CAPÍTULO 11
A ovelha perfeita para o lobo mau
Vanda se imobilizou.
-Onde... – balbuciou. – Onde conseguiu isso?
-Numa noite, num corredor, perto de um corpo, mais precisamente o corpo de Anne. Lugar interessante para perder isso, não?
-Eu não perdi esse colar lá, eu fui roubada, e...
-Pouco me importa se você esteve lá ou não! Não é essa a questão. A questão é que, se eu mostrar esse colar a alguém e, veja, com lindas pinceladas de sangue, você está perdida.
Ele colocou o colar no pescoço da jovem e puxou levemente.
-Essa é a sua corrente, Cadelinha. Você está nas minhas mãos. Ou você me ajuda, ou eu mostro o colar para a direção da escola.
-Você não faria uma coisa dessas...
-Ah faria. Não duvide de Buddy Strogne. Mas, claro, se você quiser arriscar... – ele começou a se afastar, esfregando as pedras no rosto dela.
-NÃO! – Vanda o segurou pelo braço. – Por favor, Strogne!
Buddy sorriu e virou-se.
-Eu... Eu faço o que você quiser...
-Ah muito bem! É assim mesmo que uma boa cadela precisa se comportar! Obedecendo, abanando o rabinho quando o dono bem entender. Você aprende logo, você vai ver. Vai ter umas boas aulas de adestramento com o seu dono aqui!
-Pára com essa palhaçada – Vanda começou a tremer, um ódio a envolvendo por completo. – Eu só quero saber o que você quer...
-Eu quero algo que não posso conseguir pessoalmente. Ou melhor, você pode conseguir muito mais facilmente do que eu.
-O que é? Desembucha logo, já estou farta de ouvir sua voz...
Buddy apertou o braço dela com violência. Vanda sentiu lágrimas de dor se formarem enquanto sufocava um grito.
-Eu sei muito bem que você é uma cadela imprestável, mas é astuta, inteligente. Só que o caso aqui é diferente, Vanda. Eu controlo você. A cadela não tem o direito de rosnar por aqui. Só obedece, por mais que a vontade do dono contrarie a sua própria vontade.
Ele deu uma risadinha provocadora. Vanda sentiu um calafrio.
-O que quer dizer com isso? Com essa história de contrariar a minha vontade?
-Chegamos ao ponto importante. Eu sei que você vai odiar, Cadelinha, porque você adora lamber os pés dessa pessoa, vive se esfregando nessa pessoa, por mais que ela ignore você...
-Richard... – balbuciou ela.
-Ah esse mesmo! Recapitulando... Richard, apesar de ignorá-la, conversa com você, escuta as bostas que saem da sua boca. E é nessa parte, de ele conversar com você, que entra a sua função, Cadelinha.
-E... Qual seria essa função?
-Você vai descobrir algum podre daquele novato maldito. Sim, porque eu sei que ele tem
(A imagem de um morcego passou voando pela mente de Vanda. Ela estremeceu...)
algum. Esconder que é sobrinho de uma professora pra que? Aí tem coisa debaixo dos panos, e coisa suja. E é essa sujeira que eu quero encontrar.
Ela sabia qual era o segredo de Richard. Tinha o conhecimento que precisava para livrar-se da corrente de Buddy nas mãos... Mas Richard era seu vampiro apaixonado, não podia destruir a vida dele, não podia...
-Pensando em alguma coisa, Cadelinha? – perguntou Buddy, desconfiado.
-Não... Não estou pensando em nada não...
-Olhe aqui! – ele a segurou pelos ombros e a balançou, com tanta força que Vanda chegou a sentir uma leve tontura. – Se você souber de alguma coisa, ou se descobrir alguma coisa, e esconder de mim para proteger aquele imbecil, eu acabo com a sua raça, está me ouvindo? Está ouvindo bem?
Vanda olhou fundo nos olhos de Buddy. Havia sinceridade ali, firme, sólida, como na voz enlouquecida. Ali ela compreendeu que ele era capaz de fazer mal a ela sim. Muito mal.
-Você realmente não sabe de nada?
"Eu ou meu vampiro? eu ou meu vampiro? vale a pena correr o risco por ele? tenho que achar uma solução, quantas interrogações, tenho que encontrar uma solução...".
