Capítulo X

Preciso da sua ajuda! Kagome desviou o olhar do manequim que vestia com novos modelos de meia estação e voltou-se para Sango, que dissera haver passado pela butique apenas para cumprimentá-la.

Aparentemente, Sango pretendia mais do que um visita de cortesia.

Mas Kagome não ficou tão apreensiva. Sua irmã não demons trava sinais de depressão ou desânimo. Seus olhos brilhavam, e ela irradiava um ar de otimismo. Sua transformação era sur preendente.

— Do que se trata, Sango? — Kagome perguntou, fazendo ajustes na calça Capri e na camiseta florida que acabara de colocar no manequim.

Sango segurava Rin, que brincava com um golfinho de borracha.

— Tomei uma decisão muito importante em relação ao meu problema com Mirok. — Sua irmã olhou ao redor para certi ficar-se de quem ninguém poderia ouvi-la. — Bem, as coisas mudaram entre nós desde que Rin nasceu, e eu tenho de admitir que algumas dessas mudanças são inevitáveis.

Kagome sorriu, profundamente aliviada. Desde a noite em que a irmã confidenciara seus problemas com o marido, sobretudo sexuais, ela ficara preocupada e temendo que Sango deixasse as dificuldades aumentarem em vez de tentar resolvê-las.

— É bom ouvir isso.

Sango ergueu o queixo num gesto de determinação.

— Algumas das mudanças que aconteceram, como a inti midade no nosso casamento... Bem, eu quero que tudo volte a ser como era antes. E pretendo fazer acontecer.

Kagome ajeitou um suéter de linha nos ombros do manequim. Sua expressão era calma e interessada, mas por dentro estava perplexa com a decisão da irmã. Inesperadamente, Sango revelava uma lado forte, diferente e mais confiante de sua per sonalidade, que Kagome não conhecia.

A irmã acostumara-se com alguém cuidando dela. Sempre fora assim, desde seu nascimento. Sango crescera como uma princesa amada e mimada por todos. Pela mãe, que a adorava; pelo pai, que realizava todos os seus caprichos; por Kagome, que a protegia e cuidava dela como se ainda fosse um bebê. Tudo isso, sem dúvida, tornara Sango muito dependente. Até mes mo Mirok tinha sua parcela de culpa por poupá-la dos pro blemas e mantê-la sempre bem longe das preocupações, mes mo das mais insignificantes. Tudo em nome do amor, claro. Naquele processo de tanta proteção e mimo, todos impediram que Sango crescesse como a mulher independente que deve ria ser.

De algum modo, porém, ela estava encontrando seu caminho para tornar-se uma mulher confiante, e aquela força era algo que Kagome admirava demais.

— Ah, é? E quais são os seus planos? — Kagome indagou, curiosa.

— Vou seduzir Mirok!

Kagome piscou, a mão parando no ar no meio de um ajuste na camiseta do manequim.

— O quê?

Sango riu, um riso cristalino e leve que aqueceu o coração de Kagome.

— Você entendeu o que eu disse, Kagome. — De novo, ela olhou ao redor e baixou o tom de voz. — Mirok sempre foi o mais agressivo nas nossas relações sexuais. Acho que já é hora de tentar fazer a minha parte para manter o fogo vivo e ardente. Vou seduzi-lo.

— Uau!

— Uau? — Sango repetiu. — É tudo que você tem a dizer?

— Sinceramente, você me pegou desprevenida. De um mo do positivo, claro.

— O que você acha? — Sango perguntou, ansiosa pela aprovação da irmã.

— Acho que é uma idéia maravilhosa.

— Estou contente por ouvi-la dizer isso, porque é aí que vou precisar da sua ajuda e experiência.

Kagome aproximou-se do balcão de bijuterias finas para esco lher brincos e colares que combinavam com as roupas do ma nequim.

— O que a faz pensar que sou perita na arte da sedução? Sango ergueu os ombros, como se a resposta fosse óbvia.

— É que você é muito mais sensual do que eu e mais ex periente nesse assunto.

Kagome nunca imaginara que era essa a opinião da irmã a seu respeito.

— Você acha isso mesmo?

— Claro. — Sango mediu-a da cabeça aos pés. — É a sua postura, o modo como você se veste, como anda, como se comporta. Independente de onde estivermos ou da roupa que estiver usando, se houver um homem por perto, é para você que ele olha. Sempre foi assim.

