Dite.

- Ok, um beijo pra você!

- Outro. – Hyoga desligou o telefone.

"Eu não tenho a intenção de me envolver com ninguém agora". Hyoga recordou as palavras de Ikki naquela tarde na praia. Como podia ser tão imbecil? Sofreu todo esse tempo por alguém que não se importava nem um pouco.

Lembrou-se de todas aquelas noites tristes e solitárias, em que só conseguia pensar no quanto queria Ikki ali consigo. E enquanto isso, o moreno se divertia com Shaka… Será que eles riam dele? De sua babaquice? Ele praticamente implorou a Ikki por seu amor, quão ridículo isso parecia agora!

Foi até a cozinha e abriu uma garrafa de vodka, tirou os sapatos e o paletó, afrouxou a gravata e se deitou no sofá novo. Fechou os olhos e tomou o primeiro gole da bebida, o primeiro de muitos… Do jeito que sua cabeça fervilhava em pensamentos, mais uma vez a noite seria longa, longa demais…

oOo

Na manhã seguinte…

- Ikki! – Shaka bateu na porta do chamado 'quarto escuro', o local que fênix utilizava para revelar suas fotos.

- Já vai!

Morando em seu recém comprado apartamento há três semanas, Ikki ainda não mobiliara toda a casa, providenciou apenas o essencial, deixando o restante para as semanas seguintes. O único cômodo que fizera questão de deixar completo foi seu "escritório", como costumava dizer.

Passava boa parte do tempo no quarto escuro, distraía-se por horas ali dentro e não gostava nem um pouco de ser incomodado quando se encontrava ali. O lugar era seu, não dividiria aquele ambiente e os momentos que passava ali com ninguém. Shaka foi devidamente informado disso e, respeitando o limite imposto pelo moreno, jamais entrou no cômodo, costumava chamar e esperar por Ikki do lado de fora.

- O que foi? – perguntou o moreno, saindo e fechando a porta atrás de si.

- Só queria te avisar que já vou embora…

- Ok. – não esboçou nenhuma reação.

- Você está bem? – rugas de preocupação se formaram na face do loiro.

- Eu estou bem, Shaka. Só quero ficar sozinho… - Ikki respondeu com um suspiro.

- Você deveria procurá-lo…

- O quê? – o moreno olhou-o confuso.

- Hyoga. Você deveria procurá-lo e dizer que voltou atrás em sua decisão. – falou pausadamente, como quem explica algo a uma criança de cinco anos.

- Isso não vai acontecer! Primeiro porque eu não voltei atrás e segundo porque eu não tenho a menor idéia de onde o pato está.

- Eu acabei de falar com o Afrodite por telefone.

- E o que isso tem a ver comigo? – Ikki retrucou sem paciência.

- O Hyoga voltou.

Ouvir aquilo fez Ikki arrepiar-se da cabeça aos pés. Não via o loiro há mais de dois meses. Shaka era o responsável por mantê-lo informado sobre o russo, já que era sócio de Afrodite em uma clínica de relaxamento. Porém, nem mesmo Afrodite tinha muitas notícias e Ikki passou boa parte desses dois meses no escuro, sem saber se Hyoga estava bem ou mal, sem saber quando e se pretendia voltar…

- E então? – Shaka chamou-o de volta à realidade.

- Então o quê? – o moreno fingiu indiferença.

- Você não vai fazer nada a respeito?

- Não posso. – Ikki disse mais para si mesmo do que para o loiro.

- A vida é sua, se você prefere sofrer pelos cantos, quem sou eu para discordar? – Shaka aproximou-se do moreno e depositou um selinho em seus lábios.

Ikki novamente não esboçou nenhuma reação. Não correspondeu ao toque e nem o evitou. Depois que Hyoga viajou a trabalho, o moreno se atrapalhou ainda mais e acabou desenvolvendo uma relação estranha com Shaka. Com a desculpa de provocar ciúmes em Saga, Ikki acabou sendo convencido a fazer esse 'favor' ao amigo, recebendo em troca uma ajuda para tentar esquecer o russo.

É claro que não demorou muito para perceber que esquecer Hyoga não seria tão fácil assim, tendo em vista que já estava quase enlouquecendo de saudade daquele russo. Por milhares de vezes repassou aquela tarde na praia em sua cabeça e em todas elas o final era bem diferente, eles ficavam juntos. Mas depois de um tempo, depois de magoar Shun de uma forma irreparável, os dois se separavam por culpa de Ikki, incapaz de manter um relacionamento por muito tempo.