-Absoluta – respondeu ela, com uma firmeza forçada na voz. – Eu não sei de nada.
-Então trate de descobrir – Buddy a soltou. – E rápido. Vou lhe dar apenas alguns dias, Cadelinha. Se você não encontrar o podre daquele paspalho, quem se dana é você.
Buddy se afastou, juntando-se a Draco, Crabbe e Goyle. Vanda olhou para ele no momento em que ele se afastava, estalando os dedos, como se chamasse um cachorro, e rindo gostosamente disso.
-Eu vou arranjar uma forma de reverter isso, Strogne – falou, baixinho. – Só tenho que pensar como. Poucos dias, poucos dias... Mas arranjarei uma forma de não abrir minha boca, uma forma de não ser obrigada a revelar o segredo de Richard. A cadelinha vai se voltar contra o seu dono. Vai te morder, Buddy, vai sim. Veremos quem vai se dar bem no final dessa história. O dono medíocre ou a cadela com raiva.
Reunidos na sala comunal, Harry, Rony e Hermione discutiam a questão do possível fechamento da escola.
-Uma atitude dessas não vai ser tomada assim, de supetão – falou Harry. – O problema vai ser se ocorrer mais um assassinato.
-Mas não se esqueça de que todos já estão apavorados, Harry, e que existe muita gente aqui que adoraria ver Hogwarts se ferrando – disse Hermione. – Draco Malfoy, só pra citar um.
-É, mas mais um assassinato agora é o que menos precisamos. Isso pode acelerar a catástrofe que seria o fechamento da escola.
-O pior é ter que ficar de mãos atadas, aqui, sem podermos tomar providência alguma! Não tem como pegá-lo, agora que sabemos que é um bruxo normal! Ele pode ser qualquer um, Harry. Qualquer pessoa.
O rosto de Harry se congelou. Rony engoliu em seco.
-Ah, não, essa expressão... Lá vem idéia maluca...
-Maluca não, Rony – replicou Harry, um sorriso se formando.
-Mas perigosa, garanto.
-É, um tanto perigosa, mas, não deixa de ser uma forma de conseguirmos capturar o homicida, de nos encontrarmos com ele!
-Ah que emocionante – zombou Rony, inconformado. – Vamos marcar hora para morrer! "Oh, por favor, Sr Viciado em Sangue Humano, que horas você pode se encontrar com a gente para analisar oralmente o gosto de nosso sangue? Ah, tal horário? Tudo bem para nós. Só exigimos um funeral digno vinte e quatro horas depois da transfusão de nosso sangue pro seu estômago!".
Hermione balançou a cabeça, com um sorriso. Harry ficou meio confuso.
-Deixe de besteiras, Rony. Harry tem toda razão. Não tem jeito de encontrarmos o assassino no meio de mais de mil alunos, mas o assassino pode nos encontrar, se formos as vítimas perfeitas.
-Eu não quero ser uma vítima.
-Mas precisamos dar essa impressão ao criminoso. Fazê-lo pensar que somos as vítimas perfeitas. Atraí-lo até nós e, quando ele for nos matar, capturá-lo!
-Seremos como iscas, é isso? É isso que vocês estão querendo dizer?
-É, pode chamar assim – respondeu Harry.
-Não gosto nem um pouco dessa comparação – reclamou Rony. – Uma minhoca numa vara de pescar precisa ser comida para o peixe ser capturado pelo anzol...
-O que você disse tem lógica, mas é um risco que teremos que correr – falou Hermione. – Tudo o que precisamos agora é de um plano. Um bom plano, e rápido, antes que ele mate mais alguém. Um plano que nos torne iscas perfeitas, um banquete irrecusável.
-Espero que elaborem um bom plano mesmo... – murmurou Rony, desesperado. – De "iscas" já viramos "um banquete".
-Se estamos elaborando planos para encontrar o assassino, poderíamos armar contra o Espião também – sugeriu Hermione.
-Mas vocês estão mesmo incomodados com ele! – retorquiu Rony. – Deixa o cara fofocar. Todo mundo gosta de ler uma fofoca, de ouvir um boato.
