Cancelando o Apocalipse!

Heitor Sacramento havia regressado a idade mental de uma criança de seis anos. Ao enxergar aquele monstro colossal, um pesadelo incarnado, toda a sua lógica racional escorreu pela sua orelha e foi parar no chão. Heitor tremia, chorava, se desesperava.

Marcos tentava por um pouco de lucidez na cabeça de seu amigo. Amigo?! Quem diria!

O exú pega o rosto do policial com as suas duas mãos e o força a prestar atenção somente no que falava. O forçava a esquecer um pouco o monstro de quarenta andares que rondava a cidade. Uma tarefa um tanto quanto difícil.

- Heitor, vou te contar um segredo. Um segredo que aprendi após conviver tanto tempo com o sobrenatural. Monstros, deuses, espíritos, anjos... Não importa qual entidade. Eles podem parecer ameaçadores e terríveis, mas isso é só uma ilusão, uma farsa. Bem lá no fundo eles se borram de medo de vocês: humanos. Eles fingem bem, mas na realidade eles têm mais medo de vocês do que vocês deles.

Heitor olhou para Marcos como se o exú estivesse falando a coisa mais absurda do mundo. Era difícil imaginar que um monstro gigante iria ter medo de tão pequenos e frágeis humanos.

- Você, como policial, já deve ter visto criminosos que fingiam serem Os Fodões só para esconder o quanto estavam se cagando por dentro. Com os monstros é quase a mesma coisa. Pode não parecer, mas os monstros foram feitos para serem derrotados por humanos.

- Basta saber qual arma usar. Basta saber qual o lugar certo onde bater. Basta saber quais palavras mágicas dizer.

- Os monstros foram feitos para serem derrotados por humanos! Por que você acha que só há humanos entre os caçadores? Tantos seres mais fortes e capazes que podiam cumprir o papel, mas não! Humanos! Caçadores de verdade são humanos! Só você pode parar esse monstro.

- O quê?! Tá maluco?!

- Basta saber qual arma usar! - Marcos pegou o Macronomicon do chão e o entregou a Heitor com brutalidade.

- Basta saber qual o lugar certo onde bater! - Marcos, com o livro já nas mãos de Heitor, abri em uma das páginas e aponta para o texto que queria mostrar.

- Basta saber quais palavras mágicas dizer! - Dentre o comprido texto que Marcos exibia a Heitor ele escolhe uma frase. Uma frase contendo uma lista de nomes impronunciáveis. Impronunciáveis? Não para Heitor.

O enorme Cthulhu caminhava pela cidade provocando medo e destruição só pela sua presença. Pessoas enlouqueciam só de porem os olhos sobre o monstro. Alguns gritaram, choraram e até se mataram.

O Antigo se alegrava com o mau que provocava. Se achava poderoso, imbatível, terrível.

Mas...

De repente Cthulhu ouve algumas palavrinhas soltas pairando no ar. De início as palavras lhe eram estranhas, mas aos poucos foram ficando familiares. Até que ele as entendeu.

Cthulhu volta sua atenção a dois indivíduos que estavam no terraço de um prédio. Um deles lia um livro.

Heitor prestava atenção somente nas palavras a quais deveria dizer, mas por um momento sua curiosidade o atiça a levantar a vista. Heitor olha para o monstro e por um instante consegue ver através da máscara.

Heitor enxerga além da máscara de poder e destruição que o monstro imanava e enxerga.

Enxerga medo.

O "poderoso" Cthulhu caminha até o prédio, queria acabar com aqueles pequeninos que ousavam o enfrentar, mas já era tarde.

- Luk Baratha Nikto! - Heitor entoa as palavras.

Mesmo Cthulhu tendo aquele rosto monstruoso Heitor conseguiu ver a expressão de pânico impresso em sua cara. Heitor ri. Ri muito. Ri alto. Por fim ele pensa em apenas uma coisa: - Eu tive medo disso?!

Cthulhu dá um rosnado gutural, mas Heitor só ouve o choro de uma criança grande que acaba de ser mandada para o quarto ficar de castigo.

O céu verde se transforma em um portal que começa a puxar o corpo do gigante. O monstro luta para permanecer preso ao chão, mas era inútil. Uma mão descomunal de uma entidade ainda mais perigosa e poderosa do que ele o agarra. A mão era tão absurda que pegava um ser de quarenta andares como se ele fosse um brinquedo de plástico.

A mão carrega Cthulhu até o portal e o leva embora. Assim que os monstros somem o portal se fecha. O céu, antes verde, agora estava ensolarado e bonito. O apocalipse havia sido cancelado. Veremos se nossa sorte se repete no próximo.

