Depois de ter feito algum tempo de estrada, James estava de novo em Évora. Uma vez chegado, tinha descoberto que o monte de Emmett não era acessível de carro, só de jipe; por isso, estacionou, saiu e percorreu dois quilómetros a pé através de um pequeno caminho. Quando por fim chegou perto do monte, a casa surpreendeu-o. Era feita de madeira em bruto, lá isso era verdade, mas tinha um aspecto mais para o rústico. Um moinho girava com o vento, que constituía o único traço de actividade das redondezas. O dono do monte devia ser um ecologista dos quatro costados…
Fez um estudo rápido à região e confirmou que a zona era deserta. Melhor ainda, desta forma as coisas ficavam ainda mais simplificadas. Procurou um pequeno monte de terra, não muito longe da casa principal de forma a que daquele lugar pudesse ver tudo o que se passava. Ideal para a chegada dos visitantes.
James instalou-se o mais confortavelmente que pôde e esperou.
Desta vez não ia falhar.
Bella estacionou o 4X4 à sombra e anunciou aos outros que o resto do caminho tinha de ser feito a pé.
- É só uma pequena meia hora a pé – explicou.
- O teu Emmett mora verdadeiramente no fim do mundo! – observou o francês. – Pensava que a vida em pleno campo não tinha nada a ver contigo.
- Pelo Emmett faço um esforço.
Edward até estremeceu ao ouvi-la dizer aquilo e quase ia escorregando numa pedra que era maior do que as outras. Aquele Emmett começava a fazer-lhe perder a cabeça.
- E por causa dele és capaz de ir até onde? – perguntou com os dentes cerrados.
- Sou capaz de ir ao ponto de tomar um duche de água aquecida por painel solar – respondeu a rapariga, sentindo um arrepio ao lembrar-se de um famoso Inverno que lá tinha passado.
- Ele é, portanto, um ecologista a sério. É curioso, julgava-o um intelectual.
A advogada lançou-lhe um olhar malicioso.
- Emmett é doutorado em Literatura. Podia perfeitamente dar aulas em qualquer universidade, se o desejasse.
O francês começou a pensar que, provavelmente, teria sido melhor procurar outro lugar para se esconderem.
Quanto mais subiam a montanha, mais a vegetação se tornava densa. O calor dava lugar a um certo ar fresco e quando o rancho, finalmente, apareceu, a beleza das montanhas cortaram por completo a respiração de Edward. O silêncio profundo, que emanava da casa, deixava supor que não havia lá ninguém.
- Preveniste-o da nossa chegada?
Bella abanou a cabeça.
- Não valia a pena. Pensei que ele já estivesse em casa; o empregado tinha-me dito que ele devia vir logo na segunda-feira. Mas o Emmett também nunca fecha a porta à chave.
- E por que motivo não fecha a porta à chave, como todas as pessoas?
A advogada hesitou em responder. Tratavam-se de coisas que não gostava de se lembrar ou falar…
- Desde que o nosso pai o fechou dois dias dentro de um acabana ao fundo do jardim, quando ele tinha mais ou menos a idade de Daniel, a partir daí Emmett desenvolveu uma espécie de claustrofobia aguda e uma sólida aversão a tudo o que sejam chaves ou qualquer coisa que se lhe pareça.
Incrédulo, o francês reteve apenas um detalhe.
- "O vosso pai" – repetiu Edward.
- Sim. Emmett é o meu irmão mais novo; é por isso que o amo tanto.
- Então o teu pai era mesmo assim tão mau? – perguntou o garoto.
Bella hesitou, antes de responder. Não gostava de falar daqueles assuntos, que para ela eram tão dolorosos.