-Até o seu nome aparecer lá envolvido em alguma coisa ruim – replicou Harry. – O que, aliás, já aconteceu. Ele insinuou que você estava com ciúmes da Mione, já esqueceu?
-Foi um boato sem fundamento algum – falou Rony, tentando demonstrar desprezo, mas não conseguindo controlar o rubor que cobriu sua face. – Pura fofoca. Eu já disse. Foi uma calúnia. Mas quando se trata de fato, deve ser...
-Não vamos discutir isso agora – interrompeu Harry. – Por um lado, Rony tem razão. Mione, existe uma pessoa violando a vida das pessoas, mas tem outra acabando com a vida das pessoas. A nossa prioridade, no momento, deve ser somente os assassinatos, que é algo muito mais grave.
Hermione deu um suspiro prolongado.
-Está bem. Concordo... Mas, Rony... – ela se ajeitou no sofá para olhar para o amigo. – Voltando a falar naquilo que o Espião escreveu na primeira coluna, só por curiosidade, nada a sério, aquilo que estava escrito foi realmente boato? A crise de ciúmes e tal... ? – ela fez um movimento vago com a mão, enquanto sua voz morria.
Rony a encarou com raiva.
-Foi sim. Boato. Fofoca. Invenção. Calúnia. Blasfêmia. Agora, será que dá pra mudar de assunto? Ou, se preferir continuar falando sobre a coluna, que tal falarmos sobre o que o Espião escreveu sobre você estar se fazendo de difícil para Michael Curtis?
Hermione emburrou. Na hora em que ia abrir a boca e despejar sobre Rony centenas de ofensas, ele a interrompeu, falando em voz mais alta do que o normal para Harry:
-E o bilhete de ontem, você leu?
Harry levou o dedo indicador na frente dos lábios, nervoso. Olhou ao redor, se certificando de que ninguém havia escutado.
-Não, não li. Joguei fora.
-Ah, Harry, por que fez isso? – perguntou Rony, inconformado. – Podia ter uma assinatura. Assinatura esta que, como tudo indica, seria de Juliana Cabot...
-Foi uma hipótese do Espião, Rony.
-É, mas o cara é esperto, quem sabe não tenha acertado a identidade da fã número um de Harry Tiago Potter? Você vai tentar descobrir se era dela, Harry?
-Nem conte com isso. Quer saber de uma coisa? Estou pouco me lixando pra quem quer que tenha escrito aquele bilhete. Não estou com a mínima curiosidade e com o mínimo interesse em coisas mesquinhas quando tenho algo terrível demais para resolver.
Ele respirou fundo para tomar ar.
-Está bem, desculpe – falou Rony, sem graça.
-Temos que planejar algo inteligente. Precisamos de uma estratégia... Estratégia... – Harry inclinou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e cruzando as mãos no queixo. – Algo infalível para atrair um criminoso.
-Só há um jeito de encontrarmos algo infalível tão rapidamente – disse Hermione. – Devemos pensar como o assassino.
-Como fazer isso? – indagou Rony.
-Bom, é só analisarmos a situação como se fosse ele. Eu sou uma assassina, eu gosto de tomar sangue, e, para isso, preciso matar. Ou melhor, eu preciso caçar... Caçando podemos comparar com outra situação... Acompanhem bem meu raciocínio: se eu quero caçar, vejamos, ah, se eu quero caçar ovelhas, no meio de um rebanho, com umas mil, e todas elas podem me fornecer o que eu quero – ela se inclinou sobre a mesa em frente, juntando pedaços de um pergaminho rasgado com a varinha – o que faz eu selecionar tal ovelha e não aquela?
Os três permaneceram pensativos, buscando a solução, enquanto fitavam os pedacinhos de pergaminho.
-Eu pegaria a ovelha que estivesse sozinha – Harry concluiu, movimentando um dos pedacinhos de papel para um canto mais afastado. – O rebanho de ovelhas nunca ficaria reunido assim, mas espalhado – ele separou os pedaços. – Espalhado em grupos. Mas eu não teria a ousadia de apanhar alguma que estivesse perto de outras, pois as outras ovelhas veriam e fariam um escândalo. Não, eu pegaria uma ovelha que estivesse totalmente sozinha, sozinha e isolada de todas as outras, ou seja – ele deu um toque no pedaço afastado, que flutuou e depois caiu lentamente – essa daqui.
