O que será do amanhã?
Betas: Ana Ackles e Mary SPN. Meninas vocês são um arraso! "Brigadinha" mais uma vez. Muitos beijos!
Capítulo 11
Brisas e vendavais
"Tu é trevo de quatro folhas/ É manhã de domingo à toa/ Conversa rara e boa/ Pedaço de sonho que faz meu querer acordar..."
Trevo - Anavitória
Foi um cochilo breve. Mais ou menos uns quarenta minutos depois, Jensen acordava, estranhando aquele homem grande e nu dormindo a seu lado. Há bastante tempo, só dormia sozinho e nunca levava ninguém para seu apartamento. Sua casa era seu refúgio, seu esconderijo. Porém para aquele homem de olhar de menino e jeito simples, abrira sua casa e sua vida sem pensar muito no que aconteceria depois.
Como um gato dengoso, espreguiçou-se lentamente e então uma dorzinha veio lhe incomodar. "Estou um pouco dolorido, mas que se dane! Valeu à pena pra caramba!" Sorriu para si mesmo. Estava saciado e contente.
Jared, deitado de bruços com os braços sob o travesseiro, ressonava baixinho. Seus cabelos estavam bagunçados e cobriam parte de seu rosto.
Jensen virou-se de lado e ficou por uns instantes a observá-lo dormir. Bem de leve, afastou o cabelo de seu rosto e o olhou com atenção. "O que você está fazendo no meu caminho, menino lindo?" "Eu não sou pessoa fácil de lidar e sua vida já é tão ferrada!" "Como você conseguiu espicaçar minhas defesas tão rapidamente, se é você quem parece ser indefeso?"
Jensen até podia entender a atração imediata que sentiu por aquele rapaz, afinal quem resistiria a um sorriso daqueles, contudo não compreendia como podia sentir tanto carinho por ele em tão pouco tempo. Queria poder nunca mais deixá-lo dormir na rua, desprotegido.
Observou com cuidado as costas de Jared, constatando que ainda tinham hematomas bem evidentes. Provavelmente ainda ficariam doloridos por dias. Não fosse isso, o loiro atacaria aquele corpo moreno vorazmente, pois estava louco de vontade de prová-lo inteiro, do jeitinho que gostava. "Sou uma alma bondosa. Vou esperar que você melhore." E abriu um sorriso safado, rindo da própria piada, e imaginando o momento que teria Jared todinho para si.
O rapaz se mexeu, despertando vagarosamente. Abriu os olhos e ali estava Jensen, o encarando com aquela imensidão verde. Jared nunca mais queria acordar de outro jeito. Abriu um sorriso luminoso, desnorteando os sentidos do loiro, que se aproximou e tocou-lhe os lábios com as pontas dos dedos.
- Você sempre acorda assim, sorrindo?
- Eu sou bem humorado, mas abrir os olhos e ver você assim tão perto, dá vontade de sorrir feito bobo.
Beijaram-se sem nenhuma pressa.
Jared sentia-se eufórico e feliz ao lado de Jensen. Enxergava no mundo ao seu redor, possibilidades que antes não via. Nem sabia direito o que era ser feliz, levava um dia após o outro da melhor maneira que conseguia. Sim, era uma pessoa alegre e positiva, mas a dura realidade sempre o fizera ter os pés no chão, limitando seus sonhos e seus desejos à necessidade de sobreviver. Agora, contudo, quando Jensen lhe olhava com aqueles incríveis olhos verde- esmeralda, conseguia se ver neles e enxergava além de um amanhã.
Tinha vontade de sorrir para ele e também de beijá-lo o tempo inteiro. Jensen era muito cheiroso e tinha uma pele branquinha com todas aquelas sardas, que davam vontade de beijar uma a uma. O achava tão bonito!
- Pelo desejo que vi em seus olhos, pensei que você me tomaria sem pensar duas vezes, mas você se entregou a mim... – Jared comentou baixinho, segurando o rosto de Jensen entre suas mãos e olhando-o com carinho, assim que encerraram o beijo.
- Eu sei que pensou, mas a primeira vez já é... difícil e você está cheio dores, não seria legal de minha parte ignorar isso. Não gostou? Ficou decepcionado? – Jensen perguntou, mas sabia a resposta. O grandão tinha demonstrado todo prazer que havia sentido.
- Decepcionado? Você tá brincado comigo, não é? – Jared sentou-se. – Jensen, foi incrível! Nunca me senti tão completo com alguém. Podemos repetir quando você quiser. Agora mesmo seria demais! – Falou empolgado e com um sorriso divertido nos lábios.
