Saint Seiya é de autoria de Masami Kurumada, todos os direitos reservados.
Agradeço a Alana por ter betado o capítulo e me incentivado tanto a escrever essa fanfic.
É odiável amar você
por Pisces Luna
Capítulo XI
June nunca fora tão linda. Palavra de dezenas de homens da aldeia e de sua melhor amiga no santuário, Marin. Não que ela tivesse mudado o penteado, as roupas, o jeito ou qualquer coisa do tipo. Sua beleza era da alma, mesmo que não estivesse aos pulos pelo santuário, era outra.
- Ela está mudada... – disse Marin vendo-a lutar com ardor na arena com um dos aspirantes a cavaleiro.
- Você sabe o que aconteceu? – perguntou Aldebaran curioso.
- Ela não me disse nada, mas eu tenho uma idéia do porque dela estar assim...
Ele deu um sorriso leve e cruzou os braços diante do peito, como se estivesse rindo de uma piada particular muito boa.
- Athena me perdoe, mas agradeçamos as bacantes. – disse rindo.
- Aldebaran... Sem injúrias.
- Não está feliz por ela?
- Claro que sim, mas estou muito preocupada com um acontecimento que se dará daqui a algum tempo...
- Qual?
- Não consegue adivinhar?
Quando a noite já ia embora e o dia já pedia passagem, June brincava com os cabelos de Milo em seus dedos, enquanto este repousava com a cabeça em seu colo; ele lia para ela enquanto esta escutava com atenção.
- Está prestando atenção?
- Estou!
- É bom mesmo, não gosto de não ser ouvido.
- Lamento, alteza. – replicou em tom de piada.
Um tempo depois o olhar dela voltou a se perder na chama da vela que iluminava o lugar e se prendeu em seus próprios pensamentos e só voltou a si quando sentiu seus dedos serem envolvidos por lábios quentes e ávidos, Milo a encarava insinuante, prosseguindo seu gesto, fazendo-a rir com a insinuação clara de suas intenções:
- De novo? Você não se cansa nunca?
- Nunca! – confirmou – Fala como se não gostasse de estar em meus braços.
- Adoraria poder me dar a esse luxo por mais essa noite, mas devo ir para minha casa, amanhã tenho um dia cheio.
Ela abaixou-se e deu um beijo invertido em Milo que ainda repousava na mesma posição e que foi arrancado a contragosto do colo quente de sua amazona.
- Sabe que pode ficar aqui...
- Eu sei...
-... Pra sempre – completou decisivo – Basta aceitar meu pedido, por que recusar a mim? A esta casa? Ao bem estar... Não precisa fazer o que as outras amazonas fazem...
- Me pedir para parar é pedir a minha morte.
- Quero seu bem, mas sei que estaria bem melhor ao meu lado – ele se levantou e passou a segui-la – Por que você é sempre tão difícil?
- O dia que eu começar a aceitar com facilidade, você vai se cansar... E isso eu temo.
- Não precisa. Eu não vou cansar de você, porque é a primeira que eu não quero apenas o corpo.
- Para um homem que tem influências de Shakeaspeare isso não foi muito romântico.
- Isso foi sincero – beijou-a com gentileza tocando sua nuca – Dorme comigo.
- Milo...
Engoliu seus temores e deixou mais uma vez ser tombada pelo corpo do cavaleiro que só queria certa cota de atenção.
Apesar da onda de felicidade que tinha invadido o coração de June, a vida real não era tão benevolente. Cada dia mais notava que as mães das crianças da vila evitavam que suas filhas entrassem em contato com ela, enquanto os aldeões mais velhos fitavam-na com severidade e os mais novos diziam palavras de escárnio quando esta se atrelava por entre a região. Quanto às outras amazonas, essas evitavam falar com ela, como se tivesse uma doença contagiosa, e olhos atentos de cavaleiros de posição social menor também a observavam, como esperando que esta desse um passo em falso.
À noite, quando June chegou à casa da amazona de águia para conversar, deparou-se com mais uma pessoa que há tempos não via e ficou feliz de encontrar:
- Shina – ela saudou aproximando-se – Que prazer em revê-la. O que a traz aqui?
A postura de Marin era dura e rígida, parecendo contrariada e não ousando intrometer.
- Eu ia falar com você, em especial, quer se sentar? – disse Shina.
- O que foi? É algo sério? – indagou a visitante;
A amazona de cobra não respondeu.
- Estou bem de pé – falou June normalmente, mas já preparada para uma repreenda.
