Capitulo 11

O pequeno livro de capa preta, envelhecida pelo tempo, transpirava emoções, magia, dor.

As mãos de Hermione tremiam, com o leve roçar dos dedos pela pele delicada da capa, o seu coração pressentia a estória de uma vida, escrita pelo próprio punho de uma mulher quão fantástica quanto misteriosa.

As estórias de uma infância calma, de amizades que o tempo tinha apagado, os primeiros amores, a figura sempre presente da fiel amiga Helga Hufflepuff, todas as linhas escritas com amor, com a juventude de alguém alegre.

Ao ler as páginas envelhecidas, amarelecidas pelo tempo, era perceptível toda a alegria de quem as escrevera, toda a leveza nelas presente, toda a inocência.

O encontro das quatro mentes, que tinham sonhado a tão fabulosa realidade que era a escola de magia de Hogwarts, era tão emocionalmente relatado, tal como, o fascínio que Salazar Slytherin suscitara na jovem Rowena; a amizade quase imediata com Godric Gryffindor, tudo era descrito ao pormenor.

As linhas das paginas que se seguiam eram mais vincadas, marcadas por angustia, por desespero, por dor, relatavam a exequeravel vontade de Salazar em não consentir feiticeiros de famílias não magicas na escola, relatavam preconceitos, guerrilhas e rivalidades entre Salazar e Godric.

Todas estas descrições faziam Hermione chorar, relembrar a sua própria dor, a sua vida, tudo o que a fizera chegar até aquele malfadado momento da sua vida, a dor emanada das letras, das palavras, das linhas, turvas pelas suas lágrimas, misturava-se, envolvia-se com a sua própria dor, de tal modo que se tornara impossível percutir qual o motivo porque chorava.

As folhas que se seguiam era diferentes, relatavam uma mudança de sentimentos, relatavam esperanças, desejos íntimos de uma jovem mulher, relatavam amor.

As linhas de amor de encontros e conversas tidas com Salazar, a descoberta que por de trás de uma fachada fria e austera havia um homem, duro, implacável, mas bom e justo; invocavam razões para os seus pensamentos, justificações para os seus actos.

Tal surpreendera Hermione que estupefacta, lia avidamente todas as linhas, que via perante os seus olhos o desabrochar de um amor, um amor secreto, recatado, sem explosões de paixão juvenil, mas de um encontro de almas, de seres, que juntos eram unos.

O coração de Hermione transbordava com todas as emoções que absorvia, de tais linhas, os seus lábios involuntariamente sorriam, o amor deles era palpável, a magia de os seus sentimentos reflectiam sobre ela, tal como a luz do sol a banhar os campos.

O anel que se encontrava na delicada caixa era de Rowena, uma oferta, uma promessa de unicidade, era a junção, a uniam de duas casas, de dois seres, a uniam do corvo e da serpente, a uniam da astúcia com a inteligência.

Longas páginas relatavam este idílio, este amor que parecia inabalável, até as quezílias com Godric eram minimizadas, a paz aparente, os alunos aceites, fosse qual fosse o seu sangue.

Era um período de éden.

Hermione temia onde as páginas seguintes a levariam, a que mundo, a que descobertas se exporia, sabia que nada de bom, de doce estaria a seguir, a mente dela urgia a ler mais, a entender onde fora que tudo se quebrara, onde o erro ocorrera; já o coração gritava que parasse, que não aguentaria mais desgostos, mais decepções, era como se fosse a sua própria vida que lia naquelas páginas: dor, amor, esperança, paz….

A mente de Hermione, curiosa, esfomeada por conhecimento, pelos porquês de tudo vencera, Hermione prosseguira na sua leitura.

Como que em transe, incapaz de parar para o que fosse, lia as mais terríveis paginas de todo aquele diário, lia a morte, o assassínio do amigo e confidente de Godric, que sendo um feiticeiro de famílias não magicas, recolhia e protegia todos os feiticeiros nas mesmas condições, levando-os à escola para serem ensinados e treinados, protegendo-os da Santa Inquisição, da fogueira…

O relato da amizade entre o fundador da casa de Hermione e William Benk era de uma vivacidade palpável, a uniam inabalável.

