DOCE DEZEMBRO
Capítulo 11
Ikki correu o máximo que pôde para que o lanche não chegasse tão frio. Quando finalmente chegou ao seu destino, teve a impressão de que correu à toa, pois tocava a campainha na casa de Hyoga e não parecia haver sinal de que tinha alguém lá dentro. Já estava desistindo quando avistou o jovem escritor ao longe, caminhando lentamente e com o olhar distante e perdido. Ikki ficou então observando-o, com uma incômoda sensação de que algo não estava certo. Ao aproximar-se um pouco mais, Hyoga deu-se conta de que Ikki estava à porta de sua casa e, no mesmo instante, pareceu fazer um grande esforço para esconder o sofrimento que se enxergava há poucos minutos em seus olhos.
- Ficou esperando muito tempo aqui fora? – perguntou Hyoga, assim que chegou a uma distância que permitia que Ikki o ouvisse.
- Não, cheguei faz pouco tempo.
- Menos mal. Está frio, então é melhor entrarmos logo.
- Não estou com frio, mas acho que o almoço que eu trouxe já era.
Hyoga tinha acabado de abrir a porta e dava passagem para Ikki entrar. Foi então que percebeu o pacote que ele segurava.
- Almoço?
- É, mas acho que já esfriou.
Ikki dirigiu-se à mesa e depositou ali o pacote. De dentro dele, retirou um dos sanduíches.
- É... – suspirou, contrariado – Acho que você não vai querer comer um cachorro-frio.
- Não acredito! – disse Hyoga, aproximando-se da mesa e pegando o sanduíche – Você foi ao parque comprar aquele cachorro-quente?
- Fui; mas não serviu de nada.
- Como não? Esse cachorro-quente é sublime até quando está frio! – riu Hyoga.
- O que me dá mais raiva é que isso também é culpa dele. – resmungou Ikki.
- Culpa de quem?
- Do meu ex-chefe. É uma longa história.
- Sou bom ouvinte.
Ikki olhou para Hyoga. O escritor russo parecia realmente interessado em ouvir o que ele teria para dizer. Ikki não era acostumado a ter uma conversa desse tipo com tanta facilidade, mas ao sentir-se envolvido por aqueles olhos azuis que lhe passavam tanta segurança, logo começou a falar sem grandes dificuldades.
Basicamente, Ikki contou a Hyoga toda a história referente a Seiya da mesma forma como havia contado a Shun, demonstrando sua imensa perplexidade ao saber que Saori Kido foi capaz de colocar um "desconhecido qualquer", que era como ele se referia a Seiya agora, em um cargo tão importante. Em seguida, foi tecendo comentários a respeito do diretor-geral da mesma maneira que o fez com Shiryu, indignado com as colocações de Seiya e seu modo de ver a vida. Terminou dizendo exatamente o que havia acabado de falar para seu ex-colega de escritório:
- ... e esse diretor-geral-hippie vai afundar as empresas Kido em dois tempos. Não tenho dúvidas disso.
Hyoga ficou quieto durante toda a explanação de Ikki. À medida que o ouvia, percebia que sua primeira avaliação do jovem executivo, que vivia para trabalhar, estava correta. É, pelo visto, ainda não perdi o jeito. E, se eu estiver mesmo certo, isso vai demorar mais tempo do que eu tenho. Vou ter que procurar uma abordagem mais direta.
- Acho que consegui aborrecer você, não é mesmo? – disse Ikki, ao ver que Hyoga permanecia calado.
- Aborrecido? Não, de forma alguma... Estava apenas pensativo.
- E no que estava pensando? – perguntou Ikki, antes de comer o último bocado de seu sanduíche.
- Bem... Você não acha estranho ter tanta raiva de alguém que mal conhece?
- Não, não acho. Com você não foi assim? – brincou Ikki.
- Sim, foi. E creio que nos enganamos. Fizemos mal juízo um do outro.
