XI

Deixa-me chorar por ti.

Primeira Parte.

Rubeus Hagrid caminhava a grandes e seguros passos pelos limites do Bosque Proibido. Era sua rodada noturna e após ter desfrutado de uma opípara jantar no Grande Salão, tinha-se despedido de alguns professores para seguir cumprindo com suas obrigações. Depois de ter levado sua respectiva razão à cada um dos Aurores que estavam de guarda nas periferias do Castelo, e falar com alguns deles, agora regressava a seu posto habitual como vigilante.

Deu um último olhar para o lado leste do espesso bosque e deu-se a volta para continuar seu caminho, quando lhe pareceu escutar ruídos que proviam do lugar que acabava de observar. Deteve seus passos enquanto punha atenção. Ele conhecia a cada um dos estranhos ruídos noturnos que proviam da negra espessura e soube em seguida que não se tratava de algum animal. Tomando sua varinha acercou-se com lentidão ao mesmo tempo em que escutava que os ruídos se iam convertendo em múrmuros.

-Quem está aí? –Perguntou o guarda bosque, varinha em mãos. Um pesado silêncio respondeu a sua pergunta.

Protegeu-se depois do tronco de um enorme salgueiro e convocou um "Lumus". A luz de sua varinha atingiu a alumiar a figura de duas pessoas, as quais pareciam levar um corpo. Hagrid enfocó sua vista para eles e conseguiu distinguir que levavam máscaras. Antes de que pudesse romper o "Lumus" e os atacar, as sombras deixaram cair o corpo que sustentavam e desapareceram de imediato.

Deixou passar um minuto antes de acercar-se com muito sigilo para o lugar onde se achava atirado o objeto. Alumiou-o de novo com sua varinha e ao fazê-lo, deixou sair uma pesada exalação de sua boca. O que parecia ser uma coisa, em realidade era um corpo envolvido em uma capa negra e coberto com uma máscara, que o semi-gigante reconheceu em seguida como as que eram utilizadas por comensais.

Hagrid teve que reprimir as vontades de levantar a máscara para tratar de ver seu rosto. Sabia que se tratando de comensais podia ser uma armadilha. De modo que após ocultar o corpo com alguns ramos, correu com todas suas forças até o escritório do diretor. Mal teve chegado, pronunciou a senha e esperou com visível impaciência a que a gárgula lhe desse acesso. Subiu com espantosa rapidez as escadas de caracol e sem chamar irrompeu de forma precipitada na estância.

-Professor Dumbledore, há alguém...!

Não pôde dissimular um gesto de surpresa quando viu que o diretor não se encontrava só. De um rápido olhar pôde comprovar que a subdirectora e o professor de Defesa, bem como Sirius e o casal Weasley estavam presentes. Uma cabeleira loira em uma cadeira na esquina revelou-lhe a Draco Malfoy.

-Sucede algo, Hagrid? –Perguntou o idoso de maneira amável, ainda que o guarda bosque pôde distinguir certa apreensão nos azuis olhos refugiados depois das gafas em media lua.

-Há... algo que devo lhe mostrar... agora. –O professor de Trato de criaturas respondeu à mirada do diretor com uma parecida. O idoso pôs-se de pé e levou-o a um rincão.

-Que ocorre? –Perguntou-lhe baixinho.

-Nos limites... parece que uns comensais deixaram um cadáver atirado.

Ainda que ninguém pôde escutar o que o semi-gigante dizia, todos puderam advertir a crescente palidez no cansado rosto do diretor. Draco Malfoy adiantou-se às perguntas dos demais.

-Que está passando? –O jovem pôs-se de pé e acercou-se a eles. Sua voz refletia sua profunda preocupação. –Diga-me!

-Tranquiliza-te, Draco. –O diretor tratou de acalmar ao rapaz ao mesmo tempo em que dirigia-se para Arthur. –Preciso que venhas comigo.

-Por suposto. –O senhor Weasley voltou a ver a sua esposa e não pôde deixar de observar a preocupação latente em sua inquieta mirada. Entrecerrou seus olhos para acalmá-la.

-Será melhor que os demais esperem aqui. –A professora McGonagall assentiu às palavras dirigidas a ela.

Mal saíram do escritório, Draco se dirigiu para a porta.

-Senhor Malfoy... –A subdirectora não teve tempo do deter.

-Irei com eles. –Draco fez amago de abrí-la, mas Remus deteve-o pelos ombros, impedindo-lhe. –Solte-me!

-Sinto-o, Draco. –O licántropo mostrou-se inflexível. –Será melhor que tomes assento ou me verei obrigado a te atar a ele.

-Você não pode fazer isso! –O rapaz debatia-se com impulso entre as fortes mãos do homem lobo. –Ninguém pode o fazer! É contra o regulamento!

-Se não te acalmas eu o farei, menino. –A rouca voz de Sirius deixou-se ouvir entre os gritos do loiro, quem voltou a ver com suas cinzas olhos brilhando de fúria. –Eu não sou professor de modo que não romperei nenhum regulamento.

O jovem sacudiu-se uma vez mais tratando de livrar-se de Remus, quem ao ver que o rapaz cedia o soltou. Draco suspirou com peso ao ver que tinha a batalha perdida. Sabia que os professores não o obrigariam, mas se tratando do animago estava seguro que não o pensaria duas vezes antes de deixar amarrado a uma coluna. Voltou a tomar assento no rincão enquanto tratava de recuperar a respiração e parte de sua dignidade perdida.

Após isso teve um pesado silêncio no escritório, às vezes rompido por algum tênue gorjeio proveniente de Fawkes. O loiro contemplou por longo momento à majestosa ave que de vez em quando picotava suas plumas, as acomodando. E então desejou com todas suas forças ter asas para poder levantar o vôo e escapar.

-Estás seguro do que viste, Hagrid?

-Sim, professor. –O guarda bosque tratava de diminuir seus grandes passos para dar tempo a que o diretor o atingisse. Arthur Weasley não tinha problema algum em lhe levar o ritmo, mas mesmo assim caminhava à mesma velocidade que o mago maior. –Dois homens encapuzados deixaram um corpo e desapareceram. Não quis o tocar porque pensei que poderia ser uma armadilha.

-Fizeste bem. Onde está?

O rosto do idoso mago não deixava de mostrar uma imensa preocupação. Uma enorme inquietude tinha-se instalado em seu peito e não deixava de rezar porque o corpo encontrado pelo semi-gigante não fosse o de Severus. Minutos mais tarde Hagrid detinha-se cerca do grande salgueiro, enquanto assinalava lhes o lugar onde se encontrava o cadáver que minutos antes tinha coberto com ramos.

Instantes depois os três encontravam-se parados junto a ele. Pela primeira vez em muito tempo, Albus Dumbledore sentiu que as pernas lhe fraquechavam. Fechou os olhos enquanto acercava a varinha para detectar qualquer feitiço que pudesse ter ao redor, mas não tinha nada.

Arthur, quem não tinha deixado de observar ao diretor, soube o trance pelo que passava e decidiu intervir quando viu que o idoso se inclinava para retirar a máscara branca que cobria seu rosto.

