:: O Outro Sacrifício

:: Capítulo X: Mentiras e Conseqüências

:: MiWi

:: Data: 27/04/05 – 28/04/05

Eu me pergunto se eu poderia transformar essas lágrimas de tristeza em lágrimas de alegria, algum dia.

– O Alphonse está falando a verdade? Você realmente sabe alguma maneira de se livrar do Envy e não está nos dizendo?

Edward olhou para Roy, e de volta para Alphonse, finalmente conseguindo dizer alguma coisa. – Al... o que você... ?

- Não finja, mano – Alphonse estava terrivelmente frustrado, tão preocupado com seu irmão que somente nessa situação ele se permitiria falar daquele jeito com seu próprio irmão. – Você já fez isso uma vez, muito embora não tenha funcionado por culpa do Wrath.

Ah, era isso, então. – O lacre – disse Edward, como se tivesse finalmente entendido o que Alphonse queria dizer. Balançou a cabeça, deixando uma frustração raivosa, nervosa, crescer dentro de si. – Era isso? Céus, é claro que eu pensei nisso. Um milhão de vezes. Mas como eu poderia fazer isso, Alphonse? Você deve se lembrar que para fazer o lacre eu preciso de alguma coisa da pessoa que eles falharam em ressuscitar quando Envy surgiu, e você sabe muito bem quem é essa pessoa, Al – Edward colocou uma mão na cabeça, apoiando o cotovelo sobre a mesa e sentindo uma dor-de-cabeça começar a se alojar por toda a sua cabeça. – O nosso irmão, que morreu há quatrocentos anos... como você espera que nós sejamos capazes de encontrar algo de alguém que morreu há quatrocentos anos? As únicas pessoas que poderiam ter alguma coisa... uma está morta, suponho eu. A outra está em outra dimensão. Complica um pouco o nosso trabalho, você não acha? – Edward estava realmente cansado. Pensara no assunto algumas vezes, mas encontrara apenas becos sem saída. Sem nada que tivesse pertencido a seu irmão, era inútil pensar no assunto, e ele nunca encontraria algo sobre alguém de quinhentos anos atrás cujo nome ele sequer conhecia.

- Ressuscitar nossa mãe também era impossível! Encontrar a pedra filosofal também era impossível! Céus, salvar-me era impossível, e isso não lhe parou nenhuma vez, Edward – disse Alphonse, colocando ambas as mãos sobre a mesa com raiva, fazendo-a tremer. Ele olhava para Edward com determinação agora, disposto a convencê-lo. – O que mudou, irmão?

Edward realmente pensou sobre isso durante um instante, antes de se dar conta de que não sabia a resposta. Seu olhar adquiriu um brilho estranho quando ele voltou a encarar Alphonse. – Eu devo ter mudado.

- E o que o mudou? – voltou a perguntar Alphonse, disposto a ir até o fim. Sentia-se como em uma de suas discussões com Edward quando era mais jovem e eles discutiam sobre coisas mais tolas, como quem iria se casar com Winry ou quem iria ficar com o beliche de cima, e de novo Alphonse não iria dar o braço a torcer. Por mais gentil que fosse, Alphonse não era o tipo de pessoa a desistir do que queria com facilidade. – Por que você está apenas sentado, vendo as coisas acontecerem ao seu redor?

- E o que você sugere que eu faça, Al? – dessa vez Edward também se levantou, sua fúria tão grande que ele não teve como sentir tontura ou fraqueza. – Por onde você quer que eu comece a procurar? Nós não temos um nome, nós não temos uma pista, nós não sabemos onde ele viveu, nós não sabemos onde ele morreu, nós não sabemos nem onde o papai fez o ritual! – Edward estava gritando agora, e de repente não havia mais ninguém na cozinha, toda a sua atenção estava voltada na direção de Al, Alphonse e suas malditas palavras. – Eu não vou sair por aí como um maluco só para fingir que eu estou fazendo alguma coisa! Se eu tivesse uma pista, um nome, qualquer coisa, você pode ter certeza de que eu não hesitaria em sair correndo por essa porta atrás do quer que fosse, mas eu não vou ficar vagando pelo país como um andarilho somente para enganar a mim mesmo, dizendo que eu estou chegando a algum lugar quando eu não estou!

Alphonse deu um passo para trás ao ouvir isso, ligeiramente aturdido com as palavras de Edward. Então, olhou para o lado. – Ainda assim...