O assassínio de William Benk causara o pânico entre todos os feiticeiros, a escola tinha sido fortemente abalada.

Fora descoberto que William Benk teria sido denunciado, executado no momento, tendo a sua casa sido incendiada, com toda a família no seu interior; era relatado que os seus gritos tinham sido ouvidos a muitos metros de distância, que nem o seu pequeno filho de 5 anos teria sido poupado, todos teriam perecido.

A dor, a angústia, de tal perda emanavam em ondas, das velhas páginas, como se as emoções, os factos nelas relatados tivessem ocorrido naquele momento, envolvendo Hermione como dedos de veludo preto, opressivos, esmagadores, brutais.

Quando os dedos de Hermione roçaram a página seguinte, um choque de dor, magoa e traição atingiram-na, como que a preveni-la que parasse, que não lesse mais, mas Hermione continuou.

A letra de Rowena demonstrava todo o seu transtorno, toda a dor que sentira naquele momento, ao relatar que fora descoberta a origem da denúncia, que fora um velho camponês residente no condado da Snakes Valle.

As frases seguintes eram aterradoras, até para Hermione, tinha sido Salazar Slytherin, o Senhor daquele condado que efectuara a denuncia, que condenara à mais exequeravel morte uma família inteira, sem dó nem piedade, que mandara para a fogueira duas crianças de 5 e 8 anos, assim como os seus pais; e tudo por uma rivalidade, tudo por um preconceito que ele jurara ultrapassado.

Ele era um assassino!

Hermione fora forçada a parar a leitura, o relato tomava proporções monstruosas, a consequência dos actos eram esmagadoras, tudo o que até então tinha sido atribuído ao fundador da casa dos Slytherins não se assemelhava em nada a estes actos tão abjectos.

As lágrimas corriam pelas faces de Hermione, todas as emoções galopando velozmente, atravessando-a como tornados, trespassando-a como espadas de ferro quente, conseguia sentir na pele, na mente, no coração a enormidade da traição que Rowena sentira naquele momento.

As páginas, que seguiam, relatavam o confronto que ocorrera entre Godric, Rowena e Salazar, a admissão deste que sim fora ele, que sim ele mandara executar William Benk.

Poucas linhas se seguiam a esta entrada no diário, apenas uma breve menção ao abandono de Salazar da escola e à devolução de dos anéis que ambos possuíam, a Rowena, acompanhados de uma pequena e breve missiva que dizia:

" Para alguém possuidora de tão elevada inteligência,

Tão atenta a pormenores,

muito preferiste acreditar no vosso ditoso amigo Godric.

Jamais me tornareis a ver, tal foi a minha promessa,

Um dia sabereis o quão injusta vós fostes.

Que aquilo que poderia ter sido, que aquilo que vós esmagastes,

Vos recorde o símbolo do que nos uniu"

O cérebro prodigioso de Hermione, não conseguia apreender o significado de tal missiva de Salazar, apenas a revolta, de este se achar correcto nas acções que fizera, a conseguia assaltar.

Era perto da hora do chá quando Dobby, o bondoso elfo de Hogwarts, trouxera uma refeição leve a Hermione, bem como um recado do carinhoso Reitor, informando-a que lhe seria impossível acompanha-la como prometera, ao jantar..

Hermione comera distraidamente, com a mente navegando no mar das linhas lidas, revisitando situações e pensamentos tão expressivamente retratados.

A confusão dela aumentava ao recordar as palavras de Rowena, que talvez ela entendesse, talvez ela não caísse no erro que ela caíra.

" Mas que erro? Tudo o que esta ali é claro, lógico e irrefutável…"

O cérebro sempre lógico e pragmático da jovem e frágil mulher, que ali estava sentada na velha cadeira, em frente à secretaria, não parava, rodopiando de ideia em ideia, de ponderação em ponderação, para depressa as descartar, como vãs, ignóbeis ou fúteis.

