A Lenda da Lua

Paola B. B.

Capítulo X. Algum dia

PDV Bella

Abracei meus joelhos contra o meu peito e forcei minha mandíbula a permanecer fechada. Mantive meus olhos fixos na estrada a minha frente. Eu não iria chorar. Não iria chorar... Lágrimas estúpidas!

- Sinto muito. – a suave voz de meu pai acabou de vez com o meu controle e o pranto veio com força total.

Solucei escondendo meu rosto em minhas pernas. Porque era tão difícil? Não é como se eu esperasse qualquer outro desfecho. Eu sabia que ele não se lembrava, confirmei minhas suspeitas pela expressão de Alice quando sugeriu que eu o visse o quanto antes.

Foi logo que seguimos para o banheiro para tentar salvar minha blusa. Aproveitando que só estávamos nós duas lá eu retirei a peça suja e segui para a pia. Alice me impediu de qualquer ação dizendo que não ia limpar e pegou uma de minhas camisetas novas para vestir. Quando estávamos para sair ela segurou meu braço e me olhou de um jeito que me trouxe imediata preocupação.

- Bella, eu... Eu acho que você deveria ir lá para casa após sairmos do shopping. – seus olhos estavam hesitantes.

- O que há de errado Alice? – ela suspirou e apoiou-se na parede.

- Eu acho que você deve se encontrar de uma vez com meu irmão.

Ergui minhas sobrancelhas em espanto. Eu definitivamente não esperava isso. Engoli em seco e me encostei à bancada das pias.

- Não acho que seja uma boa ideia. – murmurei olhando para os meus pés. De repente eu me sentia extremamente desconfortável. Eu não o via há tanto tempo. O nível de importância que ele tem em minha vida com certeza não é o mesmo que eu tenho na vida dele. Ele nem devia se lembrar de mim. Eu era apenas uma sombra o seguindo para quase todos os lados. Ele provavelmente não se sentiria bem quando me visse, eu seria como aquelas tias que te conhecem quando você é apenas uma criança e então quando te reencontram anos depois ficam falando de como você cresceu, como mudou e os momentos vergonhosos que aconteceram com você naquela idade como a vez que você babou encima do cabelo da sua prima. E você fica lá apenas com um sorriso amarelo no rosto porque você sequer se lembra de quem ela é, mas tem que demonstrar educação e não ser rude com ela.

Sem contar em como nós dois mudamos, quer dizer, ele é um vampiro agora e eu... Bem, eu tenho carne e ossos. Eu não atravesso mais as paredes.

- Talvez não seja, mas eu garanto a você que será muito pior se adiarmos. As aulas começam segunda-feira e não haverá como fugir de lá. Acredite em mim, se vocês se encontrarem na escola as coisas não serão bonitas.

- E serão bonitas se encontrá-lo hoje? – seu rosto me deu a resposta. – Ele não se lembra, não é? E me ver pessoalmente também não mudará isso.

Não pude evitar sorrir com tristeza. Desde que vi o Dr. Cullen eu fiz de tudo para evitar pensar em Edward. Eu não queria criar falsas expectativas. Eu estava contente em apenas saber que ele estava a salvo. E melhor do que isso ele estava cercado por uma grande e amorosa família. Eu não tinha o direito de querer mais do que isso. Mas a esperança às vezes é um bichinho traiçoeiro que rasteja sem chamar a atenção e quando percebemos já instalou moradia em nossos corações.

- Bella, não! – Alice segurava meus dois braços com firmeza. – Não vá por esse caminho. Minhas visões são subjetivas, o futuro é feito por decisões.

- Lembranças não tem nada a ver com decisões.

- Não, não têm. Sentimentos também não dependem de memórias.

- Já faz quase 100 anos, Alice. Eu sou apenas uma pequena parte do que foi a vida humana dele.

- Pelo que sei você esteve com ele em todos os momentos da vida humana dele. Isso está longe de ser uma pequena parte. – retrucou teimosamente e então suspirou soltando meus braços. - Tudo o que vi foi vocês se encontrando. O clima fica esquisito e depois disso tudo é um grande borrão. Tenho alguns flashes de futuro. Algumas reações de pessoas a volta de vocês. Mas nada está claro.

Havia um brilho diferente em seus olhos. Ela sabia que coisas ruins iriam acontecer, mas ao que parece, o bichinho da esperança também se estabeleceu no coração dela. E notar isso foi uma merda, porque o meu bichinho foi alimentado e meu coração pulou em precipitada alegria.

