Lyarra V
Ela precisava sair dali de algum jeito.
Seus irmãos também sentiam o mesmo impulso, mas não na mesma intensidade, nunca a mesma intensidade. Para eles não era igual, não é?
O solo abaixo de si acomodava seus movimentos um tanto frenéticos, o ressoar de folhas e o cheiro de matéria morta subiam como fumaça do chão, mas eles eram familiares, eram casa. Em algum lugar distante, não havia esse solo, nem os mesmos cheiros. Dessa terra estrangeira além-tudo, podia sentir a aflição eriçando seu cangote; a sensação raivosa na ponta do estômago, fazendo borbulhar de dentro dela um uivo que subia fervente em sua garganta e espirrava como um jorro de sangue para o ar frio. Sentia medo, mas mais forte que isso, sentia pesar.
Duas irmãs. Uma perdida, a outra, morta.
Lyarra pulou da cama como se o colchão estivesse cheio de cobras. Algo se quebrara à sua direita, mas ela não se virara, concentrada demais no súbito pânico por sentir o ar não passar por suas vias. Tentando ter ao menos uma golada de ar, ela se envergara e forçara uma tosse, tentando desalojar o que é que estivesse dentro dela. Doía, mas não parara até uma bolota verde e marrom de muco saísse pela sua boca, depois outra e mais outra, até conseguisse resfolegar e, enfim, aspirar um pouco de ar.
Passado o momento, ela pendera para o lado e aterrissara nos lençóis embolados, respiração arfante, peito chiante e o coração prestar a sair pela boca. Ela ainda podia sentir o suor frio descendo pelas têmporas como lágrimas escapadas do próprio corpo. Ao longe, os lobos uivavam.
Fora um sonho – mais um. Estava na pele de um lobo e sofrendo por isso. E se ela não estivesse agora tremendo por conta do atual estado de sua saúde, estaria provavelmente tendo arrepios pelas invenções que seu cérebro conjurara.
Resistindo ao impulso de se encolher (e por pressão demais no diafragma), ela grunhiu, levando as mãos até o rosto. Queria esfregar o que vira dos olhos como se fosse parte do sono.
No entanto, o gesto apenas provocou uma pontada de dor em suas palmas. Havia grossas faixas de tecido em suas mãos, circundando punhos a ponta dos dedos. O unguento ainda cheirava de forma pungente e a formigação fazia parecer que a pele ainda ardia. Ela tinha certeza que podia sentir as bolhas se formando e estourando. O metal quente deveria ter queimado boa parte da carne, no entanto apenas comera as camadas de couro da pele. Do jeito que estava e se Lyarra cuidasse bem do ferimento, só ficariam cicatrizes para contar a história. Mesma coisa para o supercílio. Só o tempo poderia dizer como sua garganta e pulmões ficariam.
Meistre Luwin dissera que tivera sorte, com Theon arrebentando uma das janelas da biblioteca para tirá-la de lá machucada, queimada, intoxicada e desmaiada, mas viva. A coronhada que levara abrira-lhe a sobrancelha e precisara de pontos; as mãos, as mãos foram queimadas quando tentara forçar a maçaneta de ferro aberta e estavam enfaixadas; e ficara tempo suficiente em contato com a fumaça e calor para também para fazer um estrago interno.
Se isso era sorte, Lyarra não queria pensar no que o meistre entendia como azar.
Mercadoria estragada, uma voz traiçoeira soou em seus pensamentos, Me pergunto se algum pretendente desistiria se escrevesse ao papai contando das sequelas do acidente.
Ela fechou os punhos rapidamente, o aumento de dor lhe servindo como punição. Não deveria pensar daquela maneira.
O som de passos apressados foi ouvido e ela se ergueu, ficando sentada na cama. Robb entrara como um estouro de boiada, seguindo por Meistre Luwin e uma pálida Beth Cassel. Fora só então que Lya notara a bacia de louça estilhaçada no chão. Ao lado, completando a bagunça, estavam as expectoradas de catarro que ela soltara. Aquilo fez uma pontada de incômodo subir pela moça, que não melhorou quando sentiu o irmão se aproximar.
- O que está sentindo? – ele perguntou urgentemente. Robb apenas usava uma túnica branca e culotes, sem gibão e nem espada. Lya ponderou o quão tarde ou o quão cedo era para que estivesse assim.
Uma rajada de vento atravessou da janela para o quarto, entrando pela fina camisola que Lya usava. Estava escuro, mas havia pássaros lá fora. Muito cedo, então.