Tal como Severus também Salazar matara, tal como Salazar Slytherin também ele traíra a confiança nele depositada, tal como Salazar também ele odiava, repugnava, os impuros de sangue.

Essa era a verdade inabalável, incontornável, o verdadeiro âmago da questão, e por essa razão, tal como outros o tinham feito, também eles mentiriam, trairiam e matariam tudo e todos no seu caminho.

" Talvez seja condição essencial para ser Chefe da Casa dos Slytherins.." – pensou amargamente Hermione.

Perdida nestes pensamentos e ponderações, Hermione não dera pelo tempo a passar sendo apenas desperta pelo leve pilraguear de uma garganta.

- Hermione, querida… Vira a cadeira e acende o lume. Chegou a altura de conversarmos. - disse a voz idosa de Rowena, quando a sua imagem deu lugar ao antigo espelho.

- Professora Ravenclaw, desculpe. Estava perdida nos meus pensamentos. - respondeu Hermione, em voz acanhada.

- Hermione, diz-me o que pensas do que leste. É muito importante - disse Rowena, em voz doce quase coerciva, convidando Hermione à honestidade, à liberdade de expressão.

- Bem, pelo que li, percebi que foi muito feliz em jovem, que sempre amou o conhecimento, que venerou os livros, que foi contra o que tudo, o que era considerado aceite uma Menina de sociedade fazer, que teve poucos mas muito bons amigos.

Percebi que amou… que amou muito…. E que não … resultou. – respondera Hermione, terminando num sussurro, numa indecisão pouco característica dela, numa hesitação sobre o que dizer, como o dizer, só podia ser doloroso para a velha anciã.

- Ah, inteligentemente sumariado, com grande tacto minha querida, mas o que eu realmente queria saber era o que pensas de Salazar….- a voz de Rowena tomara uma enfatuação ao pronunciar a ultima palavra, num misto de desgosto, perda, pena, de mel e de fel, de amor e de saudade.

Hermione sorrira nervosamente, tentando ganhar preciosos milésimos de segundo, que lhe permitissem pensar o melhor modo de expor o que pensava.

Por fim suspirando longamente disse:

- Salazar Slytherin era preconceituoso, de tal modo embuido desse sentimento, que não sendo capaz de o vencer, tornou-se num homicida, traindo confiança e promessas, dada e feitas a si.

- Minha querida Hermione, diz-me não há nada que te faça hesitar nesse julgamento? - respondera com magoa Rowena, com os olhos expressando mágoa e tristeza.

- Não, foi tudo muito claro, ele próprio admitiu. Calculo que tenha sido um enorme choque. - respondera Hermione com veemência.

- Eis a razão minha querida Hermione, pela qual o velho chapéu te colocou na casa do meu bom amigo Godric. Impulsiva…. Mas, também eu, não procurei para além do aparentemente, para além do que me foi dito, nada me demoveu de acreditar que o homem, que o feiticeiro, que eu amava, de quem estava noiva, era um assassino preconceituoso, mentiroso e traidor. Godric tinha todas as provas, Salazar admitira. Foram tempos muito difíceis, Godric queria, exigia vingança e pouco tempo depois Salazar abandonaria a escola, e eu, nunca mais o veria. Sabes o que mais me magoa, o que mais me pesa no coração, que me atormentará a alma para toda a eternidade? A mágoa do olhar de Salazar, a traição estampada neles, a dor rasgante e dilacerante de quando, num gesto impensado lhe atirei o meu anel, lhe gritei que o odiava, que não o queria ver nunca mais, que queria que ele morresse queimado! Jamais esquecerei a resposta dele, a calma ao dizer que eu nunca mais o veria, que esse desejo ele me concedia. Foi a última vez, em toda a minha vida, que o vi! Ele cumpriu a promessa - Rowena quedara-se num silêncio, a sua voz ficara embargada de amargura de dor.