Kagome selecionou as bijuterias e, em silêncio, voltou à vitrine, ainda digerindo as palavras da irmã. Kagome nunca se considerara uma mulher irresistível, sedutora. Jamais imaginara exercer es se efeito sobre os homens e, certamente, nunca se preocupara com isso. Sempre se considerara modesta e reservada, sobre tudo depois do seu relacionamento com Bankotsu, e acreditara que a mulher provocante emergira apenas recentemente com e por Sesshoumaru Taisho.

Talvez sua sensualidade sempre tivesse estado ali, sufocada e adormecida, apenas esperando pelo homem certo para explo dir naquela paixão desinibida que fervia lentamente sob a apa rência de recato e pudor. Fora assim com Sesshoumaru desde o primeiro momento em que os olhares de ambos se cruzaram em meio à multidão que lotava o bar.

Sentiu o peito apertado de tanta emoção. Sesshoumaru apossara-se de seu coração e de sua mente. Pensava nele o tempo todo, com ansiedade, com desejo, com mágoa. Lembrava-se da úl tima vez que o vira no The Daily Grind. Por mais que tentasse, não conseguia esquecer o tom desesperado da voz dele ao gritar seu nome, quando ela fugira por medo de correr riscos.

Disfarçando a emoção, colocou um conjunto de braceletes esmaltados da linha Hermes. Rin riu do barulho e esticou o braço para pegá-los. Kagome segurou a mão da sobrinha antes que ela agarrasse as bijuterias e beijou os dedinhos rechonchudos, fazendo-a rir ainda mais.

— Você já tem bom gosto para bijuterias, não é mesmo, meu amor?

Rin remexeu-se nos braços da mãe e respondeu na lin guagem exuberante dos bebês:

— Gá-gá-gá. Kagome riu.

— Essa é a minha sobrinha!

Sango afagou o rosto da filha, depois olhou para Kagome com expressão séria.

— Se você precisasse seduzir um homem, como agiria? — Sem dúvida, ela não desistiria facilmente do assunto.

Como num filme, voltou à mente de Kagome a noite de seu aniversário e como se insinuara para Sesshoumaru, como o envolvera. Ou teria sido ela envolvida por ele? Não importava quem con quistara quem, o fato era que ambos ficaram igualmente satis feitos por haver terminado a noite juntos.

Por não poder contar os detalhes do seu caso com Sesshoumaru e da maior sedução da sua vida, Kagome limitou-se a sugerir à irmã:

— Penso que deveria começar com uma roupa atraente para chamar a atenção de Mirok. Você sabe, o tipo de vestido ou saia que o faria olhar duas vezes.

— É... devo admitir que tenho usado macacões e vestidos tipo camisolão desde que Rin nasceu. São fáceis e rápidos de vestir pela manhã.

— Não há nada de errado em usar roupas confortáveis, mas se quiser ser tratada como uma deusa do sexo, terá de mudar o visual. — Kagome piscou maliciosamente. — E lembre-se, não adianta nada estar bem vestida por fora, se não estiver usando a lingerie mais sensual por baixo.

— Minha gaveta de roupas íntimas está um horror. — Sango sentou Rin no carrinho de bebê e prendeu-a com o cinto de segurança. — Você me ajudaria a escolher alguma coisa realmente quente e sensual para eu usar com Mirok?

— Claro. Será divertido.

— Eu estarei vestida para matar... isto é, para seduzir Mirok.

— O que mais devo fazer?

Ainda ocupada com a decoração da vitrine, Kagome olhou para Sango, que a fitava com ansiedade. Embora casada havia mais de três anos, sua irmã não tinha idéia de como assumir o controle na cama com o marido.

— Acho que você deve escolher um horário do dia ou da noite para jogar toda a sua sedução.

— Provavelmente, à noite é sempre melhor. — Sango refletiu por alguns instantes e mordiscou o lábio. — Você fi caria com Rin nessa noite para que não haja interrupções? E aí que consiste metade do nosso problema quando tentamos... bem, você sabe.

— Claro, eu cuidarei de Rin para você. Adorarei poder passar mais tempo com minha sobrinha querida. — Sobretudo antes de mudar-se para San Francisco.

— Que bom! — Sango exclamou vibrando de contentamento. — Vou planejar tudo para o mais breve possível. Talvez para a semana que vem, depois que Mirok terminar de preparar o processo daquela companhia que tem tomado quase todo o tempo dele.

