República

Por: Pepperish

Capítulo dez: Dividir para seduzir (e conquistar)

"Eu não estou em pânico.

Eu estou estrategicamente ponderando todas as possibilidades com,

quem sabe, um nível moderado de ansiedade impossível de ser evitado.

Isso é o que pessoas inteligentes fazem.

Ou talvez eu esteja em pânico."

Por Kagome Higurashi.

(Quarta-feira)

"Vamos lá, Kagome-chan, eu tenho certeza que você consegue." Kikyo disse, literalmente me arrastando pela mão através do imenso gramado verde em direção às instalações do Time de Arco e Flecha. Eu passei os últimos quarenta minutos tentando convencer essa menina de que isso era uma péssima, péssima ideia, mas ela não parecia nem um centímetro mais perto de ceder agora do que estava quando eu comecei. "Um dia, é tudo que eu peço. Dê uma chance."

Isso é mau.

Muito, muito mau.

Eu não precisava de mais humilhação. Ter outra aula torturante de História era o suficiente, obrigada. Estava começando a odiar todos os dias que tinham essa maldita aula.

A minha frente, estava Kikyo em toda a sua glória, vestida com calças justas vermelhas, uma blusa branca e quente com a insígnia do colégio – o uniforme de inverno padrão do time – e um sorriso encorajador. Ela parecia profissional vestida daquele jeito, o que só me fazia sentir ainda mais inadequada.

Se ao menos estivesse chovendo, eu teria uma desculpa.

"Você não faz ideia o quão apocalíptica essa sua ideia tem potencial para ser." Suspirei. "Eu realmente não tenho jeito para isso, Kikyo!"

"Nem nunca vai ter, se não começar em algum lugar."

Psh. Claro, como se fosse fácil assim. Talvez para ela, mas definitivamente não para Kagome Higurashi.

"Você nem vai precisar trocar de roupas," ela me garantiu assim que chegamos perto do estoque onde o equipamento ficava guardado. "é só tentar relaxar, se divertir e mirar o mais perto do alvo possível."

Isso arrancou uma risada leve de mim. Talvez de desespero, não tenho certeza.

Kikyou começou a procurar alguma coisa entre os vários arcos e aljavas disponíveis até encontrar o que queria.

"Aqui, esse deve servir para você." Ela sorriu outra vez. "Testa a corda."

"Está bem." O material estava gelado contra meus dedos quando eu envolvi o cabo com uma mão e, sem muita certeza, tentei puxar a corda. Ela era fina, mas não escorregadia, e requeria muito mais pressão do que achei a princípio. Mas, com um certo esforço, ela veio.

"Ótimo. O meu está no meu armário, só vou pegá-lo e nós podemos ir."

Em muito menos tempo do que eu gostaria, estava no meio do gramado, em meio a várias pessoas atirando contra círculos coloridos. Fiquei olhando de um lado para o outro, tentando absorver o conhecimento alheio, mas tudo que eu via eram pessoas muito mais graciosas que eu.

"Você vai precisar prender o cabelo." A voz de Kikyou soou atrás de mim e eu quase pulei de susto. Seus dedos passaram pelos meus cabelos, tirando-os do meu pescoço e prendendo-os em um rabo-de-cavalo. Minhas bochechas ficaram imediatamente vermelhas. "Cabelo solto atrapalha muito na hora de atirar."

"Eu não planejei nenhum homicídio para hoje, então acho que é uma boa ideia."

"Tem certeza, ninguém que você odeie está no Time de Arco e Flecha?" Eu ri e fingi pensar por alguns momentos.

"Não, não que eu me lembre." Coloquei uma mecha que ainda estava solta atrás da orelha. "Não ia conseguir mirar em ninguém específico, então não é como se fosse adiantar de qualquer forma."

"Com o tempo você pega o jeito, se te interessar. Pense nisso, poder atirar nas pessoas que você detesta a distância. É compensador."

Nós rimos outra vez e então Kikyou passou a me dar instruções sobre como deveria me posicionar. Na verdade, ela explicava bem, com uma voz paciente e me dizendo o porquê das coisas, ao invés de simplesmente dizer que é assim e ponto final.

"Pronto, agora você pode tentar."

Mandei um olhar meio hesitante para ela e um riso de descrédito.

"Qualquer acidente, saiba que é tudo responsabilidade sua."

"Estou assumindo qualquer responsabilidade, prometo. Agora vai."

Tentei manter em mente tudo que ela havia acabado de me passar, como manter a coluna ereta e os ombros no lugar, ergui o arco até que ele estivesse na altura do meu rosto e, colocando a flecha mais no lugar que consegui, puxei a corda até meu queixo, sentindo meus músculos protestarem – é nisso que dá não se exercitar nunca – e meu aperto no arco vacilar por um instante. Agarrei melhor a haste e me concentrei em mirar no alvo. Ele parecia tão longe.

Disparei.

E a flecha se enterrou na grama.

A vários metros de onde o alvo estava. E a pouquíssimos metros de onde eu estava.

Graças a Deus estávamos praticando no alvo mais afastado de todos os outros, então eu não atingi o pé de ninguém.

"Não foi o pior primeiro tiro que eu já vi." Kikyou colocou uma mão no meu ombro e eu olhei para ela duvidosamente. "É verdade! Tenta separar mais as pernas. Vai te dar maior estabilidade quando você puxar a corda, assim você não perde a mira."

Como se eu tivesse mira, em primeiro lugar.

Mas o conselho dela ajudou e o segundo disparo foi menos tenebroso do que o primeiro. Ela me deu um sorriso de comemoração.

"Com alguma prática aposto que você se sairia bem. Além disso, a roupa é bonita, aposto que seu namorado ia gostar." Minhas bochechas se inflamaram novamente, mas dessa vez eu não corri para corrigir seu equívoco.

"Eu não tenho namorado." As palavras pareciam mais pesadas do que deveriam nos meus lábios.

"Jura? Pensei que você e Inuyasha estivessem juntos." Kikyou parecia surpresa, mas menos do que a maioria das pessoas quando eu as contradizia sobre Inuyasha. Quase engoli em seco.

