A/N: Olá a todos!! Já fazendo mais de 4 meses que não atualizo, estou morrendo de vergonha! Como esse ano está passando rápido!!! Mas então, esses capítulos estão cada vez maiores – dessa vez quase 24.000 palavras... Desculpem pela demora, mas estou fazendo meu melhor, tendo que dividir meu tempo em estágio, monografia de curso, vida pessoal e ainda tudo na internet! Mas aí está a continuação, finalmente!! Obrigada por todos os comentários, os últimos que recebi serviram como aquele último empurrão para me fazer terminar esse cap. ! Boa leitura e por favor comentem!!
CHECKMATE
PARTE II – O JOGO
Capítulo 11
Refugee, total shit
Is how I've always seen us
Not a help you'll admit
To agreement between us
There's no deal, partner
Who's your real partner?
Could there be just a chance
That you've got some heavy clients?
Refugiados, total merda
É como eu sempre considerei-nos
Nenhuma ajuda você admite
Para chegar a um acordo entre nós
Não tem acordo, parceiro
Quem é seu verdadeiro parceiro?
Será que existe a chance
De você ter alguns clientes pesados?
Letras de "The Deal (No Deal)" de Chess, por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus
…
…
O pronunciamento de Seamus chocou todos ao silêncio.
"O Rei do Gelo?" Hermione repetiu um momento depois.
Seamus virou para trás e a encarou com um sorriso satisfeito. "É assim que as meninas da Sonserina chamam o Malfoy porque ele age tão friamente com elas."
"E como exatamente você sabe disso?" disse Hermione, franzindo as sobrancelhas em desaprovação.
"Eu . . . ah!" disse Seamus, conseguindo manter uma expressão de satisfação e vergonha ao mesmo tempo. "Err . . . Esquece. Eu sempre pensei que fosse porque ele não conseguia suportar elas. Quer dizer, quem consegue?" Então ele sorriu para Rony. "Mas talvez seja porque o Malfoy simplesmente não gosta de meninas."
"Ficou louco, Seamus?" disse Rony em alarme. "Que merda você tá falando?"
"Que o Harry falou a verdade ontem à noite quando disse que não tinha uma namorada! Olhe para ele."
Rony olhou para a cara ainda sorridente e cativada de Harry e então através do cômodo até Draco, que agora sorria charmosamente para o moreno. Ele ficou muito vermelho. "Você quer dizer..."
"Eu estava certo!" exclamou Seamus. "Harry tem um namorado. E é o Malfoy!"
Rony virou-se para Harry. Ele agarrou o ombro dele e o chacoalhou levemente. "Harry!" ele disse, com a voz desesperada. "Me diga que não é verdade!"
Mas Harry não estava escutando, ou melhor, ele nem estava ouvindo a conversa ocorrendo ao seu redor, pois estava perdido na sensação de hipnotismo. Estava completamente absorvido no adorável sorriso de Draco até que Rony, irritando-se quando Harry não respondeu, sacudiu-o, e Harry, por não estar prestando atenção e estar sentado bem no final do banco, escorregou para o lado, perdeu o equilíbrio e caiu no chão com um bam ressonador.
"Rony!" Hermione pulou de pé para ver se Harry estava bem.
Harry olhou para seu melhor amigo, franzindo as sobrancelhas em surpresa, seus óculos tortos em razão do abrupto encontro com o chão. "Que merda. . . . Rony?" ele hesitou. "Por que fez isso?"
"Pare de encarar aquela . . . aquela . . . cobra . . . e me responda! É verdade? Aquela conversa que a gente teve? Estava falando dele!"
"Sim," disse Harry firmemente. "Estava falando dele."
"Você passou a noite com o Malfoy!" disse Rony sem acreditar, levantando-se de repente. Ele encarou Harry, seu corpo todo rígido de raiva.
"Sim, Rony," disse Harry num tom que não deixou lugar a possíveis questionamentos. "Eu passei." Ele começou a se levantar, mas então alguém estava ao seu lado e uma mão estava sendo estendida para ajudá-lo. Ele pegou a mão de Draco e se levantou de frente ao Sonserino. Draco não soltou sua mão, ao invés disso entrelaçou seus dedos.
"Tudo bem?" Draco perguntou com a voz baixa, preocupação e raiva em seus olhos ao arrumar os óculos tortos de Harry com a mão livre.
"Sim," disse Harry. Virou-se para encarar Rony, seu rosto tornando-se bastante sério. "Eu sei que você está surpreso," ele disse com dificuldade, "mas não tinha um modo fácil de te contar isso."
"Você passou a noite com o Malfoy!" exclamou Rony. "Surpreso não chega perto de descrever como eu me sinto!"
"Rony," Harry disse com tom grave, enquanto absorvia a expressão furiosa, horrorizada de seu amigo. "Eu falei sério quando disse que levo esse relacionamento a sério."
"Mas você não pode levar isso a sério," disse Rony, seus olhos azuis se enchendo de dor e traição. "É loucura!"
"Eu não estou pedindo que você goste disso," respondeu Harry com um pouco de severidade. "Estou apenas pedindo que você nos escute e tente entender . . . e respeite que é isso que eu . . . que Draco e eu ambos queremos."
Draco estivera observando Rony com uma expressão de fria indiferença. Ele soltou um ronco de irritação. "Eu pareço me lembrar de você falando que Harry era livre para ficar com quem ele quisesse." Levantou uma sobrancelha em triunfo. "Eu acredito que isso me inclui."
Rony ficou vermelho novamente, seus pulsos cerrados. "Até parece," ele praticamente cuspiu.
"E," Draco continuou, sua voz cheia de sarcasmo, "eu espero que a ironia disso não se perca em você, Weasley. Que sou eu protegendo Harry dessa vez – de você."
"Draco . . . " disse Harry em advertência, apertando a mão do outro garoto.
"Não é ele que precisa de proteção, Malfoy," disse Rony, dando um ameaçador passo à frente.
Draco imediatamente avançou um passo e ficou parado um pouco à frente de Harry. "Afaste-se, Weasley," ele sussurrou, lançando a Rony um olhar "de morte" típico dos Malfoy.
Rony parou e o encarou em retorno, então puxou sua varinha.
"Rony!" Hermione exclamou, instantaneamente agarrando o braço dele. "Pára! Isso não vai ajudar em nada."
Mas Rony se virou para ela, sua voz fria. "Você sabia! Você sabia que era o Malfoy, e não me contou!"
"Eu não te contei," ela replicou, "porque cabia a Harry te contar. E porque eu sabia que você reagiria assim. Fazer uma cena não vai mudar nada. Se o Harry e o Draco querem ficar juntos, nós teremos que aceitar."
Rony arrancou seu braço da mão de Hermione. Deu mais uma olhada de Harry a Draco, e para baixo até suas mãos dadas. Era impensável que a pessoa que ele mais odiava no mundo de alguma forma tivesse passado pela sua guarda e estava seduzindo seu melhor amigo. Tinha uma solidariedade tão forte no jeito em que eles estavam parados em pé um ao lado do outro, e talvez essa tenha sido a coisa mais chocante de todas para os olhos de Rony. "Eu não consigo nem olhar para eles," ele disse friamente. Então se virou e saiu do cômodo.
"Isso ocorreu bem," Draco murmurou, ainda muito abalado, sua voz baixa tornando-se muito alta em face do silêncio deixado pela saída irada de Rony.
Harry passou uma mão por seu cabelo. "Não foi pior do que o esperado, eu acho."
Hermione virou-se na direção deles quando a porta se fechou atrás de Rony. "Eu deveria ir atrás dele," ela disse. Ela lançou a Harry e Draco um olhar severo. "Isso poderia ter sido tratado melhor . . . mas esquece. Vou ver se consigo colocar alguma razão na cabeça dele."
"Ha," disse Draco, baixinho. "Bem pouco provável – "
"Obrigado, Hermione," disse Harry rapidamente, cortando Draco.
"Vamos, Gina," Hermione falou para a menina mais nova que estava encarando Harry e Draco, seus olhos arregalados e uma mão cobrindo sua boca aberta. "Eu vou explicar tudo para você, também."
"Vamos tentar falar com ele de novo, depois que tiver um tempo para se acalmar," disse Harry enquanto Hermione andava para longe com uma Gina atordoada. Virou-se e lançou um olhar repreensivo a Draco "E você," ele disse, mostrando sua frustração, mas tão baixo que só Draco conseguia ouvir, "Eu pensei que você iria tentar ficar calmo e não reagir a ele."
Draco encontrou os olhos de Harry com desafio. "Se você acha que eu vou ficar parado e calmo enquanto ele te derruba no chão, você está muito enganado."
Harry tinha ficado irritado com Draco por não ter controlado seu temperamento, mas olhando para ele agora, com suas bochechas coradas e mechas de cabelo loiro caindo em sua testa e nos seus intensos olhos cinza – olhos que ainda brilhavam com indignação– Harry se chocou com a súbita percepção de que Draco Malfoy não apenas era simplesmente lindo quando bravo, um fato que agora se perguntava como pôde ter despercebido durante todos esses anos, mas também que ele, Harry, estava de mãos dadas com essa pessoa incrivelmente atraente, e que Draco estava apenas irritado em seu nome. Harry teve que admitir, com um pouco de culpa por causa de Rony, que era uma ótima sensação, maravilhosa até, estar sendo protegido pelo olhar da morte dos Malfoy desta vez. Estava repentinamente preenchido por uma vontade quase incontrolável de beijar Draco até não conseguir mais.
Sorrindo, ele apertou a mão de Draco, então se curvou perto do ouvido do Sonserino. "Foi um pouco exagerado," disse calmamente. "Mas você foi maravilhoso."
Demorou alguns segundos para ele se tocar do elogio de Harry, mas então Draco relaxou. Ele jogou a cabeça levemente para tirar o cabelo de seu rosto e apertou a mão de Harry em retorno, lançando-lhe um sorriso como forma de aceitar o elogio. Mas ainda com outras três pessoas para confrontar, continuava receoso.
Harry se sentou para terminar seu café-da-manhã, e Draco, com os modos de certa forma reservados e cuidadosos, sentou-se ao lado dele no lugar vazio de Rony. Dean, Seamus, e Neville estavam sentados à frente deles, encarando Draco com expressões quase idênticas de choque. Bem, a expressão de Seamus estava mais para reverência. Nenhum deles disse uma palavra.
Olhando para os três, Draco de repente teve que lutar para manter sua atitude calma, e evitar uma grande vontade de rir. Olhou de canto de olho para Harry. Chocar esses Grifinórios, agora que o Weasley estava fora do caminho,era uma tentação quase irresistível, mas ele não tinha certeza se Harry acharia graça nas presentes circunstâncias. E ele havia prometido que tentaria fazer as coisas irem o mais serenamente possível.
"Tá bom, pessoal," Harry disse, atacando as panquecas frias com seu garfo. "Falem o que quiserem agora, porque não vou querer escutar nada depois. Isso é o que é, e enquanto eu já sabia que Rony ia agir como um idiota, estou esperando que vocês três ofereçam um pouco mais de apoio." Ele os observou com severidade. "Draco mudou e eu agradeceria se todos tentassem lhe dar uma chance."
Draco olhou para baixo, sério e tocado ao ouvir Harry falando assim com seus amigos por causa dele.
Após um longo momento de silêncio, Neville falou com uma voz nervosa, porém determinada. "É verdade," ele disse. "Eu sei que ele mudou. Ele tem me ajudado na aula de Poções quando Snape não está olhando."
Harry não sabia nada sobre isso e virou-se para Draco em surpresa.
O Sonserino estava olhando para Neville com olhos estreitados. "Mas que merda, Longbottom," ele finalmente disse, irritado, "Eu tenho que sentar do seu lado. Você tem idéia de como é cansativo ver você explodindo seu caldeirão todo dia?" Ele se curvou sobre a mesa. "E além disso," ele continuou, sem tom ainda reprovador, mas agora com um pouco de provocação também, "quem disse que você podia contar – era pra isso ser nosso pequeno segredo. É ruim demais que eu esteja com o Harry, mas se os outros descobrirem que eu estou ajudando você, minha reputação estará totalmente arruinada."
Neville ficou preocupado por um segundo ou dois, mas então percebeu que Draco estava sorrindo um pouco, que ele estava apenas brincando, e conseguiu dar um sorriso tímido em retorno.
Dean falou em seguida. "Eu notei que você tem agido diferente esse ano também," ele disse para Draco. "Então, se o Harry diz que você está bem agora, é o que basta para mim."
Draco olhou para o alto garoto negro e acenou com a cabeça. "Obrigado," ele disse com a voz baixa, percebendo que tinha inconscientemente se protegido internamente para ser esnobado por esses meninos, assim aquela simples demonstração de apoio estava significando muito para ele. Ele se virou na direção de Seamus.
Seamus estava sentado com um cotovelo na mesa, seu queixo em na mão, observando Draco com uma expressão divertida e atenta. Quando Draco olhou para ele, ele virou a cabeça a um ângulo, seus olhos meio fechados, um sorriso maroto em seu rosto. "E agora eu estou pensando que sei o que você tem feito todos esses anos, Malfoy," ele disse. "Você e essa sua nojenta disposição."
Em parte insultado, mas sem ter certeza se entendera, Draco lançou um olhar feio em pergunta ao outro garoto sentado do outro lado.
"Você simplesmente não estava liberando a frustração sexual," pronunciou Seamus com autoridade absoluta. "Ou," ele adicionou, mexendo suas sobrancelhas, seus olhos se virando para encarar Harry sugestivamente, "não da forma certa, de qualquer jeito."
Draco encarou fortemente Seamus por um momento, e então olhou de lado para Harry, e viu naqueles claros, olhos verdes que Harry estava segurando uma risada. Seus olhos se encontraram por alguns segundos e então Harry soltou um riso. Foi o suficiente. Draco riu. De repente todos os cinco meninos estava rindo.
"Eu talvez considere gostar de você, Finnigan," disse Draco, sorrindo para Seamus.
"Ah, meu Deus," sussurrou Seamus, surpreendido. Ele se jogou contra Dean como se de repente estivesse sem ossos.
Dean riu dele e o jogou para o outro lado, mas ele estava molengo, e quase caiu do banco ao chão.
Draco rolou seus olhos e então voltou a olhar para Harry com um sorriso. Ele foi capturado então pela aprovação e profunda afeição nos olhos de Harry. "É melhor eu ir indo," ele disse quietamente.
Harry concordou. "Você vai me encontrar depois – em Hogsmeade?"
"É uma da tarde, no Três Vassouras, certo?"
"Sim." Harry sorriu, e colocou sua mão em cima da do Draco, outra pergunta em seus olhos.
Em resposta, Draco se curvou para frente e o beijou.
Eles oviram um chio reprimido e então um distinto 'bang'. Quando eles pararam de se beijar, Neville estava com as mãos sobre seus olhos, e Dean agora estava sorrindo e balançando sua cabeça, olhando para o chão onde Seamus estava, pois desta vez ele realmente tinha caído do banco.
Draco se levantou. "Te vejo essa tarde," ele disse para Harry, e com um sorriso animado, saiu do Salão Principal.
Seamus rastejou de volta ao seu lugar, e observou Draco até ele desaparecer pela porta. Então ele se virou para Harry, com o olhar encantado de volta à sua face. "Meu Deus, Harry," ele disse, praticamente sem fôlego. "Você dormiu com o Malfoy. Eu quero saber de tudo!"
Harry ficou um pouco vermelho, mas sorriu. "Isso," ele disse enigmaticamente "é tudo." Ele se levantou. "Isso não é pra ninguém mais saber. Então, por favor, não falem pra ninguém que não estava aqui essa manhã," ele pediu, enquanto olhava com expectativa para seus colegas. "Obrigado," ele adicionou sinceramente, quando todos concordaram. "Eu sei que Draco e eu vamos enfrentar muita oposição uma hora, mas ajuda. . . ajuda muito . . . saber que posso contar com vocês."
…
…
Quando Draco voltou ao seu quarto, estava regozijando-se ligeiramente. A preocupante conversa com os Grifinórios havia terminado melhor do que esperara. Com a exceção, é claro, de Weasley – e quem teria esperanças de que isso fosse correr bem? Draco ficou enraivecido quando o ruivo idiota empurrou Harry ao chão. Mas, pensando bem, Draco também costumava ter o mesmo desejo antigamente? E ele havia descoberto, repetidamente, que quando Harry Potter era jogado ao chão, ele se levantava e enfrentava a pessoa, pelo motivo que fosse, com uma determinação feroz que sempre deixava Draco ao mesmo tempo furioso e incrédulo. Era por causa disso que Draco não acreditava por um momento que Harry fosse recusar lutar contra Voldemort, independentemente do que havia declarado na noite anterior em sentido contrário. A boca de Draco curvou em um sorriso seco e triste, um sorriso direcionado à sua atuação naquele evento, contaminado de arrependimento pela mesma razão. Harry achava que lutar o Lorde das Trevas era algo amargo e insuportável de se fazer, mas ele o faria. Assim como Draco faria o impossível, a coisa amarga que tinha que fazer.
Mas decididamente afastou esses pensamentos de sua mente. Não ganharia nada sendo tolo a respeito de coisas que não tinha como mudar. Reacendeu o fogo despreocupadamente, então andou até sua escrivaninha e abriu a gaveta em que havia escondido o anel e o livro da biblioteca sobre transfigurações de pedras preciosas. O anel estava frio, um peso leve em sua palma, enquanto o carregava até a mesa à frente da lareira. Empurrando cuidadosamente o tabuleiro para o lado, Draco colocou o anel na mesa e se sentou na cadeira, um pé dobrado embaixo de si, para estudar o feitiço de transfiguração. Abriu o livro e começou a ler.