- Não é sobre eu desistir ou não – grunhiu Edward, não querendo mais ouvir quaisquer argumentos que Alphonse pudesse ter. – É sobre... saber o que vale à pena fazer e o que não.

Algo passou pelo rosto de Alphonse, algo como uma raiva contida, uma raiva contra si mesmo, e ele abaixou o rosto. – Você tem razão – e deu um passo na direção de Edward, abraçando-o com toda a força, enlaçando-o e enterrando a cabeça em seus ombros. – Desculpe, foi realmente estúpido de minha parte não acreditar que você faria tudo o que fosse possível para se livrar do Envy.

Era estranho.

Se Edward achara que não conseguiria ser abraçado com tanta força por alguém tão cedo, ele certamente se enganara, porque a sensação de abraçar Alphonse permaneceu intacta. Após se dar conta disso, foi fácil abraçar o irmão de volta, encostando a cabeça em seu peito. – Eu... – deu um meio sorriso, que somente Alphonse poderia sentir, seus lábios encostados na camiseta de Al. – Eu acho que posso te perdoar.

Do outro lado, a expressão de Roy estava indecifrável. Por um lado, ele quis, ele sinceramente quis se alegrar por Edward conseguir ser abraçado por alguém daquele jeito. Por outro, ele queria poder abraçá-lo assim também, e algo parecido com ciúmes chegou a atravessá-lo. Balançou a cabeça. Não, não... a última coisa que ele poderia fazer consigo mesmo era sentir ciúmes do irmão de Edward... porque ele já os conhecia, e já sabia o quanto eram próximos... ele, que havia acabado de chegar, não poderia se comparar com o irmão de Edward quando o assunto era confiança.

Mas era inevitável, e ele sentiu algo horrendo cruzar seu coração ao ver Alphonse abraçar Edward daquele jeito, um sentimento que se aprofundou ao ver a maneira como Edward parecia tão entregue, tão sinceramente confiante e seguro nos braços de seu irmão mais novo.

E Roy prometeu a si mesmo que um dia faria Edward se sentir assim em seus braços.

Sem medo, sem complicações.

Somente confiança e amor.

Roy deu um meio-sorriso, balançando a cabeça. Céus, estavam discutindo como loucos ao seu redor, e ele pensando em confiança em amor. Sentiu-se um pouco patético, e um pouco mais novo do que realmente era, sujeitando-se dessa maneira aos seus sentimentos.

- Pode não ser através desse lacre – interrompeu Roy, colocando ambas as mãos sobre a mesa, o olhar firme e decidido na direção de ambos os garotos. – Mas nós vamos descobrir uma maneira de banir Envy de uma vez por todas, não é mesmo?

Den parecia ter escolhido aquele momento para começar a latir, implorando por comida e entrando na casa, correndo ao redor da mesa e latindo para Riza e Roy, estranhando os dois visitantes. E por um tênue momento, os latidos de Den foram o único som, ecoando na mente de Edward junto com as palavras de Roy.

Foi aí que Edward percebeu que era verdade. Foi aí que ele percebeu que as coisas haviam mudado, e a sua única opção não era mais se sujeitar, e sim lutar. Porque se ele permanecesse passivo Envy apenas continuaria a exigir mais e mais dele, até destruí-lo por completo – até destruir Alphonse, Roy, Winry e todas as coisas e pessoas que Edward amava.

E Edward havia percebido que não poderia deixar isso acontecer. – É claro.

- Isso – disse Alphonse, e se virou na direção de Edward, afastando-o um pouco de si. Encarou-o por um momento, e então abriu um largo sorriso.

- O que foi? – perguntou Edward, piscando algumas vezes.

- Sim, esse é o Edward que eu conheço – dizendo isso, segurou o queixo de Edward entre seu polegar e seu indicador. – Vê? Até mesmo seu queixo já se ergueu um pouco agora que você decidiu lutar. E os seus olhos...

Edward deu um sorriso, balançando a cabeça. – Sim, sim, eu sei. Todos dizem que meus olhos são lindos. É o dourado, não é? É a cor do sol.

Céus, ele era impossível. Alphonse voltou a se aproximar de Edward, segurando o rosto do loiro com ambas as mãos, mechas de seu cabelo confundindo-se entre seus dedos, e beijou seus olhos, um de cada vez. Edward apenas teve tempo de fechá-los depressa, tendo sido pego de surpresa. Sem soltá-lo, Alphonse o encarou. – Sim, mas só quando eles estão brilhando de determinação.

E de repente Edward se sentiu terrivelmente tolo e estúpido por quase ter perdido isso. – É, eu sei.

