Disclaimer: O anime/mangá "Naruto" não me pertence, ele é de propriedade exclusiva do Masashi Kishimoto.

Warning: Descreve a relação entre duas pessoas do mesmo sexo (MaleXMale).


"Qualquer coisa é bela se vista de uma forma diferente." – Coco Chanel.

Capítulo 11 – Colisão e Tempo

O mundo todo parecia ter parado para Sasuke naquele momento.

- O quê? – perguntou sem fôlego.

- Eu estou grávida. – repetiu com um sorriso contente.

Sakura estava tendo, pela primeira vez na vida, algum vislumbre de emoção que não fossem frieza ou indiferença. Os olhos negros e profundos estavam arregalados como pratos, e a boca delineada por lábios finos se abria e fechava como os de um peixe fora d'água. Se fosse possível, ele estaria ainda mais pálido. Repentinamente, o homem se levantou da cadeira, fazendo-a tomar a mesma atitude, totalmente surpreendida e preocupada com a reação inesperada. O moreno fez um pequeno sinal para que ela ficasse onde estava e praticamente correu desnorteado para o toalete masculino.

Entrando no cubículo bem iluminado, ele se direcionou pra pia e abriu toda torneira. O som do líquido escorrendo pelo porcelanato branco o relaxou suficientemente para tomar uma respiração profunda, antes de começar a molhar o rosto. A temperatura fria o ajudou a clarear os pensamentos aquecidos e conturbados, sendo assim, ele começou a reunir os pequenos fragmentos da informação perturbadora que havia recebido.

Ele seria pai.

Em um primeiro momento, ele sorriu verdadeiramente feliz, imaginando como seria o bebê pequeno. Um menino ou uma menina? O corvo não se importava com o gênero, desde que pudesse proporcionar felicidade a esse fruto, que seria tão amado e querido pelos pais. Ele não gostava particularmente de crianças, mas podia mudar sua opinião só para este pequeno ser que estava para chegar.

Pensando no assunto, ele temeu que pudesse cometer os mesmos erros que Fugaku. Sasuke não estava a fim de educar o seu filho com a mesma rigidez que havia sido criado, sozinho, com muitos deveres e nenhuma oportunidade para agir como um garoto normal. Sasuke nunca teve muitos amigos, e sua vida social inexistente fez com que "agisse como se estivesse sempre com um pinto extragrande entalado na bunda", de acordo com as palavras ofensivas de Naruto.

E o mundo pareceu parar pela segunda vez.

Naruto. Justo agora que ele havia decidido dar uma oportunidade aos dois... O Uchiha havia se centrado tanto na gravidez da esposa, que se esquecera de considerar o Uzumaki. Ele estava começando a acreditar que existia algum tipo de carma que o prendia, para que fosse eternamente infeliz. Ele não poderia abandonar a mulher agora, não, em uma situação tão delicada.

Ele pegou dois pedaços de papel toalha e esfregou o rosto úmido e cansado com ambas as mãos. "O que eu faço?", pensou com amargura. Em sua mente se passavam flashes¹ rápidos de um Uzumaki sorrindo, emburrado, bravo... Os olhos azuis cerúleos gravados em sua memória como se tivesse os visualizado há instantes. Cada pedaço de lembrança era tão fresco no seu interior, que pareciam ter acontecido recentemente. "O que eu faço?", indagou-se novamente, sentindo que poderia quebrar a qualquer momento.

Sasuke jogou as folhas molhadas no lixo e agarrou a borda da pia, apertando-a com tanta força, que as articulações doeram ao pressionar os dedos com intensidade contra a superfície fria. O moreno teria que dar um adeus definitivo ao homem que amava, porque vê-lo significava se sentir tentado a trair Sakura. Ele seria pai e isso significava ter responsabilidade com alguém que dependia totalmente dele. Era preciso dar o exemplo, manter o foco em seu casamento para que o filho não sentisse que a relação dos seus pais era tão frágil, que não havia estabilidade em sua própria casa. Ele era incapaz de se imaginar decepcionando esta criança que estava para nascer.