"Bom, não estamos." Tentei dar um sorriso, enquanto pegava outra flecha da aljava e ela me ajudava a posicioná-la no arco. "Somos amigos e moramos na mesma república, mas é só isso."

"Por quê? Não é como se você não estivesse interessada." Kikyou me abriu um sorriso malicioso e piscou. "Não está fazendo o garoto sofrer, está, Kagome-chan?"

"Claro que não!" Quase perdi a pressão no arco, meu sangue se agitando nas veias. Malditos genes pálidos. "Não é nada disso."

Kikyou começou a rir e me olhou, descrente.

"Ele não é nada mau."

"Se você acha, fica pra você." Murmurei, ainda me sentindo constrangida. Ela só abanou a cabeça em negação, rindo mais uma vez.

"Vamos, volta a se concentrar nisso aqui." Kikyou indicou o arco em minhas mãos e eu fiquei feliz de ter algo para fazer que nos desviasse desse assunto.

Definitivamente ainda não estou pronta para isso.

oOo

Parece que eu estar pronta ou não, não faz diferença.

E eu sei disso porque, ao final da minha aula experimental – na qual o máximo que eu consegui acertar foi a direção aproximada do alvo, mas todas as minhas flechas terminavam inevitavelmente na grama, a pelo menos alguns (muitos) passos de onde deveriam ter ido parar – Inuyasha estava me esperando.

Na verdade, ele estava escorado em uma parede do estoque, atrás de onde estávamos, com um sorriso divertido espalhado pelo rosto. Fiquei um pouco desconfortável assim que reparei em sua presença – minha mente enchendo-se aceleradamente de milhares de perguntas como há quanto tempo ele estava ali e se ele havia visto quando eu acertei Kikyou com o arco sem querer. Ela o indicou sorrindo maliciosamente e uma parte de mim queria se enterrar num buraco na grama e ficar por ali mesmo.

Mas a outra parte... Bom, outra parte ficou contente. De uma forma esquisita. Meu estômago estava apertado de um jeito que beirava o incômodo, mas de alguma maneira um incômodo bom, um sorriso se formou imediatamente no meu rosto e nem todo meu constrangimento conseguiu me impedir de praticamente saltitar até onde ele estava.

"O que você está fazendo aqui?" O sorriso dele se alargou e Inuyasha imediatamente moveu os dedos para tirar o prendedor que mantinha meu cabelo amarrado. Diferentemente do que acontecera quando Kikyou colocara o elástico ali, seus dedos mandaram um arrepio pela minha coluna.

"Admirando a paisagem?" Dei um safanão em seu braço, mas meu sorriso nunca vacilou. Eu estava sorrindo tanto que achei que meu rosto fosse rasgar no meio. "Meu treino de karatê acabou e eu vim te buscar."

Oh.

Só então percebi que ele parecia recém-saído do chuveiro, os cabelos prateados ainda úmidos nas costas, e que ele estava de calça jeans e uma jaqueta de couro, ao invés do uniforme.

"Só preciso devolver o equipamento e estou pronta para ir." Indiquei o arco ainda em minhas mãos com um maneio e Inuyasha assentiu. "O quanto, exatamente, você chegou a assistir?"

"Enquanto eu admirava a paisagem?"

"Inuyasha!"

"O suficiente para saber que, para uma pessoa com a coordenação motora de um pato embriagado, você estava mirando surpreendentemente perto do alvo. Estava esperando que você tivesse acertado pelo menos três pessoas e um esquilo quando cheguei." Eu o teria repreendido outra vez, se aqueles não fossem meus pensamentos exatamente, então me contentei em rir de sua resposta e devolver o arco e flecha para uma menina uniformizada e sorridente.

Inuyasha passou um braço sobre meus ombros e fomos andando juntos – em direção ao estacionamento, imagino.

"Eu sei que essa é a sua maneira torta de me fazer um elogio."

"Não, veja bem, eu dizer que não conseguia olhar para nenhum outro lugar porque você era absolutamente a garota mais bonita ali é a minha maneira de te fazer um elogio." Imediatamente, meu pescoço e rosto começaram a queimar com o rubor que me atingiu com força total. "Eu apenas disse que estava esperando um pouco de sangue, gritos e entretenimento."

Não consegui responder nada e desviei o olhar para o outro lado. O quão longe desse maldito carro nós estávamos?

"E essa é uma reação apropriada para um elogio. Nenhuma resposta espertinha agora?" Inuyasha riu e eu dei um tapa em seu abdômen. "Não sei o quanto eu gosto da ideia de ter você no time de arco e flecha do colégio. Você é tão violenta que a integridade física de todos os alunos estaria ameaçada."

"Finalmente começando a temer pela sua vida?" Aproveitei a saída fácil para fingir que seu comentário anterior nunca tinha acontecido, ainda que meu coração permanecesse martelando contra minha caixa torácica e meu rosto não tivesse esperanças de se livrar do tom de vermelho tão cedo. É claro que Inuyasha achava isso magnanimamente engraçado. Eu podia ver isso em seus olhos e no sorriso lupino que curvou o canto de seus lábios ligeiramente para cima.

"Tenho certeza que você não atiraria em mim. Sentiria minha falta demais."

"Eu posso te garantir que não sentiria falta nenhuma desse seu ego gigantesco."

"Se você diz..." Ele se limitou a piscar para mim e tornar seu abraço um pouco mais presente, fazendo com que meu rosto se aproximasse perigosamente de seu tórax. Acredito que até ele já saiba a essa altura o que seu perfume faz com meus pensamentos racionais.

"Bom menino." Consegui murmurar, adotando um tom apreciativo.

Inuyasha fez um barulho de desprazer e eu me senti soltar uma risada um tanto quanto sem fôlego. A partir de então nós caímos na nossa própria rotina de discussões sarcásticas e brincadeiras inofensivas. Território familiar para mim, o que fez com que eu me sentisse um pouco menos tensa.

Ainda assim, algo brilhando no fundo dos olhos de Inuyasha me dizia claramente que as coisas estavam completamente diferentes. E que, seja lá o que fosse essa mudança crucial, ela era permanente.

oOo

Horas mais tarde, eu estava deitada na cama, encarando o teto do quarto vazio. Exatamente como na casa de Miroku em Naples, com exceção de que Inuyasha não estava dormindo na cama ao lado. No entanto, meus pensamentos revolviam em torno do mesmo tema.