-Deixa-me fazê-lo, Albus. –O homem adiantou-se enquanto o diretor e Hagrid esperavam com impaciência. Arthur agachou-se e com pesada lentidão retirou a máscara. Um longo suspiro brotou de seus lábios enquanto movia a cabeça de um lado a outro, pesaroso, e terminava de descobrir o corpo.

-E bem? –Perguntou o idoso, cujos nervos crispados estavam a ponto de lhe jogar uma má passada. –Quem é, Arthur? É Severus?

-Não, Albus. –O idoso não pôde evitar deixar escapar o ar contido. Mas em seguida franziu o cenho quando escutou a resposta. –É Narcisa Malfoy... ou ao menos o que fica dela.

O Auror fez-se a um lado para deixar passo ao idoso, quem não pôde evitar uma exclamação ao ver o corpo sem vida da Senhora Malfoy. Hagrid não emitiu som algum, impressionado pela visão do corpo torturado da que tinha sido uma formosa e orgulhosa mulher.

Após uns segundos mais, durante os quais os três magos permaneceram o bastante perturbados para reagir, Albus levantou a vista para Hagrid.

-Preciso que vás ao Salão e localizes a Poppy. –O guarda bosque assentiu. –Diga-lhe que nos espere na enfermaria, e que se prepare para receber um corpo. E faz favor, seja discreto.

-Sim, professor.

O semi gigante desapareceu a toda pressa pelo caminho para o Castelo. Os magos que o viram se marchar se olharam o um ao outro, conscientes do que a presença da Senhora Malfoy significava.

-Ele o sabe tudo, Arthur.

O Auror não pôde evitar sentir um escalafrio ao pensar no que o idoso tratava de lhe dizer.

-Sim mas... Que tanto é o que sabe? –O idoso mago moveu a cabeça de um lado a outro enquanto escutava. –Estará Severus em perigo? E se "isto" foi o que lhe fez a Narcisa Malfoy, Que pôde ser capaz de lhes fazer a eles?

-Não, Arthur. –O diretor sacudiu a cabeça com energia, negando-se a essa terrível possibilidade. –Nego-me a achar que algo lhe passe a Severus. Ele sabe se cuidar, estou seguro...

-Albus...

-Não lhe passou nada, Entendes? –O rosto do idoso era uma máscara de desespero. Arthur esteve tentado a lançar-lhe um feitiço para tranquilizá-lo. –Ele está bem. Ele está bem...

Arthur já não disse nada. Só calou deixando que as palavras do diretor fizessem eco em seus lábios uma e outra vez, como se o idoso tratasse do convencer e se convencer a si mesmo de sua afirmação. Repetiu-as durante uns momentos mais como um rogo em voz alta para que alguém no céu o escutasse.

Arthur Weasley agachou-se de novo para o corpo de Narcisa e voltou a cobrir com a capa negra e a máscara branca. Durante a manobra não pôde ver que Albus Dumbledore olhava perdido para a espessura do bosque enquanto lágrimas transparentes brotavam com lentidão de seus fatigados olhos.

-Ele está bem...

-Albus... –O idoso secou suas lágrimas e voltou para onde o Auror se encontrava. –Será melhor que me leve o corpo à enfermaria.

Enquanto o diretor assentia tomou o corpo da mulher entre seus braços e quando se sentiu cômodo para a levar se dirigiu de novo a ele.

-Tomarei o atalho que me leva direto, assim evitarei me encontrar com alguém. –Afastou-se uns passos. –Vens?

-Não, Arthur. Adianta-te. –O professor Dumbledore percorreu com a vista o espesso Bosque. –Ficarei um momento mais. Talvez Severus esteja em caminho.

O Auror só assentiu às últimas palavras do velho mago. E enquanto afastava-se pelo mesmo caminho que minutos antes Hagrid tomasse, desejou em seu interior que o diretor não estivesse equivocado.

-Não devi o deixar ir...

O idoso permaneceu um momento mais parado no mesmo lugar. Estava por reprender o caminho de regresso quando pôde escutar um ruído que parecia provir de uma das barreiras de proteção. O diretor acercou-se com rapidez para o lugar e então pôde distinguir a inconfundível silhueta do professor de poções.

Incapaz de reagir, o mago de longa barba ficou parado observando por uns instantes a seu protegido, o qual se encontrava fincado no solo e sustentando entre seus braços um corpo, enquanto observava o Castelo com uma mirada que o idoso jamais lhe tinha visto.

-Severus! –Foi a primeira palavra que brotou de seus lábios quando ao fim pôde se recuperar, enquanto se acercava com rapidez para ele. –Estás bem?

Severus então reagiu e o primeiro que fez foi se pôr de pé com o corpo de Lucius ainda em seus braços.

-Estou bem, Albus... –Ainda na escuridão do lugar o professor pôde distinguir o rosto cheio de preocupação de seu mentor. –É Lucius... precisa atenção médica urgente.

-Devemos levá-lo rápido a San Mungo...

-Não podemos... –Severus encaminhou-se pelo caminho, com o mago por trás dele. –Ele pensa que está morto. Devemos ocultá-lo.

-Como é possível?

-Não posso te explicar agora. –O professor de poções tomou o mesmo caminho que Arthur. –Já encontraram a Narcisa?

-Sim, Severus. Ela está...

-Sei-o, Albus. Sei-o. –Deteve-se de repente a escassos metros da enfermaria. –Draco?

-Está em meu escritório. Ainda não o sabe. –O idoso tomou-o do braço. –Queres que lhe avise?

-Ainda não. –Severus continuou seu caminho. –Primeiro há que atender a Lucius e pode que Poppy precise toda minha ajuda. Ademais... não é conveniente que veja a sua mãe nessas condições.

-Tens razão.

Nesse momento entraram à enfermaria. Madame Poppy encontrava-se examinando com sua varinha o corpo de Narcisa, seu rosto expressava uma grande contrariedade. Hagrid e Arthur estavam em uma esquina, tratando de não estorvar enquanto esperavam a chegada do diretor. Oliver permanecia junto à enfermeira, seu rosto pálido, mas o bastante inteiro enquanto fazia algumas anotações que a enfermeira lhe ditava.

-Por Merlín! Que tem ocorrido? -Perguntou ao ver chegar a Severus com outro corpo em braços. –Quem é?

Dantes de que pudesse formular outra pergunta, o corpo de Lucius foi depositado em uma cama e Severus lhe tirou a capa, lhe deixando ver seu rosto.

-Mas... –Poppy voltou a ver ao professor. –Está...?

-Não, Poppy. –O ex comensal tirou-se a cara e se enrolou a camisa enquanto continuava. –Mas o estará muito cedo se não nos damos pressa.

Ante estas palavras, Madame Pomfrey voltou a cobrir o corpo de Narcisa e se apressou a examinar a Lucius. Franziu o cenho, preocupada, enquanto via a cada uma das feridas em seu corpo.

-Oliver... preciso que me tragas todas as poções que temos em existência. –O rapaz assentiu e dirigiu-se à gaveta. –Este homem está muito mau. Há muitas coisas que teremos que curar.

