10. Mudando visões.
Kibum abriu os olhos quase que em efeito instantâneo diante da claridade que entrava pela sua janela. A manhã ensolarada, mas com temperatura suave; aquele sol que aquece, mas não chega a ter forças para fazer suar a pele e entrava diretamente na janela sobre a cama do mais novo.
Deparou-se com o peito que subia e descia de Jonghyun. De olhos abertos, era apenas essa a visão que ele tinha. Estava ainda um pouco corado ao dar-se conta de como se encontrava naquele momento. No entanto, não fazia questão alguma de sair dali, do conforto e da segurança do meio abraço que o mais velho, ainda adormecido, havia lhe retribuído.
O próprio braço de Kibum ainda envolvia com força a cintura do mais velho. Trazia-o para si, queria contato. Por cima de seu abraço possessivo, o próprio Jonghyun havia lhe retribuído, passando o braço por cima do seu ombro, com os dedos roçando levemente os cabelos do mais novo.
Era quente, era reconfortante. O mais novo dormira durante toda a noite sem sentir-se atormentado por pensamentos ou pesadelos estranhos. Pensamentos e pesadelos que pareciam jogar violentamente a ideia da sua atual e frustrante solidão.
Permitiu-se dar um sorriso tímido. Ele estava bem, daquela forma.
Na verdade, quase bem. A sensação da língua grossa estava presente, ao mesmo tempo em que seu estômago ainda estava embrulhado, e sua cabeça latejava em meio a uma das piores enxaquecas que Kibum já teria tido, provavelmente, no decorrer de uma vida inteira. Maldita ressaca. Realmente maldita ressaca.
Fechou os olhos de novo, resmungando consigo mesmo. A sensação terrível provocada pela dor de cabeça havia acabado com seu dia durante o primeiro minuto do mesmo.
Não sabia se havia sido por causa de seu movimento ou som, mas sentiu o mais velho se mexer sobre si, como se estivesse prestes a acordar. Também não saberia Kibum o verdadeiro motivo de sua reação, mas paralisou e tentou ignorar a dor, fingindo que ainda dormia.
Até que Jonghyun começou a sentir-se consciente, mas não abrira os olhos de imediato. Estava quente, mas ele sentia seu corpo sem nada que o cobrisse. Mas havia algo, ou melhor, alguém em seus braços. Esse alguém parecia ter lhe proporcionado todo o calor que sentia naquele momento... Abriu os olhos, então, cumprimentando a claridade da manhã e vendo Kibum sob seus braços, aparentemente ainda adormecido..
Afastou-se, apenas alguns milímetros, tencionando fitar a face do outro que estava escondida em seu peito, da mesma maneira em que estava quando ambos foram dormir. Os olhos agora estavam meio inchados, marcando a feição delicada e remetendo às lágrimas da noite.
- Está dormindo...? – sussurrou o mais velho, incerto de ter ou não respostas à sua pergunta.
Kibum resolvera ficar em silêncio, apesar de tudo. Jonghyun, então, começou a se preparar cuidadosamente para levantar sem importunar o pequeno, que ele pensava estar dormindo. Tirou o braço do menor que estava envolto em si, ao mais lento movimento que conseguia fazer, e livrando-se do abraço quase possessivo que o menor lhe dava. Depois, tirara seu próprio braço sem precisar fazer medido esforço, e ergueu o corpo da cama pequena, se espreguiçando ao final.
Kibum sentiu o frio que substituíra o contato do outro contra seu corpo. A dor de cabeça mesclada aos passos do mais velho, que se levantara para sair do quarto, fazia com que ele sentisse inclusive um pouco de medo... Abriu os olhos, agora deparando-se com as costas do outro que ia caminhando lentamente para a porta.
- Jonghyun... – chamou o mais audível que conseguia, a voz ainda soando arrastada.
O mais velho se voltou para Kibum assim que ouvira o som de sua voz. Vendo seus olhos entreabertos, sorriu. – Como se sente? – perguntou para o mais novo. Sentira ganas de rir, afinal, sabia como ele possivelmente estaria naquele momento.
Kibum olhou fixamente para Jonghyun, antes de choramingar e esconder o rosto sob os travesseiros – Terrível. – gemeu. Depois que Jonghyun havia lhe perguntado tal coisa, fora como se sua cabeça gritasse para lembrar o rapaz sobre seu estado.
Jonghyun riu por um momento. Assistir àquela cena era algo tragicômico.
- Vou preparar alguma coisa para que você se sinta melhor – disse o mais velho, encostado ao vão da porta do quarto de Kibum – Enquanto isso, vá acordando de verdade e lavando o rosto, isso pode dar uma ajuda. – completou, rindo levemente mais uma vez.
Dito isso, o mais velho saiu do quarto, deixando ali um Kibum estirado à cama, sem tanto ânimo para levantar quanto o próprio Jonghyun devia querer. A verdade é que Kibum estava tão confuso quanto durante a outra noite.