Eu...

Eu acho que era seguro admitir que os sentimentos que Inuyasha vinha causando em mim não eram estritamente de amizade.

Por mais que isso soe alienígena.

E que eu continue me perguntando repetidas vezes porque diabos ele se interessaria por mim, de todas as pessoas. A ideia é tão surreal que eu quero rir todas as vezes que o pensamento me ocorre (e depois chorar um pouco, talvez). Mas eu acho que não é – quero dizer, e o comportamento dele durante as últimas semanas talvez... É, talvez.

Não sei colocar um nome nisso que tem me atormentado. É como um parasita desagradável grudado no pé da minha orelha me sussurrando as coisas mais disparatadas e tentando me fazer acreditar nelas.

Ugh, confusão, teu nome é Kagome Higurashi.

Uma coisa é certa, pensar em ter qualquer coisa que vá além de amizade com Inuyasha faz com que meu estômago congele, se retorça, faça uma dança africana e se mude para a Escandinávia.

Suspirei pesadamente.

Acho que estava na hora de admitir que eu precisava de ajuda.

Odeio o sorriso presunçoso que eu tenho certeza que vai surgir na cara dele.

Ainda assim, me obrigo a levantar e ir para a sala, onde Miroku e Rin estão sentados vendo alguma coisa na televisão. Eu devo estar realmente desesperada.

"Miroku, você pode vir aqui um segundo?" Ele desviou os olhos da televisão para mim, esparramado sobre o sofá e me sorriu preguiçosamente.

"Que tal você vir até aqui? Estamos vendo um reality show genérico e sem importância bastante motivador. Eu acho que a Kylie e a Kendall estão perto de partirem para agressões físicas agora."

"Hm, por mais que violência entre duas mulheres me seja extremamente atraente, acho que eu vou ter que passar a oferta. Realmente prefiro que você venha aqui."

Miroku fez um show, suspirando dramaticamente enquanto se levantava quase em câmera lenta de seu lugar no sofá.

"Por que eu só amo as mulheres que me dão trabalho?" A risada de Rin se fez presente e eu só revirei os olhos, ainda que sorrindo.

"Deixe de ser uma Drama Queen, querido." Eu disse. Miroku finalmente se levantou e veio até onde eu estava.

"O que a senhorita deseja?" Eu revirei a barra da camisa entre os dedos e alternei meu peso entre um pé e outro, olhando para qualquer lugar que não fossem seus olhos. Meu pescoço e rosto estavam queimando e eu não poderia ter mais certeza de que eu estava corada do que já tinha. "O que te deixou tão agitada assim?"

"Eu preferiria não conversar aqui." Eu apontei a porta do quarto que ele dividia com Inuyasha. Miroku me analisou dos pés a cabeça, eu quase podia ver as engrenagens girando naquela mente deturpada, quando me encarou, imediatamente um olhar de reconhecimento brotou em seus olhos.

E, é claro, um sorriso pretensioso se espalhou em seus lábios como quem diz 'eu estive certo o tempo inteiro, não estive?'.

Talvez fosse melhor procurar a ajuda de Rin.

Ela não seria tão cruel, seria?

"Oh, claro, as paredes tem ouvidos, não é?" Rolei os olhos mais uma vez, o que só causou uma risada no garoto a minha frente.

"Você é ridículo."

"O que você quiser, mas estou curioso sobre essa conversa. Qual local vossa majestade julga adequado para tão importante evento?"

"Vai logo colocar um casaco e nós podemos ir para a cafeteria."

"Ao seu dispor." Miroku me deu uma piscadinha safada e correu em direção ao quarto antes que eu pudesse acertá-lo por ser um estúpido de propósito.

Esperei na sala com Rin, prestando pouca atenção ao programa que passava na TV (mas ainda assim reparando que Miroku não estava errado, havia duas garotas se estapeando na tela), até que ele voltou devidamente vestido.

Menos de dez minutos depois estávamos compartilhando uma mesa e eu estava me sentindo muito mais reconfortada com o cheiro maravilhoso de café fresco que envolvia o ambiente.

O que só vem a provar que café é a resposta para tudo na vida. Exceto, possivelmente, loucura induzida por excesso de Inuyasha Taisho, uma doença que eu aparentemente adquiri nos últimos meses.

Ele não tirava aquele estúpido sorrisinho da cara, para minha total irritação.

"Do que diabos você sorri tanto?"

"Você sabe, dos pequenos prazeres da vida. Uma tarde ensolarada, uma boa xícara de mocha, o fato de que eu estive certo o tempo inteiro e você finalmente está pronta para admitir. Coisas simples, na verdade."

"Eu sabia que você ia ficar insuportável."

"Se acha que minha reação é ruim, espere até eu contar para Sango."

"Não! Por favor, tenha piedade."

Ele me lançou um olhar falsamente crítico, me analisando cuidadosamente enquanto fingia considerar meu pedido.

"Vou pensar no assunto." Fiz minha melhor expressão de filhote que caiu da mudança. "Posso ficar mais leniente se você começar a falar agora."

"Ok..." Suspirei. "Não quero que você pule para conclusões precipitadas, está bem? Não é nada demais. Eu só estou um pouquinho confusa. Muitos acontecimentos bizarros em um curto período de tempo podem fazer isso com uma garota."

Miroku só continuou me encarando, provavelmente me achando uma fonte melhor de entretenimento barato do que qualquer reality show.

"Acho que eu não entendi, vai ter que explicar mais claramente."

"Você realmente vai me fazer dizer isso explicitamente, não vai?"

"É claro que sim. Esse é um dos primeiros passos para você entender o que está sentindo, Kagome. Admitir é essencial."

"Você parece um conselheiro de grupo do AA, 'admitir que você tem um problema é o primeiro passo' e esse tipo de coisa." Bufei, irritada.

"Está implicando que você está viciada em Inuyasha?" Ele ergueu uma sobrancelha, o sorriso se alargando ainda mais e eu enfiei meu rosto nas mãos.

"Não, para de distorcer o que eu digo!"