- Frio.
Robb assentiu e fez movimentos para cobri-la com as peles da cama, porém foi parado por um dos braços de Luwin.
O cinzento meistre então se aproximou e pediu para que ela segurasse a frente da camisa de dormir. Lyarra aquiesceu, cruzando os braços sobre o peito e tentando não se mexer quando Luwin despiu suas costas, nem mesmo quando ela sentiu o chifre oco que ele produzira de dentro das mangas para escutar sua respiração. Quando inspirou e expirou como lhe era mandado, a garota pode ouvir mais um chiado baixo.
- Muito bem. – murmurou Luwin, cobrindo-a novamente e fazendo menção para que ela se ajeitasse novamente nos travesseiros empilhados na cabeceira. Eram tantos que Lya ficava mais sentada que deitada. – Nada fora do esperado. O maior problema ainda é manter o quarto ventilado e com ar fresco sem que você pegue uma pneumonia no processo, Lyarra. Deu um baita susto em Beth.
Lya puxou as pelagens até o meio do peito.
- Desculpe. Foi só... Terrores noturnos, eu acho. – a voz de Lya estava rouca e pareia areia, sua textura arranhando as mucosas ainda sensíveis. A vergonha que sentira por ter provocado tamanha comoção pela merda dum pesadelo, como se ema fosse uma garotinha, apenas adicionava mais um sabor amargo em sua língua.
Robb sentou-se ao seu lado, alerta.
- Lembrou-se de mais alguma coisa?
Ela negou com a cabeça.
- Não, nada.
Quando acordara a primeira vez desde o incêndio, há dias, sua cabeça parecia cheia de lã crua, as lembranças todas misturadas. Na medida em que ia se recuperando, recordou da luta com o homem desconhecido, em como ela mordera - lhe a mão que ele tentara amordaçá-la; lembrava-se de como ele a arremessara contra a parede de pedra, bem como quando ele a largara no chão, tonta e semiconsciente, para morrer no meio do fogo. Quando se erguera, tentara sair para apenas ser queimada, naquele ponto a fumaça tão intensa que lhe cegava e a impedia de respirar. A última lembrança que tivera, antes de desmaiar de vez fora o som de vidro se quebrando.
Depois, foram apenas espaços de tempo indefinido, nos quais um leve despertar vinha intercalado com sonos regados a leite de papoula até que começasse a conseguir falar: pouco, mas o suficiente para contar o que sucedera.
- Deixe-a descansar, meu senhor. – Luwin murmurada com certa impaciência para Robb.
Robb voltara-se para o ele com um tom direto, que não admitia concessão. Ele estava usando sua voz de lorde com meistre Luwin, e Lya por um segundo se espantou como o outro não tirara uma palmatória para dar uma chamada no mais novo pela insolência.
- Eu irei, não se preocupe, meistre. Mas agora que minha irmã acordou, penso que ela precisa ficar a par das... Circunstâncias.
Ao ouvir aquelas palavras agourentas, o espanto deu lugar à apreensão. Tanto que fez com que as mãos enfaixadas dela buscassem as dele sobre os cobertores, entrelaçando os dedos. – O que está acontecendo?
Robb a encarou, olhos desbotados num azul acinzentado:
- Minha mãe foi para Porto Real. – e o que caiu da boca do rapaz em seguida foi um conto tão fantástico como os da Velha Ama, cheia de intrigas da corte e com um garotinho de bode expiratório como resultado final. Ou talvez, ou talvez apenas o primeiro.
Mas antes disso...
- Bran? – ela viu a sombra no cenho de Robb se levantar um pouco.
- Ele acordou. Ontem de tarde, na verdade.
Só os deuses poderiam dizer quem foi mais rápido: Lyarra ao pular para fora da cama ou Robb a segurando pela cintura. Meistre Luwin foi de encontro dos dois, também tentando segurá-la.
- Lya, calma! – o garoto exclamou, desviando o rosto quando ela tentara afastá-lo com um empurrão.
- Basta, Lyarra, você deve ficar de repouso.
Ela podia sentir a tosse subindo como uma ânsia de vômito, mas colou os lábios. Lyarra estava cansada de ficar dias sem fim entre cochilar e poções e emplastros. E Bran!
