Capítulo 10
— Puta merda, ela está de sacanagem! — Rony olhou para o prédio com um misto de horror e confusão. — Espero muito que a gente esteja com o endereço errado.
Hermione arrancou o pedaço de papel das mãos de Rony.
— Deixe-me ver.
— Eu sei ler, sabia?
Revirando os olhos, ela examinou o papel.
— Inacreditável.
— O quê? — Ele se inclinou por cima do ombro dela, olhando o papel mais uma vez. O perfume de Hermione o atraía, e isso o deixava tenso.
— Você saber ler.
— Muito engraçado!
— É o endereço certo. — Hermione bateu no peito dele com o papel e andou até a porta escura. — Acho que devíamos... Devíamos entrar?
— Claro que não. — Rony cruzou os braços. — Sem chance.
— A lista diz que a Madame nos espera à uma da tarde! Vamos nos atrasar se não entrarmos.
Rony umedeceu os lábios e olhou outra vez para o prédio. Nas vitrines havia imagens de casais dançando. As mulheres riam e jogavam confetes para o ar. Parecia um desses comerciais toscos sobre absorventes internos.
— Não. E quem é chamada de Madame, hoje em dia?
Hermione revirou os olhos.
— É o nome dela. Por quê? Está com medo de desenvolver um par de peitos? Tem medo de que suas bolas desapareçam?
Rony bufou com desdém.
— Tudo bem, vamos lá. — Irritado, ele agarrou o braço de Hermione com a mão esquerda e abriu a porta com a direita.
Lá dentro estava escuro.
— Viu? Endereço errado. — Rony soltou o braço de Hermione e pegou o celular no instante em que uma música começou a ser ouvida no ambiente. Então alguns refletores se acenderam e o cegaram momentaneamente. — Que porra é essa?
Foi aí que começou a cantoria.
Hermione, ao seu lado, ficou tensa. Mais luzes foram acesas, embora Rony não tivesse nem ideia de onde elas vinham. Ainda estava um pouco cego por conta do primeiro clarão. Tentou dar um passo para o lado, mas bateu em uma mesa. Apoiando as mãos no tampo, olhou para baixo.
E viu fotos de strippers do sexo masculino sem blusa.
Ele se endireitou rapidamente, mas então esbarrou em alguma coisa dura, que oscilou. Rony se virou, tentando estabilizar o objeto.
Era uma estátua nua.
De um homem.
Como é que ele ia tocar naquilo? A escultura tinha sido colocada na mesa de um jeito que deixava as pessoas frente a frente com o órgão sexual masculino. Esticou a mão para segurá-la pela cintura, quando sentiu Hermione esbarrar nele. Ela parecia travar a própria batalha contra um enxame de balões na forma de... é... partes íntimas.
— Mas que droga! — Hermione segurou a mão dele. — Precisamos correr.
— Parece o inferno, só que pior — concordou Rony, agarrando-a pelo braço.
— Bem-vindos, bem-vindos! — cumprimentou uma voz amplificada por um alto-falante.
— Meu Deus. É oficial: estamos nos Jogos Vorazes! — Rony segurou Hermione e a empurrou para trás de si. — Só deixe que eu morra primeiro, Senhor! Por favor, deixe que eu morra primeiro.
— Estava esperando vocês! — anunciou a voz feminina, alegremente.
— Não me sinto melhor com esse seu pedido, não, Rony — sussurrou Hermione, atrás dele. — Aliás, só é romântico se sacrificar por outra pessoa quando a morte não é a melhor opção, pezinho de valsa!
Rony parou.
— Você jurou que levaria esse segredo para o túmulo!
— Ops? — Hermione deu de ombros. — Por quantos anos você fez balé mesmo, hem? Um, dois?
— Não me venha com esse seu "ops"! — Por que tinha mencionado aquele apelido antigo? Ainda mais naquele momento? Será que tinha ideia de como aquilo feria sua masculinidade?
— Só fique quietinho...
— Posso ver e ouvir vocês — disse a voz. — E não tenho o dia todo. Agora, preciso examinar vocês.
— Saímos dos Jogos Vorazes e entramos nos Jogos Mortais. — Rony sacudiu a cabeça e gritou para a voz: — Poderia ao menos apagar as luzes? Não conseguimos ver você!
— Ah, meu querido! E não é esse o objetivo? — respondeu a voz, rindo.
— Hã... não? — Hermione soltou uma risada nervosa.