— Por mim, tudo bem — Kagome concordou.

— Quero fazer alguma coisa diferente e completamente inesperada. Quero deixar Mirok louco por mim.

Com o rosto corado e voz enrouquecida, Sango falava das suas fantasias para reconquistar o marido. Kagome contribuiu com algumas sugestões.

— Que tal enviar a Mirok uma foto bem sexy por e-mail ou então colocá-la na pasta que ele leva para o trabalho? Assim, Mirok vai passar o dia inteiro pensando em você, e quando ele entrar em casa, à noite, estará ansioso para levá-la para a cama.

Sango cobriu a boca com a mão numa tentativa de conter o riso, mas falhou.

— Oh, gostei da idéia, Kagome. Eu não disse que você é boa nisso?

— É pura fantasia, Sango. — Sesshoumaru interpretava o papel principal naquelas cenas de fantasia.

— Céus, Kagome, vou sentir tanto a sua falta quando você se mudar para San Francisco! Não sei como farei com você tão longe.

Kagome deixou a decoração de lado e abraçou a irmã.

— É só me telefonar sempre que precisar de mim. Além disso, nós nos veremos com freqüência, uma vez que conti nuarei supervisionando as butiques de Chicago e Nova York.

— Não será a mesma coisa sem você aqui tão perto e prestativa.

Kagome suspirou. Não, não seria a mesma coisa, mas era o que ela queria. Finalmente, colocaria uma certa distância entre as expectativas e exigências familiares por ser uma Takahashi e a mulher independente que pretendia ser. Em San Francisco, se ria responsável só por ela mesma. Lá, ninguém conhecia seu passado e haveria poucas pessoas para questionarem suas ações.

Pelo menos, foram essas suas justificativas no momento em que tomara a decisão de mudar-se. Agora, as razões eram mais complexas. Ela simplesmente não poderia continuar morando em Chicago sem procurar Sesshoumaru de novo. Temia.não resistir à necessidade de revê-lo, mesmo sabendo que também pão seria justo brincar com as emoções dele. A mudança para San Fran cisco resolveria muitos problemas e tornaria sua vida menos complicada. Sem dúvida, seria a atitude mais certa.

Kagome segurou as mãos da irmã e afagou-as carinhosamente.

— Se os telefonemas e as minhas visitas não forem sufi cientes, você e Rin poderão ir a San Francisco e ficar co migo pelo tempo que quiserem.

— Acho que não tenho muita escolha, não é? — Sango murmurou.

— Não, não tem. — Kagome soltou as mãos da irmã e voltou sua atenção para a decoração da vitrine já quase terminada. — Já conversei com Kouga sobre a minha transferência, e em um mês ou pouco mais, estarei de malas prontas. Já falei com os nossos pais que a mudança será definitiva.

Sango inclinou levemente a cabeça.

— Como eles receberam a notícia?

Kagome encolheu os ombros, como se não estivesse preocupada com a reação dos pais. Na verdade, esperava que a resposta de Kakashi Takahashi fosse mais favorável e animadora.

— Papai reagiu melhor do que mamãe, mas nenhum deles está feliz com a minha decisão. Para ele, eu estou separando a família.

— Bem, tenho que concordar com papai, Kagome. Nossa fa mília nunca se separou antes.

Kagome recusou-se a sentir-se culpada. Ela sempre colocara a família em primeiro lugar e jurara que, dessa vez, não cederia as pressões dos pais nem da irmã. Seria muito difícil manter sua decisão. Afinal, seria muito mais cômodo renunciar aos próprios planos e necessidades para render-se aos apelos da família e continuar em Chicago. E muito mais fácil continuar com sua vidinha monótona e previsível, do jeito que estava.

Então, por que não se casava com Kouga, concretizando, as sim, os anseios dos pais? Poderia realizar um casamento está vel, confortável, sem grandes rompantes de paixão, mas que garantiria a continuidade da rede de Hotéis Takahashi nas mãos da família. Oh, sim, aquele era o grande sonho dos pais dela. Mas não o seu.

Friccionou a fronte, a frustração causando pontadas nas têm poras. Estava sendo sarcástica em relação a Kouga, mas ultima mente se sentia cada vez mais pressionada pelo fato de ser uma herdeira Takahashi e sufocada por certas limitações, mesmo que indiretas, para fazer as escolhas certas e que poderiam agradar a todos.