Suas emoções se tornaram uma bagunça, semelhante à vez que o loiro decidiu terminar tudo o que tinham. Seu peito se constringiu de tal forma, que ele se sentiu tentado a gritar para ver se o ato libertava o seu coração contrito. Sua respiração saía trêmula e, pela milésima vez nos últimos meses, o Uchiha notou seus olhos pinicarem e um familiar bolo se formar em sua garganta. O homem não sabia o que faria sem o psicanalista em sua vida, porque se os dias em que ficou sem o Uzumaki resultou em tudo o que estava passando, não queria nem imaginar o que seria daqui para frente.

Uma leve batida na porta o distraiu de seus pensamentos autopiedosos.

- Sr. Uchiha, sua esposa está preocupada e pediu para que eu viesse verificá-lo. – anunciou um funcionário do restaurante.

- Já estou saindo, diga a ela para ficar tranquila. – pediu, tentando soar o mais firme possível.

- Sim, Senhor.

O moreno ouviu os passos se afastando e encarou o seu reflexo no espelho grande. Constatando que estava com uma aparência decente para sair, ele abriu a porta e tornou a caminhar em direção a mesa. Sakura o encarava, alarmada. Ela correu os olhos pelo corpo masculino para garantir que nada estava fora do lugar, antes de voltar a analisar os orbes ônix do marido.

Ele se sentou na cadeira a qual estava acomodado antes de entrar em colapso, e percebeu que o garçom já havia servido a comida. Respirando fundo, Sasuke olhou o mar azul escuro à frente.

- Desculpe, a notícia me deixou um pouco atordoado. – admitiu sem conseguir focar sua atenção na esposa.

- Quem diria que o grande e destemido Sasuke Uchiha ficaria tão assustado ao saber que será pai... – ela brincou com um sorriso pequeno enfeitando os lábios avermelhados e um leve rubor colorindo o rosto delicado e bonito.

- Você não pode me culpar, eu não esperava por isso tão cedo... – apesar de estar entristecido pelas decisões que foi forçado a tomar sobre Naruto, havia uma pequena ponta de felicidade que o preenchia por saber que uma parte dele crescia no ventre da mulher.

- Como se sente, Sasuke-kun? – ela franziu as sobrancelhas, demonstrando toda a sua insegurança e preocupação.

- Sobre o quê? – enrugou a testa em confusão. Sakura, aos olhos do moreno, parecia cada dia mais estranha.

- Está feliz em saber que terá um filho? – remexeu-se desconfortavelmente na cadeira e pegou a taça com água que estava em cima da mesa, para bebericar um pouco.

- Apesar de um pouco surpreso, eu estou feliz... – ele se permitiu sorrir minimamente para dar consistência às suas palavras, agarrando a mão delicada em um aperto firme para transmitir sua segurança. – Quando ficou sabendo?

- Em um exame de rotina, dias antes de embarcar para Paris. – ela respondeu animadamente, acariciando a pele pálida com o polegar. – Fiquei tão chocada quanto você. – riu. – Eu quero saber se é menino ou menina logo, para começar a comprar o enxoval e as roupinhas... - exclamou ansiosa e animada, antes de mudar a expressão para uma mais séria. – Eu achei que você ficaria bravo. Desde aquela conversa com a sua família, eu já tinha mudado de ideia sobre ter filhos. Por mais que não pareça, eu entendo como se sente. Mesmo quando descobri que estava grávida, duvidei que eu fosse capaz de ser uma boa mãe, mas, pensando melhor, acho que podemos ser ótimos pais se mudarmos alguns aspectos do nosso relacionamento...

- Como assim? – perguntou desconfiado.

- Eu quero o divórcio. – respondeu com um brilho determinado.

E o mundo parecia ter parado para o Uchiha pela terceira vez em menos de uma hora.