Para fênix, sua história com Hyoga não teria outro final. Magoavam-se agora e evitavam algo pior, ou pagavam pra ver e também feriam Shun nesse processo. Era uma forma louca e altruísta de pensar, mas Ikki não se julgava tão merecedor assim a ponto de colocar a sua felicidade acima de tudo e todos. Sua prioridade sempre fora Shun e agora não poderia ser diferente, por mais que doesse.

Repetia esses pensamentos a si mesmo sempre que pensava no loiro, para ver se entrava em sua cabeça de uma vez por todas que Hyoga era proibido. Tinha até uma frase pronta para esses momentos, algo que ouviu de Shaka na primeira vez em que ficaram juntos: 'histórias complicadas assim, não são para acontecer'.

- As coisas vão continuar como estão? – Shaka chamou sua atenção novamente.

- Que coisas?

- Nós. – o loiro ficou estranhamente sem graça. – Eu não quero te criar problemas…

- Eu prometi que bancaria o casal apaixonado na frente do seu ex-namorado e pretendo manter minha promessa, enquanto for de seu interesse.

- Você vai mesmo fazer isso com ele?

- Pensei que você quisesse deixar o Saga louco de ciúme.

- Eu não estou falando do Saga… Você vai mesmo fazer isso com o Hyoga? Vai machucá-lo de novo?

- Se ele se decepcionar comigo será melhor, assim desiste de vez.

- Você tem um jeito estranho de demonstrar afeto, fênix.

- Será melhor para ele ficar longe de mim.

- Tem razão, será melhor para ele, acabei de crer nisso. O Hyoga não merece um cara covarde como você. – o loiro disse calmamente.

- O que disse?

- Isso mesmo que ouviu. Você é um covarde, Ikki Amamiya. Um covarde que se esconde atrás do próprio irmão, para não ter que admitir que está com medo de entregar seu coração para aquele russo. Você tem medo de se magoar, tem medo de estragar tudo e não poder colocar a culpa em ninguém além de si mesmo. Você tem tanta certeza de que não será capaz de fazer Hyoga feliz, que prefere decepcioná-lo agora, para não sofrer a dor de perdê-lo mais tarde.

- Você não tem nada com isso, Shaka. É assunto meu!

- Eu só estou tentando ajudar. Seria tão mais fácil eu manter tudo como está, continuar transando com você sem compromisso nenhum. Mas eu não agüento mais ver você sofrendo calado, Ikki. Se aquele russo é tudo o que você sempre quis, vai até lá, tome-o em seus braços e não o largue nunca mais. A vida é curta, fênix, nós sabemos disso. Você pretende desperdiçá-la desse jeito?

- Cale a boca, Shaka!

- Desde que te conheci, de todos os adjetivos que eu poderia te chamar, covarde nunca foi um deles. Não o seja agora.

- Eu já disse que não posso! Eu quero, mas não posso! O Shun é mais importante, sempre foi e sempre será. – Ikki retrucou com raiva.

- Se você prefere continuar se escondendo atrás do Shun, a decisão é sua, não vou me intrometer mais. Eu só quero que você tenha certeza do que está fazendo, Ikki, porque o Hyoga é um bom amigo pra mim, eu gosto muito dele. Quando ele nos vir juntos, vai doer em mim também, espero que você esteja preparado para vê-lo sofrer por nossa culpa.

Dizendo isso, Shaka beijou os lábios de Ikki e saiu do apartamento, deixando o moreno com um gosto amargo na boca.

oOo

No apartamento de Hyoga…

Assim que chegou, Milo abraçou apertado seu melhor amigo, não apenas pela saudade, mas porque sentia que o russo precisava de carinho.

- Como você está? – perguntou a Hyoga, sentindo o loiro amolecer em seus braços.

- Já estive melhor. – o russo se desvencilhou do amigo e sentou-se no sofá, puxando-o consigo.

- Vai me contar o que está acontecendo, ou vou ter que arrancar a força? – acariciou os cabelos do mais novo.

- É complicado… Quer beber alguma coisa?

- Suco, eu tenho que voltar para a empresa depois.

Hyoga foi até a cozinha e voltou logo depois com um copo de suco em uma das mãos e uma garrafa de vodka na outra.

- Como eu estou de folga por hoje… - tomou um gole da vodka, entregando o suco ao Milo.

- Está muito cedo pra isso! – Milo pegou a garrafa das mãos de Hyoga e foi até a cozinha, retornando com outro copo de suco nas mãos, que entregou para o russo. – Você está me preocupando, sabia?

- Não precisa se importar comigo, eu só preciso de um tempo, só isso… - tomou um gole do suco e recostou a cabeça nas costas do sofá, suspirando.