"Então diga mais claramente e eu não precisarei assumir nada."

Peguei a xícara de café a minha frente e tomei um gole, tentando me preparar. Dizer isso em voz alta, para outra pessoa ainda, era mais difícil do que eu esperava.

"Talvez meus sentimentos por Inuyasha não sejam de uma natureza puramente platônica."

"Tenho certeza que você pode fazer melhor do que isso," Quase comecei a chorar ali mesmo "mas vou deixar passar. Então você descobriu que está atraída por ele – o que tem sido bastante óbvio por pelo menos três semanas para todas as pessoas normais -, o que pretende fazer sobre isso?"

"Fazer? Eu deveria fazer alguma coisa?" Miroku me lança um olhar cético e eu termino terminei o conteúdo da minha xícara. "Miroku, se eu soubesse o que deveria fazer, você acha que eu estaria pedindo ajuda? Você já foi mais útil na arte de aconselhar."

Isso fez com que ele risse.

"Talvez eu seja mais útil quando o assunto não é evidente e você não está apenas sendo teimosa e se agarrando a uma tentativa fútil de negação."

Abri a boca para reclamar e protestar, mas não tinha muita certeza de como negar o que ele estava dizendo, então fechei outra vez, contrariada.

"Sério, Miroku? Eu e Inuyasha? Nada soa mais ridículo do que a imagem mental de nós dois como qualquer coisa que não seja os mais improváveis dos amigos."

"Eu acho que a imagem de vocês dois como um casal já existe, querida. O que está te deixando tão assustada?"

"Tudo!" Joguei as mãos pra cima, exasperada. "Todo o prospecto da coisa é absolutamente aterrador. Ele é o meu oposto, além de ser o último tipo de cara que deveria estar atraído por alguém como eu – ninguém nunca esteve atraído por mim e agora eu deveria me convencer que Inuyasha está? E que de alguma forma isso não é simplesmente absurdo? É loucura! Além do mais eu não acho que esteja pronta para nada disso. Eu sou basicamente uma criança chorona no corpo de uma adolescente. Você deveria saber disso a essa altura."

Depois do meu pequeno discurso, um silêncio se instaurou entre nós, perturbado apenas pelo som da minha respiração pesada.

"Entendo." Miroku disse, parecendo sério pela primeira vez desde que começamos a tratar desse assunto. "Resumindo a ópera, você compreendeu seus sentimentos, mas não consegue lidar com seu medo, então simplesmente saiu do modo de negação para o modo de pânico."

"Não tenho bem certeza se isso é exatamente o que eu disse."

"Mas está certo, não?"

Fiquei em silêncio.

Quero dizer, ele parafraseou meus pensamentos de forma tendenciosa e exagerada, mas acho que, em geral, analisando fria e teoricamente, podemos dizer que não está completamente errado. Eu estou em pânico.

Ah, por todos os Deuses, as coisas não poderiam ser simples só uma vez?

Miroku assumiu que meu silêncio era uma confirmação – o que de fato, acho que era – e abriu um sorriso reconfortante.

"Garanto que você está pensando demais sobre isso." Ele estendeu uma de suas mãos para tocar meu pulso. "Você precisa confiar mais no que sente e no que as ações de Inuyasha demonstram."

"Ele me deixa tão confusa..." Enfiei meu rosto nas palmas das mãos.

"Imagino que sim, mas ele não poderia estar sendo mais óbvio."

Bom, na verdade poderia.

Ele podia ter me prensado na porta do carro, me beijado e acabado com toda essa apreensão de uma vez por todas.

... Ok, eu não acabei de ter esse pensamento.

"Por algum motivo, isso não me conforta como deveria."

"Acredito." Miroku solta uma risada e se recosta na cadeira. Não consigo parar de tamborilar meus dedos sobre a superfície da mesa.

"Por que diabos eu não poderia ficar em negação para sempre? Minha vida seria tão mais fácil!"

"Mas onde estaria a graça então?"

Meus dedos procuram minhas têmporas e eu suspiro. Creio que para terceiros assistir ao karma arruinando minha vida seja divertido. Simplesmente não é possível que a vida trate todos os seus filhos assim.

oOo

"— não pode." Ouvi a voz de Inuyasha, parecendo dura como aço, assim que fiz a curva do corredor. "Você não tem ideia–"

"O que está acontecendo aqui?" Ele praticamente pulou ao som da minha voz, virando para me encarar. Eu teria rido da comicidade da cena – não é todo dia que você vê um garoto que sente seu cheiro a quilômetros de distância se assustando com a sua presença -, se não estivesse muito ocupada franzindo a testa para a expressão absolutamente surpresa que Inuyasha tinha no rosto. Ele realmente não percebeu minha aproximação? Isso era novidade.

Atrás dele, Kikyou estava escorada em uma parede. Assim que me avistou ela abriu um sorriso amigável, no entanto, mesmo isso não foi suficiente para dissipar a tensão reminiscente no ar.

Em uma rápida olhada, era fácil perceber que Inuyasha não estava necessariamente cantando de felicidade. Os ombros largos estavam levemente retesados e sua postura estava impecavelmente ereta e rígida, oposta aos movimentos fáceis e cheios de charme que ele costuma exibir. Toda sua linguagem corporal me deixou desconfortável – como se quisesse acalmá-lo até que toda aquela dureza desaparecesse de suas maneiras. Cruzei a distância entre nós e coloquei uma mão em seu antebraço. Seus olhos encontraram os meus e ele sorriu, os olhos se suavizando imediatamente.

Fiz uma expressão interrogativa, mas Inuyasha não me deu sinal nenhum de que iria me responder. Franzi as sobrancelhas.

"Kagome-chan!" Kikyou saudou e foi a minha vez de quase pular – de alguma forma sua presença tinha se diluído até ficar em segundo plano na minha mente, muito mais concentrada na figura de Inuyasha. "Finalmente você apareceu, já tinha te procurado por todos os lugares!"

"O que houve?" Inuyasha tirou minha mão de seu antebraço e envolveu-o em torno de minha cintura. Eu podia sentir seus músculos relaxando parcialmente através do tecido de nossas roupas. Meus olhos zapearam entre um e o outro, vasculhando qualquer dica que me indicasse o que estava acontecendo, mas não encontrando nada. Kikyou parecia normal, mas Inuyasha estava obviamente tenso.

