CAPÍTULO 11 – O Banquete de Recepção em Hogwarts
A jornada nos pequenos barcos através do Lago Negro foi uma experiência interessante, e para Susana, algo romântica, já que ela fez questão de grudar ao lado de Paul por todo caminho. Lisa, dividindo o banco atrás deles com Ana, lembrou a nova amiga da necessidade de conversarem com Susana em breve. Paul era um menino extremamente gentil e paciente, mas era um menino, e meninos não gostavam muito de tanta atenção daquele tipo.
Assim que eles chegaram ao pequeno cais sob Hogwarts, Lisa despediu-se das outras meninas, que ainda não podiam acreditar que ela não fosse mágica, aquela demonstração encontrando o sapo de Neville ainda fresca na memória delas. Pena que havia a possibilidade de que a professora McGonagall lembrasse dela como irmã de Paul e não sendo bruxa, de outra forma ela ficaria para participar da festa.
Após Lisa ter atravessado o portal aberto por Paul, eles correram para alcançar os outros. Logo eles estavam formando uma fila no Grande Salão para ouvir a canção do chapéu seletor. Quando finalmente o nome de Ana foi chamado, todos os seus novos amigos desejaram-lhe sorte em sua missão.
E Ana não os decepcionou. Ao invés de ser imediatamente selecionada para uma das casas, ela permaneceu sentada por um longo tempo em conversação mental com o chapéu seletor. Era curioso ver a crescente agitação e nervosismo dos estudantes e professores à medida em que o tempo passava e o chapéu não se manifestava. A austera professora McGonagall até mesmo aproximou-se e conversou rapidamente com o chapéu, retornando a seu lugar com uma expressão azeda na face.
Finalmente, após quase vinte minutos depois de Ana sentar-se no banquinho, a primeira mudança aconteceu, silenciando todas as conversas no Grande Salão. Um distante som de rocha deslizando sobre rocha veio a eles do interior do castelo. Aparentemente algo grandioso estava acontecendo, e aquilo trouxe um sorriso para todos os membros do pequeno grupo revolucionário que se formara durante a viagem no Expresso, já que era confirmação de que Ana havia obtido sucesso em seu pedido.
Logo outras mudanças começavam a ocorrer, dessa vez no próprio Grande Salão onde eles reuniam-se. As quatro mesas das casas começaram a encolher na ponta mais próxima da mesa dos professores enquanto alongavam-se um pouco na extremidade próxima do Hall de Entrada. Quando suficiente espaço foi obtido, uma nova mesa, paralela à dos professores, apareceu no espaço liberado, com novos bancos, toalhas e demais utensílios, entre as mesas das casas e a plataforma onde ficava a mesa dos professores. Antes que o espanto gerasse caos, o chapéu seletor falou com uma voz magicamente amplificada.
"Por um milênio a rivalidade entre as casas de Hogwarts apenas cresceu, e aproxima-se agora de total ódio. Dúzias de diretores viram a situação piorar e nada fizeram para contê-la. Milhares de estudantes passaram por esses gloriosos muros aceitando tudo sem reclamar, raramente fazendo amizades fora das limitadas bordas de suas próprias casas. Mas hoje isso será mudado. Hoje uma grande ideia foi proposta, e a própria Hogwarts aprovou-a. De agora em diante, eu não mais selecionarei os estudantes no dia em que eles chegarem aqui. Eles terão dois anos para conhecerem o castelo, os funcionários, seus companheiros e a si próprios, antes que sejam selecionados em uma casa. Apenas no início de seu terceiro ano como estudante serão eles adicionados a uma das tradicionais casas. Até então, eles compartilharão uma nova mesa e novos dormitórios no quinto andar. Um professor com as qualidades adequadas será selecionado pelo diretor para tomar conta desses estudantes em seus dois primeiros anos aqui. Alvo, você tem alguém para assumir essa posição?" perguntou o chapéu ao diretor.
