Capítulo 11

Dez anos.

Apenas por calcular o tempo, Hyoga indignava-se amargamente. E tentava com empenho compreender como Freya havia conseguido isso por tanto tempo.

"E duas crianças..." Disse em pensamento, mergulhando os dedos nos cabelos desregulados. Imaginava o que Freya possivelmente tivesse passado para criá-las; de certo teve a ajuda da irmã, mas não era o mesmo de receber o auxilio de um pai. Talvez ela merecesse toda a dificuldade, ela própria havia escolhido guardar as crianças para si, afinal.

Crianças que também eram suas, e Hyoga não entendia o que ele poderia ter feito de errado para tê-las sendo ocultas dele.

Por tanto tempo mirou a extensão de seu quarto, como fazia agora, julgando seu apartamento como sendo demasiado grande para ele somente. E isso sempre o fazia se imaginar compartilhando aquela habitação com a família que durante muito planejou, mas que a vida nunca o permitiu ter. O melhor, nunca o permitiu desfrutar, pois ele tinha uma família, sempre teve, agora ele sabia.

E isso o inconformava. Por que somente agora? Por que por tanto tempo não pôde desfrutar do amor de seus filhos? Por que, Freya?

A unica certeza era que existia sim um porquê, como sempre há para tudo. E ao conhecer esta razão, muito provavelmente não precisaria mais ter de se alimentar de lembranças do que um dia quase foi sua família, de tentar fazer tais lembranças realidade, embora não fossem. Pois Hugo e sua irmã eram reais, e eram seus filhos, e seriam sua família. Procurar o menino era o primeiro passo para isso, para nunca mais ter que contemplar uma habitação "grande demais" para ele.

A luz da manhã se erguendo fez Hyoga concluir que não podia demorar muito para isso. Afinal, haviam sido dez anos, não conseguiria esperar mais.

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A brisa do oceano roçava seu rosto, como se implorasse para que ela voltasse a apreciá-lo. Mas Freya não conseguia mais ver o mar com o mesmo encanto da primeira vez.

Mas pediu para ir à praia ainda assim, pois o mar ainda lhe trazia a tranquilidade plena que lhe permitisse refletir com profundidade, e quem sabe chegar a uma beneficiadora decisão, embora a resposta para tudo já transbordasse de seu cérebro.

- Está se divertindo, Freya? - Saori aproximou-se, pondo-se ao lado dela.

Freya sorriu em resposta, e assentiu. Sentou-se na areia fofa e fechou seus olhos, permitindo-se sentir o toque da brisa ainda mais intensamente. Saori ajoelhou-se ao seu lado, e ajeitou o tecido do vestido da jovem espalhado pela areia.

- Eiri foi muito gentil emprestando-lhe este vestido. A ultima vez que a vi usá-lo foi numa festa que fizemos na mansão. É relativamente bem novo.

- Realmente... Poucas pessoas agiriam assim. - Freya afirmou com a mirada distante, voltada para as águas.

- É sim. E isso... me deixa tão aliviada! - Saori murmurou, porém soou alto o suficiente para a loura ouvir.

Freya a mirou sem entender.

- Como assim?

Saori voltou-lhe o olhar surpresa por ela ter ouvido, mas julgou que contar a ela os ocorridos não seria errado. Considerando os acontecimentos com a irmã mais velha, Freya compreenderia tudo perfeitamente.

- Bem, assim como aconteceu à sua irmã, Eiri também já foi tomada pela absoluta maleficência. Porém ela não teve a mesma sorte de Hilda, a sorte de ser tomada apenas por uma joia amaldiçoada. Eiri foi recipiente de uma deusa, a dama do caos, que visava sucumbir a Terra em discórdia e ruínas. - O tom da jovem Atena tornava-se mais sério a cada palavra, em razão de ela recordar-se dos duros ocorridos ao falar - Como um esforço torturante, conseguimos derrotá-la, porém... você deve saber muito bem que não se deve subestimar ou se esquecer da divindade do adversário, certo?

Freya assentiu, com os intrigados olhos ainda mais presos à face de Saori.

- Como qualquer deus, qualquer imortal, Éris jamais será derrotada por completo, seu poder jamais se extinguirá. E isso por muito me preocupou, e as vezes ainda me preocupa um pouco. Pois os deuses, sem que queiram ou percebam, acabam deixando parte de seu Icor correndo junto ao sangue de seu hospedeiro. O que faz com que parte do nefasto poder de Eris continue a agir, dentro de Eiri.

- E isso pode implicar em que? Os deuses podem voltar a ameaçar?

- Podem, mas eles não farão isso. Temos uma aliança agora, a qual eles sabem que se quebrada, todos nós, deuses e mortais, seremos severamente prejudicados. Até mesmo Hades aceitou se afiliar, por amor à Perséfone, e em respeito a tempo em que ela deve passar junto á Deméter e suas colheitas. Colheitas cultivadas com muito esmero pelos mortais. Os deuses sempre tiveram uma forte ligação com os mortais, dependeram deles muitas vezes, somente não conseguiam perceber isso por conta do ego alimentado pelo imenso poder que possuem. Coisa que felizmente mudou com nossa aliança. - Saori sorriu ao sentir a serenidade invadir-lhe - Agora todos nós temos conhecimento do nosso lugar, e mais ainda, temos conhecimento e respeito pelo lugar dos outros, pois somos todos seres vivos, filhos do mesmo pai, filhos deste maravilhoso mundo.