"Prática do Time de Arco e Flecha." Ela continuou, parecendo completamente ignorante ao clima esquisito que continuava pairando no ar. "Encontrei Inuyasha e ele também não sabia onde você estava. É na segunda-feira, mesmo horário. Você vem, não é?"

Virei o rosto para encarar Inuyasha.

"Foi isso que te deixou tão nervoso? Honestamente, Inuyasha eu não vou matar ninguém com um arco e flecha, você não precisa se desesperar." Minha tentativa de piada fez com que ele risse e Kikyou escondesse uma risadinha por trás da mão.

"Bruxa, acho que você não sabe o tamanho do potencial dessa arma em certas mãos." Inuyasha cutucou minha cintura com o dedo. "As suas são especialmente proeminentes na arte de tentar violentar os outros."

Dei um tapa em seu braço e revirei os olhos. Inuyasha murmurou 'Claro, porque isso obviamente prova o quanto eu estou errado', mas eu ignorei.

"Eu ia dizer que não, Kikyou, mas agora eu encontrei uma motivação para ir. Quatro da tarde, certo?" Ela sorriu divertidamente e assentiu com a cabeça. Então acenou para nós dois e se despediu, indo para sua próxima aula. Olhei para Inuyasha outra vez. "Alguma chance de você me contar o que exatamente estava acontecendo aqui quando eu cheguei?"

"Alguma chance de você me contar porque diabos você parece tão determinada em fazer exatamente o oposto do que eu digo?" O sorriso sarcástico não deixou seus lábios nem por um segundo enquanto ele me provocava. Rolei os olhos. "Nada, estávamos falando sobre você, como ela disse."

"E falar de mim te deixa todo tenso e rígido dessa maneira?" Perguntei da maneira mais descrente possível. Inuyasha tornou mais presente o abraço em minha cintura e seus olhos adquiriram um brilho ostensivamente malicioso.

"Sempre." Demorei alguns segundos para entender o que ele estava implicando, mas quando finalmente compreendi como ele tinha distorcido minhas palavras, minhas bochechas queimaram mais do que um prédio em chamas. Imediatamente comecei a me debater tentando me afastar.

"AHH, SEU PERVERTIDO!" Inuyasha ficou me segurado e rindo enquanto eu fazia uma cena no meio do corredor. Eventualmente ele me soltou e me acompanhou até nossa próxima aula, que prometia ser um tempo incrivelmente longo (e chato) de Física.

A aula não frustrou nenhuma das minhas expectativas, se arrastando indefinidamente enquanto o relógio parecia congelado na parede. Estava fazendo o meu melhor para me concentrar, mas minha mente continuava viajando para a mais remota das dimensões assim que eu perdia o controle por um segundo.

Foi exatamente em um desses momentos de devaneio que uma bolinha de papel amassada pousou bem no meio da minha mesa, vindo da mesa vizinha. Abri a bolinha – um bilhete, na realidade.

Quando você pretendia me contar sobre você e Miroku?

Na carteira ao lado, Inuyasha fingia estar prestando total atenção no que estava sendo explicado pelo professor, tive que suprimir uma risada bem pouco elegante que borbulhou até meus lábios.

Eu te disse que eu gostava mais dele. Como você descobriu?

Atirei a bolinha de volta, errando – é claro - a mesa de Inuyasha por alguns poucos centímetros. Ele disfarçou uma risada com a tosse mais descarada que eu já vi na vida e se abaixou para pegar o bilhete que estava ao lado de um de seus pés. Rabiscou alguma coisa e jogou de volta para mim.

Sinceramente, bruxa, com essa mira e você quer entrar num time de tiro? De qualquer forma, vocês cometeram o terrível erro de saírem ontem à noite juntos enquanto eu estava em casa. Devo desafiá-lo para um duelo? Você não deve sentir muita falta dele, certo? Eu sou uma companhia melhor.

Convencido você, não? E fique quieto sobre a minha mira, eu estou melhorando, você vai ver. Oh, que lapso imperdoável! Como pudemos ignorar um detalhe tão importante quanto a sua presença? (Você quer uma dica?) Eu acho que você deveria esquecer a ideia do duelo, amantes decentes são tão difíceis de arrumar, não pretendo abrir mão do meu.

Dessa vez Inuyasha ergueu a mão rapidamente para interceptar o pequeno projétil quando eu atirei, tão rápido que eu mesma quase não vi seu movimento, impedindo que a bolinha passasse direto, como tínhamos certeza que passaria.

Melhorando. Claro. Percebo. Na verdade não faço questão de dicas, acho que você já machuca meu pobre ego o suficiente. Já que você me negligenciou em favor do seu amante ontem (Inclusive, eu não descartei a ideia do duelo ainda, tenho absoluta certeza que eu sairia vencedor. Não é isso que cavaleiros fazem?), o que você acha de compensar hoje?

Sinto informar que vou negligenciá-lo outra vez hoje. Marquei de sair com minhas amigas do meu antigo colégio. Quem sabe daqui a duas semanas? Pode ser que eu tenha uma brecha na minha agenda até lá.

Acho que você está aprendendo coisas que não devia, Bruxa. "Amigas do seu antigo colégio" é o codinome do seu novo amante? Quantas pessoas você vai me fazer duelar, Kagome? Espero que pelo menos esse seja um oponente mais digno do que um simples humano.

Se eu te disser que é meu codinome ele vai perder completamente o sentido, certo? Isso você vai descobrir com o tempo, querido insuportável. Inclusive, acho que você deveria voltar a prestar atenção na aula e me permitir fazer o mesmo.

Permitir que você volte a se perder nessas suas fantasias depravadas, só se for. Reparei bem na sua expressão 'concentrada' de antes.

Eu tão não estou mais falando com você, Inuyasha.

Podemos discutir outra vez minha rigidez enquanto eu falo sobre você, se preferir. Ou com você, isso funciona também.

Eu te odeio. É sério.

É claro que sim, Bruxa.

Mais uma quinta-feira adorável para o meu histórico.

oOo

Eu não faço a menor ideia porque eu tive aquele lapso mental na segunda-feira.