Jensen riu também. - Eu não tenho nada contra repetirmos a dose, porém tem outras coisinhas que podemos experimentar juntos. E assim que você estiver melhor... – O loiro passou a língua pelos lábios e sorriu bem sacana, olhando para Jared cheio de intenções indizíveis.
O moreno gargalhou, fazendo aquele seu típico gesto de jogar a cabeça para trás, balançando os cabelos. Jensen adorava vê-lo fazer isso.
- Você não pense que me assusta, receio sim, mas não tenho medo de encarar. – O moreno falou com um olhar desafiador.
- Ainda bem! Porque eu encarei isso tudo – Jensen passou a mão pelo membro de Jared que já estava bem animado – e não reclamei! – E o quarto ficou cheio de gostosas risadas dos dois.
E assim ficaram: rindo e falando deliciosas bobagens um para o outro, durante mais algum tempo. Estavam tão leves, que nem percebiam a passagem da hora ou mundo girando fora daquele quarto. Jared nunca soubera o que era estar assim com alguém e Jensen quase havia esquecido a maravilhosa sensação de leveza que habita o coração, quando se está com quem se quer.
- Vamos tomar um banho? – Jensen queria mais ação e o chuveiro lhe parecia perfeito para isso.
- Juntos? Oba! – Jared levantou-se indo em direção ao banheiro. De repente, parou e voltou quase tropeçando no loiro, que vinha logo atrás apreciando a vista. – Depois posso ligar para as crianças? Quero saber como elas estão.
- Claro que pode! Vem, vamos tomar logo esse banho e depois falar com a criançada. – Puxou Jared para o banheiro.
A ducha tinha uma pressão possante e a água, morna numa temperatura sensacional, era como um bálsamo escorrendo pelas costas doloridas de Jared. As mãos de Jensen o ensaboavam deliciosamente, com um sabonete líquido muito cheiroso, cujo aroma, parecia inebriar os sentidos. Diante daquele excesso de prazer, o moreno fechou os olhos e ficou curtindo os carinhos que o loiro fazia por todo seu corpo.
Era como se mãos, o tocassem em todos os lugares ao mesmo tempo. Peito, braços, coxas, bunda, costas, abdômen. "Céus! Que delícia! Quantas mãos tem este homem?" Pensamentos passavam como vento pela mente de Jared. De vez em quando sentia beijos, mas nem abria os olhos, só correspondia, numa entrega prazerosa.
Às vezes sua mente funcionava por cinco segundos e então se perguntava: como podia se sentir tão à vontade com aquele homem em tão pouco tempo? Depois desligava novamente e todos seus sentidos focavam nas carícias, que estava recebendo de Jensen.
Quando sentiu o loiro massageando seu membro com mais vigor, Jared abriu os olhos e o encarou. Jensen, sem desviar o olhar, intensificou o que fazia e calou os gemidos de Jared com um beijo ardente.
O moreno retribuiu todo prazer que estava sentindo, envolvendo o sexo rijo de Jensen, com sua mão grande, o masturbando com força e adorando ouvir os gemidos daquele homem, que ele achava tão sensual. O loiro estava por um fio de ignorar as dores de Jared, virá-lo contra a parede do box e enfiar-se nele até matar seu desejo de fazê-lo seu. Mas, vez ou outra ao se movimentar Jared fazia uma careta de dor e isso fazia com que Jensen refreasse sua vontade de devorá-lo.
Continuaram com os beijos molhados e com a masturbação mútua até gozarem juntos e sentirem o prazer do outro escorrer por seus dedos. Jensen encostou-se à parede e puxou Jared para apoiar-se em si. O moreno espalmou as mãos no peitoral do loiro e descansou a cabeça na curva de seu pescoço. Aguardaram as respirações se acalmarem e beijaram-se mais uma vez, lentamente, só sentindo o gosto um do outro. E ainda continuaram por algum tempo naquele box, se conhecendo, experimentando sensações, aproveitando o prazer de estarem juntos.
J2
Como muita energia fora gasta durante o banho, estavam famintos. Jensen entregou o celular à Jared, disse para que ele ficasse à vontade e saiu para comprar algo gostoso para comerem.
O rapaz ligou para Loretta, que logo de primeira, pode sentir em sua voz, o quanto o tempo passado com o detetive estava fazendo bem a Jared.