- Ele não tinha qualquer tipo de ternura por nós – acabou dizer quase num murmúrio – e os castigos que nos dava chegavam ao limite dos maus tratos. Emmett e eu andávamos sempre juntos. Éramos verdadeiros irmãos. Protegia-o como podia, mas assim que cresceu um pouco mais, fazia o mesmo comigo. A minha mãe acabou por pedir o divórcio. No entanto, como o nosso pai não suportava a ideia de deixar de ter controlo sobre os três, tivemos de andar a fugir durante anos e anos, mudando sem parar, de casa. Percorremos o país inteiro. Emmett e eu andávamos sempre juntos…
Edward ouviu tudo aquilo de coração apertado. De facto, já percebera que ela tinha tido uma infância dolorosa, mas nunca imaginara que fosse àquele ponto…
- Quando atingi a maioridade, pedi para tirar o nome do meu pai. Era uma coisa simbólica, eu sei, mas era muito importante para mim deixar de ter o nome dele.
O francês fez-lhe uma festa no rosto. Bella respondeu-lhe, pousando a sua mão sobre a dele, num gesto que significava que os sentimentos, quando são partilhados, valem mais do que qualquer palavra.
Daniel parou de andar e ficou a observá-los.
- Vocês vão beijar-se como no outro dia no cinema?
James já começava a desesperar. Já tinha passado muito tempo desde que ali chegara. Subitamente, pareceu-lhe que o vento lhe trazia o som de umas vozes. Espreitou. Três silhuetas humanas avançavam e pôde constatar que uma delas era uma criança. Tirou o revólver do bolso. Com a arma a seu lado, estava pronto para atirar e a distância era a ideal. Da última vez, tinha-se deixado agarrar, mas desta vez não ia ser apanhado na mesma aventura.
O primeiro a sentir o perigo foi Edward. Habituado aos grandes passeios em altitude, o seu ouvido estava preparado para ouvir o mínimo barulho que perturbasse a Natureza. Ouvira o som de um revólver a ser preparado para disparar. Fez um sinal aos outros dois para pararem. Algo lhe dizia que estavam a observá-los.
- Fica com o Daniel e escondam-se – murmurou.
- Não quero deixar-te sozinho.
- Está ali alguém armado. Fazes o favor de fazer o que te digo – insistindo com Daniel, para que ele lhe obedecesse.
"Ele tinha razão", pensou a jovem. Fosse quem fosse que ali estivesse, era Daniel que ele queria. Quem estava ali em perigo era o miúdo. Por isso, era ele que tinha de ser protegido.
Pegou na mão da criança.
- Adoro-te – balbuciou a jovem.
Como resposta, ele deu-lhe um beijo nas pálpebras e, ajoelhando-se junto ao filho disse:
- Tu vais com a Bella e fazes tudo o que ele te disser, está bem? Dentro de pouco tempo, juro-te que tudo já estará resolvido.
O garoto disse que sim com a cabeça, com um ar tão grave, que a rapariga, mais uma vez, sentiu-se emocionada.
Bella pegou com toda a ternura na mão de Daniel e dirigiram-se para o caminho indicado pelo pai.
As vozes da jovem e do francês chegavam até ele, sem que James conseguisse perceber o que diziam. Arriscou uma olhadela. Estupefacto, viu que Edward avançava para ele.
Não, tudo menos isso! Daniel Cullen Black não ia voltar a escapar-lhe mais uma vez.
Esquecendo-se de toda a prudência, o detective precipitou-se para fora do esconderijo.
- Pára, Cullen! As mãos no ar!
Estavam apenas a alguns metros um do outro. Edward parou e fitou os olhos de James, enquanto levantava os braços lentamente.
- Chama o teu filho!
- Não.
Calmo e seguro de si, Edward olhava-o como se tivesse acabado de recusar um convite para tomar chá. Que fazer? James nunca tinha morto ninguém e não estava nada interessado em começar naquele dia. Talvez se atirasse por cima da cabeça…
Distraído com os seus pensamentos, descurou a vigilância sobre o adversário. Era exactamente desse momento que Edward estava à espera. De um só golpe, atirou-se para cima do detective e agarrou-lhe na mão que tinha a arma. James perdeu o equilíbrio e os dois homens rolaram no chão.
