AFTER THE SECTUMSEMPRA
Foi um daqueles erros que poderia cometer uma vez em sua vida, mas não deveria cometer em um momento como aquele. Devia ter pensando nas probabilidades, em todas as coisas ruins que ocorreria se ele realmente decidisse seguir Malfoy, e que iniciar uma briga com o Slytherin num banheiro era sim uma péssima ideia. Mas Harry Potter, o menino-que-sobreviveu não era uma pessoa que parava para pensar nas conseqüências (para isso tinha Hermione Granger).
E por conta disso, por conta de sua personalidade impulsiva e complexo de herói, feriu gravemente um aluno, um Slytherin, uma pessoa.
Deitado no chão, engasgando em sua própria respirando, tentando inutilmente movimentar-se, não estava Malfoy e seu olhar aguado, ou sua tatuagem de Death Eater, ou orgulho e medo por servir ao Lord.
Estava Pansy Parkinson.
X
Quando Snape se aproximou e a salvou, sem olhá-lo realmente nos olhos, Harry entendeu. Sim, ele estava enfrentando Malfoy, mas aquele Malfoy não era o verdadeiro. Era uma obra da poção polissuco, devidamente feita e tomada por Pansy, para ajudar seu amigo-namorado-alguma-coisa no que quer que ele estivesse planejando.
Pôde montar a imagem perfeita em sua cabeça: Pansy pedindo a Malfoy para ajudar, e ele lhe entregando seus cabelos e a poção, e ela tomando sem hesitar. Percebendo agora, ela havia faltado muitos dias, enquanto Draco aparecera em todos. Deviam ter um estoque da poção muito grande e, enquanto Harry estava sentado do lado de fora da enfermaria, o maldito Slytherin devia estar bolando alguma maneira de matar Dumbledore para Voldemort não ficar tão enfurecido com sua família.
Sentiu raiva de Malfoy e raiva de si mesmo. Não deveria ter perseguido a menina – que devia ter notado que a poção estava perdendo o efeito e foi tomar mais no banheiro, onde Murta com certeza sabia o que estava acontecendo – e muito menos enfrentado-a sem ter um plano verdadeiro.
Passos chamaram a sua atenção e, quando virou-se, seus olhos se encontraram com os frios de Snape. Antes que pudesse se explicar, já estava na detenção.
X
Ron disse que era uma coisa ridícula e impossível a ideia de limpar a biblioteca, mas Harry discordava. Era o mínimo que ele merecia, ainda mais depois de descobrir que Pansy Parkinson ficaria um bom tempo na cama da enfermaria para que a cicatriz em seu rosto desaparecesse completamente. Para não chamar muita atenção ao que ocorreu, ouviu Snape murmurar para Madame Pomfrey, que concordou sem hesitar.
Claro, porque o mundo precisava ter certeza de que Harry Potter, o Salvador, não era um filho da puta que gostava de atacar pessoas com artes das trevas.
X
Passou a visitar Pansy todos os dias depois das aulas, perdendo um pouco do horário do jantar, apenas para ver como ela estava indo. Em todas elas, não conseguiu entrar.
Os amigos dela – Zabini, Nott, as irmãs Greengrass, principalmente – não permitiam que ele a visse, nem lhe diziam nada. Simplesmente diziam que ele não iria entrar e ponto final, mas isso não o impedia de tentar.
Nada o impediria de tentar.
X
Numa dessas vezes, quem o impediu foi Malfoy. Com um sorriso torto, ele disse a Harry que ele não ia entrar, porque era um filho da puta maldito que feria pessoas inocentes no banheiro. Ou algo parecido com isso, mas dito de maneira mais polida, claro.
Isso rendeu a Draco um nariz quebrado. Por sorte, ele estava frente à enfermaria.
Também rendeu a Harry mais alguns meses de detenção, e uma visita a Dumbledore. Uma que ele não estava muito feliz em ter.
X
Nos últimos meses, havia memorizado a sala do Diretor, de tantas vezes que esteve ali. Entretanto, nunca poderia memorizar aquele olhar severo que recebeu.
- Harry, eu entendo por que fez isso, mas... – e uma pausa, para que o mais velho pudesse se aproximar do estudante – Isso está lhe rendendo uma fama não muito agradável, principalmente entre os professores. Se continuar assim, Harry, você poderá ser expulso, e nem mesmo seu nome poderá impedir isso de ocorrer. Os Parkinson são muito poderosos, sabia? São do alto escalão do Ministério e com certeza vão te atacar publicamente quando descobrirem o que ocorreu com a sua filha. A única filha deles.
Harry não respondeu, apenas recebeu o olhar e o sermão de Dumbledore. Sabia que o que fizera era errado, mas, no caso de Malfoy, não sofreu tanto assim.
Não sofreu nem um pouco, aliás. Por isso permitiu-se sorrir quando Dumbledore perguntou-lhe se estava arrependido.
X
Fora Daphne quem o deixara entrar. Alguma coisa sobre ser um pagamento pelo nariz quebrado de Malfoy. Essa sim, Harry percebeu, era uma boa amiga de Pansy.
Pansy Parkinson estava dormindo quando ele adentrou em seu leito. Havia uma expressão calma em seu rosto, e o peito subia e descia com delicadeza. Segundo a outra Slytherin, ela estava consciente, mas muito cansada, principalmente por ter de tomar tantas poções horríveis para a cicatriz desaparecer.
Cicatriz, essa, que ainda era muito bem visível. Quase como uma linha fina, ela cortava o rosto de Pansy e se perdia embaixo de suas roupas e cobertores. Era uma coisa terrível, nojenta, assustadora, ainda mais sob a luz das velas. Harry agradeceu por não ter jantado ainda, ou teria vomitado ali mesmo.