…
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Caminhar sozinho em direção à Hogsmeade permitiu que Harry tivesse tempo para pensar. Talvez fosse algo a ver com a expressão séria e intensa em sua face, ou a maneira como caminhava com a cabeça ligeiramente abaixada, mãos dentro dos bolsos, que fez com que outros estudantes não se convidassem à sua companhia, e Harry estava contente com isso. Ele acenou para alguns conhecidos enquanto ia, perdido no turbilhão de emoções e pensamentos e preocupações que exigiam a atenção de sua mente. Várias coisas haviam acontecido na última noite e nessa manhã, coisas que não teve tempo de analisar ou decifrar até agora.
Havia, é claro, a reação de Rony nessa manhã ao descobrir com quem Harry estava envolvido. Rony tinha agido exatamente como Harry esperava, mas, na realidade, tinha torcido por uma reação melhor, e sentia-se desapontado. Rony era seu melhor amigo, afinal de contas. Parecia muito como daquela vez em que Rony não acreditou que Harry não tinha colocado seu nome no Cálice de Fogo durante o Torneio Tribruxo. Mas talvez as coisas melhorassem à tarde depois que Rony tivesse tempo para se acalmar e Hermione conversasse com ele. Harry estava determinado a não deixar Rony se meter entre ele e Draco, ou Draco entre ele e Rony. Não estava com esperanças falsas de que eles passariam a se gostar, mas simplesmente não iria agüentar ambos brigando um com o outro. O que queria era que Draco concordasse em vir com ele conversar com Rony nessa tarde, que Rony falasse com Draco e visse que ele mudou.
E então tinha a questão de seu relacionamento com Draco. Tantas coisas tinham acontecido nessa última noite. Harry contou ao outro garoto coisas que nunca havia contado a mais ninguém, teve uma revelação enquanto estava no chuveiro, outro a respeito de Cho, e quase fez amor com um garoto que, uma semana atrás, pensou que odiava. Quase fez amor, ele pensou, frustrado por não entender o que aconteceu. Teria feito, se Draco não tivesse parado tudo. Por quê? O que fez com que Draco repentinamente mudasse de idéia? Aquele evento quase certamente estava relacionado à conversa deles sobre Cho, mas Harry ainda estava perdido em entender como.
E Cho. O que Draco disse a respeito de Cho mudou tudo que havia previamente acreditado sobre ela. Ele tinha achado que sabia de tudo, que o que sentia agora por Draco era tão mais poderoso do que havia experimentado com Cho porque ela nunca tinha realmente gostado dele, não o tinha amado, e não tinha se permitido envolver muito profundamente. Mas se Draco estava certo quanto ao que aconteceu, então tudo isso não era verdade.
Mesmo assim, o fato que ele se sentia diferente com Draco era inegável. Desde o primeiro breve beijo, ele sentiu algo. Sentiu algo tão forte que foi o suficiente para reverter todas suas percepções acerca de Draco dos últimos seis anos. Forte o suficiente para se apaixonar. Para querer fazer amor. Com um garoto. Harry ponderou sobre isso por um momento. Será que ele era gay, afinal de contas? Qual era a explicação? Seria diferente apenas porque sentia mais desejo por meninos do que por meninas? Ou a diferença cabia a algo específico em Draco?
Não demorou muito para Harry chegar à conclusão de que nunca sentiu-se atraído por outro garoto, e que o que sentia por Draco englobava muito mais do que desejo, ou a necessidade de sexo. Desde aquela noite que ficou no quarto de Draco, que o abraçou e beijou, tinha derretido naqueles olhos cinza calorosos e teve um sentimento de estar completo que nunca havia sentido com Cho, desde então existiu uma ligação irrefutável entre eles, algo tão profundo que estava crescendo com uma velocidade que seria assustadora se não fosse pelo sentimento, bem no meio de tudo, de que aquilo era certo. Realmente não havia dúvidas de que queria ficar com Draco por causa do próprio garoto.
Harry agora estava sorrindo enquanto andava, relembrando seus sentimentos da noite anterior enquanto esteve no chuveiro com Draco. As baboseiras lastimáveis de Draco quanto à sua camisa molhada e seu medo assustadoramente genuíno pela segurança de Harry tinham sido tão adoráveis, tinham tocado seu coração tão completamente, que caiu da beira do penhasco – desabado, na verdade, ele pensou, rindo sozinho – e estava agora, sem nenhuma dúvida, completamente apaixonado pela criatura enigmática e mercurial que era Draco Malfoy. Repentinamente, a memória de segurar e beijar Draco enquanto o outro garoto deitava embaixo de si na noite passada correram por Harry em uma onda de desejo tão intensa que ele teve que parar de andar e ficar parado por um momento, preso ao chão enquanto as sensações vívidas corriam por si. Harry queria ter feito amor, queria que Draco fosse seu com todo seu coração. E era óbvio que Draco queria isso também. O que trazia os pensamentos de Harry de volta ao início. O que fez com que Draco mudasse de idéia?
Balançando levemente a cabeça, Harry se forçou de volta à realidade, retomando sua caminhada. Talvez ele esteja preocupado por eu ter experiência e ele não, ele pensou. Mas logo dispensou essa idéia – Draco sabia que sua história de virgindade era uma mentira desde o começo – e ele esteve muito disposto, excitado e até mesmo impaciente em dormir com Harry até aquele momento em que conversaram sobre o término do namoro de Harry com Cho Chang. Não, definitivamente tinha alguma coisa a ver com o que dissera a respeito de Cho. A última coisa que se lembrava de ter dito, antes de perceber que Draco havia mudado de idéia, era Draco perguntando se isso seria para sempre. Mas não, isso aconteceu depois de Draco voltar à cama. Merda. O que Harry disse que fez Draco se levantar, para começar?
Harry se concentrou bastante, tentando lembrar-se, mas estivera muito preso em suas próprias emoções em relação a Cho para ter uma memória clara do que tinha sido dito exatamente. Lembrava-se, muito vagamente, de Draco fazendo-lhe uma pergunta, algo sobre arrependimentos, talvez, e Harry respondendo que desejava não ter dormido com ela, então outra pergunta indagando se era isso que o tinha feito sofrer tanto. Tinha que ser isso, mas, por mais que tentasse, Harry não conseguia entender porque isso teria feito com que Draco mudasse de idéia.
Ele suspirou novamente, e chutou uma pedra no caminho. Então deu de ombros e parou de se preocupar. Não importava, na verdade. No máximo, significava ter de esperar alguns dias, e Harry não se importava em fazer isso. O jogo de xadrez não podia demorar muito mais para acabar, e eles teriam o feriado de Natal inteiro para passarem juntos. Harry sorriu ao imaginar. Não, esperar um dia ou um pouco mais não fazia diferença alguma. Especialmente, ele percebeu repentinamente, quando se pretende passar o resto da vida com aquela pessoa.
…
…
Draco começou a ler o livro desde o início. Passou rapidamente por vários parágrafos acerca da história da transfiguração de pedras preciosas e informações biográficas do autor, concentrando-se, ao invés disso, nas seções que lidavam com a mágica envolvida. Bem no final do primeiro capítulo ele leu, então releu, o seguinte aviso:
A complexidade de um feitiço de transfiguração de pedras preciosas se encontra na necessidade de transfigurar não apenas os elementos que formam a própria massa das pedras, mas em alterar suas formas de energia também. Não é um simples fato de modificar a cor da pedra; uma mudança completa das propriedades minerais inertes e da essência ativa de vibração deve ser alcançada. Essa transfiguração deve ser feita corretamente na primeira tentativa. Fracasso fará com que a pedra preciosa se desintegre, suas estruturas internas destruídas até surgirem perspectivas de reconstrução.
Draco soltou um xingamento baixinho. Ele não tinha tempo de esperar o anel se recompor – teria de ser muito cuidadoso. Voltou sua atenção ao sumário. O livro apenas cobria cerca de dez tipos diferentes de transfigurações, cada uma com seu próprio capítulo. Ele escaneou a lista, encontrando Esmeralda para Rubi mais ou menos na metade da página. Encontrou a seção indicada e leu:
Esmeralda e rubi são ambas pedras do coração, sendo, portanto, similares em vibração. Há, no entanto, diferenças em sua influência. Em razão de sua tonalidade clara e brilhante, a esmeralda é a pedra mais perfeitamente associada às vibrações verdes mais altas de cura, agindo para balancear e purificar o usuário. O rubi estimula as emoções, fortalecendo a vontade e dando coragem, agindo também como forma de balancear e purificar o usuário.
Ele pausou por um momento, pensando. A descrição da esmeralda fez com que ela parecesse mais apropriada para Harry do que havia originalmente pensado. Ele considerou, brevemente, deixar o anel como estava. Mas a influência do rubi, considerando o intuito em que o anel seria dado, encaixava-se ainda melhor. Ele pulou para o próximo parágrafo, tomando a decisão de seguir seu plano original de transfigurar as pedras, e retomou sua leitura:
A transfiguração de esmeralda para rubi é considerada de uma dificuldade apenas moderada devido ao fato de, apesar das pedras terem composições estruturais diferenciadas, ambas possuírem similaridades no que diz respeito às suas vibrações e influências.
Pelo menos ele não tinha escolhido o feitiço mais complicado. Este envolvia uma série de três encantações, cada uma trabalhando com um aspecto diferente das propriedades da pedra. Ele leu o feitiço várias vezes, então fechou os olhos, recitando suavemente de memória. Checando seus erros, ele leu o feitiço novamente, e ficou grato ao perceber que o lembrava perfeitamente. Bem, não tinha razão para adiar o inevitável, se o anel tinha que descansar na poção pelo período de 24 a 48 horas, teria que fazer a transfiguração agora.
Draco retomou o anel da mesa e apanhou sua varinha. Fechou os olhos novamente por um momento, ajustando sua respiração. Então com a voz clara e confiante ele recitou as palavras do feitiço, dando uma volta elegante com sua varinha acima do anel ao final de cada encantação. Após a última passada de sua varinha, duas faíscas idênticas de luz azul-violeta entraram nas esmeraldas e brilharam com uma incandescência misteriosa por alguns segundos antes de se tornarem um vermelho escuro. Draco sorriu, fechando seu punho ao redor do anel, apertando-o com força em um triunfo e alívio silenciosos. Colocou sua varinha novamente na mesa e se ajeitou na cadeira. Ainda sorrindo para si mesmo com satisfação em face de seu sucesso, ele foi até o guarda-roupa, retirou a jarra de poção da última prateleira e jogou o anel no líquido azul claro. Fez-se um ligeiro som metálico quando o anel bateu no fundo da jarra. Draco a segurou no nível dos olhos e examinou o anel pelo vidro, então, sentindo-se seguro de que tudo correra bem, ele recolocou a tampa com firmeza e pôs a jarra na prateleira. Checou seu relógio e descobriu que ainda tinha uma hora antes de ter que se encontrar com Harry, muito tempo para caminhar até Hogsmeade e encontrar uma bela caixa de presente para o anel que o daria.
Harry. . . Draco virou e deu os passos que o levavam à sua cama. Os lençóis ainda estavam desarrumados, do jeito que os havia deixado em sua pressa de ficar pronto nessa manhã. Ele deveria arrumá-los, mas não queria, o caos dobrado e torcido ali segurava uma eloqüente evidência e testemunho da presença de Harry que Draco preferia não apagar. A memória o consumiu por um momento e ele segurou a cabeceira para se firmar frente à onda de emoções que o atacou. Lembrou-se do toque das mãos de Harry, na noite repassada, tão calmante e seguro, um toque que sentiu reverberar por sua pele, ecoando profundamente dentro de si, o calor medicinal daquelas mãos persuadindo e espalhando conforto até seu coração.
E na noite passada. . . Ele conseguia se lembrar com surpreendente clareza, o corpo de Harry acima de si, pressionando-o, parecendo aquele ser o local mais perfeito que Draco poderia ser abraçado, um local de segurança completa, onde vida e tempo poderiam correr indefinidamente, perdidos no momento longo e leve de eternidade contido em um beijo. A ausência daquele toque, daquela presença, estava virando um vazio agudo que o consumia com necessidade e desejo. Tão novos, esses sentimentos, mas tão dolorosamente familiares, como se estivessem incorporados em sua pessoa desde sempre, mas apenas vindo à superfície agora, com uma frescura crua que atordoavam a mente e faziam os sentidos se confundirem. Ele estava apaixonado e sabia disso com uma certeza absoluta.
E o que ele ama. . .
Virou-se para observar a prateleira que mantinha sua única esperança no futuro impiedoso que previa. O que ele ama, manteria a salvo. A qualquer custo.
…
…
Harry já tinha encontrado presentes para todos na sua lista com a exceção de Draco, e estava começando a se preocupar porque nada parecia perfeito. Ele havia checado os livros enquanto comprava o de Hermione, e itens de Quadribol enquanto procurava o de Rony, mas Draco aparentava já ter tantos livros, e Harry não tinha avistado evidências de que o outro garoto tivesse interesse em algum time de Quadribol em particular. Ele quase comprou um elegante conjunto de pena de escrever e pergaminhos, mas finalmente decidiu que isso era muito impessoal. Ele queria algo que fosse único, algo que pudesse expressar seus sentimentos, que pudesse ser significativo para ambos.
Já estava se aproximando das 12:30, o que significava que deveria se encontrar com Draco em meia hora. Harry parou no meio do caminho, trocou as sacolas de compras de uma mão para a outra e olhou em volta, começando a se desesperar um pouco. Onde mais poderia ir? Sua atenção foi atraída então a uma pequena loja do outro lado da rua com um sinal acima da porta que lia 'A Pedra Reluzente – Jóias e Pedras Mágicas', que nunca tinha percebido antes. Jóias? Harry não tinha considerado isso. Mas sim, talvez isso fosse exatamente o que queria – algo que Draco pudesse colocar que significasse a união deles. Ele corou um pouco com esse pensamento; nunca tinha dado jóias a ninguém antes, nem mesmo Cho, e isso o surpreendeu agora, percebendo que nunca teve a vontade. Mas Draco. . . Harry sentia-se animado com a idéia, então com um entusiasmo renovado e respirando fundo, ele atravessou a rua até chegar à loja.
Um pequeno sino soou agradavelmente quando ele abriu a porta. No interior havia vários balcões de vidro brilhantemente acesos que guardavam prateleiras de pedras de vidência, bolas de cristal de vários tamanhos, e muitas pedras preciosas de inúmeras cores juntadas em colares e outras jóias. Harry passou o olho rapidamente por todas essas, então percebeu uma pequena mostra de anéis. Um anel em especial, feito de ouro com três pedras azul-escuro em fila, chamou sua atenção. Era encantador, mas após estudá-lo por alguns momentos, decidiu que não era o que estava procurando. Ao lado dos anéis, no entanto, em outra pequena prateleira naquele balcão, cujo brilho prismático ficava ainda mais vívido em contraste com o veludo preto da prateleira, havia um agrupamento de delicados pingentes de cristal com definições torcidas prateadas feitas de filigrana, em correntes finas de prata. Os cristais haviam sido magicamente transfigurados em símbolos rúnicos antigos, alguns deles tinham pedras coloridas presas à corrente. Eram cristais simples e elegantes, claros com prata delicadamente curvada, com uma pitada de cor aqui e ali; lindos com um brilho aparentemente frio e um fogo interno que o lembravam de Draco. Todos eles pareciam igualmente adequados, então Harry não fazia idéia de como escolher entre os diferentes símbolos. Então seus olhos caíram em um, e ele sentiu uma investida de reconhecimento. Era quase como. . . não exatamente igual. . . mas se eles pudessem fazer isso. . . Um calafrio correu por seu corpo quando se lembrou de Draco gentilmente acariciando sua cicatriz. Apenas Draco já tinha a tocado em afeição daquele jeito. Harry levantou o olhar expectante quando o lojista se aproximou.
"Gostou de alguma coisa, jovem?"
"Sim", Harry disse hesitantemente. "É esse, gostei muito, mas estava pensando se você poderia fazer um especificamente para mim? Com um certo formato." Ele levantou o cabelo de sua testa, corando levemente. "Você poderia fazer dessa forma – com um das pedras pequenas nele?" Harry sorriu timidamente. "E eu sei que é em cima da hora, mas seria possível uma entrega até segunda-feira? Eu posso pagar a mais pela pressa. É para ser um presente de Natal."
O homem soltou um largo sorriso, radiante. "Para Harry Potter, podemos fazer qualquer coisa!" ele disse jovialmente. "Agora venha aqui por um momento – e deixe-me olhar sua testa de perto. . ."
Harry ficou parado enquanto o joalheiro fazia um esboço perfeito de sua cicatriz. Estava muito agradecido por mais ninguém ter entrado na loja, mas isso não durou muito tempo. Então Harry escolheu a pedra preciosa que queria, uma pedra pálida azul-acizentada que parecia brilhar com uma luz interior e que o lembrava dos olhos de Draco. Após um aperto de mãos entusiasmado, saiu da loja, um pouco envergonhado, mas também contentíssimo com sua compra. O joalheiro o assegurou que o pingente estaria pronto e entregue até segunda-feira de manhã.
…
…
Harry caminhou o mais rapidamente que pôde da joalheria até o Três Vassouras, ciente de que estava um pouco atrasado. Encontrou Draco na entrada da pousada segurando uma sacola de compras bem pequena. "Tá esperando faz tempo?" Harry perguntou, lamentando ter feito o outro garoto esperar.
"Não muito," Draco respondeu, percebendo todos os pacotes que Harry estava carregando com um interesse curioso, uma sobrancelha levantada. "Parece que você esteve ocupado."
Harry seguiu Draco até o interior do bar, nenhum deles percebendo o garoto de cabelo escuro que os observava do outro lado da rua. Eles se moveram pela multidão explosiva da hora do almoço e encontraram uma pequena mesa ao fundo. Como sempre, havia fogo queimando na lareira e a Madame Rosmerta havia decorado festivamente a área ao lado da lareira com uma bela árvore de Natal iluminada e com galhos de avezinho no teto.
Harry e Draco pediram sanduíches e cervejas-amanteigadas, e então se sentaram para relaxar. Draco observou as sacolas de Harry novamente e sorriu maliciosamente. "Torre para D1, Harry. Diga o que você tem nesses pacotes. Alguma coisa para mim em algum desses?"