Conversaram um pouco e ela contou que havia ligado para o professor Penniket, pois ele havia deixado o número e pedido para receber notícias de Jared. O moreno gostou de saber que Thamoh, havia sido informado que ele estava bem, afinal ele tinha pedido ajuda ao amigo e tinha sido atendido prontamente.
Jared falou com cada um de seus irmãos. Contou que estava melhorando e que estava sendo muito bem cuidado por Jensen. Devin quis saber se o detetive era bravo como parecia, Alice perguntou se ele sabia fazer curativos e cuidar dos ferimentos e se Jared ainda sentia muitas dores e Liz, bem, com ela o moreno teve que falar por um tempo maior, para conseguir responder todas as perguntas da tagarela. Prometeu a todos que no dia seguinte estaria de volta, pois estava morrendo de saudade deles.
Enquanto esperava o retorno do loiro, Jared, que não sabia ficar parado, arrumou a cama, lavou uma pouca louça que estava na pia e depois ficou olhando pela janela da sala, apreciando o silêncio da cidade num domingo, enquanto pensava em Jensen e no momento que estavam vivendo.
Jensen demorou um pouco, pois resolveu comprar um pouquinho de cada coisa, já que não sabia do que Jared gostava. E queria agradá-lo, mimá-lo um tantinho. Além, é claro, de toda hora se distrair com a imagem de um certo moreno no pensamento.
Algum tempo depois, Jensen chegou com várias sacolas e Jared o olhou curioso.
- Convidou mais alguém para almoçar? – perguntou achando um exagero a quantidade de comida que Jensen trouxera.
- Não mesmo. É que eu quero descobrir o que você gosta de comer.
- Mas Jensen, sendo comida...
- Não Jared! É para curtir, experimentar e me dizer do que você mais gosta. Você também precisa descobrir. E não se preocupe que nada será desperdiçado.
- Você não precisava se preocupar e nem gastar tanto dinheiro comigo. – O moreno estava sem graça e Jensen percebeu. Apoiou as sacolas no chão e chegou perto de Jared tocando-lhe o rosto.
- Ei! Eu não estou fazendo nada porque preciso. Fiz pra te agradar, porque gosto de você. E eu posso até estar enganado, mas acho que você também gosta um pouquinho de mim...
- Sim, eu gosto, mas não posso fazer nada para agradá-lo...
- E quem disse que você não pode? – Jensen sorriu lindamente. Então Jared o enlaçou pela cintura e o beijou bem gostoso.
Quando apartaram as bocas, Jared ainda ficou segurando o loiro junto a seu corpo, acarinhando suas costas e beijando seu pescoço.
- Huummm...você é muito beijoqueiro...
- Não gosta? – O moreno perguntou baixinho no ouvido de Jensen, que se arrepiou todinho.
- Adoro... – O loiro respondeu num suspiro e Jared sorriu com o jeito que Jensen falou. – Acho que vou desmaiar... de fome! – E se aconchegou ainda mais em Jared.
- Então vamos à degustação! Também estou faminto.
- Ah, e já vou avisando que a louça é sua. – Jared o olhou fingindo não gostar da ideia. – Você não disse que queria me agradar? Olha aí a sua chance! – Jensen completou sorrindo e pegou as sacolas indo para cozinha.
O loiro espalhou as embalagens com comida sobre a mesa da cozinha e pegou talheres e pratos para que pudessem experimentar uma porção de cada uma. Iam comendo e comentando o que mais estavam gostando. Quando um comia algo que achava muito saboroso, fazia questão de dar o alimento na boca do outro, para que provasse. E assim almoçaram entre garfadas e risos.
Depois de um almoço inusitado, sentaram-se no sofá saboreando uma xícara de café fresquinho. Jared nunca havia comido tanto assim em sua vida. Na verdade, nem Jensen. Tinha sido divertido experimentar tantas coisas gostosas de uma vez só e no final, embalaram com cuidado a comida que sobrou e colocaram na geladeira. Limparam a bagunça e até lavaram a louça juntos.
- Se quiser posso cuidar de seus ferimentos agora.
Jared tirou a camisa e virou de costas para Jensen, que alcançou o antisséptico e um remédio para dor em spray, que estavam na mesinha ao lado do sofá. Estava empenhado em sua tarefa, quando a pergunta de Jared veio lembrá-lo de algo que ainda mexia muito com suas emoções.
- Já se apaixonou alguma vez?
Jensen ficou em silêncio por um instante e o momento em que ele e Ty se conheceram veio-lhe à mente.
- Imensamente. – Foi a única palavra que encontrou para definir o que sentiu quando se apaixonou por Ty.