Sentia-se de cabeça pra baixo. Seu estômago, sua cabeça e sua vida em um total perfeito e completamente revirado. Sua memória, no presente momento, lhe traía, omitindo algumas partes da noite anterior, mas ressaltado detalhes que talvez o esquecimento seria completamente bem vindo... O que fazer? Ele nem sabia mais.
Respirou fundo, puxando o ar com toda a força para dentro dos seus pulmões. Depois, expirou, tentando fazer com que o ar quente saísse levando aquelas sensações incômodas. Impossível; sua cabeça continuava doendo, e os olhos pesados pelo inchaço causado pelas lágrimas pareciam pedir para que ele dormisse de novo, sem hora para acordar.
Ignorou as tentações de sua mente perdida, levantando da cama sentando na mesma. Passou a observar a luz do sol que estava instalada sobre a cama, precisamente desenhando um rastro de luz sobre suas pernas. O sol parecia sorrir para ele, ao contrário da fria luz do luar daquela noite sem nuvens... Que parecia chorar com ele.
Sorriria para o sol ou esperaria a lua chegar e se lamentar de solidão?
Lembrou-se de Jonghyun, que ali em sua casa estava, e agora o próprio parecia estar fazendo alguma coisa para que ele se sentisse melhor. Lembrou novamente da noite de terror, a qual teve o outro para alento e aquecimento. Lembrou-se então, de antes de tudo, a expressão dolorosa que o mesmo carregara em sua face enquanto Kibum padecia a um sofrimento acentuado por doses altas de álcool...
Escolheu o sol, decidido a levantar da cama. Talvez tenha feito tal ato subitamente, pois sentiu a cabeça dar uma pontada forte. Resmungou uns palavrões atravessados enquanto se arrastava até o banheiro.
Ah, a água fria fora bem vinda para seu rosto, e talvez para sua mente. Não adiantaria muito mais do que algo que o faria acordar para o dia, mas mesmo aquela sensação já lhe revigorava da forma que precisasse.
Ergueu os olhos para o reflexo no espelho. Via os olhos levemente inchados e a expressão acabada pós uma noite... Difícil. Abraçou a si mesmo por um momento, e suspirou. No que fez isso, começou a sentir um cheiro agradável vindo da cozinha.
Jonghyun preparava um café reforçado. Uma receita que havia aprendido, uma vez, em uma revista que lia aleatoriamente no hospital. No fogão, aquecia-se o indispensável arroz ao mesmo tempo em que uma sopa de legumes era preparada em uma panela maior.
Estava, na verdade, concentrado em duas coisas diferentes naquele momento. Arrumava as coisas para a refeição ao mesmo tempo em que ponderava sobre o que deveria fazer ou falar ao mais novo.
Era contra seu feitio simplesmente ignorar aquela assustadora última noite que ambos tiveram. Não apenas o sofrimento, mas o que havia acontecido anteriormente, dando destaque ao por que de Kibum ter feito o que fez. Todavia, dar um sermão não era algo que parecia ter alguma finalidade construtiva. Em suma, estava tão confuso quanto o próprio ex-paciente.
- O cheiro é bom... – ouviu uma voz grogue falando próximo de si. Kibum entrava na cozinha, sentando-se preguiçosamente à mesa com as mãos nas têmporas doloridas. – O que é isso?
- Estou fazendo algo que é bom para quem está de ressaca – Jonghyun falou enquanto servia o arroz nos pequenos recipientes e preparava a sopa. – Quer dizer, uma revista dizia que era. Nunca fiz isso antes.
- Você já... – Kibum começou, hesitante. Aquele comentário o havia deixado curioso – Digo... Você já tomou um porre?
Jonghyun riu divertido e virou-se para o mais novo, encostando o corpo à bancada da cozinha. A expressão era um misto de diversão com nostalgia. – Na sua idade – começou, rindo – Eu dormia na casa do meu amigo, podre de bêbado, praticamente em todos os fins de semana e escondido de meus pais. Conheço muito bem o que você está sentindo, mas ficava convivendo com a ressaca porque nunca tinha lido sobre essa sopa milagrosa. – voltou novamente a cuidar do desjejum, e passou a falar de forma mais séria. – Mas já digo, não faça o que eu fiz, nem o que você fez nessa última noite, nunca mais.
Kibum baixou o olhar. Meio arrependido, meio indignado. Ele mesmo já havia se decidido nunca mais fazer tal idiotice. Não pelo remorso trazido pela dor de cabeça de proporções inimagináveis, mas pelo que quase havia acontecido.
Ah, somente pensar sobre aquilo parecia fazer a dor martelar com mais força sobre sua cabeça...
Fora surpreendido por Jonghyun, que colocava um prato com um pouco da sopa e um recipiente pequeno com arroz à sua frente – Coma – disse o mais velho, sentando ao seu lado na mesa. – Você vai se sentir melhor, tenha certeza. E me diga se está bom, também.
Kibum pegou a colher, e levou uma pequena porção do desjejum à boca. Era quente, mas tinha um ótimo sabor. Sorriu levemente para Jonghyun; para o mais velho, uma expressão até mesmo fofa, inclusive...