"Oh, bem, talvez nossa professora de Aritmância, professora Sétima Vetor, possa aceitar o trabalho?" disse o diretor, olhando inquisitivamente para a mulher mencionada, que anuiu em concordância. Com isso, o chapéu convidou os novos estudantes a tomarem assento na nova mesa, agradecendo a Ana, e seu grupo, pela ideia de postergar a seleção.
As novidades surpreenderam a todos, e nem todos pareciam felizes. McGonagall logo parou os novos estudantes, pretendendo pelo menos introduzi-los a seus novos colegas e aos funcionários chamando-os cada um pelo nome de acordo com sua lista. Mas um dos ingressantes resolveu ignorar tudo aquilo. Ele caminhou até o chapéu seletor e sentou-se no banquinho colocando o chapéu na cabeça, exigindo que o chapéu o colocasse em Sonserina. Para sua vergonha, o chapéu seletor ignorou-o completamente. Um dos professores, o mestre de poções, veio até ele e exigiu que ele retornasse ao grupo dos ingressantes enquanto murmurava rispidamente no ouvido do menino por todo caminho.
Minerva logo começou a chamada com 'Abott, Ana', seguido por 'Barrington, Margarete', 'Bishop, Kimberly', 'Bode, Eilide' e 'Bones, Susana' e as garotas rapidamente moveram-se para a ponta da mesa próximo à mesa dos Grifinórios. Somente então veio o nome do primeiro menino, 'Boot, Terry'. O garoto chegou ao centro da plataforma e fez uma rápida pausa, olhando para as meninas a uma extremidade da mesa, então para a outra extremidade, ainda vazia e por fim ao resto dos estudantes esperando serem chamados, certamente notando quanto mais meninas que meninos estavam ali. Ele quase correu para a extremidade vazia da nova mesa, estabelecendo um padrão para os demais meninos até que o último deles, 'Zurkhof, Paul', contrariou a norma, sob assovios e piadinhas rudes dos estudantes mais velhos, indo sentar-se do lado oposto ao dos demais garotos, sendo calorosamente recebido por algumas das meninas ali presentes.
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O resto da festa transcorreu normalmente, em termos, com apenas a menção de uma terrível morte para aqueles tolos o bastante para vagarem por um certo corredor do terceiro andar chamando a atenção de Paul. Exceto por Susana, que insistia em permanecer grudada a Paul, as demais garotas que compartilharam a cabine com Paul estavam fazendo o combinado, travando amizade com as outras meninas e convidando-as para o grupo de estudo que planejaram. A missão delas parecia estar caminhando muito bem, ao contrário do que ocorria com Neville, que Paul podia ver sendo ignorado pelos garotos ao redor dele.
Paul aproveitou um instante para olhar para Susana, ainda um pouco perplexo pela forma como ela havia se ligado a ele. Lisa havia comentado algo mentalmente com ele, citando 'solidão' e 'romances baratos', mas o garoto não havia compreendido muito bem além do ponto de que seria melhor se ele fosse paciente. A menina havia virado para o outro lado, e agora usava o lado direito de Paul como encosto para suas costas enquanto conversava com uma pequena menina chinesa e uma ruivinha sardenta chamada 'Morag', um nome que Paul já havia ouvido antes e achava bonito e exótico.
Susana definitivamente não era tão tímida quanto Paul julgara a princípio; ela conversava facilmente com outras pessoas, e era doce e carinhosa, de uma forma que o lembrava de Luna com aquela sua voz suave e calma. Ele concluiu que o único problema com Susana é que ela estava demonstrando muita confiança em um garoto que ela acabara de conhecer. Olhando para os meninos do outro lado da mesa, e conhecendo um pouco sobre como garotos adolescentes tendiam a agir com 'garotas fáceis', ele finalmente começou a compreender as preocupações de Lisa.
'Ótimo, demorou um bocado mas finalmente você chegou lá' enviou Lisa para ele telepaticamente. 'Não se preocupe, nós cuidaremos de Susana, e você tem se comportado bem até agora.'
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Após a mais revoltante esculhambação musical que Paul jamais ouvira, a festa estava encerrada e eles foram escoltados para seus novíssimos aposentos não apenas pela professora Vetor, mas também pelo diretor e outros quatro professores, curiosos em ver o que o castelo havia preparado para os novos estudantes.
