Capítulo IX


Visita a Hogsmeade

Sofia acordou bem cedinho aquela manhã, o sol mal havia despontado atrás das montanhas e os pássaros começavam sua sinfonia tradicional. Era reconfortante acordar num lugar como Hogwarts. Após um banho demorado e relaxante na banheira de seu aposento, a professora de Duelos seguiu para o Salão Principal, onde se juntou a Peter para tomar o café da manhã, como passara a fazer desde a quebra da Maldição de Slytherin. Agora, nada impediria que ficassem juntos. Pela primeira vez em seis anos, eles estavam livres para cumprir seu destino, para viver o amor verdadeiro, leal e apaixonante que sentiam um pelo outro. Era tanta felicidade, que as vezes Sofia tinha a impressão de estar vivendo um sonho e não a realidade. Difícil era manter seu romance longe dos olhares de alunos curiosos, que passaram a observar tudo que os dois faziam nos horários de folga, por mais que procurassem manter a discrição.

- Ei Sofie, que tal me encontrar na Sala Precisa após meu turno de vigia dos corredores do sétimo andar? – Peter sussurrou com os lábios quase colados aos cabelos de Sofia e um sorriso estampado nos lábios.

- Peter! Comporte-se! – exclamou Sofia no seu tom mais suave de voz, rindo baixinho enquanto seu rosto assumia várias tons de rosa – Se alguém te escuta...

Snape que tomava o café da manhã apenas a duas cadeiras de distância, escutando a risada descontraída e ao mesmo tempo discreta dos dois professores, que riam por algum motivo que ele desconhecia e não fazia questão de saber, encarou os dois com o cenho fechado, fazendo uma expressão de repulsa.

- Não seja tão cruel com esse pobre professor de Magia Avançada, Srta. Gryffindor – disse Peter provocando Sofia – A menos, é claro, que você não se importe que eu apareça no seu quarto no meio da noite, correndo o risco de sermos vistos por olhares maldosos, como do nosso mais novo vigia... – com um sorriso irônico nos lábios, Peter acenou para Snape só para ter a satisfação de ver a reação dele ao perceber que estes sabiam que ele os vigiava – Parece que certas pessoas resolveram meter o seu enorme nariz onde não é da sua conta... – e para provocar ainda mais o professor de Poções, Peter tirou a xícara de café das mãos de Sofia e a beijou em pleno Salão Principal, repleto de alunos aquela hora, sem se importar se estes estariam ou não prestando atenção neles.

- Depois dessa, acho que ele vai parar de bisbilhotar – disse Sofia voltando a rir e tomou o restante do café num único gole – Agora preciso ir, ou vou me atrasar para aula. Se você se comportar, talvez eu pense no seu caso – deu uma piscadinha para Peter, mantendo um sorriso irresistível nos lábios e deixou a mesa dos professores.

Ao passar pelo relativamente estreito corredor formado pelas mesas da Grifinória e Corvinal avistou Harry, Ron e Hermione deixando seus lugares logo adiante e percebeu que o primeiro deixara cair um pedaço de papel ao levantar.

- Harry, você deixou... – a professora ainda tentou chamar o garoto, mas este não a escutara.

- Bem, entrego para ele depois, na aula – pensou, e sem querer acabou lendo um cantinho do pergaminho ao juntá-lo do chão, ficando surpresa ao se deparar com uma grafia que lhe era muito familiar. Por um instante pensou ser de um de seus alunos, mas ao exercitar sua memória, se deu conta que a havia visto muito antes de dar aulas, em algum lugar há muito esquecido de suas lembranças... de seu passado. Conseguia lembrar do antigo pergaminho em seus dedos e da mistura de felicidade e tristeza que sentira ao ler aquelas linhas muitos anos antes. Sabia que era de alguém que lhe fora muito querido, mas não conseguia lembrar das palavras exatamente e de quem era aquela carta. Fechou os olhos e aos poucos, as letras foram dando formas a palavras e estas começaram a formar frases.