"Não," Harry respondeu com um sorriso brincalhão. "Nada para você."
"Nada?" Draco pareceu profundamente desapontado.
"Não nesses pacotes," Harry disse. "O seu ainda será entregue."
"Oooh, então você tem alguma coisa para mim?"
"É claro que sim," Harry disse com uma risada.
"Hmm," Draco pensou. "O que poderia ser que teria que ser entregue? Dê-me uma dica, Harry," ele implorou.
"É algo bem legal." Harry riu de novo. "Não é roupa íntima, e é só isso que vou dizer." Então ele ficou mais sóbrio. "Espero que você goste." Ele olhou para a sacola ao lado de Draco no banco. "Umm, Torre para E4," ele disse, após pensar por um momento para se certificar do local de suas peças de xadrez. "O que você comprou?"
"Eu comprei algo para você essa manhã," Draco disse, alcançando sua sacola. "Esse não é o seu presente. Apenas a caixa para colocá-lo." Ele passou a Harry um item pequeno e embrulhado.
Harry o abriu e sentiu-se corar. Era uma caixinha adorável de veludo, preta com uma decoração prateada, e obviamente com o intuito de guardar um anel. "Ah," Harry disse, tocado e rendido sem fala com as implicações que aquilo trazia. "É. . . ótimo."
Harry levantou os olhos para Draco, que estava sorrindo para ele, mas antes que pudesse pensar em dizer alguma coisa, a comida deles chegou.
Draco rapidamente apanhou a caixa e o papel de embrulho e os guardou em seu bolso, deixando a sacola na mesa. Apanhou a caneca de cerveja-amanteigada e a levantou. "Um brinde," ele disse com um brilho entretido em seus olhos. "Aos presentes de Natal que não são roupas de baixo."
Rindo, Harry levantou sua caneca e a bateu com a de Draco. "Aos presentes de Natal," ele disse, e ambos beberam. Quando Harry abaixou sua bebida, ele acabou por olhar na direção da porta e avistou uma figura familiar de cabelos pretos andando lentamente por ali, encarando-os. "Draco," Harry disse quietamente, após um momento, quando o garoto continuou a protelar, "eu acho que estamos sendo observados. Não é um de seus colegas da Sonserina, ali na porta?"
"Sim." Draco deu de ombros como se não importasse. "Eu o vi."
"Está tudo bem?" Harry persistiu. "Quero dizer, talvez não devêssemos ficar aqui juntos. Agora que meus amigos sabem, eu não estava mais preocupado em ser visto aqui com você, mas esqueci dos outros Sonserinos. Eu acho que eles não vão gostar de nos ver juntos."
"Eu não dou a mínima para o que eles pensam," Draco disse com convicção. "O que eu faço, ou quem eu vejo, não é da conta de ninguém." Ele se virou para Harry com uma expressão nervosa. "Isso não quer dizer que estou planejando andar pelos corredores de mãos dadas com você. O que acontece entre nós é privado e eu não quero que seja comentado pela escola toda. Eu preferiria que o mínimo de pessoas possível soubesse."
"Eu já contei a todo mundo que eu queria," Harry afirmou com animação "portanto, para mim, ninguém mais precisa saber. Mas. . ." ele pausou, hesitando por um segundo antes de vocalizar sua preocupação. "Draco, eu falei sério ontem, quando disse que não conseguiria mais brigar com você. Eu não acho que sequer consigo fingir brigar com você, para criar a aparência de ainda sermos inimigos. E eu não vou simplesmente te ignorar e agir com indiferença." Harry suspirou. "Eu passei por isso com Cho, esgueirando-se por aí, sem deixar que ninguém nos visse juntos, e isso cansa rápido – eu não quero fazer novamente. Nós temos que parecermos ser pelo menos amigos, para que possamos conversar em público ou fazer coisas juntos, mesmo se mantermos a real natureza do nosso relacionamento um segredo."
"O que?" Draco protestou, com um pequeno sorriso brincalhão em seus lábios. "Eu não posso mais chutar o seu calcanhar fora do Salão Principal?"
"Não!" Harry disse com uma risada. "Sem chutes ou beijos em público."
"Não parece muito divertido para mim."
"Você é quem está insistindo em manter tudo privado – portanto, sem beijos." Harry levantou o olhar e viu que o garoto tinha sumido. Ele relaxou. "Mas eu devo insistir na ausência de chutes. Meu tornozelo ainda está dolorido."
Draco riu e bateu sua caneca na de Harry. "Foi um momento de pura genialidade – se posso dizer." Ele tomou um gole e então disse. "Mas até mesmo nós como amigos vai causar fofoca."
"Bem," Harry disse filosoficamente, "por mais que eu odeie, não é nada de novo. Nenhum de nós pode dar um passo sem fazer com que todo mundo comente a respeito."
"Isso é verdade." Draco concordou com a cabeça. "Tá bom, amigos seremos, então. E danem-se as conseqüências."
Harry riu. "Concordo," ele disse, feliz por Draco ter aceitado. E com isso definido, eles se concentraram em atacar os sanduíches gigantes às suas frentes.
…
…
Quando Harry e Draco deixaram o Três Vassouras, eles iniciaram uma caminhada calma em direção à Hogwarts. A volta pela floresta estava quieta, quase mais ninguém estava na rota. Eles passaram por um casal de Lufa-Lufas do sexto ano chegando à cidade que os lançaram um olhar curioso, mas a partir de então parecia que eles tinham a estrada toda para eles. Gigantescas árvores sempre-vivas estavam acima deles em ambos os lados, criando uma energia de quietude e isolação; e aqui e ali ainda tinham algumas árvores com folhas brilhantemente coloridas, ainda persistentemente segurando-se apesar de já ser outono, alegrando a floresta, contrastando-se bruscamente com a elegância escura dos abetos. Acima, o céu estava nublado, um cinza tão pálido que era quase branco. O ar estava fresco e frio, mas proporcionava uma sensação gostosa depois do calor sufocante dentro do Três Vassouras.
Harry olhou atrás deles, e vendo a estrada deserta, jogou todas as sacolas para um braço, e então alcançou e apanhou a mão de Draco. "Isso não é um corredor na escola," Harry disse quando Draco olhou para ele com uma sobrancelha levantada em surpresa.
Draco sorriu, mas qualquer resposta foi cortada pelo som repentino de risinhos femininos. As vozes vinham da curva na estrada que vinha logo à frente deles.
Harry congelou, fazendo com que Draco parasse também. "Espere," ele sussurrou, "Eu conheço esses risinhos."
Draco parecia enojado. "Eu também," ele rosnou. "São aquelas duas meninas."
Harry olhou em volta, pânico crescendo, mas a floresta os rodeava dos dois lados. Havia apenas uma coisa a se fazer. "Rápido," ele disse, "aqui!" Ainda segurando Draco firmemente pela mão, Harry mergulhou na floresta, arrastando Draco com ele. Os arbustos eram espessos e eles tiveram que lutar para passar por eles. Finalmente, Harry emergiu em uma clareira circular. Olhou atrás deles e parou, satisfeito por ser impossível vê-los da estrada.
Draco arrancou sua mão do domínio de Harry e o fixou com um olhar questionador. "E para que foi isso?" ele exigiu, retirando folhas mortas de seu casaco. "Eu sei que disse que você deveria ficar longe daquelas meninas, mas isso não quer dizer que você tem que sair correndo floresta adentro, arrastando-me pelos arbustos e ervas - daninhas com você."
"Desculpe," Harry disse sem fôlego, colocando no chão as sacolas que estava carregando. "É só que. . . eu quero te perguntar uma coisa, e eu não queria encontrar elas antes que pudesse perguntar."
"Me perguntar o que? E o que isso tem a ver com elas?" Draco perguntou com irritação, apanhando sementes de suas mangas.
Harry mordeu seu lábio inferior por um segundo. Draco parecia bem irritado e esse provavelmente era um péssimo momento, mas ele já tinha se esquecido disso antes e não podia mais esperar. "Eu estava pensando. . ." ele disse com hesitação, "se você gostaria de ir ao Baile Anual comigo."
Draco apenas encarou Harry por um momento. "Harry, está louco?" ele perguntou finalmente, incrédulo. "Nós não podemos sair em encontros. Eu achei que tínhamos concordado em manter nosso real relacionamento um segredo."
Harry sorriu timidamente. "Nós podemos ir se parecer que temos outros pares."
"Mas não temos outros pares."
"Temos sim."
Draco franziu as sobrancelhas. "Harry, o que você fez?"
"Esqueci de te contar," Harry disse muito quietamente. "Eu falei que iríamos com elas."
"O QUE?"
"Shhh!" Harry disse, ansioso em não ser ouvido. "Posso explicar."
Draco cruzou os braços e observou Harry com olhos desconfiados. "Então você conversou com elas, afinal de contas. Mesmo depois que eu pedi que não o fizesse."
"Elas têm um plano muito interessante."
"Eu não ligo para o que elas planejaram! Eu não vou encorajar uma garota pela qual eu não tenho o mínimo interesse levando ela ao Baile!" Ele virou a face para o outro lado. "Droga," ele xingou baixinho, lembrando-se do que havia se prometido na noite anterior – de não negar mais nada a Harry. Ele virou-se novamente para encarar Harry após um segundo. "Elas vão pensar que gostamos delas," ele tentou explicar com um tom mais quieto, porém urgente. "Nunca vamos nos livrar delas – elas vão esperar que – "
"Não, elas não vão," Harry interrompeu. "Sabe por quê? Porque elas são como a gente. Elas querem ir juntas ao Baile e querem que nós sejamos seus pares de mentira."
As sobrancelhas de Draco levantaram-se rapidamente, compreensão imediata passando por ele. "Como a gente," ele repetiu, muito aborrecido. "E como que elas ficaram sabendo sobre a gente?"
Harry fez uma expressão torcida. "Elas estavam no corredor naquela manhã, lembra-se? Elas ficaram atrás da gente e escutaram. Elas ouviram você dizer que gostava de meninos e que tinha me beijado – e que, err. . . que eu gostei."
Draco soltou a respiração em um vapor branco. "Deus, eu odeio meninas Sonserinas. Elas são as coisas mais baixas e manipuladoras na face da Terra."
"Draco, pense a respeito," Harry persistiu. "Essa é a maneira perfeita de sermos vistos juntos, de mostrarmos a todo mundo que não estamos mais brigando, que somos amigos. Nós podemos acabar com tudo isso na frente da escola inteira ao invés de deixar os rumores correrem por semanas."
Ainda com um franzido, Draco disse, "quando nós concordamos em sermos vistos juntos, eu estava pensando em situações bem mais casuais." Ele observou Harry com sobriedade. "Você não vê a diferença entre nós sendo amigáveis nos corredores e aparecendo juntos no Baile? Mesmo se formos com aquelas meninas, ainda vai parecer estranho termos ido juntos. Você percebe que estará indo com três Sonserinos. Todos ficarão horrivelmente chocados."
Harry deu de ombros. "Todo mundo terá que superar. Além do mais, eu achei que você gostava de chocar as pessoas."
Draco não pôde negar isso. "Verdade," ele disse, ponderando. Finalmente, levantou o olhar a Harry com uma luz brincalhona em seus olhos. "Eu admito," ele disse, "que seria engraçado." Então ele sorriu. "Pansy ficará louca."
"Então irá comigo?"
"Talvez," Draco disse, com um olhar manhoso. "Você vai dançar comigo?"
Harry riu. "Agora quem está sendo louco? Você não acha que seria um pouco chocante demais, a não ser flagrantemente óbvio? O que aconteceu com a necessidade de privacidade?"
"Eu não desisti dela. Você apenas terá de encontrar um jeito de não sermos vistos," Draco disse sugestivamente. "Eu vou – se você prometer dançar comigo. E se deixar-me escolher suas roupas. Aquela coisa verde que você usou ano passado foi horripilante – eu me recuso a ser visto perto daquilo."
"Eu acho que posso concordar com esses termos," Harry disse, sorrindo e batendo em seu bolso. Ele sempre mantinha sua Capa da Invisibilidade encolhida e em sua pessoa a todo o tempo desde que começou a ver Draco. "Aquelas roupas já estão muito pequenas em mim, de qualquer jeito." Então o fato de o Baile ser dali a apenas dois dias ocorreu a Harry. "Mas espera, Draco," ele disse urgentemente. "Eu não vou ter tempo de comprar outras roupas formais antes de segunda à noite – a não ser que voltemos à Hogsmeade agora mesmo."
"Não se preocupe com isso," Draco disse. "Você pode usar um dos meus trajes. Você e eu somos mais ou menos do mesmo tamanho – não será difícil encontrar algo para você." Ele virou a face em direção ao céu quando algo macio e frio bateu em sua bochecha. "Está começando a nevar," ele disse. Ele deu uma volta ao perceber onde estavam pela primeira vez. "Ei!" ele exclamou. "Você sabe o que é isso?"
"Err," Harry disse, olhando para o céu também, então para Draco, confuso pela repentina mudança de assunto, "uma clareira na floresta?"
Draco soltou um ronco e rolou os olhos. "É um ponto de Chave do Portal! É antigo, pelo que dá para ver. Eu nunca soube que tinha um aqui, no caminho para Hogsmeade." Draco veio ficar bem perto de Harry. "Você sabe o que isso significa, não sabe?"
"Não," Harry disse, levantando a cabeça novamente para observar os pequenos flocos de neve caírem aqui e ali daquele pedaço redondo pálido de céu acima. "Não faço a mínima idéia."
"Quer dizer," Draco disse com uma paciência exagerada, "que há um caminho! Quer dizer que nós não tínhamos que vir escalando arbustos para chegar aqui e não temos que repetir a mesma execução cansativa e suja para sairmos!"
Harry riu. "Ah," ele disse. "Tentarei me lembrar disso. Sempre procure por caminhos que levem a um ponto de Chave do Portal que ninguém conhece enquanto fugir de garotas que você não quer que te vejam."
Ignorando isso, a não ser por lançar a Harry um olhar exasperado, Draco andou em volta, atentamente analisando os cantos do círculo por um sinal de quebra na parede virtual de arbustos e galhos que os rodeavam. As árvores ao redor do perímetro eram próximas umas às outras com arbustos grandes e densos entre elas, mas após alguns momentos, ele avistou um espaço entre duas árvores. "Aqui," ele chamou. "Deve ser isso."
Realmente, quando Harry se juntou a Draco naquele local, pôde ver uma trilha estreita em direção à estrada principal. "Bom trabalho!" Harry disse, impressionado e entretido. "Devo ir primeiro para garantir que não haja nenhuma erva - daninha no seu caminho?"
Draco levantou uma sobrancelha e tentou parecer insultado, mas riu ao invés disso porque Harry estava sorrindo para ele, e realmente era engraçado. Nenhuma outra pessoa em sua vida tinha a audácia de tirar sarro dele, e definitivamente ninguém havia tirado sarro da maneira afetuosa como Harry fez na noite passada. Ele estava achando isso muito romântico e agradável. "Você," ele disse com um tom igualmente provocador, "está flertando com o perigo, sabia?"
Harry riu e deu um passo na direção de Draco, escorregando seus braços embaixo da capa de Draco e puxando o loiro contra si. "Eu sei," ele disse suavemente. "Eu gosto disso." Os braços de Draco vieram ao redor do seu pescoço enquanto Harry abaixava sua cabeça para beijar a boca dele. A face do loiro estava fria, mas sua boca estava quente, e embaixo da capa em que as mãos de Harry pressionavam suas costas, Draco estava muito quente. Harry se aconchegou mais naquele calor confortável e delicioso. Sentiu Draco estremecer em seus braços em resposta, e apertou o abraço, então gentilmente terminou o beijo. "Ainda está bravo comigo?" ele perguntou, olhando fundo nos olhos de Draco, encontrando nenhum sinal de raiva nos olhos cinza-aveludados.
"Só um pouquinho," Draco disse com um pequeno franzir das sobrancelhas que parecia mais com um pequeno sorriso que estava tentando esconder.
Harry o beijou novamente, dessa vez por mais tempo, agitando o início de desejo entre eles, uma onda de calor derretendo-os juntos. "E agora?" ele sussurrou, finalmente.
Draco encostou sua cabeça na de Harry, seus olhos ainda fechados. "Difícil de dizer," ele sussurrou em resposta, sem fôlego. Após um momento ele se afastou. "Vamos voltar," disse quietamente. "Eu preferiria continuar isso no meu quarto."
Harry deixou Draco ir relutantemente, sentindo a separação como se fosse uma dor física enquanto o ar gelado o reivindicava do calor intoxicante de Draco, mas sorriu ao pensar em continuar o que estavam fazendo, deitados juntos na frente do fogo no quarto de Draco, e foi apanhar suas sacolas. Tomando a liderança, ele passou pela passagem estreita entre as árvores e começou a andar pela trilha que Draco havia encontrado. Draco o seguiu pela abertura, mas então pausou e virou-se para olhar para trás, estudando a clareira com um olhar crítico. Havia algo a respeito do lugar que estava incomodando-o. . . algo que sabia que deveria estar vendo. . . Então de repente, atingiu-o, percepção vindo à tona repentinamente, e as últimas peças de seu plano caíram perfeitamente em seus lugares. Harry terá que conseguir chegar aqui novamente, ele pensou, e eu vou precisar da ajuda de Dumbledore com uma parte. . . mas mesmo quando esse pensamento lhe ocorreu, já sabia exatamente que história iria contar ao velho bruxo para conseguir o que queria. Esse local era exatamente o que precisava. Aqui. . . ele virou-se rapidamente, chacoalhando o sentimento eminente de terminação – o choque desconcertante de ver o lugar em que tudo acabaria e saber para que serviria – reconhecer o que nenhum outro homem deveria ver ou saber. Rapidamente voltou a seguir a trilha, apressando-se para alcançar Harry.