E não teria feito isso por causa da cicatriz. Não, ele mesmo tinha uma e não as achava uma coisa terrível. O problema – o que o fez ter náuseas – era a ideia de que fora ele quem criara aquela marca na menina. Com uma magia das trevas.
Pensou em Voldemort e em sua própria cicatriz, e isso deixou-o impossibilitado de jantar.
Lutara tanto, mas, no fim, era a mesma coisa que Voldemort.
X
Conseguiu vê-la uma vez mais, dessa vez com a ajuda de Blaise, que simplesmente tinha as mesmas ideias de Daphne. Ele também era um bom amigo.
Pansy estava novamente dormindo, e a cicatriz já não podia ser tão vista. Estava desaparecendo aos poucos, muito embora Harry tivesse certeza de que ele sempre veria aquele corte, sempre que olhasse para a menina.
Então, preferiu observar as feições dela, ao invés da marca em seu rosto, e acabou percebendo o quanto ela era bonita.
Claro, não era como Ginny ou Hermione, mas era sim muito bonita. Seu nariz era pequeno e empinado, e o cabelo daquela forma, curto e bagunçado, combinava muito com seu rosto. E Suas bochechas nem eram mais tão grandes, ainda que Ron continuasse a chamá-la de buldogue, só para fazer Hermione rir.
Lembrou então que não sabia qual era a cor de seus olhos. Ou melhor, não se lembrava. O choque da luta, do fato de que ela estava ferida, e as preocupações com a guerra iminente praticamente eliminaram de sua mente qualquer memória das feições de Parkinson. O que era uma pena, porque, ao que parecia, decorara todo o resto de seu rosto, com exceção da cor de sua íris.
A garota mexeu-se na cama e, assustado, Harry saiu dali.
Não saberia o que dizer a ela, caso ela acordasse.
X
Não a visitou mais e, depois de duas semanas, Pansy Parkinson enfim foi liberada para sair da enfermaria.
Sem cicatriz nenhuma.
Pensou então que era uma ótima hora de realmente pedir desculpas, mas todas as vezes que se cruzavam nos corredores, ela lhe lançava um olhar assustado e voltava para o caminho que tinha acabado de passar. Não era uma coisa muito animadora, ainda que não pudesse culpá-la.
Preferiu, então, enviar uma carta por coruja. Não a sua, claro. Escreveu um pedido de desculpas de três páginas com a ortografia revisada por Hermione e aprovada por Neville, Ginny e Ron.
Depois disso, disse a si mesmo que não importava se ela o perdoasse ou não. Estava fazendo detenção, estava tentando se redimir, mandara a carta com suas sinceras desculpas – sinceras mesmo – e fizera questão de evitar os mesmos corredores que ela.
Não, não importava nem um pouco se ela o perdoasse ou não, porque ele estava tentando, e estava com a consciência limpa.
X
Mas importava sim.
X
Quase se esquecera que ela não havia o perdoado. Quase, porque lembrara-se disso quando ela tentou persuadir os alunos de Hogwarts a entregá-lo a Voldemort. Havia aspereza em sua voz, mas medo em seus olhos.
E foi então que Harry percebeu que a cor dos olhos de Pansy eram marrons. Esverdeados.
O medo nos olhos dela era apenas mais uma razão para fazê-lo lutar contra Voldemort, ainda que ela não estivesse ao seu lado.
X
Anos depois, encontraram-se. Ela trabalhava no Departamento de Mistérios com Theodore Nott, e Harry já era um dos principais aurores do Ministério. Não foi uma surpresa encontrarem-se. Ainda assim, foi o que viu nos olhos dela.
A primeira coisa que pensou foi que ainda se lembrava perfeitamente de como ela era, tantos anos atrás.
A segunda coisa que pensou foi no fato de que ela não mudara nada.
E quando verbalizou esse segundo pensamento, ela riu.
X
Na verdade, ela nunca o perdoara pelo que ele fizera. E por mais que seu antigo eu odiasse esse fato, o Harry-daquela-época simplesmente a compreendia.
Não era como se ele a tivesse perdoado por tentá-lo entregar ao Lord, também.
X
Encontraram-se mais duas vezes, depois disso. Tudo pelo trabalho, claro, e ao lado de Ron e Nott. Mas isso não os impediram de conversar sobre amenidades, enquanto Pansy examinava o que quer que Harry e Ron tivessem levado à ela e Theodore, assim como não o impediu de dizer a ela de que, não, não estou mais com Ginny ou com alguma outra pessoa, quando ela o indagou.
O que o impediu de continuar a conversa foram as risadas abafadas de Ron e Nott, quando eles perceberam que Harry estava sorrindo demais depois de, ao devolver as perguntas à bruxa, descobrir que Pansy estava solteira.
X
Ela nunca o perdoou realmente. Havia dito isso no dia em que ele a pediu em casamento. E quando ele a perguntou o por quê, com medo de receber uma resposta horrível, ela simplesmente beijou seus lábios e lhe disse que, se o perdoasse, talvez nunca tivesse chegado aonde estavam.
X
Às vezes o destino lhe dá caminhos terríveis e estranhos para fazer uma pessoa conhecer o amor. Feri-la gravemente com uma arte das trevas no banheiro da Murta-que-geme enquanto ela estava transformada em Draco Malfoy, foi somente mais um deles.
X
N/A.: O que a inspiração de última hora não faz com as pessoas~ Não era para ser romance, mas, oh well, é HarryPansy. Como assim não haverá romance?