- Ok. Eu o encontrarei hoje. – minha voz soou tão trêmula quanto minhas mãos.

Eu podia sentir meu sangue correr rápido em minhas veias enquanto eu observava a expressão da vampira tornar-se vazia por poucos segundos. Eu havia tomado uma decisão e agora ela estava vendo a consequência dela. Quando o brilho de seus olhos voltou ao normal ela apenas assentiu.

- Vamos nos despedir de Ângela então.

Alice não sorriu. Não demonstrou nenhuma alegria ou alívio. E isso me trouxe um frio na espinha que nunca tinha sentido antes. Eu finalmente veria Edward após todos esses anos. Eu deveria estar feliz, mas tudo o que eu sentia era medo. Eu estava completamente apavorada.

Quando estávamos no carro Rose estranhou o silêncio e quando perguntou sobre, Alice lhe disse sobre estarmos indo para a casa delas. A loira se juntou ao silêncio enquanto eu ficava cada vez mais nervosa com a proximidade da residência. Fiquei um pouco aliviada quando notei que Charlie estava lá. Será que foi por isso que a vidente achava que seria melhor que acontecesse hoje? Talvez.

Fui recepcionada com grandes sorrisos e olhares curiosos. Mas nada de Edward. Tentei manter minha concentração nos Cullen, mas minha mente fugia para o meu antigo protegido. Será que ele não estava em casa? Ou será que ele estava escondido em seu quarto tão apavorado quanto eu? Alguns minutos passaram e meu pai resolveu que era hora de nós irmos. Rapidamente transferi minhas coisas do carro de Alice para o de papai e voltei para me despedir. Meus ombros relaxaram com um pouco de alívio, talvez foi isso que Alice viu, apesar dos esforços dela o encontro não aconteceria. Eu teria mais alguns dias para me acostumar com a ideia de vê-lo.

Eu realmente gostei de conhecer os outros dois vampiros. Emmett parecia uma criança grande. Gostei dele de imediato. Eu podia facilmente imaginá-lo irritando Edward como um bom irmão faria. Até mesmo sorri com este pensamento. Já Jasper era mais comedido. O completo oposto de Alice. Eles formavam um casal adorável e ele parecia amá-la com todas as suas forças. Um homem que demonstra seu amor de maneira tão doce merecia meu completo respeito.

Estávamos todos reunidos em frente à porta da casa. Uma linda casa, por sinal. Emmett queria que eu mostrasse para ele algum poder, ele estava realmente empolgado por conhecer alguém de minha espécie. E apesar de me sentir um pouco tímida com todo o interesse eu sorri para ele. Infelizmente tive que recusar mostrar até mesmo minhas presas. Eu já havia abusado mais cedo quando me "transformei" para Rose. Dei a desculpa de que estava cansada, mas prometi que faria uma demonstração para ele numa próxima oportunidade.

Foi então que algo chamou a atenção dos vampiros e eles olharam rapidamente para a direita. Segui o olhar com curiosidade. Minha respiração travou em meus pulmões. Lá estava ele. Minha memória não fazia jus a toda a sua glória. O vampirismo definitivamente caiu-lhe como uma luva. Tentando recuperar meus sentidos eu soltei o ar lentamente. Eu precisava me acalmar. Mas como, quando ele estava bem ali? Senti meu rosto repuxar querendo abrir um imenso sorriso. Ele estava ali! Vivo como nunca. Sem resquícios de doença. Ele não estava mais numa cama. Ele não estava sofrendo. Ele estava bem.

Eu estava tão feliz. Mas minha alegria não durou nem o tempo de meus lábios mostrarem o sorriso. Quando encontrei seus olhos, agora dourados, perdi o equilíbrio e tive que me apoiar em meu pai. Não havia reconhecimento na expressão dele. Havia apenas medo. Ele estava tão assustado. Mais assustado do que quando ele tinha 7 anos e viu sua mãe sofrer um desmaio. Agora era diferente. Edward não sabia como agir diante de mim. Ele sabia quem eu era. Não porque ele se lembrava de mim, mas porque sua família já tinha lhe contado sobre nosso passado compartilhado. E isso me quebrou.