Não, dessa vez, ela não seria influenciada e nem abalada pelo complexo de culpa em relação à família. Não mudaria de idéia quanto a mudar-se para San Francisco. Encarando a irmã, Kagome tornou sua decisão clara num tom gentil porém firme:

— Essa é uma das coisas que preciso fazer por mim. Você entende, não?

— Não completamente.

Seria demais esperar pelo apoio de Sango. Pela primeira vez, Kagome optara pela oportunidade de fazer alguma coisa pela própria felicidade, e não estranhava estar enfrentando tanta oposição. Até mesmo Kouga estava tentando dissuadi-la da idéia de morar longe da família, mas Kagome precisava dessa mudança para seu próprio bem.

Suspirando, olhou distraidamente pela vitrine em direção ao saguão do hotel. Sentiu o coração bater mais forte ao avistar um homem alto., cabelos pretos, ombros largos, parado no bal cão da recepção, conversando com uma funcionária. Com cer teza, tratava-se de uma ilusão de ótica. Kagome fechou os olhos e tornou a abri-los, reparando mais atentamente no perfil bem delineado e no sorriso simpático que o homem oferecia à jovem recepcionista.

Mão, não podia ser...

Mas era...

A funcionária apontava o dedo em direção à butique, e, com um gesto de agradecimento, o homem seguiu a indicação com passos firmes. Kagome puxou pela respiração. Instintivamente, le vou a mão ao pescoço como se estivesse com dificuldade para respirar. Teve ímpetos de correr e refugiar-se no seu escritório, antes que ele a visse.

Sesshoumaru estava ali. No hotel.

Ele parecia mais alto do que era na realidade. Um homem bonito, sensual, de músculos rígidos, irradiando magnetismo e força. Vestia camisa de linho bege, jeans e botas de couro. Suas roupas de trabalho destoavam dos ternos e trajes esportes de grife dos homens que cruzavam o saguão do hotel. Pelas roupas e pela boa aparência física, Sesshoumaru chamava a atenção de todos, sobretudo das mulheres, funcionárias e hóspedes.

Sango, que seguiu a linha de visão de Kagome, também não escondeu sua admiração.

— Uau, que gato! Não é sempre que temos a sorte de ver um bonitão desses por aqui! — ela brincou. Depois voltou-se para Kagome, ainda perplexa e abalada.

Sango franziu o cenho, percebendo que havia alguma coi sa mais naquela cena além do que os olhos viam.

— Kagome, você conhece esse homem?

— Humm... mais ou menos.

— Mais ou menos? — Sango repetiu. — Esse mais ou menos significa "sim" ou "não"?

Naquela altura, prestes a confrontar-se com Sesshoumaru Taisho, Kagome não via sentido em mentir para a irmã.

— Sim, eu o conheço — afirmou num tom quase de in diferença, como se o relacionamento deles fosse puramente comercial.

— Oh! — A entusiástica exclamação de Sango deixava claro que ela já chegara à própria conclusão a respeito deles.

Kagome sentiu um frio no estômago. Conseguira fugir de Sesshoumaru no The Daily Grind, mas agora, finalmente, ele a prendera numa armadilha.

Sesshoumaru entrou na butique, olhou ao redor até avistá-la ao lado de Sango, no canto direito da loja. Kagome sentiu o ar faltar-lhe. O sorriso que ele dispensara à recepcionista desaparecera. Sua expressão era séria, determinada, implacável, lembrando-a do homem que a recebera em sua casa, na noite de sexta-feira.

Kagome entrou em pânico ao vê-lo parar bem na frente dela. Estremecendo, obrigou-se a sustentar o olhar dele e assustou-se com o que viu no fundo dos olhos azuis.

Inclinando a cabeça, Sesshoumaru cumprimentou-a.

— Olá, sita. Takahashi.

Kagome surpreendeu-se por ele saber seu sobrenome. Como Sesshoumaru descobrira, ela não tinha a menor idéia, mas que ele es tava furioso, isso era evidente.

Endireitando os ombros, Kagome fingiu uma calma que estava longe de sentir.

— Sr. Taisho.

Sango estendeu-lhe a mão e, sorrindo, apresentou-se:

— Olá. Sou Sango, irmã de Kagome.

— Sesshoumaru Taisho. — Ele apertou-lhe a mão e contemplou-a com um sorriso encantador. — Prazer em conhecê-la.

