Capítulo Onze
Coming Apart At The Seams
O sol se esgueirando pela janela acordou Ginny. Ela tentou se mover, mas o corpo adormecido de James sobre seu colo impossibilitou essa ação. Ginny era grata que James tivesse o sono pesado, e o tirou de seu colo, o colocando sobre o tapete. Decidiu deixá-lo ali. Ela não ia conseguir pegá-lo e colocá-lo no berço. Ginny gemeu para si mesma, enquanto forçava seus músculos tensos e se erguia. Ficou parada por um momento, tentando esticar os músculos de suas costas, que estavam anormalmente doloridos. É o que eu ganho por dormir no chão, pensou cinicamente. Ginny pegou o leve cobertor que prendera ao redor de James na noite passada, e o esticou sobre ele, antes de sair do quarto.
Os sons e cheiros de Molly preparando o café da manhã atingiram Ginny e ela foi até a cozinha. Molly já tinha uma cesta de bolinhos sobre a mesa. Ginny pegou um e voltou a cobrir os outros com o pano.
- James está bem? – Molly perguntou.
- Sim. – Ginny disse. Girou a cabeça algumas vezes para aliviar os nós em seu pescoço e esfregou a base de sua coluna algumas vezes. – Mãe?
- Hmmm?
- Pode... Você poderia... – as palavras ficaram presas na garganta de Ginny. Engoliu algumas vezes; ironicamente notando que parecia que ela estava tentando, literalmente, engolir seu orgulho, antes de tentar novamente. – Poderia acordar James em uma hora? – perguntou em voz baixa.
Molly quase não conseguiu esconder a surpresa.
- É claro. – disse simplesmente, mas soltando um leve suspiro de alívio que Ginny finalmente estivesse pedindo ajuda.
- Acho que vou voltar para a cama. – Ginny afirmou. – Não me sinto muito bem.
Molly se virou e olhou para Ginny. Ela não parecia nada bem.
- Quer que eu te leve o café da manhã em uma bandeja mais tarde?
Ginny fez uma careta para a ideia de comer.
- Não, obrigada, mãe. Não estou com fome. – Ginny subiu as escadas e foi direto para seu quarto. Fechou a porta e olhou para o bolinho em sua mão com surpresa. Não se lembrava de tê-lo pegado. Ginny colocou o bolinho ainda quente em seu criado mudo e se deitou na cama. Pegou a varinha e lançou o feitiço de refrigeração que usara quando estivera grávida de James, no quarto. A temperatura abaixou vários graus e Ginny suspirou em alívio. A casa estava quente demais. Ginny virou, prendendo um travesseiro entre suas pernas, e se remexeu algumas vezes, tentando diminuir a dor em suas costas. – Por que eu não usei a poltrona? – resmungou para o outro travesseiro, no que teria sido o lado de Harry na cama. Você não estava pensando, é por isso.
Bocejou abertamente, e fechou os olhos, caindo no que chamava de um sono acordada. Ginny estava dormindo, mas conseguia ouvir Molly acordando James e as risadinhas de James, enquanto Arthur o carregava nas costas até o térreo. Ginny ouviu Ron chegar mais cedo para ajudar a preparar o almoço. Não sabia quanto tempo tinha ficado deitada quando abriu os olhos. Hermione estava parada ao lado da escrivaninha, um pedaço de pergaminho em suas mãos, Rose em um canguru, aninhada contra seu peito.
- O que é isso? – Hermione perguntou, mostrando o pergaminho para Ginny.
Ginny se sentou e pegou o pergaminho de Hermione com o cenho franzido. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer a lista de prós e contras que tinha feito depois de entrevistar as Harpies há duas semanas.
- Nada. – murmurou, amassando-o em sua mão. Olhou para a escrivaninha, e notou que sua bolsa tinha caído da cadeira. Deve ter caído quando eu tropecei na cadeira noite passada.
Hermione se sentou na ponta da cama, pegou o pergaminho e o alisou.
- Vejo que Gwenog pediu para que você voltasse. – afirmou.
- Sim.
- Você está falando sério? Nessa lista?
Ginny tirou o pergaminho das mãos de Hermione.
- Eu não sei. – esfregou uma ponta entre o dedão e o indicador. – Eu amo escrever para o Profeta. – disse.
- Mas...? – Hermione incentivou.
- Quem disse que há um "mas"? – Ginny bufou.
- Está piscando como um neon. – Hermione respondeu secamente. – Mas...?