-Sei-o, Poppy. –O professor olhou-a com apreensão. –Poderás fazê-lo sozinha, ou precisas minha ajuda?

-As curas, sim. Oliver está capacitado para ajudar-me. –Respondeu a enfermeira enquanto passava a varinha sobre o ferido. –Mas talvez requeira algumas poções que não tenho. Precisarei que, mas proporciones.

-De acordo.

Quando Oliver voltou já Poppy sabia que eram as feridas a mais gravidade. Severus acercou-se com lentidão a Albus e a Arthur, para deixar espaço a que a enfermeira e seu auxiliar fizessem seu trabalho. Hagrid já se tinha retirado para seguir com sua rodada noturna, lhe ficando dito de antemão que não devia comentar nada ao respeito, até que se tivesse controle da situação.

-Estás bem, Severus? -O professor olhou ao diretor de forma interrogante. –Tens sangue em tua roupa. –Disse-lhe enquanto assinalava sua camisa branca, com algumas manchas de sangue que tinham conseguido traspassar o saco.

-Não é minha. –Enquanto negava com a cabeça. –É de Lucius.

-Que foi o que ocorreu? –Perguntou Arthur ao mesmo tempo em que o diretor conduzia ao professor para uma das camas enquanto seguiam observando a Poppy.

-Descobriu-os. –Severus sentou-se na orla da cama enquanto talhava-se com força o braço esquerdo. Albus sentou-se junto a ele. –Não sei com exatidão que foi o que averiguou, mas segundo parece não me delataram. A prova disso é que pude sair inteiro daí.

-É verdade... –O idoso depositou uma mão sobre o ombro de seu professor de poções. –Como lhe dirás a Draco?

-Não o sei, Albus. –Severus suspirou. –Terá que arranjar primeiro o corpo de Narcisa. Está tão torturado que é quase irreconhecível. Não quisesse que Draco a recordasse assim.

-Tens razão.

-Também devemos esperar a que Poppy nos diga que possibilidades tem Lucius de se recuperar. Não quero ter que lhe dizer a Draco algo sobre o que não esteja por completo seguro.

-Então terá que esperar. –O idoso pôs-se de pé. –Chamarei a Minerva para que me ajude com Narcisa. Arthur...

-Sim, Albus?

-Pode ser que Minerva precise ajuda. E como verás, Poppy...

-Não te preocupes. –O Auror interrompeu-o. –Estou seguro que Molly não terá inconveniente na ajudar.

Arthur dirigiu-se à lareira para chamar às duas mulheres. Severus pôs-se de pé e o diretor seguiu-o.

-Harry também está em teu escritório?

-Não, Severus. Verás... –O professor Dumbledore duvidou-. Quando soube que te tinhas marchado saiu correndo do escritório. Suponho que foi a buscar a tuas habitações.

-Irei para lá. Posso pedir-te um favor? –Perguntou ao velho mago enquanto recolhia seu saco e sua camada. –Se Poppy precisasse alguma poção de minha gaveta, Me avisarias pela lareira de meu quarto? Também quisesse saber a condição de Lucius mal termine com ele.

-Por suposto. –O diretor acompanhou-o enquanto esperavam a que as duas mulheres arribaran pelo mesmo conduto. –Trata de descansar. Amanhã terminarás de contar-me.

-O mais provável é que esta mesma noite te inteires de tudo. –Olhou com firmeza ao diretor. –Não posso deixar passar mais tempo antes de lhe dizer a verdade a Draco.

-Queres que o leve a teus aposentos?

-Não, Albus. Preferiria que ficasse contigo. Irei por ele assim que saiba algo de Lucius. –Caminhou para a lareira. –Primeiro preciso saber em que condições se encontra Harry. Não esqueças que seu empatia pôde fazer que sentisse algumas das coisas que eu senti... ou pior ainda, que Voldemort sentiu.

-Não pensei nisso. Não devia deixar que se marchasse sozinho.

-Está bem, não te preocupes. –Respondeu enquanto observavam a chegada de Minerva e Molly. –O mais provável é que ainda me esteja esperando.

-Severus, Encontras-te bem? –Foi a pergunta da professora mal teve arribado. O professor assentiu.

-Que tem ocorrido? –Perguntou Molly dirigindo a seu esposo. –Para que nos chamaram?

Severus tomou um punhado de pós e dirigiu-se para suas habitações. Enquanto viajava conseguiu escutar depois de si uma série de múrmuros e exclamações, e supôs que ambas mulheres já estavam sendo postas ao tanto da situação. Momentos depois o esgotado professor emergia de sua própria lareira.

Em um elegante banho forrado com azulejos de cor verde água, Harry encontrava-se de erva-doce com a cabeça inclinada sobre o banheiro de cor negro. Com as poucas forças que lhe ficavam, o rapaz tratava de sustentar da orla da caneca para não cair ao andar. Levava mais em media hora devolvendo o jantar que tinha ingerido horas dantes.

Sentia-se atontado e tudo girava a seu ao redor. De vez em quando chegavam a sua memória as imagens do sonho do que recém acordasse. Respirou com fruição tratando de fazer entrar um pouco de ar a seus pulmões. Mas a só lembrança de alguns fragmentos do sonho fez que tivesse outra arcada e se inclinasse de novo para a porcelana. Tinha vomitado tantas vezes que agora só saíam de seu estômago seus próprios sucos gástricos.

Sem poder aguentar mais, o jovem soltou-se tratando de incorporar-se, mas o único que conseguiu foi se ir de lado em direção para o frio andar. Esteve aponto de chocar sua cabeça contra os azulejos, mas uns braços cálidos conseguiram sustentá-lo enquanto Severus se fincava no andar junto a ele.

Afrouxou seu corpo enquanto tentava que o mareio se fosse. Sentiu o calor de outro corpo sustentando-o e entreabriu seus nublados olhos tratando de distinguir à pessoa que estava com ele. Não tinha postas as gafas, mas mesmo assim pôde reconhecer o rosto de seu namorado, que o olhava com intensa preocupação.

-Se... verus. –O rapaz tentou levantar-se, mas outro ataque de vómito fez que Severus voltasse ao sustentar enquanto acariciava com macieza seus rebeldes cabelos, empapados de suor. Quando tudo passou permaneceram um momento mais nessa posição.

-Sente-te melhor? –O rapaz assentiu com peso.

Severus levantou-se e ajudou a seu namorado a pôr-se de pé. Abraçou-o enquanto levava-o para o lavabo e molhava lhe o rosto. O rapaz levantou a vista e viu-se a si mesmo no espelho. Luzia umas profundas olheiras, negras com manchas azuladas. Harry moveu a cabeça de um lado a outro, tratando de afugentar o molesto mareio. Sentiu-se melhor quando Severus pôs uma mão úmida sobre seu cabelo enquanto lhe refrescava a cabeça.

-Saca-me de aqui... por favor. –Pediu-lhe com a voz enrouquecida.