— O prazer é meu — Sango respondeu meio ofegante. Kagome cruzou os braços.

— O que o traz aqui, Sr. Taisho?

O sorriso de Sesshoumaru desapareceu de novo.

— Penso que sabe exatamente o motivo. Aliás, eu gostaria de conversar com a senhorita em particular.

De jeito nenhum ela ficaria a sós com Sesshoumaru. Não ali, não naquele momento, não num lugar onde todos comentariam e especulariam sobre ele... sobre eles.

— Sinto muito, mas estou ocupadíssima.

— Você prefere tratar de negócios aqui, no meio da sua loja? — O tom calmo e amigável da voz dele não a tranqüilizava em nada. — Por mim, poderemos conversar aqui mesmo, Srta. Takahashi.

Sango olhava de um para outro sem esconder a curiosida de. Kagome não acreditava que Sesshoumaru cometeria a insensatez de revelar tudo sobre eles em público. Mas Sesshoumaru estava furioso por ela ter lhe escondido a verdade sobre sua identidade, e Kagome não queria brincar com a sorte.

— Tudo bem. Vamos conversar no meu escritório. — E voltando-se para a irmã: — Sango, importa-se se eu ligar mais tarde para combinarmos um dia para irmos às compras?

— Oh, não, claro. Eu já ia embora mesmo. Está na hora de Rin dormir. — Ela apontou para a criança que cochilava no carrinho de bebê.

Kagome despediu-se da irmã e da sobrinha. Minutos depois, estava a sós com Sesshoumaru no escritório nos fundos da butique. Deu a volta na mesa, como se precisasse dela para proteger-se da presença sufocante dele.

Sustentou o olhar de Sesshoumaru, esperando por uma explosão de fúria. Ele, porém, apenas fitava-a em silêncio, ressentimento e raiva brilhando em seus olhos. Havia alguma coisa mais na quele olhar que Kagome não conseguia definir. Mágoa? Decep ção? Desejo?

Oh, sim, definitivamente, havia um lampejo de desejo na expressão dele, um brilho quase imperceptível, mas com ta manha carga de emoção que quase derrubou as defesas de Kagome. Apesar do comportamento egoísta dela, apesar da pró pria revolta por sentir-se usado e enganado, Sesshoumaru Taisho ainda a desejava.

Mesmo não querendo desejá-la.

Não suportando mais o silêncio pesado e constrangedor, Kagome reuniu toda sua coragem para perguntar:

— Como você me encontrou?

— Meu primo Kohaku Taisho é detetive particular, e eu anotei a placa do seu carro. A partir daí, foi fácil descobrir informa ções interessantes a seu respeito.

Ela não o culpava. Se a situação fosse inversa, sem dúvida ela teria feito o mesmo. Mas até que ponto ele desenterrara seu passado e que outras coisas descobrira sobre ela?

— Imagine meu choque quando descobri que eu estava tran sando com a filha de uma das famílias mais importantes de Chicago — disse Sesshoumaru, num tom indesculpavelmente vulgar.

Kagome cerrou os punhos, magoada e ofendida com as palavras dele. Entendia que Sesshoumaru estava despejando sua frustração, mas detestava a linguagem grosseira e o modo como ele reduzira o tempo que haviam passado junto em alguma coisa tão sórdida e barata.

Sesshoumaru apoiou as mãos na mesa e inclinou-se para a frente.

— E então, você se divertiu à beca exibindo-se numa espe lunca como o Nick's Sports Bar e indo para a cama com um simples trabalhador braçal?

— Não foi nada disso! — ela se defendeu.

— Mas é exatamente o que parece, Srta. Takahashi. Ofendida, Kagome deu a volta na mesa e parou na frente dele, enfrentando-o.

— O que eu fiz aquela noite no bar, juro que nunca tinha feito antes com ninguém. Independente do que você pensa a meu respeito agora que sabe quem sou, saiba que eu não cos tumo sair por aí para dormir com desconhecidos apenas para chutá-los no traseiro depois, ou só porque sou rica e preciso ficar me exibindo pelos bares da cidade!

— Não? — ele a provocou.

— Não. — A palavra pronunciada com tanta força e con vicção ecoou pela sala.

Sesshoumaru desviou o olhar e respirou fundo. Quando a fitou no vamente, as linhas duras de sua expressão tinham se suavizado.