- O-o quê? – ele nem conseguiu controlar sua reação. Seus olhos involuntariamente se arregalaram e seu cérebro parecia ter perdido completamente a capacidade de raciocínio. Sasuke acreditou piamente que estava ouvindo errado.

- Eu quero o divórcio. – apesar da tristeza profunda nos orbes verdes-esmeralda, havia também uma convicção de ferro. Sakura não estava disposta a mudar de ideia.

- Justo agora, quando está grávida? O que a fez tomar esta decisão repentina e precipitada? Você está louca? – o moreno estava pouco se importando por estar agindo tão fora do usual. Ele queria e precisava entender o motivo que levou a esposa a fazer esta escolha, quando estava carregando um filho seu no ventre.

- Eu vi você e o Naruto juntos na festa de arrecadação da família Hyuuga. – respondeu de maneira séria.

Um balde de água fria pareceria tê-lo atingido, e seu coração bateu freneticamente dentro do peito, como se a qualquer momento fosse saltar pela boca. Ele tomou uma respiração profunda para tentar se acalmar, embora seu interior já estivesse uma bagunça de sentimentos que ele não conseguia definir.

- Como? – o moreno se sentia, a cada instante de sua vida, mais perdido; era como se em poucos meses tudo tivesse virado de cabeça para baixo.

- Naruto percebeu que você tinha bebido demais e o levou para fora da festa com o pretexto de fazê-lo se sentir melhor. – ela viu o outro acenar positivamente com a cabeça, indicando que tinha ouvido e se lembrava da situação em particular. – Eu fiquei lá dentro por um tempo, até perceber que vocês estavam demorando demais e, fui tentar encontrá-los... – o brilho em seus olhos estava distante, enquanto se recordava daquela noite. – Quando eu os achei, vocês estavam se abraçando... – a cada palavra, o Uchiha sentia como se estivesse sufocando. – Nada demais, até perceber o quanto vocês são próximos... Eu não sou cega, eu vi o seu olhar para ele e o dele para você; era amor, singelo e puro... – ela soltou um riso amargo. – Então, eu comecei a ligar os fatos... Nosso casamento começou a se tornar ainda mais maçante nos últimos sete ou seis anos, justamente na época em que você o conheceu... E a suas crises de ciúmes para com o Uzumaki-san finalmente fizeram sentido para mim...

- Sakura... – Sasuke tentou começar, mas ela o impediu.

- Eu sei que você nunca me amou, Sasuke. – continuou. – Eu fui ingênua ao esperar que este sentimento pudesse surgir com o tempo... – respirou fundo, encarando a paisagem bonita de Nice Côte d'Azur. – Eu sou agradecida, porque, apesar de tudo, você cuidou de mim e fez questão de me dar tudo o que eu precisava, materialmente falando... – lambeu os lábios secos. – Nosso relacionamento durou quase 20 anos e eu fui verdadeiramente feliz nesse meio tempo, mas sempre faltou alguma coisa, entende? – ela amassou os próprios ombros com as mãos para tentar aliviar a tensão dos músculos. – Nós teremos um filho e eu não quero que essa criança cresça em um lar sem amor, assistindo a nossa distância e percebendo que seus próprios pais não se gostam. – pausa. – Mas eu quero que ela veja que, apesar de estarmos separados, ainda somos amigos que se importam um com o outro. Você pode ao menos tentar ser meu amigo, Sasuke?

O moreno não encontrava palavras para vocalizar a sua concordância. Ele apenas abanou a cabeça afirmativamente e assistiu desnorteado, o leve sorriso agradecido que ela lhe lançava.

- Eu quero que você vá atrás do Naruto e seja feliz com ele. Quero que nosso filho tenha, desde pequeno, a ciência de que deve seguir tanto o coração quanto a razão, além de não se sentir limitado para com quem escolhe se apaixonar e se envolver. Eu não quero que ele crie as mesmas barreiras que a sua família se vangloria tanto em ter, porque se fosse algo para se orgulhar, você e Itachi seriam felizes... – ela observou a expressão gritantemente chocada no rosto pálido e riu. – Você precisa se ver no espelho, Sasuke-kun.

