Capítulo 11: a briga

Com exceção do pequeno tamanho, o corredor possuía a mesma aparência daquele que tiveram que atravessar pouco tempo atrás. Com o aviso de "Não Entre Somente Pessoal Autorizado" grafados no metal, a porta parecia ter sido colocada ali recentemente, já que possuía uma aparência nova.

Claire forçou a pesada maçaneta de aço para baixo e empurrou a porta, que se moveu de maneira lenta e silenciosa, enquanto Leon entrava no local mirando com sua arma.

— Puta merda...

As palavras saíram da boca de Leon como sussurros. Estavam impressionados com o lugar. Após passarem por vilarejos antigos e mal cuidados, florestas e acampamentos provisórios, encontrar um laboratório excepcional como aquele foi algo muito estranho.

Era um laboratório multifuncional. Ali poderiam ser feitos experimentos na área de química, física e biologia, devido aos inúmeros equipamentos disponíveis. Havia armários e suportes pregados na parede, juntos a inúmeras bancadas que suportavam diversos compostos químicos. Equipamentos eletrônicos estavam corretamente colocados nos cantos do laboratório, próximos a diversos documentos.

O que mais lhes chamaram a atenção, entretanto, foi um baixo choro que parecia surgir atrás de algumas estantes a sua frente.

A encontraram em pé ao lado de uma maca, aonde um menino, muito novo, estava deitado. Morto. O jovem estava sem camisa, e foi possível ver o grande corte que passava por seu torso, indicando que ele era a cobaia de Olívia para o t-Verônica.

Eles observaram a loira por um instante, esperando que ela os notasse. Mas desistiram vendo-a aos lamentos pelo menino.

— Não deu certo, não foi? — Leon perguntou retoricamente. — Você precisava dos órgãos pra mantê-lo vivo, mas não há como conseguir mais órgãos, já que estão todos mortos na ilha.

— Puta que pariu! — bradou na medida que enxugava os olhos e se virava para vê-los. — Vocês não desistem de me perseguir?

— Um lugar isolado, no meio do nada, como você mesmo havia dito — Claire falou séria ignorando a pergunta dela. — Pessoas morrem todos os dias, por que alguém ligaria para algumas mortes numa pequena ilha sem muita importância?

— O lugar perfeito para um laboratório com más intenções, não é mesmo? — ele ironizou. — Nós vimos a garota da vila ao sul. Você arrancou os órgãos dela viva! Ela ainda estava viva quando chegamos lá, Olívia!

Ela os encarou impaciente por breves segundos em silêncio e voltou a fitar o garoto na maca.

— O que ele é seu? — Claire perguntou se aproximando do menino.

— Não toque nele! — ela pediu irritada.

Eles a encararam curiosos e ela abaixou a cabeça, tentando disfarçar a frustração.

— Você vai explicar, ou vamos ter que...?

— Algumas semanas atrás eu... — ela começou a falar interrompendo Leon — Eu estava indo levá-lo para passar uma semana com o pai dele. De lá eu ia direto para o laboratório trabalhar. Mas... Mas eu e ele, nós... Nós começamos a brigar por alguma razão... — parou de falar exibindo um triste sorriso. — Coisa de criança. Acho que ele queria algum brinquedo ou... Ou coisa assim — ela olhou para o chão infeliz. — Eu fiquei tão irritada com ele que acabei perdendo a cabeça e então trouxe ele para o laboratório e mandei que colocassem o vírus nele.

Leon e Claire a olharam com repugnância. Ela percebeu como estavam julgando-a e se aproximou do corpo do garoto novamente, fazendo Claire se afastar com alguns passos para trás.

— Eu precisava tentar! — falou alto tocando a testa do menino. — Foi um erro, eu sei! Mas ele era a única pessoa que poderíamos usar. Ninguém nunca seria voluntário para o vírus, e os testes com animais eram sempre... Sempre tão confusos — acariciou lentamente o rosto do jovem. — Nós... Nós estávamos produzindo o t-Verônica normalmente e ao mesmo tempo, estávamos desenvolvendo um novo tipo de vírus. Um vírus originado do t-Verônica. Um que pudesse manter o t-Verônica sobre o controle dele — mexeu nos cachinhos louros do menino —, sobre o meu controle. Eu queria vê-lo acordado, não queria ver ele em dormindo por anos... Então começamos a comprar órgãos para deixá-lo vivo enquanto criávamos o vírus mas... não temos tanto dinheiro assim. As pessoas da ilha elas, elas estavam tão desprotegidas. Então pensamos: Já que estamos aqui... Por que não?

Um longo silêncio se espalhou pelo laboratório. Leon e Claire não a apressaram.

— Depois de algum tempo nós fomos testar uma amostra de cada vírus mas... Mas deu tudo errado — falou se perdendo nas lembranças. — E então as coisas começaram a sair de controle. A infecção se espalhou pela ilha e... eu não pude mais... Como chefe eu não podia deixar que descobrissem o laboratório.