Freya sorriu junto, contagiada pela mesma plenitude, mas não conseguiu abrandar sua intriga.

- E então, por que disse ainda estar preocupada?

- Depois que voltamos da ultima batalha, soubemos que Eiri teve sérios problemas com sua sanidade. Como já deve supor, as guerras são a principal fonte para a discórdia, elas engrandecem o poder de Éris. E esta última, tão densa e violenta, a tornaram tão potente que mesmo presa no Tártaro, ela conseguia exaltar para o mundo o seu poder... Através...

- ...Através do seu Icor que habita em Eiri, corrompendo sua mente. - Freya completou, ao compreender ressentidamente.

- Exato. - Em contrapartida, a expressão de Saori era mais cômoda, alegre - Mas agora, posso concluir que a paz que habita nosso lar agora está agindo até mesmo neste quesito. O amor humano tem apossado-se deste mundo de forma tão ardente e plena que tem domado as forças mais perversas. E Eiri acaba tornando-se quase um simbolo disto, ao conseguir domar tão perfeitamente as energias de Eris e ter paz novamente, usando certamente de seu amor para com o mundo.

"Usando de seu amor para com o mundo..." Ecoou freneticamente na mente de Freya "...Usando de seu amor..."

Amor... Saori referia-se ao amor pela mundo, mas havia testemunhado a pouco que tratava-se de mais do que isso. O sentimento de Eiri por Hyoga de certo tinha participação nesse poder; sabia perfeitamente que o amor da garota por ele era vigoroso... Pois era igual ao seu próprio. Tão igual... Era o mesmo amor. O mesmo amor que abrandava a dor de ter perdido tanta coisa no embate que houve em sua terra, o mesmo amor que dominava os malévolos poderes da dama do caos.

Mais uma vez sentiu compunção por esta situação tão injusta de haver uma decisão entre dois sentimentos tão impetuosos. Sabia o quão difícil era era decidir isto, vivenciara isto, e as consequências foram dolorosas. As respostas para tudo, que antes lhe transbordavam da mente agora já eram tão evidentes que até as ouvia em seu consciente.

"Mas você não irá decidir nada, Hyoga..."

Sentindo mais uma vez o frescor do mar esvoaçarem seus cabelos, Freya levou a mão ao peito, contornando sobre o tecido da roupa as linhas do rosário que ela ali carregava.

"Pois é... você não deve pertencer mais a mim, pequeno tesouro..."

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O sol se erguera a pouco, ainda era relativamente cedo. Mas não a ponto de impedir que a enérgica filha de Seiya e Saori desse seu receptivo grito agudo no jardim. Em seu quarto, Hugo despertou quase subitamente com o berro. Os olhos semi-cerrados avistaram os fios de raios solares penetrarem as cortinas, lhe apresentando mais um dia ensolarado.

Ainda sentia-se consternado por ontem. Conversar com o pai fora horrível, os olhos azuis dele inquietos, cheios de e confusão e indignação, e a postura sem ação do homem ao ouvir que ele era seu filho lhe arrebataram de culpa. Hugo o havia assustado, o que acreditava que não aconteceria, pois tentara nutrir em si a ideia de que ele soubesse, ao menos de algum detalhe, sobre seus filhos. Mas a ação dele demonstrou que de nada sabia, que era tão vítima daquela história toda quanto ele e Adelle, como Seiya havia lhe dito. Talvez fosse até mais vítima do que eles.

De qualquer forma já havia despertado, e a luz ensolarada da manhã seria sempre uma coisa fascinante de se ver. Esfregou os olhos e deu uma longa espreguiçada; depois seguiu para as janelas, abrindo as cortinas para contemplar o sol iluminar o jardim florido, e também entender o motivo do grito de Sayuri.

Os olhos verdes do menino cresceram, e mais uma vez aquele estranho nervosismo lhe ocorreu. Sayuri e Saori estavam no jardim recepcionando Hyoga. Certamente ele viera lhe procurar.

E o que diria? Ainda não havia digerido a conversa de ontem, onde iria encontrar mais palavras para dizer? E sobre o que iria falar? E o tempo que tinha para formular tudo seria o que Hyoga levaria para subir as escadarias e chegar até ele. Hugo só pensou em jogar-se na cama novamente e se cobrir até a cabeça com o cobertor.

Não se preocupou em calcular o tempo, mas pensou que ouviria aquelas batidas na porta um pouco mais cedo.

- Hugo? Está acordado? - Saori disse do outro lado, mas não recebeu resposta. Ela abriu então uma leve fresta da porta e viu o garoto coberto pelos panos. Virou-se para Hyoga, que ao seu lado entornava apreensão na face.