- Você tem algo para beber? Me deu sede. – Ikki, desconfortável com a situação, tentava desviar o foco da conversa.
- O fato é que seu amigo pode estar certo. Essa mudança que o novo diretor quer implementar pode não ser tão ruim quanto você pense.
- Isso está parecendo um complô... – resmungou Ikki – Será que posso beber um copo d'água agora?
Hyoga viu que não iria chegar longe desse jeito. Toda vez que tento forçar a barra, não dá certo. Não posso agir desse jeito, não vai funcionar. Mas estou ficando sem tempo... Droga!
Enquanto pensava no que fazer, Hyoga foi até a geladeira e encheu um copo com água gelada para Ikki. Entregou a ele sem dizer nada, ainda tentando encontrar um meio de resolver essa situação.
- Desculpe. – disse Ikki, ao receber o copo – Não queria discutir com você.
- Tudo bem. Acho melhor deixarmos esse assunto para lá, então.
- É... – Ikki claramente gostou dessa proposta – Você não tinha uns textos para me mostrar?
- É mesmo, já estava me esquecendo. – respondeu Hyoga, fazendo um gesto para que Ikki o seguisse.
Os dois seguiram pelo corredor que Ikki, no dia anterior, imaginava como sendo o que levava para os quartos. Ele pôde ver que estava certo: aquele corredor dava em 3 quartos e 1 banheiro. Entraram no quarto que parecia ser uma espécie de escritório. Havia ali uma escrivaninha coberta de papéis, um sofá aconchegante, e mais estantes repletas de livros.
- É aqui que você escreve?
- Sim. Apesar de que não tenho escrito muito nos últimos tempos. – falou Hyoga, em tom de desabafo.
- Está com bloqueios ou algo do tipo?
- É, podemos dizer que sim. Bom, aqui estão os mais recentes. – e passou a Ikki uma pasta azul cheia de papéis – Não repare; a maioria desses textos estão inacabados.
Ikki pôde ver que Hyoga não escrevia apenas poesia, pois ali tinha um pouco de tudo: poemas, crônicas, histórias que poderiam ser fictícias ou não, ensaios, pensamentos diversos acerca de variados assuntos...
Sentou-se no sofá e começou a ler o escritos de Hyoga. Enquanto isso, o jovem escritor dirigiu-se a uma prateleira da estante, pegou alguns livros e sentou-se no sofá ao lado de Ikki.
- Para quê esses livros? – indagou o moreno.
- Quero te mostrar alguns livros que me inspiraram a escrever alguns desses textos.
- Pensei que a inspiração era uma musa que surgia de uma hora para outra, do nada... – disse Ikki, sorrindo.
- Às vezes. Em outros momentos, eu me inspiro lendo textos de outras pessoas. – falou o rapaz russo, retribuindo o sorriso.
E assim, por toda aquela tarde, os dois rapazes conversaram sobre literatura, cinema, teatro, música... Hyoga era bastante versado em todos esses temas e conversar com ele era muito agradável, tamanha era a sua paixão pelas artes. Ikki ouvia e ficava realmente encantado com tudo o que Hyoga contava, e mais ainda pelo modo como ele falava. Não era a primeira vez que o jovem executivo conversava a respeito desses assuntos, afinal, em várias ocasiões, ele tivera de usar essas "amenidades" – como ele gostava de chamar esse tipo de assunto – para quebrar o gelo com os clientes antes de começar a falar de negócios. Entretanto, Hyoga conseguiu despertar em Ikki um interesse tão real nessa conversa que ele, pela primeira vez desde que era capaz de se lembrar, pôde usufruir de um momento como aquele.
A conversa entre eles estava tão animada e interessante que nem viram o tempo passar. Como na casa de Hyoga não havia relógios – e Ikki tinha esquecido seu relógio de pulso em seu apartamento mais uma vez – não sabiam que horas eram quando sentiram fome e decidiram comer algo.