Ela se virou para os dois.

— Soldados começaram a aparecer e o risco de sermos descobertos começou a crescer. Então quando ficamos sabendo que agentes especializados estavam vindo para investigar, tivemos que tomar precauções...

Olívia parou de falar.

— Como descobriu que estávamos vindo? — curioso, ele perguntou quebrando o silêncio.

Espiões... eles estão em todos os lugares — brincou enquanto apontava lentamente para um grande rádio comunicador acima da mesa. — Seu pessoal não toma cuidado com que frequência usar ao falar pelo rádio. Veja no que deu — ironizou com lágrimas nos olhos. — Eu nunca deveria ter feito isso com ele... Mas agora acabou.

Claire e Leon se entreolharam.

— Você sabe que não sairá impune, Olívia.

— Eles desistiram da ilha, sabiam? O pessoal de vocês...— comentou não dando atenção para o que Claire havia dito. — Pouco tempo atrás enviaram helicópteros para buscar os soldados que restaram.

— Olívia...

— É, eu sei que fui uma garota má e preciso ser punida, mas me digam: como é que vocês pretendem sair daqui?

Claire parou com os lábios entreabertos, não sabendo o que responder para a loira que os encarava cansativa.

— Pois é! Como eu sou uma pessoa muito boa, vou dar uma informação importante para vocês, mas quero algo em troca.

— O que quer dizer?

— Eu tiro todos nós deste inferno de ilha e quando chegarmos no lindo país de vocês, vou precisar de uma ajudinha para não passar o resto da minha vida na cadeia.

— Quer que a gente te deixe ir?

— Quero que me ajudem a diminuir a minha pena.

Sorrindo, Leon coçou a cabeça surpreso, pronto para dar-lhe um 'não' como resposta.

— Feito — Claire falou.

— O que? — protestou boquiaberto. — Claire, você endoi...

— Leon, fica quieto — ela pediu. — Trato feito, Olívia.

— Tenho sua palavra de honra, Claire — pronunciou o nome dela lentamente.

— Tem sim. Agora, como saímos daqui?

— Tem uma lancha atracada numa ponte a sudeste daqui. Não fica muito longe. Eu levo a gente lá.

— Ótimo. Precisamos levar uma amostra desse novo vírus que estavam criando — Claire falou enquanto Olívia a encarava e prestava atenção. — Aonde estão?

— Sabia que iriam pedir isso — confessou após um longo suspiro. — Não temos muitas, desenvolvemos poucas delas, e nem foram finalizadas. Mas as poucas amostras do vírus são guardadas atrás daquela porta...

Na medida que explicava o local, Olívia ia caminhando até Claire. Leon, entretanto, a impediu de chegar mais perto mirando a arma novamente para ela.

— Calma, rapaz, eu só ia ajudar a mocinha ali — falou sorridente. — Para entrar você precisa digitar o código, que é 2236.

— Ok — ela se virou e começou a seguir para a porta.

— Claire — ele a chamou.

Leon a encarou pensativo, como se esperasse que ela entendesse o que ele queria expressar. Ela mexeu a cabeça devagar, não sabendo exatamente o que dizer.

— Você tem certeza do que está fazendo? — perguntou finalmente.

— Não — confessou sorrindo. — Tome cuidado, da última vez que tiramos os olhos dela ficamos praticamente cegos.

— Não se preocupe, queridinha, eu não vou machucar seu namorado — a loira interveio vendo os dois se comunicarem.

— Ele não é meu...

— Vai, logo! Eu quero sair daqui. — Olívia interrompeu enquanto se virava e cobria o corpo do menino com um longo plástico branco. Em seguida começou a empurrar a maca para o fundo do laboratório, e acabou ficando fora de vista.

Apressada, Claire caminhou até a fechadura eletrônica e pressionou os botões um pouco apreensiva. Olhou uma última vez para Leon e o encontrou observando-a. As portas fizeram um barulho e se dividiram. Ela entrou e ficou surpresa ao se ver sobre uma estranha "plataforma".

O chão se estendia por poucos metros, com alguns limpíssimos pisos brancos, acabava de repente, entretanto, sem nenhuma grade ou cerca para impedir que alguém caísse lá embaixo.

"Deviam ainda estar construindo", imaginou olhando o lugar.

Sem perder muito tempo, caminhou para o lado e abriu os poucos armários. Ficou surpresa ao ver que haviam equipamentos eletrônicos do laboratório. Equipamentos velhos e estragados. Passou a procurar nas gavetas das mesas e não encontrou nada além de poeira e poucos clipes de papel amassados.

Começou a duvidar do que Olívia havia dito até que olhou para os lados e encontrou uma porta que não havia notado antes. Se aproximou da porta de vidro e a puxou, ela se abriu como uma típica porta de geladeira. Era um pequeno quarto onde a baixa temperatura conservava os poucos vírus que estavam dentro de pequenos frascos.

