CAPITULO X

- Consegui! — Neville disse, entrando no quarto. Mal podia conter o entusiasmo.

Finalmente, os documentos de Mary estavam legalizados. Demorou algum tempo para perceber a expressão preocupada de Savannah, ainda imóvel ao lado do telefone.

— Que bom! — murmurou ela, caminhando em direção à bolsa.

— O que há de errado?

— Você falou com alguém sobre mim?

— Quer dizer... a respeito daquela noite?

— O que quer que seja. Quem, além daquele detetive, sabe que você e eu tivemos um caso?

— Luna. Por quê?

— Acho que foi ela que ligou agora há pouco. — Levantou uma sobrancelha. — Parece que consegui criar mais uma complicação para você.

Neville quase gritou ao pensar nas conclusões a que Luna devia ter chegado. Diabos, por que não esperou que ela lhe telefonasse?

— Oh, não!

— Está apaixonado por essa moça.

Não era uma pergunta e Neville não tinha a menor intenção de explicar nada, mas acabou cedendo.

- Sim. É minha vizinha desde que éramos crianças, e tem sido um anjo com Mary. Cansei de viver sozinho e decidi tentar ser uma pessoa decente para merecê-la.

A expressão de Savannah se tornou cética.

— Não diminua a si mesmo. Você é decente. — Fez um gesto em direção ao telefone. — Há algo que eu possa fazer para facilitar-lhe as coisas?

— Vou ligar para ela. Tudo vai dar certo. — Deu-lhe então uma cópia do documento. — Realmente apreciei essa sua atitude. Espero que alcance tudo o que procura.

— Alcançarei. — Estudou-o por um longo momento antes de se inclinar e beijá-lo no rosto. — Tenha uma boa vida, Neville.

Assim que fechou a porta, ele dirigiu-se ao telefone e discou o número da casa de Luna. Prendeu a respiração enquanto a campainha chamava. Suava frio e já contava cinco toques sem que ninguém atendesse.

Após oito toques, desligou e tentou o telefone comercial. Na terceira chamada, a secretária eletrônica atendeu. Mas foi interrompida no meio da mensagem.

Convencido de que alguma coisa estava errada, Neville discou novamente. Dessa vez, o sinal foi de ocupado. Concluiu que Luna mantinha o fone fora do gancho. Ligou para o primeiro número, e ouviu também o sinal de ocupado.

— Diabos! — exclamou, batendo o punho com força sobre a mesinha. — O que você fez, Longbottom?

— Não me diga, não quero saber. — Fiona colocou o fone no gancho quando Luna retornou do escritório.

— Está bem. Não falarei.

Ela não queria conversar mesmo. Estava muito machucada, furiosa demais para falar de maneira racional.

Claro que a avó deduzira haver algo errado. Ainda mais porque, após o telefonema fatídico, Luna desistira de tomar chá e pegara uma garrafa de vinho.

— Está bem. Diga-me.

Luna removeu a rolha da garrafa.

— Ele está em um hotel. Com outra mulher!

— Com Savannah, não é, meu bem?

— Acha que estou me precipitando? Que devia deixá-lo se explicar?

— Certamente que não. Acho que deveríamos esquartejá-lo no minuto em que chegar, e no momento certo contar a Mary que papai foi seqüestrado por alienígenas.

Luna tinha vontade de brigar com a avó. Tentou abrir uma gaveta, procurando não sei o quê, e a fechou com força. Depois desabou sobre uma cadeira.

— Não entende, vovó? Ouvir a voz dela...

— Tem tanta certeza de que se tratava de Savannah?

— Tenho.

— Mas isso significa que não há nenhuma explicação plausível?

— Eu sei que há alguma, como sei que Neville sempre tentará dá-la. Fará com que tudo se ajuste à sua maneira.

Luna, inexperiente em abrir garrafas de vinho, havia quebrado uma unha e o dedo sangrava. No momento em que começou a tomar uma taça, veio um pouquinho de alívio.

— O gosto é tão bom quanto parece? — a avó perguntou depois que ela deu o segundo gole.

— É.

Fiona olhou para a chaleira e para o saquinho de chá.

— Acho que precisamos conversar.

— Não há nada a ser dito. A propósito, a senhora devia estar feliz. Estava certa, e eu, errada. Nosso vizinho vive uma maravilhosa noite de amor enquanto tomo conta de sua adorável filha.

— Você pode estar certa.

— Eu sei que sim.

— Ou pode estar desesperadamente enganada.

Luna sentia que havia um imenso nó em sua garganta. E nunca mais seria desatado. Embora tentasse se acalmar, sabia que, para obter sucesso, teria de tomar toda a garrafa de vinho.

— Não acha que já é hora de eu tirar a venda que trago diante dos olhos há tanto tempo? Estive cega pela paixão. Pensei que confiança e boas intenções fossem tudo. Acreditei que ele me veria como sou e me amaria. Sou uma triste imagem de meus desejos.

