Invocavi Maledictus Ventis (I Invoke Cursed Winds) XI Final

Tudo ainda tão recente em sua mente. Olhava-se ao espelho que possuía na parede do quarto, acima da cômoda, enquanto ajeitava a faixa do curativo em sua cabeça. Sua expressão denotava o cansaço da batalha, ainda mais com alguns cortes, hematomas que estavam no processo de cicatrização.

Não tinha a certeza se estava apenas cansado ou infeliz. Era inevitável temer que tudo voltasse, cada vez pior. Algo constante e ao mesmo tempo inconstante. Era Cavaleiro de Athena, General de Poseidon e Saga lhe chamava de Deus, mas ainda era humano. Ainda tinha mau humor por coisas que talvez não acontecessem.

Ainda seu coração estava assolado de ansiedade e temor de Saga não retornar para casa. E foi nesse ponto que fechou os olhos diante do espelho e suspirou profundamente. Se dependesse de alguma bebida, ou seriam litros de chá ou pelo menos uma garrafa de álcool para tentar desanuviar a sua mente.

Seu coração queria apenas duas coisas: o irmão e uma cama.

-Kanon. – Milo chamou, se aproximando do geminiano. Ficou atrás dele e colocou as mãos em seus ombros, olhando o amigo pelo espelho. -Cadê o sorriso nesse rosto? Saga retorna hoje. Porque está tão triste?

-Não é tristeza, Milo... Tenho medo de não ter parado por aí.

-Você destruiu Ares. Vocês dois destruíram ele. Vocês. Dois. Se consolar, Athena nos confirmou isso. Eles... Recuaram graças a vocês. – Seu tom era firme e em um fio, orgulhoso dos irmãos. -Isso não é uma afirmação de brincadeira, nem dela, nem vinda de você. – Fez uma pausa e colocou seu queixo a substituir uma das mãos ao ombro dele. Kanon deu um breve sorriso pelo gesto. -Poseidon deve estar orgulhoso. – Ouvir aquilo, fez o outro abrir um pouco mais o sorriso.

-Olho para o espelho e me acho egoísta, Milo. Eu estou feliz, tanto que não posso explicar, do Saga retornar, vivo e em termos, são disso tudo. Mas ainda temo...

-Sinceramente? Depois de tudo, que passou e fez. Como não temer? – Milo tentava consolar o amigo. De forma mais carinhosa, passou os braços em volta do pescoço dele e ainda o fitava pelo espelho. -Eu lembro que... Me senti assim com o Camus, durante muito tempo. E não apenas uma vez. – Kanon lhe fitava de volta, atencioso. -Ele sempre esteve comigo. Eu sempre indo a Aquário, atormentá-lo. – Sorriu, bem triste. -E então, não o vi mais... Me senti tão ressentido do Hyoga durante tanto tempo. Tive que subir com todos naquele dia... – Recordava a época em que os Cavaleiros de Bronze lutaram contra Saga no Santuário. -Foi tão duro para mim. Chegar em Aquário... – Milo sentiu os olhos úmidos. O nó na garganta foi intenso. E como não era momento, se afastou do amigo. -Bem, o que quero dizer... No fim, deu tudo certo, sim, mas eu senti esse medo... E tornei a senti-lo quando Hades esteve presente. Até eu entender o que Camus queria fazer, eu já tinha tentado enforca-lo.

Por um momento, Kanon lamentou o outro se afastar, mas percebeu seu certo embaraço de tristeza. -Você tem medo que o Hyoga o tire de novo de você, não é? – Sorria, mas com carinho. Observou o rosto do escorpiano, que lhe respondeu com o olhar, pois deixou de lhe observar, tomando uma expressão de ressentimento.

Dragão Marinho tornou a entreabrir os lábios para continuar a emocional conversa, porém, ouviram batidas na porta. Ambos olharam.

-Kanon, Milo? Ligaram do hospital para Saga ser retirado. – Camus adentrou e alertou. Deixou o olhar em Milo, que lhe olhou de voltar. Aquário ficou confuso com a demora do amado ficar lhe fitando. -Hum?

-Já estou indo, Camus. Obrigado por avisar. – Agradeceu Kanon, agora, sentindo o coração pular de ansiedade para rever o amado. – O francês aquiesceu e saiu, embaraçado de tanto que o namorado lhe encarou. -Milo, pode voltar para Aquário. Já irei sair.

-Precisa de ajuda? – Próximo ao outro, esperou algum pedido, pronto para realiza-lo.

-Não. O Sa está em condições de andar já. – Kanon buscou por uma escova e ajeitou os cabelos. -Vou trazê-lo para cá e fazê-lo dormir. E vou dormir com ele. – Murmurou, animado.

-Nojo. – Milo brincou enquanto ambos riram. Então, Escorpião começou a caminhar para fora do aposento de Gêmeos. -Não deixa o Saga perto de mim, depois de tudo isso, vai ser a ver dele conversar com a Antares.

Kanon não respondeu, apenas riu. Viu o amigo sair e, sem ser notado, sorriu enquanto o perdia de vista.

-Você é formidável, Kanon. – Disse para si, no espelho. -De bônus, não perdi crédito com Julian, pela situação e ainda pisei no Sorento, mais uma vez. – Sorriu, maldoso.

Provocava, queria que o quarto fosse inundado por seu riso, mesmo sabendo as condições. -Kan, para... Não aguento! – Saga colocou a mão em seu colete cervical, doía intensamente gargalhar, mas não conseguia parar.

O irmão tinha uma expressão de puro deboche enquanto falava, como se o assunto fosse sério. -Imagina só como seria? Você ri, mas é bem sério. – O mais novo acabou rindo, acompanhando o amado.

Com dificuldade, Saga o abraçou pela cintura, fazendo o gêmeo deitar a cabeça em sua barriga. -Sa, assim vou machucar você.

-Não vai, está bom assim. Quero... Assim... – Falou, manhoso. Kanon pousou uma mão no tórax dele, com cuidado, erguendo e deixando o seu olhar a fita-lo. Depois de semanas de sofrimento, ele até em seu piscar, mostrava-se tranquilo e relaxado.

-Saga, eu te amo. – Reafirmou, vendo-o crescer um sorriso enquanto processava o que ouviu.

-Kanon... – Ergueu um pouco a cabeça no travesseiro, já que mexer o pescoço era impossível. -Obrigado por me tirar da Escuridão. Apesar que apenas "obrigado" é muito pouco para como me sinto nesse momento.

-Com dor. – O outro riu novamente. -Mas Sa, agradecer pelo quê? Eu disse... Ele e nem ninguém ia nos separar. Você é meu.

-E ponto final. – Complementou enquanto o mais novo se erguia da pose em que estava e se engatinhava até o amado, ficando com mãos e joelhos em cada lado do corpo dele. Os rostos estavam próximos, e as mãos de Saga trouxeram a face do outro a roçar com a sua. -Você me tirou mais uma vez do fundo do poço. – Deu um sorriso.

-Saga, eu vou tirar você de onde estiver, até mesmo quando não estender o seu braço. – Falou, sério e acabou por corar, ao ter o olhar claro do gêmeo a cruzar intensamente com o seu.

Silenciosamente ele se comunicava consigo. – Ainda manteve os olhares a se cruzar e depois, envolveu os braços ao redor do pescoço do outro, trazendo-o para se deitar consigo, aninhando-se a ele.

-Kanon, eu te amo tanto. Obrigado, por tudo, por estar ao meu lado.