O resto do almoço ocorreu de forma tão tranqüila quanto poderia ter ocorrido, e por um momento, por causa da discussão entre Alphonse e Edward, quase todos se esqueceram do incidente "do beijo".

Ou melhor, Winry não iria se esquecer.

Ela acabou comendo seu almoço com um sorriso estranhamento malicioso naquele dia, de vez em quando lançando olhares divertidos na direção de Edward. Quis comentar sobre o fato deles irem dormir no mesmo quarto, mas achou melhor não abusar de sua própria sorte.

Foi logo depois do almoço que Alphonse olhou na direção de Edward durante um longo momento, deixando-o desconcertado.

- O que foi, Al? – disse Edward, coçando a cabeça com certo embaraço já que Alphonse estava olhando para ele de maneira insistente.

- O seu cabelo está um lixo, irmãozão – disse ele após um momento, uma mão sobre o queixo, cotovelo apoiado sobre a mesa.

Edward o encarou com certa frustração. – Eu não tive muito tempo para arrumá-lo.

- Hmmm. Certo – disse Alphonse, virando-se em sua cadeira para ficar de frente para Edward e cruzando os braços. – E rolar pelo chão do banheiro aos beijos e abraços com um certo coronel também não ajuda, não é mesmo?

OK, Edward definitivamente precisa ter uma conversinha séria com uma certa Winry. – Al! – resmungou ele, passando uma mão pela nuca e abaixando um pouco a cabeça, sem jeito. Por sorte, Alphonse havia esperado até que todos tivessem saído da mesa, Pinako, Winry e Riza estavam limpando os talheres e pratos do almoço, e Roy tinha ido escovar os dentes – o que, segundo a própria Riza, ele demorava uma eternidade para fazer, e ela achava que ele acabaria desgastando o esmalte de seus dentes antes de chegar aos quarenta anos.

- Eu pensei que você não fosse mentir sobre isso para mim – disse Alphonse, tentando parecer um pouco ofendido. – Eu sei que é a sua vida pessoal, mas...

Edward ficou vermelho. Olhou ao redor, e fechou os olhos. Por algum motivo, por mais que confiasse no irmão, ele realmente não queria conversar sobre isso com Alphonse. – Al, eu não menti para você.

- Você disse que não havia nada entre você e o coronel – disse Alphonse, arqueando as sobrancelhas.

- E não havia, quando você perguntou – disse Edward, ficando ainda mais vermelho. Olhou para seus próprios, e então, após se apoiar na mesa, ele se levantou. – Ao menos, não de minha parte – virou-se de costas para Alphonse, para que este não visse como ele estava cada vez mais vermelho.

- E agora? – continuou a persistir Alphonse, e Edward o ouviu se levantar da cadeira para ir atrás dele. – Há algo de sua parte?

Por um momento, ele sentiu vontade de girar e dizer que isso não lhe dizia respeito, que por mais que ele gostasse do irmão essa era a sua vida pessoal, e que ele deveria cuidar de seus próprios problemas. Mas esse não era o modo de Edward agir, e por isso ele apenas continuou a caminhar na direção de seu quarto. Estava de tão maneira distraído que quase tropeçou no colchão que Riza trouxera antes de ir ajudar Winry e Pinako na cozinha. Era um colchão bonito, ou ao menos tão bonito quanto um colchão simples de solteiro poderia ser.

Agora, porque Edward estava começando a achar colchões bonitos permanecia um mistério. – Talvez – disse ele, ao perceber que Alphonse ainda estava atrás dele. Sentou-se no colchão e percebeu que ele era muito macio, mas não o suficiente para que ele afundasse. Era um ótimo colchão, na realidade. Por um momento, Edward chegou a pensar em trocá-lo pelo seu, que já estava um pouco velho, mas aí pensou melhor e chegou à conclusão de que dormir no chão já seria o suficiente para Roy Mustang, Edward poderia ao menos deixá-lo dormir com um colchão decente. – Eu não sei.

A sensação do beijo, a textura da língua de Roy, seu gosto de pasta de dente, tudo voltou por um momento, como se para lhe dizer "você tem certeza de que não sabe?". E Edward começou a lutar contra si próprio, dizendo que realmente não tinha certeza.

Caminhou até o outro lado da cama, onde estava o criado-mudo, e abriu a primeira gaveta, tirando de dentro dela uma velha escova de cabelos. Em seguida, tirou alguns elásticos para o cabelo, e se sentou no colchão de Roy, as pernas dobradas para fora da cama.

