Kiss and Control
Capítulo 10: Duas vezes.
São raros os momentos em que os segundos se arrastam por uma eternidade desértica, nas quais sua respiração soa tão ruidosa como um tornado e o suor que se gruda à sua pele poderia retornar o Grand Canyon à condição de oceano.
- Por que você não me diz a verdade nee-chan?
- A-Aquilo foi um acidente.
- Você não precisa defender o hentai do Neji!
- Por que você v-veio Hanabi-chan? – Hinata abria e fechava as mãos pousadas sobre o colo, como se isso fosse impedir de sentir-se embaraçada.
Hanabi respirou fundo, tinha completa noção do que sua irmã estava fazendo: desviando do assunto! – Estava preocupada. Otoo-san exagerou.
- Fico agradecida pela s-sua preocupação, m-mas... – antes que completasse a sentença Hanabi a cortou.
- Deixa isso pra lá, é hora de voltarmos para casa.
- Mas Otoo-san não me chamou de volta.
- Quando ele souber o que aquele tarado andou fazendo com você isolada pra cá, nem vai lembrar que não lhe chamou de volta! – Hanabi estava finalmente transparecendo sua exasperação com a tapadice, muito óbvio que sua irmã era inocente!, de Hinata ao gesticular violentamente na direção de onde acreditava estar Neji.
- Hanabi-chan não fale assim do... Neji-nii...
- Ele abusou de você! – por que diabos sua irmã estava corando ao pronunciar o nome daquele pervertido?
- N-Não, aquela foi a única vez que ele me b-b-b-be... – Hinata baixou o olhar e deixou que sua franja cobrisse o rosto, ela não conseguiria pronunciar a palavra mesmo.
Uma parte dela havia desejado ardentemente que tudo não tivesse passado de um pesadelo vergonhoso, o qual não precisaria partilhar com ninguém. Porém sua irmã e amigos haviam presenciado algo, no mínimo, muito particular.
Tudo era muito confuso e como se não bastasse havia outros a condenando e julgando, o que fazia com que ela se sentisse perdida, e com muita vergonha. Ela precisava de espaço e tempo para pensar melhor. Ela precisava conversar com Neji. O que aconteceu?
- Por hoje chega – Neji interrompe a conversa entra as duas, ao adentrar o quarto da Hyuuga mais velha.
- Como você ousa entrar aqui sem bater? Você já fez isso antes?! – Hanabi fuzila Neji e enquanto este não dá sinal de que responderá, Hinata diminui sobre a cama.
- Foi um a-acidente – num fio de voz retruca Hinata.
- Por Kami-sama quantos acidentes você vai dizer que aconteceram nee-chan?!
- Você vai acordar toda a vizinhança com essa gritaria desnecessária. Amanhã Hinata-sama ouvirá tudo que você tem para dizer, está tarde e ela precisa descansar.
Hinata permitiu se perguntar que vizinhança?
- Acha que eu vou cair nessa? Se ela não voltar comigo otoo-san vai ficar sabendo do que aconteceu aqui – Neji não hesitava diante dos argumentos incisivos de Hanabi e Hinata pela primeira vez gostaria de ser deixada em paz, o cansaço finalmente lhe alcançando.
- Você dorme aqui esta noite e amanhã cedo volta pra casa Hanabi – Hinata está de pé e encara taxativa sua irmã.
Mais pelo espanto do que por outra razão, Hanabi contrariada se retira em silêncio, lançando adagas pelas orbes para o primo. Inclusive Hinata está surpresa com o que acabou de protagonizar, até o momento em que se vê sozinha com Neji nos próprios aposentos.
A necessidade de ficar só diminui diante das lembranças. Mil e uma coisas passam por sua mente. Não querendo se deixar paralisar pelo receio e repetindo que diante de si está Neji, ela não tem que teme-lo; ela o conhece, Hinata tenta romper o mutismo que se arraiga como erva daninha à sua língua.
- H-Hum... – Hinata está se esforçando o melhor que pode para perguntar o motivo que levou Neji a beijá-la, contudo sua perturbação e insucesso em conseguir olhar para ele não ajudam.
- Cabeludo-hentai o que você faz aí? – Kiba se une ao coro de Hanabi.
Em frente à porta uma impaciente Hanabi está escoltada por Kiba e Shino. Hinata estava tão focada em seu primo e em dissintonia com o restante, que mal havia percebido a porta de seu quarto ainda aberta e os três a observar.
