Sempre fui apaixonada por livros de aventura e fantasia, mas recentemente decidi que estava na hora de experimentar algo novo. Pensei que seria genial começar por 1984 de George Orwell... E não me arrependi! O livro é ótimo! Agora tenho novos horizontes a explorar (Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, O Processo, etc.) e muitas novas histórias a conhecer... a parte não tão incrível é que isso provavelmente me levará a falência – sou do tipo ciumenta que odeia compartilhar livros, inclusive os da biblioteca.

"Você faz isso de proposito, né?", a Cobaia indaga num tom amargo. Não faço ideia do que está falando minha cara *segura a taça com guaraná Dolly como uma lady*.

Respondendo ao comentário:

Polarres – Essa é, sem dúvidas, uma notícia duplamente maravilhosa! Primeiro porque uma leitura despretensiosa acabou se revelando promissora o bastante para merecer o acompanhamento; e segundo... quem é a autora demente que não adora saber que está escrevendo algo legal? Muito obrigada! E farei o possível para continuar merecendo a atenção :3

Esse será um capítulo "nada com gosto de coisa nenhuma", ou, em outras palavras, o típico capítulo de transição, onde as grandes mudanças se preparam para acontecer...

Leiam, divirtam-se, comentem, enfim, fiquem a vontade o/


Bruce saiu da ala médica arrastando os pés, a cabeça um pouco leve. Devido à ansiedade não comera nada no café da manhã e mais tarde qualquer pensamento sobre comida foi esquecido. Mesmo agora, perto da hora do jantar e com o estômago protestando audivelmente contra o jejum forçado, faltava-lhe apetite.

Ao saberem do incidente tanto enfermeiros quanto médicos dividiram suas atenções em praguejar contra Fury – "Ilsa, isso é um boneco voodoo... com tapa-olho?" – e trabalhar freneticamente, o que resultou na morte acidental de sete vermes não muito inocentes. Estavam furiosos e com razão.

Graças àquele interrogatório desastroso tiveram de injetar uma dose extra do analgésico em Loki... agora suavam frio imaginando o que poderia acontecer. Não por medo de perderem o emprego; mas porque haviam se afeiçoado ao trapaceiro.

Mesmo Bruce, com toda sua reserva, não ficou imune. Ele era humano e fazia parte de sua natureza simpatizar.

As portas do elevador abriram no andar principal. A sala estava vazia, exceto por um solitário copo sobre o tampo da mesa de centro. Ouviu o barulho de panelas batendo e sentiu o aroma convidativo debacon e ovos pairando no ar. Alguém cozinhava e fazia pouca questão em ser discreto.

O cientista se aproximou da cozinha. Encontrou Tony bebericando o café enquanto Steve, de avental e luva, andava de um lado para o outro preparando múltiplas receitas.

O soldado o encarou antes de voltar a se concentrar na frigideira. Estranho. Steve costumava ser extremamente sociável – de um jeito menos esfuziante que o de Thor, claro.

– Hey... – saudou Tony. – Me ajude, Steve vai acabar com toda a comida da geladeira.

Bruce puxou uma cadeira. Pegou um prato para si e serviu-se de ovos mexidos. Preferia uma salada, mas não seria idiota de dizer isso agora.

– Qual o problema? – cochichou.

– Chitauri. – segredou. Steve bateu a panela contra o fogão e Tony lançou um olhar aflito sobre o ombro. – Fury perguntou sobre os Chitauri.

Os lábios de Bruce formaram um "oh" silencioso. Fazia sentido. Quando Loki acordara pela primeira vez na enfermaria parecia bastante perturbado com a possibilidade de ter um Chitauri no quarto. Ele apenas não entendera o porquê.

A crise de pânico se encaixava e isso só podia significar...

– Loki não era aliado deles.

– Não parece surpreso. – o bilionário acusou.

Steve bateu a frigideira fumegante contra o tampo da mesa, fazendo os dois homens se endireitarem de imediato.

– Injusto... Tortura... – rosnou tão furioso que mal conseguia articular as palavras. – Nós o entregamos!

Bruce entendia bem os sentimentos de Steve, pena não poder demonstrá-lo sem colocar o prédio abaixo. Ao invés disso preferiu transformar a raiva em pensamentos úteis.

– Não sei vocês, mas não quero que ele volte para Asgard. – comentou mordiscando a comida.

– Tá maluco?! – Tony bateu a xícara na mesa. – Nem fudendo ele vai voltar!