O local em que a trilha encontrava a estrada estava cheio de arbustos altos e era difícil de ver. Draco fez Harry esperar enquanto tentava encontrar a entrada, procurando por algo. Finalmente, ele retirou várias vinhas de hera pesadas e enroscadas de um poste velho e agredido. "Ah," ele disse. "Sabia." O poste possuía duas flechas apagadas e quase ilegíveis, uma apontando para Hogwarts, e a outra para Hogsmeade. "Realmente foi um Ponto de Chave do Portal um dia."
"Obviamente não é usado faz muitos anos," Harry observou. "E foi esquecido."
"Eu acho que deve ter sido fechado durante a guerra com Voldemort, e devido à necessidade de aumentar a segurança do castelo posteriormente, ele nunca foi reaberto." Draco estudou o velho sinal por alguns momentos. "Você acha que conseguiria encontrar esse local novamente se precisasse?" ele perguntou, cuidadosamente mantendo seu tom de voz casual.
Harry olhou em volta. "Se eu procurar por esse poste, provavelmente. Por quê?"
"Eu só achei que parece um bom lugar de encontro – um lugar secreto, que apenas nós conhecemos," Draco disse enquanto continuavam pela estrada em direção à Hogwarts.
"Nesse caso, com certeza conseguiria encontrá-lo." Harry disse, sorrindo.
Eles caminharam um pouco mais e Draco suspirou. "Tá bom," ele disse com o tom resignado, "se vamos mesmo ao Baile, acho melhor você me contar com quem irei – além de você, é claro."
"Eu vou com a Natália" Harry explicou. "Ela é a loira, e você vai com a de cabelo escuro. Eu acho que o nome dela é Violeta."
Draco parou onde estava. "Ah, não," ele disse, virando na direção de Harry, indignação escrita em todo o seu rosto. "Mudei de idéia. Eu não vou a lugar nenhum – por qualquer motivo – com outra garota que tenha um nome estúpido de flor. Está ficando ridículo. Violeta, Pansy*, até mesmo minha própria mãe tem o nome de uma flor!"
"Ah," Harry disse, um pouco surpreso, "a minha mãe também. E a minha tia." Ele pausou por um segundo. "Pensando bem, a Lilá Brown**, uma garota Grifinória do meu ano também tem."
"Viu," Draco disse, obviamente sentindo como se sua alegação acabasse de ter sido indiscutivelmente provada. "Já foi feito muito além da conta."
Harry deu de ombros e continuou caminhando ao lado de Draco, pensando. "Bem," ele disse de maneira descomprometida após um tempo, "acho que está certo." Ele observou Draco de lado. "Sabe, pensando nisso agora," ele continuou, escondendo um sorriso, "talvez seja melhor que você não vá. Eu não sou um dançarino muito bom. Tenho certeza que você ficaria desapontado. As garotas provavelmente não vão ligar muito, se as duas forem comigo. Só é uma pena, entretanto, que eu vou ter que usar aquelas horríveis roupas verdes novamente. Apesar de elas quase não cobrirem meus joelhos."
A cara de Draco se contorceu com a imagem que isso projetou. Continuou caminhando, batalhando com as alternativas. Flocos de neve caíam sem pressa do céu pálido, caindo em seu cabelo e ombros e desaparecendo ao tocarem seu calor corporal enquanto ele se decidia. Mas imaginando Harry indo ao Baile Anual sem ele, acompanhando duas garotas e vestido naquelas roupas ridículas era mais do que pôde agüentar. Finalmente, ele teve que reconhecer que tinha sido manipulado por Harry, e com certa habilidade por parte do outro garoto. "Estou impressionado, Harry," ele disse com uma admiração relutante. "Isso foi puramente Sonserino."
"Então você vai?" Harry perguntou com um sorriso vitorioso.
Draco fez bico por mais um momento e então cedeu. "Eu vou," ele disse. "Mas só porque eu não posso deixar você aparecer naquele traje absurdo, posso? E com garotas. É simplesmente muito horrível de se contemplar."
"Graças a Deus!" Harry disse, rindo com enorme alívio. "Eu não acho que conseguiria suportar." Ele apanhou a mão de Draco novamente. "E teria sido totalmente sua culpa, sabe, se eu tivesse que me atirar da Torre de Astronomia depois de tudo."
Draco teve que rir com isso. "Eu me recuso a assumir responsabilidade," ele disse com um jogar de seu cabelo e um sorriso brincalhão, "por seus restos nojentos e sangrentos. Eu te disse para não conversar com elas. Todo esse plano de nós irmos com elas para que você pudesse me levar em um encontro foi idéia sua."
Harry sorriu em resposta. "Foi idéia das garotas, mas eu reconheci que é um plano brilhante," ele disse com orgulho. "Não tem outro jeito de irmos juntos." Eles andaram mais um pouco, então com um tom de desculpas, Harry adicionou, "tem outra coisa que preciso te perguntar."
"É bom que não envolva garotas," Draco avisou, com seriedade.
"Não, muito pior que isso, eu temo em dizer. É o Rony. Eu preciso falar com ele quando voltarmos, e eu estava realmente torcendo que você fosse comigo."
"Você quer que eu vá com você, depois do que aconteceu nessa manhã?"
"Sim," Harry disse firmemente. Ele estava determinado em fazer com que Rony e Draco conversassem, e não iria aceitar um 'não' como resposta de nenhum dos dois a respeito disso. "E dessa vez, por favor tente manter-se calmo," ele pediu, com um pouco de brincadeira em sua voz, mas firme em sua resolução.
Draco fez uma careta. "Não é muito provável que ele se mantenha calmo comigo."
"Eu sei, mas ele vai se acalmar eventualmente," Harry confirmou. "Até lá, tudo que estou pedindo é que você mostre a ele seu lado devastadoramente charmoso para convencê-lo de que eu não fiquei louco quando decidi que quero ficar com você."
"Bem," Draco disse, ponderando, "se você coloca desse jeito. Mas você entende que ser charmoso para um Weasley demanda habilidade e esforço fenomenais? Eu espero muito carinho e atenção depois pelo meu trabalho."
Harry rolou os olhos, mas estava sorrindo. "Eu posso fazer isso," ele disse.
Draco balançou a cabeça. "Garotas bobas e Weasleys," ele murmurou, mas com a expressão suavizada pelo início de um sorriso. "Eu costumava levar uma vida tão calma."
Harry parou de andar e colocou um braço ao redor da cintura de Draco. "E agora você tem a mim," ele disse suavemente, puxando o loiro para perto. "Quer a outra vida de volta?"
"Não." Draco sorriu ao ver os flocos de neve que caíam e derretiam no cabelo de Harry, deixando gotas de água minúsculas e brilhantes. "Muito tarde para isso," ele sussurrou na boca de Harry enquanto inclinava-se para aceitar o beijo do outro. "Mas tem certeza que não pode esperar até depois do Natal?" ele perguntou quando se separaram. "Nós só temos mais três dias antes de eu ter que ir para casa. Eu não quero dividir você com ninguém."
"Eu não quero esperar," Harry insistiu, então ele encarou Draco com alarme. "Mas Draco, Deus. . . eu achei que você ficaria aqui para o Natal. Eu não achei que você fosse voltar para casa. Dumbledore disse que você tinha perguntado se podia ficar em Hogwarts. . . para ficar seguro. E Snape disse. . ." Harry puxou Draco para perto de si, uma onda de profunda preocupação se apossando dele enquanto se lembrava exatamente do que Snape disse. Se você gosta dele, mantenha-o longe de Lucius. "Eu não acho que você deva ir," ele disse desesperadamente. "Por favor, não vá. Eu. . . eu quero passar o Natal aqui com você. . . nós podemos ter o castelo inteiro só para nós."
"Eu tenho que ir para casa, Harry," Draco disse com tristeza, mas firmemente. "Meu pai está esperando minha volta com muita particularidade. Não há desculpas que eu possa dar e que ele vá aceitar."
Harry estudou a face do outro garoto com desânimo, então se separou vagarosamente do abraço de Draco e continuou a andar. Após um momento de espera, Draco o alcançou e continuou a andar ao seu lado. Eles caminharam por um momento sem falar, Harry abalado por desapontamento e preocupação, sem saber o que dizer. Certamente tinha que ter um jeito de manter Draco em Hogwarts. Talvez Snape pudesse falar com ele. Harry quase tropeçou ao pensar em pedir ajuda ao professor mal-humorado, mas isso era importante demais para que deixasse seu desgosto pessoal pelo homem ficar no caminho. Ou talvez Dumbledore pudesse fazer algo.
"Eu realmente não tenho escolha, Harry," Draco disse quietamente. "Se tivesse, você não sabe que eu ficaria aqui com você?"
"Eu sei," Harry disse. "Mas e se a gente for falar com Dumbledore - "
"Se alguém se envolver em tentar me manter aqui," Draco disse, cortando Harry. "só piorará as coisas. Minha única chance no momento é fazer exatamente o que meu pai espera, para que não fique suspeito. E já que essa provavelmente será a última vez que irei para casa, preciso fazer algumas coisas. Eu quero apanhar alguns itens pessoais do meu quarto. . . e me despedir da minha mãe."
Harry concordou com um gesto da cabeça, resignado. Era muito difícil discutir com isso. Ele levantou o olhar e se surpreendeu ao ver que haviam chegado ao início das terras de Hogwarts. Ele parou e colocou suas sacolas no chão. Draco observou impacientemente enquanto Harry pescava os bolsos de seus jeans. "Se você virá comigo falar com o Rony," Harry disse, retirando sua Capa da Invisibilidade, "terá que vestir isso. E você precisa colocar agora, antes de entrarmos."
"Bem, apresse-se então," Draco disse, e Harry retirou sua varinha e encantou a capa ao seu tamanho natural. "Se tenho que conversar com Weasley, quero terminar logo com isso, para que possamos ter o resto da noite só para nós."
…
…
Harry entrou no salão comunal da Grifinória com suas mãos cheias de sacolas de compras e com Draco embaixo da Capa da Invisibilidade próximo atrás dele. Hermione pulou rapidamente da mesa em que estava sentada estudando para a última aula deles de História de Mistérios Mágicos.
"Harry," ela chamou urgentemente, quase tropeçando em um grupo de alunos do primeiro ano sentados no chão brincando de Snap Explosivo em sua pressa em chegar até ele. "Rony está lá em cima no quarto de vocês," ela sussurrou quando o alcançou. "Eu conversei com ele, mas ele está agindo de maneira completamente miserável. Ele mal disse duas palavras para mim."
"Nós vamos subir lá e falar com ele agora mesmo," Harry disse, encarando os olhos castanhos preocupados de Hermione. "Não se preocupe," ele adicionou gentilmente. "Eu vou fazer as pazes com ele de algum jeito."
"Nós?" ela perguntou, franzindo as sobrancelhas. "O que quer dizer. . .?"
"Ele quer dizer que estou aqui também," disse uma voz baixa saindo do ar logo atrás de Harry.
Hermione segurou um pequeno grito assustado, então se virou para Harry, sua face repentinamente corada em desaprovação. "Não é uma boa idéia!" ela sussurrou enraivecida. "Ele não deveria sequer estar aqui! Rony ficará furioso se você o levar lá em cima. Você só fará com que ele fique mais chateado e isso não vai ajudar em nada." A expressão dela suavizou um pouco e ela continuou. "E sei que você quer que ele veja que você e Draco estão juntos, mas eu acho que você precisa conversar com ele sozinho antes."
Harry reconheceu que ela estava provavelmente certa. Mas . . . ele realmente queria Draco com ele lá. Sentiu o Sonserino se se encostando a ele, com uma mão em suas costas, esperando para ver o que Harry decidiria.
"Rony está bravo com você, Harry," Hermione continuou antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa. "Mas se você levar o Draco lá, ele vai culpar Draco e liberar a frustração nele. Isso não é justo."
"Eu devo concordar," Draco disse quietamente, após um momento de silêncio.
Harry suspirou, virando sua cabeça para olhar por cima de seu ombro no espaço vazio atrás dele onde sabia que Draco estava. "Eu quero que você suba," ele disse. "Eu acho que ele precisa conversar com nós dois, mas eu também acho que Hermione está certa. Eu vou primeiro e ver como tudo se desenrola." Como desejava poder ver o rosto de Draco. "Você vai ficar bem? Se importa de esperar aqui?"
Sentiu Draco dar de ombros, então ouviu um riso baixinho. Sentiu repentinamente um calor em seu ouvido e uma voz baixa sussurrar. "Eu estou no salão comunal da Grifinória vestindo uma Capa da Invisibilidade. Eu acho que consigo me manter entretido."
…
…
Hermione observou Harry desaparecer nas escadas para o dormitório dos meninos, então percebeu com um pequeno choque de irritação que ela não fazia a menor idéia de onde Draco estava. Ele podia estar a centímetros da cara dela, pelo que sabia. "Draco?" ela sussurrou muito suavemente e com urgência. Nenhuma resposta. Ou, espere. . . teria ouvido uma risada baixa perto do sofá? Ela sentiu sua face corar. Consciente que logo faria papel de ridícula se continuasse parada no meio do cômodo depois de Harry já ter saído, andou cautelosamente até a mesa em que estivera estudando e sentou-se. Ela estava esperando esbarrar em um corpo invisível a qualquer momento, e estava um pouco temerosa por um segundo de que ele estivesse sentado na cadeira dela e que ela fosse sentar no colo dele e gritar, mas nada aconteceu. Fingindo ler, ela não achava que ele fosse dispensar a oportunidade de ouro de arrumar encrenca que havia sido lhe dada pela pobre decisão de Harry.
Por sorte, o salão comunal estava quase vazio. Lilá e Parvati estavam sentadas em uma mesa do outro lado da sala conversando quietamente enquanto trabalhavam em uma lição de Divinação Avançada. Aquele grupo de três alunos do primeiro ano, o que ela quase tinha atropelado, ainda estavam sentados perto dela no chão, jogando Snap Explosivo. Todos estavam concentrados em suas atividades. Hermione suspirou e relaxou um pouco. Então um movimento do outro lado do salão atraiu sua atenção. Ela tentou não ficar encarando, mas com certeza, um livro estava vagarosamente deslizando da prateleira logo atrás de onde Lilá estava sentada. Hermione ficou tensa, esperando que ele caísse ao chão com um barulho alto, mas ao invés disso ele flutuou no ar, aberto, páginas viradas, então ele fechou e vagarosamente flutuou novamente, escorregando em seu lugar adequado na prateleira.
Bem, pelo menos agora eu sei onde ele está, ela pensou.
Então Lilá se contorceu e olhou em volta em confusão, esfregando seu braço como se tivesse sido tocada por algo. Hermione estava encarando agora, sem nem tentar fingir estar estudando. E agora?
Repentinamente as duas meninas se sentaram retas, com os olhos esbugalhados e assustados, quando a capa de um dos livros delas abruptamente se abriu e páginas começaram a virar. Após assistirem por um momento em choque, repentinamente Parvati alcançou e agarrou a mão de Lilá. Hermione ouviu-a sussurrar excitadamente. "Lilá! É isso – o que estávamos esperando! Um visitante místico!"
A boca de Lilá caiu aberta, então ela apertou a mão de Parvati em resposta. "Ai meu Deus," ela sussurrou. "O que fazemos agora? Os espíritos estão aqui!" Essa última saiu como se um gritinho sussurrado.
Hermione teve que morder seu lábio inferior para não rir.
"Shh, apenas observe!" Parvati disse. "Eu acho que eles estão tentando nos dizer algo!"
Quando as páginas finalmente pararam, as garotas agarraram o livro. "Oooooh," Lilá disse, lendo a página em que o livro estava aberto agora. "O que você acha que isso significa? Acha que devemos usar no nosso relatório?"
"Ah sim! Sim! Olhe isso!" Parvati disse, apontando com reverência para algo na página. "Isso é exatamente o que estávamos procurando! Não acredito que não vimos antes."
"Uau," Lilá disse, espantada. "Mal posso esperar para contar à Madame Sibila." Ela se arrepiou, e colocou as mãos sobre seu coração. "E pensar – que os espíritos nos consideraram merecedoras. É tão. . . tão. . . inspirador." As meninas se inclinaram sobre o livro, atentas ao novo texto revelado pelo espírito.
Hermione sorriu na direção de suas colegas. Draco tinha mostrado a elas algo útil? Ela não se surpreenderia se ele soubesse Divinação. Mas assim que ela se voltou ao seu livro, um tinteiro que havia sido deixado na mesa atrás de Parvati levantou-se vagarosamente no ar. Hermione segurou a respiração. Oh Deus. As duas meninas estavam muito engrossadas no livro para perceber. Hermione tapou a boca com sua mão. Será que ela deveria avisá-las? O tinteiro começou a dançar no ar, balançando de um lado para o outro em arcos felizes, indo de cima para baixo, quase virando. Hermione estava horrorizada por um segundo, então ela se lembrou que Draco sabia que ela estava observando. Ela levantou uma sobrancelha em o que ela esperava ser uma boa imitação de uma rígida Monitora-Chefe. Foi uma tentativa fraca, ela sabia, mas o tinteiro parou sua dança e vagarosamente voltou ao seu lugar na mesa. Hermione relaxou em sua cadeira em alívio. Ah, por favor se apresse Harry! Ela pensou desesperadamente.
Nesse momento, uma briga quebrou entre os jogadores de cartas. Mas antes que Hermione pudesse dizer qualquer coisa, as cartas repentinamente voaram das mãos dos jogadores. Os três meninos estavam instantaneamente silenciosos, seus olhos redondos em surpresa. Enquanto todos observavam, as cartas se embaralharam no ar e foram divididas em quatro pilhas. "Senhorita Granger," um dos meninos chamou com a voz trêmula. "O que. . . é isso?"
Hermione sentou-se, grata pela intervenção astuta de Draco em face da situação e sorriu. "É só um fantasma amigável e invisível," ela disse encorajadamente, pensando com rapidez. "Acho que ele quer jogar cartas com vocês." Ela sentiu seu coração revirar. Draco era travesso, mas de alguma forma ele conseguia ser adorável ao mesmo tempo. Pelo jeito ela podia confiar nele afinal de contas.