- E eu... posso perguntar o que aconteceu? – Pelo tom de voz usado por Jensen, Jared percebeu que era melhor abordar o assunto com cuidado. Queria saber, mas não queria que o loiro se chateasse.
Jensen parou o que estava fazendo e falou, pausadamente, uma espécie de resumo, que parecia ser mais para si mesmo, que para Jared. Sua voz bambeou entre emotiva e revoltada.
- Bem... nós nos encontramos, nos apaixonamos... enfrentamos uma barra do cassete para ficarmos juntos, construímos um amor sólido... vivemos felizes por sete anos e depois... enfim , depois... do nada e sem nenhum aviso prévio, a vida... ou... o filho da puta do destino, como você quiser chamar, simplesmente o levou de mim. Após sua morte... sei lá... ficou tudo... cinza e... nada... absolutamente nada... conseguiu me trazer de volta a vontade de viver.
Jared olhou para Jensen, sentindo muita admiração por aquele homem, que apesar de ter um coração machucado e a alma amargurada, por uma perda que não conseguia superar, ainda assim era um ser humano incrível. Ele pode constatar isso nesse tempo que passara com ele.
O moreno se aproximou e o puxou para um abraço forte. Envolveu Jensen com seus braços longos e o apertou junto a seu corpo. O loiro ficou ali, aconchegado naquele abraço e Jared ficou ali, abraçando com força.
Jay, não disse nada, porém era como se dissesse: Eu estou aqui, você não está sozinho.
Jensen sentiu-se estranhamente bem por ter falado sobre Ty com Jared e aquele abraço, que quase lhe quebrava as costelas, lhe trouxe uma sensação de bem estar que a muito ele não sentia. Lembrou-se então de Loretta: "...Um dia alguém vai te abraçar tão forte que todos os pedaços quebrados dentro de você se juntarão..." Fechou os olhos, entregando-se inteiramente àquele momento e sentiu-se inteiro de novo.
"...essa dor que você carrega dentro do peito, vai passar..." "... a saudade vai ficar... mas a dor vai ter fim..." Se houvesse alguma possibilidade disso ser verdade, seria nos braços daquele rapaz, pois só ali, Jensen se sentia em paz.
A campainha da porta tocou e Jensen levou alguns instantes para identificar de onde estaria vindo aquele som, pois estava fora da órbita da Terra, envolvido naquele abraço poderoso, que conseguia destruir qualquer traço de solidão existente em sua vida.
- Jared...
- Huumm...
- Acho que campainha está tocando...
- E daí?
- Eu também não quero sair daqui, mas tenho que ver quem é.
- E por que não vai?
- Bom, você tem que me soltar. – Jensen riu.
- Mas eu não quero soltar você.
- E eu não quero que me solte... nunca mais.
A campainha tocou outra vez.
- É, seja quem for, parece que não vai desistir, então acho que vou ter soltá-lo. – Jared falou, mas não liberou Jensen do seu abraço. Queria muito que ele soubesse o quanto era um cara legal e o quanto merecia ser feliz.
- Jay, eu estou bem. – O loiro falou suavemente. - Obrigado por você me entender... e me acolher. Não sabe quanto significa para mim.
Jared foi afrouxando o abraço, soltando Jensen devagarzinho. O loiro, por sua vez, quase se arrependeu e pediu para voltar para aqueles braços acolhedores, porém a campainha insistia em se manifestar e Jensen resolveu ir ver logo quem o estaria incomodando em pleno domingo à tarde sem prévio aviso. Levantou-se e foi atender.
- Misha?
- Jensen! Ainda bem. Assim você me deixa preocupado!
- O que você faz aqui? – Jensen estranhou, Misha ter ido até seu apartamento sem avisar, pois não era seu costume.
- Eu tenho um compromisso em NY amanhã de manhã bem cedo e vim hoje para me adiantar. Liguei para você tentando avisar que eu estaria na cidade, mas quem atendeu foi uma senhora, que começou a me dar uma explicação meio confusa do porquê ela estava com seu celular e a ligação caiu logo após ela me dizer que houve um tumulto numa manifestação. O que você acha que eu estou fazendo aqui? Fiquei preocupado. Vim saber como você estava. E aí? Posso entrar?
- Claro! – Só então Jensen percebeu que estavam parados à porta. Afastou-se para que Misha entrasse. Neste mesmo momento, Jared levantou-se do sofá indo em direção à cozinha, para deixar o loiro mais à vontade com sua visita. Misha o viu e reparou nos vários hematomas em suas costas.