- Uma parte de mim quer jogar novamente, só para que não seja sempre eu, presa aqui e esperando. – Ginny rasgou o pergaminho pela metade, e pela metade da metade, e continuou rasgando até que fosse uma pilha de pequenos quadrados. – Ou para que ele tenha que fazer alguns sacrifícios. – Ginny se virou, esticando as costas. O cochilo não tinha ajudado.
- Ginny, eu sei que está chateada, mas esse é o trabalho dele.
- Eu sei disso. – Ginny brigou.
Hermione não disse nada. Lembrava-se muito bem das mudanças hormonais de humores, que fazia todas as coisas racionais parecerem completamente irracionais. Ao invés de falar algo, pegou a pilha de confete em suas mãos e a jogou na pequena lata de lixo sob a mesa.
Ginny sentiu lágrimas cutucarem seus olhos.
- Sinto muito. – ofegou. – Eu realmente não tenho uma desculpa.
- Claro que tem. Está quente, você está cansada, tem mais hormônios do que sangue em suas veias. – Hermione deu de ombros. – Todas já passamos por isso. – Hermione se inclinou para dar um abraço de um braço só em Ginny, que sentiu seus ombros relaxarem um pouco. – Você realmente quer voltar? – Hermione perguntou gentilmente.
- Não de verdade. – Ginny admitiu, a cabeça abaixada. – Só estou cansada de ser deixada para trás o tempo todo. – confessou. – Vocês três fazem isso comigo há anos. Vocês têm essa... – Ginny gesticulou uma mão, impotente. – Coisa. – terminou. – Vocês têm esse círculo um com o outro e é horrivelmente difícil de se tornar parte. – engoliu um soluço. – E vocês nem percebem. Como poderia? Você é casada com Ron. Você se casou com parte do seu círculo, e eu tenho ficado do lado de fora desde que tinha onze anos. – Ginny secou os olhos com a ponta do lençol.
Hermione se sentou, horrorizada. Ela sabia que Harry, Ron e ela eram mais próximos do que qualquer outra pessoa, mas desde o último ano de escola de Ginny, tinha assumido que eles incluíam Ginny em sua amizade. Nós realmente a deixamos tanto de fora?
- Ginny, eu...
Ginny respirou fundo, secando as bochechas com as mãos.
- Eu vou descer daqui a pouco. – engasgou. – Deve ser quase hora do almoço.
Hermione saiu do quarto com perplexidade. Foi direto para a cozinha, onde Ron estava direcionando vários pratos e tigelas para a mesa com sua varinha.
- Fizemos a coisa certa? – perguntou abruptamente.
- O quê?
- Com Ginny? Ao não incluí-la no que estava acontecendo com Harry e o caso?
- Não. – Ron respondeu automaticamente. – Devíamos ter contado a ela. Devíamos ter contado a todo mundo.
- Nós a excluímos? Você, eu e Harry?
Ron colocou a última tigela de batatas na mesa.
- Posso ver por que ela se sentiria desse modo. – disse lentamente. – Nós somos quase tão próximos quanto Fred e George eram. – colocou as mãos dentro do canguru e pegou Rose no colo. – O que trouxe isso a tona? – perguntou confusamente. Hermione lhe contou sobre o pergaminho que tinha caído da bolsa de Ginny e conversa delas sobre isso. As sobrancelhas dele se ergueram. – Ela poderia estar falando besteiras. – se aventurou. – Ela está de sete meses e meio. Você não fazia sentido nessa época, também, mulher.
- Não tenho certeza. – uma leve ruga apareceu entre as sobrancelhas de Hermione. – Não parece ser besteira hormonal.
Ron se inclinou e beijou Hermione.
- Quando Harry voltar, vou conversar com ele sobre isso. Isso a fará se sentir melhor?
- Não faça isso para me agradar. – Hermione disse teimosamente.
- Não estou. – Ron mordeu o lábio por um momento. – Você acha que ela vai voltar? Para as Harpies?
- Normalmente, eu diria que não, mas acho que o único motivo para estar meio que considerando é para ter algum tipo de vingança.