- Ele teria dito algo se isto o incomodasse. - Ela postou a mão no ombro dele, e sussurrou - Boa sorte.

Hyoga assentiu com um sorriso leve, logo a vendo se afastar. E adentrou devagar ao quarto. Hugo mantinha-se imóvel debaixo dos cobertores, como se criasse uma barreira, uma capsula de proteção. Hyoga não conseguiu evitar de sentir-se mal com isso.

Mas tudo logo passou, quando avistou sobre um móvel uma fotografia. Atraiu-se imediatamente por ela, apenas ao notar de relance que se tratava de Hugo brincando num trenó em meio à neve junto daquela logo soube ser a irmã gêmea, sua outra filha. Apanhou o porta-retratos e sentou-se na ponta da cama, sem tirar os olhos da imagem, admirando as feições das crianças, e procurando semelhanças. Não foi muito difícil encontrá-las, especialmente em Hugo, que apesar de possuir os belos olhos verdes, os traços e o sorriso da mãe, tinha muito de si também, como parte das formas e a cor dourada dos cabelos, e a pele cor de oliva. Já a bela menina era quase uma pequena sósia de Freya: os mesmo olhos, traços delicados e expressões marcantes; talvez as diferenças estivessem no sorriso vivaz e radiante da pequena, diferente daquele cheio de suavidade e doçura da mulher que conhecera. Os cabelos dela também não era como os de Freya, cheios de cachos e ondas por todo o seu extenso comprimento, coisa que Hyoga sempre cativou demais na moça. Os cabelos da menina eram igualmente longos e platinados, porém lisos, fazendo apenas uma leve ondulação nas pontas, o que de maneira alguma o cativou menos, talvez até o fizera mais, pois eram as mesmas formas dos cabelos de sua adorada mãe, Natássia.

Apenas após alguns instantes se deu conta que Hugo havia se descoberto, estando agora sentado observando-o admirar sua fotografia. Fitou-o de volta sem perder sua expressão de fascínio.

- Ela é linda! - O tom do homem exalava ainda mais seu deslumbre - Você não me disse o nome dela ontem.

- Ela se chama Adelle. - Hugo disse brando.

- Adelle... - Hyoga lançou um sorriso distante, deixando a mente fluir sobre quando havia ouvido aquele nome. O bosque em Asgard, onde ele e Freya se encontravam. Sim, foi durante aqueles encontros que a ouviu falar sobre este nome, assim como o nome "Hugo". A serenidade daqueles momentos lhe ocorriam novamente apenas ao lembrar, ou ao olhar as crianças na foto.

- Hugo, você sabe que precisaremos ter ainda mais conversas, não sabe? É por isso que eu estou aqui.

- Eu sei. - O menino assentiu ressentido, mas fitando firme o homem louro - Escute, me desculpe por eu ter saído da sua casa daquela forma. Eu fiquei muito frustado, como nunca antes... eu pensava que os adultos tivessem respostas para tudo.

- Está tudo bem, não é culpa sua que eu não soubesse o que responder.

O garoto louro sorriu agradecido.

- E bem... eu preciso ser franco e dizer que ainda não sei o que responder. Embora eu tivesse tentado durante essa noite inteira encontrar uma resposta para dar a você sobre tudo o que aconteceu. Mas talvez eu seja mais leigo do que vocês dois em relação a isso, pois vocês ao menos sabiam que tinham um pai, eu não sabia que tinha vocês.

- Sim, eu entendo, entendo perfeitamente.

- Que bom... E bem, unica conclusão a qual cheguei foi que eu posso ao menos tentar encontrar a razão para tudo ter ocorrido como ocorreu, e assim resolver as coisas. Ou melhor, nós podemos, juntos. - Apanhou a mão do menino com firmeza, mas também com ternura - Então eu decidi que irei para Asgard com você, e servir de doador de medula para a Adelle, e tentar ficar a par de tudo, a par da nossas próprias vidas.

- Você... Você vai...?! - Hugo cresceu seus olhos, que em poucos instantes se encheram de lágrimas, lágrimas de uma imensurável alegria - Só posso te agradecer, só isso eu conseguirei responder. Obrigado, de verdade! - E o choro tornou-se copioso, assim como a alegria que já o havia irradiado por completo. Depois que abrandou suas emoções, Hugo viu sua mão ainda firme na de Hyoga, e a soltou, para que pudesse enlaçar-lhe os braços no pescoço e lhe dar o abraço mais forte que pudesse dar.

- Obrigado também, Hugo. - O louro sussurrou, respondendo ao gesto do menino.


Eis mais uma atualização :)

Gaby: olá querida, obrigada por ler. Vou tentar atualizar o mais rápido que eu puder.

wilianmoitapontes: eu já havia respondido no Inbox, mas queria agradecer mais uma vez por aqui. É realmente gratificante quando as pessoas se tornam participativas como você!

Enfim, agradeço muito a todos que leram. Espero que este capítulo lhes agrade.

Boa leitura a todos.