-Grande Harry! – exclamou Mione. – Perfeito! Conseguimos, através de uma metáfora, pensar igual ao nosso caçador de humanos. Basta substituirmos as ovelhas por pessoas. Nossa, ficou perfeito... A maioria das pessoas anda em grupos aqui em Hogwarts. Essa é a solução, Harry! Ele apanhará quem estiver sozinho, mas não só isso, isolado também.
-E agora?
-Agora temos que encontrar uma forma de um de nós se transformar nessa ovelha aqui – ela apontou para o pedaço isolado. – E acho que já sei como.
-Você ainda está muito bravo, Jack? – perguntou Richard, olhando para o amigo. Richard estava abraçado com Gina num canto da sala comunal, tendo Jack parado, em pé, em frente aos dois.
-Não. Esquece... Nem devia ter ficado com raiva. Só acho estranho você não ter me contado que era sobrinho da Scarlett, ela é uma pessoa adorável, qualquer um adoraria falar que era sobrinho dela!
-É. Desculpe. Foi bobagem minha. É que eu, quando cheguei, achei que tia Scarlett talvez não fosse uma professora tão querida, entende? Aí disfarcei. Depois vi que todos a adoravam, mas, se voltasse atrás, todo mundo acharia estranho eu ter escondido o fato.
-Entendo. Mas é que foi muito estranho descobrir esse segredo. Já me considero seu amigo. Você ter coisas escondidas é muito estranho. Não tem mais nada escondido, tem?
Richard olhou de soslaio para o rosto de Gina.
-Não. Não tenho mais nenhum segredo.
-Legal. Bom, a gente se vê amanhã na aula. Repito: estou muito contente em vê-los juntos e felizes. Muito mesmo.
Eles agradeceram. Jack se afastou e subiu as escadas para o dormitório.
-Ele vai ficar com muita raiva de mim, se um dia descobrir que sou um vampiro.
-Relaxe, esquece isso! – Gina o abraçou. – Temos outras coisas para nos preocuparmos... Buddy Strogne é a principal delas. Acha mesmo que ele pode fazer algum mal para nós?
-Não duvido... Não mesmo. Depois de tudo o que ele fez para conseguir um bilhete...
-Pessoas normais de vez em quando tomam atitudes precipitadas – falou Gina. – Não são totalmente más... Acho que uma certa maldade faz parte de todos nós, podemos ser realmente cruéis, mas isso não quer dizer que o nosso caráter é ruim...
-Em alguns casos pode até ser, Gina, mas... Olha, eu também não queria acreditar, porque era um ódio sem explicação, mas tia Scarlett me abriu os olhos, e... Agora eu acredito que Buddy me odeie mesmo, e não é simplesmente um sentimento de ódio, um sentimento que fique adormecido, não, ele o traz a tona tentando me prejudicar. Você pode querer considerar o incidente no labirinto como algo simples, sem perigos, algo precipitado, uma atitude precipitada, como você mencionou. Mas não foi... Não foi algo que veio subitamente. Ele planejou roubar o meu bilhete, muito bem planejado, aliás; e tem ainda o objeto com o qual me feriu na cabeça. Você por acaso acha que ele caiu de repente nas mãos de Strogne? E por um impulso ele resolveu usá-lo? Não, Gina. Ele conjurou aquilo, pode apostar. E o usou com toda a vontade, sem pensar duas vezes se poderia me ferir gravemente. Não, ele estava cego, em busca apenas de seu objetivo. Pisaria em qualquer um, eliminaria qualquer um, para desbloquear o caminho e concretizar o plano de roubar meu bilhete e conquistar você.
Gina suspirou, parecendo se convencer.
-Nossa... Isso chega a ser assustador.
-E é. Ele não disse aquilo tudo no Salão Principal apenas da boca pra fora. Eu pude ver nos olhos dele que era verdade. Ele não vai desistir de você. Vai rodeá-la, por menos chances que você der a ele. E, pelo "ouviu, novato?", eu suspeito que, para chegar até você, quem experimentará do ódio dele será eu.