Ao colocar as mãos para trás para começar a pentear seus cabelos, sentiu as mãos de Alphonse em seus pulsos, tirando a escova e os elásticos de suas mãos. – Não, não – disse ele com certo divertimento e, apesar de estar de costas para ele, Edward quase poderia enxergar o sorriso de Alphonse em sua mente. – Eu peguei no seu pé por causa do seu cabelo, eu faço isso.

- Al, eu posso muito bem pentear meu cabelo sozinho – disse Edward, fazendo um muxoxo e cruzando os braços. Chegou a se virar de lado, lançando um olhar na direção de Alphonse.

Mas Alphonse estava decidido, e Edward sabia que pouco adiantaria discutir com o irmão por causa disso. Não sentiu muita vontade de fazê-lo, tampouco. – Eu sei que pode – disse Alphonse passando delicadamente os dedos através dos cabelos de Edward, usando a escova para o ajudar a desfazer alguns nós. – Mas é que eu queria ficar um pouco aqui com você... eu mal consegui falar com você desde que você acordou... e a gente só tem discutido...

Os ombros de Edward ficaram tensos, e então voltaram a relaxar. – Eu sei – balançou a cabeça, fazendo Alphonse ter certa dificuldade em acompanhar seus movimentos.

- Ei, não mexa tanto a cabeça – reclamou Alphonse, puxando um pouco uma mecha sobre a orelha de Edward.

O pedido de Alphonse surtiu efeito contrário, já que serviu apenas para que Edward risse um pouco, balançando os ombros e fazendo com que Al perdesse as mechas que estava segurando. – Mano!

- Desculpa, Al – disse Edward, tentando se controlar. Após um instante, ele voltou a fitar apenas a parede do outro lado do quarto, a parede branca e que não poderia lhe dar nenhum motivo para mexer desnecessariamente a cabeça, certo? – Eu também senti falta disso.

- Foram só algumas horas, mano – disse Alphonse, puxando as mechas de Edward e as separando em três partes iguais para fazer a trança de Edward. Parecendo notar algo de diferente, aproximou uma das mechas de Edward de seu rosto, cheirando-a por um momento. – Hmmm. Eu posso estar enganado, mas esse não parece ser o seu cheiro. Não me parece familiar – e deu um sorriso, puxando um pouco as mechas de Edward para o lado, colocando uma mão sobre a nuca de Edward e indo um pouco para o lado para ver que o rosto de Edward havia ficado um pouco mais quente que o usual. – Eu deveria estar com ciúmes?

- Al! Quando foi que você começou a se portar como o irmão mais velho sem a minha autorização? – disse Edward, meio frustrado, meio nervoso, meio envergonhado. Cruzou as pernas, descruzou-as, e as puxou para perto de si, abraçando os joelhos.

Al riu, sem perder as mechas que estava separando no cabelo de Edward – o cabelo loiro, sem nenhuma outra tonalidade em si senão o dourado do sol. – E eu não tenho a sua autorização?

- Se continuar a me fazer essas perguntas, é claro que não! – ao ouvir suas próprias palavras, Edward percebeu que Alphonse poderia entendê-lo mal novamente, e por isso completou: - Não que eu me importe que você esteja perguntando... é só que... – deu um suspiro, e se encolheu mais um pouco, resistindo à tentação de se balançar para frente e para trás, o que inevitavelmente faria com que Alphonse voltasse a perder suas mechas. – Eu não sei muito bem como respondê-las.

Alphonse estava girando suas mechas, começando a fazer a trança, e Edward sentiu vontade de se mexer quando pontas de seus cabelos passavam raspando através de sua nuca. Mas ele chegou a apenas se contorcer levemente antes que Alphonse o segurasse pelo ombro. – Nem tente.

- Você está fazendo de propósito – disse Edward de maneira acusadora, passando uma mão pela nuca, como se isso fosse protegê-lo, antes de voltar a cruzar os braços de maneira emburrada.

- Eu? Claro que não – e a voz de Alphonse dizia que essa era justamente a sua intenção. Por fim, entrelaçou mais algumas vezes as mechas, passando-as com delicadeza através de seus dedos, e as prendeu com o elástico. – Pronto. Viu? Eu consigo fazer isso tão bem quanto você.

Edward se virou de lado, fitando Alphonse de esguelha. – Na realidade, eu faço isso na metade do tempo.

- Duvido que fique tão bom – disse Alphonse, colocando uma mão no queixo e apoiando um cotovelo sobre a outra mão, olhando para a trança de maneira apreciativa.

