Ele amara Charlotte, mas não era capaz de amar a ela, Lily.

Não me apaixono mais.

Lily não conseguiu tirar as palavras de sua mente e nada foi exatamente mais o mesmo depois daquilo.

Eles ficaram na ilha por mais três dias e, aparentemente, o relacionamento físico permaneceu o mesmo, mas havia uma nova espécie de tensão entre os dois, um atrito que não existira antes.

Era uma questão quase amarga para Lily que James ainda a levasse ao auge do prazer, que ainda aplicasse sua imensa habilidade para extasiá-la, pois não era a satisfação física que ela queria tanto quanto a emocional.

Aquilo era apenas sexo? James conseguiria amá-la algum dia? E se era apenas sexo, não seria inevitável que ele acabasse se cansando dela?

No último entardecer de ambos em St. Jermaine, James foi velejar sozinho e Lily ficou na varanda, contemplando o céu e o horizonte. Esperando para ver seu último pôr-do-sol ali.

Com o coração oprimido, observou a grande bola de fogo descendo lentamente, até parecer desaparecer no meio do oceano e, enquanto a água explodia numa profusão de matizes de laranja, vermelho e ouro, lágrimas encheram os olhos dela.

Adeus, paraíso. Estava pronta para ir para casa.


Eles chegaram a Nova York no final da tarde de domingo. James tivera dois carros à espera no aeroporto. Uma limusine para Lily, a outra para si mesmo e o Sr. Foley.

Então, estava terminado, pensou ela, de um instante para o outro. Uma semana de sexo sensacional e, então, colocar a garota num carro e mandá-la seguir seu caminho.

Enquanto a limusine deixava o aeroporto, Lily teve tempo de sobra para pensar. Não tinha certeza da razão para James ter esfriado em relação a ela, mas sabia de seus próprios motivos para tê-lo feito em relação a ele. Não era apenas por causa do emprego, Charlotte, ou Annika... era pela completa falta de comprometimento emocional da parte de James.

Nenhuma palavra de amor. Nenhuma promessa de segurança. Apenas: "Eu pagarei as contas desde que você continue a cuidar de mim".

Talvez ele não quisera dizer aquilo exatamente, porém era como parecia, algo um tanto sórdido.

Mas ela sabia que, desde o início, aquela situação estivera fadada a semelhante desfecho. O que fazer se era uma romântica incorrigível? De qualquer modo, o fato era que não se podia substituir sexo por amor. Não se podia ter amor sem sexo. Mas o fato era que não tinha uma simples atração por James, estava apaixonada. E qualquer que tivesse sido o jogo que estivera fazendo recentemente só teria a perder.

Apenas quando se livrou do motorista e se viu na privacidade do saguão de seu prédio, permitiu que as lágrimas que estivera contendo rolassem livremente por seu rosto. Se ao menos James tivesse lhe dito algo carinhoso quando haviam se separado! Se ao menos tivesse falado:

— Obrigado por uma ótima semana. Cuide-se bem. Estarei pensando em você. — Mas nem um palavra. Nem um bendita palavra.

Lily subiu até seu apartamento no décimo - primeiro andar e ficou chocada. Encontrou a porta destrancada e, quando a abriu, pôde logo constatar que seu apartamento fora invadido. Toda a sua mobília fora revirada, roupas estavam amontoadas, vidro quebrado espalhava-se pelo chão.

Largando a mala, correu de volta até o elevador. Era como se estivesse correndo em câmera lenta, o terror dominando-a, distorcendo a realidade.

Freneticamente, apertou o botão do elevador, implorando para que voltasse. Chegando ao térreo, ligou para o zelador, uma vez que não havia porteiro no edifício, e ele chamou a polícia.

Lily aguardou sentada no pequeno saguão até que a polícia verificasse seu apartamento e, depois, colhesse seu depoimento.

Ainda foi chocante para ela voltar a sua pequena sala de estar. Quem quer que tivesse estado ali causara um terrível caos. Quase tudo fora virado de pernas para o ar, esvaziado ou quebrado.

Não conseguia entender. Não tinha dinheiro, jóias, nem obras de arte, nada de valor e, ainda assim, seu apartamento fora praticamente destruído.

Andou devagar pelo apartamento, notando, esgotada, que o invasor se excedera. Seus travesseiros estavam cortados. O colchão fora aberto no meio. Todas as coisas tinham sido despejadas do armário.

E qual fora a finalidade de tamanha depredação? O que queriam, e fora mesmo necessário retalhar seu sofá? O invasor realmente achara que ela escondia diamantes no seu estofado barato?

— Que diabos aconteceu? — a voz possante de James ecoou pelo pequeno apartamento.