-Não... Olhe, vamos esquecer isso – Gina o abraçou. – Nada que ele fizesse seria capaz de nos separar. Você esteve a procura de seu amor verdadeiro por tanto tempo, passando por tantos rostos, rasgando corações de papel, e, eu, uma incrédula nesse sentimento tão bonito. O crédulo e a incrédula no amor, unidos, os opostos que se atraíram tão fortemente que nunca conseguirão se separar... E, pra completar, Buddy é um safado, que só quer se aproveitar das garotas. Nunca se apaixonaria por alguém...
-Não concordo. Ele está apaixonado por você. Gina, Buddy é muito popular entre as garotas, é só ele chamar que tem qualquer uma. Ou melhor, tinha qualquer uma. Você não. Você é o diferencial, você o ignorou. E é isso, o desafio, que fez com que você o atraísse tanto. Você é diferente das outras. Você o esnobou. Isso o seduziu. Isso o prendeu. O fez apaixonar-se por você. E é isso que o fará cometer as maiores maldades para tê-la.
-Nunca seria dele... Ele me chamou de vadia, de... Vagabunda!
-Eu sei que não. Mas posso lhe garantir que ele já está movimentando os pauzinhos para chegar até você de uma vez por todas.
Richard a abraçou novamente, dessa vez com mais força, sentindo um incômodo calafrio súbito envolvê-lo.
-E Vanda? – perguntou Gina, de repente.
-O que tem ela?
-Ah, Richard, todo mundo sabe que ela está caidinha por você. Acha que ela fará como Buddy? Ela não buscará uma forma de conquistá-lo?
-Não... Não acredito. Vanda estava muito apaixonada, mas desistirá ao ver que não tem mais chances. A mente dela não age tão friamente quanto à de Buddy, não é tão cruel. É uma mente um tanto obcecada, mas a obsessão dela é tão desesperada que não consegue planejar, apenas... Sofrer. Ela vai sofrer, e muito, mas depois de um tempo acabará me esquecendo.
-Obsessão... Acho algo tão perigoso.
-Depende do caso. Vanda não irá planejar nem fazer nada. Ela não possui sangue frio para fazer maldades. Só se ela visse uma alternativa e fosse pressionada por algo, pois na fraca mente dela, a pressão a pode enlouquecer e amedrontar, mas, claro que isso não irá acontecer. Não precisamos nos preocupar com Vanda. A verdadeira maldade é Buddy Strogne. Buddy Strogne é perigo. Vanda é só emoção.
Gina pensou, com um aperto no estômago, se a emoção não poderia se transformar em perigo, formando algo ainda mais tenebroso.
Patrick Geller, o rapaz surrado por Buddy Strogne e seus amigos, recebia alta naquele momento. Os hematomas e contusões estavam quase curados; os outros cuidados poderiam ser tomados por ele mesmo.
-Estranho uma queda de escada causar tantos danos – comentou Marylin, ao sair da ala hospitalar no mesmo instante que o rapaz, acompanhados por uma vigilante Madame Pomfrey. – Parece até que levou uma surra...
Patrick respirou fundo.
-Eu apanhei daquela ingrata da Vicky e ainda estou andando... Nossa, se alguém bateu em você deve ter judiado e muito.
-Ninguém bateu em mim, ninguém. Eu tropecei e caí daquela porcaria de escada!
Ele se afastou, trombando com Dennis quando dobrava o corredor. O melhor amigo de Michael Curtis derrubara um caderno grosso no chão. Patrick, educado, lutou com uma fisgada de dor nas costas e abaixou-se para apanhar o caderno, que tinha se aberto durante a queda.
Seu olhar passava pelo título de uma folha...
25 de junho
...quando Dennis tomou o caderno de sua mão, com uma rapidez e uma fúria inexplicáveis.
-Obrigado – agradeceu com a voz fria, se afastando em seguida, com o caderno bem fechado e bem seguro na mão.
-Um diário – murmurou Patrick para si mesmo. – Aquilo era um diário... Difícil garotos possuírem diários, e terem receio de que alguém o leia... Seriam segredos do coração, como as garotas costumam fazer?