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Harry entrou no dormitório e fechou a porta quietamente. O quarto estava escuro e muito parado; a luz do sol daquela tarde que entrava pelas janelas era a única luz. "Rony?" ele chamou suavemente. Não houve resposta. Então ele ouviu um suspiro dolorido e o som de um livro sendo fechado. Andou até a cama de Rony, espiando pelas cortinas para ver Rony jogar para o lado sua velha cópia de Quadribol Através dos Séculos e passar uma mão por seu cabelo ruivo. "Ei," Harry disse amigavelmente e esperançoso, enquanto pausava na ponta de sua própria cama para depositar ali suas sacolas. Então veio ficar de pé entre as camas dos dois.
Rony, sentado com seus joelhos levantados em seu peito, estava olhando insistentemente para baixo para os lençóis e não disse nada.
Respirando fundo, Harry continuou apesar da indiferença de Rony. "Eu sinto muito mesmo por não ter te contado sobre Draco mais cedo," ele disse fervorosamente. "É só que eu queria ter certeza eu mesmo antes de dizer qualquer coisa. . . considerando de quem estamos falando. Foi tão repentino e surpreendente – e não foi algo fácil de falar a respeito, sabendo como iria te chatear."
Rony levantou o olhar e balançou a cabeça, seus olhos azuis brilhando de raiva. "Repentino e surpreendente?" ele ecoou em descrença. Apertou os lençóis em suas mãos. "Não me vem com essa. Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa entre você – mas não. . . isso!"
"Eu tentei te dizer ontem, no lago."
Rony corou, mágoa substituindo a raiva em seus olhos. "Eu entendo as piadas agora, Harry," ele disse com um tom injuriado. "Aposto que você e Malfoy riram bastante depois."
"Não, não rimos," Harry disse simplesmente. Rony desviou o olhar e Harry observou seu colega de quarto em silêncio, enquanto o outro parecia debater-se no que dizer. "Desculpe por termos brincado com você," Harry disse finalmente.
"Eu fiz tudo que podia," Rony disse repentinamente, virando para encarar Harry, "para tentar entender como você pôde fazer isso, mas não consegui. Malfoy! Nós sempre o odiamos. Nós podemos ter tido nossas diferenças a respeito de outras coisas no passado, Harry, mas nunca sobre isso. E agora você está me dizendo. . . que está apaixonado por ele." A voz de Rony quebrou com a sobrecarga de emoções. "Não vê? Isso me faz duvidar. . . tudo. . . que eu pensei que sabia a seu respeito!"
Harry desviou o olhar, encarando o chão. "Eu não mudei, Rony," ele disse firmemente, após um momento.
Rony soltou um ronco e colocou seus braços ao redor dos joelhos. "Se você não mudou, então eu nunca realmente te conheci," ele acusou amargamente. "Você nunca me disse que era gay, Harry. É por isso que você e Cho terminaram – porque você não quis contar o que aconteceu? Quantas outras coisas você manteve em segredo?"
Harry levantou o olhar com isso, consternado. Muitas coisas vieram à mente as quais manteve em segredo recentemente, sem que quisesse falar com Rony e Hermione sobre elas. Mas você contou ao Draco, uma voz pequena em sua mente disse. Culpa veio à tona, queimando sua garganta. "Eu estava. . . muito chateado. . . depois que Cho e eu terminamos," ele disse, hesitando. "Têm ocorrido certas coisas ultimamente sobre as quais eu simplesmente não quis conversar," ele continuou, incerto da explicação que estava dando a não ser que assim quisera. "Não era minha intenção manter segredos."
Mas ele tinha contado a Draco, tinha se aberto ao Sonserino, despojado seu coração, na verdade, de uma maneira como não fazia com Rony ou Hermione há muito tempo. E não era só o jogo de xadrez – em que eles tinham que fazer e responder perguntas. Ele tinha contado a Draco coisas que o outro garoto nunca tinha perguntado – tinha contado sobre sua relutância em lutar novamente com Voldemort, por exemplo. Harry não conseguia imaginar contar isso a Rony e Hermione. Talvez fosse o jeito como Draco escutava, quietamente e intentamente, como se realmente quisesse saber o que Harry-a-pessoa pensava, ao invés de apenas querer ouvir uma ladainha do que o Harry-Potter-famso-herói deveria pensar. Muitas vezes, Rony e Hermione pareciam relutantes em ouvir coisas dele que não se encaixassem na imagem pré-concebida do que Harry Potter deveria ser e fazer. Então ele tinha parado de falar sobre essas coisas.
E a cura mágica – isso era outra coisa, como ser ofídioglota, que faziam com que Harry fosse diferente, que o faziam se destacar enquanto ele desejava se mesclar. Então apesar de ser a matéria que ele mais gostava e se engajava, era como se de alguma forma seu novo revelado talento fosse como adicionar combustível em um fogo já fora de controle, e ele, portanto, estivera relutante em contar isso para eles, também.
Sentindo que não conseguiria mais ficar de pé, Harry sentou-se na ponta de sua cama e tentou organizar seus pensamentos e responder a pergunta de Rony. "O que aconteceu com Cho não teve nada a ver com Draco. . ." ele disse finalmente, "ou com o fato de eu ser gay – se eu for – o que não tenho certeza. Eu não tinha idéia dessa possibilidade. . . então." Harry parou de falar, sem palavras que o ajudassem a descrever como se sentia bem com Draco, um sentimento de perfeição que não tinha nada a ver com gênero. Antes que pudesse formar palavras para tentar e explicar isso, Rony se manifestou.
Com uma voz pequena e apertada, Rony disse, "eu entendi quando você não quis conversar com a gente sobre Cho, a princípio. Era óbvio que você estava muito chateado com o término do namoro. E então, mesmo quando você não veio falar comigo, eu tentei entender. Mas isso – eu apenas não consigo entender isso. Eu não sei como você consegue suportar tocar. . . ele."
"Você não entende porque não o conhece," Harry disse, sua voz elevando em irritação, sentindo-se magoado pelo ressentimento na voz de Rony. "Mas eu o conheço muito melhor agora, e ele não é como imaginávamos. Quero dizer, em alguns aspectos ele continua o mesmo, mas tem outro lado dele que nunca vimos." Harry pausou, incerto pela expressão de Rony se suas palavras estavam fazendo alguma diferença. "Eu apenas sei que sinto que tudo está certo quando estou com ele," ele tentou novamente. "Você mesmo disse que eu parecia feliz – e estou. Mais do que jamais estive com outra pessoa." Ele parou novamente, sentindo-se frustrado, enquanto Rony continuava encarando-o sem entender. Como poderia explicar tudo que tinha acontecido nos últimos dias? Havia tanta coisa, ele nem sabia por onde começar, e muitas dessas coisas eram os sentimentos privados de Draco que ele não tinha o direito de compartilhar. "Olha," ele disse quietamente, resolvendo permanecer calmo. "Tentarei te contar tudo que aconteceu, mas eu quero Draco aqui também." Ele pausou. "Ele está lá embaixo no salão comunal. Posso trazê-lo aqui em cima?"
Rony sibilou. "Você o trouxe aqui?"
"Sim," Harry disse, defensivamente. "Eu quero que você fale com ele. Veja por si mesmo que ele está diferente agora – já que não acredita em mim ou na Hermione."
"Isso é insano. Você o deixou lá embaixo no nosso salão comunal? Sozinho?"
"Hermione está lá e sabe onde ele está."
"Deus, Harry. Eu sou o único que ainda consegue ver que ele não pode ser confiado? Até mesmo Hermione virou contra mim nisso."
"Não, ela não virou," Harry protestou, repentinamente apreciando a posição estranha que Hermione havia se colocado por ele. "Ela não está contra você, Rony. É só que ela conversou com o Draco, também, ela viu que ele está mudado." Harry suspirou. "Nós só estamos tentando fazer com que você veja isso também."
"Você não vê, Harry? É exatamente isso que me preocupa! Seria exatamente típico de um Malfoy elaborar esse tipo de truque – fingir ter mudado para nos fazer abaixar as defesas. Pense nisso!" Rony parecia muito além do ponto de estar medindo suas palavras. "Ele é um Sonserino rico, mimado, arrogante, sangue-puro – que merda ele veria em você? Mas ah é – o pai dele é um conhecido Comensal da Morte que faria qualquer coisa para colocar as mãos em você. Talvez não seja tão difícil de entender o que ele vê afinal de contas!"
Harry sentiu o sangue correr à sua face. "Você acha que tudo que ele fez comigo foi falso – apenas parte de um plano para me entregar a Voldemort?"
Rony se encolheu com o nome, e então lançou um olhar feio a Harry. "Sim! Ele é um Malfoy!" ele disse, como se isso em si fosse explicação suficiente. "Tenho certeza que ele está envolvido em algum plano com o pai dele. É a única explicação que faz sentido. Aposto que ele nunca expressamente disse que te ama."
"Eu acho que consigo ver a diferença entre alguém que me ama e alguém que está apenas fingindo," Harry protestou, muito ofendido.
"Você estava errado a respeito de Cho," Rony retrucou. "Você mesmo admitiu. Foi a única coisa que você disse quando eu e Hermione perguntamos a respeito."
Essa realmente doeu. Harry, por um breve momento, foi lançado ao passado, naquela dúvida e insegurança que sentiu por tanto tempo depois que Cho foi embora. Estaria ele errado agora sobre Draco? Estaria Rony certo, que Draco estava apenas atuando na frente dele? Seria tudo uma mentira? Harry fechou os olhos, procurando seu coração pela verdade, e para sua surpresa, sentiu a presença de Draco ao seu redor, quase como se o outro garoto estivesse ali naquele momento. Como fios de reafirmação tecendo-se em uma peça inteira de certeza, memórias de Draco lhe vieram; seus toques gentis, quase reverentes, a forma como tremia com o toque de Harry, como ele derretia nos beijos de Harry, o calor naqueles olhos cinza claros, o carinho em suas palavras. A verdade estava em seus olhos e voz e mãos. Era real. E, ele se lembrou com crescente confiança, ele não estivera errado a respeito de Cho no fim das contas.
Harry abriu os olhos e olhou diretamente nos de seu amigo. "Eu não sabia a história completa sobre Cho naquela época," ele disse quietamente, "e eu estava tentando entender – como ela poderia parecer me amar uma noite e então terminar tudo na manhã seguinte. A única coisa que pude concluir era que eu estivesse me enganado. Tenho certeza agora que esse não era o caso." Ele pausou brevemente. "Talvez você não consiga perceber que a Hermione gosta de você. Sem que ela diga."
"Isso é ridículo, Harry. É claro que percebo."
"Como?"
"Coisas pequenas. Como o tom de voz dela, e como ela. . . bem, você sabe, Harry. . . coisas privadas."
"E eu sei de Draco pelos mesmos motivos," Harry disse com firmeza. "Ele não precisa dizer em palavras, e eu não vou pressioná-lo nesse sentido." Harry se inclinou no pilar de sua cama. "Eu duvido que ele jamais vá deixar você vê-lo como eu estive vendo nesses últimos dias, então eu sei como será difícil fazer você entender o que aconteceu entre nós." Ele pausou, pensando. "Acho que a melhor forma de explicar é dizer que eu sinto algo. . . incrível, algo correto. . . quando estou com ele. Esse sentimento sempre esteve ali entre nós, a gente apenas não percebia, ou éramos muito novos para entender o que era. Eu acho que é essa a razão porque nós estávamos sempre brigando e não conseguíamos deixar o outro em paz, e porque essa mudança aconteceu tão rapidamente. Mas agora que sabemos como nos sentimos, eu duvido que poderia jamais ficar com outra pessoa. . . e eu sei que ele se sente da mesma forma."
Rony desviou o olhar e não disse nada.
Harry sentou em silêncio, querendo dar ao seu colega de quarto a chance de pensar no que tinha falado, tentando pensar, também, em algum exemplo de como Draco tinha mudado para que Rony pudesse entender. Memórias vieram à frente, coisas que Draco havia confessado, de Draco deitado em seus braços, chorando das coisas horríveis que seu pai fez com ele, a intimidade dos toques e beijos compartilhados. Mas ele não podia dizer nada disso ao Rony. "Têm várias coisas que ele me contou e eu não posso recontar, porque são pessoais," Harry disse finalmente, quando Rony continuou sem dizer nada. "Mas eu vou dizer isso. Você é o mimado, Rony, não ele. Você nunca ficou sozinho ou foi abusado. Você não faz idéia de como é. Toda a sua vida você teve sua família ao redor. Toda a sua vida, você foi amado."
Rony parecia ter encolhido com isso, como se sua raiva tivesse sido parcialmente esvaziada.
Vendo isso, Harry se esforçou em suavizar suas próximas palavras. "Draco e eu somos, em vários sentidos, mais parecidos do que eu e você."
"Você não quer dizer isso, Harry," Rony disse pesarosamente, finalmente virando para encará-lo.
"Não estou dizendo que você é menos meu amigo," Harry disse rapidamente. "É só que têm certas coisas a meu respeito que você nunca entenderá tão profundamente quanto ele porque você sempre teve uma família amorosa," ele explicou. Eles sentaram em silêncio por um longo momento. "E até mesmo que você ache que ele tenha me enganado, você realmente acredita que a Hermione cairia em um truque?" Harry continuou quietamente, desesperadamente tentando encontrar uma maneira de quebrar a determinação teimosa de Rony em não acreditar neles. "Ela não está apaixonada por ele." Ele olhou para a face tensa e cansada de Rony e repentinamente o ruivo lhe parecia tão jovem e confuso. Sentiu o forte vínculo de amizade que sempre teve com esse menino se reafirmar. "Acontece que eu sei que ela está muitíssimo apaixonada por um babaca ruivo e teimoso. Se você não acredita em mim, não pode confiar nela?"
Rony colocou os cotovelos em seus joelhos e deixou a cabeça cair em suas mãos, seus longos dedos segurando mechas de seu cabelo. "Tá bom," ele finalmente disse. "Eu vou falar com ele. Uma vez."
Harry levantou-se. "Obrigado," ele disse com a voz baixa. Ele hesitou por um segundo, então cruzou o espaço entre a cama deles para ficar perto de Rony. Ele meio que esperava que o ruivo fosse recuar, mas não o fez. "Você é o meu melhor amigo," ele disse suavemente. "Eu sei que isso é difícil, mas você tem que acreditar em mim quando digo que não quero que nada mude."
Rony suspirou sem levantar o olhar. "Tá bom," ele disse novamente.
"Eu já volto," Harry disse, indo em direção à porta.
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Hermione observou Draco jogando cartas com os Grifinórios mais novos. Ou melhor, ela observou as cartas dele se movendo. Mas até mesmo isso era o suficiente para fazê-la acreditar que o garoto que as segurava, e cuja voz ela escutava ocasionalmente na forma de um riso suave, não era a mesma pessoa triste com quem tinha conversado no início do ano. E Harry. Nessa manhã, Harry tinha praticamente brilhado. Raramente, desde que o conhecia, tinha visto ele daquele jeito. Na maioria das vezes ele estava incomodado, preocupado, triste. Sempre tinha algo tenso e faltando para os dois garotos até esse momento.
Durante o café-da-manhã, ela estivera muito confusa com o que Harry estava tramando e então muito exasperada pelo comportamento do Rony e do Draco para realmente pensar a respeito. Agora, no entanto, ela sorriu em seu livro, e olhou novamente na direção das cartas flutuantes. Quando Draco sorriu para Harry do outro lado do salão nessa manhã, tinha sido tão elétrico. Não, ela certamente nunca tinha visto o loiro sorrir daquele jeito. Harry tinha dito, "quase faz meu coração parar, toda vez que ele sorri," e ela podia acreditar nisso. Ela conseguia imaginar Draco agora, sorrindo debaixo da Capa da Invisibilidade, já que ele estava claramente ganhando o jogo.
Quando Harry apareceu nas escadas, Hermione levantou o olhar. Os olhos deles se encontraram e Harry deu de ombros, um gesto que parecia demonstrar que as coisas com Rony ainda não tinham sido resolvidas.
"Harry! Harry!" chamou um dos meninos jogando. "Venha ver! Tem um fantasma jogando cartas com a gente."
Harry entrou na sala e Hermione o viu sorrindo diante da cena à sua frente. Logo nesse momento, o jogador invisível abaixou a carta vencedora com uma explosão de estourar os ouvidos. Então todas as cartas do baralho se reuniram em uma pilha e repentinamente voaram no ar, caindo em várias direções. Os garotos caíram de costas, rindo em prazer e tentando apanhá-las.
"Que fantasma!" Harry disse com um ceticismo entretido. "Parece mais um grande diabinho invisível, se você quer saber!"
Hermione riu, e pensou ter ouvido outra risada suave. Um sussurro de vento passou por ela. Um segundo depois, Harry deu um passo para trás como se algo o tivesse empurrado, e ela viu seus braços se levantarem um pouco e então caírem como se ele tivesse naturalmente os movimentado para colocar ao redor de alguém e percebesse que não devia. Ela observou Harry fazer um movimento sutil para que Draco o seguisse, então virou e andou vagarosamente na direção das escadas. Esse tinha que ser um bom sinal, ela pensou, se Rony tinha concordado que Draco subisse ao quarto deles. Logo antes de Harry sair de sua vista, ela viu o braço dele ir ao redor de uma cintura invisível enquanto ele se inclinava para sussurrar em um ouvido oculto. E ela se viu desejando que nada acontecesse que pudesse arruinar o que eles tinham encontrado um no outro – que nada, nem a guerra, nem Lucius Malfoy, ou pior, pudessem separá-los agora – porque parecia que nenhum deles jamais tinha sido exatamente completo em espírito sem o outro.
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Draco retirou a Capa da Invisibilidade assim que a porta do dormitório de Harry se fechou atrás deles. Harry observou-o reaparecer, ansioso em ver seu rosto, para saber o que estava pensando. Quando a capa foi removida, Draco olhou curiosamente ao redor do quarto mal-iluminado, então se virou na direção de Harry, uma sobrancelha ligeiramente levantada, sua expressão calma, porém cautelosa. Harry alcançou a mão para ajeitar algumas mechas de cabelo loiras e desordenadas, e Draco lhe favoreceu com um oblíquo meio-sorriso. "Venha," Harry disse suavemente, pegando a mão de Draco e o conduzindo pelo quarto. "Nós podemos sentar na minha cama."