No quinto andar, em frente a um quadro da reunião inaugural da Confederação Internacional dos Magos, uma porta dupla de madeira dava entrada a uma ampla Sala Comum, com duas lareiras, dúzias de sofás e poltronas, algumas mesas pequenas e uma grande no fundo próximo às janelas, com várias cadeiras espalhadas ao redor delas. De cada lado das portas de entrada, uma escadaria levava ao andar superior, onde estavam localizados os quartos de dormir. Era fácil perceber que a escadaria da direita era destinada aos meninos, já que a parte superior daquele lado estava separada dos outros três lados por muros.
Nas laterais da Sala Comum, sob os dormitórios, haviam outros aposentos que os adultos logo checaram, encontrando uma sala de jogos e uma área para prática de feitiços, protegida contra danos, no lado direito, e uma biblioteca e uma pequena sala de reunião ou estudo, com quadro-negro e cerca de vinte cadeiras, no lado esquerdo.
Satisfeitos com as acomodações, alguns dos professores já estavam se despedindo dos alunos quando o diretor começou: "Sim, uma boa noite a todos vocês. Contudo, eu apreciaria muitíssimo se a senhorita Abbott..."
"Amanhã de manhã!" cortou a professora McGonagall. "Amanhã de manhã gostaríamos de ter uma conversa com a senhorita Abbott, antes do café-da-manhã. Venha, Alvo, devemos deixar as crianças acomodaram-se e repousarem."
O diretor, contrariado mas submisso, acenou um adeus às crianças e saiu com os demais professores, deixando as crianças aos cuidados da professora Vetor. Luna aproveitou a oportunidade e, escondida atrás da maioria das outras meninas, rapidamente abriu um portal e deixou Lisa vir por ele, antes de fechá-lo. Apenas Dafne, Tracy e uma outra menina logo apresentada a elas como sendo Lilite Moon viram a chegada de Lisa. Enquanto Luna fechava o portal, Lisa foi direto a Ana e trouxe-a para perto do pequeno grupo, ciente de que a participação de Ana na não-seleção trouxera uma atenção indesejada sobre a tímida garota, deixando-a nervosa.
Enquanto isso ocorria, a professora Vetor extraiu sua varinha e a balançou na direção da escada para os quartos das meninas, fazendo a escada brilhar em um tom de rosa. Sorrindo para os meninos ela disse: "Eu realmente espero que nenhum garoto tente chegar aos quartos das meninas. Como é comum aqui em Hogwarts, os dormitórios femininos estão protegidos contra tal invasão, e vocês não gostarão das consequências de uma tentativa frustrada. Em cada quarto vocês vão encontrar quatro camas e um pequeno banheiro com dois chuveiros, duas privadas e duas pias. Seus baús já estão aos pés da cama para a qual estão designados. Se quiserem trocar de aposento, avisem-me amanhã. Vão encontrar suas camas e descansem bem. Tenho certeza de que teremos um dia cansativo amanhã, cheio de surpresas e novidades. Boa noite a todos."
Após a professora sair alguns garotos, especialmente o incorrigível Malfoy, começaram a andar na direção de Ana, mas Lisa, Luna e Dafne rapidamente a escoltaram para cima.
Paul esperou na biblioteca pelas garotas. Luna e Lisa chegaram uns vinte minutos depois.
"Elas estão todas muito cansadas para qualquer coisa a mais hoje. Vamos para casa dormir um pouco também" explicou Luna ao chegar.
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De volta ao lar, as três crianças estavam logo dormindo. Essa noite foi Paul quem sugeriu a atividade: "Acho que temos um corredor estranho para investigar".