Robb a largou assim que sentiu os espasmos passando por suas costas, olhos largos com medo dele mesmo ter provocado o acesso. Meistre Luwin, por outro lado, não perdera tempo e a empurrara para os travesseiros, segurando Lya pelos braços.
- Me ouça, menina! Você deve ficar de repouso até que seus pulmões consigam funcionar normalmente. Se continuar com essa baboseira, lhe amarrarei na cama até que esteja recuperada.
O embaraço de Lya com a situação toda apenas piorou. Ela parou de resistir, o corpo progressivamente parando de convulsionar com a crise de tosse segurada.
Sua expressão pareceu trair sua mal dada submissão, pois Robb continuou a encará-la:
- Você não desistiu. – Não era uma pergunta.
Lya cruzou os braços e balançou a cabeça. No mesmo tom, Robb continuou:
- E você vai tentar sair daqui, mesmo que eu coloque meia dúzia de guardas na porta.
Ela ponderou por um minuto. Sendo encarada diretamente pelo meistre e pelo irmão, não adiantava mentir - até por que Lyarra era uma horrível mentirosa. Assentiu.
- 'Tá bem. - Seu irmão estreitou os olhos e então se virou para o meistre. – O senhor poderia , por favor, apanhar os livros de conta no meu quarto? Farei companhia à minha irmã até ela descansar.
Lyarra se retesou.
- Eu não sou criança!
- Se você pode ser teimosa, eu também serei! – ele rebateu. Sua próxima fala , contudo, fora mais suave. – Nem é dia claro, Lya. Eu mesmo a levo até Bran, prometo. Mais tarde. Agora tente voltar a dormir.
- E se eu não conseguir? – ela rebateu, meio em desafio, meio em inquietação. Não queria dormir simplesmente porque lhe haviam mandado e, de todo jeito, o prospecto de dormir não parecia não animador se fosse para reviver os estranhos sonhos que tinha.
- Ah. – meistre Luwin produziu de dentro das vestes um pequeno recipiente de vidro, depositando-a numa mesa próxima. – essa poção lhe servirá para um repouso sem sonhos, caso eles ainda a perturbem. Uma pequena dose será suficiente no seu caso, Lyarra. Beth, por favor, traga um copo de água aqui.
Beth Cassell, que havia limpado nojeira toda com um largo trapo, saiu do canto que estava para contornar a bacia espatifada até o jarro que Lya usava para se lavar. Ela encheu um pequeno cálice com o que parecia ser água fresca e o trouxe de volta para o Meistre, que por sua vez acrescentou algumas gotas do frasco.
- Aqui. – ele disse, passando para a moça acamada – Isso lhe fará dormir por algumas horas a mais. O suficiente para que consiga descansar adequadamente.
Com isso, Meistre Luwin meneou a cabeça para os irmãos e saiu pela porta a fim de atender o pedido de Robb, Beth logo atrás.
Quando sozinhos, os olhos de Robb a fitaram com expectativa.
- O quê? – ela exclamou – Eu irei beber.
- Claro. Não se incomode comigo, eu só vou ficar aqui esperando você fazê-lo.
Lya revirou os olhos.
- Você é insuportável, sabia? Vamos, Robb. Preciso ver Bran. E o castelo, e Fantasma...Preciso sair daqui.
As sobrancelhas dele caíram e ele se aproximou mais dela na cama. Seus dedos ainda estavam enlaçados com os dela.
- Eu sei, mas você descansar para ficar boa. – Robb esfregou a testa com a mão livre, exasperado. - Deuses, Lya, você podia ter morrido queimada se Theon não soubesse que você estava na biblioteca...
Ele parecia tão abatido com a ideia que Lya sentiu toda a rebeldia sair voando pela janela. Pela terceira vez, vergonha esfriou seu estômago.
- Sinto muito. – ela murmurou dentro do caneco d'água.
- Não é sua culpa. – ele assegurou, depositando uma das mãos no ombro de Lyarra. Quando a garota levantou um pouco a cabeça, Robb descansou a testa dele na dela. – só...Te ver esses dias, prostrada...foi horrível. Por favor, fique boa logo e eu prometo que saímos para onde quiser: a Mata de Lobos, Wintertown, a Muralha, Dorne. Você escolhe.
Lya deu uma pequena resfolegada. Podia ser tosse, riso, ou um pouco dos dois.
- Bobo. – ela sussurrou, se afastando o suficiente dele para levar a água até os lábios. O gosto das ervas era amargo e diluído, o que fazia o líquido parecer água suja. A descida pela garganta também talvez não tenha sido a coisa mais agradável do mundo, mas Lyarra manejou tomar tudo em pequenos e lentos goles. – Pronto. Feliz?
