Acordou... E desejou não ter acordado viva... Não pelo menos nesse mundo. Seu corpo doía com intensidade e todos seus ossos sentiam que iriam desmoronar a qualquer momento. Um aperto em seu coração fez ela perder o ar nos pulmões e cuspiu um pouco de sangue... A varinha estava ao seu alcance e alguém parecia estar à espreita.
- Sabe o que é pior...? – resmungou alguém atrás dela, sentiu um puxão nas costas e ser levantada. – Acho que as lentes foram pro bebeléu... Droga... – era John se recuperando e dando assistência à amiga. – Vamos, está ficando tarde... – Annie não entendia o porquê dele estar tão machucado e os olhos inchados, ela nem entendia como havia chegado ali, pelo o que sabia havia desistido de participar lá na frente, depois de ver o avô zumbi...
- Para onde vamos...?
- Sei lá... – ajeitando a postura e pegando Annie pelo lado, agora sentia uma dor lacinante no joelho esquerdo, verificou o que havia acontecido e ele estava inchado também. – Briga boa que tivemos com o bicho-papão... Aquele safado vai ver que... que... – os dois se arrastavam pelo corredor – que quem se mete com Hogwarts, leva chumbo grosso, hehe... Cara, como quero tomar suco de uva agora...
- Por que suco de uva? – Annie estava zonza e não conseguia colocar as coisas em ordem na cabeça. Perguntas idiotas faziam parte da recuperação.
- Sei lá... – tossiu um pouco e continuaram a andar. – Annie... Me promete uma coisa quando sairmos daqui...?
- Ahn? Ah sim, sim... – seu cérebro ainda estava lento.
- Prometa que não vai desistir de seus estudos... – viraram mais outro corredor e encontraram um beco sem saída. John resmungou algo que Annie não entendeu, estava difícil demais de saber onde estava agora.
- Por que eu desistiria...? – perguntou a irlandesa e pigarreou sentindo o gosto metálico de sangue na garganta. Algo estava errado ali...
- Meu velho dizia que às vezes acontecem coisas que a gente não espera e junto com isso vai toda nossa força de vontade. Esse labirinto tá acabando conosco, sabe? – ficaram em silêncio e só o esforço de John carregá-la pelo gramado do labirinto soava no corredor. – Ta certo que meu velho não é um exemplo vivo de sabedoria e ordem, mas... – voltando pelo mesmo caminho que fizeram antes de chegarem ao corredor sem saída, encontraram um outro corredor e seguiram por ele durante alguns minutos. – Consegue andar sozinha? – Annie tentou e caiu sentada na grama, algo estava errado mesmo, seu joelho nunca falhou desse jeito e a dor era pior do que as que sentira antes. – Vamos fazer o seguinte: Vou correr até o final do corredor e ver se tem caminho aberto pra gente, volto aqui um minuto!
- Tá... – disse Annie nem se importando se aquilo fosse uma desculpa para John deixá-la sozinha ali naquele labirinto para sempre. Deixou seu corpo relaxar na gramado e olhou para o céu nebuloso acima. Deveria ser mais de manhã ainda, não saberia dizer ao certo, só queria sair dali o mais rápido possível. Seu raciocínio voltava com o arfar de seu peito, estava difícil de respirar quando se queria chorar. Levantou a varinha para o céu e preparou para lançar o feitiço de desistência, mas um toque gelado adormeceu sua mão esquerda. O fantasma de seu avô apareceu do chão e a ergueu.
- Vamos Dante, levante! Cadê a força do gênio infalível? E a teimosia dos irlandeses da parte de seu pai? – depois de levantá-la ajeitou o corpo da menina em pé e mexeu em seu joelho ferido. – Isso parece grave. Annie, será que você pode parar de ficar só olhando e fazer um esforço pra nos ajudar?
- Mas vovô... – ela não conseguiu conter as lágrimas e abraçou o espectro do avô que se dissipou por alguns minutos em seus braços, apareceu novamente atrás dela, mãos nas costas da neta, e fazendo ela andar devagar. Pelo que sabia, fantasmas não podiam interferir no plano material, não daquele jeito, pegar objetos pequenos, empurrar coisas, mas nunca de carregar um ser humano.