Assim que se afastou do monte, a jovem sentiu-se em terreno desconhecido. Tinha estado muitas vezes em casa do irmão, mas passava a maior parte do tempo a ler confortavelmente à sombra. Dava alguns passeios, mas nunca de aventurava a ir muito longe, pois o medo que tinha do vazio impedia-a de ir mais longe.
- Daniel! Tem cuidado, toma bem atenção onde pões os pés!
Armado em sabichão, o garoto saltava de monte em monte, como se fosse uma cabra montesa. Como criança que era, não tinha a noção do perigo que corria e, por isso, não tomava qualquer precaução. Bella tinha acabado de torcer o tornozelo, devido aos altos e baixos do terreno. Bem que ela tentava seguir o ritmo do rapaz. Por diversas vezes, os pés resvalavam-lhe e via-se obrigada a agarrar-se aos arbustos que ia encontrando pelo caminho. Tinha as mãos completamente desfeitas.
- Vai mais devagar! – gritou inquieta. Daniel, aten…
O seu aviso foi abafado por um grito e Daniel tinha acabado de desaparecer da sua vista, num abrir e fechar de olhos.
O grito de Bella fez eco como o da criança. O mais rapidamente que pôde, aproximou-se do local onde ele tinha desaparecido.
Naquele sitio, o chão abria-se sobre uma ravina. Daniel tinha caído. Um ramo tinha amparado a queda do garoto, mas a jovem receava que não fosse suficientemente forte para aguentar o peso da criança.
- Bella! – balbuciou o miúdo.
A jovem esforçou-se para afastar os olhos das pequeninas mãos crispadas agarradas ao ramo e contemplou o fundo da ravina, onde passava um rio, 20 metros mais abaixo. Tudo ficou preto aos seus olhos e sentiu que ia perder o equilíbrio.
Apertou os dentes uns contra os outros. Não podia deixar que as vertigens tomassem conta dela. Concentrou o seu olhar na distância que a separava de Daniel.
- Não entres em pânico. Estou a chegar.
James compreendeu que, tendo as mãos livres, não ia conseguir levar a melhor ao francês. Tacteou o chão à procura de uma pedra e, quando a encontrou, bateu com a pedra na cabeça do adversário, fazendo apelo a todas as suas forças. Edward deixou de ver e perdeu os sentidos. O detective levantou-se com esforço e começou a correr na direcção de onde tinha visto pela última vez a advogada. Mas depressa os pulmões pareciam rebentar. Uma raiz fê-lo derrapar e viu-se a escorregar e a cair de braços no ar, largando o revólver. Quando, por fim, se imobilizou, sentiu uma dor horrível na perna direita. Na tentativa de pôr-se de pé, as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Após ter engolido toda a vergonha, conseguiu dar um grito.
- Socorro!
Quando Edward recuperou a consciência, poderia jurar que tinha ficado horas naquele estado. No entanto, o relógio mostrou-lhe que tinham passado apenas alguns minutos. Antes que tivesse retomado totalmente a consciência, um grito rompeu a calma da floresta. Um grito que vinha de longe e que lhe era trazido pelo vento.
- Socorro!
Era a voz de Bella!
- Estou a chegar – gritou Edward, sem estar certo do lugar onde a advogada se encontrava.
Foi-se guiando pela voz da jovem. O seu coração batia descompassadamente. Estava com medo. Um medo terrível, só de pensar que alguma coisa pudesse ter acontecido às duas pessoas que mais amava no mundo. Naquela altura, já conseguia compreender as coisas com mais clareza: Bella tinha ocupado no seu coraçai a parte que Daniel não preenchera.
- Estou a chegar!
Desta vez, Bella tinha ouvido.
- Edward! Depressa! Não vou conseguir aguentar muito mais tempo!
À beira da ravina, o coração quase parou.
De barriga para baixo, Bella tinha subido para o tronco de uma árvore, correndo o risco de cair. Com o rosto obstinadamente virado para o céu azul daquela bela tarde, Bella não conseguia mexer nem um dedo.
Um pouco mais abaixo, o corpo de Daniel era sacudido por pequenos tremores. Quase não conseguia aguentar mais, agarrado a um ramo.