Sexta é irrefragavelmente o melhor dia da semana.

Ou pelo menos, foi isso que eu pensei, jogada sobre minha própria cama, abraçada com minha cadela (que não parava de me chicotear com seu rabo inquieto e contente), simplesmente aproveitando a maravilha de estar livre pelos próximos dois dias inteiros. Tudo que eu queria fazer era dormir, brincar com os cães, comer e oscilar loucamente entre perseguir a presença de Inuyasha em todos os momentos possíveis e tentar evitá-lo a todo instante, numa tentativa de bloquear todas as dúvidas enlouquecedoras que povoavam minha mente pouco sã.

Mas é claro que os meus planos nunca se concretizam. Nem uma vezinha.

Por que eu estaria surpresa? Honestamente, isso é apenas como a vida é.

Essa sexta-feira particularmente abrigava o primeiro jogo de futebol americano da temporada que o time do CSM participaria. O que significava que Sango estaria lá, agitando seus pompons e capitaneando o esquadrão das animadoras de torcida. E isso obviamente significava que todos nós estávamos intimados a comparecer. Alguma coisa sobre 'dever de amigo' ou qualquer besteira dessas. Quem tem tempo para isso?

Bom, aparentemente, qualquer um lidando com Sango.

Então, para meu total desagrado, me encontrei, menos de duas horas depois, espremida numa arquibancada absolutamente lotada para assistir a um jogo que eu não gosto ou acompanho. Depois de ter ouvido Sango falar desatinadamente sobre a festa de comemoração da Vitória na casa de alguém-que-eu-não-me-lembro-o-nome durante toda a tarde. Gostaria que alguém avisasse a ela que nós nem ganhamos ainda.

"Vamos lá, Kagome-chan, não é tão ruim assim." Rin disse, claramente se divertindo com a minha expressão digna de velório. "Você vai ver que não é tão horrível quanto você imagina."

"Mas eu odeio esse jogo e está frio! Que tipo de gente obsessiva resolve jogar futebol com um tempo desses?" Retorqui, esfregando meus braços para reafirmar minha resposta. Miroku riu ao meu lado.

"As animadoras de torcida fazem valer a pena suportar o frio." Comentou.

"Estou cercada por pervertidos. Quando foi que minha vida se transformou nisso?" Abanei a cabeça e Inuyasha passou um braço por cima dos meus ombros.

"No momento em que você se mudou para uma república. Admita, bruxa, a partir dali seus dias de glória começaram."

"Se é assim que você quer chamar. Você e eu temos concepções bem diferentes de glória, aparentemente." Ele riu, um riso rouco que fez com que seu hálito morno se chocasse com a minha bochecha gelada – mostrando o quão perto de mim ele tinha se inclinado. Alternei o peso entre meus pés, extremamente consciente de cada parte dele que me tocava.

Isso, por exemplo, é uma coisa que jamais teria acontecido antes.

Eu estar extremamente consciente de todos os pontos em que um cara – bonito e pelo qual eu tenho um sentimento não necessariamente platônico ainda que muito pequeno e quase insignificante – estava encostando em mim. Voluntariamente, ainda!

"Você entende o jogo, pelo menos?" Inuyasha mudou completamente de assunto. Arrisquei um olhar em sua direção, apenas para ser recebida por duas poças douradas completamente fixadas em mim. Um rubor subiu para as minhas bochechas (agradeci ao frio pela primeira vez, já que este me dava uma desculpa) e eu voltei a encarar o campo, vendo que o esquadrão das animadoras dos dois times entrava saltitando animada e coordenadamente. Minha deusa, quem diria que Sango sabia fazer aquilo com a própria perna?

"O suficiente para desgostar."

"Acho que você desgosta justamente porque não sabe o suficiente para apreciar." Foi a resposta de Inuyasha. Lancei um olhar cético em sua direção e ele apenas sorriu. Então se inclinou ainda mais na minha direção, até seus lábios praticamente roçarem contra a minha orelha enquanto ele falava e começou a murmurar várias frases rápidas – e relativamente simples, pelo pouco que pude notar – ao pé do meu ouvido, explicando em termos simples as regras do futebol americano. É claro que, desde que ele estava tão ridiculamente próximo, eu não consegui prestar atenção em absolutamente nada do que ele estava dizendo, minha mente ficando levemente atordoada com a sua proximidade e uma de minhas mãos (que provavelmente entrou para o time da minha boca traidora) resolveu que era um bom momento para escapar de sua posição inocente e serpentear em torno de Inuyasha. Como se ele precisasse de mais incentivo para se debruçar o mais perto imaginável de mim.

E como se eu não estivesse deixando sem o menor protesto.

"Sou só eu que acho que estamos sobrando aqui, Rin?" A voz de Miroku me despertou do transe em que eu estava. Inuyasha riu praticamente contra a minha pele e eu senti um arrepio subir por meus braços.

"Amigos são para isso, Miroku!" Rin respondeu rindo, repetindo o que Sango tinha martelado em cima de mim mais cedo.

"Vocês são tão bobos." Tentei manter minha voz estável e sarcástica, mas não tenho muita certeza de quanto sucesso foi efetivamente alcançado.

"Acho que seu amante está com ciúmes." Inuyasha murmurou, ainda na mesma proximidade de antes.

É isso, eu desisto da vida.

oOo

A casa em que a festa de comemoração (sim, Sango estava adiantada, mas sim, ela estava certa, nós ganhamos) estava sendo oferecida era uma mansão. Sério, eu nunca tinha entrado numa mansão dentro de NYC. Alguns apartamentos gigantescos desde que vim morar com esses ricos desavergonhados, sim, mas mansão? Primeira experiência.

Muito como na primeira festa que eu fui desse colégio – e da minha vida, na verdade -, essa estava apinhada tanto de alunos do CSM quanto de outros adolescentes de outras escolas particulares. No entanto, diferentemente daquela outra experiência, dessa vez eu conhecia uma boa parte das pessoas. E estava conversando com todas elas. E me divertindo.

Eu sei.

Nesse momento minha vida parecia um rip-off de O diário da princesa.