- Vamos... Tem um corredor que leva direto pra última arena... Vi Gabrielle lá e ela...
- Ela está bem? Está tudo bem? – perguntou Annie ansiosa e se atropelando nas palavras. O avô sorriu tristemente e deu um tapinha em suas costas.
- Sim, sim, a querida Delacour está muito bem. Foi mais inteligente sabe? – e riu um pouco – Deu a volta pelo o Lago e chegou mais rápido. Agora só você precisa chegar e tudo estará acabado...
- Vovô, é verdade que mamãe...? – não conseguiu completar a frase, as lágrimas a sufocaram, o avô continuava a empurrar ela pelo corredor, ela dava passos lentos, a dor na perna esquerda virou uma leve dormência e as forças voltavam aos seus membros.
- Annabelle... Não pense nisso agora. Precisa sair desse labirinto logo. – e virou a neta no corredor até verem um outro corredor longo e estreito, uma luz estava no fundo da cena e Annie sentiu-se melhor por saber que tudo estava acabando. – Sei que não posso fazer isso, mas tenho que te avisar! Será preciso mais do que magia para enfrentar a última tarefa... E bem, pelo menos eu confio em sua cabecinha inventiva – batendo de leve na cabeça dela. – Há uma criatura lá dentro, inofensiva, mas de terrível lábia, sabe? Vai te convencer de coisas horríveis, vai te fazer infeliz. Não quero isso! – protestou o fantasma Dantê. – Ninguém mexe com a minha garotinha! E antes que você se machuque mais... – dando a volta e olhando para ela. – Quero que você saiba que tudo o que acontecer fora daqui será por apenas uma coincidência irônica do destino. Não quero que você pense que o mundo está sendo injusto ou que as pessoas que você ama te largaram, não, não Belle! Você tem muito que fazer, muito que dizer e muito a quem amar! Prometeu ao seu amigo que iria continuar a estudar, prometeu a menina Delacour que iria cuidar dela, então prometa mais uma coisa para seu velho avô...
- O que o senhor quiser, vovô... – respondeu ela baixinho, seu coração pesava tanto que podia ouvir sua mãe chorando em algum lugar.
- Eu estou cumprindo o que sua avó Tessie queria... Cuidar de você até você virar uma jovem responsável. E quero que isso se cumpra agora, Annabelle. Você terá decisões importantes após essa nossa conversa, terá momentos difíceis e poucos serão os felizes. Não se enterre na tristeza! Continue sua vida, suas invenções, deixe seu espírito científico continuar a fazer coisas boas para as pessoas, mas nunca, nunca se esqueça que o amor é que deve ter as rédeas de nossas escolhas... – chegavam ao final do corredor estreito, a luz estava mais forte e ouvia o barulho da torcida lá fora. – Eu tenho que ir, você deve entrar. Simples assim. E se algum dia eu não aparecer mais é porque você cumpriu a sua palavra comigo. Vovó Tessie ficaria orgulhosa de você, assim como sua mãe já está... Agora vá, Belle! – deixando ela andar sozinha para a abertura nas folhagens. – E não se esqueça! A mente é mais rápida que a mão! – e desapareceu assim que ela entrou na arena iluminada.
Os gritos da torcida enorme à sua frente deram um ânimo quase instantâneo ao seu corpo, sua mente estava cheia de idéias e nem precisaria da varinha para vencer seja lá o que fosse. O joelho insistia em doer e ela foi devagar para uma caverna que estava incrustada no morro que abrigava a torcida das escolas participantes. Uma luz fraca vinha de um poço, Annie sabia que não podia se aproximar de alguma maneira, mas parece que algo a impelia a ir direto ao lugar. Ouviu um roçar de pedras em algum lugar da caverna, olhou em volta em dúvida e segurou bem a varinha, a água cristalina do poço estava transbordando e alguns borbulhos ecoavam em sua superfície. Ouviu o barulho de pedras caindo novamente e virou-se bruscamente, com a varinha em riste e uma luz intensa na ponta da varinha, viu que ao seu redor não havia nada além do que o cinzento da caverna.