- Isso é sobre o Ikki, não é? – riu com a expressão assustada de Hyoga – Pra mim você é transparente, Yukida. Você não consegue esconder nada de mim…

- Ele… - hesitou. - Está namorando mesmo? – o russo perguntou com os olhos marejados.

- Bom, eu não sei muito sobre isso… Ultimamente ele anda muito com o Shaka, quando estamos todos reunidos eles não escondem que têm uma relação mais íntima, mas se é namoro eu não sei.

- Deve ser namoro… O Shaka não é do tipo que ficaria de beijos com alguém por aí se não fosse algo sério. – constatou tristemente.

- É, mas o Ikki não é do tipo que teria algo sério… Qual é, Hyoga! Você conhece o fênix, acha mesmo que ele vai começar a namorar assim, de uma hora pra outra? Ele não vai mudar tão fácil, será uma tarefa bem difícil pro homem que tentar!

- Ou pra mulher…

- Ele é bi?

- Sim.

- Dessa eu não sabia. Mas faz o maior sentido, né? É a cara dele passar o rodo, pegar tudo o que vê pela frente… - riu.

- Tudo menos eu… - o russo retrucou com amargura, fazendo Milo ficar sério de novo.

- Você e ele…

- Não, ele não me quis. Acho que sou o único no universo inteiro rejeitado pelo Ikki.

- Ele disse não e você simplesmente virou as costas e foi parar em outro continente? Mas que anta que você é! – Deu um tapa na parte de trás da cabeça de Hyoga.

- Ai! Como assim? O que você esperava que eu fizesse? Queria que eu o torturasse até que me dissesse sim? – retrucou emburrado.

- Exatamente! Pensa comigo, gênio: qual o motivo que ele usou para dizer não a você?

- O Shun…

- Óbvio. Isso não quer dizer que ele não te queira, Hyoga. Quer dizer que ele não se permite ficar com você…

- Isso era o que eu pensava, até descobrir que ele está se divertindo bastante com o Shaka…

- Você está tornando as coisas fáceis demais pra ele, russo. Ele quer você, mas acha que não pode te ter, daí ele te rejeita e o que você faz? Some da vida dele, dando espaço suficiente para outro entrar e fazer com que ele te esqueça.

- Milo, eu sei o que você quer dizer, mas acho que não consigo fazer isso…

- Você gosta dele Hyoga? Quer aquele homem pra você?

- Sim.

- Então engole esse orgulho e corre atrás! Vai ficar chorando pelos cantos até quando? Ou você esquece essa história de uma vez por todas e segue a sua vida, ou entra nessa briga pra ganhar.

- Você quer que eu vá até lá e agarre-o ou algo assim? – riu.

- Não precisa agarrá-lo, você não pode pressioná-lo ou ele vai fugir. Mas pelo menos marque presença, deixe que ele veja o que está perdendo… A coisa não tem que ser a ferro e fogo, vocês eram amigos antes não é? Podem continuar sendo… Se reaproxima dele como quem não quer nada, seja companheiro, joga um charminho de vez em quando… Ele não vai resistir a você! Ninguém resistiria! Quando você decide ser sexy, não há quem te segure, russo!

- Eu estou magoado com ele…

- Eu sei. É por isso que você tem que decidir se quer aquele homem ou não… Porque se você o quiser, vai ter que deixar a mágoa e o orgulho para trás…

- É fácil falar… Eu me senti humilhado, Milo. Não consigo agir como se nada tivesse acontecido… Por que a nossa história tem que ser tão complicada?

- Porque essas são as melhores… E nem é tão complicada assim, vocês é que dificultam as coisas. Vai seguir meu conselho?

- Vou pensar no assunto.

- Pensa com carinho. Eu tenho que ir, mas a gente se vê depois. O Camus está de plantão, aonde nós vamos essa noite? – perguntou se encaminhando para a porta.

- Eu não quero sair hoje, Milo. – Hyoga respondeu desanimado.

- Não perguntei se você queria, eu perguntei aonde nós vamos.

- Surpreenda-me. – riu.

- Pode deixar. – Milo saiu do apartamento sorrindo.

oOo

Mais tarde, Milo buscou Hyoga em seu apartamento. Sem saber aonde iam, o russo apenas confiou no bom gosto do amigo. Queria se divertir, esquecer tudo… E se tinha alguém que sabia se divertir esse alguém era Milo.

O escorpiano estacionou o carro em frente a Athinaikon, uma das tabernas mais movimentadas do centro de Atenas.

- Faz mais de um ano que não venho aqui. – disse Hyoga, surpreso com a escolha.

- Eu sei. Pensei que a gente poderia beber uns chopps e jogar conversa fora…

- E dançar? – o russo sorriu.