- E quando a você? – ele conseguiu balbuciar.

- Eu vou seguir em frente... – abaixou o olhar com tristeza. Os olhos verdes-esmeralda estavam vermelhos de tanto segurar as lágrimas, mas ela não queria chorar, apesar de estar praticamente quebrando por dentro. – Agora vou poder recomeçar e, quem sabe, encontrar alguém que realmente me ame. Eu sou uma romântica sem cura, Sasuke-kun. Apesar de estar magoada, eu fico feliz que tenha encontrado seu verdadeiro amor e eu ainda sonho em viver uma grande paixão, mesmo estando tão desiludida agora... – desabafou com sinceridade.

O Uchiha nunca havia se sentido tão arrependido com os anos em que viveu um romance proibido com o Uzumaki como naquele momento. Sakura era uma mulher incrível e, por anos, ele a segurou em um destino miserável, impedindo-a de ser feliz. Sasuke a fez sofrer, usou e abusou do sentimento que a esposa tinha da maneira mais vil possível e, mesmo assim, ela ainda desejava a sua felicidade e abria o seu caminho para que pudesse viver ao lado do homem que realmente amava.

- Sakura? – chamou com o timbre entristecido. A anormalidade do tom de voz a alarmando, pois a expressão entristecida dera lugar a uma preocupada em questão de segundo. – Me perdoa?

Ela arregalou os olhos verdes para o pedido sincero e inesperado.

- Sasuke... – murmurou em um tom ofegante.

- Eu fui um carrasco. – comentou casualmente com o cenho franzido em desagrado. O sentimento negativo era voltado a si mesmo, pois ele jamais se dera conta de quão desapontador ele estava agindo por quase uma vida inteira. "Será que ainda teria orgulho de mim, pai? Mesmo depois do que eu fiz?", indagava-se amargamente. – Eu sou sinceramente agradecido, embora saiba, melhor que ninguém, que não mereço cada coisa que tem feito e ainda faz por mim. Agora, mais do que nunca, eu me sinto triste por não ter me apaixonado pela mulher mais fascinante que eu tive o prazer de conhecer e arrependido por nunca ter lhe dado a oportunidade de entrar em meu coração... Eu tenho certeza que o homem a quem você entregar o seu coração será uma pessoa muito privilegiada, porque alguém como você, eu tenho certeza que ninguém será capaz de encontrar... – encarou profundamente os orbes claros.

- Não diga coisas como essas quando uma mulher está grávida, Sasuke! – brigou indignada, deixando escapar algumas lágrimas teimosas. Ela fungou com força, tentando controlar o emocional desgastado. – Eu estou tentando ser controlada aqui, ok?!

Os dois estavam se sentindo drenados pela conversa, mas a palavras colocadas abertamente sobre a mesa, deixou-os com um perceptível sentimento de paz. Dali em diante, ambos seriam amigos, mesmo que Sakura, naquele momento, ainda esperasse que seu marido a amasse como uma esposa.

(***)

Quando o casal voltou da França, ambos seguiram juntos para o apartamento que dividiram por anos. Sakura encarou todos os cômodos da casa, sentindo uma saudade antecipada por aqueles lugares, lembrando-se de tudo o que viveu naqueles 15 anos de casada, mesmo que não tivesse, realmente, grandes lembranças para se recordar. Os dois sempre foram muito distantes e raramente viveram situações em conjunto.

Ela respirou fundo, tentando ensurdecer a voz que gritava constantemente: Por que tem que ser dessa forma? O fim era triste, mas seria ainda pior se ela aceitasse continuar com um matrimônio fadado ao fracasso. A mulher sofreria dia após dia, assistindo o marido tentar lidar com um relacionamento que não suportava. Já foi ruim o suficiente ter que viver tanto tempo "sozinha".