Um silvo baixo ecoou pela abertura da caverna, Annie sentiu-se inteiramente fora de si, poderia ter seu primeiro ataque histérico, mas não poderia fraquejar, fingir coragem era seu grande talento, já enfrentar coisas estranhas escondidas na escuridão, bem... Isso nunca foi o forte dos Dante... Aproximou-se do poço e ouviu o silvo novamente, o clima ficava abafado e ela sentiu que suas veias estavam para estourar de tensão, sentiu-se tonta e acuada, o desespero tomou conta e ela se encolheu perto dos tijolos do poço.
- Fica calma, Dantê... Calma... – ela murmurou para si e um silvo estridente ocupou toda caverna, foi obrigada a tapar os ouvidos, perdeu um pouco da noção de quanto tempo ficou na posição e logo viu da onde vinha o barulho ensurdecedor...
Uma imensa Naga escorregava entre as pedras da caverna e a observava com a cabeça encostando no teto, tinha cerca de 10 metros de comprimento e o corpo era cinzento de grossa largura, a cabeça era horrivelmente parecida com uma mulher de 30 anos, as presas afiadas sobressaíam dos lábios, olhos de um azul hipnotizante e os cabelos claros cintilavam com as escamas na face grotesca.
Pela primeira vez na vida desejou ter coragem para enfrentar coisas como aquela, nunca pedira tantas forças para se manter em pé e não desmaiar de susto. A Naga se aproximou sorrateira e cuspiu algo infecto aos pés de Annie, o chão pedregoso dissolveu em poucos segundos, estava perdida! Morreria sim... Era só esperar.
- O que deseja, forasteira? Veio de tão longe para me admirar? – Annie estava boquiaberta, a voz da Naga era linda!
- N-não quero nada... Apenas sair da arena... – disse Annie com pouca convicção que seria atendida.
- Ah sim... Outra como os outros, querem apenas sair de seus problemas... – E chiando ameaçadoramente completou: - Você já perdeu a competição sabia? Seu amigo chegou depois da garota de Beauxbatons... – Annie pulou em seu lugar, Gabrielle ganhara o torneio! – E pelo o que posso ver, você é ligada à essa menina... – o rabo espinhoso da Naga chicoteou um pouco nas pedras. – O que viu dentro de meu poço?
- Não olhei para ele...
- Pois deveria... Pelo que sei você está com muitos problemas...
- Quer dizer sobre minha mãe...? – a voz de Annie veio cheia de dor e angústia, a Naga sorriu.
- O que você fará quando sair daqui Dante? Chorar?
- O que está falando?
- Todos que entraram nesse torneio fizeram os seus desejos, mas acho que você não tem maturidade suficiente para isso... – Annie se sentiu extremamente ofendida e segurou a raiva.
- E você julga livros pela capa?
- Para onde você vai? – Annie ficou nervosa com a pergunta. Onde estava indo essa conversa? – Quem é você, Annabelle Dante? Por que tem tanto medo de morrer...? – o rabo chicoteou novamente a centímetros de seu rosto, mas Annie não se moveu, era o mais próximo da morte que já esteve. – Prevejo um futuro conturbado para você, Annabelle... Como quer chegar a algum lugar se não tem esperança e fé em si mesma?
- Você costuma julgar livros pela capa? – perguntou ela novamente, estava curiosa para saber o que aquela criatura queria dela. Um cheirinho adocicado veio da Naga. Ela usava perfume de morango?!
- Não, mas sei muito bem quem posso julgar ou não. – e se moveu para o outro lado, parou perto do poço e olhou para a água dali. – Uma pena que eu tenha que fazer isso... Mas como alguém já me informou, se eu não o fizer, você morreria de qualquer jeito...
- O quê?! Quem?! – Annie se desesperou quando sentiu seu corpo sendo tomado pelo longo corpo da Naga e sendo prensado levemente.
- Não irei te machucar se você não me machucar. Esse é o trato. – e apertou um pouco mais para a mão de Annie largar a varinha no chão, estava indefesa! Morreria sim... – Escute agora. O que verá no meu poço será algo que poderia acontecer e só você poderá evitar. Se isso não significar nada para você, então posso seguir o que meus superiores disseram que eu fizesse.