- Jensen, me desculpe! Não imaginei que estivesse acompanhado. Por isso resolvi vir mesmo sem conseguir avisar.
- Está tudo bem, Misha. Não tem problema.
- Espero que todos aqueles hematomas não tenham sidos feitos por você. – Misha falou brincando e sorriu.
- Claro que não! – Jensen também riu. - É uma longa história. Venha, vou lhe apresentar ao Jared e te conto o que aconteceu.
- Tem certeza que não é melhor eu ir embora? Já vi que você está bem. Aliás, me parece ótimo!
- De jeito nenhum, meu amigo. Fique e tome um café com a gente ou pode ser uma cerveja se você quiser.
- Ok. Um café, eu aceito.
Jensen entrou na cozinha, seguido por Misha e encontrou Jared sentado à mesa com o celular que o loiro havia lhe emprestado na mão.
- Ei, Jared! Está tudo bem?
- Sim. É que eu acho que o celular que você deixou com a Loretta deve ter descarregado, porque tentei falar com ela agora, mas a ligação não se completou.
- Se você quiser podemos ir até lá.
- Obrigado, mas não é preciso. Vou embora amanhã cedo mesmo.
- Então deixe eu te apresentar o meu amigo Misha. – Jensen afastou para que os dois se aproximassem. – Este é o Jared. Nós estamos... nos conhecendo. O loiro não quis ser mais específico para não constranger o rapaz. Afinal, um relacionamento com um homem era novo para ele.
Jared levantou-se, apertou a mão de Misha e deu um daqueles seus lindos e simpáticos sorrisos. O psicólogo gostou dele na hora.
- Como vai? Desculpe ter chegado sem avisar. Eu liguei para o Jensen e não consegui falar com ele. – Misha falou ao cumprimentar o moreno.
- Cara, explica logo para ele porque seu celular não está contigo. – Jared falou para Jensen que ligava a cafeteira e colocava mais café para fazer.
Sentaram-se à mesa e começaram uma conversa agradável, Misha estava muito satisfeito com o que estava vendo. Jensen parecia outra pessoa perto de Jared, ou melhor, Jensen parecia, o Jensen que ele conheceu há anos atrás.
Seus olhos estavam brilhando, ele estava falante e... sorridente. Jensen estava sorrindo! Misha nem queria saber quem era Jared. Já era seu fã, só pelo que ele conseguia fazer por Jensen. Ele o fazia sorrir abertamente, outra vez.
E ficou observando os dois juntos, enquanto lhe contavam o porquê do celular de Jensen não estar com ele quando havia ligado. Pareciam estar num mundo só deles. Trocavam olhares e sorrisos que eram somente de um para o outro. Jensen tocava em Jared com naturalidade, como se sempre tivera feito isso. O rapaz, por sua vez, retribuía os toques nas mãos, ombros, rosto, de forma carinhosa e espontânea.
Misha entendeu que Jared era o rapaz que Jensen mencionara na conversa que tiveram antes, embora ele não tenha entrado em muitos detalhes, e estava com vontade de dar um abraço em Jared, pela transformação que fizera em Jensen.
Conversaram por mais ou menos uma hora e Misha se despediu. Havia ganhado o dia, só por tê-los visto juntos. Estava feliz porque gostava muito desse amigo e se condoia por ele ainda não ter se recuperado e retomado sua vida após a morte de Ty. Ele merecia muito ser feliz depois de tudo que havia passado. E, pelo que foi possível entender, já que a história lhe foi contada por alto, Jared também merecia. E o rapaz era lindo! Além de muito simpático e bem humorado. Dava para ver o quanto Jensen estava encantado por ele.
Quando o loiro fechou a porta de seu apartamento despedindo-se, Misha levantou uma das mãos e socou o ar, em comemoração aos sinais de retomada de vida que viu em Jensen. Torcia para que tudo ficasse bem e os dois pudessem viver um grande amor.
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Depois que Misha se foi os dois voltaram para sala e apesar de Jensen ter ligado a tv, nenhum deles prestava atenção à ela.
Jared deitou-se no sofá com a cabeça no colo do loiro e ficaram conversando sobre coisas diversas. Falavam de coisas do dia a dia e de coisas que gostariam de fazer ou de viver. Perguntavam um para o ouro sobre suas vidas.