As crianças ficaram atônitas e espantadas com o que encontraram no corredor proibido do terceiro andar. Como podiam algumas das reputadas melhores mentes do mundo mágico serem tão burras? Será que eles realmente pensavam que nenhum estudante seria curioso o bastante para explorar a área que tão estupidamente anunciaram como perigosa na festa de recepção? Será que eles realmente acreditavam seguro separar um gigantesco cão de três cabeças do resto da escola por uma simples porta de madeira? Como podiam eles acreditar que aquelas pobres armadilhas poderiam deter um mago adulto determinado a chegar até aquele tipo de rubi? Como puderam eles não perceber que a sala onde a pedra estava escondida estava justamente atrás da sala de História da Magia no primeiro andar, permitindo qualquer um que conhecesse o caminho e fizesse os cálculos ser capaz de chegar a ela sem precisar passar pelas armadilhas?
Mas o pior era a própria natureza da pedra que eles tão pateticamente tentavam proteger. Foi só quando estavam se preparando pela manhã que Luna percebeu o que aquela pedra deveria ser.
"Eu acho... aquela pedra... eu acho que é uma Pedra Filosofal!" comentou Luna.
"E o que é isso?" perguntou Paul.
"Uma pedra capaz de dar imortalidade, curar qualquer doença, e ainda transformar metais baratos em ouro."
"Inacreditável! Quem é o dono da doentia mente anormal que resolveu sequer pensar em criar algo tão perigoso?" perguntou Lisa.
"Um cara chamado Nicolas Flamel" respondeu Luna. "Ele tem mais de seiscentos anos de idade, e é uma pessoa muito reclusa. Vive com sua esposa, Perenelle, em algum lugar aqui do Reino Unido ou na França, isto não é conhecido com certeza. Papai tentou entrar em contato com ele várias vezes, mas sem sucesso."
"E por que ele colocaria sua preciosa pedra em Hogwarts?" perguntou Paul.
"Isso deve ser coisa do diretor. Alvo Dumbledore foi seu último discípulo, algo como um século atrás."
"Bom, podemos descobrir mais sobre isso depois" concluiu Paul. "Precisamos retornar para Hogwarts, há uma loirinha de tranças lá que deve estar aflita com a conversa que o diretor quer ter com ela."
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Com certeza, eles encontraram uma extremamente ansiosa Ana tão logo retornaram à Sala Comum. Lisa novamente passou despercebida aos demais que iam descendo as escadas de acesso aos dormitórios. Afinal, usando o mesmo tipo de uniforme que os demais e contando que ninguém ainda conhecia todos os novos alunos, era fácil. O início das aulas, porém, provavelmente mudaria a situação.
"Luna, onde você dormiu? Qual o seu quarto? Eu não consegui encontrar você ou Lisa em parte alguma e eu estou tão assustada!" disse Ana, abraçando a menina mais nova com força.
"Eu dormi com Paul e Lisa, como sempre" respondeu Luna. "Não se preocupe. Estamos aqui agora e vamos ajuda-la."
"Mas... vocês dormiram no quarto de Paul? Argh!" exclamou Su Li, que fazia parte agora do grupo mas ainda não sabia dos portais.
"Não! Nós dormimos em casa. Nós nem trouxemos nossas coisas para cá" respondeu Luna.
"Por que não nos convidou?" perguntou Susana, um pouco magoada. "Eu gostaria de ter ido também!"
Lisa virou-se para Paul e piscou. Ela adorava atormentar o menino sobre sua fã. "Você pode vir conosco hoje a noite, se quiser" ela disse a Susana, fazendo a menina sorrir agradecida.
"Vocês três são realmente unidos, não são?" perguntou Tracy, mas a conversa foi interrompida pela chegada dos adultos, para a agonia de Ana. Lisa logo se escondeu atrás das outras meninas, para não ser reconhecida.
"Ah, que bom, já está acordada, senhorita Abbott. Por favor, se puder seguir-nos..." começou Dumbledore, mas Paul rapidamente interveio.
"Diretor, acho que houve um mal-entendido" ele disse. "A forma como o senhor fala leva a crer que o senhor está com a impressão de que Ana sozinha foi responsável pela falta de seleção de ontem." Para alívio de Ana, Paul colocou-se à frente dela, chamando para si toda atenção dos demais. "Na verdade, ela apenas foi a mensageira para algumas ideias que eu e alguns outros estudantes discutimos juntos."