"... Não fique furioso comigo Daniel. Você sabe o quanto Sofia gosta de passear de moto, não é? Além do mais, Remus ficou muito feliz em vê-la e você precisava ver o brilho nos olhinhos dela quando a deixei dirigir sozinha. Não duvidaria se um dia sua filha desistisse da vassoura e resolvesse apostar corrida num desses meios de transporte trouxa...

... O que Adhara fará para o jantar hoje? Estava pensando em dar uma passadinha por aí mais tarde..."

Não podia ser? Sofia não conseguia acreditar... Aquela era a letra de Sirius!

Com as mãos trêmulas, Sofia guardou o pergaminho no bolso da capa e subiu apressadamente para sua sala. Sem conseguir conter a curiosidade, a professora abriu o pergaminho e leu o conteúdo da carta, mesmo sabendo que esta não lhe pertencia. Sentiu uma pontada de vergonha pelo que estava fazendo, mas precisava obter qualquer notícias de Sirius, fosse sobre seu paradeiro ou qualquer outra coisa.

Esteja nos degraus no fim da estrada que sai de Hogsmeade (depois da Dervixes & Banguês) às duas horas da tarde de sábado. Traga o máximo de comida que puder.

-Não acredito que Sirius está em Hogsmeade, ele só pode estar ficando louco. Com os dementadores atrás dele... Eu preciso ir até lá.

Sofia dobrou o pergaminho como o havia encontrado e dirigiu-se a sala de aula, onde alguns alunos já se encontravam, esperando pelo início de mais uma aula de Duelos.

- Ei, Potter! - Sofia chamou baixinho ao ver o garoto entrando na sala - Acho que você deixou isso cair hoje cedo, no café da manhã – retirou a carta do bolso e entregou a ele. Harry fez uma cara de espanto, mas não disse nada.

- Harry, precisa tomar mais cuidado com suas correspondências – Sofia falou em tom preocupado esperando que ele entendesse o que queria dizer – Nunca se sabe nas mãos de quem poderia parar.

Harry corou ao escutar o sermão da professora. Sabia que ela estava certa. Se a carta caísse nas mãos de alguém como Draco ou Snape, Sirius estaria em apuros.

- Sim professora, a senhora tem razão. Terei mais cuidado da próxima vez, prometo.

- Estamos entendidos então, pode ir sentar que já irei começar a aula.

Ao meio-dia do dia seguinte, Sofia avistou Harry, Ron e Hermione, da janela de sua sala, no jardim iluminado por um sol fraco, antes de partirem para Hogsmeade.

A professora estava ansiosa. Queria ir até Hogsmeade encontrar Sirius, mas não poderia deixar ninguém desconfiar de seus planos, muito menos Snape (ela jamais confiara nele).

Peter estava compenetrado na leitura de um livro de Defesa Avançada Contra as Artes das Trevas, numa cadeira próxima da lareira. Sofia contara sobre a carta, mas pedira a ele que ficasse no castelo, pois preferia encontrar Sirius sozinha.

- Peter, está na hora. Estou indo com os alunos para Hogsmeade. Espero que não arrumem nenhuma confusão dessa vez, ou meus planos vão por água abaixo. Quer que eu traga alguma coisa para você? – perguntou nervosamente.

- Não, acho que não estou precisando de nada por enquanto. Só não demore demais senão vou ficar com saudades... – Peter disse sorrindo e a puxou para perto, envolvendo os braços em torno de sua cintura.

- Acalme-se Sofie, vai dar tudo certo, acredite. Tenho certeza que ele ficará muito feliz em vê-la.

Sofia fechou os olhos e abraçou Peter.

- Espero que você tenha razão. Estou tão ansiosa por este encontro... E se os garotos descobrirem que estão sendo seguidos? Ou se ele fugir de mim?

Peter levou a mão direita até o rosto de Sofia, acariciando sua pele macia.

- Mas isso não vai acontecer e acho melhor você parar de pensar nessas besteiras, Sofie. Confie na sua intuição e faça o que precisa ser feito.

O professor levou a mão do rosto para a nuca de sua amada e a beijou apaixonadamente.

- Para dar sorte – disse ele, sorrindo de forma confiante.