Jensen, contou que era professor de matemática, antes de ser policial e que gostava muito de dar aulas. Falou, sobre como foi doído perder Ty de modo repentino e, mesmo sem querer falar no assunto, contou como essa perda o levara a ter uma depressão difícil de debelar, contra a qual lutava dia após dia. Jared ouvia a tudo atentamente e enchia Jensen de carinhos e beijos, fazendo o possível para demonstrar, que compreendia seus sentimentos e que estava ali, para confortá-lo e animá-lo e quem sabe fazer com que ele visse a vida em cores novamente.
Também contou como sua família reagira ao ficarem sabendo que era gay e isso causou muita indignação em Jared, que disse que um dia ainda iria encontrá-los e dizer a eles o quanto haviam perdido por não terem o homem maravilhoso que Jensen era, ao lado deles. O loiro, vendo Jared falar de modo tão decidido, achou encantador ele querer defendê-lo. Inclinou-se e beijou apaixonadamente seus lábios tão doces.
As horas foram passando sem que eles sentissem, a conversa fluía fácil e ainda tinham os intervalos recheados de beijos e muito carinho. A noite chegou, trazendo o frio consigo e o loiro apanhou um edredon para se esquentarem no sofá.
Jensen admirava cada vez mais a determinação daquele jovem à sua frente. Cada vez que Jared falava, das dificuldades que passava morando na rua com três crianças, o loiro tinha ímpetos de juntar todos eles e trazer para morar em seu apartamento. "Como esse rapaz, ainda tão novo, consegue encontrar forças para segurar uma barra tão pesada e ainda assim se manter íntegro, com uma alma leve, um humor saudável e esperança no futuro?" Jensen o achava um ser humano raro.
Sem contar, que era emocionante ouvir o jeito que Jared falava de cada irmão, como ele conhecia as particularidades de cada um e como cuidava de todos com carinho e imenso amor.
O moreno também disse a Jensen do sonho de reencontrar a irmã de sangue, que fora separada dele quando ainda era bem pequena. Talvez ela nem se lembrasse dele, mas ele se lembrava dela e gostaria muito de revê-la.
Apesar de tudo isso, Jensen percebia pequenos furos, quando enxergava a história que Jared contava de forma mais geral. Os fatos narrados separadamente faziam sentido, mas quando juntos, era possível perceber que faltavam pequenos pedaços. Ao questionar o moreno, sobre essa ou aquela parte que não havia entendido, ele assumia uma posição defensiva e ficava evasivo.
Esquentaram a comida e jantaram tomando cerveja. Viram um pouco de tv e então Jensen, que havia pensado num jeito de fazer a pergunta durante toda tarde, resolveu que não tinha jeito certo. Era perguntar e torcer para que Jared saísse do módulo defensivo, confiasse nele e lhe contasse a verdade. O instinto de detetive do loiro apitava cada vez que Jared dizia que tinha sido adotado pela mãe das crianças, de quem agora cuidava. Desde a primeira vez que ouviu isso, Jensen achava que faltava uma pecinha na história. Então resolveu arriscar e ser direto. Esperava que fosse algo possível de resolver, pois queria ajudá-lo independente do que fosse. Encarou os olhos verde-azulados de Jared e torceu para que ele lhe contasse a verdade.
- Jay, eu quero lhe pedir uma coisa, mas não quero que você se zangue.
- E por que eu me zangaria?
- Porque eu quero pedir a você que me conte a sua história... a de verdade. Seja qual for, pode confiar em mim.
Jared levantou-se, andou até a janela e a abriu, deixando uma lufada de vento frio entrar. Sabia que em algum momento teria que encarar Jensen com esta questão. Tentava avaliar se deveria se abrir com ele. Virou-se e encarou o loiro.
- Por que você não acredita no que eu te contei? O que exatamente você quer saber?
- Eu acredito no amor que você sente por seus irmãos, não tenho dúvidas disso. O que quero saber é por que você não tem a documentação deles? Por que vocês não têm nenhum parente? Por que vocês, até hoje, não se fixaram em uma cidade? A impressão que eu tenho com o que você me contou, é que vocês estão sempre em fuga. Por que Jared? Do que vocês estão fugindo? Confie em mim com a verdade e eu farei tudo que puder para te ajudar.
- Eu vou contar, mas sei, pelo pouco que lhe conheço, que você não vai concordar com o que eu fiz. Só quero que você saiba que na hora me pareceu a decisão correta a tomar e desde então, eu me pergunto se caso eu tivesse outra chance, se faria igual. Quase sempre respondo que sim, mas há uma parcela minha que sente uma grande culpa por ter exposto as crianças a uma vida tão cruel. Eu me preocupo o tempo todo com isso e faço tudo que posso por elas.