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Milena Mignola estava presa a uma cama de hospital. Seus familiares e seus médicos achavam que sua resistência se devia a um milagre. Milena ficava irritada quando ouvia aquilo. "Milagre"? Ela detestou aquele "milagre". Preferia mil vezes ser deixada em paz. Milena se pudesse falar pediria para seus médicos para que deixassem que a natureza seguisse seu ritmo natural. Ela se pudesse iria suplicar para que parassem de mantê-la presa ao seu corpo através de máquinas que forçavam que ela continuasse com vida.

Milena não falava e só conseguia mover os olhos. A comunicação com as pessoas ao seu redor era praticamente nula. Se fosse em um ambiente natural Milena teria morrido sem muita dor. Porém, através de máquinas sua vida era prolongada. Prolongada só a parte ruim de sua vida. A dor e a frustração. As partes boas não. Nem mesmo um simples gesto de carinho. Ou até mesmo gestos mais bobos e não afetivos como assistir uma novelinha. Por que não? Ela tinha direito de sentir falta até mesmo disso.

A situação de Milena era difícil e dolorosa. Além da dor o pior era ouvir os comentários de quem a julgava sem a conhecer. Uma das enfermeiras certo dia soltou essa "pérola" ao falar sobre a condição da idosa. - Gente que passa pelo o que ela esta passando estão pagando por um carma ruim. Ela fez por merecer seu destino.

- Ah, puta! - Só pensou Milena, já que não podia responder. - Você diz isso porque não é com você! Fique pensando que tragédia só acontece com os outros, fique!

Hoje.

Milena olha para o canto do seu quarto e vê uma figura exótica, vestida toda de vermelho e usando um chapéu preto. Seus braços cobertos por tatuagens. Em outra época ela ficaria horrorizada, com medo. Mas uma coisa que a experiência trazia era a descoberta de como algumas coisas tidas como importantes na verdade são incrivelmente fúteis.

Milena não consegue expressar sua alegria por ver aquele rosto conhecido, mas lá no fundo estava rindo.

- Vovó? - Disse Marcos enquanto chegava mais perto dela.

- Êta, minha "veía"! - Marcos começa a fazer cafuné na cabeça de sua avó materna. - Quando eu brincava dizendo que você iria viver mais do que eu não sabia que estava tão certo.

- Eu nunca pensei que iria dizer isso antes. Mas senti saudades. - Marcos se abaixa e dá um beijo na testa da idosa.

Gentilmente ele se aproxima do ouvido dela e faz uma proposta. - Você já esta muito tempo aqui. Já quer ir para casa? - Essa era a melhor coisa que Milena tinha ouvido há muito tempo.

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Heitor Sacramento estava um zumbi!

Havia acabado de acordar.

De frente ao espelho o policial vê o seu reflexo e pensa: - Puxa vida, estou um mulambo mesmo. - As rugas de expressão estavam mais aparentes do que na semana passada. O stress dos últimos dias havia cobrado o seu preço.

Enquanto escovava seus dentes Heitor se contentava. - Foda-se, eu salvei o mundo! Quem precisa ser galã com isso para pegar todas as menininhas?

Assim que termina seu pensamento o policial ri. Se perguntando o que sua esposa faria se pudesse ouvir sua mente naquele instante. - Castração química no mínimo. Após cuspir a pasta na pia e lavar sua boca, Heitor dá uns tapinhas na própria barriga, que era um pouco saliente. Ele estava sem camisa, usando uma cueca samba-canção de bolinhas e meias pretas que iam até quase o joelho.

- Cinquenta anos no couro! Não tenho mais idade para ser herói.

Heitor liga a tevê da sala e se joga no sofá. Esperava ouvir sobre seu ato heroico no telejornal.

Que nada!

Desastre natural, vazamento químico, onda de violência... Davam todos os pretextos possíveis. Falavam qualquer coisa menos as palavras: zumbis, criaturas cósmicas e monstro polvo de quarenta andares.

Heitor estava se conformando com o anonimato quando sua esposa dá um grito do quarto. O policial se levanta do sofá assustado e corre para atender Solange.

- O que foi, amor?

- Que coisa feia é essa?!

Em cima da cama do casal Solange aponta para uma arma peculiar que repousava em um travesseiro sem que ninguém tivesse a colocado ali. A arma era nada mais nada menos do que a pistola Johnson.

- Você achou mesmo que ia poder se livrar de mim me largando em um beco de qualquer jeito? Nananinanão! Hahahaha.