— Por que não pára de tirar conclusões precipitadas?

Boa pergunta. Mas Luna tinha também uma ótima resposta:

— Porque percebi quanto estou cansada, vovó. Tenho vinte e sete anos. Já não quero ficar me preocupando com essas coisas. Investi demais nesse moço e me dei mal.

A avó fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Então não vou dizer mais nada, nem tentar convencê-la. Sei como fica sensível quando se aborrece.

— Por favor, deixe os fones fora do gancho.

— Claro. Mas agora vou preparar um jantar para nós. E então você vai tomar um longo banho e procurar relaxar.

— Eu só quero ir para meu quarto e ficar sozinha, vovó.

— Certo, querida.

Nesse momento, ouviram um choro. Mary acordara e começava a fazer manha, pedindo atenção.

— Mais tarde. — Luna disse com um suspiro enquanto colocava o copo sobre a mesa. — Agora tenho um compromisso comigo mesma.

Neville pousou em Dallas ao raiar do dia. Um milagre, considerando as chamadas, as negociações e os pedidos que teve de atender antes de partir.

Quando estacionou diante de casa, uma vã esperança o fez aguardar o adorável rosto de Luna à janela da cozinha. Curiosamente, ficou quase aliviado ao ver Fiona no jardim.

Deixando as coisas no carro, pegou algumas flores e um ursinho branco que havia comprado ao chegar ao terminal e dirigiu-se, determinado, à casa vizinha.

— Fiona!

A senhora, que cuidava das flores, levantou o olhar. Seu rosto esperto mostrou uma satisfação surpreendente.

— Você voltou, hein? E rapidamente.

Em seguida, voltou-se ao que estava fazendo. Entretanto, Neville teve certeza de ter captado um pouco de sarcasmo na voz dela.

— Vim o mais depressa que pude.

— Para pedir desculpas?

— Não, vovó. Para me explicar. São duas coisas diferentes.

Fiona ficou em silêncio por alguns momentos, como que debatendo internamente o que ouvira.

— Luna está muito magoada, Neville. Acha que ela tem direito de estar?

— Sim... e não. Talvez eu possa fazê-la compreender. Ela está lá dentro, com Mary?

Mais uma vez Fiona hesitou. Finalmente caminhou em direção à porta.

— No andar de cima. A segunda porta à esquerda. Não lhe diga que eu falei; tenho uma reputação a zelar.

Ele sorriu, começando a sentir alívio na tensão que o dominava. Em um impulso, tirou uma rosa do buquê e a ofereceu à senhora.

— Obrigado. Tome — disse, e lhe deu um beijo no rosto.

— Vá agora. Já a manteve esperando por muito tempo.

Neville descobriu que, se passasse o resto de seus dias tentando, nunca entenderia as mulheres. Tinha, entretanto, o palpite de que achava essa missão tentadora. Sim, acabaria por compreender as mulheres. Mas por enquanto, precisava agir.

Subiu a escada, dois degraus de cada vez. Ouviu barulho de água corrente antes de chegar ao topo e achou que Luna poderia estar dando banho na nenê.

Acertou. Mas, quando abriu a porta do banheiro, viu algo que jamais esqueceria. Com os cabelos presos no alto da cabeça, apenas de calcinha e sutiã, Luna segurava Mary no colo. As duas admiravam um patinho que boiava na banheira.

O movimento da porta foi suficiente para chamar a atenção de Luna. Ela se virou e o viu. Tossiu. Neville suspirou. Mary fez barulhinhos alegres na água.

— Vocês duas são as coisas mais lindas que vi em toda a minha vida — murmurou ele, desejando ter uma câmera fotográfica para registrar aquele doce momento.

— Saia daqui!

Como já tivesse antecipado uma recepção fria, ele achou fácil ignorar o comando. Conseguiu dar um sorriso calmo e aproximar-se.

— Trouxe presents. — disse, estendendo-lhes as rosas e o ursinho.

Luna mordeu os lábios, tornando-se adoravelmente atraente.

— Isso não vai funcionar, Longbottom.

Mas não era o que Mary pensava. Neville mal conteve o riso quando viu os olhinhos se arregalarem, fixando-se no brinquedo.

— Meu amor... voltei assim que pude.

— Não deveria ter se importado. Agora, por favor, vá embora.

Neville sabia que não devia sair. Precisava explicar tudo.

— Ainda não. Precisa me ouvir primeiro.

— É mesmo?

— Ontem à tarde o avião teve problemas mecânicos.

Luna olhou ao redor e então o fitou, visivelmente descrente.

— É mesmo? — repetiu.

— Conseguimos pousar com segurança, mas o conserto não foi concluído a tempo. Assim, não pudemos voltar no mesmo dia.

— Você esteve em perigo e só me conta agora?

— Não havia motivo para preocupá-la. Tudo saiu bem. Mas pediram que pernoitássemos lá. Quando a situação exige, ficamos em um hotel.