- Os cavaleiros estão desconfiados de suas idas e vindas as doze casas, sabe perfeitamente que para uma amazona ir frequentemente a casa de homens torna-se algo vergonhoso... É lamentável ver que tem perdido seus padrões.
- O quê? Quem é você para me julgar? – replicou com selvageria, o mesmo tom que tinha sido recebida.
- É um conselho, pare de ir lá! Falo para seu bem, eu sei o que comentam e se forem investigar e descobrirem algo, esteja preparada para o pior.
- Porque está falando isso para mim? Marin também...
- Marin não pernoita fora de casa.
- Não há nada! – replicou sem convicção.
- Não minta!
- NÃO HÁ NADA QUE EU DEVESSE ME ENVERGONHAR! A VIDA É MINHA E NINGUÉM TEM O DIREITO DE SE INTROMETER!
- June, aqui prevalecem tradições milenares. Vivemos sobre as idéias dos antigos atenienses e não dos espartanos. Somos mulheres e aqui isso não significa grande coisa... Lamento por isso, mas é a verdade.
- Então, deveríamos mudar isso, a começar pela nossa forma de ver o mundo!
As duas se aquietam enquanto Marin, neutra, apenas observa; June abre a porta da casa e deixa o recinto voltando para seu lar.
- O que te preocupa?
June não respondeu, apenas continuou a ler seu livro enquanto via com um canto de olho a silhueta de Milo circunda-la.
- Foi algo que eu fiz?
Nada.
- Ou algo que eu não fiz?
Ela encarou-o com um olhar incomodado, depois se virou de costas tentando evitar o contato visual mais do que já tinha proporcionado.
- Não quer falar por mim tudo bem. Eu é que deveria estar irritado...
- Já vai recomeçar com aquela história de noivado?
- Você está me levando em "banho maria", sinceramente, não é algo que me deixa alegre. Fale o que a incomoda.
Ela bufou dando um suspiro penoso.
- Já estou cansado de perguntar, se não quiser falar não fale! Não vou mimar você;
- Demonstrar carinho não é mimo...
- No seu caso é sim.
- Certo, vou falar o que me irrita: você me trouxe problemas.
- E, convenhamos, muitas soluções não é? – tocou seu rosto com a mão espalmada dando um sorriso cínico.
- Sou uma amazona.
- E eu um cavaleiro. Tem união mais perfeita que esta? Você não vai implicar comigo quando eu tiver que lutar em batalhas mortais e eu não vou ter que me preocupar com algum engraçadinho tentando te tirar de mim só porque te achou bonita. Se bem que seu corpo já é motivo para tanto...
- É disso que falo. Você também acha que eu sou apenas uma amazona e mereço usar a máscara, pois sou inferior a você. – replicou irritada tentando se distanciar.
- Está procurando motivos para se zangar comigo ou tentaram te por contra mim?
- Nem uma coisa nem outra, só estou desabafando e falando meu parecer.
- Não seja injusta – a puxou pelo cotovelo – São os boatos que incomodam você tanto assim?
- Não.
- Então é Shun – solta-a e a encara desafiador.
- O que ele tem a ver com isso? – pergunta estupefata.
- Às vezes acho que está só passando seu tempo comigo e está esperando ele acordar para que depois vocês voltem juntos e felizes para sua amada ilha de Andrômeda. – dizia com ironia.
- NÃO! – ela retrucou firme – O que sinto por Shun é uma maravilhosa amizade, descobri com você que ele é quase meu irmão. Eu troquei um cavaleiro que pertence ao mundo por outro que está acorrentado a uma casa e não importa a escala hierárquica que você ocupe, pois sempre estará preso a isso aqui.
- Pelo menos não estarei enclausurado em uma ilha no meio do nada – ele disse rancoroso, seus olhos se estreitando e a voz rouca pela raiva – Ou pensa que seu destino é muito diferente do meu, amazona?
- Bem diferente do seu, asseguro.
- Por que não volta para junto de seu cavaleiro de bronze e me deixa em paz?
- Boa idéia! – ela respondeu provocativa, também irritada, deu meia volta e se colocou a caminhar para fora da casa de escorpião – Se eu sair por aquela porta eu não volto mais aqui!
- E quem se importa? – ele replicou com petulância, dando de ombros e deliciando-se com seu cacho de uva que antes nutria os dois.
- Se é assim que quer...
Transcorrido dois dias desde a confusão com Milo, June tentava cuidar de suas atividades normalmente. Ela caminhava com Shina pelo santuário, supervisionado as fronteiras e, mais tarde, iriam ao Coliseu – como já era hábito – para treinarem mais um pouco.