-Ou outros tipos de segredos – intrometeu-se Marylin, se aproximando. – Segredos terríveis que, tanto para uma garota quanto para um garoto, precisam ser desabafados, mesmo que o desabafo seja a tinta e o ouvinte mudo e surdo, simplesmente um pedaço de papel... – ia se afastando ao lado de Madame Pomfrey, que chamava Patrick insistentemente, com sua costumeira aura misteriosa, quando se virou e disse, bem humorada. – Ah e cuidado com essa mania de falar sozinho. É o primeiro sinal de loucura.
Ignorando-a, Patrick se aproximou dela e de Madame Pomfrey, soltando um comentário baixinho para Marylin.
-Como se julgar que pode ver o futuro dos outros fosse algo normal.
O plano das ovelhas entraria em ação na noite seguinte. Para desespero total de Rony, sobrou para ele o papel de ser a ovelha perfeita, a isca.
-Isso parece provocação! – resmungou ele, no momento em que Hermione deu-lhe o seu papel no plano. – De tanto que reclamei, você me oferece a pior parte! Por que tem que ser eu? Manda o Harry!
-O Harry não dá – explicou Mione. – Nem eu. As ações que devem ser desempenhadas para a captura do assassino caem muito melhor nas minhas mãos e nas mãos de Harry.
-Ah, e a ação de servir de isca cai muito melhor em mim? A ação de ser a tal "vítima perfeita" é ideal para o Rony Weasley? Nunca, mas nunca que aceitarei ser a isca.
O fato foi que acabou aceitando.
Os três arquitetaram tudo passo a passo, durante a manhã, ainda utilizando pedaços de papel, que dessa vez representavam os alunos da escola.
De noite, na hora do jantar, o trio saiu do Salão Principal. Harry e Hermione entraram pelo corredor que haviam combinado, enquanto Rony postou-se em frente ao mesmo, com os braços cruzados, disfarçando.
Rony olhava para todos os lados. Estava totalmente agoniado por dentro, mas tentava seguir corretamente as instruções dadas por Hermione durante a manhã.
"Fique parado durante uns cinco minutos, fingindo que espera alguém. Tente manter a calma, senão o assassino perceberá seu nervosismo e desconfiará. Lembre-se disso: seja natural. O mais natural possível".
Rony olhou ao redor; grupos de amigos se reuniam pelo Saguão de Entrada, casais namoravam nos cantos e alguns estudantes saiam do Salão Principal. Surpreendentemente, a maioria dos olhares parecia cair diretamente sobre ele. Desconfiança? Estranheza? Ou...
desejo por seu sangue, pela vítima perfeita...
Engoliu em seco. Não suportava mais a encenação. Os cinco minutos já deviam ter se passado, de modo que Rony soltou um suspiro melodramático e virou-se em direção ao corredor escuro.
Seus passos ecoavam através das paredes frias. Seu rosto se contorcia em horrendas caretas de medo e de pavor.
"Não precisa correr no corredor, senão dará a impressão de fuga. Mas fique atento. Olhe para todos os lados, para trás, e para frente também. O assassino pode conhecer um atalho desconhecido".
Rony virou-se para trás. Nada. Continuou seguindo em frente, tentando manter a calma
O assassino pode conhecer um atalho desconhecido
e tentando ao máximo não imaginar que, do nada, o sugador de sangue poderia pular de alguma passagem secreta e acabar não só com o plano, mas com sua própria vida.
Uma minhoca numa vara de pescar precisa ser comida para o peixe ser capturado pelo anzol.
Sim, fazia todo o sentido. Eles capturariam o assassino, mas "eles" eram apenas Harry e Hermione. A isca seria devorada, seria sugada. Ele. Rony.
Chegou a um local onde havia uma curva e uma reta. Respirando fundo, tentou recordar as palavras de Hermione...
"Você chegará em um ponto em que há uma dobra para outro corredor. Não entre! Essa dobra sairá num corredor movimentado, e o que precisamos é de isolamento. Assim sendo, continue a seguir em linha reta".
Rony continuou. Naquele ponto, o corredor começava a ganhar uma claridade fantasmagórica, um azul escuro proveniente de archotes de chamas azuladas. Aquela estranha luminosidade piorou o estado de Rony.