- Essa é uma palavra horrivelmente forte. – Ron murmurou, enquanto a porta da cozinha se abria e a família entrava, assumindo seus lugares ao redor da mesa. Arthur arrastou o cadeirão de James de seu lugar de sempre e o colocou entre sua cadeira e a de Percy. Charlie colocou James no cadeirão. Ron observou Arthur colocar um pouco de purê de batata e cenouras no prato de James, antes de cuidadosamente cortar um pedaço de carne, antes de colocar um prato dentro do alcance da colher de James. Isso é estranho. Normalmente, é Ginny quem faz isso. Automaticamente, colocou comida no próprio prato com uma mão só, enquanto segurava Rose, e olhou para Ginny pelo canto do olho. Ela não parece bem.
Ginny estava chegando rapidamente a um nível de mau humor que não tinha visto em dois anos. Suas costas não parava de doer, e a visão de comida a deixava um pouco mais do que nauseada. Colocou purê de batatas no próprio prato, e uma colherada de ervilhas. Estava tão cansada. Ginny sentia que não conseguia manter a cabeça erguida. Apoiou-a em uma mão e usou o garfo para arrastar a comida pelo prato. Não notou os olhares preocupados que sua mãe e cunhadas estavam lhe dando. Recusou a sobremesa e não ouviu a conversa urgente e sussurrada que mandou os homens e as crianças para o jardim. Estava tão focada nos próprios pensamentos que quando Bronwyn colocou uma mão gentil sobre o ombro de Ginny, ela quase pulou. Bronwyn se sentou na cadeira ao lado de Ginny.
- Como está se sentindo? – perguntou em tom de conversa.
- Estou bem. – Ginny murmurou. Afastou-se da mesa e tentou se levantar, mas a mão de Fleur pousou no outro ombro de Ginny.
- Você não parece "bem". – ela declarou. – Você quase não comeu.
- Só estou cansada. – Ginny protestou fracamente. – E minhas costas doem. – adicionou.
Bronwyn encontrou os olhos de Molly por cima da cabeça de Ginny.
- Oh? E como é?
- Dói! – Ginny resmungou, sem vontade de lidar com jogos.
- Não, eu quis dizer, está pior do que quando começou a doer, ou dói muito, e depois nem tanto?
- É a mesma. – Ginny disse irritadamente. – Dói muito, e nada que eu faço melhora.
Bronwyn apertou o ombro de Ginny gentilmente.
- E há quanto tempo suas costas estão doendo, cariad?
Ginny correu uma mão pelo cabelo.
- Desde que acordei, essa manhã. – pensou por um momento. – Acho que foi isso que me acordou. – Ginny balançou a cabeça. – Só dormi em uma posição estranha, isso é tudo.
Bronwyn ajudou Ginny a se erguer.
- Deixe-me ver como as coisas estão? Só para que eu me sinta melhor?
- Não é nada. – Ginny disse simplesmente.
- Não faz mal verificar, faz?
Correndo o risco de ser arrastada até seu quarto, Ginny resmungou:
- Certo. – foi até seu quarto e abriu a porta. Bronwyn fechou a porta e colocou um poderoso Scorgify em suas mãos, e conjurou um par de luvas. Ginny se acomodou em sua cama, e tirou sua calça e calcinha. – Não passa de uma dor nas costas. – murmurou, seu rosto lentamente ficando vermelho.
- De quanto tempo você está, mesmo?
- Trinta e quatro semanas. – Ginny ouviu uma leve nota de pânico em sua voz.
Bronwyn franziu o cenho e começou a examinar Ginny. Sua respiração falhou, mas conseguiu esconder. Droga, Bronwyn pensou.
- Certo, Ginny. Pode se vestir. – Bronwyn tirou as luvas e as jogou fora. – Por que não fica aqui e descansa um pouco?
Ginny esperou até Bronwyn ter saído, antes de vestir sua calcinha. Ficou deitada, olhando para o teto, ainda não querendo pensar que a dor em suas costas era algo além de uma dor, mas a maneira que os olhos de Bronwyn tinham tensionado deixara o amargo e metálico gosto de incerteza em sua boca. Ginny se deitou de lado, fazendo uma careta quando a dor em suas costas aumentou.
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Bronwyn voltou rapidamente para a cozinha.
- Bem? – Molly exigiu.
- Ela está com alguns centímetros de dilatação, mas só. Vamos ter que ficar de olho nela, caso a bolsa rompa.
- Quão ruim seria dar a luz agora? – Katie perguntou de sua cadeira. Parto prematuro tinha sido uma preocupação com Fred e Jacob.
Bronwyn correu uma mão pelo rosto.
- Depende. O bebê poderia estar bem, ou não. Ela está de trinta e quatro semanas... Tempo o bastante para que o bebê não tenha problemas maiores, mas ainda um pouco cedo demais para o meu gosto. Se ela conseguir aguentar mais uma semana... – um grito, vindo do andar de cima, a interrompeu.