Os olhos de Luna tornaram-se opacos pela dor.

— Sim, e quando eu liguei para seu quarto, Savannah atendeu.

— Ela me seguiu. Suponho que tenha telefonado para a central da companhia aérea, a fim de descobrir onde me hospedei.

— E por que motivo ela iria até o hotel?

— Está envolvida em um relacionamento amoroso e preocupada com o noivo ciumento.

Luna o fitou, francamente aborrecida.

— Como assim?

— É um diretor de cinema meio excêntrico.

— Ouça, sei que você nunca aceitou aquilo que combinamos, que sempre andou procurando por ela. Então, por que vê necessidade de mentir para mim?

— Não é necessidade. Eu apenas queria fazer as coisas à minha maneira. Estava pensando em Mary e em nós. O futuro dela afeta o nosso. Mas tudo correu da melhor maneira possível.

A nenê conseguiu alcançar o ursinho e Luna tentou distraí-la com os patos. Neville percebeu que ela lutava consigo mesma.

— Que quer dizer? — perguntou, não ousando encará-lo.

Neville colocou a mão no bolso da jaqueta.

— Savannah me deu a guarda de Mary. Foi por isso que eu não estava no quarto quando você ligou. Havia descido para oficializar a documentação, apavorado que a bolha de sabão pudesse se romper e acabar com a fantasia.

— Oh... — Finalmente ela o fitou. — E eu que pensei... Neville, fiquei com ciúme.

— Eu sei. — Sorriu, deliciado. — E adorei. Mas o melhor de tudo é que a confusão acabou. Savannah está fora de nossas vidas.

— Não acredito!

— Acredite. Mary é só nossa.

Sua — Luna corrigiu.

Neville fez um gesto negativo com a cabeça e tocou-lhe o rosto com uma das rosas. Queria-a tanto!

— E quer saber o melhor?

— Você será padrinho do casamento de Savannah!

— O nome de Mary realmente é Mary.

Luna abraçou a nenê.

— O quê?

— Shawna, uma variação Savannah, Mary Longbottom. Shawna Mary Longbottom!

— É mesmo? O destino realmente tem caminhos misteriosos...

— Foi o que pensei. E por isso não pude esperar para lhe dar as boas novas. Agora estou livre para me concentrar em nosso relacionamento da maneira que tanto queremos.

Luna sentiu-se enrubescer.

— Não precisa dizer isso, Neville.

— Que outra coisa um homem louco de amor poderia falar? Eu a amo, Luh. Mas talvez tenhamos de passar nosso primeiro Natal separados, porque burlei os esquemas da companhia aérea para chegar logo em casa. Mas valerá a pena, se você me disser que irá se casar comigo e será a mãe de Mary.

— Eu... — foi tudo o que ela conseguiu dizer.

— Meu amor, é melhor responder depressa ao meu pedido. Do contrário, vou mergulhar nessa banheira e molhá-la.

— Beije-me. Talvez então eu acredite que isso realmente está acontecendo.

Ele cobriu os lábios macios, sentindo emoções maravilhosas que transcendiam as palavras. Provou-lhe em segundos não haver motivos para temer o futuro. Então, após hesitar um pouco, Luna o abraçou e apertou de encontro ao corpo.

As horas de angústia, a pressão que lhe atormentara o espírito, tudo enfim pareceu desabar sobre os ombros de Neville, fazendo-o tremer.

Suavemente, colocando as flores e o ursinho de lado, pegou as mãos de Luna e as beijou com paixão. Depois, voltou aos lábios tão amados. Seu coração batia tão rápido que lágrimas se formaram em seus olhos.

Um segundo depois, ele a erguia, e ao bebê, abraçando-as com todo o amor de seu coração.

Subitamente ouviram um barulho de água e, assustados, se soltaram. O bracinho livre de Mary espirrara sabão nos dois.

Neville começou a rir.

— Será que está nos dando sua bênção, senhorita? Beijou-a no rosto. Depois, alcançou um dos seios de Luna e também o beijou. Era um convite que prometia imensas alegrias e a realização de intensos sonhos.

— Agora confirme o que tem demonstrado há anos — ele sussurrou. — Tem de me aceitar como marido, sabe disso. Sua avó aprova. Sempre fingiu que não concordava, mas descobri que gosta de mim. Simplesmente não consegue parar de bancar a advogada do diabo.

— Eu sei. Teremos de curá-la. Juntos.

— Boa idéia. — Neville sorriu e olhou para a boca bonita. — E então?

— Eu o amo, Nev, de todo o coração.

— Ainda bem! — ele sussurrou, beijando-a. Em seguida, pegou uma toalha e envolveu-a nela. — Vamos fazer um noivado bem curto, por favor.

— Muito curto — Luna murmurou.

Mary brincava na água, feliz. Era o mais doce acordo que Neville vivenciara. E que, tinha certeza, vivenciaria até o fim de seus dias.

Fim