— Não tenho o dia inteiro! — gritou a voz. — Agora, separem-se! Preciso examinar o material com que terei de trabalhar.
Devagar, Hermione saiu de trás de Rony e parou ao seu lado, de cabeça erguida. Rony foi obrigado a admirar a coragem da garota. Qualquer outra teria saído correndo dali. Ele era homem e ainda assim teria pesadelos com aquilo.
— Nada mau — comentou a voz, com frieza. — Nada mau mesmo.
— Obrigada. — Hermione sorriu.
Rony revirou os olhos.
— Ela só a está elogiando para que você fique bem gorda e feliz antes do abate.
— Esse aí tem uma língua afiada — comentou a voz. — Mas dá para o gasto. Rony, você vai servir. Diga, você se sente à vontade no palco?
— Nem um pouco — soltou Rony, tossindo. — Nem um pouco mesmo. Tenho um joelho ruim e...
— O joelho dele é ótimo! — interrompeu Hermione, com uma piscadela.
Ele investiu contra ela, mas naquele instante as luzes se acenderam e a sala voltou ao normal.
Iluminada, não era um lugar tão assustador. Parecia uma mistura de estúdio de dança e loja de artigos esquisitos para festas.
— Olá! — Uma mulher surgiu em uma sacada acima dos dois. — Desculpe deixá-los sob os refletores desse jeito, mas sua querida avó disse que vocês precisavam de uma boa risada.
— Ha-ha. — Rony ia estrangular a avó.
— De qualquer jeito, imagino que já tenham recebido instruções sobre a dança de vocês.
— Dança? — perguntou Rony.
— Nossa? — indagou Hermione.
— Mas é claro! Sou Madame, a melhor professora de dança da cidade.
Rony duvidava do que a mulher dissera. Ela era, no mínimo, da idade de sua avó, e descia as escadas tão devagar que ele tinha certeza de que naquele exato momento, ali, bem diante de seus olhos, a desconhecida estava envelhecendo.
— Ah, acho que minha avó deve ter se confundido. — O olhar de Rony estava fixo nas pernas trêmulas da mulher, que descia lentamente os degraus. Bom Deus! Aqueles saltos deviam ter pelo menos 15 centímetros, e a saia... Não cobria nada. Para ser sincero, as pernas dela eram bem-torneadas. Ele inclinou a cabeça, na tentativa de ver melhor.
— Acho que foi Rony que se confundiu. — Hermione o cutucou. — Ou isso, ou foi enfeitiçado por um longo par de pernas.
Madame sorriu ao descer o último degrau.
— Isso sempre acontece. O que eu posso fazer? Sou mesmo um presente para os olhos. — Ela ajeitou a postura e deu uma piscadela para Rony.
— Quero ir para casa — sussurrou ele, buscando a mão de Hermione.
A jovem afastou a mão de Rony e se aproximou de Madame.
— Como Ron disse, acho que vovó se confundiu. Veja bem, temos uma lista de pendências a resolver antes do casamento. Este era o compromisso da vez. Nós precisamos pegar alguma coisa, ou...
— Silêncio! — gritou Madame. — Não quero saber dessa conversinha. Vovó disse que apresentariam uma dança, então dancem!
— Dançar? — grasnou Rony.
— Dancem! — Madame deu um giro diante de Rony, estalando os dedos acima da cabeça. — Vou ensinar a vocês a dança do amor. Vocês irão apresentála na cerimônia. Essa dança é um ritual de acasalamento.
— Ah, merda. — Rony respirou fundo algumas vezes. — Não vamos acasalar na pista de dança.
Madame riu.
— Mas é claro que não! Vocês vão dançar! É um ritual, não o ato em si, safadinho. — Ela ergueu a mão e pegou o queixo de Rony, virando-o para si. — Nossa, você é mesmo bonito.
Rony ia matar a avó. Mas estava traumatizado demais, chocado demais, para fazer qualquer coisa que não fosse olhar de volta para aqueles olhos de loba e rezar para que a mulher não o amarrasse e o jogasse em uma jaula.
Madame rosnou e soltou seu queixo.
— Agora, assumam seus lugares no meio do salão. Lembrem que essa dança traz boa sorte ao casamento. Se fizerem besteira, a possível infelicidade de seu irmão no casamento será culpa de vocês.
— Sem pressão — comentou Hermione.
Madame apertou um botão e, de repente, as luzes diminuíram outra vez. Uma música suave começou a tocar ao fundo, uma melodia que lembrava tango.