E Steve cruzou os braços. Não precisava dizer o que pensava daquela ideia.

"Bem, Heimdall, ao menos você acertou na escolha", pensou um pouco aliviado.

– Falando nisso. Você já bloqueou o sistema de segurança? – o humor de Steve melhorara um pouco.

O brilho malicioso no olhar e o sorriso largo de Tony deixou os dois nervosos.

– Oh, é... eu dei um jeito nisso.

Ж

Anoitecia quando Fury retornou a Helicarrier.

Ele passara a últimas horas vagando, pensando em reprisar os velhos tempos e desaparecer sem deixar rastros, jogar para o alto aquela pilha infernal de relatórios. Adoraria, todavia não podia. Assumira compromissos e fizera juramentos, ele tomava as decisões difíceis e colocava em prática aquilo que ninguém tinha coragem. Não podia desistir daquilo que conquistara... porque daí teria que desistir de si mesmo.

Tudo o que precisava fazer, para aliviar sua consciência e voltar ao seu bom-péssimo-humor de sempre, era dar um telefonema. Só isso.

Uma pequena fila de agentes o esperava. Maria Hill à frente. Ela o cumprimentou, a postura rígida deixando claro que algo a incomodava.

– Problemas? – perguntou tranquilo.

Hill hesitou.

– Acho que é melhor o senhor ver.

Seguiram para a sala de controle e Fury arqueou as sobrancelhas, um pouquinho impressionado. Cada maldito monitor mostrava a cara sorridente de Tony Stark segurando uma simpática plaquinha de "Fodam-se vadias".

"Podia ser pior", pensou.

– E isso é...?

– Um vírus senhor. Atacou os sistemas e... estamos tentando removê-lo. – garantiu um técnico.

– Certo.

Para a total consternação dos agentes Fury se retirou pacificamente. Sem palavras duras, sem xingar Stark... Bem, ao menos já sabiam que o quartinho extra na casa da mamãe ainda estava disponível.

Ignorando a agitação dos seus subordinados, o coronel se trancou no escritório, acendeu as luzes e tirou o casaco. Ninguém no universo se atreveria a importuná-lo ali.

Ou não.

A rara expressão dura no rosto do homem sentado em sua poltrona mostrava que nem tão cedo teria uma folga.

– Boa noite, Diretor. – cumprimentou. Apontou para o computador particular de Fury. – Quando isso aconteceu?

Fingir-se de desentendo foi tentador, embora soubesse que não adiantaria protelar o inevitável.

– Ontem. Ao menos foi ontem que tive acesso ao sistema de segurança.

– E você foi até lá. – não era uma pergunta.

– Fui. – confirmou.

– E interrogou um homem ferido.

– Sim.

– Você sabe que merece o vírus que Stark enviou, não sabe?

– Sei.

Houve um breve silêncio.

– Era mesmo Loki naquela maca? – o homem murmurou.

– Era.

– E quando ia me contar?

– Não ia.

– Isso é um pouco injusto Fury, afinal tecnicamente eu morri por causa desse cara.

Apesar das palavras ele não estava zangado e foi isso o que derrubou de vez os nervos do coronel. Puxou uma cadeira e sentou diante do homem. Se havia alguém no mundo, naquela fortaleza, que o entenderia, era ele.

– Muito bem, Coulson, vou contar o que sei.

Ж

No quinto pernil Natasha perdeu completamente as esperanças de serem discretos. Thor e comida combinavam bem demais para estarem juntos e Clint pouco ajudava, apontando para nomes no menu e chamando o garçom cada vez que a mesa começava a parecer vazia.

– Vamos lá, estamos arriscando nossas vidas. – dizia o arqueiro sempre que ela ameaçava eletrocutá-lo.

Contrariando a teoria de Clint – "A conta quem paga é o governo, não precisa se preocupar com isso" – e a de Thor – "Lady Romanoff aflige-se demais, talvez esteja entediada" – ela meditava sobre o telefonema que recebera de Stark e sobre a mensagem que deveria repassar.

Não conseguia imaginar um jeito de contar a notícia sem que o deus loiro saísse pelos ares, arruinando a missão e traindo a ira de Fury sobre eles. Por mais discreta que fosse sua abordagem Thor perceberia que havia algo errado. Ele era ingênuo, não imbecil.

O celular tocou e ela atendeu.

Pela primeira vez o rosto impassível de Natasha Romanoff mostrou a mais absoluta incredulidade.