E assim a noite mais turbulenta desde que Hinata chegara, termina. Ela se convence que foi o melhor para todos, apesar de uma pequena parte de si discordar.
Na mesa do café da manhã a sensação de estranheza e desconforto é tão sólida que Hinata poderia cortá-la com uma faca. Não imaginaria que chegaria o dia em que não gostaria de ter seus amigos consigo debaixo de seu novo teto. Como o mundo dá voltas...
A noite de descanso não ajudou em nada.
Neji não está com eles e Hinata sinceramente não sabe se agradece pela sua ausência, ou entristece perante a ideia de que ele está fugindo do que transpirou entre eles. Como se a sua rejeição já não a tivesse magoado o suficiente. Ela gostaria de entender o motivo, tudo estava indo bem, tirando a plateia que não fora convidada.
Era a ordem natural das coisas, não? Eles eram próximos, Neji a compreendia, pelo menos era essa a sua percepção. E ela também o entendia... Ou talvez não. Muito provavelmente essa afirmação precisava ser corrigida, porque ele a recusou sem que ela achasse uma justificativa plausível.
Uma coisa era certa: Hinata se recusava, terminantemente a afundar-se em comiseração. Isso estava no passado. Ponto final.
Foi desafiador dormir na noite anterior, porém ela havia chego a tal conclusão e estava disposta a descobrir o que tudo isso significava para ele. Eles.
- Então... – Kiba limpa a garganta de um muco inexistente, passar minutos sem usar sua voz causava tal efeito nele - O que se faz nesse local para se divertir?
Hanabi continua a observar sua irmã com afinco e Hinata se esforça para mantê-la na periferia de sua visão, tentando se manter impassível diante da análise, por mais que seu coração esteja em pedaços.
A quem ela pensa enganar... O pouco de confiança que conquistou se foi pelo ralo. O que Neji estava pensando?
- Piquenique. Também temos um lago não muito longe daqui que torna o calor mais suportável – Hinata sente sua voz tremer um pouco ao fim da sentença.
- Não gosto de água – Shino acrescenta, aumentando o sentimento de incomodo que paira entre todos, Hanabi solta um muxoxo de exaspero e se levanta bruscamente.
- Onde está Neji? – sua brusca pergunta resvala em Hinata e esta, inconscientemente aperta a mão acima do coração tentando conter suas batidas descompassadas.
- Maneiras Hanabi-chan – Hinata a repreende, sem muita energia.
- Se ele pensa que eu vou embora... – a Hyuuga mais nova aponta desgostosa para algum ponto acima da cabeça de todos e Kiba grunhi um "nós" revoltado por ter sido deixado de fora - ...sem você ele está redondamente enganado, nee-chan! Você vai embora comigo agora.
Kiba cruza os braços e murmura alguma coisa indecifrável, enquanto que Shino lhe cutuca as costelas com o cotovelo.
- Eu não posso voltar, otoo-san não me perdoaria – Hinata retruca, repousando seu chá na mesa antes que seu nervosismo derrame o líquido no seu colo.
- Quem ele não vai perdoar é Neji-san! – Hanabi está de pé, gesticulando em agonia diante da renuncia de sua irmã.
- E-e-ele não fez nada de errado. Sou adulta, s-sei o que estava fazendo – Hinata ergue o queixo e a discussão entre Shino e Kiba finda repentinamente.
Hanabi está estupefata e o desconforto só pode ser desfeito com uma bomba agora.
Neji aparece à porta da sala de jantar, os braços cruzados sobre o peito – Hiashi-sama está aguardando ao telefone – sua voz desperta um arrepio por toda a extensão da coluna de Hinata e sua resolução desmorona.
A ínfima fé que demonstrava em si própria desaparece num único 'puf' e seus ombros despencam apaticamente.
Neji corre o olhar desgostoso entre os amigos de Hinata e com extrema arrogância, na opinião de Kiba, arranca sua melhor amiga da segurança e proteção deles.
- Hinata-sama – ele profere seu nome sem emoção e Hinata não consegue esconder a angústia que se instaura em seu semblante, perante a forma que está sendo tratada.
Antes nada tivesse acontecido entre eles, seria tolerável. Não estar perto dele era agonizante, estar igualmente era. Verdade seja dita, era culpa dela. Quem instigou Neji? Quem arrancou o telefone de sua mão? Muito provavelmente ele se viu obrigado a defender sua honra. Como justificaria para seu pai que havia assediado seu guardião? Ente de sua própria família?
