Aos Olhos do Mundo
Capítulo XI - Conexões do nosso passado
O atual Mr Nolan está apoiado no batente da porta de entrada e o avental verde bem ajustado à cintura.
- Bem-vinda de volta, strange.
Ironia à parte, aquelas palavras são para mim - porque eu voltei uma única vez desde que seu pai falecera. E - também, obviamente, - ao julgar pelo modo amigável como Mr Cumberbatch e Christopher se cumprimentam em seguida - com sorrisos, abraços e tapas nas costas.
- Olá, Chris.
- Confesso que quando Ben me disse que a traria para cá, eu duvidei - e o comentário dele faz desanuviar meu sorriso. - Não é uma cobrança, Lilian. Foi difícil para todos nós.
A morte de Mr Nolan foi apenas um dos eventos do meu difícil ano.
Nossa condescendente tristeza é substituída pela foto que vejo atrás do caixa. São dois rapazes sorridentes com o antigo Mr Nolan entre eles, igualmente feliz. Mr Cumberbatch aparenta mais magro e o cabelo um pouco mais cumprido e com a gola de um sobretudo estranhamente levantada. E o outro rapaz, mais baixo e de cabelos loiros é...
- O que Bilbo está fazendo nessa foto?!
Os dois riem de mim e é Mr Cumberbatch quem me responde:
- Esse, Srta Lunière, é Martin Freeman.
- Eu disse que ela não acompanhava mesmo Sherlock - Christopher sinaliza uma mesa aos fundos para nós dois. - Martin é o intérprete de John Watson na atual versão de Sherlock Holmes - resonde a mim.
Christopher simplesmente se afasta e me deixa com a risada de Mr Cumberbatch.
- Só para esclarecer - sinto a mão de Mr Cumberbatch sobre a minha cintura para me conduzir até a mesa - eu sei quem é o Bilbo, só não sabia que era estava na sua sé ês conheceram Mr Nolan!
- Ele foi o verdadeiro provedor de café do set inteiro.
- Quantas coincidências... - e ele me sorri de canto de boca.
- Mycroft Holmes diria que não existem coincidências.
- Bom, acho que tem muitas coisas que preciso saber antes de concordar com o Sr Holmes mais velho. Por favor, Mr Cumberbatch, como viemos parar aqui?
- De carro, obviamente - e eu não consigo não rir. - Okay. Ahn... Charles me falou uma vez sobre a senhorita. Bom, não especificamente sobre a senhorita, afinal Charles sempre soube ser muito discreto.
- Mas por quê?
- Oh... - ele esfregou a mão no queixo uma ou duas vezes. - Se bem me lembro, foi no final de um dia cheio. Gravamos praticamente o dia inteiro e já do outro lado da rua uma multidão de formou e eu fiquei atônito. Estávamos gravando a primeira temporada ainda e - e ele faz um movimento de explosão com as mãos, - já era um fenômeno. Eu tive medo.
Para mim não é necessário que Mr Cumberbatch prossiga, afinal, esse discurso eu conheço. O sentimento.
Não há hipocrisia em querer ser reconhecido pelo o que você faz, e, muitas vezes, ao escolher alguma coisa para a sua vida, você até espera esse retorno. Espera que haja alguém além de seus pais que aprecie o que você é capaz de fazer. No entanto, em determinados parâmetros, você deixa de ser reconhecido para se ser um símbolo.
E é rápida a transição. Quem admira passa a cobrar. Você tem que ser bom, dentro do que faz e principalmente fora, porque eles querem a identificação de que você é um ser humano superior, bom e incapaz de errar (afinal, quem não sabe o que está fazendo em 100% dos momentos da vida?)
- ... e foi então que - ele brinca com o sachê de açúcar e não me encara, - após recepcionar aos fãs, eu corri para cá e Charles me deu um café com um leve gosto de whisky ao final, devo acrescentar. Ele me contou que era a segunda vez em que alguém entrava aqui, - e me olha enquanto me expõe a um belo sorriso em reconhecimento, - afoito por ser apresentado à realidade de um ótimo trabalho. E, então, - Benedict direciona agora o sorriso para o sachê, não para mim, - Charles me falou de uma pessoa, sem designar nome, gênero ou profissão, que possuía uma habilidade acima da média, mas que nunca imaginou que aquilo pudesse entreter outras pessoas além dela mesma e se assustou muito quando multidões começaram a lotar assentos para vê-la.