"Rony?" Harry chegou até a cama de Rony e ficou de pé ali por um segundo observando seu amigo. Rony não olhou para ele, ao invés disso, seus olhos estavam trancados acima do ombro de Harry – em Draco. Harry se virou e pegou a Capa da Invisibilidade de Draco, colocando-a ao lado das sacolas em sua cama, então se sentou no meio da cama, puxando Draco para sentar ao seu lado.
"Antes que tenha uma de suas idéias, Malfoy," Rony disse com um tom hostil, "a senha do salão comunal será alterada assim que você sair."
Draco olhou em volta do quarto com evidente desinteresse. "Não se preocupe com isso, Weasley," ele retrucou friamente. "Só tem uma coisa aqui que desperta meu interesse. E ele vai ficar comigo hoje." Draco retirou sua mão da de Harry e colocou um braço ao redor da cintura do moreno, inclinando-se nele. Era definitivamente um gesto possessivo, mas Harry suspeitava que fosse parcialmente para a segurança e conforto de Draco, também. Harry analisou-o e percebeu com receio que Draco, longe de estar charmoso, estava encarando Rony com uma expressão mista de mal-disfarçado antagonismo e desafio em seus olhos.
"Se não se importa, Malfoy," Rony disse de forma mordaz, "eu não quero ver esse tipo de coisa."
"Eu me importo," Draco disse suavemente, recusando-se em se separar de Harry.
O silêncio decorrente se esticou, preenchido com silencioso conflito, e o quarto repentinamente ficou opressivo para Harry. "Eu acho que devo começar," ele disse com a voz baixa, "já que prometi explicar tudo." Ele respirou fundo e fechou os olhos por um momento. "Primeiramente, acho que devo te contar sobre Cho." Sentiu o braço de Draco apertar em sua cintura em apoio, e viu-se decididamente feliz com isso. Já tinha sido difícil falar desse assunto da primeira vez, e não era mais fácil agora. Inclinando-se contra Draco, com seus olhos fixados no chão, ele disse, "Ela terminou comigo porque ia se casar depois da formatura." Ele ouviu Rony arfar quietamente em surpresa, e levantou o olhar. "Ela me contou na manhã em que deveríamos ter ido embora para as férias de verão ano passado. É por isso que eu não fui para casa – estava muito chateado para subir no trem."
"Deus, Harry," Rony disse, seus olhos compreensivos pela primeira vez naquela tarde.
"Eu achei, a princípio, que ela sempre soube, que ela tinha jogado algum tipo de jogo cruel comigo. Eu não sabia a respeito de casamentos arranjados então, ou que era bem provável que ela nem sabia de nada até ter completado dezoito anos, o que aconteceu apenas três semanas antes do fim do ano escolar."
Rony concordou com a cabeça, sua face severa. "A família dela é bem do tipo de querer um casamento arranjado e todas essas coisas estúpidas, superadas, sangue-puro e tradicionais." Seus olhos correram até Draco, talvez esperando que suas palavras fossem um insulto aos Malfoys bem como aos Changs, torcendo em irritar o Sonserino. Mas Draco não estava realmente prestando atenção em Rony, estava olhando para baixo, sorrindo levemente, e quando o olhar de Rony acompanhou o de Draco, viu que enquanto Harry esteve falando, tinha inconscientemente colocado a mão na perna de Draco de uma maneira bem íntima e familiar. Enquanto observava, Draco alcançou e colocou uma mão em cima da de Harry. Com o toque, os dois olharam um para o outro. Os olhos deles se encontraram e trancaram, e Rony viu uma suavidade vulnerável e inesperada cobrir as feições de Draco enquanto Harry sorria. Rony teve a distinta impressão que o universo tinha repentinamente o excluído, que eles tinham esquecido sua existência. Era enlouquecedor.
"Harry," ele disse abruptamente, raivoso, "me escute. Cho te machucou muito, e você não está pensando direito. Malfoy está apenas se aproveitando disso – de você ainda estar abalado e não saber o que está fazendo." Rony sentiu uma pequena onda de trinfo. Ele tinha a atenção deles agora. Ambos estavam olhando para ele. "Eu não entendo," ele continuou obstinadamente, "como você pode ter ficado com uma garota linda como a Cho e então querer ficar com . . . com ele."
"Rony, você está chateado porque estou com Draco," Harry perguntou sem se abalar, um pequeno sorriso ainda em seus lábios, "ou porque Draco é um menino?"
"Os dois – talvez – sei lá, Harry. Eu nunca imaginei que você fosse ser do tipo de querer ficar com meninos."
"Ah, cresça, Weasley," Draco interrompeu com um ar impaciente e irritado. "Só porque você e Harry são amigos e você não gosta de meninos, não quer dizer que Harry tem que se sentir da mesma maneira."
Rony olhou rapidamente para Draco, e então ignorou-o. "Harry, eu acho que se você tivesse. . . bem, sabe. . . transado com a Cho, você saberia como é ficar assim com uma garota, e ele não conseguiria. . . você não ficaria interessado. . . nele."
"E você é um expert nisso agora, Rony?" Harry perguntou, confuso. "Você e Hermione?"
Rony sentiu sua face pegar fogo. "Não," ele disse de má-vontade.
Harry olhou para Draco por um segundo, e então de volta ao Rony. "Bem, eu dormi com a Cho," ele disse descuidadamente.
O queixo de Rony caiu. "Você nunca me disse isso!" Ele arfou. Olhou para Draco, para ver como ele recebeu a notícia, mas Draco estava sentado calmamente, seus olhos em Harry. Repentinamente Rony estava furioso. "Mas é óbvio que você contou para ele!" ele acusou.
"É claro que contei," Harry disse, firmemente. "Se você tivesse se envolvido com alguém antes de Hermione, não teria contado a ela?" Harry pausou, então disse, "Cho nunca fez eu me sentir como me sinto com Draco."
Rony estremeceu com isso, as implicações inevitáveis, mas por um momento segurou o conhecimento como se pudesse negá-lo, atrasando o momento de realização irrefutável e horrível, como se fosse um peso flutuando acima dele, suspendido apenas por um fio rapidamente se desfazendo. . .
"Olha, Weasley," Draco disse, falando seriamente, seus olhos cinza severos e fixos. "Eu quero ficar com Harry faz muito tempo."
E a verdade, a realidade da situação, caiu em Rony com uma força brutal. Ele não tinha acreditado. Até agora. Que Harry estava segurando mãos com Malfoy, o qual o estava abraçando, que Harry tinha contado ao idiota coisas privadas que não tinha contado a Rony, que eles tinham dormido juntos. Que eram amantes. E ele não queria que nada disso fosse verdade.
"Então você finalmente conseguiu o que você quis todos esses anos," Rony disse acidamente. "Que tocante. Não pense que eu não sabia. Desde aquele primeiro dia no trem, você esteve atrás dele – e com inveja de mim por ser amigo dele. Mas você ter ido tão longe – acho completamente inacreditável. Eu acho bem mais provável que tudo isso seja um plano nojento. Como eu posso saber que você não está apenas fazendo-o abaixar a guarda para depois levá-lo até seu papai Comensal da Morte!?"
"Rony!" Harry exclamou, horrorizado.
Draco empalideceu, e agora observava Rony com olhos estreitados. Eles estudaram um ao outro com um silêncio frio e acerado por vários segundos. "Você não pode," Draco disse finalmente com aquela voz gélida e tensa.
"O que, sem declarações de inocência e amor eterno?" Rony zombou. "Eu deveria ter sabido – duvido que você já consiga amar qualquer pessoa."
"Rony, pára," Harry vociferou. "Está indo longe demais!"
"Você não sabe de nada, Weasley," Draco falou cinicamente, afastando-se de Harry e vindo a ficar na frente do ruivo. "Mas não obstante o que eu sinto por Harry, eu não vou ficar aqui e aceitar que você fale essas merdas para mim quando você não faz idéia. . ." Ele cruzou os braços e encarou Rony com um frio desdém. "Eu vim aqui porque, apesar do quão absurdo me parece, sua amizade é muito importante para Harry."
"Eu nunca vou ser seu amigo, Malfoy!"
"Que gratificante," Draco respondeu calmamente, sua voz pingando sarcasmo. "Não é essa a questão. Você é tão trivial que não consegue colocar essa briga infantil de lado pelo bem de Harry?"
"Isso não é só entre nós e você sabe disso," Rony retrucou calorosamente. "Você está envolvido com coisas. . . com pessoas. . . que querem o Harry morto. Como pode possivelmente esperar que eu confie em você? Porque você pediu? Bem, isso não é suficiente. Eu vou tolerar essa idiotice se eu tiver, porque Harry está pedindo. Mas eu estarei sempre te observando." Rony pausou e cruzou os braços, sua face dura. "E não importa como isso termine," ele disse defensivamente. "Eu vou manter a minha memória de você como uma fuinha saltitante – eu não vou largar isso, nem mesmo por Harry."
O queixo de Draco se levantou um pouco como se tivesse levado um tapa, sua mandíbula endureceu e seus punhos cerraram ao seu lado. "Ótimo," ele rugiu. "Faça isso." Ele lançou um olhar frio a Rony por mais um segundo, então com um último e rápido olhar agonizado a Harry, virou em seus calcanhares e saiu do quarto. A porta bateu atrás dele.
"Ah que inferno, Rony," Harry disse enquanto pulava de pé e correu até a porta. "Você tinha que dizer isso? Draco! Espera!" Em pânico devido à preocupação pelos sentimentos de Draco, e a urgente necessidade de garantir que o loiro não saísse do salão comunal sem a Capa da Invisibilidade, Harry se apressou atrás do outro garoto, prevendo ter de persegui-lo escadas abaixo. Ao invés disso, ele quase o atropelou. Draco estava parado do outro lado da porta, no topo das escadas, suas costas contra a parede, cabeça abaixada, segurando seus braços com força em seu peito. "Draco!" Harry disse, surpreso e aliviado quando o encontrou.
Então Draco levantou o olhar. Seus olhos estavam queimando com vergonha. "Todo mundo se lembra daquela. . . daquela coisa com a fuinha?" Ele sussurrou tensamente.
"Não," Harry disse, colocando seus braços ao redor do corpo tenso de Draco. "Tenho certeza que eles não se lembram. Mas Rony meio que considera uma. . . bem. . . uma memória preciosa. Receio que ele nunca vá esquecer."
"Você não tem idéia de como aquilo foi humilhante. Ser transformado em animal pequeno, baixo, nojento daquele jeito."
"Shh," Harry disse. "Não pense nisso agora."
"Uma fuinha dentre todas as coisas." Draco estremeceu com a memória. "Foi nojento. E doeu."
Harry não sabia o que dizer. Naquela época, ele estivera furioso e achou que Draco merecia o que recebeu – afinal de contas, o Sonserino tinha tentado soltar um feitiço contra Harry quando estava de costas viradas. Mas Harry tinha prometido agora tentar esquecer o passado. "Eu achei que você fez uma boa fuinha," ele disse finalmente, tentando encontrar algo positivo para dizer. "Quero dizer," ele continuou rapidamente, quando Draco o olhou com uma expressão magoada, "que você fez uma fuinha muito bonita – toda branca." Harry alcançou e gentilmente acariciou o cabelo de Draco, colocando uma mecha atrás de sua orelha. "Macio também, eu aposto."
Os olhos duvidosos de Draco encontraram os de Harry. "Você achou mesmo?"
"Bem, não naquele momento," Harry disse honestamente, um sorriso desculposo no canto de sua boca. "Mas. . . agora sim."
Draco sorriu um pouco, então sua expressão endureceu novamente. "Eu tentei, Harry," ele disse terminantemente. "Eu tentei fazer o que você me pediu. Mas eu me recuso a voltar lá e falar com ele de novo. Eu não acho que ele jamais vá mudar de opinião a meu respeito, não importa o que eu fale."
Harry não podia culpar Draco por isso depois do que Rony tinha dito. Mas ele ainda acreditava que Rony iria eventualmente aceitá-los. "Vai demorar," ele disse após um momento. "Mas ele vai superar – você verá. Talvez não hoje ou amanhã, mas daqui a alguns anos, tenho certeza que vamos todos olhar para trás e rir."
"Daqui a alguns anos," Draco sussurrou, seus olhos suavizando em algo triste e desejoso. Ele finalmente desfez sua postura tensa o suficiente para colocar seus braços ao redor do pescoço de Harry e puxá-lo para perto. "Eu só quero ficar com você agora – tê-lo todinho para mim pelos próximos dias. Eu não quero pensar em mais nada. Podemos nos preocupar com Weasley depois do feriado natalino?"
Harry queria conversar com Draco novamente sobre essa idéia insana de voltar para casa. Mas agora não era a hora certa. Ele suspirou.
Draco virou o rosto e beijou o local macio atrás da orelha de Harry. "Vamos agora."
"Eu acho que preciso ficar," Harry disse lamentavelmente, com desculpa em seus olhos verdes. "Eu não quero deixar as coisas com Rony do jeito como estão agora." Ele tocou a face de Draco gentilmente. "Só mais um pouco. Eu posso ir ao seu quarto logo após a janta," ele sugeriu esperançosamente.
Draco hesitou um minuto, então deu de ombros. "Tá bom," ele disse, escondendo seu desapontamento. "Mas hoje à noite e amanhã, Harry. . ." Ele levantou o olhar, olhos cinza iluminados com desejo. "Mais ninguém, tá bom?"
"Tá bom," Harry disse suavemente. "Mas tem o Baile Anual segunda de noite – não seremos só nós dois então."
As mãos de Draco vieram emoldurar a face de Harry e puxá-lo para um beijo. "Será só nós dois," ele murmurou na boca de Harry, "porque eu não vou perceber mais ninguém lá."
Harry sorriu. "Mmm. Nem eu." Então Draco estava beijando-o intensamente. Harry o abraçou e pressionou-o contra a parede, dominado pelo desejo de se manter perdido nesse beijo por um longo, longo tempo.
Repentinamente, a porta do dormitório se abriu. Rony saiu correndo da porta em pressa e quase tropeçou em Harry e Draco, ainda se beijando. "Ah, Deus," ele exclamou, como se o ar tivesse sido socado de seus pulmões. Apesar de Harry ter falado em beijos com Malfoy, Rony não tivera como dar crédito às alegações, e a última coisa que desejava ver era seu melhor amigo e pior inimigo se amassando, mas agora era tarde demais. Ele tinha visto, tinha visto bem, na verdade, a expressão eloqüentemente ardente no rosto de Malfoy, e como as mãos do Sonserino estavam acariciando a face de Harry. Como se realmente quisesse aquilo.
Os dois se separaram relutantemente, mas Rony já estava voltando ao quarto. "Me avisem quando for seguro sair," ele rosnou enquanto a porta batia.
"Ah, que pena," Draco disse com uma voz entretida e sarcástica. "Eu nem consegui ver a expressão dele. Tenho certeza que deve ter sido tão boa quanto à de Snape." Ele colocou seus braços ao redor da cintura de Harry e o puxou para si com força, apenas caso Harry estivesse pensando em dizer a Rony que ele podia sair. Draco não estava pronto para isso. "Onde estávamos?" ele perguntou, uma sobrancelha levantada de forma travessa.
Harry sorriu. "Aqui," ele disse suavemente, inclinando-se novamente naquele beijo maravilhoso que havia sido interrompido tão rudemente.
Apenas alguns segundos depois, no entanto, houve outro barulho nas escadas atrás deles, como se várias ciosas tivessem caído ao chão. Harry e Draco abruptamente pararam o beijo e Harry se virou para ver o que tinha acontecido, Draco olhando por cima de seu ombro. No último degrau das escadas estavam os outros colegas de quarto de Harry, cada um segurando uma pilha de livros. Ou melhor, Neville estava tampando os olhos com as mãos com vários livros espalhados pelo chão aos seus pés. Dean estava se abaixando para apanhar os livros, enquanto Seamus estava praticamente brilhando, sorrindo como um idiota.
"Ah, Deus, Neville!" Seamus riu, virando para encarar seu tímido amigo. "Você viu eles fazerem isso nessa manhã! Vai esconder os olhos todas as vezes?"
"Aqui, você," Dean disse, empurrando a pilha de livros de Neville para Seamus. "Você pode carregar os dele pelo resto do caminho já que é tão obviamente imune." Ele olhou para Harry com um sorriso após se certificar que Seamus tinha um bom controle nos livros em seus braços, então se virou para Neville. "Está tudo bem," ele disse, tocando o ombro de Neville. "Você pode olhar agora."
Neville espiou entre seus dedos, deixando então suas mãos caírem. "Oi, Harry," ele disse com um sorriso envergonhado. "Olá, Mal -. . . err, Dra-. . . Draco. Nós estávamos na biblioteca. . . fazendo nosso projeto de Herbologia," ele adicionou desnecessariamente.
Draco abraçou Harry por trás por um momento. "Eu deveria ir indo," ele disse quietamente.
"Ah, to vendo, Harry," Seamus cantarolou. "Está mantendo ele de bom-humor, né?"
Harry sentiu um beijo leve em sua nuca, então Draco estava descendo as escadas.
Draco parou quando alcançou Seamus, colocou uma mão em seu ombro e se inclinou perto da orelha dele. "E ele vai continuar a me manter de bom-humor. . . a noite toda," ele disse com uma voz baixa e sedutora. Então se foi, o som de livros caindo ao chão seguindo-o escada abaixo.
Seamus olhou para Harry, uma mão tocando reverentemente a orelha em que Draco levemente tocou com a boca, ignorante da pilha de livros aos seus pés. "Querida mãe de Deus – ele me tocou," ele sussurrou, espantado. Dean e Neville começaram a rir dele. Harry sorriu e balançou a cabeça.