Lily sobressaltou-se e soltou um grito, se de alívio ou medo não soube dizer.

— Por que você não me telefonou? — perguntou ele com ar grave, tirando o blazer e atirando-o no sofá rasgado.

— Eu... eu... — Lily encarou-o, balbuciando, completamente sem ação. — Eu...

O quê?

O coração dela disparou, o estômago ficou em nós.

— Eu achei que você não se importaria.

James soltou uma série de impropérios violentos, fortes o bastante para fazer um marujo calejado corar.

— O que quer dizer? Acabei de passar a última semana provando-lhe que me importo. Se isso não diz alguma coisa...

Lily estava boquiaberta.

— Se não diz alguma coisa? — interrompeu-o num tom exaltado. — Ora, você nunca diz nada. Você faz amor e vai dormir.

— Mas isso deveria lhe dizer alguma coisa. Não faço amor com alguém de quem não gosto.

Gostar? O que eu quero é ser amada.

James franziu o cenho, sua expressão carregada como nunca.

— Pelos céus, mulher, gostar, amar, qual é a diferença? Quero você. Quis você ao meu lado. Pedi-lhe que fosse morar comigo. Dis se-lhe que queria cuidar de você. Mas, não, isso não foi o bastante para você.

Ele estava falando como se ela tivesse sido a parte pouco razoável ali.

— Você deu a entender que eu seria sua amante!

— Achei que talvez você gostasse da idéia.

— De ser sua amante?

— Bem, você certamente não quis ser minha esposa! — Havia uma expressão glacial nos olhos dele. — Só estou tentando entender o que é que você quer. E evidente que não quer ser minha amante, que não quer se casar comigo tampouco. Então, que diabos você quer de mim?

Amor. Mas aquela era uma coisa que ele já lhe dissera que não podia dar.

Podia lhe dar coisas materiais, dar-lhe um nome, prazer, mas não lhe daria amor.

Ela mordeu o lábio inferior, lutando contra as lágrimas.

— O que você está fazendo aqui, afinal?

James sacudiu a cabeça, caminhando pelo meio do caos no apartamento.

— O zelador do seu prédio me ligou, informou-me o que aconteceu. — Virou-se abruptamente, os olhos faiscando. — Porque você, com toda a certeza, não ia me ligar.

Lily endireitou uma cadeira e sentou-se devagar. Jamais o vira tão zangado.

— E como o zelador do meu prédio sabia seu número? Por quê, afinal, resolveu ligar para você?

Ele soltou um suspiro exasperado, o semblante duro.

— Não posso acreditar que você está se atendo a detalhes como esse numa situação destas!

Lily sempre o achara tão calmo, tão controlado, mas parecia possesso agora.

— Eu apenas não sabia que meu zelador conhecia você.

James tornou a praguejar antes de se aproximar outra vez, segurando-a pelos ombros e fazendo-a levantar-se.

— Eu pedi a ele que olhasse por você. Dei-lhe dinheiro para que ficasse de olho em você. Eu o estou pagando desde janeiro, se você realmente quer saber.

— Janeiro?

Ele continuou segurando-a, puxando-a para si.

— Eu me preocupei com a sua vizinhança. Sabia que você não tinha família no Estado e achei que precisaria de alguém para olhar por você. Certo?

— Certo.

Qualquer vontade de lutar que restara dentro dela dissipou-se. Não sabia o que pensar no momento, suas emoções num turbilhão.

Estava com fome e cansada. Sentia-se física e emocionalmente esgotada, na verdade.

James ergueu-lhe o queixo e fitou-a nos olhos.

— Nunca mais me assuste desse jeito, ouviu bem?

Lily não podia desviar o olhar. Pôde ver uma emoção indecifrável nos olhos dele, algo velado e profundo, algo que a fez pensar em dor enterrada por um longo tempo.

— Mas nada me aconteceu.

— Não é essa a questão. Eu instruí meu motorista para acompanhar você até seu andar. Pedi-lhe que verificasse o apartamento primeiro, mas ele voltou dizendo que você nem sequer o deixou subir. Se não tivesse sido tão teimosa... — James interrompeu-se, cerrando os dentes e, soltando-a, deu um passo atrás. Por um longo momento de silêncio, apenas sacudiu a cabeça, a expressão furiosa. — Você não pode ficar aqui esta noite — disse, enfim. — Vou ligar para o Sr. Foley e instruí-lo para preparar um quarto para você no meu apartamento.

O quarto de hóspedes, provocou-a uma voz silenciosa. Não o quarto dele, o de hóspedes.

— Não é necessário. Eu ficarei bem aqui. É apenas uma desordem. Eu começarei a organizar tudo e estarei mais calma pela manhã.