- Obrigada Peter! É por isso que eu te amo – deu-lhe um beijo de despedida - Agora preciso ir... Os alunos estão já estão me esperando lá embaixo. Prometo voltar o mais rápido possível – Sofia jogou a capa sobre os ombros e foi em direção a porta.

- Tome cuidado Sunshine!

Sofia olhou para trás uma última vez, acenando afirmativamente para Peter antes de fechar a porta atrás de si e seguir para Hogsmeade.

Próximo as duas da tarde Sofia chegou ao local marcado por Sirius. Agora oculta por sua capa de invisibilidade, ficou observando o perímetro de longe e não tardou a avistar um enorme cão negro surgindo no último degrau da escada, com alguns jornais na boca - era Sirius.

Ao vê-lo Sofia ficou tão emocionada que precisou se controlar para não sair correndo até ele, ou revelaria sua presença antes da hora. Não queria que Harry soubesse que estava ali.

Logo em seguida, avistou o trio se aproximando da escadaria.

- Olá, Sirius – disse Harry, quando chegaram mais perto.

O cachorro farejou , ansioso, a mochila de Harry, abanou uma vez o rabo, depois deu as costas e começou a se afastar atravessando o mato ralo que subia ao encontro do sopé rochoso do morro.

Os garotos subiram os degraus e seguiram o cachorro. Sofia seguiu atrás deles, mantendo uma certa distância, ainda encoberta pela capa.

Sirius levou-os exatamente para o sopé da morro, onde o terreno era coberto de pedras e pedregulhos. Era fácil para ele com suas quatro patas, mas os garotos logo ficaram sem fôlego. Continuaram a acompanhar Sirius, que começou a subir o morro propriamente dito. Durante quase meia hora escalaram uma trilha íngreme, serpeante e pedregosa, atrás de Sirius que abanava o rabo, suando ao sol, as tiras da mochila de Harry cortando os ombros do garoto. Nenhum deles sequer tinha idéia de que estavam sendo seguidos.

Então, finalmente, Sirius desapareceu de vista, e quando eles chegaram ao lugar que ele desaparecera, viram uma fenda estreita na rocha.

Sofia observou os três se espremendo pela fenda e então os perdeu de vista. Aproximou-se cuidadosamente do local onde os quatro haviam desaparecido e sentou numa pedra próxima. Esperaria a volta dos garotos e depois tentaria falar com Sirius, finalmente.

"Melhor esperar aqui até eles saírem..."

Era aproximadamente três e meia da tarde quando Harry, Ron e Hermione saíram da caverna acompanhados do cão negro. Eles desceram a encosta do morro até que Sofia os perdesse de vista outra vez. Ela olhou ao redor para ver se não havia mais ninguém por perto e atravessou a fenda para dentro da caverna.

"Sirius deve não deve demorar, vou esperar ele."

Passado uns quarenta minutos Sofia escutou passos apressados vindos do exterior da caverna e logo um cão negro ganhou forma a sua frente. Ela respirava fundo tentando manter a calma, a varinha calmamente colada ao lado do corpo, enquanto o cão farejava o ar, que acusava sua presença.

Sirius assumiu a forma humana, segurando a varinha firme entre seus dedos, vasculhando atentamente em todas as direções atrás do intruso. Ele trajava vestes cinzentas rasgadas; as mesmas que usava quando deixara Azkaban. Os cabelos negros estavam compridos, mal cuidados e embaraçados.

Sofia respirou fundo mais uma vez, antes de tirar a capa de invisibilidade revelando sua presença. Parou completamente imóvel em frente a Sirius, fitando seus olhos calmamente, apesar deste estar apontando a varinha impiedosamente em direção a seu peito, tão próximo que poderia atravessá-la com um simples feitiço.

- Quem é você garota? – perguntou apreensivo

Receosa, a auror colocou a mão em frente a varinha de Sirius, desviando-a de seu peito para que tivesse espaço para se abaixar e depositar sua própria varinha no chão, num gesto de cordialidade. Apesar disso, Sirius parecia não confiar na bruxa e manteve a varinha apontada para ela.

– Não tente me enganar garota, ou juro que farei dessa caverna o seu túmulo!