Isso apenas fez com que Edward arqueasse ainda mais as sobrancelhas. – É uma trança – disse com certo descaso e voltou a olhar na direção da parede. – Droga. Eu acho que se eu não tivesse pegado no pé de você e de Winry, talvez vocês não tivessem descoberto tão rápido.

- E por que você iria querer esconder isso da gente por mais tempo? – perguntou Alphonse. Ele chegou a botar uma perna para fora do colchão, mas ao olhar na direção da porta ele viu algo que o fez mudar de idéia, e então ele se voltou na direção de Edward, colocando suas pernas ao redor das de Edward e o abraçando por trás, colocando sua cabeça sobre o ombro de Edward. – Você por acaso não sabe o que sente por ele?

Ao sentir os braços de Alphonse se apertarem sobre seu peito, Edward se encolheu. – Isso. Eu acho – balançou a cabeça. – Você não deve entender, já que é tão mais simples com você e com a Winry...

- Não, eu realmente não entendo – grunhiu Alphonse, apertando Edward com ainda mais força, suas pernas apertando as de Edward como se Alphonse de repente quisesse proteger Edward do mundo e quisesse fazê-lo usando seu próprio corpo como escudo. – Ou você o deseja, ou não o deseja. Ou você gosta dele, ou não gosta. Eu não acredito em meios termos quanto a sentimentos desse tipo, Edward. Se você acredita, Edward, você está apenas tentando se enganar, e enganar ao coronel – aproximou seu rosto do de Edward, de forma que um sussurro seu seria o suficiente para ecoar aos ouvidos de Edward. – E você estaria apenas se machucando, e o machucando. Você tem certeza de que quer fazer isso?

Você tem certeza de que quer fazer isso? Por algum motivo, Edward tinha a sensação aterradora de que esta pergunta estava lhe sendo feita em demasia nos últimos dias. – E se... – sua voz saiu fraca, e ele fechou os olhos, pendendo a cabeça para a frente, abraçando-se e se encolhendo ainda mais nos braços de Alphonse, como se somente ali ele pudesse dizer o que ele tanto temia em dizer em voz alta em qualquer outro lugar do mundo. – Eu estiver me apaixonando por ele?

O que ele poderia fazer se esse fosse o caso? Céus, ele não havia se dado conta de como temia isso até dizer isso em voz alto. E ele perguntava isso mais a si mesmo do que a Alphonse, que não fazia idéia das razões que o levavam a temer tanto aquele sentimento...

... como ele poderia?

Ele era abençoado pela ignorância e pela ingenuidade, e Edward iria fazer de tudo para que as coisas continuassem assim.

Tão imerso ele se encontrava em seus próprios pensamentos que não percebeu que Alphonse virou um pouco o rosto na direção da porta, apenas para dar um tímido sorriso para um Roy Mustang que não sabia mais se conseguiria se manter sobre suas pernas se não tivesse se encostado contra a moldura da porta.

E se eu estiver me apaixonando por ele?

Roy sentiu seu corpo tremer.

Céus, ele realmente viera ali com a intenção de brigar com Edward – como ele pudera estar tomando suco de uva, de todos os sucos! Seu precioso casaco militar estava comprometido até ele conseguir arranjar um lugar que limpasse aquele tipo de mancha e ele realmente queria brigar com Edward por causa disso. Essa era realmente sua intenção, mas, qualquer coisa o fizera parar quando entrara e vira Edward e Alphonse conversando, e ele decidira observá-los por um momento sem anunciar sua presença, e agora...

E se eu estiver me apaixonando por ele?

Alphonse voltou a olhar na direção de Roy, e eles trocaram um olhar por um tênue momento, um ligeiro sorriso de Alphonse, e algo no olhar de Roy... algo como gratidão.

Obrigado, Al.

Só então ele voltou a adquirir o controle sobre suas pernas e conseguiu dar meia-volta e sair dali antes que Edward o visse – talvez Edward não quisesse que ele soubesse disso ainda, e ele esperaria por um dia até que Edward lhe dissesse isso diante dele. Se é que esse dia chegaria.

Sem saber ao certo a razão, ele não sentiu mais vontade de limpar seu casaco militar – a central mandaria outro se ele ligasse dizendo que ocorrera um acidente com esse, de qualquer maneira, e de repente ele quis guardar aquele casaco manchado, para se lembrar daquele incidente sempre que precisasse. De repente, também, ele passara a gostar um pouco mais de suco de uva.