Só quando ouviu gritos vindo do salão comunal alguns segundos depois que Harry se lembrou que Draco realmente tinha saído sem a Capa da Invisibilidade. Ouviu a voz baixa e entretida de Draco dizer, "boa-tarde, senhoritas," e então Hermione estava falando, assumindo controle, expulsando-o e tentando explicar. Então ele olhou aos seus colegas de maneira desculposa. "Vocês se importam em estudar lá embaixo por um tempo? Eu preciso conversar com o Rony."
…
…
Quando Harry voltou ao quarto, Rony estava se inclinando na beira da janela, braços cruzados firmemente, olhando para fora da janela entre a cama deles.
Com a aproximação de Harry, Rony se virou para olhar por cima de seu ombro, além de Harry, e então para Harry. "Ele já foi embora?" ele perguntou. O tom de voz dele ainda era briguento, mas grande parte de sua raiva parecia ter sido gasta.
"Sim," Harry disse, cansado. "Eu acho que você deve a ele uma desculpa. Ele agiu bem melhor do que você. Ele não fez nada para merecer os insultos que você lançou."
Rony encarou a janela novamente, a veracidade nas palavras de Harry aumentando seu desânimo com toda a situação. Draco não tinha lhe dado motivo, além do passado que compartilhavam, para ter agido como agiu, e Draco não tinha revidado, apanhando a isca em raiva, retornando os insultos como sempre fez. As palavras "briga infantil" haviam soado em seus ouvidos por um longo momento depois que Draco saiu do quarto. Teria sido somente isso – só isso por todos esses anos? Talvez Harry e Hermione estivessem certos, talvez Draco tivesse mudado, mas Rony estava longe de admitir isso.
"Eu não gosto dele," ele disse teimosamente, defensivamente, lembrando-se das coisas que seu pai havia dito sobre Lucius Malfoy. "E o que é mais importante, eu não confio nele. O que você quer que eu faça, Harry? Minta?"
"Você, mais do que qualquer outra pessoa, sabe como eu estava devastado depois da Cho. Eu estava torcendo que você ficasse feliz por eu ter encontrado alguém para mim – por eu estar feliz."
Rony ficou em silêncio por um longo momento. "Eu poderia ficar feliz por você, Harry, se fosse apenas uma questão de eu não gostar dele. Mas têm muito mais coisas em jogo do que isso aqui. Como você pode ter certeza que pode confiar nele? Mesmo que ele esteja sério a respeito desse. . . relacionamento. . . com você, o que ainda não estou convencido, ele ainda é perigoso. Ele poderia estar jogando você nas mãos do pai dele."
"Eu tenho que confiar nele, Rony. E eu não acredito que ele faria isso. Eu sei que ele não faria."
"Harry," Rony disse, virando-se para encarar seu amigo, "eu acho que você não está entendendo. Mesmo que ele não queira, não percebe que eles poderiam forçá-lo? Você não está a salvo com ele. E eu odeio admitir isso, mas se ele não está do lado deles, então ele não está a salvo com você também. O que você acha que eles farão com ele, depois de usá-lo para chegar a você?"
Isso era desconfortavelmente próximo do que Snape tinha dito. Harry se afundou para sentar em sua cama. "Eu sei," ele disse muito quietamente. "E eu me preocupo demais com isso. Ele está determinado em voltar para casa no Natal, e até mesmo Snape disse que ele não deveria – que eu não podia deixá-lo chegar perto de Lucius."
Rony se sentou repentinamente do outro lado de Harry. "Snape sabe?" ele perguntou, incrédulo. "Sobre vocês dois – que são. . . sabe. . ." palavras lhe fugiram.
"Envolvidos romanticamente?" Harry ofereceu. Deitou-se na cama. "Sim, ele sabe, e ele deixou bem claro que não aprova. Pelos mesmos motivos que você acabou de elencar." Harry retirou seus óculos e esfregou os olhos. Então um pequeno sorriso apareceu em sua face, e após um segundo ele começou a rir. "Ah Rony, você devia ter visto a cara dele quando descobriu! Ele estava gritando com o Draco porque pensou que a gente estava brigando no corredor, e ele não acreditava que não estávamos – que estávamos na verdade nos beijando. Então Draco me beijou na frente dele para provar. Foi brilhante."
"Puta merda, Harry! Ele te beijou na frente do Snape?"
"Beijou!" Harry disse, sentando. Colocou os óculos novamente e sorriu para seu colega. "E Snape parecia todo arrepiado e verde e chocado, como se tivesse engolido algo nojento que ficou preso em sua garganta. Eu pensei que Draco e eu fôssemos morrer de tanto rir!" Harry não pôde evitar e riu novamente com a imagem mental que conjurou.
Rony parecia meio escandalizado e meio duvidoso, primeiro pela idéia de Draco e Harry se beijando na frente de Snape entre todas as pessoas, e então pela idéia de Draco rindo por diversão, uma imagem que tinha dificuldade em visualizar.
"Eu queria te contar depois disso," Harry continuou sinceramente, "A primeira coisa que pensei foi 'Deus, Rony teria adorado ver isso'. Mas aí, a segunda coisa que pensei foi que você teria a mesma expressão que ele. Parece que você e Snape têm algo em comum afinal de contas."
Rony fez uma careta em horror fingido, e então ficou sério. "Eu odeio dizer isso, Harry, mas concordo com ele. Você e Malfoy não são bons um para o outro."
"E eu vou te dizer exatamente o que disse para Snape," Harry disse com uma determinação quieta em sua voz. "Que eu estou sério com isso e que não pretendo parar de vê-lo. Nós sabemos quão impossível tudo é – quão incerto." Ele pausou, observando seu amigo, um apelo sincero por compreensão em seus olhos. "Mesmo que eu soubesse de fato que ficar com ele fosse perigoso, não conseguiria evitar. Eu o amo, Rony. Como você ama a Hermione."
Quando Rony não disse nada, Harry se levantou e andou até sua cama. "Eu tenho que arrumar minhas coisas agora," ele disse. "Tenho planos de passar a noite com ele de novo." Ele moveu suas sacolas de Natal para o lado e abriu seu baú. "O que você faria," ele perguntou quietamente após um momento, "se fosse você e a Hermione nessa bagunça? Pelo menos vocês podem ser abertos em como se sentem – "
"Ah Deus, Harry," Rony disse repentinamente. "Hermione. Eu esqueci completamente." Rony olhou desesperadamente para as sacolas que Harry estava agora guardando em seu baú. "Eu tinha que ter ido à Hogsmeade hoje – para comprar um anel para ela. Eu trabalhei o verão inteiro com Fred e George para guardar dinheiro, e eu queria dar um anel para ela de Natal, para oficializar o noivado depois de contarmos aos nossos pais na Toca. Mas está tão tarde agora e eu nem sei onde comprar algo assim."
Um anel. Harry mordeu seu lábio inferior por um segundo para conter o pequeno arrepio de animação que isso ocasionava, ao lembrar-se dos anéis que olhara nessa tarde, especialmente aquele adorável de ouro com as pedras azuis. "Eu conheço um lugar," ele disse. "É só uma pequena joalheria, mas eu vi vários anéis lá hoje."
Rony levantou o olhar, desespero em seus olhos. "Você pode me explicar como chegar lá?"
"Farei melhor que isso," Harry disse com repentina certeza. "Nós temos mais de uma hora até a hora da janta. Se nos apressarmos, podemos chegar lá antes que feche e voltar com tempo de sobra." Ele agarrou sua mochila e despojou seu conteúdo na sua cama. "Apenas deixe-me arrumar minhas coisas para hoje à noite."
…
…
Quando Draco chegou ao terceiro andar na torre da Sonserina, uma figura sozinha de cabelos escuros se afastou da parede em que estivera se encostando, esperando, e se moveu para bloquear a subida de Draco. "Blaise," Draco disse tensamente, acenando com a cabeça em forma de saudação, sua guarda levantada. Ele deu um passo ao lado para desviar o outro garoto.
"Espere," Blaise disse bruscamente, sua mão vindo segurar Draco pelo braço, forçando-o a parar. "Você tem explicações para dar."
Draco olhou friamente a mão em seu braço, então acima até o rosto do outro garoto, seus olhos estreitados. Ficou com a postura reta, de alguma forma parecendo mais alto, mais poderoso, sem fazer qualquer movimento no sentido de se soltar do outro garoto. "É mesmo?" ele respondeu com uma voz baixa e sardônica. "Explique."
"Eu te vi no Três Vassouras hoje. Sentado com o Harry Potter."
"E?" Draco disso com arrogância gélida, jogando seu cabelo para trás com um ar de praticada despreocupação. "Como isso é da sua conta?"
"E, várias pessoas poderiam se interessar em saber quão amigável você estava ficando com ele. Parecia bem aconchegante, se me perguntar. Algumas pessoas poderiam questionar sua lealdade à causa."
Olhos cinza frios e analíticos estudaram a face de Blaise por um longo momento. "E que causa é essa, Blaise?"
"Você sabe muito bem do que estou falando. A causa Sonserina – seguir o Lorde das Trevas."
"Seguir?" Draco roncou suavemente, irrisoriamente. "Desde quando ser um Sonserino significa agir como um monte de ovelhas estúpidas?"
Blaise aumentou a força no aperto do braço de Draco. "Essas são palavras perigosas, meu amigo. Se eu contar – "
Draco puxou seu braço da mão de Blaise, agarrou a frente da camisa do outro garoto pelo colarinho e o jogou contra a parede, com força. "Cuida da sua vida, Zabini," ele sibilou. "Você não é meu vigia." Ele se inclinou perto do outro e falou, sua voz intensa e perigosamente quieta. "Há um jogo sendo jogado aqui que você desconhece completamente. Nesse momento, eu seguro a peça principal na palma da minha mão – mas como eu jogo esse jogo é da minha escolha. Minhas lealdades, minha causa, são minhas e sempre serão." Ele fixou um olhar feio e odioso em Blaise. "É melhor você escolher seu lado cuidadosamente, amigo. Eu jogo para ganhar."
Blaise balançou a cabeça, agora nervoso. "Eu não te entendo, Malfoy."
"Então deixe-me facilitar para você," Draco falou com rispidez. "Você comenta uma palavra disso, ou faz com que meus planos se fodam de qualquer jeito, e será a sua carcaça patética e deplorável que eu levo à chacina. Algumas pessoas ficariam extremamente interessadas em descobrir o que exatamente você me fez perder." Draco torceu o tecido da camisa de Blaise, apertando-a no pescoço do outro. "Sua vida não valerá o ar que respira. Está claro agora?"
Os olhos de Blaise se arregalaram por um segundo em compreensão atrasada, e tentou recuperar o fôlego. "Você. . ." ele respirou, "você vai entregar o Potter para o Lorde das Trevas pessoalmente!" Ele virou a cabeça, tentando aliviar o aperto sufocante que Draco tinha nele, e riu nervosamente. "Draco," ele disse com um tom conciliador, "certamente você sabe que eu nunca faria nada para te chatear. . . ou interferir com seus planos?"
Draco o lançou um ar de pura repugnância, então o empurrou para longe. "É bom mesmo," ele cuspiu, então virou as costas e continuou a subir as escadas até seu quarto, fechando a porta atrás de si com cuidado deliberado, para que não a arrancasse das dobradiças. Ele tinha subido ali para deixar a caixa do anel e pegar o livro de transfiguração de pedras preciosas, com a intenção de devolvê-lo à biblioteca antes do jantar. Ele andou até seu guarda-roupa e depositou a caixa na prateleira em que estava a poção, então foi até sua escrivaninha pegar o livro, quando percebeu que estava tremendo. Por um momento, ficou rigidamente parado, encarando sem ver o livro, tomado de raiva. Como Blaise se atrevia a questioná-lo? E antes disso, Weasley. Era demais. Por que outras pessoas tinham que se envolver? Por que as pessoas não podiam deixar ele e Harry em paz?
Com uma fúria fria ele jogou o tinteiro de vidro de sua escrivaninha. A garrafa voou longe, bateu contra a parede e quebrou, deixando uma grande mancha preta ali que escorria até as pedras em uma poça de tinta cheia de cacos de vidro no chão. Ele só queria que Harry fosse seu, todo e completamente seu, por apenas alguns dias. Era muito de se pedir ao mundo? Era muito de se pedir, sabendo que Harry nunca mais seria seu? Draco observou a crescente mancha com o coração amargo, então xingou suavemente e puxou sua varinha. Aquele tinteiro era uma antiguidade cara, um presente de sua mãe. "Reparo," ele murmurou. Apanhou a garrafa consertada, colocou-a na mesa, pegou o livro, lançou um último olhar à mancha preta correndo por sua parede e saiu do quarto, seu humor combinando perfeitamente com a cor daquela derramada poça de tinta.
Com passos rápidos, ele foi em direção à biblioteca. Não encontrou mais ninguém nas escadas, e isso era ótimo, pensou. O incidente com Blaise o deixou irritado, e não tinha desejo de conversar com mais ninguém. Outros estudantes por quais passava nos corredores saiam de seu caminho, mas ele mal percebeu. O que aconteceria quando fosse ao Baile Anual com Harry, e como os outros Sonserinos iriam reagir? Havia alguma possibilidade deles arruinarem seus cuidadosos planos? Ele estava confiante de ter se livrado de Blaise. Fez uma lista mental de seus colegas de casa e finalmente começou a relaxar. Com a exceção de Pansy, não tinha mais ninguém que o preocupava. E ele sabia como lidar com Pansy. Um canto de sua boca se levantou em nojo – ele podia lidar com ela contanto que ela não se jogasse em cima dele. O pensamento o deixou enojado por um momento, mas então ele afastou o sentimento e percebeu que não tinha nada com que se preocupar. As garotas com que eles iam ao Baile eram Sonserinas, então era Harry, na verdade, que teria que dar maiores explicações.
Foda-se, ele decidiu, se Harry queria ir ao maldito baile, então eles iriam. Tomara que todo mundo tenha um ataque cardíaco por causa do choque. Imaginando isso, especialmente a imagem mental irresistível daquela metida da McGonagall caindo desmaiada quando seu precioso Harry aparecesse na companhia de três Sonserinos, inclusive ninguém mais do que Draco Malfoy, fez com que se sentisse muito melhor. E ah, ele mal podia esperar para ver a cara de Pansy quando ele aparecesse com as garotas do sexto ano. Na verdade, estava começando a achar que todo o plano acabaria por ser muito divertido. Estava quase sorrindo quando entregou o livro à Madame Pince.
Com mais ou menos uma hora para matar até o jantar, ele não queria voltar ao seu quarto. Então caminhou entre as estantes de livros, correndo os dedos pelos títulos, deixando suas ansiedades sobre o futuro sumirem por um momento enquanto absorvia o silêncio dos manuscritos antigos, o cheiro tranqüilizante e familiar de papel envelhecido servindo como um bálsamo calmante às suas emoções fatigadas. Seus pensamentos se viraram à noite de amanhã, e do dia seguinte, os quais Harry havia prometido passar com ele, sozinhos. Então segunda-feira chegaria com as últimas aulas do período e o Baile Anual, terça-feira se passaria em uma correria de fazer as malas enquanto todos se preparavam para ir para casa no feriado, e finalmente quarta-feira, véspera de Natal, ele estaria deixando o castelo no trem junto com todos. Essa noite e amanhã realmente seriam os únicos momentos que teriam completamente para eles.
Um tempo tão curto para amar alguém por toda a vida, ele pensou.
Ele chegou ao fim da longa fila de estantes e virou à esquerda, andando pela barreira da Seção Restrita até chegar ao outro canto. Ali haviam altas janelas cuja vista dava para os jardins à frente do castelo. Lá fora, longas sombras escuras de árvores manchavam a grama coberta de neve na fraca luz do sol de fim de tarde. A neve ainda estava caindo muito vagarosamente, pequenos flocos de neve dançantes que caíam e subiam em espiral, flutuando para onde o vento os levassem. Draco conseguia ver vagamente seu reflexo no vidro, uma face pálida, cansada e séria que não queria ver, então inclinou sua cabeça na superfície fria, muito próximo para se ver, e concentrou sua atenção lá fora – a tempo de ver dois garotos deixarem o castelo em direção à Hogsmeade. A visão de um deles fez seu coração parar, e o outro fez a dor amarga subir novamente à sua garganta. Não tinha como negar que ele sempre teve inveja da amizade de Weasley com Harry. Ele observou o moreno caminhar para longe de si até perder a vista na distância e nos flocos de neve. Então encostou a bochecha no vidro e ficou por um momento com os olhos fechados. Agora que estava envolvido com Harry, Draco sentia muita falta dele. Solidão correu por si, e ele sentiu-se abandonado e ferido até seu centro.
Mas ele já sabia que Harry estaria com Weasley – o que importava se eles estavam no quarto de Harry ou caminhando até Hogsmeade. Harry havia prometido ficar com ele após o jantar, ficar com ele a noite inteira e o dia todo amanhã. Procurou seu coração, cutucando a dor, e se surpreendeu ao encontrar a memória do toque de Harry escondida ali como um brilho pequeno, quente e confortante. Quando o explorou, o sentimento se expandiu, e era repentinamente tão tangível, tão ali, agora que o havia encontrado, que quase pôde acreditar que Harry estava bem ali com ele, segurando-o, afastando aquele mundo de dor e tristeza com um toque gentil. Draco suspirou, e por um mero segundo um pequeno sorriso de triunfo substituiu o franzido de alguns momentos atrás. Harry estava caminhando à Hogsmeade com Weasley essa tarde, mas era Draco quem ficaria com ele a noite inteira. Ele apenas tinha que esperar até o jantar, e isso não estava tão longe.
Mas a imagem do Salão Principal, alto e tremendo com vozes, seu receio de sentar com os outros Sonserinos, particularmente após seu confronto com Blaise, faziam com que o prospecto de jantar hoje não parecesse nada apetitoso. Emocionalmente, esse dia tinha esgotado-o. Ele havia mantido a promessa que fez a si mesmo de não negar mais nada a Harry e tinha cedido em várias coisas no decorrer do dia. Estranhamente, pensou agora a si mesmo, ao invés de sentir como se fossem sacrifícios, suas concessões a Harry o fizeram se sentir secretamente satisfeito e feliz. Mesmo assim, tinha sido um dia excessivamente cansativo. Ele não queria nada mais do que ir ao seu quarto e relaxar na companhia de Harry. Harry tinha uma promessa a manter, também, lembrou-se com excitação, já que Draco havia concordado em conversar com Weasley.