-x-
Ginny estava esfregando a ponta da fronha de Harry entre seu dedão e indicador quando sentiu algo correr entre suas coxas. Assumiu que era suor já que Hermione tinha tirado o feitiço de refrigeração, e Ginny não o tinha lançado novamente. Ginny se deitou de costas e esticou a mão para pegar a varinha para convocar o feitiço novamente. Estava abafado dentro do quarto. Ginny resmungou, tentando pegar sua varinha, mas seus dedos a empurraram para fora do criado mudo. Deixou sua mão cair e pensou que seria trabalho demais pegar a varinha caída, até que sentiu mais liquido correr. Foi a última gota para Ginny. Sentou-se e colocou os pés no chão, erguendo-se para pegar a varinha.
A corrente de liquido correndo por suas pernas tirou o ar dos pulmões de Ginny. Ela ficou parada em horror, observando o liquido encharcar o tapete perto da cama.
Foi quando Ginny percebeu que as coisas tinham saído de seu controle.
Então, ela fez a única coisa que podia. Gritou em dor, raiva, solidão e frustração.
- Nããããããão!
Ficou parada no lugar, incapaz de se mover, distraidamente notando as gotas em seus pés descalços. É muito cedo, pensou entorpecidamente. É muito cedo e Harry não está aqui.
Sua cabeça se ergueu quando Bronwyn passou pela porta.
- Minha bolsa estourou. – disse miseravelmente.
- Está tudo bem, cariad. Vamos te levar ao St. Mungos.
Ginny assentiu e deixou Bronwyn guiá-la até a porta.
- Espere! – disse de repente. – Eu deveria colocar a calça!
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A família estava reunida na área de espera do St. Mungos, os rostos tensos e exaustos. Sempre que a porta que levava aos quartos dos pacientes se abria, erguiam os olhos ansiosamente. Shanti aparecera algumas vezes e conversara com Molly e Arthur, suas vozes baixas e cheias de medo. Shanti apareceu novamente e se aproximou de Arthur e Molly. Ela convocou uma cadeira e se sentou.
- Ela está progredindo e parece que o bebê está chegando. Essa noite.
Molly respirou fundo e se levantou.
- Eu gostaria de estar com Ginny.
Shanti assentiu e guiou Molly até o quarto de Ginny. Arthur observou sua esposa desaparecer pela porta e virou seu olhar para seus filhos. Arthur sabia que passava uma aparência maluca, mas podia ser friamente calculista se necessário. Era algo que seus filhos nunca tinham entendido completamente. Colocou as mãos nos joelhos e se ergueu, indo até Percy.
Percy estava sentado em uma cadeira, inclinado para frente, seus cotovelos apoiados em suas coxas, olhando para o azulejo do chão. Arthur tocou a parte de trás da sua cabeça levemente.
- Perce? – disse suavemente. – Uma palavra?
Percy ergueu os olhos e assentiu, mordendo o lábio. Ergueu-se e seguiu Arthur até um canto da área de espera.
- Do que você precisa, pai?
- Não é o que eu preciso. É o que sua irmã precisa. – Arthur tirou os óculos e os limpou com o lenço que tirou do bolso. – Eu sei que você sabe como mandar uma mensagem para Harry. – quando Percy assentiu, Arthur continuou. – Eu não pediria, mas, Percy, isso é uma emergência. Ginny precisa dele aqui.
Percy correu uma mão pelo cabelo, deixando os cachos sempre arrumados, bagunçados.
- Eu sei...
Arthur segurou o braço de Percy com uma mão trêmula.
- Não se trata de qualquer um, Percy, mas de sua irmã. – sibilou.
Percy olhou para a mão de seu pai, e de volta para o rosto apreensivo de Arthur.
- Vou ir ver o Ministro nesse momento. – disse.
A mão de Arthur se apertou ao redor do braço de Percy instintivamente. Ergueu os óculos e apertou a ponte do nariz.
- Sinto muito... É só que...
- Eu sei, pai. – Percy hesitou por um breve momento, então abraçou Arthur, e andou rapidamente até Penny, e se inclinou para murmurar no ouvido dela. Penny puxou Percy para um beijo rápido, antes de Percy caminhar apressadamente até o ponto de aparatação.