- Uau! Estamos bem mais animados… - brincou Milo.

- Tentando, pelo menos… - Hyoga sorriu novamente, enquanto entravam no local.

A taberna não estava tão cheia, considerando-se que era uma noite de sexta. Assim que entraram, os dois loiros sentaram-se em uma mesa mais no fundo, um pouco longe do balcão do bar. Algumas pessoas dançavam mais à frente, num espaço sem mesas, geralmente utilizado como uma pista de dança improvisada.

Pediram dois chopps e uma porção de fritas, quando a garçonete finalmente apareceu.

- O Camus não se importou, não é?

- Não, ele sabe que é por uma boa causa… - riu o escorpiano.

Meia hora e duas rodadas de chopp depois, Hyoga já estava ainda mais relaxado, conversando animadamente com Milo. Vagou os olhos pela taberna, observando atentamente o movimento. De repente, o que viu fez com que sua garganta secasse e foi preciso tomar um bom gole de seu chopp. Ikki estava parado na entrada, com Shaka ao seu lado.

Milo, que estava sentado de costas para a porta, percebeu imediatamente a estranha reação do russo e virou-se para observar qual a razão do susto. Olhando novamente para Hyoga, disse:

- Você pensou no que te falei hoje? – perguntou com urgência na voz.

- Pensei… - Hyoga ainda estava um pouco atordoado.

- E?

- Eu não sei, Milo. Não quero ser rejeitado de novo… - respondeu com sinceridade.

- Posso chamar os dois pra sentarem com a gente? – debruçou-se um pouco na mesa.

- O quê? Não! – Hyoga debruçou-se também, com os olhos arregalados.

- Qual é! Vai ficar uma péssima impressão se nós não os cumprimentarmos.

- Quem se importa? Eu não estou pronto pra isso, Milo!

- Tem certeza?

- Não… - o russo respondeu com um muxoxo.

- Sendo assim…

Milo imediatamente levantou-se e caminhou até Ikki e Shaka, que a essa altura já estavam sentados no balcão. Hyoga observou o escorpiano cumprimentar os dois homens e depois de falar algo os três olharam em sua direção. Nesse momento o russo quis que um buraco se abrisse no chão e o sugasse, não importava para onde.

Seus olhos cruzaram com os de Ikki e o loiro sentiu sua garganta secar novamente. Por um instante, toda a dor que sentiu naquela tarde voltou com força, dilacerando, machucando o seu peito. Com os olhos marejados, Hyoga abaixou a cabeça, quebrando o contato visual. Respirou fundo, precisava se controlar. Fênix não podia ver o estrago que fez, não merecia as lágrimas que seus olhos insistiam em derramar.

Hyoga ainda estava tentando se acalmar quando percebeu a presença dos três homens à mesa. Quando Milo sentou-se ao seu lado, o russo levantou sua cabeça, dando de cara com Shaka.

- Oi, Hyoga. É muito bom ver você.

O russo não pôde ignorar que Shaka tinha algo estranho no olhar, parecia um lamento, algo como um pedido de desculpas, mas não conseguiu saber ao certo. Recuperando o controle de suas emoções, cumprimentou-o:

- Oi! É bom ver você também! Já faz algum tempo, não é?

- Dois meses podem ser uma eternidade, dependendo da situação… - o virginiano sorriu.

- Eu sei. – sorriu de volta.

Hyoga manteve seu olhar em Shaka. Sabia que Ikki o olhava, sabia que tinha que cumprimentá-lo, mas não tinha certeza se conseguiria fazê-lo sem chorar. E a última coisa que queria era chorar na frente do mais novo 'casal' da turma.

Virou a cabeça lentamente e seus olhos fitaram os de Ikki mais uma vez. Zeus, como ele estava lindo. A barba por fazer dava um ar ainda mais másculo ao moreno.

- Oi, frango! – forçou-se a dizer, tentando não transparecer o quão difícil era aquele momento.

- Oi, pato!

Os dois permaneceram olhando um para o outro, sem dizer absolutamente nada. O clima tenso no ar era impossível de ser ignorado.

- Vocês vão ficar aí em pé? Garanto que não crescem mais, sentem-se! – Milo achou melhor intervir.

Ainda tensos, Ikki e Shaka se sentaram. O primeiro ficando de frente para Milo e o outro para Hyoga.

Milo olhou para Shaka, que devolveu a ele um olhar preocupado. Sentindo que teria que puxar assunto, o escorpiano voltou-se para Ikki.

- E então, Amamiya, como vai a mudança?

Antes de responder, Ikki olhou para Hyoga, que permanecia de cabeça baixa, encarando fixamente seu copo de chopp.