Jared respirou fundo, sentou-se e começou a falar, contando a Jensen, em detalhes, tudo o que aconteceu desde o dia em que completara 18 anos. Desde o dia do incêndio no abrigo em Lawrence. Jensen ouviu a história com atenção e achou inacreditável que Jared tivesse tomado tal atitude.
- Espera aí, você está com essas crianças desde então? Peregrinando de cidade em cidade, sem nem ao menos tentar resolver o problema? Jared isso é uma loucura!
- Jensen não é assim tão simples. Durante todo esse tempo o que mais fiz foi tentar pensar numa solução para essa situação, porém tudo que eu consegui foram becos sem saída.
- Como assim becos sem saída? Era só procurar um abrigo. Para começar você nem deveria ter tirado as crianças da onde estavam. Devia tê-las entregue para assistência social. Elas teriam tido uma vida melhor, mais segura! Você também teria tido melhores chances. Isso era a coisa certa a se fazer. – Jensen não conseguia entender porque Jared não enxergava o óbvio.
- Você não consegue entender que...
- Não há o que entender nessa história Jared!
- É claro que há! Mas talvez você não consiga ver porque sua vida é vazia, você não ama ninguém! – A voz de Jared soou magoada. Jensen estava sendo implacável. Até achou que ele não concordaria com o que fizera, mas nunca pensou que seria assim tão duramente criticado. Acreditou que ele entenderia todas as emoções envolvidas na situação. Se enganou. – Você perdeu o sentido de família. Não sei se foi por tudo que aconteceu contigo ou se você sempre foi assim...
- A questão não é essa. – Jensen o interrompeu, pois lhe doía ouvir o que o moreno falava. – As crianças poderiam ter tido uma família de verdade!
- Nós somos uma família de verdade! Você é que não consegue ver isso! Eu sei que elas teriam mais conforto, se eu simplesmente tivesse ignorado o amor que as unia e as levado direto até um abrigo. Mas elas teriam crescido longe uma da outra e não manteriam o laço emocional saudável que têm. E você não sabe o que está dizendo, porque não tem a mínima ideia do que é viver num abrigo!
- Jared, entenda que isso é mais uma carência sua do que delas. O que elas precisavam era de um lugar seguro para crescer. E de alguma forma, teriam criado outros laços com outras pessoas. É assim que é a vida.
- Você só diz isso por que não teve coragem de procurar sua família em todos esses anos. Você vive sozinho, num apartamento vazio, sem conseguir lidar com suas próprias emoções. Você precisa de mais coração!
- E você precisa de mais cérebro!
Se encararam por um instante e Jared saiu em direção ao quarto. Jensen serviu-se de uma dose de uísque e sentou no sofá tentando acalmar-se.
Jared se trocou, colocando as suas roupas que já estavam limpas e secas. Calçou seus chinelos e pegou a caixa com o anti-inflamatório que estava tomando. Iria levar, depois pagaria Jensen.
Entrou na sala e viu o loiro sentado no sofá, com a cabeça para trás apoiada no encosto e os olhos fechados. Teve vontade de pedir desculpas por tudo que disse, nem de longe pensava tudo aquilo sobre Jensen, mas estava com as emoções a flor da pele e achou melhor evitar mais discussões. Não iria fazer bem a nenhum dos dois.
- Eu agradeço pela acolhida, vou levar o remédio, eu não tenho nenhum dinheiro aqui, mas te pago assim que possível.
- Ei, ei! Aonde você vai?
- Vou voltar para o acampamento, é claro. São só alguns quilômetros, dá para ir andando.
- Jared, não precisa sair assim. Já é tarde e está muito frio. Fique. Amanhã eu tenho que estar bem cedo na delegacia, mas estarei aqui na hora do almoço e levo você de carro até lá. Posso também te ajudar a resolver o problema das crianças.
- Não Jensen, você não pode. Para isso, você teria que compreender o sentimento que nos une.
- Tudo bem, então. Conversamos mais sobre isso depois. Mas durma aqui, amanhã eu levo você ou se preferir te dou o dinheiro para que pegue um táxi. Você já está um pouco melhor, porém não deve fazer o esforço de andar até lá. Pode prejudicar a sua recuperação.
- Eu não quero dinheiro. E estou acostumado a caminhar, não é tão longe assim. Eu posso ir andando devagar. Em umas duas horas estarei lá. Não precisa se preocupar. – Jared foi falando e se encaminhando para porta.