Percy aparatou em frente à casa de Shacklebolt em Londres. Ajeitou os óculos nervosamente, e foi até a porta, pressionando a campainha. Ouviu vozes do lado de dentro, e esperou com uma sensação de medo.
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Shacklebolt abriu a porta para revelar seu irmão, Gareth, e seu parceiro, Rafael.
- O que vocês fizeram? Partiram tão logo as provas acabaram?
- Nós começamos antes de vocês, e terminamos antes. – Rafael o lembrou.
- Mas de fato pegamos a primeira Chave de Portal para Nova York e, de lá, para Londres. – Gareth disse. – Tivemos que esperar uma Chave de Portal internacional no terminal de LaGuardia por anos. – cumprimentou seu irmão mais velho com um abraço. – As crianças ficaram malucas lá pela última semana.
Shacklebolt voltou sua atenção para Rafael.
- Aposto que você estava com tudo nas malas há duas semanas.
- Melhor do que guardar as coisas na véspera, como algumas pessoas que eu poderia nomear. – Rafael disse lentamente, olhando para Gareth. – Me deixou acordado a noite toda, empacotando as coisas e reclamando do limite de peso das Chaves de Portal Internacionais. – ergueu uma mão quando Shacklebolt fez menção de abraçá-lo. – Oh, Kingsley, não, eu estou fedendo à terminal de Chave de Portal.
- Como se isso importasse. – Shacklebolt riu. Virou-se para a porta quando a campainha tocou. – Quem...? – Shacklebolt abriu a porta para ser confrontado pela imagem de Percy Weasley. Não era um Percy Weasley que Shacklebolt conhecia.
Para Percy, sexta-feira casual significava afrouxar a gravata. Seu cabelo nunca estava bagunçado. Enquanto a maioria das pessoas assumia que Percy tinha uma vassoura na bunda, Shacklebolt sabia que Percy se vestia dessa maneira para trabalhar por um senso de respeito.
Esse Percy estava usando calça jeans gasta e uma camiseta confortável da loja de seus irmãos. Seu cabelo normalmente bem arrumado estava apontando para todos os lados.
- Percy?
- Posso entrar?
Shacklebolt abriu a porta e deu um passo para o lado em um convite mudo. Percy entrou e, antes que Shacklebolt pudesse fechar a porta, ele disse:
- Eu preciso do Harry. – em uma voz baixa e intensa. – Bem, Ginny precisa de Harry nesse momento.
- Qual o problema? – Shacklebolt sentiu um arrepio de alarme correr por sua espinha.
- É o bebê. – Percy colocou as mãos nos bolsos. – Ela está tendo o bebê. Agora.
O treinamento de Auror de Shacklebolt entrou em ação.
- Volte para o St. Mungos. Harry estará lá até meia noite. Talvez um pouco depois. – empurrou Percy para fora da casa e foi para a sala de estar, onde Gareth e Rafael estavam acomodados no sofá. Shacklebolt olhou entre os dois, antes de se fixar em Rafael.
- Rafa, preciso ser você.
- Oh, Kingsley, querido, nós já conversamos sobre isso. – Rafa disse de modo brincalhão. – Demora anos para atingir o meu nível de maravilha.
- Agora não, Rafa. Eu preciso ser você.
Rafa e Gareth se sentaram, tensos, perante o tom brusco na voz de Shacklebolt.
- Do que você precisa? – Gareth perguntou.
Kingsley foi até o armário de bebidas e apertou um botão escondido. Uma porta se abriu, revelando uma coleção de vários frascos, cheios de um líquido cinzento e grosso.
- Preciso de um pouco do seu cabelo, Rafa. – mentalmente, calculou por quanto tempo poderia ficar na Escócia. – Vários fios. – Kingsley passou um frasco vazio para Rafael. – Coloque-os aqui.
- Isso é um monte de Polissuco. – Gareth comentou, enquanto usava a varinha para cortar um pedaço do cabelo de seu parceiro.
- Nunca se sabe. – Shacklebolt murmurou.
Rafa passou o frasco, todos os traços de risada sumindo de seu rosto.
- Você vai precisar de algumas roupas minhas. – disse, indo até suas malas. – Sou muito mais baixo do que você. – Rafa fuçou em uma mala cuidadosamente arrumada. – Quanto tempo vai ficar fora? Mais do que um dia?
Kingsley assentiu.
- Uma semana. É o máximo de tempo que posso ficar fora do escritório e fora de contato.