O professor fechou a chave da água e tomou uma toalha para secar o rosto e cabelo de seu namorado. Tomou-o pela cintura para ajudá-lo a manter o equilíbrio. Pouco depois depositava-o com macieza sobre a fofa cama. O jovem permaneceu deitado de lado com os olhos fechados, momento que Severus aproveitou para, com um feitiço, lhe mudar a roupa que tinha e lhe pôr um de seus pijamas.

-Obrigado... –Lhe sussurrou seu namorado enquanto permanecia com seus verdes olhos ainda fechados.

-Agora volto...

-Te irás outra vez? –Severus pôde distinguir o alarme em sua voz. –Não, por favor...

-Tranquilo... –Acercou-se de novo para beija-lo com ligeireza. –Só me irei dar um banho.

Harry não disse nada. Severus deu-se uma ducha rápida e momentos depois saía com o cabelo úmido e uma toalha na cintura. Tratou de deixar sua camisa, manchada de sangue, longe da vista do jovem mago. Quando terminou de se vestir com seu pijama, puxou as cobertas e tampou a ambos com elas. Pouco depois voltava a abraçá-lo.

-Como te sentes? –Perguntou-lhe enquanto o estreitava com mais força.

-Mau... –O rapaz acercou seu rosto ao de Severus. –Mas não acho que tão mau como te sentes tu.

-Faz favor, Harry... –O professor olhou-o com súplica aos verdes olhos. –Diga-me que não viste nada.

-Vi-o tudo, Severus. –O homem abraçou-o ainda com mais força-. Senti-o tudo...

-Lamento-o tanto, Harry. –Severus acariciou seu rosto. –Não tivesse querido que soubesses os detalhes. Sabes? Tivesse gostado de gostado algo por ela. Não reclamarei a Draco se me culpa de sua morte.

-Tu não foste o responsável. Tu não foste quem a matou. –Olhou de em frente aos negros olhos de quem alguma vez fosse um comensal. –Foram eles. Voldemort e Bellatrix. Eles e os que... –Tratou de controlar as náuseas. –São os únicos culpados.

-Mas eu estava lá! –O homem apertou os punhos com força. –Devia fazer algo para o impedir... estava lá e não fiz nada em absoluto. Vi como a ultrajavam e a matavam e... não intervim... só... estive-a vendo...

-Não tivesses podido fazer nada. –O jovem endireitou-se para olhá-lo por sobre seu rosto. –Tivessem-te descoberto e então tu também...

Mas já não pôde dizer nada mais. A garganta fechou-se-lhe enquanto seus olhos deixavam escapar lágrimas pelo que sabia era a frustración que Severus estava sentindo.

-Não chores, Harry... por favor. Não vês que me fazes sentir pior?

-Não estou chorando por mim... –O jovem refugiou seu rosto no peito de seu casal, quem não pôde mais que continuar o abraçando. –É pelo que tu estás sentindo.

-Harry, eu não...

-Por que não choras? –O rapaz levantou sua vista nublada pelas lágrimas para o rosto em aparência impávido de seu casal. –Sei que desejas o fazer. Sei que queres chorar... estou-o sentindo.

-Não posso, Harry. –Severus acariciou o rosto do rapaz enquanto lhe susurrava. –Faz tanto tempo que não o faço, que agora por mais que o deseje já não posso...

-Por que?

-Não o sei... –O professor suspirou, seu coração encolhido. –Talvez porque chorei demasiado em algum momento de minha vida. Tanto, que já não tenho mais lágrimas para seguir o fazendo.

-Então... –A voz do rapaz terminou de avariar-se enquanto se aconchegava mais contra ele e voltava a refugiar seu rosto em seu forte peito. –Deixa que chore por ti...

Severus guardou silêncio enquanto escutava os soluços do jovem que se apertava a ele em um estremecido abraço. Fechou os olhos ao sentir as lágrimas do rapaz que tanto amava molhar com lentidão seu peito. E essa noite desejou mais que nunca, que essas mornas lágrimas que o rapaz derramava, em realidade fossem suas.

-Remus... ficou-se dormido. Que fazemos com ele?

-O mais prudente seria acordá-lo e enviar a suas habitações. Mas não podemos fazer nada até que saibamos algo mais.

-Fabuloso... –O animago mostrou-se incómodo. –O magnífico Sirius Black, de babá de um Malfoy...

-Basta, Sirius...

Remus e Sirius ainda permaneciam no escritório de Dumbledore. Minerva e Molly tinham mais de dez minutos de ter-se marchado e tanto o licántropo como o animago se tinham ficado a vigiar que Draco não escapasse para a enfermaria. Desde que Arthur chamasse a sua esposa e à professora desde o lugar de trabalho de Madame Pomfrey, Draco tinha tratado de escapar várias vezes pela lareira, mas em todas as ocasiões que o tentou, eles lhe tinham impedido.

O rapaz tinha-se cansado de lutar tanto com os dois magos, que ao final tinha caído dormido em sua cadeira no rincão.

Remus acercou-se com lentidão ao rapaz dormido e observou-o detidamente. De alguma maneira sentiu que via algo da rebeldia e orgulho de Lucius. E um parecido físico extraordinário. Não pôde evitar suspirar de preocupação quando recordou que ainda não sabia nada dele nem de sua esposa.

-Tens ideia de porque Arthur chamou a Minerva e a Molly?

-Não o sei, Sirius. Mas suponho que deve ter notícias dos Malfoy. –No fundo, Remus desejou estar equivocado-. Devemos esperar. Ajudas-me?

-Que queres fazer?

-Não podemos o deixar dormir aí, é demasiado incómodo. –Remus levitou ao rapaz dormido, o qual não se deu conta de nada. –Poderias converter a cadeira em algo mais cômodo?

O animago sacou sua varinha e após meditá-lo um pouco, converteu a cadeira em uma cama individual com dossel. Remus colocou ao rapaz com cuidado para não o acordar e quando se assegurou que estava cômodo fechou os dossel para o deixar dormir tranquilo.

Remus tomou assento junto à cama do rapaz e Sirius permaneceu cerca da lareira. O silêncio apoderou-se da habitação até que Sirius decidiu o romper.

-Achas que tenha terminado já a festa?

-É muito provável. –O licántropo olhou seu relógio. –Faltam umas quantas horas para que amanheça.

-Sabes? –O animago dirigiu-se à porta. –Albus não deixou a ninguém a cargo. Será melhor que vá ver. De passagem aproveitarei para falar com Harry, não lhe disse nada sobre a decisão de Albus de ficar no Castelo.

-Pensei que já lhe tinhas dito.

-Tinha pensado fazê-lo hoje mesmo, mas com tudo isto já nem tempo tive. –Dirigiu sua mirada para o licántropo. –Achas que já se retirou a descansar?

-Pois... suponho que sim. –Remus suspirou enquanto seguia observando a Draco dormir. –Albus deu a ordem de que todos se fossem a suas Casas mal saíssem da festa.

-Então não acho que tenha inconveniente se o vou ver a sua Casa.

-Eu te sugeriria que esperasses até manhã. –O homem lobo mostrou-se insistente. –Não acho que seja prudente que te afastes demasiado. Albus poderia precisar-nos.

-Tu o cries?

-Por algo nos pediu que ficássemos.