- Por favor, acalme-se Sirius! – a jovem disse com a voz mais cordial possível, deixando transparecer a calma, que só um auror era capaz de ter numa situação como essas - Eu não vim prendê-lo, nem pretendo te machucar... Você não me reconhece mais?

Sirius hesitou por um momento, mantendo a varinha apontada para ela. Ao observá-la mais atentamente, notou que havia alguma coisa familiar nas feições da jovem... Aqueles olhos...

- Você é... Não, não pode ser... Eu... Li nos jornais e Harry me falou, mas... – o bruxo falava sem jeito

– Ah, eu podia ter te matado garota! – disse envergonhado por sua atitude rude, baixando a varinha.

- Sim Sirius sou eu, Sofia Gryffindor – a bruxa disse sorrindo, pronta para dar um abraço nele.

- Perdoe-me, por favor! Não queria ser grosseiro, mas sabe como é a vida de um fora da lei – disse completamente arrependido pelas grosseiras que havia dito e puxou Sofia para um abraço desajeitado.

- Por Merlim, isso é tão... Inesperado... Ver você depois de tantos anos. Aquela garotinha que vivia aprontando, agora uma linda mulher... - dizia Sirius encantado – Ah, tenho certeza que meu velho amigo Daniel não deixaria a garotinha dele sair de casa sozinha se ainda estivesse vivo...

Sofia não conseguia acreditar que realmente estava conversando com Sirius depois de tudo que havia acontecido.

- Quando eu soube que você estava vivo Sirius... Bem, acho que não tenho como descrever o que senti... Foi como se eu descobrisse que meus próprios pais tivessem voltado a vida – Sofia parou de falar por alguns instantes – Eu nunca duvidei da sua inocência Sirius, nunca! Infelizmente, ninguém daria créditos para uma menina de onze anos...

- Não precisa se desculpar Sofia, você fez o que foi melhor para sua segurança e de certa forma, para a de Harry também. Tenho certeza que se os comensais tivessem lhe achado... – Sirius arrumou uma mecha de cabelo que caia sobre os olhos da bruxa, suspirando - Bem, esse encontro não seria mais possível. Mas mudemos de assunto, quero saber mais sobre você. Vamos garota, me conte tudo. Só sei o pouco que Harry me contou, porque o sensacionalismo dos jornais não dá para levar em conta... Você sabe, aquela insuportável da Skeeter adora inventar coisas...

Sofia e Sirius passaram o restante da tarde conversando sobre os tempos que Sofia era apenas uma garotinha e aprendia feitiços com os marotos, a mudança de nome, a maldição, a prisão de Sirius, sua fuga de Azkaban... O tempo passou tão rápido, que a auror perdeu a noção. Só se deu conta que estava tarde, quando percebeu que não havia mais qualquer sinal de luz natural dentro da caverna. Já estava quase anoitecendo.

- Nossa, perdi a noção do tempo. Preciso ir Sirius... Foi muito bom vê-lo outra vez. Tome muito cuidado para que o ministério não descubra seu paradeiro ou aqueles parasitas de Você-sabe-quem, e saiba que pode contar comigo para qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Não hesite em me procurar se precisar, ok?

- Eu sei Sofia, obrigada! Agora me escute... Sinto que tem alguma coisa muito ruim acontecendo em Hogwarts – disse Sirius apreensivo – Por favor, fique atenta e tome cuidado. Não queremos perdê-la outra vez garota!

Sofia abraçou Sirius com carinho. Não queria deixá-lo ali, sozinho. Era arriscado demais, mas não tinha outra opção, precisava regressar ao castelo.

- Não se preocupe, eu terei cuidado e tomarei conta de Harry também – disse Sofia colocando a capa de invisibilidade sobre a cabeça. Acenou uma última vez para Sirius, e então desapareceu sob a capa, deixando a caverna em meio a escuridão da noite.

Algum horas depois, Sofia já se encontrava no aconchego de seu quarto, sentada no chão em frente a lareira envolta pelos braços de Peter, que ouvia atentamente o seu relato sobre o reencontro com Sirius.