Olhou algumas prateleiras na altura de seus olhos e fitou os frascos insignificantes. Todos vidros muito parecidos com etiquetas que ela não se preocupou em ler. Procurou na estante abaixo e acabou encontrando, sozinho na prateleira, um pequeno tubo de ensaio fechado que continha um líquido levemente arroxeado.

"Só pode ser esse", presumiu enquanto pegava o frasco e observava mais de perto.

Colocou o pequeno vidro no bolso e no momento que estava saindo, sentiu sua pele reclamar da temperatura. Com passos impacientes ela se dirigia até a porta do laboratório quando sua atenção foi tomada por um som familiar.

Olhou para os lados assustada com os distintos rosnados que a perseguiam por vários momentos da vida, e até em seus mais repugnantes sonhos. Mas nada viu. Caminhou até a beirada do local, seguindo o terrível som, e se inclinou para ver o que tinha lá embaixo.

Ela deduziu que aquilo seria a garagem, já que havia alguns carros estacionados corretamente. Em meio aos veículos, avistou algumas pessoas com jalecos vagando pelo andar. Olhou para eles curiosa.

"Zumbis", concluiu calma quando um deles a fitou e começou a rosnar mais alto.

— Bizarro, não é? — Olívia perguntou, interrompendo os pensamentos de Claire.

Ela se afastou da beirada imediatamente e se virou para a loira que estava parada em frente a porta do laboratório. Claire começou a se aproximar dela, até que notou o que havia em suas mãos. A mulher segurava uma barra de metal, que parecia ser bem pesada.

— Onde está Leon? — questionou perturbada.

— Vocês caíram direitinho, não foi? Acha mesmo que eu deixaria vocês me levarem?

— Onde ele está?!

— Bom, digamos que eu tenha dado um jeito nele.

— Você disse que não ia machucá-lo, Olívia!

— É... Mas eu mudei de ideia.

Com isso, Olívia arremessou o objeto em Claire e ela se esquivou instintivamente jogando seu corpo para o lado. Antes que Claire pudesse se equilibrar novamente, a loira se jogou para cima dela e a socou na cabeça com força. Claire ficou zonza por um instante e voltou a enxergar novamente bem a tempo de avistar o pé de Olívia chutando sua barriga.

Ela segurou a perna da mulher e a puxou para baixo, derrubando-a. As duas se engalfinharam no chão enquanto rolavam e socavam uma a outra. Claire obtinha vantagem até que Olívia a empurrasse com os dois pés e se levantasse.

— Você não é tão ameaçadora sem uma arma, mocinha.

— Eu ainda tenho minhas mãos — falou cerrando os punhos.

— Legal, hein... — lentamente ela levou a mão até a cintura e levantou uma lâmina prateada, erguendo-a para que Claire pudesse ver. — Eu tenho a faca do seu namorado.

— Eu não quero te matar, Olívia!

— Que pena... Eu quero.

Olívia se inclinou rapidamente e rasgou o ar com a lâmina. Claire desviou na hora com um impulso para trás, e, em seguida, chutou a mulher no quadril empurrando-a para a beirada da plataforma, dando tempo de correr até ela e socar o rosto da mulher.

Ela estava pronta para golpeá-la com o joelho mas a loira rasgou levemente sua pele arremessando a faca. Ela colocou a mão na perna sentido a dor aumentar e Olívia aproveitou o momento para jogá-la no chão e contornar o pescoço de Claire com as mãos.

Claire soltou um grito sufocado enquanto tentava inutilmente retirar as mãos de Olívia de seu pescoço. Avistou de relance a faca jogada ao seu lado. Soltou uma das mãos dos braços da Olívia e sentiu um aperto forte quando o fez. Esticou a mão e tateou com os dedos a empunhadura da lâmina.

"Só mais um pouco!"

Agarrou a faca com a mão e, com todas as forças que tinha, afundou ela no braço esquerdo da loira, que berrou de dor e atirou-se para trás, segurando o ferimento com a mão.

— Desgraçada! — ela urrou de dor.

Com as mãos e joelhos no chão, Claire se levantou vagarosamente enquanto respirava intensamente.

Soltou a faca de Leon no chão e, transpirando ódio, andou apressadamente até Olívia e a puxou pela gola da camisa. Levando-a até a beirada da plataforma.

Sangue escorria do braço da mulher e caia nos rostos deformados dos zumbis abaixo.

— Você disse que gostava de mordidas, não é?

A loira olhou para baixo e arregalou os olhos assustada.

— Você disse que não queria me machucar!

— É... Mas eu mudei de ideia.

Claire soltou seus dedos da camisa da mulher e ela caiu aos gritos enquanto seu corpo batia nas criaturas e rosnados e sangue a envolviam.