— A fechadura foi arrombada — declarou ele com impaciência. — Você precisa de um chaveiro. Ou vai querer discutir sobre isso também?

Encarou-a com ar de quem não aceitaria argumento.

— Quer pegar alguma coisa? Há alguma coisa que queira levar, algo que não queira deixar para trás? Esta é a sua chance. Apanhe o que quiser porque talvez não haja uma oportunidade para voltar.


O Sr. Foley recebeu-os à porta do apartamento de James na Quinta Avenida.

— Você está bem, Srta. Evans? — perguntou e, solícito, pegou a mala de viagem e a pilha de correspondência que ela levara consigo.

— Acho que sim.

— Você precisa de um banho quente e de um jantar na cama — declarou o mordomo com firmeza. — Tenho algo no forno para você, um delicioso suflê e uma torta leve de pêras para a sobremesa. Agora, se me acompanhar, nós a acomodaremos para a noite.

James observou o Sr. Foley guiando Lily pelo corredor como se fosse o ser mais delicado e frágil na face da terra. Ora, podia ser delicada, concordava ele, mas também era terrivelmente teimosa. Bem, que o Sr. Foley a mimasse. Era evidente que gostava muito dela e ele, apesar de nunca ter demonstrado com seu profissionalismo impecável, jamais parecera nem sequer aprovar ninguém com quem James já tivesse saído antes.

Franzindo o cenho, ele voltou para seu escritório, onde estivera verificando sua correspondência, os e-mails da semana e as mensagens deixadas na secretária eletrônica.

Soltou um suspiro, enquanto acabava de ouvir as mensagens. Família. Amigos. Ligações de negócios. Realmente detestava o telefone. Era fácil para as pessoas deixarem uma dezena de mensagens, mas ele levava um longo tempo para responder a todas.

A ligação seguinte o fez gelar. Era uma voz do passado:

Olá, James, aqui é Charlotte. Acho que devemos conversar... Precisamos conversar. Quis ligar para você tantas vezes, mas sempre disco o seu número e desligo antes de deixar uma mensagem.

Ela soltou um pequeno suspiro, o som captado pela gravação. James sentiu um nó no estômago. Conteve a respiração, esperando para ouvir o restante:

Lamento quanto ao casamento, o nosso casamento, quero dizer. Sempre me arrependi do que fiz. Ligue-me. Por favor. Logo que você puder.

Ela recitara um número de telefone antes de ter desligado.

James anotou-o num bloco de papel em sua mesa, apagou a mensagem feito um autômato e ouviu a seguinte. Era dos pais de Lily, querendo saber se a filha estava bem. A Sra. Evans deixara um número onde poderiam ser encontrados, dizendo que era de uma pousada nas montanhas e pediu-lhe que se certificasse de que Lily ligasse o mais breve possível.

James anotou o telefone também, mas seus pensamentos estavam num turbilhão. Foi somente quando acabou de ouvir todas as mensagens que realmente estudou o número de Charlotte.

Por um longo momento, não se moveu. Ela lhe telefonara. Queria vê-lo.

Olhou fixamente para a parede, mas ainda podia ouvir-lhe a voz em sua mente, imaginar seu rosto. Uma loira glacial, de beleza glacial. A impaciente, imperiosa Charlotte.

Amara-a tanto. Amara-a demais. Esperara anos para falar com ela, anos para ouvi-la entrando em contato, mas, agora que Charlotte finalmente telefonara e lhe deixara seu número, ele não estava certo de que tinha algo a lhe dizer.

Abruptamente, desligou a luminária em sua mesa. Na verdade, não tinha mesmo nada a lhe dizer.


James não dormiu bem naquela noite. Sua agitação teve menos a ver com a ligação de Charlotte do que com o fato de Lily estar em seu apartamento, dormindo logo ao final do corredor.

Odiou não estar dormindo com ela. Não tê-la a seu lado. Mas também odiava não saber o que Lily queria dele.

Ainda estava acordado, duas horas depois, quando a porta de seu quarto foi aberta e ouviu uma voz tímida perguntando:

— Quem invadiu meu apartamento? O que a pessoa queria?

James sentou-se na cama.

— Eu não sei.

Lily ficou ali parada nas sombras, os cabelos ruivos cascateando em torno dos ombros.

— O Sr. Foley disse que pode ter sido alguém que queria saber sobre nós. Alguém curioso sobre... você.

James amaldiçoou silenciosamente o taciturno Sr. Foley por, finalmente, ter falado e dito demais.

— Talvez.