A música estava tão alta que eu mal conseguia ouvir o que as pessoas em volta de mim estavam falando, mas tenho certeza que o assunto era sobre como a partida foi simplesmente brilhante, então não estava necessariamente decepcionada por essa surdez momentânea.

Sango estava em algum lugar com as animadoras de torcida e os jogadores em alguma tradição da vitória que eu não compreendi direito quando ela tentou me explicar antes de ir e Inuyasha estava do outro lado da sala conversando com um grupo enorme de pessoas – talvez ele esteja conseguindo escutar alguma coisa do que as pessoas dizem, mas tenho bastante certeza que ninguém mais conseguia e eu não sei bem que espécie de conversa pode resultar disso –, o que me deixava apenas com Rin e Miroku do pessoal do flat para me fazer companhia.

Kouga e Miroku se envolveram em uma discussão ferrenha sobre o movimento não-se-qual-nem-me-interesso-em-descobrir que o quarterback fez e Rin se debruçou sobre mim para me perguntar se eu tinha achado a partida tão entediante quanto eu esperava.

Na verdade não tanto.

Mas posso dizer com honestidade que eu achava que isso tinha um pouco mais a ver com Inuyasha do que com o jogo particularmente.

Ainda assim, era melhor do que ter sido entediada até a raiz dos cabelos com o jogo mais monótono do século (que era a minha expectativa). No geral, até que não estava tão ruim.

É claro que eu disse a ela apenas que não tinha sido tão tenebroso quanto eu achei que fosse, sem mencionar a verdadeira razão por trás dessa conclusão fantástica.

"Kagome-chan, vamos ali ao banheiro comigo?" Rin me chamou e eu concordei. Não estava fazendo exatamente questão de participar do debate sobre técnicas desportivas e uma trégua da música ensurdecedora poderia fazer bem para os meus tímpanos.

Subimos uma escada até o segundo andar – Rin me disse que era sempre melhor procurar banheiros menos utilizados, porque eles eram sempre mais limpos do que os mais fáceis, já que, sabe como é, o álcool afeta várias funções dos seres humanos que o consomem. Lá a música estava num volume mais razoável, a ponto de não precisarmos nos esgoelar para falar palavras minimamente distinguíveis.

Rin entrou no banheiro e eu fiquei na porta, esperando.

Estava calmamente escorada contra a parede, batucando meus dedos no ritmo da batida que ressoava do andar inferior e cantarolando o ritmo da musica enquanto me permitia sonhar acordada com certas lembranças que invocavam sentimentos controversos quando a figura de Sango emergiu no topo da escada – levemente trôpega, pelo que pude perceber. Seus olhos recaíram sobre mim e ela sorriu. Eu retribuí o sorriso, ingênua, absolutamente inconsciente da malignidade por trás daquela expressão amável.

"Ka-go-me" Ela cantarolou. "Justamente quem eu queria encontrar."

"Oh?" Sango se aproximou de mim e se deixou recostar na parede ao meu lado. "Por quê?"

"Queria te contar sobre algo que eu vi lá embaixo."

Ergui uma sobrancelha, incentivando-a a continuar.

"Você não quer saber o que era?" Ela me perguntou.

"Talvez." O sorriso de Sango estava realmente muito largo, reparei.

"Ayame estava insistindo incrivelmente muito para que uma certa pessoa dançasse com ela. Eu apenas fiquei me perguntando o que você pensaria a respeito."

Suas palavras afundaram em mim e eu senti todo seu poder. Agora podia ver claramente seu sorriso pelo que realmente era: uma máscara cruel de quem veio me provocar.

"Penso que isso não me diz respeito e que certa pessoa pode dançar com quem bem entender." Uma vez na vida, fui capaz de manter minha dignidade no lugar.

"Hm... Continua insistindo que não está interessada nele?" Ponderei suas palavras por alguns instantes. Não, na realidade não estava. Era isso que a conversa com Miroku tinha sido, não é? Um marco no fim do meu período de negação? Eu estava no modo pânico agora. Claro, não é muito melhor, mas pelo menos não estou mais tentando negar o impossível. Fiquei em silêncio alguns momentos antes de responder:

"Digamos... Digamos que eu estivesse hipoteticamente interessada nele –"

"Hipoteticamente?" Foi a vez dela de erguer as sobrancelhas.

"É claro." Afirmei com a maior confiança que tinha. "Apenas hipoteticamente. Nesse caso, o que você me recomendaria fazer?"

"Se você estivesse, em tese, é claro, interessada em Inuyasha quando ele está tão óbvia e literalmente interessado em você... Eu diria para você descer imediatamente, pois nesse momento ele precisa da sua companhia."

"E você ficaria aqui e esperaria por Rin?"

"Absolutamente." Seu sorriso estava nas nuvens agora.

"Hmm, sabe o que, Sango-chan? Acho que estou com sede. Se importa de esperar por Rin enquanto eu vou pegar um ponche?"

"É claro que não."

oOo

Demorei alguns minutos, assim que cheguei ao pavimento abaixo, procurando entre o formigueiro de gente por Inuyasha, mas quando o encontrei, vi Sango não tinha exagerado, ele estava dançando com a ruiva de farmácia (que parecia muito mais cheia de mãos do que o necessário). Vários pensamentos atrevidos que não combinavam em absolutamente nada com a minha disposição habitual inundaram minha mente, incentivados pela sensação anormal – algo parecido com raiva, quente e ribombante, mas não exatamente igual – que pulsava em minhas veias a cada batimento cardíaco. Um sorriso lupino se esculpiu em meus lábios enquanto minhas pernas começavam a se mover sozinhas em direção ao par.

"Inuyasha!" Chamei assim que estava perto suficiente, seus olhos imediatamente se fixaram em mim e um sorriso lânguido se espalhou por seu rosto. Ayame também se virou na minha direção, mas não posso dizer que ela parecia igualmente contente com a minha aparição. Ignorei sua presença solenemente. "Estava te procurando."

"Ah é? Posso saber por quê?" Havia um quê de provocação em sua voz – mesmo que ela estivesse vários decibéis acima do normal para sobrepor-se a música.

"Faz tanto tempo que não vamos juntos a uma festa que você me deve uma dança." Ele entendeu meu recado instantaneamente e pude ver que estava se controlando para não rir.