Alguns minutos depois, Roy foi até a cozinha falar com Winry. – Ei, Winry... eu acho que o Edward já me falou isso uma vez, mas eu não estou me lembrando... qual era mesmo o nome do pai dele?

Winry o encarou por um momento, um prato ainda sendo limpo em sua mão, franzindo o cenho. Roy não soube se ela estava tentando se lembrar do nome do pai de Edward ou se estaria se perguntando porque ele queria saber isso.

Então, ela disse o nome dele.

Roy a encarou de volta. – Céus. Não me surpreenda que eu tenha me esquecido. Obrigado, Winry.

Winry sorriu. – De nada.

Então Roy voltou para a cozinha, pegando o telefone com pressa e discando o telefone da central, disposto a passar algumas horas naquele telefone.

Fez outra nota mental, desta vez para se lembrar de mandar dinheiro para pagar essa conta de telefone, que provavelmente seria gigantesca por sua culpa.

Mas Roy decidiu pensar nisso depois quando a atendente da central o atendeu do outro lado do telefone. – Alô? Você poderia transferir a ligação para a Sheska? Obrigado.

Algo lhe dizia que ele realmente iria demorar algumas horas naquele telefone.

Mas, se ele encontrasse o que estava procurando, valeria cada segundo de conta telefônica.

Estava entardecendo, o céu começando a se tingir de tons rosados. Edward havia resolvido ir caminhar do lado de fora de casa, tendo se cansado de ficar em casa. Além do mais, com todos andando pela casa, era mais fácil ele ficar um pouco sozinho se ele estivesse ali fora.

Apesar do sol estar quase se pondo, ainda era possível sentir seu calor sobre seu rosto se Edward fechasse os olhos. Havia uma brisa fresca, fraca, naquela hora do dia, e a luz também parecia mais preguiçosa, lânguida.

Aquela era uma hora do dia misteriosa para Edward.

Se ele estivesse se sentindo bem, aqueles últimos raios de sol serviriam para aquecê-lo, e ele poderia fechar os olhos e sentir a brisa ao seu redor, uma sensação agradável e quente combinando com seu estado de humor, como se o vento e o sol se assemelhassem ao seu estado de espírito.

Em outros dias, o sol se pondo parecia aterrador, e as cores rosadas no céu pareciam ligeiramente cínicas, melancólicas... e mesmo que Edward fechasse os olhos para manter aquelas cores longe de seu coração, ele sentiria a brisa fria envolvê-lo, uma brisa que lhe parecia suave demais, sem força e sem alegria, assim como ele próprio.

Ele estava se sentindo assim hoje e, especialmente nesse dia, o sol sobre sua pele parecia gelar até seus ossos. Sentiu um arrepio percorrê-lo e ele se encolheu, fechando mais seu casaco vermelho sobre si.

O mesmo casaco com o qual se tornara um Alquimista Nacional.

O mesmo casaco que o acompanhara em tantas lutas contra Envy.

O mesmo casaco que vira suas brigas com Roy Mustang.

Se aquele casaco pudesse falar e o visse naquela situação, o chamaria de louco. Edward provavelmente lhe daria razão. E então pediria para ser jogado em um hospício por ficar falando com casacos.

Mas ele iria voltar a lutar, não iria mais se sujeitar, não é mesmo?

Ele lutaria pelo direito de voltar a ter sua vida normal.

Ele lutaria para proteger Alphonse.

Ele lutaria pelo direito de amar Roy Mustang.

O pensamento o atravessara de forma tão rápida e crua que Edward chegou a dar alguns passos para trás, aturdido por seus próprios pensamentos.

Seria isso mesmo?

Se alguém lhe dissesse, algum tempo atrás, que ele estaria pensando desta maneira no maldito coronel, em pleno fim de tarde, ele arquearia as sobrancelhas e começaria a rir como um louco, até o infeliz que tinha sugerido tal loucura se arrepender de tê-lo feito.

Ouviu algo atrás de si, e se virou para ver Den correndo em sua direção. Edward franziu o cenho. Será que ele nunca conseguiria ficar um pouco sozinho? Ele não estava pedindo por uma vida de solidão, não, eram apenas quinze minutos, quinze minutos para refrescar sua mente e pensar direito no que estava acontecendo.

Aparentemente, era demais.

- Sai, Den –disse Edward com impaciência. O cachorro não pareceu lhe dar ouvidos, e apenas se sentou a alguns metros de Edward, observando-o com certo interesse. Edward bufou. Ótimo. Agora ele era algo interessante até mesmo para animais de estimação.