— Vão para o meio da pista — instruiu Madame.
Rony foi até lá e estendeu a mão para Hermione.
— Vamos lá. Quanto antes acabarmos com isso, mais rapidamente poderemos ir embora e entrar em coma alcoólico.
Os olhos de Hermione foram da mão para o rosto de Rony antes que ela, com má vontade, aceitasse dar-lhe a mão e se aproximar de seu corpo.
— Certo, mas não quero saber de mão-boba.
— Ah, por favor. — Rony bufou. — Como se seu corpo fosse tentador para um homem como eu.
Hermione deu um sorriso doce.
— Esqueci, você prefere os artificiais... Erro meu.
— Eu...
— Agora! — Madame bateu palmas. — Fechem os olhos. Eu os guiarei pelos movimentos da dança, mas vocês precisam confiar em mim. E precisam confiar um no outro, também.
Hermione sentiu que suas mãos estavam suadas. Era aquela palavra: confiar. Ela reacendeu as lembranças daquele dia no acampamento, durante o exercício de confiança, quando Rony — que tinha prometido segurá-la — a deixou cair.
Quando foi chamada de gorda.
E ele se recusou a defendê-la.
A mãe de Hermione costumava dizer que um dia a filha riria daquilo, que as coisas que aconteciam na escola não influenciavam a vida adulta. Mas ela estava errada... Quando se é magoado em uma idade tão vulnerável, é impossível esquecer a dor. Ainda mais se o episódio leva a dois anos de problemas com bulimia e pílulas para emagrecer.
Então, era preciso confiar? Não, ela não confiava em Rony Potter, porque, nas últimas duas vezes, ele a deixara na mão.
— Confiem — repetiu Madame — e sigam as minhas mãos. — Hermione sentiu mãos em seus ombros, que a empurraram para os braços de Rony. Ela sentiu que a respiração do homem ficou acelerada quando sua bochecha encostou no peito rijo dele.
— Rony, vamos lá, dê um passo para trás — instruiu Madame. — E faça um... Ah, você sabe dançar, né?
Hermione abriu os olhos no instante em que Rony a empurrou e a fez girar, para depois puxá-la de costas de volta para perto dele, inclinando-a sobre uma de suas pernas.
— Confie em mim — sussurrou Rony ao seu ouvido enquanto a trazia novamente a seus braços, de costas, e a mantinha firmemente apoiada em seu corpo.
Era bom demais tocá-lo.
Outro giro deixou Hermione de frente para ele.
— Agora você deve jogá-la sete vezes — continuou Madame. — Não se esqueça de girá-la, incliná-la para um lado e... Ah, meu Deus, filho! Você já fez a dança do acasalamento?
Rony corou.
Hermione abriu a boca para fazer a mesma pergunta, mas então ele a inclinou sobre uma das pernas e depois a levantou e girou, quase fazendo com que ela perdesse o equilíbrio, até que, com um puxão, Rony a deixou firmemente apoiada em seus braços outra vez, sem tocar o chão.
Ele a soltou bem devagar, fazendo-a deslizar por seu corpo, o que permitiu que Hermione sentisse cada músculo de sua barriga de tanquinho. Sabia que eram seis, porque os contara enquanto ele a soltara devagar.
A música parou.
Hermione olhou bem nos olhos de Rony.
Ele tinha os lábios semiabertos ao inclinar-se para a frente.
— Maravilhoso! — Madame aplaudiu.
Hermione se sobressaltou e esfregou as mãos no jeans.
— Já fez isso antes, não foi, querido? — Madame deu uma piscadela para Rony e um tapinha em sua bunda, então se virou para Hermione. — É só deixar que ele a conduza, e vai dar tudo certo no dia do casamento.
Hermione assentiu com a cabeça.
— Então acabamos?
— Dançar é parte da vida. A dança nunca termina.
— Ou o acasalamento — completou Rony, solícito.
Madame corou e abanou o rosto com as mãos.
— Gostaria de beber alguma coisa?
Hermione parecia invisível.
Rony agarrou seu braço e a puxou para mais perto de si.
— Ah, não, obrigado. É melhor eu levar minha namorada para casa.
Madame fez beicinho.
— Namorada?
Rony agarrou a cintura de Hermione com mais força.
— É, Ron, namorada? Quer dizer... — Hermione se virou para encará-lo. — Não sabia que tornaríamos o relacionamento oficial...