Eu sabia que não deveria esperar nenhuma reação dele, mas nunca pensei que eu me sentiria desta forma. A tristeza foi envolvendo meu coração de tal forma que por um momento eu pensei que fosse cair no choro ali mesmo, na frente de toda aquela família. Se isso acontecesse eu faria Edward se sentir pior ainda. Eu não queria deixá-lo desconfortável. Estava tudo bem ele não se lembrar de mim. Não era obrigação dele. Não era como se ele pudesse controlar isso. Então reunindo o resto de minhas forças eu pedi para meu pai para irmos embora.

Eu precisava sair dali o mais rápido possível. Eu não podia... Não queria desabar na frente de todos. E agora aqui estava eu sendo carregada para dentro de casa.

Charlie me colocou no sofá e sentou-se ao meu lado. Imediatamente me aconcheguei em seu peito. Seus braços me apertaram contra ele em um consolo mudo. Sem conseguir ou querer me segurar eu chorei como uma criança pelo tempo que acredito terem sido longos minutos. Quando finalmente me acalmei eu o lembrei do trabalho. Ele deveria estar de plantão hoje.

- Pedi para Carlisle me cobrir. – eu não tinha ideia de quando ele tinha feito isso, mas não me incomodei em perguntar, apenas me aconcheguei melhor em seu peito e fiquei escutando o ar entrar e sair. Tinha algo calmante nesse som, era como escutar o mar em uma noite fria.

Seus braços afrouxaram o abraço e agora ele acariciava meus cabelos.

- Você está melhor, princesa?

Assenti me sentindo um pouco envergonhada por ter me descontrolado desta forma. Eu não era mais criança.

- Sim. Me desculpe por isso. – pedi sussurrando sem ter coragem de erguer meu olhar para o rosto dele.

- Não seja boba. Não há nada pelo que pedir desculpas. – funguei concordando.

- Eu sou tão idiota. Eu não sei por que criei expectativas de que ele saberia quem eu sou. Eu sabia que ele não lembraria, eu não sei por que estou deste jeito.

- Você o ama e ele não se lembra disso. Na verdade é bem simples.

Meus lábios tremeram ameaçando uma nova crise de choro.

- Escute Bella, está tudo bem você ficar triste e lamentar por isso. Mas não sufoque suas esperanças. Sei que agora é difícil de enxergar a luz no fim do túnel, porém tudo vai se ajeitar com o tempo.

- Você promete? – me senti uma criança, mas meu pai não me decepcionou ao dizer exatamente o que eu precisava ouvir.

- Eu prometo, princesa. Eu prometo.

[...]

- E então eu fui abduzido e levado para marte.

- Nossa. Emocionante... Espera! O que?! – pisquei rapidamente prestando atenção no rosto enfezado de Jacob.

- Finalmente eu consegui sua atenção! – reclamou ele se jogando no sofá ao meu lado.

Revirei meus olhos com o drama. Ok, eu não estava prestando a atenção no que ele estava falando, mas não era proposital. Eu apenas não conseguia fazer minha cabeça parar de trabalhar. Amanhã seria o primeiro dia de aula e eu não conseguiria escapar de vê-lo. Charlie até sugeriu que eu ficasse em casa por mais alguns dias, mas eu não podia evitá-lo para frente. Então era melhor que eu o reencontrasse de uma vez. Não é como se a reação dele fosse mudar muito do que foi na sexta-feira.

- Você está fazendo de novo! – grunhiu o lobo jogando uma almofada em meu rosto.

- Argh! – resmunguei brava.

- Qual é o problema afinal? Alguma coisa aconteceu quando você saiu com as sanguessugas?

- Não as chame assim!

- Que seja! – ele deu de ombros sem qualquer arrependimento. – A única coisa que você falou sobre o passeio foi: É, foi legal.

Dessa vez fui eu quem jogou a almofada na cara dele. Eu odiava quando ele me imitava com uma voz mil vezes mais fina e irritante do que realmente era.

- É porque foi legal.

- Dá para imaginar pela sua animação.

- O que você quer Jacob?! Detalhes?! Você sempre começa a bocejar quando conto sobre os meus passeios e agora você quer detalhes?! Decida-se!

- Hey! Relaxa! – ergueu suas palmas em sinal de paz. – Eu só estou estranhando seu jeito. Desde que cheguei aqui você parece estar em outro lugar. Não é normal você não me contar detalhes. Você adora fazer isso, porque sabe que me irrita. O que foi que aconteceu? As sang... Vampiras são velhas chatas?

- Não, na verdade elas são bem legais. Foi realmente divertido o passeio no shopping. Pelo menos até Jessica e Lauren aparecerem. Ao que parece as coisas não vão mudar na escola.