Rafa colocou sua mala menor no chão e rapidamente colocou trocas de roupas para três dias na mala. – Aqui. – tirou um par de tênis de outra mala. – Meus pés também são menores.
Gareth juntou os dedos.
- Se importa de me dizer o que está acontecendo?
- Você se lembra de Harry? – quando Gareth e Rafa assentiram, ele continuou. – Sua esposa está tendo um parto prematuro, e ele está trabalhando em um caso delicado. Eu não posso ir como eu mesmo, sou muito reconhecível. – Kingsley foi até sua mesa e pegou um pedaço de pergaminho. Rabiscou um bilhete para Percy, informando-o de que ficaria fora do escritório por uma semana. Shacklebolt acenou a varinha para o pergaminho, fechando-o para que somente Percy pudesse abrir, e o levou até sua coruja. – Leve para Percy. Ele está em St. Mungos. – a coruja voou com um farfalhar das asas.
Shacklebolt ficou só de cueca, e colocou um fio de cabelo de Rafa em um dos frascos. Brilhou, antes de assumir uma leve cor verde. Shacklebolt fez um gesto de brinde a sua família com o frasco e o engoliu.
- Agora eu vejo por que Gareth gosta tanto de você. – brincou, antes de os efeitos começarem a aparecer. Depois de alguns minutos, Shacklebolt vestiu as roupas de Rafa e pegou a mala. – Obrigado. – disse quietamente.
Shacklebolt olhou ao redor de sua sala de estar e seus olhos pousaram em uma garrafa vazia de Cerveja Amanteigada. Apontou a varinha para ela.
- Portus. – murmurou. A garrafa emitiu um brilho azulado momentaneamente. Shacklebolt colocou a varinha no bolso da calça de Rafa, antes de pegar a garrafa com a mão livre.
Caiu no chão do jardim de trás da pequena casa em Inverness. Harry estava sentado no baixo muro de tijolo do lado de fora, uma garrafa de cerveja amanteigada em suas mãos.
Harry se ergueu em um pulo, simultaneamente tirando a varinha do bolso quando o homem estranho se erguia do chão, a garrafa caindo no chão e se despedaçando, espalhando a cerveja.
- Quem diabos é você? – resmungou, mantendo a varinha apontada para o homem a sua frente.
- Sou eu, Kingsley.
Harry cerrou os olhos por trás dos óculos.
- O que Olho Tonto me disse sobre como lidar com varinhas, quando foram me buscar nos Dursleys antes do meu quinto ano?
- Que você perderia uma nádega se a colocasse no bolso de trás. – Shacklebolt respondeu prontamente.
Cautelosamente, Harry abaixou a varinha.
- Kingsley? O quê...? Por quê...?
- Lembra-se do parceiro do meu irmão? Rafa? Que ensina em São Francisco?
- Sim...
- É Polissuco.
- Oh. – Harry apontou a varinha para a sujeira que fizera e voltou a se sentar no muro. – Há algum problema, então?
- É Ginny. – Shacklebolt se sentou ao lado de Harry. – Ela está tendo o bebê.
Harry se ergueu em um pulo.
- O quê? Agora? – gritou.
- Ela está em trabalho de parto, e eu prometi que te mandaria ao St. Mungos até meia noite.
- Mas eu... Eu... – Harry gaguejou.
- Uma semana. Vá a St. Mungos e fique com sua esposa, mas você tem que voltar aqui em uma semana. – Shacklebolt puxou Harry de volta para o muro. – Mas você ainda não pode ir. Eu preciso que você me mostre as escalas e os métodos que tem usado.
Harry olhou impacientemente para seu relógio.
- Certo. – guiou o caminho até a cozinha.
Três horas mais tarde, estava parado no jardim, ao lado de Shacklebolt.
- Eu volto no próximo domingo à noite. – disse, ajeitando a mochila sobre o ombro. – Estou pronto.
Shacklebolt apontou a varinha para uma latinha de refrigerante amassada que um dos treineiros encontrara no beco atrás da casa.
- Portus. – disse e a latinha brilhou na escuridão. Shacklebolt apertou o braço de Harry. – Vai ficar tudo bem. – disse, tentando acalmar o homem mais novo.
Harry sorriu fracamente.
- Espero que sim. – pegou a latinha e sentiu o familiar puxão atrás do umbigo e, momentos mais tarde, caiu da rua em frente ao St. Mungos.
Continua...
N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior.
Tradução do título do capítulo é algo como "separando-se na junção".
Até semana que vem.