A cada conclusão que sua mente tomava a aflição de Hinata duplicava, assim como sua mortificação. Tinha algo muito errado com ela. Todos esses anos de ensinamentos e disciplina reduzidos a nada. Ela não se reconhecia mais.
Envergonhada e assustada, não arriscava fitar seu primo, presa aos próprios passos e pensamentos. O que seu pai diria? Mandar-lhe-ia para rua? Mudaria seu guardião?
Diante da repreensão de seu genitor a indiferença de Neji era mais sufocante. Se pudesse arrancaria seu coração fora. Ela hesitou diante do receptor de telefone e, após inspirar profundamente e alinhar os ombros, saudou seu pai com o que restava de sua dignidade.
- Você está voltando para casa – depois das saudações iniciais, ele justifica a causa da ligação e Hinata conclui que ele prefere perpetrar tudo que sua mente imaginou frente-a-frente com ela e, não por telefone.
Hinata anui roboticamente e espera educadamente a próxima ordem de seu pai, a boa garota dentro dela tomando as rédeas de suas atitudes. Neji permanece às suas costas, ler sua expressão facial não importa mais.
- Neji acredita que você está pronta – seu pai inesperadamente afirma e surpresa ela nota um que de orgulho em sua voz.
Atônita e sem conseguir conjurar uma sentença, ela permanece em silêncio. Em sua cabeça está instaurado um caos mudo, Hinata não sabe como se sente diante da aprovação do pai. Não parecia a mesma pessoa que lutou ferrenhamente por isso desde o início de sua existência. Ela se sentia anestesiada.
Seu pai se despede e Hinata percebe-se chorando quando o gosto salgado de suas lágrimas molham seus lábios.
Ela se convence que é de felicidade.
Não há espaço para outra emoção, ela assegura para si.
Entretanto a sua parte egoísta, desafiadora e que cospe em tudo que lhe ensinaram faz com que ela encare Neji cruamente. Aquela parte que não se importa com os outros, cuja prioridade é somente o prazer de Hinata. Que é extremamente sincera sem levar em consideração o que a sociedade e sua família dita como apropriado.
Neji aparenta vacilar em sua estoica instancia ao ser enfrentado por Hinata, e a parte vil dela se dá por satisfeita.
Hinata sela suas emoções e põe o telefone no gancho, sem mais segue para seu quarto a fim de arrumar seus pertences e enfim, nunca mais voltar para este lugar.
Ela não gosta da pessoa que se tornou aqui.
Passaram três dias desde a ligação de Hiashi. Antes que os empregados começassem a organizar os móveis para a partida, Kiba, Shino e Hanabi já haviam partido. Aliviados ante a perspectiva de reverem Hinata livre daquele local.
Livre é uma descrição que Hinata sabe que não se aplica a si, contudo, ela não corrige nenhum dos três e após despedidas normais entre ela, Kiba e Hanabi - Shino lhe entrega uma caixa que mais tarde ela descobre ser preservativos, o que ele estava pensando? Melhor ignorar... – Hinata não está nenhum um pouco ansiosa para dizer adeus a Naruto.
O que lhe resta é fingir. Fingir que ela é mesma pessoa que chegou aqui, quando se sente cansada e velha, como se tivesse carregando o peso do mundo nas costas. Ela sempre foi muito boa em ignorar seus sentimentos para agradar outrem. Desta vez não pode ser tão diferente...
- Ahh não acredito que você vai embora 'tebayo... – Naruto aperta os olhos e com a cabeça pendendo para a direita, reclama insatisfeito.
Hinata sorri e tenta ignorar outras emoções que apertam seu estômago, infligem uma dor imensurável e a deixam sem ar. Ao menos tudo não está acontecendo da pior maneira possível. Ignorando o fato de que Neji mal reserva um segundo de atenção a ela. Ela analisa pelo lado positivo, mesmo que não exista um, seu coração lhe sussurra.
- Naruto-kun pode me visitar quando quiser – ela argumenta e o observa se dobrar sobre si mesmo, e soltar um "hm" pouco convencido.
- Aquele seu parente-tábua-estranha vai estar lá com você? – ela não consegue rir da descrição dada ao seu primo e desvia o olhar para os próprios dedos da mão.
- Sim... – ela confirma, mas a verdadeira resposta, a que realmente importa é negativa.
Eles nunca estiveram juntos, realmente.
- Ahh droga! – Naruto finge não notar a mudança de clima entre eles ao acompanhar os movimentos de Hinata de soslaio – Pelo menos você vai ficar perto dos seus amigos e família de novo, huh?