A angustia que mesmo o velho quadro expressava era tão palpitante que parecia encher a sala, dominando-a, esmagando todo o que de belo nela existia.

- Mas ele reconheceu, que matou William Benk. Que mais havia a perguntar? A dizer? - berrou Hermione, esmagada pela dor, por memórias que eram só dela, por memórias que não eram dela.

- Mas havia minha querida. Tu, tal como eu, deverias saber que todo o Slytherin apenas responde parcialmente, que apenas nos dá parte das resposta e nunca o porquê, e mesmo quando o fazem o verdadeiro motivo permanece oculto. Sabes, eu deveria, tinha a obrigação de confiar no homem que amava, ter perguntado, investigado, não no tumulto da raiva, mas no recesso da inteligência, na certeza que teria de haver uma explicação lógica, honravel. Deveria ter-me recordado que mesmo sendo frio, duro, implacável, ele era um homem bom e justo; mas tudo isso eu esqueci, naquela milésima de segundo entre saber por Godric e ele confirmar. E disso, minha querida, eu arrependi-me a vida toda, ainda me arrependo… E sabes porque? Porque afinal ele tinha razão. - os olhos de Rowena já não podiam derramar lágrimas, mas a sua voz e o seu olhar eram de uma tristeza dilacerante, cortantes, o coração despedaçava-se ao ouvi-la.

Os olhos de Hermione vertiam as lágrimas proibidas a Rowena, pressentiam toda a dor que dela emanava, todo o arrependimento nelas contido.

- Mas como? Como a morte de alguém que ajudava outros pode ser justificada? - perguntou num resquício de voz Hermione.

- Esse era, exactamente, o cerne da questão. Mas é melhor começar pelo princípio. Salazar partiu 1 mês após o confronto, desde esse dia não tivemos mais notícias dele, contudo continuavam a chegar à escola crianças, de famílias de pessoas não magicas, todas recomendadas por uma pessoa para nós inteiramente desconhecida: Salvatori. Essa pessoa fornecia todo o transporte, informação e apoio necessários a que chegassem até nos, bem com uma certa protecção da Santa Inquisição. Ninguém sabia quem era, permanecendo um mistério por largos anos. Então, passados cincos de Salazar ter nos deixado, no primeiro dia do mês de Setembro, quando todos os alunos se apresentavam para o inicio do ano escolar, tivemos todos um grande choque, quando o velho chapéu, já um trapo naqueles tempos, gritou o nome de uma pessoa que nos gelou o sangue: Benjamin Benk; o filho de William Benk que teria morrido no incêndio.

Minha querida, aquele velho chapéu, é muito antigo, um verdadeiro incómodo, mas nunca se engana. Imagina o nosso espanto quando um rapazinho de 10 anos avança e o coloca na cabeça. Benjamin Benk era a prova viva que um enorme, monstruoso erro tinha sido cometido. Definitivamente algo estava mal e logo que a cerimonia findou, chamamo-lo. Era imperioso ouvir o que tinha a dizer, como se tinha ele salvo? O pobre rapazinho, amedrontado, pertencente, então já, à minha casa, respondeu até à exaustão ás nossas perguntas.

O pai dele chantageava as pessoas, forçava-as a pagarem em dinheiro ou em géneros femininos, de preferência meninas jovens e virgens, em troca de não as denunciar à Santa Inquisição, e apenas os que pagavam veriam , em alguns casos, os seus filhos ingressarem na escola, para treino; já outros sofreriam a fogueira. O menino lembrava-se desses tempos, dos gritos e gemidos das jovens meninas; da sua mãe que suplicava pela morte, pelas atrocidades que, ele próprio, vira o seu pai cometer à sua mãe. Um dia , contou-nos ele, na véspera do fatal incêndio, Salazar estivera lá, discutira com o seu pai, acusara-o, ele apenas se rira, gabando-se de ser intocável, de ter a protecção de Godric. Depois tudo ocorrera rapidamente, homens a baterem à porta, a mãe a gritar, Salazar a aparecer no quarto dele e da irmã, a suplicar à mãe deles que o acompanhasse, a sua recusa, e a fuga por Portus para Snakes Valle.