- Lenta. – respondeu sem muito entusiasmo.

- Você comprou o apartamento da Ágata? – Hyoga falara tão baixo que quase não se pudera escutar.

Ikki olhou novamente para o russo e seus olhos se cruzaram novamente, antes de Hyoga abaixar a cabeça mais uma vez.

- Comprei. Aquele lugar é perfeito pra mim, pato. Estou me mudando há três semanas e ainda falta um monte de coisas pra fazer, mas estou adorando viver ali... – Ikki parou por um momento, querendo que Hyoga o olhasse, o que não aconteceu.

Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor na mesa, o moreno voltou a se manifestar.

- Ela pergunta muito por você, sabia? – dirigiu-se a Hyoga, que finalmente levantou a cabeça e olhou-o nos olhos.

- Quem? – perguntou um pouco confuso.

- Ágata. Sempre que me vê, pergunta por você. – Ikki sentiu o coração acelerar ao ver o sorriso que se abriu no rosto de Hyoga ao se lembrar de sua vizinha.

- Ela é um amor… - o russo sorriu novamente.

- Concordo… - o moreno sorriu de volta, seu coração quase pulando do peito.

- O que vocês vão beber? – a garçonete apareceu e os olhares se desviaram.

- Eu quero um chopp. – Ikki pediu.

- Dois! – Milo acrescentou.

- Então são três chopps e… - Hyoga olhou para Shaka, a sua frente. – E você, Shaka?

- Não quero nada, obrigado.

Hyoga percebeu o desconforto do virginiano, isso sempre acontecia. Shaka não bebia nada alcoólico, muito menos refrigerante, sucos industrializados ou café. Geralmente quando saíam juntos, o russo tinha sempre a preocupação de escolher um local onde servissem coisas que o virginiano podia consumir. Como não esperava encontrá-lo hoje, isso não foi possível e o jeito seria improvisar…

- Moça, qual o seu nome? – falou com a garçonete.

- Natasha. – ela sorriu.

- Natasha! Belo nome! – sorriu para ela, todo simpático. – É o seguinte: o meu amigo aqui é do tipo natureba. Será que você não poderia servir um suco natural pra ele?

A moça olhou-o pensativa.

- Acho difícil, moço. Não servimos isso aqui.

- Deixa pra lá, Oga. Você não tem que fazer isso. – Shaka interveio.

Hyoga ignorou o pedido do amigo e continuou insistindo, jogando o maior charme para a garçonete.

- Eu tenho certeza de que uma moça tão linda como você conseguiria resolver isso… Os limões que vocês colocam em algumas bebidas… Não dá pra roubar alguns? Eu agradeceria muito… - o russo passou a mão pelos cabelos, lançando a moça o seu melhor olhar sedutor, sendo atentamente observado por Ikki.

Não demorou muito para a garçonete ceder e providenciar uma limonada para Shaka.

- Por que fez isso, Oga? – Shaka perguntou sem graça.

- Não foi nada demais! Não se preocupa. – o russo tocou a mão do virginiano e sorriu. – Está tudo bem! – completou. E Shaka percebeu que ele não falava apenas do suco.

- Do jeito que ela olhava pro Oga, seria capaz de ir até o outro lado da cidade para trazer um suco pra ele. – Milo disse entre risos.

- Não existe ninguém que resista a esse russo. – Ikki enfim manifestou-se, olhando novamente para Hyoga.

- Na verdade, tem alguém sim… - disse o russo, com um sorriso maroto nos lábios.

Provocação. Pura, simples e diretamente no alvo. E com isso, o silêncio voltou a imperar, enquanto os olhos de Hyoga fitaram os de Ikki de maneira tão intensa que poderiam sair faíscas dali.

- Eu quero dançar! Vem, Shaka! – Milo levantou-se de supetão.

- O quê? Não, Milo! – Shaka tentou se desvencilhar do convite, mas logo cedeu, depois de receber um significativo olhar do escorpiano.

Permanecendo na mesa, Hyoga e Ikki mal perceberam a movimentação em torno de si, eles continuavam com os olhos presos um no outro, milhares de palavras reprimidas em suas gargantas, aquele clima estranho no ar...

- Como você está? – Ikki tomou a iniciativa.

- Nem eu sei a resposta pra isso, frango. Estou me deixando levar, acho. Não luto mais contra a correnteza… E você?

- Cansado. Mas ainda lutando contra a correnteza…

O diálogo poderia não ter significado algum para qualquer pessoa que os escutasse, mas para eles fazia todo o sentido do mundo.