Robb deu um pequeno sorriso e lhe beijou a testa.
- Obrigado. – disse, apanhado o caneco vazio das mãos dela. No tempo que ele levou para se levantar e colocar o objeto no lugar devido, ela já caíra no sono.
Quando ela acordara, a primeira coisa a encontrá-la fora o canto dos pássaros, mais forte e definitivamente em atividade. A segunda foi a luz leitosa da manhã. A terceira, o ronco de Robb.
Lya abaixou os cobertores que a abriam até os ombros e se sentou ereta. Robb estava jogado na cadeira perto do fogo, capotado. À sua frente, a mesa que Lyarra usava para estudar abarrotada de livros e pergaminhos.
Ela fungou em impaciência. Ela iria acordá-lo para só para que aprendesse a não ser tão cabeça dura e deixasse de vigiá-la como um gavião. Rezando para não ter uma vertigem por estar tanto tempo na cama, Lya se levantou lentamente, jogando a primeira pelagem sobre os ombros como um xale e marchou em direção ao irmão.
A intenção, no entanto, foi abandonada assim que ela notou as anotações na caligrafia demoníaca dele, a pena caída dos dedos dele, sujos de tinta. O idiota turrão finalmente trabalhara até a exaustão.
Lentamente, ela transferiu o cobertor dos próprios ombros para o colo dele, se pondo a fechar o tinteiro e afastar as penas. A garota também tirou as mãos de Robb de cima da mesa, colocando-a sobre a pelagem. O fato que ele nem se mexera disse o mundo sobre seu estado.
Ele vai ter ficar grisalho antes dos trinta desse jeito. E um torcicolo também. Da maneira mais suave que conseguira, passou os dedos pela nuca do rapaz, tirando seu pescoço do ângulo estranho que se encontrara. Robb soltou um grunhido, mas não acordou.
Havia um pequeno franzido em sua testa e Lyarra passou aproximou os dedos dali, alisando a pele em um toque quase-nem-ali. As rugas dali suavizaram, mas não sumiram. Mas o rapaz estava descansando, então era dos males o menor.
Robb pareceu sentir o calor que emanava da mão dela e seguiu a direção dos dedos, fazendo-os tocarem-se mais firmemente com seu rosto. Rapaz pareceu soltar uma lufada de ar querendo ser um suspiro e se aconchegou mais no assento.
Lya pausou e o contemplou por um momento. Seu irmão parecia anos mais novo quando dormia seus traços retomavam ao seu normal, o meio termo de algo juvenil que gradativamente se perdia em maçãs do rosto altas e da mandíbula forte. Um rapaz, não um homem, mas caminhando para isso. Algo entre o suave e o duro.
Lya subiu ligeiramente o toque, passando a tatear suavemente a linha dos cabelos castanho-avermelhados. Um bonito menino virando um rapaz igualmente bem apessoado.
A lembrança surgira na sua mente como uma brasa que resiste em se apagar. Há o que parecia uma eternidade agora, quando os Karstarks haviam visitado durante o festival da colheita, ela pensara aquilo quando vira Robb dançar com Alys Karstark.
O irmão acabava de completar quinze anos e o estirão viera com força total, fazendo-o alto como Gelo e a gordura infantil se derreter de seu estômago e das bochechas, dando lugar para um corpo de rapaz forte e de temperamento solar. E herdeiro do Norte, o que fazia um excelente partido.
Ela assistira do canto do salão como Alys parecia tão caída por ele, se sentindo nauseada com a ideia de um casamento sair daquilo (talvez não tão diferente do que sentira quando fora informada do próprio matrimônio), tentando por todos os caminhos ignorar a sensação de posse que fervera dentro dela. Ele não é seu.
Ela recolheu a mão. Aquilo era uma coisa estúpida para se lembrar. Fora dois anos atrás, continuava mais ainda agora.
O fogo na lareira deu uma última tremeluzida antes de morrer de vez, a luz piscando sobre as contas polidas ábaco. Lya o pegou, juntamente com um dos livros de contas e as anotações de Robb, e levou tudo para a cama. Ela não conseguiria fazer escrever muita coisa com as mãos do jeito que estavam, mas ao menos era boa de cálculo para bater com o que ele já fizera e adiantar um pouco o trabalho.