E o mais novo comeu. Detalhes não seriam importantes para descrever as conversas, mas Kibum ouvira histórias divertidas sobre um Jonghyun bêbado enquanto isso. Convinha muito contar, em uma situação como aquela.
Jonghyun até mesmo se envergonhava daquela parte de seu passado. Omitira os momentos críticos que a bebedeira com os amigos lhe exercera; apenas queria entreter o mais novo, fazendo com que o mesmo esquecesse a ressaca e os motivos para que a mesma estivesse ali presente. Não havia necessidade...
De qualquer forma, ambos estavam ali, aproveitando o momento que garantiu risos e sorrisos às duas faces; a cansada, e a nostálgica.
- Não imaginava que algum dia você tenha sido assim – Kibum, que naquele momento já havia terminado sua refeição, comentou. – Isso é... Engraçado!
Jonghyun sorriu sem graça – De qualquer forma; por favor, já disse isso hoje, mas vou repetir: não faça nada do que eu fiz. – disse por fim – Ou o que você fez ontem.
- Não vou querer repetir por um bom tempo. – murmurou Kibum em resposta, ficando sério. Respirou fundo; o clima agradável que havia se formado entre eles se dissipava quase que totalmente.
Lembrando-se vagamente do quão agressivo o sujeito havia sido com ele, Kibum sentiu o estômago revirar de novo. Abraçou-se com força, como se pedaços de seu corpo pudessem se desmoronar a qualquer momento... – Eu... Sequer consigo me lembrar. – sussurrou, mais para si mesmo do que para o outro. – Eu sequer consigo me lembrar... Se aquele... Conseguiu... Fazer alguma coisa... Pior.
Jonghyun não falou.
Aproximou-se do menor, passando o braço pelos ombros encolhidos do mesmo, fazendo a única coisa que seria realmente benéfica de alguma forma para Kibum; um abraço. Forte. O mais protetor possível.
Não sabia o que falar.
Mais uma vez se perguntava, que sentimento era aquele?
Aquela espécie de ira que parecera dominar cada nervo e fio de cabelo existente em seu corpo. Aquela dor no peito de ver Kibum daquela maneira, a cada dia que passasse, a cada tentativa que arriscasse de mudar aquela rotina venenosa para a alma. Aquela necessidade de mudar e fazer aquilo que talvez estivesse muito além de sua capacidade.
Por causa dele.
- Chega. –Jonghyun falou depois de um tempo. Apertou o mais novo, aumentando o contato. – Não pense mais nisso, não vamos pensar mais nisso. Não tenha medo de nada. Não mais.
Kibum deixou a cabeça cair sobre o ombro do mais velho. Fechou os olhos, e não se esforçou a responder as palavras que ouvia. Cansava de falar, queria apenas ouvir... Ouvir que tudo estava bem.
- Não quero, nem acho que consigo mais ficar muito tempo vendo você parado nessa mesma situação – Jonghyun voltou a falar – Você precisa de amigos, de escola, você precisa viver. Sabe disso, não sabe? Apague tudo isso de sua memória. Tudo isso que aconteceu ontem, esqueça. Ele tentou, mas eu sei que ele não conseguiu nada com você. Eu lembro como vocês estavam quando eu cheguei.
"Só quero uma coisa: prometa, como um amigo importante, que você irá ficar bem?
Kibum ergueu os olhos. Observava os próprios de Jonghyun. Ônix chocava-se com ônix, incitantes, intensos, obrigando um a outro a dar explicações e respostas.
Jonghyun buscava a resposta. Kibum buscava... A explicação. Apenas por meio de um olhar.
Um amigo importante.
O silêncio do mais novo havia o deixado agoniado. – Kibum, você me ouviu bem? – falava com o rosto sério. Quase fazia com que o outro se encolhesse entre seus braços. – Prometa-me que você irá conhecer pessoas e se divertir com elas. Prometa-me que você vai seguir sua vida sem mais lágrimas. Prometa que você irá sorrir, sempre. Porque você fica ainda mais bonito quando está sorrindo.
Kibum sentiu as bochechas queimarem, e os olhos se arregalarem surpresos. Fora pego de surpresa pelo comentário... Todavia, Jonghyun parecia completamente comum, e o seu próprio sorriso acolhedor brincava na face.
Era como se apenas Kibum estivesse vendo segundas intenções em uma coisa completamente sincera.
Corado e envergonhado, se limitou apenas a um aceno positivo com a cabeça. O sorriso de Jonghyun se alargou na face, e ele apertou o braço sobre os ombros de Kibum. – Então eu não vou mais precisar segurar suas bochechas para montar um sorriso no seu rosto? – o mais velho perguntou, fazendo novamente aquilo que havia feito no parque ao lado do mais novo.
Tentou tirar os braços do mais velho novamente do seu rosto – Não vai precisar! – exclamou rapidamente.
Aquietados os braços de ambos, eles apenas se encararam por um momento; Jonghyun ria divertido da reação de Kibum, enquanto o mesmo olhava para Jonghyun um pouco pensativo... Ao fim, ambos riam levemente da descontração do momento.
Afinal, não precisaria muito mais do que isso.
A não ser, é claro, cumprir a promessa.