- O que está com vontade de comer?
- Não se preocupe comigo. Eu como o que você tiver por aí.
- Bom... O que eu tenho e sou capaz de fazer é macarrão instantâneo. Serve?
- Como assim? Você não sabe cozinhar? – perguntou Ikki, divertido.
- Eu sou capaz de fazer o suficiente para não passar fome.
- Quem diria... – falou Ikki, levantando-se da cadeira em que estava – Deixa eu dar uma olhada aqui. – e começou a ver o que tinha dentro dos armários e da geladeira de Hyoga.
- O que está fazendo?
- Estou vendo o que dá para fazer com o que você tem aqui.
- Ah, grande coisa... você sabe cozinhar. – falou Hyoga, brincando.
- Digamos que sei fazer alguns pratos. Massas, de maneira geral. Ah, veja que maravilha. Podemos fazer uma lasanha.
- Eu adoro lasanha.
- É mesmo? – Ikki precisou fazer um esforço para que Hyoga não visse o imenso sorriso que surgiu em seu rosto. Sentiu-se feliz por saber fazer algo que era do agrado do escritor. - Então aguarde, porque você está prestes a descobrir o que é uma iguaria realmente sublime.
- Você pensa que eu não sei o que é uma iguaria sublime só porque eu vejo a beleza nas pequenas coisas, como um cachorro-quente, um macarrão semi-pronto ou um ovo frito?
- Acho. E isso tudo que você falou parece desculpa de quem não sabe cozinhar. – Ikki sorria enquanto falava e preparava, habilmente, a lasanha.
- Tudo bem, confesso que sou realmente uma negação na cozinha. – riu Hyoga.
Os dois continuaram conversando no mesmo clima leve e agradável até que a lasanha ficou pronta. Hyoga abriu um vinho tinto para acompanhar o prato enquanto Ikki servia um pedaço generoso para cada um.
- Se o sabor for tão bom quanto o aroma, vou colocar aquele cachorro-quente em segundo lugar na minha lista de tipos de comida preferida.
- Que pena para o cachorro-quente, então! – brindou Ikki.
Após uma deliciosa refeição, os dois jovens conversavam um pouco mais alegres, devido ao vinho, quando o assunto enveredou, sabe-se lá como, para a veracidade das coisas sobre as quais Hyoga escrevia.
- Essa é uma dúvida que eu acho que muitas pessoas devem ter. Afinal, vocês, escritores, escrevem sobre acontecimentos da vida pessoal ou são meros espectadores da vida alheia?
- Eu já disse para você, Ikki. É uma mistura das duas coisas, pelo menos no meu caso.
- Sim, eu sei, mas se você pudesse me dizer qual das duas prevalece, seria interessante para saber se você fica mais na sua ou se é um bisbilhoteiro mesmo... – falou um alegre Ikki.
- Hum... se eu tivesse que analisar assim, rapidamente... Acho que escrevo mais sobre mim. Mas não tenho certeza.
- Então, aquele poema que eu li ontem, que eu gostei bastante... É sobre você?
- Como assim, Ikki? De que poema você está falando?
- "Ame um se quiser, ame vários se puder"... "O amor não tem hora marcada"... É isso mesmo que você pensa?
Hyoga ficou atônito por alguns segundos. Aonde ele queria chegar com essa pergunta? Era possível que Ikki estivesse um pouco alterado, pois bebera bem mais que Hyoga durante o jantar. Mas o moreno olhava seriamente para Hyoga, que não sabia ao certo como se comportar diante dessa desconcertante pergunta.
- Ora, Ikki... – falou, por fim – Como já disse um grande escritor... O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.
- Mas será possível que toda vez que eu te fizer uma pergunta assim você vai citar um poema ou algo do tipo pra me responder? – Ikki, que já tinha passado por algumas situações semelhantes a essa naquela tarde, buscava intimidar Hyoga para ver se conseguia uma resposta mais concreta dele dessa vez.