-Remus... –Sirius acercou-se seu melhor amigo para falar-lhe baixinho. –Achas que todo este assunto dos Malfoy tenha sido descoberto? E de ser assim, Achas que Snivellius também foi chamado para render contas?

-Já te disse que não lhe chames assim. –Remus franziu o cenho, em parte molesto pela atitude do animago, e em parte preocupado pela situação-. Espero que não, Sirius... pelo bem de algumas pessoas.

-De quem?

-De Albus, para começar. –O licántropo entreabriu o dossel para verificar que o rapaz seguisse dormido. –Ambos sabemos muito bem o carinho que lhe tem. E se algo lhe ocorresse duvido muito que o idoso chegasse a se recuperar. Severus é como um filho para ele. Por outro lado, seria o único que lhe ficaria a Draco se seus pais... já sabes.

-Entendo. –Sirius suspirou. –Não é por lástima, mas... Snape não tem a muitas pessoas que se preocupem por ele. Mal a eles dois, e para te ser sincero, duvido que alguém mais lhe guarde alguma estima.

-Eu o estimo, Sirius. –Replicou o licántropo.

-Já sabes a que me refiro. –O animago se alisou capa-a cinza enquanto continuava-. Ademais, tu estimas a todo mundo. De modo que não contas.

-Que queres dizer com isso?

-Refiro-me a que é fácil que te apegar com qualquer pessoa que conheças. Teu caráter é doce por natureza.

-Isso foi um elogio ou um insulto?

-Um elogio, Remus. Não te esponjes. –Sirius levantou sua mão direita em sinal de paz.

-Pois ainda que não o creias, Severus é muito querido por todos os alunos de sua Casa. –Respondeu-lhe o licántropo enquanto via com firmeza aos azuis olhos de seu amigo.

-Só porque é o Chefe e lhes obsequia pontos à cada momento.

-Não é verdade. –Remus moveu a cabeça de um lado a outro, em desacordo. –Ele tem sabido se ganhar o respeito de todos eles, bem como das outras Casas e de todos os professores. E sei muito bem que tem sacrificado muito para conseguir tudo isso.

-Não sei por que o defendes tanto. –Sirius começava a enfadar-se. –Nós também temos perdido muito. Talvez já o esqueceste?

-Por suposto que não, Sirius. –Remus suspirou enquanto baixava o tom de sua voz. –O único que quero é que entendas que Severus não tem sido sempre o mau da história. Ele também é um ser humano e me parece justo que tenha a alguém que o queira. Que tem isso de mau?

-Não vejo nada de mau em que alguém o queira. –Sirius deu meia volta para voltar à porta. –Para ser-te honesto nem sequer interessa-me. O que estou tratando de dizer, é que duvido muito que alguém mais que Albus e esse menino possam chegar ao querer. E não me refiro a que o estimem. Muitos podem estimá-lo. Eu me refiro ao amar para valer.

-Por que não?

-Porque se precisaria estar o bastante cego para chegar a sentir por ele algo como isso. –O animago abriu a porta e antes de sair voltou a ver a seu amigo. –Se precisam-me estarei no Grande Salão.

-Não... açoites a porta. Maldição!

Remus levantou-se de sua cadeira disposto a sair por trás do animago e dizer-lhe umas quantas verdades em sua cara. Mas recordou que não devia deixar a Draco sozinho, de modo que se engolindo sua coragem começou a passear de um lado a outro da habitação.

-De modo que não achas que tenha alguém que o ame... –Remus não pôde reprimir um sorriso irônico. –Pois prepara-te velho amigo, porque sim há alguém o bastante cego para o amar. E não te imaginas quem é.

-Severus... Estás aí? –A cabeça do diretor assomou-se entre os lumes da lareira. O professor levantou-se com cuidado para não acordar a Harry enquanto se colocava uma bata.

-Sim, Albus. Que ocorre?

-Poppy precisa que lhe mandes mais pomada cicatrizante. A sua já se terminou.

-Espera um minuto...

Severus saiu para regressar momentos depois com um frasco da pomada. Colocou-se sua capa em cima e tomou um punhado de pós. Dantes de entrar à lareira voltou a ver a Harry. O rapaz seguia dormindo após que Severus lhe desse uma poção para que pudesse dormir sem sonhar. Instantes mais tarde saía pela lareira da enfermaria. Entregou-lhe o frasco a Oliver, quem já o esperava. O rapaz deu-lhe as obrigado e regressou com a enfermeira.

-Como está?

-Já quase terminam. –O professor Dumbledore tomou do braço a Severus e convidou-o a sentar-se junto a ele. –Poppy diz que está grave, mas estável. Ainda que já tratou as feridas de maior importância, ainda lhe falta curar algumas outras.

O professor de poções dirigiu sua vista para onde estava o corpo de Narcisa, coberto com uma coberta branca. Fechou os olhos quando recordou as condições em que se encontrava.

-Minerva e Molly? Terminaram?

-Assim é. Estavam muito impressionadas, e não é para menos. Mas entre as duas puderam arranjá-la bem. Arthur e Molly foram descansar-se, já não tinha caso que seguissem aqui. Minerva foi a verificar que todo estivesse em ordem no Grande Salão, e depois se retirou. –Albus pôs-se de pé e acercou-se ao corpo. Severus fez o mesmo. –Que opinas? Arranjaram-na de forma que seu corpo permaneça em bom estado até que possa ser sepultada.

O diretor levantou um pouco a coberta branca para deixar ver o rosto da senhora Malfoy. A Severus não lhe coube dúvida de que ambas mulheres se tinham esmerado na arranjar. As feridas de seu corpo eram quase invisíveis e estava limpo e perfumado. Seu cabelo estava escovado com cuidado e caía à cada lado de seu rosto, o qual tinha sido maquilado também com muito esmero. De não saber que estava morta, o professor teria pensado que só estava dormindo. Via-se muito formosa.

-Fizeram um bom trabalho. –Suspirou. –Não tivesse gostado que Draco a visse como estava antes. Recorda-me que lhes dê as obrigado por este detalhe.

-Não é necessário, amigo meu. –O mago de longa barba voltou a cobrir o rosto de Narcisa. –Já lhes dei as obrigado por ti. Só falta o assunto da roupa. As raparigas queriam pôr-lhe um vestido branco, mas... preferi consultá-lo primeiro contigo.

-Por mim não há inconveniente. Mas penso que devemos lhe deixar a Lucius essa decisão. Após tudo ele é seu esposo.

-Tens razão.

-Severus... -O professor voltou ao escutar seu nome de lábios da enfermeira. Pôde observar um deixo de preocupação através de seus olhos cansados.

-Sucede algo? –Professor e diretor acercaram-se de imediato a eles. Oliver estava juntando todos os frascos vazios enquanto Poppy terminava de levitar o corpo em uma das camas privadas. Ambos se viam muito esgotados.

-Temos terminado. –Poppy tampou a Lucius com uma coberta e assegurou-se que ficasse o bastante cômodo. Depois tirou-se bata-a e acercou-se enquanto continuava. –Devemos deixá-lo descansar. Com toda certeza não acordará até dentro de várias horas. Escutem...