Ele torceu o nariz. Weasley. Isso tinha sido um desastre. Exatamente como tinha imaginado. Weasley não conseguiu ver além do passado, mesmo com a verdade sentada e o encarando no presente da cama de Harry. Draco queria dar de ombros e não ligar, mas tinha uma coisa que Weasley disse que incomodava Draco, fazendo-o se preocupar, até resolver que tinha algo a confessar a Harry hoje. Então ele queria que essa noite fosse particularmente especial. Se eles pudessem. . . e o início de uma idéia começou a se formar em sua mente. Uma idéia perfeita. Levantou-se e sorriu, então deixou a biblioteca, descendo em direção aos últimos níveis do castelo.
…
…
Rony e Harry caminharam até Hogsmeade, a situação e tensão decorrente da conversa daquela tarde ainda tornando as coisas meio estranhas entre eles. Harry perguntou sobre os planos de Rony para o feriado, e Rony contou – uma versão bem curta. Grande parte da caminhada foi passada em um silêncio desconfortável. Agora eram quase cinco da tarde, estava começando a escurecer, quando chegaram à 'A Pedra Reluzente'. Ainda tinha luz vinda da janela e Harry soltou um suspiro de alívio ao ver que loja ainda estava aberta. Ele apressou Rony pela porta e o sino anunciou a chegada deles com uma melodia alegre.
"Sr. Potter!" o dono da loja sorriu ao avistá-lo. "De volta tão cedo? Nada de errado, espero."
"Ah, não," Harry assegurou. "Eu trouxe um amigo. Ele precisa encontrar um anel de noivado."
"É mesmo?!" exclamou o homem, sorrindo para Rony. "Excelente! Nós temos muitos para você escolher. Fique à vontade e apenas me diga se quiser que eu retire algum."
Eles passaram vários minutos olhando as prateleiras de vidro cheias de anéis até que Harry bateu no ombro de Rony. "Olha esse aqui, Rony. Eu o percebi hoje cedo," ele disse, apontando para o anel dourado com as três pedras azuis.
A face de Rony se iluminou e ele soltou um assobio baixo. "É perfeito, Harry. A Hermione vai amar." Então ele sussurrou, "você acha que eu consigo comprar?"
Harry se abaixou e olhou pelo vidro a uma pequena etiqueta presa no anel por um fino fio. "Eu acho que diz. . . err. . . desculpe, não consigo ver direito."
Rony se abaixou também, e após um momento ele sorriu, levantou-se e sinalizou para o joalheiro. "Eu tenho a quantia quase que exata," ele disse para Harry enquanto o homem destrancava a prateleira.
Ao lado de Rony, Harry observou o homem colocar o anel em uma caixa de veludo azul-escura. Repentinamente sentiu sua face corar, seu coração pulou uma batida, e ele não conseguiu evitar o sorriso quando se lembrou que Hermione não seria a única a receber um anel de Natal.
Rony virou em sua direção nesse momento, viu sua expressão e lançou-lhe um olhar confuso.
Conseguindo esconder seu sorriso por um momento, Harry se afastou alguns passos. "Eu vou esperar lá fora enquanto você termina," ele disse e escapou pela porta. A neve ainda estava caindo preguiçosamente, mas os flocos eram maiores agora, e o chão estava começando a criar montes perto das paredes. De pé do outro lado da porta, ao lado de um poste de luz, Harry virou sua face sorridente para o céu e deixou o toque gelado dos flocos de neve esfriar sua pele aquecida. O que significaria, ele imaginou, Draco lhe presenteando um anel? Ele estremeceu, não do frio, mas de felicidade e antecipação.
Rony saiu pela porta após um momento. "O que aconteceu com você lá dentro?" ele perguntou, confuso.
"Eu apenas me recordei de algo bom, só isso," Harry disse.
"Sem mais segredos, Harry."
Harry respirou fundo. "Tá bom, então," ele disse. "Eu acho que Draco vai me dar um anel de presente de Natal também."
"Ah," Rony disse com a voz baixa. "Ele vai?"
"Ele me mostrou a caixa essa tarde quando estávamos no Três Vassouras."
Alguma coisa nessa idéia parecia ruim para Rony, mas ele estava com o humor muito bom no momento para pensar nisso. Ao invés disso, ele sorriu para Harry e mudou de assunto. "Falando no Três Vassouras," ele disse, "eu tenho dinheiro suficiente para te comprar uma cerveja-amanteigada. Eu tenho que te agradecer por isso," ele disse, dando um tapinha em seu bolso.
Harry sorriu em resposta, feliz que Rony não tinha feito uma cena ao saber que Draco iria lhe dar um anel. A cerveja-amanteigada parecia uma boa idéia, mas Harry estava ficando impaciente em voltar à Hogwarts. Ele analisou novamente a neve que caía e balançou a cabeça. "Eu acho que é melhor a gente ir," ele disse. "A neve está engrossando."
Rony escaneou o céu e concordou. "Acho que tem razão. Mas eu te devo uma."
…
…
Em mais ou menos quinze minutos, Draco estava de volta na biblioteca, sentindo-se ridiculamente feliz consigo mesmo. Enquanto ia até a janela no canto do cômodo, fez seu caminho pelas estantes de livros até a seção de Poções e examinou os títulos dos livros ali. Finalmente, ele retirou um volume fino com uma capa vermelha desbotada e abriu-o na primeira página. 'Poções Obscuras e Mortais da Idade das Trevas: Um Guia de Mestre para Preparações Venenosas e os Bruxos que Morreram ao Fazê-las'.
Draco riu um pouco, imaginando se Snape teria lido esse. Levou o livro com ele até a janela, e ali ele se aconchegou na beira, perdendo-se no drama e insensatez envolvidos na preparação de poções, e para esperar e observar Harry chegando de Hogsmeade.
…
…
No caminho de volta, Harry percebeu que Rony estava com o humor muito melhor do que no caminho de ida à cidade, mas ainda estava quieto, como se pensando em algo. Harry caminhou ao seu lado, grato que a tensão feroz dessa tarde havia sumido. Quando ficou evidente que Rony não ia falar, Harry deixou-se perder em pensamentos, imaginando o que Draco poderia estar planejando para eles hoje, imaginando se conseguiria dormir com Draco a noite inteira sem desejá-lo, sem quebrar sua promessa de esperar, imaginando se conseguiria esticar o limite dessa promessa.
"Harry?" Rony perguntou quietamente.
"Hmm," Harry respondeu, distraidamente.
"Como que é?"
"Como o que é?" Harry perguntou, ainda absorto em pensamentos do que gostaria de fazer na cama quente de Draco.
"Sabe," Rony disse com uma voz exageradamente baixa, pausando por um segundo para sorrir para ele. "Sexo. Com que é?"
Harry gemeu, e corou, e sorriu também. "Isso é pessoal, seu mongo."
"Ah, vamos, Harry," Rony provocou com uma risada. "Me conta. Eu acho que não vou saber por um bom tempo."
Harry teve que rir com isso. Ele conseguia imaginar Hermione controlando tudo com rédeas curtas. Ele caminhou mais um pouco em silêncio, pensando no que possivelmente poderia dizer em resposta à pergunta de Rony. "Bem," ele disse finalmente, vagarosamente, "com Cho, estou certo que na hora eu achei que nunca tinha sentido nada mais maravilhoso, mas o que aconteceu com ela está tudo misturado com as memórias de como ela terminou comigo e como eu estava sofrendo. É difícil de me lembrar," ele continuou pensativamente, "por causa do Draco, e como eu prefiro muito mais ficar com ele."
Foi a vez de Rony de andar em silêncio por um momento. "Você realmente prefere o Malfoy?" ele perguntou finalmente.
"Sim," Harry disse. "Muito."
"Eu só não consigo imaginar fazer isso com outro menino."
Harry deu de ombros. "Não é tão diferente. Quem é e como eles fazem você se sentir é mais importante do que qualquer coisa. E," ele disse com uma pequena risada, "pela minha vasta experiência consistente em duas pessoas, eu diria que meninos são bem mais. . . err. . .entusiásticos. . . Cho mal me deixava tocar nela até aquela noite."
"Talvez," Rony concedeu. "Mas é claro," ele adicionou com um tom desdenhoso, "estamos falando de Malfoy aqui. Sem ofensa, Harry, mas ele sempre teve a reputação de ser galinha."
"Rony!" Harry exclamou, exasperado, "os rumores não são verdade. Ele nunca fez sexo com qualquer uma daquelas garotas. Na verdade, você realmente o insultou ontem com aquele comentário do harém." Harry pausou, então decidiu dizer a verdade. "Draco e eu chegamos perto na noite passada, mas ainda não transamos."
Rony deu mais alguns passos enquanto assimilava o impacto dessa informação, e então parou onde estava. "Puta merda, Harry! Está me dizendo que Draco Malfoy é – "
"Sim!" Harry disse, cortando Rony. "E não se atreva a contar para ninguém – nem mesmo a Hermione. Esse é um exemplo perfeito do que estive tentando te contar – que ele não é quem você pensa." Harry virou e continuou andando. "Além do mais," ele disse com um sorriso, quando Rony o alcançou, "isso não vai ficar assim por muito tempo. Eu planejo mudar isso logo, logo."
Com uma careta, Rony disse, "eu não imagino porque você gostaria de mudar isso. Mas agora que me disse, na verdade não estou tão surpreso que ele nunca tenha perdido a virgindade. Ele sempre age de forma tão arrogante e exclusiva – quem seria bom suficiente? Ele provavelmente não agüenta que ninguém o toque."
Harry recebeu uma imagem mental de um Draco desesperado tentando se livrar da Pansy na escadaria e riu. "Eu acho que com a maioria das pessoas, você está provavelmente certo. Mas ele não é assim comigo. Ele definitivamente gosta quando eu o toco." Harry pôde sentir suas bochechas queimando no ar gelado, e agradeceu pela escuridão. Continuou falando, no entanto, determinado em utilizar essa oportunidade para forçar Rony a escutá-lo. "Quando estamos sozinhos, ele é caloroso e engraçado e. . . ardente. . ." Harry corou novamente. "E muito honesto com seus sentimentos."
Rony soltou um ronco de descrença. "Eu não consigo imaginá-lo assim." Então a imagem de Draco beijando Harry do lado de fora do dormitório deles entrou de maneira perturbadora em sua memória. "Bem. . . acho que eu vi um pouco – nas escadas," ele admitiu.
"Eu fiquei bastante surpreso no começo. Eu entendo agora que ele mantém esse lado dele muito privado." Harry respirou fundo. "Eu adoro como me sinto com ele, Rony. Comparando com Cho, ele é tão. . . tão mais. . .bem. . . intenso. Eu nunca senti nada igual – é exatamente o que eu venho procurando e querendo."
Rony suspirou e olhou Harry com seriedade. "Eu desejo a sua felicidade, Harry. Realmente desejo – espero que saiba disso. Então eu não me importaria que você ficasse com o Malfoy, se eu soubesse com certeza que ele gosta de você e se eu tivesse certeza que ele pode ser confiado." Rony pausou e balançou a cabeça. "Mas eu não tenho certeza. Pelo menos ainda não. É que têm muitas coisas suspeitas para que eu acredite nele."
Harry acenou com a cabeça, escolhendo no momento ignorar o ceticismo de Rony e ficar feliz com a admissão do ruivo que aceitaria Draco na vida de Harry quando tivesse certeza de seus motivos. "Então você pelo menos dará a ele a chance de provar o que diz?" ele perguntou, pressionando seu amigo um pouco mais.
"Eu acho que vou ser obrigado," Rony disse, seu tom relutante, porém resignado.
Harry sorriu. As luzes de Hogwarts reapareceram, brilhando na distância no fim da estrada, criando faíscas brilhantes de luz dourada pelo zigue-zague intricado de neve caindo. "Ótimo!" ele disse divertidamente, socando Rony no ombro e saindo correndo. "Aposto que chego antes que você!"
Rony hesitou apenas por um segundo antes de acelerar atrás de Harry com uma risada, sua mão fechada cuidadosamente acima da preciosa caixa em seu bolso.
…
…
Harry e Rony haviam entrado no castelo apenas alguns momentos atrás e agora estavam de pé na frente do portão principal. Ambos estavam com as bochechas coradas e sorrindo, chacoalhando a neve de suas capas, quando Draco desceu das escadas. Harry levantou o olhar e o avistou primeiro, mãos nos bolsos, cabeça baixa, cabelo loiro caindo na testa. Harry sentiu seu coração dar um sobressalto. Rony também levantou o olhar e ficou rígido, observando. Draco desceu até o último degrau e seu queixo se levantou. Ele jogou o cabelo para trás e olhou pra Harry. Após um segundo de hesitação, ele cruzou o hall de entrada na direção deles, um sorriso enigmático levantando os cantos de sua boca. "Fazendo compras de novo, M-C?" ele perguntou quando se aproximou de Harry.
"Ah, shh," Harry riu, corando com o apelido. "Eu levei Rony para comprar um anel para a Hermione. Eu vi um na joalheria em que estava nessa manhã."
Uma sobrancelha pálida se levantou. "Joalheria?" Os olhos de Draco brilharam com interesse. "Agora, imagino para quem você estava fazendo compras lá? Eu, talvez?" ele perguntou, lançando a Harry um daqueles sorrisos hipnotizantes. Então ele se virou para Rony, encontrando o olhar guardado do ruivo com firmeza, um pequeno sorriso ainda visível. "Você se importa se eu der uma olhada, Weasley?" ele perguntou com um ar aberto de superioridade. "Eu sei bastante sobre pedras preciosas."
"Sim, me importo," Rony respondeu, propositalmente ecoando a resposta de Draco de antes e cruzando os braços.
"Ah, qual é, Rony," Harry protestou, oferecendo uma mão. "Ele não vai machucá-lo."
Rony relutantemente retirou a pequena caixa do bolso e a colocou na mão estendida de Harry, e então observou enquanto Harry a passava ao Sonserino.
Draco levantou a cobertura e murmurou em aprovação. "Essas pedras azuis são lapis-lazulis," ele disse. "Boa escolha." Então ele ficou com um olhar entretido. "Mas não conte a Granger que essas pedras possuem propriedades místicas." Ele acenou com a cabeça e devolveu a caixa. "Muito bonito. Combina com ela." Ele observou Rony com uma expressão de divertimento em seus olhos. "Tenho que admitir, Weasley," ele disse, "que você tem bom gosto em anéis. . . e mulheres. Mas o que Granger vê em você vai além da minha compreensão."
Rony olhou em surpresa enquanto guardava o anel, enricando-se um pouco de hábito, ciente de que havia sido elogiado e insultado ao mesmo tempo – uma especialidade de Malfoy, sem dúvida. Mas o tom de voz era brincalhão, sem maldade por trás. "Tenho certeza que Hermione vê muitas coisas, Malfoy, que vão além da sua compreensão," ele respondeu tensamente. Pausou por um segundo, e então adicionou, sem jeito, "e da minha."
Harry olhou da cara de Rony à de Draco. Com certeza ainda havia tensão entre eles, mas estava claro que ambos estavam tentando manter as coisas civis. Harry não tinha esperando que a animosidade entre eles diminuísse tão rapidamente, então ele tomou isso como um sinal de progresso. Mas Draco alcançou uma mão e tocou seu braço levemente.
"Eu tenho outra coisa em mente, Harry," ele disse, parecendo satisfeito. "Uma surpresa – lá no meu quarto."
"Agora?" Harry perguntou, olhando ansiosamente para o Salão Principal. "E o jantar?" ele perguntou lamentavelmente. "Eu caminhei daqui a Hogsmeade três vezes desde o almoço e estou faminto!"
Draco sorriu, um pouco de excitação aparecendo em seu rosto. "Então se apresse, quanto mais cedo vier, mais cedo poderemos comer."
"Tá bom, estou indo," Harry disse com uma risada. Mas é bom que essa surpresa não tenha nada a ver com poções," ele brincou. "Só deixe-me apanhar minha mochila." Ele caminhou até uma armadura no canto do hall e alcançou atrás dela, pegando a mochila que tinha escondido ali antes de sair com Rony.
Rony se aproveitou da ausência momentânea de Harry. Olhando para Draco, ele disse com um tom muito baixo. "Se você fizer qualquer coisa para magoá-lo, Malfoy, eu juro que te mato."
O sorriso de Draco desapareceu instantaneamente e ele lançou a Rony um olhar frio e desinteressado, mas havia algo duro e desolado por trás de seus olhos. "Você terá que entrar na fila, Weasley," ele disse friamente. "Você não é o único." Virou-se para observar Harry. "Nunca foi minha intenção que isso acontecesse," ele adicionou tão suavemente que Rony mal o escutou. Então ele deu as costas a Rony e começou a caminhar na direção da torre da Sonserina, pausando para olhar para trás por Harry, então aguardando que ele o alcançasse.
Harry acenou para Rony com um sorriso e então eles se foram, deixando Rony sozinho do lado de fora do Salão Principal com um sentimento inquietante de desconfiança dentro de si. Ele tinha que pensar em muitas coisas, e havia coisas que precisava contar a ela – ele podia até admitir que Malfoy tinha mudado. Mas Rony ainda cheirava um rato – e ratos, ele pensou amargamente, eram algo que ele conhecia melhor do que qualquer pessoa.
Fim do Capítulo 11
* Quando Draco menciona que Pansy também tem nome de flor, é porque em português pansy é a flor amor-perfeito, apesar de o nome não ter sido assim traduzido para o português na série (por motivos óbvios ;D).
** Novamente, na série original, Lilá Brown é Lavender Brown, e lavender é a flor lavanda em português.