As narinas de Rony inflaram e seus olhos correram de Madame a Hermione.
— Então vamos oficializar com um beijo, que tal?
Antes que Hermione pudesse protestar, os lábios dos dois estavam colados.
Mas que droga.
Rony tinha um sabor viril. A língua passou pelos lábios de Hermione e mergulhou em sua boca. Seus lábios eram como veludo, perfeitamente encaixados nos dela, que não ofereciam nenhuma resistência — pelo contrário, estavam participativos.
Com um gemido, Hermione envolveu o pescoço dele com os braços — perdendo totalmente a compostura — e retribuiu o beijo. Rony fez um som baixo no fundo da garganta e a apertou ainda mais.
— Isso aqui... não é um bordel — interrompeu Madame, friamente.
— Ah, é? Poderia ter me enganado — respondeu Rony, ainda colado aos lábios de Hermione.
Com uma risadinha, Hermione se afastou.
— Obrigada por tudo, Madame. Mas, como a senhora viu, eu e meu namorado precisamos comemorar!
— Bem, então vão logo. — A voz de Madame soou aguda, e sua expressão era de desagrado, como se ela tivesse acabado de chupar um limão.
Eles saíram da loja e entraram correndo no BMW de Rony. Assim que Hermione bateu a porta, os dois caíram na gargalhada.
Rony ligou o carro.
— E eu que pensei que vovó fosse louca.
— Né? — Pela voz, Hermione parecia um pouco sem fôlego. Que ótimo, tinha perdido a capacidade de falar como um ser humano normal na frente de Rony! Fora apenas um beijo — um maldito beijo! — para despistar a loba, nada mais.
— Obrigado... — O carro parou no sinal vermelho. — Por me ajudar. Se eu estivesse sozinho, tenho certeza de que acabaria nas manchetes dos jornais.
— Doce. — Hermione assentiu com a cabeça.
— O quê?
O sinal ficou verde.
— Seria assim que ela o atrairia para o quarto. Faria uma trilha de doces até a porta. É assim que as lobas fazem. Aí, quando você estivesse lá dentro, ela iria embebedá-lo. E você deixaria, faria qualquer coisa para destruir a memória daquela noite... E fim. Viraria um escravo sexual. Sairia no jornal.
Rony bufou e sacudiu a cabeça.
— Sua imaginação me assusta.
— Ei! — Hermione ergueu as mãos. — Só estou dizendo.
Rony deu de ombros e pegou o caminho para o centro da cidade.
— Então, que tal um drinque? Eu prometi e tenho certeza de que lhe devo um favor.
Depois daquele beijo? Não, era ela quem devia a ele. A dor da rejeição, familiar demais, a invadiu. Claro, ela até podia aceitar e beber um drinque com ele, e depois cair em todas as armadilhas que a maioria das garotas caíam. Ele ficaria bêbado o bastante para convidá-la para casa. Dividiriam um táxi. Ela diria que ficaria apenas para mais um drinque. Acabariam na cama dele.
E ela acordaria e no travesseiro haveria um bilhete de agradecimento e uma nota de vinte dólares para o táxi.
Não, obrigada.
— Na verdade... — Hermione olhou para o relógio de pulso. — Ainda consigo uma boa tarde de trabalho no escritório. Pode me deixar lá, no prédio da Komo?
Rony coçou a cabeça, nervoso, e deu de ombros.
— Beleza. Se é o que você quer... Acho que margaritas são melhores que qualquer dia de trabalho.
— É. — Hermione colocou os óculos escuros. — Mas você está desempregado, então...
— Obrigado por me lembrar disso — resmungou ele, pegando a saída para o centro. — Eu, hã... Vou ver o que mais tem na lista da vovó e qualquer coisa ligo para você.
— Você precisaria do meu número.
— Pego com a vovó. — Ele deu de ombros.
Homem maldito. Não podia nem pedir o número dela? Sério, isso?
— Bem. — Hermione abriu a porta depois que ele parou o carro. — Não podemos correr o risco de você salvar meu número no seu celular e acabar ocupando o espaço destinado aos telefones das suas vagabundas.
— Mione, calma...
Ela bateu a porta antes que ele conseguisse terminar a frase e saiu caminhando determinada em direção ao edifício.
N/A: Olá gente, aqui está o segundo capitulo, vejo vocês no próximo que tentarei postar essa semana ainda :D (se a faculdade permitir) kkkkkkkkkkkkk
espero que gostem e ate o próximo ^^