Hyoga poderia perguntar, com todas as letras, o que mudara nesses dois meses. Poderia fazer sua proposta novamente, mas sabia que ainda não era o momento. A decisão de Ikki não mudou e sua resposta, mesmo que hesitante, ainda era não. Conseguia enxergar isso nos olhos dele.

Na pista, Milo e Shaka apenas fingiam que dançavam, na verdade não desgrudavam os olhos dos dois homens sentados à mesa de forma nenhuma.

- Acha que vai dar certo? – Shaka perguntou ao escorpiano.

- Espero que sim! Pelo menos eles nem desconfiaram que armamos esse encontro… - Milo riu.

- Talvez seja muito cedo para um encontro assim, Milo. Eles não estão prontos… Olha lá, faz um tempão que não estão falando nada, nem conseguem se olhar mais…

- Esses dois são mais difíceis do que eu pensava.

- Vamos voltar pra mesa, aquilo ali não vai dar em nada. – Shaka puxou Milo para fora da pista.

Depois de voltarem e se acomodarem novamente, a conversa rolou um pouco mais descontraída. Hyoga, talvez pelo nervosismo da situação, bebia bem mais que os outros, ignorando os pedidos de Milo de que maneirasse. Estavam papeando sobre futebol quando a garçonete surgiu com outra rodada de bebidas, trazendo uma cuba libre especialmente para o russo, que já estava bem alto pelo excesso de álcool.

- Nós não pedimos isso, Natasha! – o russo disse num tom mais alto do que o normal.

- Claro que não! Fui eu que pedi, para brindarmos as peripécias do destino. - uma voz masculina respondeu pela garçonete.

Virando-se para ver quem era, Hyoga imediatamente abriu um sorriso.

- Hal! – gritou, abrindo os braços.

Todos os ocupantes da mesa se viraram para ver Hyoga se levantar e abraçar um homem alto, de cabelos pretos, rosto bonito, corpo definido, aparentando seus trinta e tantos anos. Milo e Shaka trocaram um olhar atônito, o sujeito claramente estragaria os planos deles. Ikki, por sua vez, já nem enxergava a cena direito, seus olhos estavam nublados de raiva.

- O que você faz aqui? – o russo perguntou a Hal, ainda atordoado.

- Eu te disse que viria, sempre quis conhecer Atenas. Tirei uma semana de férias. Falando nisso, você está me devendo um tour pela cidade… - jogou charme.

- Claro que estou, mas não sabia que você viria tão rápido!

- Na verdade, mais rápido do que imagina. Essa é a minha última noite na cidade… - retrucou.

- Ah, Hal! Peço mil desculpas, eu acabei adiando o meu retorno em alguns dias, se eu soubesse que viria…

- Está tudo bem, não se preocupe. Pelo menos tive a sorte de te ver. Achei que não conseguiria nem isso.

Ikki queria pular no pescoço daquele homem e socá-lo até que não restasse vestígio nenhum daqueles sorrisinhos que ele dava para o seu Hyoga.

- Ah! Deixe-me te apresentar aos meus amigos… - o loiro voltou-se para a mesa. – O loiro bonito é o Milo, o de cabelão é o Shaka e este moreno emburrado é o Ikki. – Hal olhou para o moreno com curiosidade, talvez pelo olhar assassino que fênix mantinha. – Pessoal, este é Halden Sharp, o maior cliente da Fundação Graad nos Estados Unidos e um bom amigo. – o russo passou o braço sobre o ombro de Hal.

- É um prazer conhecê-los. – Hal sorriu.

Com um convite do russo, Halden juntou-se aos quatro na mesa. Fez questão de sentar na outra ponta, para ficar mais próximo de Hyoga.

- Da próxima vez que você vier, prometo que te mostro a cidade toda! – Hyoga disse empolgado.

- Ainda está em tempo… A noite é uma criança, eu adoraria conhecer a sua casa, por exemplo. – Hal cantou Hyoga sem o menor pudor.

- Quem sabe? – o russo gargalhou.

Ikki cruzou o olhar com Hyoga, mas o russo rapidamente voltou sua atenção para Hal.

- Eu quero mais uma cuba. Alguém me arranja mais uma cuba? – Hyoga pediu.

- Você nem terminou essa ainda. Vai com calma, Oga. – Milo ralhou.

- Vejo que você já está bem alegrinho, hein, Hyoga? Isso é bom, gosto de pessoas que sabem curtir a noite. – Hal comentou, sorrindo de maneira estranha.

- Ele está alegrinho, mas não sozinho. Você não vai se dar bem hoje, Sr. Sharp. – Ikki retrucou friamente, causando um enorme desconforto em todos os presentes, até mesmo em Hyoga, que parecia aéreo demais, enquanto tomava um grande gole de sua cuba libre.