- Superiores?!
- Veja e depois faça suas perguntas... – Annie foi inclinada para frente e olhou para a água cristalina, imagens aleatórias apareceram, lembranças da infância, risos, piadas, momentos felizes e logo se tornaram em uma nuvem tempestuosa de agressões verbais, mágoa e solidão. Viu sua mãe chorando no canto da sala esperando uma carta, as brigas com seus pais, o artigo sórdido de Rita Skeeter, o sofrimento da mãe ao ver que seu avô morrera depois da experiência com o pára-raios.
" – Nunca deixarei Annie se tornar isso! Nunca!" – gritava ela para a lápide do pai. As recusas em Beauxbatons, os problemas com os professores, as tardes solitárias procurando algo para fazer enquanto espiava Gabrielle com as amigas, feliz e sorridente, mas Annie sempre esteve triste e pensativa. Queria ir à amiga e ficar com ela, conversar e sorrir como as outras pessoas, ser um pouco humana às vezes. Outra imagem veio, ela trabalhando exaustivamente nas invenções, lendo e relendo, escrevendo e apagando, se machucando com as ferramentas, virando a noite para fazer certa engrenagem funcionar. O esforço, o cansaço e a decepção. Sua mãe nunca aprovara seu talento. " – Não quero que minha filha fique como o doido do avô. Já chega de cientistas nessa família." – o piano fechado, a porta que bateu rudemente em sua mão esquerda, as lágrimas no final do dia em que a mãe vendera o piano e sequer informara a ela. Logo viu Gabrielle e o Natal do ano passado, as tantas vezes que a viu com outro garoto, os ciúmes que sentia era desagradável, o segredo que deveria ser mantido, o medo de tudo ser perdido caso protestasse pela vida secreta. Medo, sentia isso o tempo todo. O labirinto e a vontade de extravasar sua raiva e frustração de todos os dias. O raio esverdeado que agora inundava seus olhos.
- Por ordem do Ministério da Magia Britânico e Francês, Annabelle Dante O'Breanan, você está temporariamente retida por usar magia proibida e terá seu registro de usuário de magia arcana suspenso. – Disse uma voz masculina atrás dela, eram os Aurores do Ministério acompanhados da professora Danwells e o Diretor da Universidad de Cartagena.
- Mas o quê...? – ela não conseguiu mais falar, foi espremida pela Naga de tal maneira que perdeu a consciência.
Gabrielle não entendeu o motivo por Annie sair escoltada pelos Aurores, os boatos eram que ela havia feito algo ilegal dentro do labirinto, John estava recuperando as forças comendo um empadão de frango, olhou para a amiga escoltada e desmaiada pelos Aurores e depois para Gabrielle, deu de ombros para responder os olhos duvidosos da francesa Delacour.
- Diretora Máxime! – ela gritou para sua professora responsável. – O que houve? Por que levam Annie embora? Ela está ferida? – a diretora tinha uma carta na mão e tremia. – Diretora...?
- Avise aos nossos estudantes, Lerroy... – disse para seu assistente. – Nossa estimada professora de Feitiços, Isobel faleceu esta manhã... – Gabrielle cobriu o rosto com as mãos e caiu no choro silencioso ali mesmo.
Não viu mais Annie naquele dia, soubera que a sua linda havia sido presa pelo Ministério por usar uma Imperdoável. John dissera que algo havia acontecido na arena do bicho-papão e a suspeita se tornou concreta, Annie perdera todos os poderes mágicos que possuía em punição de usar magia maléfica para ganhar no Torneio. Claro que Gabrielle acreditava que Annie nunca faria esse tipo de coisa em sã consciência, mas agora ela duvidava da sanidade de sua amada. Chorou por muito tempo até não agüentar mais o cansaço e cair no chão desmaiada de emoção.
Os alunos de Beauxbatons sentiram o impacto da perda e o dia foi de luto entre todos. Agora os murmúrios eram sobre a cientista que perdera seu lugar no Hall da Fama dos Inventores Franco-Britânicos.