- Jay, não vá. – Jensen segurou o moreno pelo braço e amansou a voz. – Seja sensato, não vá prejudicar sua saúde por causa de teimosia. Durma aqui e amanhã bem cedo você vai. Por favor, fique.
Jared respirou fundo buscando calma e alguma clareza de pensamento. Sua vontade, naquele momento, era de ver seus irmãos e abraçá-los. Sentir-se protegido pelo amor deles e reafirmar-lhes que nunca os abandonaria. Porém, sabia que Jensen estava certo. A caminhada até ao acampamento no frio da noite não lhe faria nada bem. Ainda sentia dores e, para ser sincero, não queria ir embora brigado com Jensen. Mesmo que não fossem mais ficar juntos, não precisavam se separar com brigas.
- Ok. Eu durmo aqui e vou embora amanhã bem cedo.
- Ótimo. – Jensen não sabia bem o que dizer. Só queria que ficassem bem. – Eu vou buscar algo mais quente para você vestir e ligar o aquecedor no quarto. – E saiu da sala deixando Jared sozinho com seus pensamentos.
O loiro demorou no quarto, tentando controlar uma certa aflição que estava querendo se apossar dele. Respirava fundo e soltava o ar devagar. Dizia a si mesmo para ficar calmo que toda aquela situação teria jeito. Não queria perder Jared, mas não concordava com o modo que ele havia agido na história com as crianças. "Vou me manter tranquilo e vou convencê-lo a fazer a coia certa."
Jared, de repente, sentiu-se cansado. Era como se o fato de ter contado a história para Jensen, tivesse escancarado a porta de algo que ele só olhava por uma greta. Sabia que cedo ou tarde teria que resolver aquela situação, mas como não queria separar as crianças e nem se separar delas, seguia tentando encontrar um jeito que não fosse entregá-las em um abrigo qualquer.
Deitou-se no sofá e ficou quieto, estalando os dedos das mãos e pensando no que fazer. A descarga de conflituosas emoções, o exauriu. Então, adormeceu.
Jensen demorou um tanto para voltar à sala. Quando o fez encontrou Jared dormindo encolhido no sofá. Queria chamá-lo para dormir no quarto onde ficaria mais aquecido e confortável, mas achou melhor deixá-lo descansar. Ajeitou sobre ele o edredon e lhe fez um carinho nos cabelos. "Você é um jovem forte e decidido. Ainda não consegue ver o engano que cometeu, mas vamos conversar de cabeça fria e vou convencê-lo a fazer o melhor para todos."
Quanto a si próprio, sabia que não conseguiria dormir tão cedo. Pegou a garrafa de uísque e levou para o quarto.
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Quando Jared acordou, ainda estava escuro. Dobrou o edredon e deixou sobre o sofá. Foi até a cozinha, serviu-se de um pouco de leite e também pegou uma maçã. Iria caminhar por mais de duas horas, não tinha como fazer isso de estomago vazio. Pegou o anti-inflamatório, tomou um comprimido e colocou o frasco, com o restante do remédio, no bolso da bermuda. Procurou uma caneta e um pedaço de papel para deixar um bilhete para Jensen.
Lamento por não concordarmos.
Obrigado por tudo que fez por mim, nunca esquecerei.
Jay
Deixou o bilhete sobre a mesa da cozinha.
Foi até o quarto e ficou na porta vendo Jensen dormir por um instante. Teve vontade de entrar e lhe fazer um carinho, mas achou melhor não, ele poderia acordar e então seria muito difícil ir embora. Jogou-lhe um beijo de longe e se foi.
Jared viu o sol nascer enquanto andava para seu destino. Em seu pensamento, apenas o desejo de encontrar seus irmãos e abraçá-los. Estava bastante difícil caminhar naquele frio, seus pés estavam congelando. Ainda bem que não viera à noite, teria sido pior. Procurou caminhar bem rápido, quase correndo um pouco, para se aquecer. Ficou aliviado quando chegou à última quadra antes do acampamento. Agora faltava pouco. Já deviam ser umas sete horas.
Ao virar a esquina da rua, Jared viu algo que o fez correr desesperadamente em direção ao acampamento. Chegando ao local exato onde ficavam as barracas, levou as mãos à cabeça completamente desnorteado. Não havia mais acampamento. O lugar onde estavam cerca de cinquenta barracas, encontrava-se completamente vazio.
Continua...
A você Mary, minha linda beta, um abraço bem apertado, daqueles que se consegue sentir o coração do outro batendo. Você sabe porque.