Andou mais e mais. As paredes continuavam sem interrupções, exceto pelos archotes. Quando avistou uma porta num canto, quase invisível na fraca luminosidade, lembrou-se das orientações de Mione:
"Se não estiver enganada, a primeira porta estará no lado esquerdo. Nessa porta, Harry estará escondido, armado com a varinha. Passe direto, ande mais um pouco, até a primeira porta do lado direito, onde eu estarei".
Rony passou pela porta esquerda e parou em frente a porta do lado direito. Apesar do frio, suas mãos estavam molhadas de suor. Ele as levou para o bolso e aguardou.
Do outro lado, o corredor era fechado.
"O lugar não tem saída, justamente para atrair o assassino como o lugar perfeito para matar!".
PARA MATAR.
Rony estremeceu.
MATAR, PARA MATAR.
Virou-se para o lado em que tinha vindo. Silêncio. Nenhum som de passos. Nada. Pensou em chamar Hermione, para sentir que os amigos estavam ali, mas aquilo poderia soar como um alarme.
"Ao ver que o criminoso está vindo, grite!".
Rony remexia-se inquieto sobre os pés. De alguma forma, aquele silêncio era pior. Parecia-lhe que o assassino sairia de algum ponto, pronto para apanhá-lo, num golpe súbito, que não desse tempo de Harry e Hermione o salvarem.
Mas, claro, ainda havia a possibilidade do assassino não tê-lo visto...
A isca fora lançada ao mar, mas nada podia comprovar que o peixe havia visto a frágil minhoca na ponta do anzol.
Os minutos pareceram prolongar-se... O silêncio continuou. Nem sinal do assassino.
-Mione... – gemeu Rony, baixinho. – Mione... Já estou cansado...
Ninguém respondeu do outro lado da porta. Rony suspirou. Sem conseguir se controlar, caminhou lentamente a porta mais a frente, atrás da qual Harry se encontrava.
-Harry... Acho que ele não viu... Acho que deu tudo errado... Vamos embora, vai?
Silêncio.
-Harry... Por favor, cara... Responde! Isso deixa as coisas piores, preciso saber que você está aí! Responde só isso: não é melhor irmos embora?
Não houve resposta.
-Harry? – perguntou Rony, o pânico subindo como uma onda gelada, percorrendo suas entranhas e acumulando-se desagradavelmente na garganta. - Harry?
Ele levou a mão à maçaneta, sem se conter, e a girou com força.
-Harry? – perguntou mais uma vez, em desespero, ao abrir a porta. O amigo, que estivera com o ouvido colado à porta, caiu sobre ele, derrubando a varinha que tinha nas mãos.
-Rony? – indagou Harry, irritado. – O que você fez? Não era pra fazer isso, ele ainda pode vir, ainda podemos capturar o...
Ele viu a figura de capa negra avançando rapidamente, com uma horrenda máscara de vampiro, e uma enorme foice numa das mãos.
-ASSASSINO! – berrou, levantando-se de um salto, puxando Rony consigo, e assim desviando os dois do primeiro golpe de foice.
Correram desesperados pelo corredor, em direção a porta onde estava Hermione. A amiga abriu imediatamente, com o mesmo olhar de desespero no rosto.
-Vamos, temos que nos esconder – disse ela, quase sem voz. – Algum lugar aqui... – eles desviaram-se das poucas carteiras que havia na sala abandonada. – Ali! Aquele armário!
Os três abriram as portas de madeira. O armário tinha um formato retangular e estava totalmente vazio. O trio se espremeu, fechou as portas e aguardou.
-Acha que ele nos encontrará? – perguntou Harry.
-Cala a boca – pediu Rony. – Ele poderá nos ouvir, e...
-Não adianta pedir pro Harry se calar, Rony – disse Hermione, a desesperança em pessoa. – O corredor não tem saída pra esse lado. Só tem essa porta e a seguinte... Oh, é claro que ele nos encontrará...
-Talvez ele não nos veja escondidos e...
Clique.
A maçaneta da porta da sala girou. Harry engoliu em seco.
-Estamos sem saída... Estamos...
-Encurralados – completou Hermione.
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