— Sabe, alguém deveria dizer à mídia que você realmente não vale todo esse trabalho e alvoroço. — A voz de Lily soou um tanto embargada. Estava prestes a desmoronar. — As pessoas deveriam saber que você não é assim tão interessante, que prefere cifras e cotações a amor e afeição. E que me pediu em casamento porque sou confiável e conveniente.

James não conseguiu conter um sorriso e sacudiu a cabeça. Ela era impossível! Como pudera achá-la comedida, sensata, conveniente?

— Alguém deveria lhes dizer e acho que tem de ser você — concordou ele, querendo apaziguá-la. — Entretanto, são três da madrugada e nem mesmo o mais tenaz jornalista estará em sua mesa por enquanto. Assim, vamos voltar para a cama e dormir um pouco.

— Não consigo dormir. Estou assustada.

— Não há nada a temer, ao menos não aqui, neste apartamento. — James levantou-se e foi fechar a porta. Ergueu-a em seus braços, carregando-a até a cama, onde a deitou.

— Ambos dormimos melhor quando dormimos juntos — acrescentou, deitando-se ao lado dela. — Assim, feche os olhos. Tente dormir um pouco.

Era fácil para ele dizer, pensou Lily, o corpo tenso, a mente agitada. Não conseguia esquecer a depredação em seu apartamento. Nem que James aparecera feito um cavaleiro medieval socorrendo sua donzela.

De repente, ele puxou-a para si, estreitando-a no calor de seus braços.

— Pare de pensar tanto — sussurrou no escuro. — Desligue sua mente.

— Não consigo.

— É claro que consegue. Eu lhe ordeno que desligue sua mente.

— Não pode me dar ordens. Não trabalho mais para você, lembra-se? — falou.

James soltou um suspiro e abraçou-a ainda mais.

— Bem, não quero que trabalhe para mim. Não quero ser seu chefe, não quando você é igual a mim. — Beijou-lhe a fronte, es treitou-a mais junto a si e relaxou imediatamente. Em menos de um minuto, sua respiração estava regular, serena.

Lily ergueu a cabeça para observá-lo. Mesmo quase adormecido, ele era tão másculo e bonito.

— Feche seus olhos, Lily. Por favor.

— Como sabia que eu estava olhando?

— Eu conheço você. Agora, durma.

E, daquela vez, quando fechou os olhos, ela realmente adormeceu.

James, por sua vez, apesar de exausto, não conseguia conciliar o sono. Não sabia como, estando completamente fatigado, ainda conseguia se sentir afetado por Lily daquela maneira.

Ela o abraçava, a cabeça repousando em seu peito e dormia como se ele fosse um porto seguro, seu refúgio favorito e, embora não pudesse explicar, aquilo lhe dava uma sensação de paz.

Sentia-se bem com o fato de alguém precisar dele, de querê-lo. Talvez até, algum dia, pudesse se sentir à vontade com a palavra amor.

Por quase o restante da noite, observou-a dormindo e seu desejo alterou-se enquanto as horas foram passando, o fogo que o consumia dando lugar a algo mais, uma ternura, um instinto protetor.

Aquela, pensou, beijando-lhe a fronte com gentileza, era Lily, sua Lily. O lugar dela era a seu lado.


Um pouco antes das cinco, James, enfim, levantou-se. Estava cansado, mas sentia-se ótimo.

Aquela sensação, porém, não durou muito tempo. O retorno ao trabalho foi ainda pior do que esperara. Além de uma parte do trabalho acumulada, a Bolsa ainda havia começado a semana em baixa e ele teve de acalmar os investidores mais assustados, lembrando-os que mercados eram cíclicos e que até os em baixa se revertiam.

Por volta das onze, ele não conseguia mais controlar a enxurrada de telefonemas, e-mails e informes do mercado, a ineficiente nova assistente encontrando-se no terceiro intervalo do café. Se bem que, durante um dos intervalos, ele podia jurar que ela estivera no toalete feminino pintando as unhas.

James discou o número de seu apartamento. Pediu para falar com Lily quando o Sr. Foley atendeu.

— Estou enviando o carro — disse-lhe. — Preciso de você aqui, Lily. Eu tenho um compromisso para o almoço à uma da tarde, uma reunião às três, e o escritório está à beira do caos. Pode vir imediatamente?


E como tenho dito: "O lugar dela era ao seu lado". Que tal ele precisando dela? E o retorno de Charlotte? Será que James esqueceu o grande amor de sua vida? Será que Lily ficará junto dele? Qual será o destino dessas duas almas? Muito obrigada pelos comentários incríveis e pelo elogios maravilhosos: Mila Pink, Eduarda, Joana Patricia, LaahB, Lady Aredhel Anarion e Ninha Souma. beijos, té mais:*