- Vocês estão juntos? – Hal perguntou à Hyoga, ignorando o olhar furioso de Ikki sobre ele.

- Nãããooooo! – o russo respondeu com um trejeito. – Sabe por quê? – aproximou-se de Halden como se estivesse contando um segredo, mas acabou falando bem alto. – O Ikki preferiu transar com o Shaka!

O constrangimento foi geral. Shaka não sabia onde enfiar a cara e Ikki pôde sentir a mágoa com que o russo dissera aquilo.

- Hyoga, você está constrangendo os nossos amigos… - Milo chamou a atenção do russo.

- Oh, eu não queria! Desculpa! Mas o que eu disse é verdade, ele não gosta de mim. – apontou para Ikki. – Não do jeito que eu gosto dele. Você gosta de mim, Hal? – abraçou Halden novamente.

- Claro que gosto, Oga. – aproveitou para acariciar a coxa do russo, carícia essa que não passou despercebida por Ikki. – Você é um belo exemplar de homem, não tem como não gostar de você.

- Hyoga, vamos ao banheiro, vem! – Milo não esperou resposta alguma, segurou o braço do russo e arrastou-o para o banheiro.

Lá chegando, fez Hyoga debruçar-se na pia e abriu a torneira, passando a molhar o rosto do amigo.

- Você vai acabar aprontando a maior confusão lá fora! – Milo ralhou com o russo, enquanto este apenas ria. – Não entendo como a bebida subiu tão rápido, você não costuma exagerar assim, Oga. Comeu alguma coisa hoje? Almoçou, jantou?

- Não. – riu. – Você está tentando me afogar? – tentou sair da posição que estava, mas foi mantido firme por Milo.

- Estou tentando recuperar um pouco da sua sobriedade, antes que você faça algo de que se arrependa. Quem é esse tal Halden?

- Diretor da Star Corpo… Corpo… Corporation. Ele é muuuuuito legal. – falou embolado e cheio de trejeitos.

- Mesmo? Porque eu tenho a leve impressão de que o cara legal quer se aproveitar de você bêbado.

- Eu sou maior de idade e vacinado, Milo. Faço o que eu quero. – ergueu-se da pia, cambaleante.

- Essa é a questão. Você quer transar com esse cara? Ou está fazendo isso pra provocar o Ikki?

O loiro não respondeu, correu para um dos boxes para vomitar.

- Acho que a batata frita não me fez bem, Milo. – disse para o amigo que o segurava, evitando que se escorasse na privada imunda.

- É, definitivamente foi a batata frita. – riu, enquanto acariciava os cabelos de Hyoga.

- Ele está bem? – Ikki surgiu na porta do box, assustando Milo.

- Vai ficar. Tem alguma bala aí? O bebum aqui quase vomitou as tripas. – riu.

- Toma. – Ikki ofereceu algumas balas de hortelã que tinha no bolso.

Quando o russo já estava mais recomposto, eles retornaram para a mesa. Como Hyoga ainda se sentia um pouco zonzo, Milo passou uma mão em sua cintura e apoiou-o em seu ombro.

- Eu pedi outra cuba pra você, Hyoga. – Hal comentou sorridente, enquanto Milo ajudava o russo a sentar-se novamente.

Faltou pouco, pouquíssimo mesmo para Ikki partir para cima do cara e afastá-lo de Hyoga a socos e pontapés.

- Está ficando tarde, acho melhor irmos… - Shaka viu que seria melhor evitar que a situação piorasse, Ikki já estava começando a perder o controle.

- É, eu também acho. – Milo concordou. – Hal, foi um prazer te conhecer… Vamos, gente? – fez sinal para Natasha trazer a conta.

- Você não pode ficar, Hyoga? Ainda está cedo, talvez pudéssemos esticar a noite, o que acha?

O russo hesitou em responder.

- É a minha última noite, gostaria muito de curtir com você… - Halden tocou a mão do loiro e sorriu para ele.

A situação ficou tensa. Hyoga olhou para Ikki, depois para Shaka. Um pensamento triste passou por sua cabeça: a decisão que tomasse não faria diferença. De qualquer forma, quem iria para casa e faria amor com Ikki seria Shaka, não ele.

- Eu vou ficar. – respondeu, olhando nos olhos de Ikki.

- Tem certeza? – Milo preocupou-se.

- Tenho. – o russo enfatizou.

- Eu não vou deixar você aqui, nesse estado. – Ikki se pronunciou sem desviar o olhar do loiro.

- Eu já estou melhor. Estou sóbrio e sei perfeitamente o que estou fazendo.

- Você não vai ficar aqui, loiro. – Ikki falou com firmeza.