- Então, resolveu se juntar aos humildes servos, amazona de camaleão? – provocou um dos soldados que a viu chegar.
Ela não respondeu, engoliu a resposta mal criada que pretendia dar e voltou ao seu caminho. As duas mulheres esperaram o fim da luta entre dois cavaleiros e começaram o combate para treinar, finalidade que as levou até lá.
Depois de uma seqüência de murros, chutes e tudo o mais, Shina estava literalmente massacrando June que estava no chão, tentando se recuperar do último golpe proferido pela outra.
- O que foi? Por que não se levanta? Já se habituou a comer areia? – a cobra tentou dar um soco no estômago, mas a outra se ergueu e esquivou-se cambaleante, evitando olhar para frente, o sol atrapalhando seus movimentos.
- Eu só estava desprevenida – defendeu-se – Vamos! Continue! – os punhos se levantaram enquanto ela corria rapidamente em sua direção.
- VENHA COBRA!
Hoje, os golpes de Shina pareciam estar mais fortes que os de costume, e sua velocidade quase insuperável. Embaixo de uma chuva de aplausos e clamor, a amazona de cobra mostrava-se mais determinada e disposta para a luta.
Quando Shina a atacou pela terceira vez e June caiu no chão de bruços, esta se prontificou em ajudá-la a se levantar, segurando-a pelos braços.
- Chega por hoje, você não está nada bem.
Embaixo de vaias e provocações a amazona de camaleão deixou a arena:
- O QUE FOI? ACHAM QUE SOU UMA GUERREIRA FRACA? QUERO VER QUEM É HOMEM PARA ME ENFRENTAR! – disse Shina se colocando em postura ereta, enquanto punha a amiga de pé e praticamente a levava para fora da arena.
Quando já estavam distantes a italiana disse:
- Você lutou mal, francamente, está na hora de voltar a se colocar de pé.
- Já não me importa mais, deixe que façam e falem o que quiserem.
- Soube da luta entre você e Shina hoje, eu fiquei preocupado – disse Milo tentando justificar o motivo de sua ida até a casa da amazona aquele horário da noite – Pensei em aparecer agora, para não lhe trazer mais problemas do que você já tem enfrentado.
- Não precisa se preocupar – ela disse polidamente.
- Eu trouxe frutas para você, achei que poderia apreciar.
- Obrigada – disse tomando em suas mãos o saco de condimentos – Sente-se, eu vou descascá-las para que possamos comer.
Ele obedeceu, puxando uma cadeira e vendo-a pegar um prato e uma faca, cortando uma pêra em movimentos mecânicos, arrancando a casca com destreza. Ela não o olhava diretamente nos olhos, no fundo, ela sabia por que ele estava ali, mas não se atreveu a falar nada. Mas, era inegável que o simples fato de ele estar no mesmo ambiente já era motivo para seu sossego.
- Ai! – ela disse soltando a faca no chão e colocando rapidamente o prato com as frutas sobre a mesa.
- O que foi? – ele perguntou preocupado.
- Nada! Apenas me cortei! – ela foi até um criado mudo que tinha sobre ele uma bacia de porcelana e um jarro, despejou a água cristalina no recipiente e depois enxaguou o local, sentindo-se aliviada.
- Deixe-me ver – pediu Milo.
- Não tem nada demais, foi só um corte.
- Não é um corte tão superficial pelo que vejo.
- Nada que eu não esteja acostumada.
Ele se aproximou por trás dela, e esta se virou quando sentiu suas mãos serem colocadas entre as dele e este elevar uma pequena quantidade de cosmo, suficiente para fazer a ferida cicatrizar como em um passe de mágica.
June encantou-se quando colocou seu dedo contra a luz para ver se realmente estava tudo bem no local. Depois disse brincalhona:
- Exibido.
Ele riu, mas depois a voltou com uma expressão neutra quando o silêncio caiu sobre eles e os dois estavam tão próximos. Ambos chateados demais para pedirem desculpas diretamente, até que ele fez um favor pelos dois:
- Eu tomei uma decisão. Não vou te perder para ninguém. Nem para Shun e nem para o mundo. Esteja pronta para me aturar por muito tempo ainda – ele a segurou seu queixo enquanto esta apenas respondeu:
- Certo!
Ainda não era tempo para beijos, mas já era o suficiente para que a situação dos dois não caísse em crise depois de ter começado há tão pouco tempo. Milo deu meia volta e saiu da simples casa de alvenaria deixando-a apenas na companhia da lua.
Continua...