Terminou de lavar-se as mãos e acercou-se a ambos homens.

-As lesões mais graves localizam-se em suas costas. –Eles a olharam com atenção. –Não se trata dos chicotadas e demais feridas superficiais. Já lhe apliquei unguentos para o ajudar a cicatrizar mais rápido. Trata-se dos cruciatus. Algum deles deveu se prolongar o tempo suficiente para atrofia lhe alguns ossos da coluna.

Severus e Albus franziram o cenho ao escutar as últimas palavras da enfermeira.

-Se recuperará?

-Com terapia há probabilidades, Severus. Mas... –E neste ponto os olhou com firmeza aos olhos. –Vou ser-lhes franca. Terá que ser muito perseverante, só assim poderá voltar a caminhar. E quanto mais cedo comece será melhor.

-Entendo. –Severus passou ambas mãos por seu negro cabelo. –Será melhor que fale de uma vez com Draco.

Antes de que algum dos dois se retirasse, o diretor voltou a ver a Poppy.

-Precisas que te envie a alguém para que te ajude a fazer guarda?

-Obrigado, mas não será necessário. –A enfermeira tocou seu ombro de maneira afectuosa. –Oliver e eu nos turnaremos até que acorde.

-Obrigado por tudo, Poppy. –O diretor carraspeó, incómodo. –Como já te imaginarás, ninguém deve saber nada.

-Não te preocupes. Manterei esta habitação como privada e ninguém saberá que está aqui.

-De acordo. –Albus dispôs-se a seguir a Severus, quem já se tinha retirado pela lareira. –Te verei mas tarde.

Quando o diretor se retirou, a enfermeira ficou um momento mais parada em frente à lareira.

-Que terá sucedido para que ninguém deva saber que está aqui?

-Madame... –Oliver interrompeu seus pensamentos enquanto oferecia-lhe um copo com água-. Se deseja-o posso ficar-me até que o senhor Malfoy acorde.

-Não te molestes, Oliver. –A mulher bebeu um sorvo e continuou. –Já tens tido bastante trabalho por um dia.

-Não é moléstia. Tomei-me a poção revitalizadora e sento-me como novo. Ademais, com todo o ocorrido duvido muito que possa conciliar o sono. E para ser-lhe honesto, não gosto da ideia de tomar poções para dormir.

A enfermeira observou a seu auxiliar durante um instante. Apesar de ser tão jovem pôde distinguir um traço de maturidade que em muito poucos jovens de sua idade tinha chegado a conhecer. Recordou a seriedade e diligência com que a assistiu durante as últimas horas e então pensou que o rapaz não se tinha equivocado ao eleger a carreira de medimago.

-Está bem. –Cedeu ao fim. –Mas só ficarás até a hora do café da manhã. Para então já terei descansado o suficiente para continuar com a guarda. Te verei mais tarde.

-De acordo, Madame.

Poppy jogou um último olhar ao homem dormindo. Após verificar que se encontrasse estável saiu da enfermaria para suas habitações. Oliver ficou um momento mais, observando-o.

Suspirou e dirigiu-se para a gaveta. Após analisá-la chegou à conclusão de que faria falta repor várias poções. Tomou pergaminho e pena e dispôs-se a escrever, sempre pendente de qualquer som que proviesse da habitação contigua.

-Vais seguir molesto comigo?

-Não estou molesto contigo.

Sirius passeava-se de um lado a outro em frente à cadeira onde estava sentado Remus. O licántropo tinha seus braços cruzados e o cenho franzido em clara moléstia. O animago acabava de regressar do Grande Salão. Quando chegou viu que a festa já tinha terminado, de modo que sabendo que já não tinha nada por fazer decidiu voltar ao escritório do diretor. Quando regressou achou a Remus na mesma posição na que agora se encontrava.

-Então por que estás assim?

-Assim, como?

O animago suspirou, derrotado. Conhecia bastante bem a Remus e sabia que quando se punha nesse plano, podia lhes amanhecer sem que pudesse conseguir lhe sacar mais que umas quantas respostas evasivas.

-Remus...

-Espera... –O licántropo interrompeu-o. –Alguém vai entrar pela lareira...

Acabava de terminar de dizê-lo, quando a figura do professor de poções atravessou a ombreira. Remus levantou-se de imediato e acercou-se a ele.

-Severus... Encontras-te bem? –Os olhos dourados do licántropo olharam-no detidamente.

O professor assentiu enquanto sacudia-se a roupa. Fez-se a um lado para esperar ao diretor. Sirius acercou-se a ambos homens no momento que Albus chegava.

-Onde está Draco? –Perguntou Dumbledore ao ver que não tinha sinais do rapaz.

-Ficou dormindo e preferimos deixá-lo lá. –Remus assinalou lhe o rincão e então viram a cama.

-Que tem ocorrido? –Sirius caminhou junto ao diretor enquanto acercavam-se a onde o Slytherin dormia.

-Algo terrível, meu rapaz... –Albus parou-se junto à cama e deixou que Severus se acercasse para o acordar. Remus não pôde evitar um estremecimento. –Já te inteirarás.

Severus abriu os dosséis. Um longo suspiro escapou de seus lábios enquanto sentava-se na orla e inclinava-se para falar ao ouvido, ao mesmo tempo em que sacudia um de seus ombros com macieza.

-Draco... acorda.

Draco moveu-se com lentidão entre sonhos e entreabriu com macieza seus olhos. Terminou de acordar quando sua mirada se topou de cheio com os negros olhos de seu padrinho.

-Severus! –O Slytherin incorporou-se de imediato e voltou para todos lados ao ver em uma cama. Por um momento sentiu-se desorientado, mas compreendeu o que passava quando por trás do professor atingiu a ver aos demais.

-Será melhor que te levantes, temos que falar... –Severus pôs-se de pé e dirigiu-se para o centro da habitação. Draco saiu da cama e acomodou-se a roupa enquanto acercava-se a sua padrinho. Os demais ficaram no mesmo lugar.

-Tem ocorrido algo que deves saber. –Severus olhou com firmeza aos olhos do rapaz enquanto continuava. –A razão pela que teus pais não se apresentaram esta noite, foi porque... Voldemort levou-lhes. Ele... descobriu-os e acusou-os de traição.

Um longo silêncio fez-se no recinto. Silêncio que foi rompido pela pergunta obrigada do rapaz.

-Eles estão...?

-Teu pai está na enfermaria. –Severus acercou-se com lentidão a sua afilhado. –Está... convalescente. Precisará terapia de reabilitação.

-Terapia de...? –O rapaz pareceu não compreender-. Que queres dizer? Para que precisará terapia?

-Verás... ele foi torturado. Tanto que... não poderá voltar a caminhar. A não ser que submeta-se a um tratamento o mais cedo possível.

O rapaz não disse uma palavra. Parecia que de repente já não tivesse nada que dizer. Agachou a cabeça enquanto alguns mechas loiros se esparramavam por seu cenho. Severus pensou que se alteraria. Ver nessas condições preocupou lhe bem mais.