"É verdade, diretor. Eu estava lá também" disse Susana, colocando-se novamente ao lado de Paul.
"Eu também" declarou Luna, aproximando-se, sendo logo seguida por Dafne, Tracy e Hermione. Alguns momentos depois um atônito Neville juntou-se a eles. O tímido menino não conseguia acreditar no que estava fazendo, colocando-se em tal situação por vontade própria.
As bruxinhas de sangue puro estavam bem acostumadas com o que era ou não possível com magia, e aquilo que Paul e Lisa demonstraram para elas era tão fora do normal quanto os míticos feitos do próprio Merlin. Criar um diamante de uma bola de pergaminho? Não havia jeito de elas aceitarem ficar fora daquilo! Para Neville e Hermione, a razão de se unirem ao grupo era bem diferente, mesmo ambos perceberem claramente o calibre das demonstrações que viram no trem. Para eles ainda mais importante era a incrível sensação de, pela primeira vez, serem aceitos por crianças de sua idade como iguais.
Havia também um outro sentimento importante para aquele grupo de crianças, um sentimento algo pesado mas exilariante de participar da História sendo feita. Bastou meio dia junto àquelas três misteriosas crianças para que vissem magia de primeira qualidade e uma tradição milenar ser quebrada! E era claro que os três estavam apenas no início de algo muito maior. Entre as ideias que o menino-que-sobrevivera lançava semanalmente naquela fenomenal revista nova e o poder que esses três demostravam possuir, Hogwarts poderia ser um lugar completamente diferente em uns poucos meses, e a chance de participar de tudo isso era a oportunidade de uma vida, que não poderia ser desperdiçada.
"Bem, com tantos de vocês envolvidos, talvez seja melhor sentarmos por aqui mesmo para nossa pequena conversa. Acho que meu escritório não seria grande o bastante para acomodar a todos nós" disse Dumbledore, apontando para as almofadas e sofás distribuídos no centro da sala, convidando todos a sentarem-se.
Nessa altura quase todos os alunos já haviam descido, curiosos por descobrir se alguma mudança viria daquele encontro. Paul sentou-se em um sofá de três assentos, Ana e Susana espremeram-se de um lado dele, Dafne e Hermione do outro, para irritação de Tracy, que queria o lugar próximo a sua prima.
Paul colocou um braço ao redor da cintura de Ana, sorrindo para ela para garantir que tudo estaria bem. Ela respondeu seu sorriso com outro, de gratidão, e apertou gentilmente sua mão.
"Bem, primeiramente, acho que algumas introduções estão em ordem. Eu, como devem saber, sou Alvo Dumbledore, o diretor de Hogwarts, entre outros títulos. Aqui a meu lado está Minerva McGounagall, diretora-substituta, professora de transfiguração e chefe da casa Grifinória. Ao lado dela, Pomona Sprout, nossa professora de herbologia e chefe da casa Lufa-Lufa. Vocês já conhecem a professora Vetor, de aritmância, e desde ontem a chefe de casa para vocês. Aqui, de meu outro lado, está Severo Snape, nosso mestre de poções e chefe da casa Sonserina, e a seu lado, Filio Flitwick, nosso mestre de charmes e chefe da casa Corvinal."
Terminando suas apresentações, Dumbledore olhou para os novos estudantes em expectativa. Paul tomou a liderança introduzindo a si próprio, seguindo pelos demais ocupantes de sua cabine no Expresso, exceto por Lisa, que ele sabia estar logo atrás dele, ocultando-se dos professores, mas observando-os com atenção. Após as introduções o diretor iniciou a conversa propriamente dita questionando Ana.
"Bem, com aquela formalidade fora do caminho, senhorita Abbott, poderia dizer-nos como surgiu a ideia de postergar a seleção de casas?"
Para a surpresa de quase todos, a tímida menina balançou sua cabeça negativamente antes de emitir um quase inaudível "Não."