Salazar criara-os como filhos, aos dois, educara-os, e quando a sua irmã, Leonor, não demonstrou ter qualquer tipo de magia, sendo uma não mágica como a mãe deles, Salazar rapidamente lhe ofereceu dote e fortuna pessoal, sendo educado pelos melhores professores não mágicos e muito feliz.

Não é possível imaginares o que senti naquele momento, todos os relatos do pequeno Benjamin foram investigados, e mesmo após tanto tempo, foi-nos possível verificar a sua autenticidade.

Naquele momento, Hermione, percebi que perdera o homem que amara, que amo, por não ter feito todas as perguntas, por não ter procurado todos os detalhes, por não ter acreditado nele… eu perdera-o para sempre.

Eu tentei por todos os meios contactar Salazar, implorar o seu perdão, supliquei a Benjamin que me auxilia-se, mas nem toda a inteligência do mundo, todo o conhecimento contido nestes livros, me poderia ajudar.

Passaram-se anos, muitos anos, quando numa malfadada manha fria de Dezembro, pouco tempo antes de eu passar o véu, Benjamin um homem de meia-idade, retornou à escola, trazendo um embrulho para mim.

Naquele momento tremi, percebi que o homem que tanto amava partira, sem nunca ouvir dos meus lábios o pedido de perdão. Neste mesmo escritório, sentada nessa mesma cadeira, onde estas Hermione, a essa mesma secretaria, abri o embrulho, no seu interior estava a caixa que tanto fascínio te deu, lá dentro um pergaminho e uma rosa seca.

Abre o pergaminho Hermione e lê, lê alto, para que também eu nunca esqueça.

Todo o relato de Rowena fora angustiado, a sua voz era como mel, envolvendo, arrastando Hermione para o seu mundo, para a sua dor, tão marcadamente sentida.

Sem sequer um momento de hesitação Hermione, delicadamente abriu o antigo pergaminho, que o tempo e o intenso manuseamento ameaçavam.

Hermione começou, a ler em voz clara e doce:

" Vós ao lerdes estas linhas,

Sabeis que atravessei o véu,

Desapareci de vossa vida,

De vosso mundo,

Tal como prometi.

Agora sabeis toda a verdade,

O quão injusta vós fostes,

Agora sabeis o que esmagastes com vossas palavras.

A vós, minha doce amada, vos envio o mais precioso dos meus tesouros,

A última rosa, por nós colhida, na última noite de luar partilhada,

A caixa, por mim feita, do que poderia ter sido, mas nunca o foi,

O som, de todas as dores, de todas as magoas,

Poderá agora, ser apaziguado em vosso coração também.

Vos deixo agora com dor e magoa,

Mas perdoada,

Talvez a eternidade nos junto, onde a vida nos separou.

Vos direi pela última vez: vos amo, como nunca amei,

Por vós tudo faria,

O cumprir de promessas por vós pedidas.

Que os deuses, as estrelas, a eternidade nos junte,

Que a minha alma encontre solácio na vossa,

É tudo o que ensejo.

Amo-vos minha bela e pura Rowena.

Do eternamente vosso,

Salazar Slytherin"

A voz de Hermione, turvara, o choro era com dificuldade dissimulado.

Naquelas breves palavras, Salazar depositara todo o seu amor, toda a paixão que o consumira, durante toda uma vida, a magia da letra longa e certa, era tão forte que roçava o palpável.

Havia uma nota inegável de tristeza, de arrependimento, de magia, de uma vida perdida por palavras ditas incautamente.