Os olhares não se desviavam nem por um instante, os dois ignoravam completamente a presença de todos em volta.

- Não é você quem decide isso. – Hyoga retrucou.

Ikki se aproximou brutamente do russo, agarrou seu braço e levantou-o, seus corpos muito próximos.

- Solta o meu braço! – Hyoga tentou se desvencilhar, em vão. A confusão chamou a atenção das outras pessoas na taberna, que passaram a observá-los intrigados.

- Você sabe que ele só quer uma aventura, Hyoga! Ele vai embora amanhã. Por que está fazendo isso? O que quer provar? – Ikki exaltou-se.

- Não tenho que provar nada a ninguém. Só quero viver a minha vida, Ikki.

Ikki soltou o braço de Hyoga e apontou Halden.

- Transar com esse cara não vai resolver nada, pato! É a maior besteira que você vai fazer na vida!

- Não, a maior besteira que já fiz na vida foi me apaixonar por você!

Aquelas palavras atingiram Ikki em cheio. Não conseguiu retrucar.

- Você não tem o direito de decidir nada na minha vida, Ikki. Eu quis dividir tudo com você, abri o meu coração, me entreguei de bandeja e o que você fez? Rejeitou-me como se eu fosse um nada, um ninguém. Você não me quis, eu só estou tentando seguir com a minha vida.

- Eu não pos…

- Você não pode magoar o Shun. É isso o que vai dizer? Eu sei que é. Não precisa mais se explicar, frango. Eu já entendi.

- Você está fazendo isso pra me ferir. – Ikki queria arrancar Hyoga dali a todo custo.

- Pode ter certeza de que você me feriu primeiro. – Hyoga retrucou, sua voz carregada de mágoa. – Você não passa de um covarde egoísta. Um idiota que só sabe decepcionar a todos a sua volta. Responda-me uma coisa: quando você me dispensou, demorou quanto tempo pra transar com o Shaka? Uma semana? Dois dias?

Ikki abaixou a cabeça, não tinha mais coragem de encará-lo.

- Foi no mesmo dia, não foi? Você me machucou daquela forma e logo depois foi comemorar nos braços de outro? E agora quer decidir quem eu devo levar para minha cama ou não? O que você quer de mim, Ikki? Por que você evita ao máximo magoar os outros e não se importa nem um pouco se eu saio ferido ou não? – fênix fechou os olhos, derrotado. – Quer saber? Não me interessa, só me deixe em paz, vai embora! – os olhos do russo estavam marejados. – Vamos sair daqui, Hal?

- Não vai com ele, Hyoga! Não faça isso comigo. Não faça isso com a gente. – Ikki suplicou, segurando o braço do loiro novamente.

- Espera pra ver… - provocou o russo, desvencilhando-se de Ikki e voltando a sentar-se ao lado de Halden.

Ikki não disse nada, apenas virou as costas e saiu da taberna como um trator, empurrando tudo o que via em sua frente. Os outros dois despediram-se de Hyoga, deixaram dinheiro para a conta e seguiram Ikki.

- Da próxima vez, quem bola o plano sou eu. – Shaka disse calmamente.

- Não foi minha culpa, como eu iria saber que esse cara apareceria? – Milo defendeu-se.

Na taberna, Halden sentiu-se mais relaxado. Agora podia investir naquele lindo loiro sem a ameaça de ser espancado a qualquer momento. Acariciou a face de Hyoga e aproximou-se mais.

- Você está bem? – perguntou ao loiro, que parecia sério demais agora.

- Sim.

- Não vai beber o seu drink? – sorriu.

- Não. Já exagerei demais por hoje.

- O grandão parece gostar de você. – comentou com o russo.

- Ele gosta, só não sabe demonstrar.

- Você soube colocá-lo em seu devido lugar.

- Eu sei. – uma lágrima solitária escorreu pelo rosto do loiro. – Podemos sair daqui?

- Um gato como você pode pedir o que quiser… Mas antes, posso fazer uma coisa?

- O quê?

- Algo que quero fazer desde que o vi no aeroporto de Nova York…

Sem mais, Halden selou os lábios de Hyoga com os seus.

Continua…

N/A: Olá! Desculpem por parar nessa parte, mas o capítulo estava ficando enorme… E em minha justificativa pelas atitudes do Hyoga, digo que o Ikki estava merecendo um troco, não é?

Mas vou tentar me redimir com vocês no próximo capítulo, ok?

Agradecimentos especiais a: liliuapolonio, Tom, Arcueid e Sales.

Obrigada a todos que estão acompanhando e peço que, se acharem que mereço, deixem reviews! Façam uma autora feliz!

Bjão

Mamba