- Qual o problema? Estou respondendo de todo modo, não estou?
- Não, porque não são palavras suas, não é uma resposta sua.
- Claro que é uma resposta minha. Só que existem momentos em que é mais fácil se expressar dessa maneira. Quando se vive reprimido, a arte pode ser um meio interessante de você dizer o que pensa e sente.
- Você se sente reprimido?
- Já me senti. – foi apenas o que Hyoga conseguiu responder, pois Ikki havia se aproximado de tal forma que o jovem loiro só pôde calar-se para ver o que iria acontecer.
- Considerando tudo o que disse, me parece que você, como poeta, é um fingidor que chega ao ponto de querer fingir para que a verdade que você sente pareça mentira. – Os olhos de Ikki eram penetrantes e densos. Hyoga não conseguia desviar seus olhos dos dele – Então, acho que consegui a resposta que buscava... Você também acha que não existe hora marcada para certas coisas acontecerem... Porque elas... simplesmente... acontecem... – Ikki falou essa última frase com sua voz rouca, quase num sussurro, fazendo com que Hyoga sentisse um arrepio a percorrer-lhe o corpo. O rosto de Ikki já estava muito perto do de Hyoga, que àquela distância, já sentia o calor emanado pelo corpo do jovem moreno, que se mostrava incrivelmente sedutor.
- Ikki, eu não sei se... – a parte de Hyoga que ainda conseguia ser um pouco racional tentou reagir, mas foi calada por completo pelos lábios quentes de Ikki.
O beijo entre eles começou devagar, mas logo já se percebia uma ânsia aumentando de ambos os lados e o beijo se intensificava com sofreguidão. Ikki passava as mãos pelos cabelos dourados de Hyoga, acariciando-os, quando sentiu seus dedos se prenderem, sem querer, a uma correntinha que estava no pescoço do escritor.
Os dois riram com a situação e Hyoga rapidamente tirou a corrente, à qual estava preso um crucifixo, que ficava por baixo de sua camisa.
- Eu não sabia que era religioso. – disse Ikki, um pouco surpreso e sem conseguir retirar os olhos do crucifixo.
- Tenho um lado espiritual, mas não sou religioso. Essa é a Cruz do Norte e foi presente de minha mãe, por isso ando com ela. – falava Hyoga, enquanto tentava retomar a situação que fora desastrosamente interrompida, acariciando o rosto do belo moreno que mantinha os olhos presos ao crucifixo.
Ao ouvir o comentário de Hyoga, Ikki levantou os olhos e encontrou aquele olhar azul-celeste. No mesmo instante, seu rosto assumiu uma expressão confusa que logo tomou conta de todo seu corpo, fazendo-o levantar-se abruptamente da cadeira em que estava sentado.
- O que foi, Ikki? – perguntou Hyoga, preocupado.
- Eu... eu preciso ir embora... Me lembrei que tenho um compromisso...
- O quê? – falou Hyoga, levantando e indo atrás do moreno que já vestia seu casaco para sair – Como assim, compromisso? Ontem mesmo você me falou que estava à toa.
- É, eu me enganei. Enfim, preciso mesmo ir.
Hyoga olhou para Ikki como quem não entendia nada. Entretanto, não estava em seus planos pedir para que o outro ficasse quando estava claro que ele desejava partir. Hyoga nunca precisara fazer isso, na verdade, era o contrário que costumava acontecer. Então, com uma expressão fria em seu rosto, dirigiu-se à porta, abriu-a e disse:
- Boa noite, Ikki.
Ikki sentiu a frieza nas palavras do escritor, mas não disse nada. Apenas saiu, apressadamente, para entrar logo em seu carro e ir embora daquele lugar.
Continua...
N/A: O escritor a que Hyoga se refere é o grande poeta português Fernando Pessoa.
Lua Prateada.