Agora, ela tinha alguém mais para pensar no bem-estar, fora si mesma. A modelo carregava uma criança no ventre, que não merecia aquele tipo de vida miserável. Uma hora ou outra, Sakura sabia que o homem quebraria e, dessa forma, passaria a romper todas as pessoas à sua volta. Para ela, havia chegado a hora de ser uma menina grande e deixar de lado a garota sonhadora e romântica que fora. Um dia, quem sabe, ela voltaria a ser como antes, quando encontrasse alguém que pudesse retribuir todo o sentimento reprimido em seu peito, no entanto, naquele momento, a sua prioridade era seu filho.

Ela olhou para o quarto de hóspedes com uma feição pensativa. Inclinando a cabeça para o lado direito, concluiu que amarelo bem claro ornaria bem para o quarto de um bebê; nada extremamente feminino ou gritantemente masculino.

Ouvindo passos pesados no corredor, Sakura se virou para encontrar seu esposo carregando duas malas grandes, para adicionar às que ele havia trago de Paris.

- O que você está fazendo? – perguntou surpresa.

- Se vamos nos divorciar, não faz sentido eu ficar nesta casa... – murmurou. – Volto para pegar o resto das minhas coisas assim que eu voltar de Hokkaido e encontrar algum lugar para ficar.

- Você vai para Hokkaido? – inquiriu, sentindo-se ainda mais confusa.

Sakura pensou que a primeira atitude do homem seria correr atrás do Uzumaki e quem teria de sair do apartamento seria ela. A mulher olhou das malas para o moreno com os olhos brilhando em estranhamento, sentindo como se tivesse perdido algo na conversa e não soubesse como retomá-la.

- Sim. – respondeu simplesmente.

- Mas... – tentou interceder e foi interrompida.

- Sente-se. – ordenou e indicou com um simples olhar, o pequeno sofá que tinha dentro do quarto.

Ela cumpriu o comando do homem totalmente calada, já acostumada com o jeito autoritário, e o assistiu se sentar ao seu lado, apoiar os cotovelos nos joelhos e entrelaçar os dedos das mãos, adotando uma postura reflexiva.

- Eu não vou conversar com o Naruto ainda. – confessou, surpreendendo-a ainda mais com o desabafo pequeno. – Você ter me pedido o divórcio e dizer tudo aquilo para mim em Nice Côte d'Azur me fez enxergar coisas que me recusei a ver por orgulho. Eu preciso de um tempo para pensar e rever as minhas atitudes. – lambeu o beiço para umedecê-lo. – Preciso mudar, Sakura... – enfim, ele encarou os orbes verde-esmeralda. – Por mim, pelo Naruto e por essa criança que vai nascer...

A mulher nunca tinha visto essa expressão na face pálida, parecia que estava olhando para outro homem, muito diferente do marido. As íris ônix estavam opacas e, nelas, podia-se ver a tristeza, o cansaço e a realização amarga. Sasuke estava tão desgastado com tudo o que parecia ter acontecido em sua vida, que deixou cair, sem perceber, o muro que o envolvia. Era surpreendente ver o rosto inexpressivo, demonstrar tanto em tão pouco tempo. Seu coração se comprimiu ao ver o sofrimento do esposo.

Ela não queria que as coisas fossem dessa maneira.

- Entendo... – falou baixo, sentindo que sua voz poderia quebrar o momento.

- Eu machuquei tantas pessoas com o meu egoísmo... Eu... – o Uchiha respirou fundo e fechou os olhos, procurando aliviar a tensão de seu corpo. – Eu espero que você não me tire o direito de ver o nosso filho, embora eu entenda perfeitamente se o fizer... – começou, mas foi interrompido.

- Não! – ela intercedeu desesperada. – Eu não quero privar essa criança de ver o pai. Podemos combinar mais para frente, como serão as visitas. Ele pode ficar com você por alguns dias! Essa criança é nossa e eu quero que esse bebê esteja presente em sua vida, assim como estará na minha.