"Pelo amor de Deus Higurashi, é só uma dança, isso pode ficar para depois." Mal dediquei um olhar a Ayame e voltei a encarar Inuyasha, esperando por sua resposta. Uma parte de mim estava totalmente convencida de que ele viria comigo, nem que fosse em nome da ironia – ou do troco na mesma moeda, tanto faz. Mas não posso negar que existia uma parte pequenininha, lá no fundo, que estava um tanto quanto hesitante. E se ele dissesse não? E se ele preferisse ficar com a ruiva cheia de mãos bobas?

"Desculpe, Ayame, mas ela tem razão. Te compenso noutra vez, tudo bem?" Ele disse daquele jeito extremamente charmoso que te convenceria a pular de um penhasco com rochas no fundo caso ele desejasse e veio na minha direção, enlaçando um dos braços pela minha cintura, efetivamente calando a boca de qualquer parte irritante que ainda estivesse falando na minha cabeça.

Deixei que Inuyasha me conduzisse até a borda da pista de dança improvisada e então nós dois começamos a rir histericamente.

"Você, bruxa, é terrível." Ele sacudiu a cabeça em negação enquanto se acalmava. "Aposto que existe algum tipo de punição para quem usa as palavras de alguém contra ela mesma, sabia?"

"Você faz isso o tempo todo." Me permiti corresponder ao seu abraço, mas praticamente não nos movíamos comparativamente com todos aqueles adolescentes pulando loucamente ao nosso lado.

"Eu sou uma péssima pessoa." Inuyasha me deu um sorriso deslavado. "Preciso compensar a beleza, o charme e a espirituosidade de alguma forma, não acha?"

"Ser insuportável devia ser mais que o suficiente." Comecei a me desvencilhar de seus braços, mas ele apenas me segurou mais firmemente no lugar.

"Não, não. Você mesma disse que eu te devo uma dança." Estávamos nos movendo muito pouco, apenas balançando suavemente de um lado para o outro.

"Isso dificilmente combina com o ritmo da música."

"Eu não poderia me importar menos com a música." Por um segundo, nadei dentro daquelas piscinas de ouro que me encaravam tão tentadoramente, perigosamente perto de ceder e cortar a distância que havia entre nós – já que, apesar de todas as afirmações inflamadas de Sango e Miroku, Inuyasha não parecia disposto a fazê-lo. Então fiz um esforço e me afastei.

"Quem sabe na próxima." Eu disse.

"Quer dizer então que eu fui meramente um instrumento de vingança?" Ele sorriu, enquanto eu o puxava em direção à cozinha.

"Eu prefiro chamar de acerto de contas. Soa menos diabólico." Dei uma piscadela em sua direção e Inuyasha se resumiu a rir outra vez.

"Estou começando a achar que você é extremamente diabólica, bruxa."

"Conviver com Sango tem esse efeito nas pessoas."

"Suponho que sim." Trocamos um sorriso que parecia dizer muito mais do que estávamos realmente dizendo e seguimos na direção em que nossos amigos estavam.

oOo

Olá, meus amores, como foi de final de ano?

Espero que o natal e o ano novo de vocês tenha sido absolutamente maravilhoso e que todos estejam felizes e de coraçãozinho feliz e inspirado para reviews hahaha. Alguém reparou que eu não apareci por aqui exatamente nos dias marcados? Então, pura conjuntura social, juro. Eu estava viajando e pensar em atualizar rpc era muito difícil entre um país e outro, espero que – no caso de alguém ter sentido minha falta como eu senti a de vocês – me perdoem.

Em todo caso, esse é o décimo capítulo. Peço para que os diabéticos se retirem temporariamente, pois esse (curto) intervalo na história é meio-extremamente-açucarado. Não consigo evitar, é meu jeito de escrever romance. Então, happy times, aproveitem com moderação. Espero que a quantidade de fluff compense minha ausência.

Como sempre, mil agradecimentos à minha beta – que é uma linda e se deu ao trabalho de editar esse capítulo no celular, já que um computador não estava ao seu alcance. Ou seja, se algum errinho passou por nós duas, me manda nas reviews que eu conserto e fico muito feliz.

De resto mil beijos a todos que continuam acompanhando.

Reviews:

Um muito obrigada especial, um beijo e um gif de coelhinho fofo para MandaTaishoCullen (Eu sou rainha de falar coisas que depois eu não me lembro o que significam, temos isso em comum hahaha. Eu fiquei curiosa quanto a uma coisa, você por acaso já leu Commentarius? Isso seria uma dica do que o "creme" significava! Haha Em todo caso, fico muito muito contente que esteja gostando – e me mandando reviews lindas -, quanto à sua pergunta, elas serão respondidas num futuro relativamente próximo, creio eu. Boa sorte no vestibular! Beijos), Lari-chan (Hahahahaha fico muito contente que você esteja curiosa, basicamente porque essa foi a minha intenção o tempo inteiro! Yay! Mas não se preocupe, com o tempo tudo vai ser respondido. Quanto ao que você perguntou, não, não vai ser a mesma coisa. Na verdade, é completamente diferente. Quando chegar o momento, por favor me conta qual das versões te agradou mais hihi. Que bom que você continua acompanhando e curtindo, beijos!), Nat Houshi (Esse é o pensamento de todo mundo: Pelo menos não foi o Inuyasha! Hahaha Que bom que está gostando, beijos), Kiaraa (Posso dizer que eu te amo? Sério, que fofo. Fico muito, muito feliz que a versão atualizada esteja agradando. Espero não decepcionar ;) Beijos!), Ghe (Aaaah, eu demorei né? Mas pelo menos estou aqui e já estou trabalhando no próximo, se isso for algum consolo! Pelo menos o capítulo teve toneladas de interação positiva entre nosso casal lerdo favorito. Beijos!), Isis StAine (Dessa vez você não vai ter sinusite, aposto. Sim, Kirara está fazendo uma falta absurda! Pelo menos acabou a negação. Agora é pânico. Hahahaha, eu gosto de todos os lados do Inuyasha. Aquela que é obcecada pelo próprio personagem – ops. Beijos, Koneko.)