-Minha mãe... –O Slytherin levantou de novo seu olhar cinza para sua padrinho. –Onde está minha mãe?

Severus não teve mais voz para falar. Albus foi-se acercando a eles.

-Onde está!? Por que não me respondes!? –O rapaz se aferrou à capa do professor, quem só pôde sustentar suas mãos com força.

-Sinto-o muito, Draco... –Severus ao fim pôde falar. O jovem olhou-o com os olhos muito abertos enquanto escutava-o. –Não pude fazer nada por ela.

-Não é verdade... -Draco moveu a cabeça de um lado a outro, se negando à terrível realidade de que acabava de perder a sua mãe. –Não é verdade! Diga-me que não é verdade!

Severus quis acercar ao rapaz para abraçá-lo. Os dois tinham esquecido por completo às demais pessoas que estavam no mesmo lugar. Sirius com a vista fixa em um objeto longínquo e Remus o bastante impactado para conseguir reagir.

Mas quando quis rodear com seus braços Draco se afastou dele como se seu corpo lhe queimasse.

-Estiveste lá, Verdade? –O professor guardou silêncio, dando-lhe a entender que sim. –Viste-o tudo? Estiveste presente e não fizeste nada? Mas como pudeste...!?

A dor que o rapaz estava sentindo se trucó de um instante a outro em profunda ira. Suas pálidas mãos fecharam-se em um punho. Começou a golpear a Severus enquanto gritava com a voz avariada pelas lágrimas que, apesar de tudo, se negavam a sair.

-Estiveste lá! Deixaste-a morrer! –Severus não fez nada para se defender. Já se sentia o bastante culpado e pensava que se merecia esses golpes. –Tu me prometeste que tudo sairia bem! Tu me prometeste!

Remus acercou-se para separar ao rapaz de Severus, mas este estava tão alterado que por mais que o tentou não pôde o controlar. Sirius estava a ponto de intervir quando Albus, quem até o momento se tinha mantido à margem da situação, já não pôde aguentar mais. Levantou seu varinha e lançou lhe a Draco um feitiço.

O rapaz fechou os olhos e seu corpo se afrouxou. Remus sustentou-o para que não caísse ao andar.

-Sinto-o, Severus. Mas era necessário. –Desculpou-se o diretor enquanto acercava-se a ele. –Só dorme. Estás bem?

-Não te preocupes. –O professor tomou dentre os braços de Remus o corpo dormindo de seu afilhado, sem importar-lhe que algumas gotas de sangue escorreram de seu nariz e de sua boca pelos golpes que Draco lhe desse. –Mereço.

-Não digas isso. –Albus posou uma confortadora mão sobre seu ombro. –O garoto está alterado e não sabe o que diz. Já verás que quando reaja se dará conta de seu erro e te pedirá perdão.

-Não espero seu perdão, Albus. Não, quando nem eu mesmo posso me perdoar. –Respirou fundo enquanto seguia sustentando o corpo do rapaz e dirigia-se para a lareira. –O único que espero é que seja o bastante forte para suportar tudo isto. Será melhor que o leve a descansar. Já amanheceu e precisará repor energias para poder ver a seus pais.

-Queres que te ajude ao levar? –Remus adiantou-se e parou-se junto a ele. Severus atingiu a ver uma profunda tristeza em seus dourados olhos, mas pensou que era seu imaginação, aunada ao cansaço.

-Não é necessário. Posso com ele. –Girou-se para o diretor. –Albus, quero pedir-te um grande favor. –O diretor assentiu. –Preciso que localizes a Cornelius Fudge o quanto antes. Tenho o pressentimento de que tudo isto tem que ver com o assunto da tutela.

-Não há problema, Severus. Agora mesmo lhe enviarei a Fawkes.

Quando Severus desapareceu pela lareira, Albus se dirigiu para Remus e o animago.

-Lamento que tenham tido que presenciar tudo. –Ambos moveram as mãos, lhe dando a entender que não se fixasse. –Lhes agradecerei muito que ninguém se inteire disto. Severus tem enganado a Voldemort ao fazer-lhe achar que Lucius está morto, e deverá seguir crendo-o.

-Não há problema, Albus. –Remus dirigiu-se à porta e Sirius caminhou por trás dele. –Se precisas-me estarei em meus aposentos.

Após que os dois homens saíram do escritório, o diretor se sentou em sua mesa. Molhou em tinta negra a pena de Fawkes e começou a escrever em um pergaminho. Tinha algo com relação à tutela que não acabava de convencer. E era o fato de que, segundo o contrato, só podiam ser revelados os nomes do tutor e as testemunhas em caso que ambos pais assim o decidissem, ou se for o caso, morressem. Era óbvio que Voldemort deveu o saber. Daí sua intenção de desfazer-se de ambos.

O que lhe preocupava ao velho mago era que, se para a segunda-feira muito temporão não se revelavam os nomes, Voldemort se daria conta que Lucius ainda seguia vivo. Então chegaria à conclusão de que Severus o tinha enganado em seus próprios narizes.

E se o idoso mago já tinha visto nos corpos de Lucius e Narcisa, a forma em como um traidor pagava a Voldemort, não queria nem se imaginar o que seria capaz de lhe fazer a seu protegido por se ter debochado dele.

-Sim que lhe caiu mau a notícia...

-Que outra coisa esperavas? Sua mãe morreu e seu pai não poderá caminhar.

Remus e seu amigo estavam sentados no sofá da pequena sala do licántropo, tomando-se um copo. Nenhum dos dois tinha sono e tinham preferido esperar juntos até a hora do café da manhã. Sirius tinha-lhe dito que se retirava, mas Remus fez questão de que ficasse. Tinha certa necessidade por parte do homem lobo de ter perto a seu melhor amigo, pois sentia que em sua presença podia controlar a enorme tristeza que de repente o embargava.

-Vais dizer-me por que segues molesto comigo?

Remus suspirou enquanto movia sua cabeça de um lado a outro. Já começava ao incomodar.

-Quantas vezes terei que te dizer que não estou molesto contigo? –O licántropo pôs-se de pé e começou a passear de um lado a outro.

-Se não é comigo, então é por outra razão. –O animago não deixou de insistir, o que provocou um bufar por parte de seu melhor amigo. –Me dirás que te passa?

Remus baixou o rosto. Apesar de tantos anos de separação, o animago ainda podia reconhecer seus estados de ânimo. Isso o fez se sentir vulnerável, o que provocou que se sentisse mais molesto ainda.

-Estou... cansado. Isso é tudo. –Remus serviu-se outro copo enquanto tratava de ordenar suas ideias. Sentia muito ter que lhe mentir ao animago, porque em realidade sim estava molesto. E por muitas razões.

A primeira razão era que ainda não tinha reunido o valor para lhe confessar a seu melhor amigo o que sentia. Voltou a vê-lo. O animago estava concentrado em brincar com o copo enquanto deixava que o licor formasse ondas. Suspirou. Ainda que ambos já eram uns homens maduros, seu amigo não deixava de mostrar essa parte desobediente que acabasse o apaixonando. No fundo Sirius Black ainda seguia sendo o jovem imaturo que anos antes conhecesse. Razão a mais para seguir amando-o. Razão a mais para seguir calando o que sentia.