— Então, explique-me o que aconteceu aquela noite, Kagome. — Não havia mais sarcasmo ou rispidez na voz dele, apenas curiosidade. — Por que o disfarce? Por que o anonimato e os segredos? Eu só quero entender o que está acontecendo para não ficar pensando o pior, porque sem explicações, eu só posso pensar mal de você.

A verdade. Depois de tudo, Sesshoumaru merecia saber a verdade.

— Você está certo, Sesshoumaru. Vou contar tudo. Na noite do meu trigésimo aniversário, decidi terminar com um jejum sexual de três anos. Sim, porque depois do que aconteceu com o meu último namorado, eu me tornei uma pessoa conservadora, res ponsável, fechada. O protótipo da boa moça, dedicada apenas à família e ao trabalho.

Sesshoumaru observava-a com olhar impenetrável, ouvindo, absor vendo as palavras dela, em silêncio.

Kagome esfregou as mãos nos braços e continuou:

— Então, de repente, decidi que uma noite de sexo e diver são com um desconhecido seria o ideal. Sem confusão, sem cobranças, sem comentários. Nada mais do que uma noite de sexo ardente e inesquecível. Sem promessas, sem vínculos, sem envolvimentos emocionais.

E ela falhara no último item.

— Admito que fui ao Nick's justamente por ficar nos arre dores da cidade, um lugar onde ninguém me conhecia e onde sabia que ninguém que eu conhecia estaria lá. Kagome forçou um sorriso. — Eu só queria um pouco de aventura. Só queria uma lembrança de aniversário para guardar para sempre na memória. — Ela ergueu os olhos e, na intensidade do olhar de Sesshoumaru, finalmente viu a promessa de um pouco de compreensão. — Em vez disso, encontrei você.

Kagome sorriu e seus lábios tremularam, recordando os acon tecimentos daquela noite.

— Você era o rapaz que eu tinha imaginado para realizar o meu sonho. Confesso que você superou todas as minhas expec tativas mais loucas e as fantasias mais ardentes. Despertou meu lado sedutor e atrevido que, até então, eu não sabia que existia. Nunca esperei nada disso, mas foi maravilhoso e excitante.

— Sim, foi — disse Sesshoumaru, por fim, surpreendendo-a com a revelação. Ele fora tão afetado quanto ela.

Não resistindo à necessidade de tocá-lo, precisando daquele contato físico, Kagome pousou a mão no braço dele. Sua pele era quente, os músculos rígidos e firmes.

— Não sei o que você está pensando a meu respeito, Sesshoumaru, mas nunca pretendi que as coisas fossem tão longe entre nós. Nunca planejei me envolver com você e nem que o nosso caso se tornasse tão complicado. Era justamente o que eu queria evitar ao optar por um encontro fugaz, de uma noite só. — Ela umedeceu os lábios secos. — Mas não consegui ficar longe de você. A atração era muito forte, e eu o desejava demais.

O encontro deles envolvera muito mais do que desejo se xual. Sesshoumaru representava a independência e a liberdade que Kagome buscava. Com Sesshoumaru, ela era autêntica, tendo ele percebido ou não. Enquanto mantinha sua identidade em sigilo, Kagome reve lara muito mais de sua personalidade, de sua alma, de seu in terior, que nada tinham a ver com o nome Takahashi.

— Não é só isso. — Sesshoumaru assustou-a com seu tom ríspido.

— Como assim?

— Há alguma coisa muito importante que a impede de as sumir o nosso relacionamento. Uma razão específica para você ter escondido a sua identidade. É por causa da minha profissão?

— Não. Eu não sou fútil assim, Sesshoumaru.

— Então, o que é?

Ela fechou os olhos. Sesshoumaru era tão perceptivo e estava pedindo para esclarecer tudo entre eles. Ele queria saber de um passado que Kagome queria esquecer, mas que a afetaria para sempre.

— Desde que comecei a aceitar convites para sair com ra pazes, só tenho tido decepções. E só saberem que sou uma Takahashi para eles se interessarem mais pela fortuna da família do que por mim como mulher. Imagine o que significa envol ver-se com uma Takahashi socialmente falando. Eles me vêem como uma polpuda conta bancária, e não como realmente sou.

Agora vinha a parte mais triste e difícil do passado.