- Toma conta de Daniel – conseguiu dizer Bella com esforço. – Estou bem segura.
Descer a primeira parte foi para Edward um jogo de crianças. Foi até junto do filho e agarrou-o pelos braços. A criança, sem hesitar, largou o ramo. Agora já não tinha medo. O pai estava com ele.
Lentamente e com precaução, Edward subiu agarrado ao filho. Pouco lhe importava os arranhões que tinham…
- Vai depressa ajudar a Bella – disse Daniel, mal se sentiu em terra firme.- Ela sofre de vertigens.
Imóvel sobre o tronco da árvore, o corpo de Bella tremia como uma folha. A jovem parecia ser incapaz de pronunciar uma palavra. Se Edward se arriscasse a trazê-la para cima, no estado em que ela se encontrava, a advogada poderia perder o equilíbrio e cair sobre as pedras.
- Bella – disse-lhe com voz meiga – vai ser preciso que tenhas muita confiança em mim.
Com ternura e lentamente, falava-lhe em voz baixa. Falava-lhe dele e dela. Dos sentimentos que sentiam um pelo outro. O corpo da jovem relaxava e os tremores começavam a desaparecer. E, milímetro a milímetro, Bella ia recuando o suficiente para que o amado pudesse agarrá-la pelas pernas. Quando se sentiu em segurança, agarrou-se a ele com toda a força.
- Nunca mais me faças passar por uma coisa tão assustadora como esta – murmurou-lhe, com o corpo encostado ao da jovem. – Os ursos das ravinas… O que é que és capaz de inventar mais? Porque é que não me disseste que sofrias de vertigens?
- Queria impressionar-te – disse a advogada, com um sorriso apagado.
Quando Emmett entrou em casa, algumas horas mais tarde, percebeu imediatamente que tinha visitas.
- Bella!
Os dois irmão saltaram para os braços um do outro. Edward teve de repetir várias vezes para si próprio que aquele homem alto e moreno, de olhar tenebroso, com um corpo atlético, licenciado em Literatura, era o irmão da mulher que amava, e não seu rival.
- Senhor Cullen, um cliente meu francês.
Ao ver o sobrolho franzido de Edward, Bella completou:
- E também um amigo; enfim muito mais do que um amigo. Depois explico-te. Este é o seu filho Daniel. Viemos passar alguns dias contigo.
- Pelos vistos chegas com uma família inteira – disse Emmett com um grande sorriso. Estendeu a mão a Edward de forma calorosa.
- Os amigos de Bella também são meus amigos. Bem-vindos a minha casa!
Subitamente, um ruído estranho, vindo de um quarto vizinho, fê-lo arquear as sobrancelhas de imediato.
- Esqueci-me de te dizer… - continuou Bella – Trouxemos connosco um detective particular, que andava a perseguir-nos. Tentou raptar Daniel, ameaçou Edward com uma arma… mas, quando se viu sozinho, com um braço e uma perna partidos, tornou-se uma pessoa mais simpática. Edward já lhe fez uma tala e trouxe-o cá para casa…
- E é tudo? Não há nenhum bandido em fuga, nenhum espião infiltrado?
Bella reflectiu.
- Não, creio que é tudo.
- Então sentem-se. Vou preparar o jantar… totalmente vegetariano – explicou, dirigindo-se aos convidados.
Quando ia a caminho da cozinha perguntou a si mesmo porque todos estavam a rir.
Continua…
Olá a todos.
Mais um capítulo que está.
O próximo é o último.
Espero que tenham gostado deste capítulo que para mim é um dos mais emocionantes desta fic.
No próximo vai ser o julgamento para se saber com quem o Daniel vai ficar? O que acham? A Bella vai conseguir ganhar a causa, ou vai ser o poderoso Jacob Black?
Muito obrigada a todos os que têm deixado rewiens a esta fic, são eles que me fazem ter a inspiração para publicar os capítulos, pois mostram-me que vocês estão a gostar.
Até ao próximo capítulo.
Beijinhos