- Hai – ela sorri sem que a alegria tome posse de seus olhos e Naruto deixa que ela acredite que o enganou.
Eles dizem adeus e prometem se encontrar num futuro próximo.
Velhos hábitos não morrem facilmente. Para mudarmos precisamos ser forçados a tal e mesmo assim, sempre retemos uma parte de quem genuinamente somos.
Por mais confiante e sábia que Hinata estivesse se sentindo e, seus observadores afirmassem, por mais que sua experiência dentro do conglomerado da família fosse algo ainda não vivido, por mais que ela tivesse muito que aprender e errar, o medo e a incerteza não mais travavam suas decisões e opiniões.
Ela era paciente e indulgente, disposta a ajudar quem cruzasse seu caminho e aos poucos conquistava o respeito daqueles ao seu redor.
Neji acreditava que apesar de tudo ela não deveria estar ali, mas quem ele era para determinar o que sua prima deveria ou não deveria fazer? Não viviam no século XX. Além do que, talvez o meio deles precisasse de uma repaginada, de alguém como ela. Ou talvez ela só estivesse perdendo pedaços de si ao estar ali...
O período em que conviveram isolados dos outros parece ter ocorrido em outra vida e não há um ano. Ela o trata educadamente, ainda existe um afeto que lembra a forma como fora tratado no passado, porém não com a mesma intensidade.
E claro, em nada se parece com os beijos ou carícias trocados. Não que esses tenham durado tempo o bastante para Neji ter certeza que foram significativos ou reais. Todavia, ele se permite admitir que foram.
Cada um tem um lugar e um papel a desempenhar, ele crê que o seu reside em observar e proteger. Por mais que no passado ele tenha esquecido essa função. Função tão semelhante ao do seu pai, cuja memória lhe repetia os mesmos ensinamentos. No fim Neji precisou que Hinata lhe lembrasse.
Ela era o que de mais importante e precioso ele tinha, suas escolhas estavam acima das dele e Neji mais do que nunca acreditava nela.
- Você está me ignorando de novo Neji... – Tenten apoia a bochecha em uma das mãos e olha desolada para seu interlocutor.
Neji desvia o olhar de Hinata, que está pagando por algo no caixa da pequena cafeteria em que se encontram, e fita Tenten compenetrado – O que Lee fez dessa vez?
- Muá... Eu não vou repetir – ela se recusa, em tom de reclamação e afasta sua cadeira da mesa – Sinto inveja de você poder ficar longe deles.
Neji permanece calado, ele não nega que a convivência com seu ex-colega de faculdade é algo que não sente falta. Assim como seu ex-professor. Quando os dois se juntam... Desastres acontecem.
- Por mais que nossas conversas não sejam eloquentes, você é o único que parece me entender – ela continua – Até a próxima então – ela acena e em tom de confidência se aproxima dele de novo – Se Lee perguntar se vim lhe ver diga que não.
Ela lhe pisca e vai embora. Neji bufa e quase engasga quando Hinata o interpela.
- Neji...
Pego desprevenido, ele hesita alguns segundos para se levantar e manter a compostura perante sua prima.
- Otoo-san lhe falou do jantar com a família Tomoeda hoje à noite?
- Sim Hinata-sama.
- Como estarei ocupada você pode pegar Naruto-kun no aeroporto para mim, por favor? – Neji sente algo dentro de si explodir, antes que perca o controle sobre seu temperamento e ruja sua revolta de forma indevida, Hinata continua - Não tenho a quem pedir...
- Seu pai está sabendo disso? – Neji não resiste.
- Ele é meu convidado e amigo – ela responde serenamente e Neji morde a própria língua para prevenir-se de falar mais.
Ela lhe entrega um bilhete com o número do vôo e após saudá-lo, retira-se.
Neji não sabe o que é pior, acompanha-la ao jantar onde o herdeiro dos Tomoeda literalmente baba e flerta descaradamente com sua prima, ou servir de chofer para aquela arara hiperativa que se diz "amigo" de Hinata.
Vida difícil.
N/A: Perdão! 3 anos sem atualizar. Que vergonha, mas estou postando os capítulos de uma única vez e enfim, findando a fic. Talvez, se eu não tivesse a abandonado, teria uns 2 capítulos a mais. Porém, desse jeito também está bom, sem muita enrolação.
Não acho que tenha ficado corrido, acho que a mudança de Neji foi fofa, sei lá. Curti, v6?
Mais uma vez, desculpem-me pela demora!