Ele soltou o fôlego em alívio e se encostou no estofado macio, relaxando o corpo e fechando os olhos, como se apreciasse algum tipo de insight². Sakura nunca o viu desse jeito tão aberto. Apesar de estar magoada, ela não queria que ele se sentisse tão arrependido e desgastado. No entanto, sabia que só o tempo poderia fazê-lo voltar à normalidade. Ele realmente precisava de alguns dias longe de tudo, a fim de se recuperar e se reestruturar.

- Vai fazer bem a você se desligar um pouco... – ela comentou casualmente, levantando-se. – Aproveite Hokkaido por mim e depois me diga o que achou. Eu quero tomar um banho, a viagem foi longa e a gravidez me dá muito so... – bocejo. – no...

- Obrigado, Sakura. – ele disse de repente, levantando-se também e a abraçando.

A mulher ficou tão surpresa, que perdeu a capacidade de se movimentar e de falar. Os olhos estavam arregalados como pratos e a boca estava aberta em descrença pura. Nunca, em todos os anos que conheceu Sasuke Uchiha, o moreno havia agradecido ou se desculpado por algo. Contudo, nos últimos dias, ele havia feito as duas coisas inúmeras vezes.

- Por que está me agradecendo? – ela perguntou com a voz embargada.

Tudo estava mexendo com o seu emocional frágil. A gravidez deixava seus hormônios loucos e qualquer coisinha a deixava à beira de um ataque de choro ou de raiva. Juntando esse fato aos acontecimentos recentes, ela não estava aguentando segurar as emoções que gritavam em seu interior. Tudo a deixava sensível e ela sentia como se estivesse transbordando sentimentos há muito guardados.

Sakura não suportava ver o homem que amava sofrer e, o que mais a matava por dentro, era saber que o marido estava padecendo por outra pessoa. Ela, enfim, deixou as lágrimas cederem por sua face, tentando ser o mais discreta possível. O moreno já estava pagando por seus atos o suficiente para que sua tristeza o penalizasse ainda mais. Sasuke não precisava disso, embora tivesse agido como um cafajeste por tanto tempo.

Apesar das emoções confusas, o desabafo do marido a fez perceber que ele a aceitava como amiga e confidente. O simples fato dele se abrir a fez se dar conta de que o corvo lhe deu uma prova de que pretendia manter uma relação estreita entre eles e isso a deixava imensamente contente. Era essencial para ela que seu filho sentisse uma ligação entre seus pais, nem que fosse amizade simples e incondicional.

Sasuke se afastou e caminhou silenciosamente para as malas que descansavam no corredor.

- Quero estar presente em todo o processo de gravidez. Me ligue quando for o próximo exame, tudo bem? – ele jorrou com o familiar timbre profundo e grave, que sempre a fazia se arrepiar por inteira.

- Ok... – ela respondeu, tentando soar normal, mas pela forma como os ombros largos estavam tensos, Sakura pôde perceber que ele havia percebido sua fraqueza emocional.

Ele pegou as malas e saiu sem se despedir. Para alguns, o ato parecia demonstrar frieza, mas para a mulher, que conviveu por anos com o Uchiha, sabia que a atitude era um mudo "até logo". Ele era assim, poucas palavras e muitas ações silenciosas. Agora, depois de ter enxergado o que se recusava a ver por medo de sofrer, ela conseguia ler cada pormenor do comportamento discreto. Sasuke tinha razão quando afirmou que ela "nunca sabia de nada".

(***)

Cinco dias se passaram como uma maratona.