"Isso é minha culpa, diretor" interveio Paul novamente. "Por minha iniciativa, nós todos compartilhamos um voto de segredo sobre os assuntos que discutimos. Erámos todos desconhecidos uns dos outros, e estávamos inseguros sobre expor nossas ideias... o senhor deve entender, apenas acabávamos de nos conhecer e começamos a discutir alguns assuntos sérios..."
"Entendo... Isso complica um pouco as coisas. Algo fantástico, os juramentos e votos mágicos, mas também tão perigoso... Estou surpreso que um novato nascido no mundo trouxa tivesse conhecimento deles antes de chegar a Hogwarts..."
O diretor não estava escondendo muito bem suas suspeitas, mas dessa vez Susana interveio salvando Paul da situação difícil.
"Oh, eu não acho que Paul sabia sobre votos mágicos, diretor. Acho que ele tinha pensado em termos puramente trouxas, mas então eu expliquei a todos sobre o poder dos votos e juramentos mágicos, e os ajudei a criar um."
Paul mal podia acreditar. Susana havia olhado nos olhos do diretor e mentido sem titubear para salvar a pele dele. As palavras da menina acalmaram um pouco o diretor, mas ele ainda estava intrigado.
"E o quê, precisamente, especificava esse voto que vocês fizeram?" perguntou ele enquanto deixava seu olhar passear pelos estudantes, procurando por mais informações do que eles estavam voluntariamente fornecendo. Foi Dafne quem respondeu essa última questão, entregando ao diretor um papel com o texto do juramento que ela tinha guardado consigo, após receber um aceno afirmativo de Paul a seu olhar inquiridor.
O diretor leu o papel e seu semblante ficou anormalmente sério. Aquilo não era um juramento infantil como esperava. Era um cometimento formal e extremamente bem fechado entre iguais que estabeleciam um grupo para compartilhar conhecimento e poder em favor dos membros do grupo, e colocando a magia coletiva deles na defesa do grupo. Era muita coisa muito cedo para tal grupo de jovens. Saberiam eles que haviam feito um cometimento perpétuo? Aquilo cheirava à influência de um adulto inteligente e ardiloso, não à uma aventura de crianças.
"Eu não consigo compreender por que vocês colocaram a si próprios sob tais termos tão restritivos, apenas para discutir algumas opiniões. Sei que alguns de vocês vêm do mundo trouxa, e assim, não estão acostumados com votos mágicos, mas, senhorita Bones, senhorita Greengrass, tenho certeza de que possuem uma boa noção acerca do que concordaram aqui?"
Susana estava ficando zangada, o diretor estava obviamente chamando Dafne e ela de crianças tolas. Ela olhou ternamente para Paul que, de algum modo, havia sentido o estresse pelo qual ela passava e colocara uma mão sobre seu ombro, acalmando-a.
"O senhor certamente não sabe de tudo o que está envolvido aqui, senhor diretor" ela finalmente respondeu.
"Oh, e é muito conveniente que esse voto previna vocês de dizerem o que mais está envolvido, não é?" interveio o mestre de poções.
"Acho melhor que vocês tratem esse assunto como uma matéria pessoal entre nós, e dirijam a conversa para pontos mais frutíferos" interferiu Paul olhando para o mestre de poções com desprezo pela observação maldosa dele.
"Você vai aprender a respeitar seus superiores, pirralho, ou sua estadia aqui será muito curta" contrapôs o seboso professor.
Minerva, sentindo o crescente antagonismo entre os dois, tentou mudar o assunto e obter alguma informação sobre um ponto que seu novo prefeito, Percy Weasley, trouxera para sua apreciação.
"Um de meus prefeitos reportou um incidente em um dos compartimentos que penso ter sido o ocupado por vocês. Luzes e um aumento de temperatura. O que vocês sabem a respeito?" ela perguntou rapidamente, antes que o debate escalasse.
Desta vez foi Dafne quem deu uma resposta, mas novamente frustrando os adultos: "Não podemos. O juramento..."
"Expulse-os todos, diretor!" berrou Snape. "Está claro que estão conspirando contra a ordem estabelecida, quebraram uma tradição milenar, perturbaram a viagem no Expresso e ainda, muito convenientemente, usaram um voto mágico para evitar nos dar explicações sobre seus atos. Se eles são capazes de tanto em um único dia, imagine o que teremos que suportar até o final do ano! Expulse-os já, e evite toda a série de problemas que eles com certeza nos causarão!"