A segunda razão era que aquela jovem de Hufflepuff não tinha tirado o dedo da linha com respeito a seu convite a jantar. Enquanto dançava aquela peça com ela, obrigado pelo mesmo Sirius, tinha fazer questão de que saísse com ele. Remus teve que ser sincero ao lhe dizer que não estava interessado em aprofundar relação alguma, nem com ela nem com nenhuma outra jovem. A mirada de profunda decepção que a rapariga lhe dirigiu o tinha feito se sentir mau.

A terceira razão de sua moléstia, tinha sido a dolorosa pulsada de fitas-cola que o tinha embargado ao distinguir ao longe a Sirius, dançando com uma garota e lhe sorrindo, ao que parece muito a gosto enquanto lhe coqueteava com total descaro. Isso tinha feito que Remus se desculpasse com a jovem ao sentir uma repentina necessidade de se dirigir para eles e tomar do braço para lhe levar longe, e lhe demonstrar que não precisava de nenhuma mulher para a passar bem.

Mas enquanto caminhava para seu melhor amigo, as fitas-cola deram lugar à razão. Dando-se meia volta dirigiu-se para a saída do Grande Salão. Precisava um longo passeio para acalmar todas suas emoções antes de que o fizessem cometer uma loucura.

Loucura, como a que essas duas estavam cometendo quando ao dobrar por um dos corredores os descobriu escondidos por trás de uma coluna.

Ao princípio não sabia quem eram. Tinha escutado sussurros e sons estranhos conforme ia-se aproximando. Quando esteve o bastante perto se deu conta que era um casal de varões a que se encontrava aí. Pensando que poderiam ser alunos faltando ao regulamento estava disposto a se acercar a eles e lhes chamar a atenção.

Mas absteve-se quando pensou que não seria nada agradável nem para ele, nem para eles, ser interrompidos de forma tão brusca. Pelo que apressou seus passos e se ocultou entre uns pilares a esperar a que terminassem de fazer o que fosse que estivessem fazendo. Esperaria a que saíssem e então procederia aos sancionar.

Mas qual foi sua surpresa quando viu sair por trás do muro ao professor de poções. Incapaz de reagir, manteve-se oculto enquanto tratava de imaginar quem poderia ser a outra pessoa que estava com ele. Não teve que esperar muito tempo.

O licántropo viu quando o professor lhe fazia senhas a alguém e de imediato se deixou ver a figura de um jovem a quem reconheceu de imediato. Se não tivesse estado sustentado do pilar teria caído ao solo pela impressão.

Incapaz de assimilar o que momentos dantes se tinha imaginado, o homem lobo tratou de buscar uma desculpa razoável para que esses duas estivessem juntos dessa maneira. Mas qualquer dúvida que tivesse se desvaneceu quando Severus sacou dentre suas roupas as óculos do rapaz e lhes colocou em um gesto que jamais lhe tinha conhecido, enquanto Harry terminava de se acomodar a roupa e tratava de arranjar suas despenados cabelos, para depois beijar se com paixão.

Instantes mais tarde via-os partir, ao que parece de regresso para o Salão. Ficou parado no mesmo lugar uns minutos mais, tratando de assimilar o que acabava de ver. Quando ao fim pôde repor da surpresa, tomou o mesmo caminho que eles.

Essa era a quarta razão de sua moléstia. Ele tinha visto a mudança gradual na forma em como esses dois se tratavam. E tinha chegado a pensar que sua relação tinha melhorado, coisa que agradecia já que nunca gostou da hostilidade que tinha entre eles. E estava disposto a apoiar qualquer relação de amizade que pudesse se gerar.

Mas daí a imaginar-se que tivesse entre eles uma relação mais profunda, era algo que não terminava de digerir. Eles tinham conseguido os enganar a todos quem sabe desde faz quanto, e o só pensar que ele tinha sido um dos tantos enganados o irritava.

Mas mais que qualquer coisa, estava preocupado. Não pelo fato de que Severus e Harry fossem varões, coisa que não se importava estando ele mesmo apaixonado de outro homem. Ou professor e aluno, situação que também não vinha ao caso, pois já não o eram. Se sequer a minoria de idade de Harry, já que em uns quantos dias deixaria de sê-lo.

Nem sequer preocupava lhe se sua relação estava baseada no amor ou só era uma aventura passageira. Esse era assunto deles, e só a eles devia lhes importar.

O que lhe preocupava, era a reação de Sirius se chegava a se inteirar de tudo. Não sabia se Harry estava o bastante consciente do que fazia como para calcular a reação de sua padrinho. Tão só a pequena conversa-discussão que sustentasse com o animago horas antes no escritório do diretor, lhe fazia ver que o conceito que seu amigo tinha sobre aquela pessoa que se apaixonasse de Severus, era em realidade bastante decepcionante. Tinha que falar o mais cedo possível com Harry.

Remus apressou seu copo de um longo gole e voltou a ver a seu melhor amigo. Sirius tinha-se ficado dormindo no cadeirão. O licántropo acercou-se com sigilo e retirou o copo vazio de sua mão. Tratando de não o acordar subiu suas pernas ao cadeirão e lhe tirou os sapatos para que estivesse mais cômodo.

Dirigiu-se para a lareira para avivar o fogo, mas ao vê-la ficou parado um momento enquanto duvidava. O diretor acabava de conceder-lhe a permissão para habilitar na Rede, pelo que pensou na facilidade com que podia apresentar na enfermaria nesse instante.

Queria ver a Lucius. Queria saber em que condições se encontrava. Queria dizer-lhe que sentia muito o ocorrido. Queria falar com ele de tantas coisas.

Queria perguntar-lhe se tinha sido feliz durante todos os anos que esteve casado com Narcisa. Queria saber se tinha conseguido cumprir seus sonhos. Queria dizer-lhe que sempre encontraria nele a um amigo e que podia contar com seu apoio para sua recuperação.

Queria dizer-lhe que se precisava chorar, que o fizesse em seu ombro. Como aquela última noite, anos atrás quando ainda eram jovens e ele lhe disse adeus para não voltar ao ver mais.

Mas em vez disso, deu a meia volta e ficou observando a figura do homem que amava desde fazia muitos anos. Agachou-se em frente a ele e se inclinou para seu rosto. Seu fôlego chocou contra sua cara enquanto fechava seus dourados olhos. Juntou com lentidão seus lábios com os do animago em uma caricia trémula. Foi um beijo tão subtil que ele mesmo mal pôde o sentir.

Levantou-se e suspirou. Passou uma mão entre seus longos e negros cabelos enquanto sentia que seu corpo tremia. E após avivar o fogo da lareira dirigiu-se a sua habitação para dar-se um longo banho.

Continuará...

Próximo capítulo: Deixa-me chorar por ti. Segunda parte

Notas:

Quero agradecer a todos por seus reviews, e por seguir lendo esta história

Besitos.

K. Kinomoto.

Nota tradutor:

Nossa muita revelação me deixou desorientado por um momento, mas caramba tadinho do Draco...