- Elas são duas vadias invejosas. Na primeira oportunidade que tiveram te transformaram em um monstro.

- Não é como se eu pudesse defender minha honra humana. – brinquei e ele me mostrou seus lindos e claríssimos dentes. – Mas eu não me preocupo, mesmo fraca eu consigo lidar com elas. Além do mais Rose as colocou para correr. Foi hilário. Ser amiga de vampiras têm suas vantagens.

- Se não é isso que está te preocupando, o que é?

- Nós fomos até a casa delas depois das compras. Eu conheci Jasper e Emmett, e então revi... Edward. – engoli em seco, seu rosto assustado parecia estar carimbado atrás de minhas pálpebras, toda vez que as fechava eu o via.

- Há! O leitor de mentes! Você disse que já o conhecia. Mas não disse quando isso aconteceu. Foi na época que vocês moravam na América do Sul?

Paralise. Merda! Merda! Merda! Merda! Edward lê mentes! Eu tinha me esquecido completamente deste detalhe! Ou melhor, eu não tinha levado em conta que ele leu minha mente quando nos vimos.

- Bella? – chamou Jacob com impaciência. Respirei fundo tentando não entrar em pânico e respondi sua pergunta.

- Não. Eu o conheci antes de encontrar Charlie.

Observei o lobo franzir o cenho.

- Você e seu irmão se juntaram a Charlie quando eram crianças. Então você conheceu o vampiro quando morava na Lua, ou algo assim?

- Eu não me lembro da Lua, ou dos meus pais, ou nada antes de Charlie... Pelo menos não do jeito que você está imaginando. Eu... Eu nunca tinha contado para ninguém sobre isso. Eu conheci Edward quando ele era humano e eu... Bem, eu não sei exatamente o que eu era.

Detalhei minha vida de anjo para um Jake cada vez mais espantado e incrédulo, mas por fim ele sorriu despreocupado e deu de ombros.

- Isso me lembra das histórias que mamãe costumava gostar. Ela amava um bom romance além da vida. – sorri achando graça do seu termo.

- O que você quer dizer?

- Bem, eu era muito criança quando ela morreu, mas me lembro dela me falar que um amor verdadeiro transcende a morte, não que eu soubesse o que significava transcender naquela época. – sorriu diversão.

- Você está querendo dizer que eu era um fantasma?

Ele deu de ombros.

- O que eu quero dizer é que talvez você e o leitor de mentes tenham vivido outra vida juntos, digo, há 200 ou 300 anos, sei lá. Vocês poderiam ter sido casados, ou talvez irmãos, até pai e filha ou mãe e filho. Então ele reencarnou antes de você e em vez de você reencarnar também você só o acompanhou. Aí quando ele virou vampiro você reencarnou também.

- Por quê? Eu não poderia simplesmente ter continuado ao lado dele?

- Não me faça perguntas difíceis. Essa é apenas uma teoria, e uma teoria muito mal elaborada.

Fiquei em silêncio tentando assimilar o que Jake queria dizer e então a tristeza cresceu novamente em meu peito.

- Isso não importa, ele não se lembra de mim.

Jake arregalou seus olhos escuros e então fez uma careta.

- Deve ter sido um reencontro constrangedor. Não me diga que você correu abraçá-lo e ele desviou? – terminou rindo.

Senti minhas bochechas queimando em vergonha e então dei um soco no braço de meu amigo.

- Seu idiota! É claro que não! – não que eu não tivesse tido vontade e até pensado em fazer exatamente isso.

- Ah! Então não foi tão ruim quanto você está fazendo parecer.

Ele estava enganado e percebeu pela minha expressão. Meus olhos estavam cheios d'água quando ele me puxou para o seu peito e me abraçou com culpa.

- Ah Bella, desculpe. Eu estava apenas tentando deixar as coisas mais leves. Ele é um idiota por não se lembrar de você. Fica calma, não chora.

- Ele não tem culpa... – defendi tentando me controlar.

- Bem, ele vai lembrar... Algum dia. – sua voz foi tão sem esperanças que eu até parei de chorar e o olhei em choque. – Ah droga! Eu sou um idiota!

- Sim você é. – solucei e ri.

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Próximo capítulo teremos uma real interação entre o Edward e a Bella, com direito a uma confissão e tudo mais ^^

Próxima postagem: 09/04/2017