- Isso me lembra... – disse alguém não muito longe dele, e Edward se virou depressa para ver que Riza vinha calmamente caminhando em sua direção, olhando para Den com certo interesse. – Eu deveria ter trazido o Black Hayate. Eu acho que ele teria se dado bem o Den.

Edward sorriu. – A Winry já está até te contando o nome do nosso cachorro?

Riza deu de ombros, algo que raramente fazia em sua postura de tenente. – O assunto apareceu enquanto nós secávamos a louça.

- Imagino – disse Edward, arqueando as sobrancelhas. – E eu posso saber sobre o que vocês estavam conversando para chegarem nesse assunto?

- Edward Elric – Riza cruzou os braços sobre o peito, olhando para Edward com seriedade. – Por que você pergunta isso?

- Não sei – disse Edward, dando de ombros como se realmente não soubesse. Em seguida, deu a Riza um olhar bastante sugestivo. – Mas a Winry nunca foi o tipo de pessoa que fica falando sobre cachorros enquanto lava louça, nem você, tenente Hawkeye.

Riza olhou na direção do cachorro, que havia ido se deitar aos pés de Edward, e deu um suspiro. – Você é bastante perspicaz às vezes, Edward – e antes que ele pudesse se ofender com "às vezes", ela continuou: - A Winry acabou falando o que poderia acontecer se Roy decidisse vir morar aqui, e eu disse que teria de vir atrás, já que jurei protegê-lo, e eu acabei me lembrando que aí eu teria que trazer o Black Hayate para cá.

- Porque o Roy iria querer... – Edward começou a falar antes de realmente pensar na pergunta, mas assim que o nome do coronel saiu de sua boca ele se deu conta da razão, e olhou para Riza com preocupação, sentindo seu rosto ficar vermelho. – Riza! Eu não sabia que você era assim, ficar falando desse jeito só porque...

- Desculpe-me, Edward – e, muito embora Edward não quisesse acreditar a princípio, Riza parecia realmente querer dizer isso. – Mas eu jurei proteger o Roy alguns anos atrás, e isso inclui seus sentimentos. E não ajudava em nada meu trabalho vê-lo naquele estado por causa de você... saber que ele tem uma chance agora... bem, facilita bastante o meu trabalho.

Trabalho?

Céus, somente alguém como Riza poderia falar em trabalho numa situação como aquela.

E se até mesmo Riza Hawkeye, a tenente sangue-frio, já estava falando sobre Roy Mustang e ele...

Oh, era isso.

Era um pesadelo.

Só poderia ser um pesadelo.

Logo ele iria acordar em sua cama quentinha, e veria que não haveria colchão algum ao lado de sua cama, e Alphonse estaria tranqüilamente dormindo no quarto ao lado, tendo lindos sonhos com Winry e casas cheias de gatinhos que ele recolheria pela cidade, e Edward estaria bem longe, distante do coronel Roy Mustang, do maldito coronel...

E ele soube que estava perdido quando pensar nisso, mesmo que por um ínfimo instante, fez com que ele desejasse nunca mais ter de acordar desse pesadelo.

Porque, de repente, era essa a realidade que Edward queria encarar. Uma realidade onde Riza Hawkeye às vezes não era tão séria quanto parecia, onde Alphonse poderia beijar Winry atrás de uma árvore, e onde Roy Mustang poderia ter uma chance de conquistar o coração de Edward Elric.

Por mínima que fosse.

- Sei – disse Edward, apenas por achar que deveria dizer alguma coisa, qualquer coisa. – Vocês têm certeza de que não há nada de errado com vocês? De repente, todo mundo querendo que eu me dê muito bem com o coronel... céus, tudo bem que vocês se preocupem conosco, mas nós somos dois homens, eu não sou nem maior de idade, e vocês deveriam ficar pelo menos um pouco chocados com isso ao invés de ficarem balançando bandeirinhas de torcida.

- É claro que nós torcemos por vocês – disse Riza, arqueando uma de suas sobrancelhas. – Nós não somos tão tolos a ponto de nos preocuparmos com o fato de você ser uma criança nesse ponto, Edward. Você já passou por muitas coisas que muitos adultos nem sonham existir e sobreviveu, e eu me recuso a lhe tratar como uma criança só por causa de sua idade. Sobre o fato de vocês dois serem homens... céus, eu soube que o Roy gostava de você durante meses. Eu tive tempo suficiente para me acostumar. E você... – Riza deu um meio sorriso. – Eu comentei com a Winry, e ela deixou escapar que já desconfiava. Não que você gostasse do Roy, mas que gostasse de... garotos.