Ele estava sentado em um futon³ no restaurante do hotel onsen, na cidade de Kitami, com uma xícara de chá quente em ambas as mãos e olhando distraidamente as pessoas entrarem e saírem do estabelecimento. As horas em que o moreno passou em completa solidão o ajudaram a relaxar a mente conturbada por preocupações e dúvidas. Nesse meio tempo, ele já havia tomado todas as decisões que precisava e traçado um plano para concretizar tudo o que havia planejado, porque, no final das contas, ele ainda era uma pessoa meticulosa e calculista, independentemente do que aconteceu nesses meses, sua personalidade, em alguns aspectos, não mudara tanto.

Sasuke se afundou em si mesmo nessa pausa e reavaliou todos os últimos eventos, aprendendo com os erros que cometeu e tentando arranjar maneiras de resolver sua vida atribulada.

Distraidamente, ele voltou seu olhar para o jornal impresso depositado na mesa à sua frente, seus orbes pareciam focados, mas sua atenção estava longe das palavras escritas naquele pedaço de papel. Seu pensamento voou até Naruto, como sempre fazia quando estava longe do homem loiro.

Passaram-se quase duas semanas que não tinha qualquer contato com o Uzumaki. Vontade de ligar não lhe faltava, mas lhe faltava coragem. O Uchiha não havia percebido que agiu como um verdadeiro canalha por anos até que Sakura, indiretamente, esfregou-lhe na cara o quão oportunista ele era. Se não fosse pela esposa, ele continuaria tão egoísta quanto antes e o fato o envergonhava.

Sasuke não pensou no psicanalista; não pensou na modelo; não pensou em ninguém. Desde o início, ele apenas pensou em seu próprio bem-estar, porque interiormente acreditava que merecia um pouco de prazer em troca dos sacrifícios que fizera. O empresário era um tolo, e não era à toa que Itachi sempre o diminuía, sempre o alertava... Ele nunca entendeu os comentários sagazes do irmão mais velho, pois estava centrado demais si mesmo.

Avaliando melhor toda a situação, Sasuke diria que nunca entendeu os conselhos do primogênito, porque se considerava maduro o bastante para tomar as próprias decisões. Mero engano. Ele ainda era uma criança no corpo de um homem, aprendendo da forma mais dura sobre como suas escolhas imprudentes poderiam acarretar resultados ainda piores. No mundo corporativo, isso era um fato inegável, mas na vida, desde muito novo, ele lidou com pessoas que relevavam todos os seus caprichos por causa do seu sobrenome e status social. Ele era uma figura importante e, com uma simples movimentação bancária ou uma ameaça, conseguia tudo o que queria. Mas, não era assim para sempre e a vida se encarregou de lhe mostrar isso.

Ainda perdido em divagações, o Uchiha virou a página do caderno de notícias, apreciando a falta do brilho dourado da aliança de casamento e a marca pálida sobre sua pele marfim no lugar do anel de ouro. O moreno havia retirado a joia antes de voltar para Tóquio e, mesmo depois de tantos dias, era estranho se ver sem o símbolo que representava sua união conjugal com Sakura Haruno. A ausência do objeto tornou os fatos ainda mais reais e concretos; era a hora de crescer e ele começaria por assumir os seus erros e responsabilidades. Depois, tomaria providência para colocar a vida nos eixos, uma vez que esta estava inteiramente de cabeça para baixo.

Chegara o tempo correr atrás da felicidade. Naruto que o aguardasse, porque depois de trazer o homem ao seu lado novamente, nada e nem ninguém o faria deixá-lo ir...


Flashes¹ - clarão breve e intenso; cena extremamente rápida; mensagem importante transmitida com brevidade em caráter de urgência.

Insight² - clareza súbita na mente; compreensão e solução inesperada; capacidade de avaliar de modo objetivo o próprio comportamento; revelação mística.

Futon³ - colchão usado tradicionalmente como cama no Japão. Os futons são baixos e feitos de algodão, lã ou material sintético.

Onsen⁴ - águas termais. Ao contrário do Ocidente, onde são classificadas como termais as águas com temperatura superior a 21 graus, no Japão, essa classificação é atribuída apenas a partir dos 25 graus.