"Severo!" protestou McGonagall, "Você recusou a expulsão de Flint e Higgs em maio último, quando tivemos alunos feridos e danos ao patrimônio da escola! Por certo não deve esperar que expulsemos alunos que não fizeram nenhuma infração tão pesada! E com o voto, não conseguiremos sequer descobrir se alguma regra foi quebrada."
"Oh, eu saberei!" respondeu o mestre de poções, que imediatamente focou sua atenção em Paul, que ele considerava como o mentor por trás de toda aquela confusão.
Lisa colou sua face à de Paul, do lado oposto ao ocupado por Minerva, e logo Paul ouvia em sua mente 'Distraia o seboso, eu vou cuidar dele.'
Paul imediatamente começou a utilizar o único método que ele conseguira desenvolver para manter Lisa incapaz de ler sua mente: ele começou a calcular a raiz quadrada de dois pelo algoritmo de Herão, uma tarefa sem fim, já que raiz de dois é um número irracional, e que requeria toda a atenção do menino ao cálculo. Ele percebeu que algumas de suas memórias tentavam aflorar à sua consciência, mas com sua mente focada no cálculo, elas voltavam a seu inconsciente antes que o desprezível professor pudesse vê-las.
Enquanto essa batalha ocorria em sua mente, ele pôde perceber que outra estava ocorrendo na mente do professor de poções, pela forma que sua face franzia em expressões mistas de surpresa, tensão e agonia.
Logo os olhos do professor estavam vidrados, sua testa franzida, uma expressão de sofrimento nos lábios, e pequenas veias vermelhas iam tomando o branco de seus olhos. Em seguida, o suor começou a verter de sua fronte, e a tensão em seus músculos chegou a tal ponto que seu corpo começou a apresentar convulsões. Finalmente sangue começou a sair de seus olhos, nariz e ouvidos, e Paul começou a ouvir vozes, como que vindas de muito distante, as vozes altas de professores e alunos que, assustados, queriam fazer algo pelo professor sem saber o quê. Por fim, com uma última ruidosa inspiração, o mestre de poções perdeu os sentidos, uma expressão de imensa dor ainda em seu semblante.
'Feito. Temos muito que conversar depois' Lisa enviou-lhe telepaticamente e Paul notou que ela aproveitava a comoção toda para esgueirar-se para trás das outras meninas, sumindo de vista. Mas a mensagem dela deixou Paul preocupado, como se um perigo imenso estivesse pronto a cair sobre ele. Após tudo de mal que já haviam descoberto sobre aquele homem, que outro medonho segredo pudera Lisa extrair dele? Paul temia descobrir.
"Senhor Zurkhof! O quê o senhor fez ao professor Snape?" perguntou rispidamente o diretor.
"O professor de algum modo atacou minha mente, diretor. Eu pude sentir sua presença..."
"E o que você fez a ele?" perguntou novamente o diretor, sua face séria, quase zangada, enquanto as professoras Sprout e McDonagall estavam mais interessadas, e chocadas, com a revelação de que um professor de Hogwarts atacara mentalmente um aluno.
"Eu apenas comecei um cálculo infinito, foi o único modo que eu descobri para manter minha irmã longe de minha mente" explicou o menino.
"Mas... sua irmã..." perguntou McGonagall, "ela não é trouxa?"
"Nós não gostamos dessa palavra, 'trouxa', mas sim, minha irmã não é mágica."
"E ainda assim, ela é capaz de entrar em sua mente?" voltou a perguntar a subdiretora.
"Sim, e ela é muito melhor nisso que ele" Paul respondeu, lançando um olhar de desdém na direção do professor inconsciente.
Agora, o grande Alvo Dumbledore estava aparvalhado. Uma garotinha trouxa mais proficiente nas Artes Mentais que Severo? Inacreditável!
"Mas... Severo... O que aconteceu com ele?" perguntou a professora Sprout.