Limpando os olhos das lágrimas que teimavam em cair Hermione disse:

- Mas porque é que ele nunca voltou? Porque nunca se encontraram? Não entendo, como é possível condenar-se ao desalento de uma vida inteira de solidão, quando poderia encontrar a felicidade…

- Hermione, Salazar era um homem muito orgulhoso, de rígidos princípios, de uma honradez invejável. Ele jamais quebraria uma promessa, e ele prometeu que jamais o tornaria a ver…. São homens complexos os Slytherins, todos o são. Vi muitos ao longo de estes anos, muitos, eu mesma ensinei, treinei, mas uma coisa é certa, quando entregam o seu coração, mesmo que secretamente, pertenceram para sempre a essa pessoa. Sabes que, o maior defeito deles é a sua maior qualidade, também. Eles farão o que acham que é melhor, para a pessoa que amam, mesmo que isso os mate por dentro, que os destrua. São complexos puzzles, apenas ao alcance de alguns escolhidos.

Hermione tinha a profunda sensação que já não estava a falar de Salazar, que em algum momento da conversa, de modo inesperado, estavam sim a falar dela, de Severus.

- Mas como poderia ser o melhor para mim? - Murmurou Hermione, recordando a noite anterior, todas as memorias avalassando-a, como ventos de tempestade, como furacões impiedosos.

- Nisso, Hermione, eu pouco te posso ajudar, mas pensa, pensa muito bem. E por favor, minha filha, não faça como eu fiz. Amanhã, falaremos mais. – Respondera Rowena, com uma voz tão inundada de tristeza, com um olhar tão profundamente desolado, que o coração de Hermione parara, que a mente dela jurara, que nem que fosse pela bondosa e anciã senhora, ela pensaria, investigaria, perguntaria….

A face impassível de Severus Snape, não demonstrara todo o tumulto por ele vivido naquele hiato de tempo decorrido, em que Remus Lupin levara o cálice aos lábios, e em que o mesmo lhe rolara dos dedos caindo ruidosamente no frio chão da enfermaria.

Os momentos seguintes passaram-se num turbilhão de emoções, talvez algo estivesse mal, talvez o matasse…

Imóvel e expectante, Severus, observou a médica/ enfermeira Pomfrey levantar a sua varinha, realizar um diagnóstico ao paciente e após minutos, que se arrastaram como eternidades das profundezas do inferno, a idosa senhora dizer:

- Esta a dormir, todo o seu organismo está em acelerado metabolismo, mas esta estável, os sinais vitais são normais. Era de esperar este tipo de reacção Severus?

- Pomfrey, em todos os testes laboratoriais, tal sempre ocorreu! Ele devera acordar nas próximas 12 horas. – A voz de Severus não traíra as suas emoções, a mascara de gélida indiferença estava perfeitamente colocada, apenas os seus profundos olhos negros brilhavam, com um brilho estranho, intenso, como se um lago de lágrimas os tivesse ocupado.

Rapidamente, contudo, Severus Snape, recuperou e pronunciou que se retiraria para os seus aposentos, que assim que o paciente acordasse o chamassem.

Ainda Severus não tinha abandonado as grandes portas, de entrada da enfermaria, quando uma mão no seu ombro o fez para e voltar-se.

- Severus, obrigado, hoje, realizaste um milagre. Perdoa-te meu rapaz, tenta tu ser feliz, não a deixes escapar por orgulho, não sejas o teu pior juiz… – dissera o velho reitor, com os olhos a brilharem como estrelas cadentes, com a voz que continha tanta emoção, tanta esperança, tanto amor paternal, pelo homem que tinha à sua frente, que Severus apenas pode acentir com a cabeça.

Severus Snape percorreu o espaço entre a enfermaria e as masmorras em passo rápido, quase correndo, as emoções, as palavras, o olhar do velho reitor abalaram-no, de tal modo que tinha que se refugiar no seu mundo, na sua realidade, para parar de sentir, parar de sonhar….

Na solidão do seu quarto, rodeado de um silêncio sepulcral, Severus Snape, desejava poder sonhar, desejava poder ser amado!


Nota da autora: olá pessoal estou de volta, não temam que a estória não vai ser abandonada, posso demorar a actualizar mas isso apenas se deve à falta de tempo para escrever.

Muito obrigada pelo apoio e pelos comentários.

Espero que gostem deste capitulo,

Beijocas VSev