— Um dia, fui com algumas amigas a uma exposição de arte e conheci Bankotsu D' Los Siete. Ele era charmoso e espirituoso.

Mesmo depois de saber quem eu era, Bankotsu nunca deu mostras de estar mais interessado na minha herança ou no status social. Honestamente, pensei que o interesse dele por mim era sincero. Kagome suspirou, reunindo coragem para contar o restante da história.

— Namoramos durante uns seis meses e, pela primeira vez, pensei ter encontrado o homem da minha vida. As atitudes de Bankotsu me levaram a acreditar que era diferente, que gostava de mim e que o nome Takahashi e as vantagens que isso poderia lhe render nada significavam para ele. Deixei-me levar pela emoção e me apaixonei.

Kagome fez uma pausa, tentando organizar os pensamentos.

— O que aconteceu depois? — Sesshoumaru indagou.

— De repente, Bankotsu se revelou igual a todos os outros ra pazes e passou a me enxergar como um investimento rentável. Só que ele me usou de um modo como nunca imaginei. — Ela sentiu um nó na garganta. — Ele me chantageou para conseguir o que queria.

— Dinheiro?

— Muito dinheiro.

— O que ele fez? — Sesshoumaru quis saber.

Humilhada, Kagome baixou os olhos. Ela não esperava precisar revelar o que originara a extorsão de Bankotsu, mas agora que começara, tinha de ir até o fim.

— Uma noite, ele me drogou e bateu uma série de fotogra fias em poses sensuais e eróticas. O tipo de fotos publicadas nas revistas masculinas. Depois, escolheu as menos vulgares e as enviou a meu pai com um bilhete de advertência. Se meu pai não pagasse a pequena fortuna que ele exigia, as fotos cir culariam pela internet. Meu pai pagou a quantia exigida, Bankotsu entregou os negativos e, felizmente, ele sumiu e as fotos nunca foram publicadas.

Sesshoumaru praguejou.

— Por que seu pai não foi à polícia?

— Porque ele não queria correr o risco de enfrentar um escândalo. — Ela escondeu o rosto com as mãos. — Meu Deus, você não imagina a confusão. Eu queria morrer de vergonha. E nunca me perdoei por ter colocado meus pais numa situação tão constrangedora e por havê-los desapontado com o meu erro de julgamento.

— Como você podia saber as intenções daquele cafajeste? Kagome riu, o som abafado pelas lágrimas que ela tentava conter.

— E isso aí, Sesshoumaru. Agora eu vivo com medo de me envolver seriamente com alguém. Como vê, tenho motivos de sobra para não confiar nos homens.

— Eu não estou interessado na sua fortuna, Kagome — ele rebateu rispidamente.

— Eu sei. Eu acredito. Mas as circunstâncias do nosso re lacionamento têm todo o potencial para se tornar um escândalo. Veja só o que eu fiz! Entrei num bar, escolhi um homem e dormi com ele. Por estupidez, me envolvi numa situação que tem tudo para repetir a história de Bankotsu.

Kagome não queria lhe contar sobre a ameaça de James. Céus, a vida dela poderia tornar-se mais complicada e enrolada do que já estava?

— Então, é isso, Kagome? Este é o nosso final de linha?

— Sim. Aliás, comentei com você que estava pensando em me mudar de Chicago. Eu já me decidi, Sesshoumaru. Dentro de um mês, já estarei instalada em San Francisco.

Depois de um longo momento de silêncio, Sesshoumaru disse:

— Enquanto você não mudar, terá de se acostumar com a minha presença no hotel.

— Como assim?

— Você está sabendo da reforma do hotel?

Kagome ficou surpresa por ele saber a respeito da reforma que seu pai e Kouga tinham autorizado para modernizar certas áreas do hotel.

— Sim, mas não dos detalhes.

— Minha empresa, Nolan & Filhos, ganhou a concorrência. Começaremos a trabalhar na semana que vem.

—- Oh, não!

—Não é irônico demais, Kagome? Enquanto você tentava de tudo para manter as nossas vidas separadas, eu estava bata lhando pela aprovação do nosso orçamento para a reforma do seu hotel.

Sim, era irônico demais!

— E sendo do tipo que literalmente põe a mão na massa, estarei aqui todos os dias para supervisionar o trabalho.

Kagome sentiu a cabeça girar. Justamente quando pensava que não seria possível, parecia que sua vida estava prestes a tor nar-se ainda mais complicada!