Aquela era uma questão que Paul decididamente não queria responder, mas não responder não era uma opção. 'Vá em frente. Diga a eles que fui eu, apenas não revele que estou aqui' veio a voz de Lisa em sua cabeça.
"Minha irmã, Lisa. Ela estava em minha mente, ainda está. Ela percebeu que eu estava estressado com a conversa, e estava prestando atenção. Ela percebeu a invasão e mandou que eu começasse o cálculo, e deixasse o professor com ela."
Dumbledore continuava pasmo. Uma conexão mental mantida a centenas de quilômetros de distância? Um ataque contra um legilimens e oclumens plenamente capacitado sem contato visual direto? Ele sentiu um estranho calafrio percorrendo seu corpo, algo que ele não sentira há muito tempo, tanto tempo que ele levou alguns momentos até reconhecer aquilo pelo que aquilo era: medo. O grande Alvo Dumbledore estava agora com medo de uma menininha trouxa que ele nunca encontrara. E, por associação, com considerável receio do irmão dela, que poderia também possuir algo daquele estranho poder.
'Oh, Severo, o que você aprontou agora? Que bagunça você deixou para eu limpar!' pensou o diretor, olhando tristemente para seu pupilo.
"Bem," ele disse finalmente, enquanto levantava e preparava para tomar os passos necessários para minimizar os eventos. "Professor Flitwick, o senhor poderia por favor levitar o professor Snape até nossa Ala Médica e coloca-lo sob os cuidados de nossa querida madame Pomfrey? Obrigado."
"Mas... Alvo! E o ataque dele a um aluno?" protestou Minerva.
"Não iremos condenar um colega por um erro isolado ocorrido no calor de uma lamentável discussão... da mesma forma que não condenaremos esses jovens estudantes por sua infantil mas compreensível quebra de decoro e... devo dizer, espírito de rebelião?"
Dafne era por demais versada nos caminhos da política e negócios para não perceber a manobra que o diretor estava tentando ali. Ele claramente esperava obter dos alunos o perdão ao ataque de Snape em troca de um perdão para quaisquer transgressões que eles alunos houvessem cometido, e vendendo o acordo como se vantajoso para os alunos. Mas aquele não era o jeito em que as coisas de fato estavam. Os professores nada tinham de concreto contra os alunos, enquanto a sala estava cheia de testemunhas de um ataque de um professor contra uma criança. Mas antes que ela pudesse protestar, outra pessoa o fez.
"Eu acho que o ataque de um professor contra uma criança sob seus cuidados é motivo suficiente para o envolvimento do Departamento de Execução da Lei Mágica, não concorda, professora McGonagall?" Susana Bones perguntou.
"Minha querida," respondeu Dumbledore, "tenho certeza de que não há necessidade de importunarmos sua tia com tais pequenos problemas. Ela é uma dama muito ocupada, e tem muitas outras coisas importantes demandando seu precioso tempo. Se você está já se sentindo com tantas saudades de casa para considerar chama-la por tão pouco, tenho certeza que a sua chefe de casa poderá ajuda-la. Por favor, apenas converse com ela e ela vai ajuda-la a superar essa dificuldade. Agora, o café da manhã está já sendo servido no Grande Salão. O primeiro ano ficará sem aulas hoje. Aproveitem fazer uma deliciosa refeição e passearem pelo castelo para conhecerem melhor essa renomada escola. Tenham todos um bom dia."
As palavras finais do diretor e sua rápida saída da sala deixaram claro para todos os presentes que algo muito grave e errado estava sendo varrido para debaixo do tapete, mesmo que alguns deles estivessem em dúvida exatamente sobre o quê ocorrera.
O pequeno grupo tentou forçar um posicionamento da subdiretora, mas ela rapidamente esquivou-se dizendo que eles deveriam tratar o assunto direto com o diretor e que ela não podia ir contra ele nesse caso, saindo rapidamente da sala. O pequeno grupo trocou alguns olhares, e logo Susana e Dafne estavam redigindo longas cartas para enviar para casa.