Edward estava boquiaberto, mudo de espanto por alguns instantes antes de conseguir se recompor ( o que incluiu fechar sua boca, voltar sua postura ao normal, e deixar suas pupilas menos dilatadas). – Winry! Aquela traidora! – ele passou a mão pela cabeça, fechando os olhos com força. – Céus, eu aposto que é só por causa daquela vez que eu não disse que ela estava linda de biquíni... eu me lembro que ela ficou quase um mês sem falar comigo... – ficou resmungando por mais alguns instantes antes de se recobrar, balançando a cabeça para afastar aqueles pensamentos. – Ainda assim.

- E também... vocês são parecidos, Edward. Você nunca vai encontrar outra pessoa que o compreenda melhor do que o coronel, assim como ele nunca mais vai encontrar alguém que o compreenda como você o compreende – disse Riza, colocando uma mão sobre o Edward, e por um momento ele teve uma sensação estranha, como se ela fosse sua irmã mais velha ou coisa do gênero. E por um momento, ele quis que isso fosse verdade.

- Nós nos compreendemos? – disse Edward, lembrando-se dos desentendimentos entre ambos, dos beijos às avessas trocados pelos dois, um beijo dado por Roy que Edward não pareceu entender, um beijo de Edward que Roy não pareceu entender. – Nós realmente nos entendemos?

- Melhor do que você imagina – disse Riza, e abraçou Edward, intensificando a sensação de que ela poderia ser a irmã mais velha do garoto.

Era tão estranho ser abraçado daquele jeito pela tenente, mas, novamente, o que não era estranho naqueles dias? Edward desistiu de se questionar, e apenas abraçou Riza de volta. – Mas vocês poderiam parar de fazer torcida desse jeito. É desconcertante – disse Edward, com um sorriso.

Edward não viu, mas Riza deu um sorriso, um de seus raros sorrisos abertos. – Eu acho que você tem razão.

- Tenente, largue o meu garoto – disse outro alguém atrás de ambos, e Edward reconheceu a voz entre o detestável e o adorável antes mesmo de se virar na direção da pessoa. – Porque eu tenho uma notícia muito importante para lhe dar, Edward.

- Eu realmente não sei se gosto dessa sua pose toda – disse Edward, arqueando as sobrancelhas e se separando de Riza para cruzar os braços e olhar para Roy de maneira acusadora. – E por acaso você está sugerindo que eu sou tão pequeno que posso ser considerado um pertence pessoal para militares?

- Não comece, Edward – e pelo sorriso de Roy, a notícia era realmente boa, tanto que ele não sentiu vontade de continuar com as provocações que o próprio Edward havia começado. – Eu realmente acho que você vai querer ouvir essa notícia.

Isso estava começando a deixar Edward sem paciência. Não que ele tivesse muita para começo de conversa, claro. – Diga.

- Você disse que precisava de um nome, um local... – disse Roy, não resistindo e dando um de seus típicos sorrisos sarcásticos. – Augustus da Rosa, cidade Fente, no Leste – Roy colocou as mãos nos bolsos, erguendo um pouco o queixo e olhando para Edward com o ar convencido. – Você tem sorte de ter um pai com um nome tão incomum, Edward. Teria sido muito mais difícil se o nome dele fosse algo como Thomas ou Joseph.

Edward o encarou, perplexo. – Você não está me dizendo que...

- Os arquivos de busca da central são perfeitos, Edward – disse Roy, balançando a cabeça. – Quatrocentos anos atrás, um homem com o nome do seu pai registrou a morte por envenenamento de mercúrio de um garoto, seu filho. Eu acho que nós temos uma pista, não temos? – disse Roy, e seu sorriso era simplesmente contagiante.

Pela primeira vez em meses, Edward se viu abrindo um sorriso, um verdadeiro sorriso. Um sorriso cheio de esperança. – É, eu acho que nós temos sim.

E de repente o sol do fim da tarde voltou a ser quente sobre sua pele, aquecendo-o até não poder mais.

Edward fechou os olhos.

Sim, era um excelente fim de tarde, e a brisa suave sobre sua alma concordava com ele.

A última a morrer seria a esperança, ou seria ela a última a persistir, e após ela ter caído todo o resto se contaminaria e cairia logo em seguida, fraco e sem vida, tendo perdido a única coisa que o sustentava?