- Devo assumir que o senhor esteja reproduzindo exatamente o que Mr Nolan disse.
- Oh, sim, praticamente bem fiel ao discurso porque em nenhum momento, de todas as vezes em que ele falava sobre a senhorita, ele nunca deixou claro quem era e tampouco me dava alguma dica. E, Srta Lunière, ele falava muito sobre você.
- Desculpe a pergunta, mas como você pode ter tanta certeza de que era sobre mim se ele nunca mencionou meu nome?
- Uma pergunta muito inteligente. - Mr Cumberbatch encosta as costas no estofado almofadado da cadeira e aponta, gentilmente, alguma coisa atrás de mim, e vejo um boné antigo com o logo que a Nike fez para mim. - Como eu disse, eu sou um grande fã da senhorita.
Christopher traz uma caneca de chocolate quente para mim e um xícara de chá para seu amigo.
- Então, a quarta temporada.
- Não vamos voltar a esse assunto, Christopher - Mr Cumberbatch leva as mãos à cabeça e finge estar irritado.
- Sabe quantas pessoas entram aqui me perguntando isso?! - Ralha o outro, cruzando os braços à frente do corpo e estufando o peito.
- Ele acha que pode me intimidar com essa postura - Mr Cumberbatch me segreda em tom alegre. - Chris, em janeiro estaremos aqui fazendo você louco com tanta gente.
Observo ele se distanciar de nós com um belo sorriso de satisfação e dou risada.
- Você me disse que a culpa era do senhor por nunca ter me conhecido antes_
- Um dia, que não hoje, vou te explicar.
- Se você é amigo íntimo de Roger, posso pedir a ele.
E ele finge mágoa diante de mim.
- Srta Lunière... - mas ele logo desiste e ri. - Com certeza poderá e tenho certeza de que Roger agirá de acordo com o esperado. - E eu fecho a cara, porque logo noto que estou diante de alguém que conhece meu mentor muito, muito bem.
Se questionado, Roger não dirá nada porque, apesar do assunto dizer respeito a mim, não é meu. "Se Benedict não quer te contar, não será eu quem irá". Posso ouvi-lo. Droga. Por que tão gentleman?
Por mais de uma hora, nós dois ficamos ali conversando. Por muito tempo fora eu a detentora das perguntas, porque estava genuinamente interessada em Mr Cumberbatch - no que ele poderia me contar, quero dizer. Obviamente que era sobre o que ele tinha para me contar, e sobre seus trejeitos, o modo rápido para piadas e comentários elegantes e como direcionava-se a mim com "senhorita" a todo e qualquer instante.
- Mr Cumberbatch - e o olhar que ele me lança me diz que ele sabe que eu preciso partir. - Infelizmente eu preciso ir. Tenho treino hoje à tarde e ainda preciso descansar direito da viagem.
- Eu sei. Srta Heartcliff me avisou - ele mais fala para a xícara em suas mãos do que para mim. Estico minha mão sobre a mesa e envolvo a sua. Eles tem dedos longos e a mão grande, com tendões e veias demarcados sobre a pele alva. A minha é pequena, mas não me pede de achar que realmente consiga envolver toda a extensão da dele.
- Eu gostaria muito, muito de poder ficar, e você me deu uma ótima manhã em sua companhia. - Mr Cumberbatch levanta nossas mãos e, com a outra, acaricia a minha e então a beija com o êxtase de toda a demora desse momento em mim.
Sinto sua respiração sobre a minha pele, o toque de seus lábios nos nós de meus dedos e seu olhar a me capturar do outro lado da mesa. Sinto minha respiração acelerar mas todo esse momento, todo esse conjunto de detalhes, me é exposto em lentidão. Noto o movimento de seus olhos sobre os meus e quando meu coração quase pulsa pelas pontas dos meus dedos.
- Minha querida senhorita Lunière.
