Capitulo X:

Duas semanas depois, Gina andava na ponta dos pés pelo corredor, a fim de parar à porta fechada do escri tório de Harry, pressionando um dedo nos lábios quando viu Prince seguindo-a.

Ela hesitou. A porta fechada significava que Harry não queria ser perturbado. As regras haviam sido estabelecidas. Se ela encontrasse a porta fechada, deveria dar meia-volta.

Exceto em emergências. O que não era o caso, ou, pelo menos, não seria, na opinião de Harry.

- Posso ouvir seus pensamentos!

A voz de Harry do outro lado da porta a fez saltar. Para piorar, Prince latiu em resposta à voz do dono, entregando-a.

- Pode entrar, Gina.

Ela abriu a porta e olhou para dentro, empurrando Prince para fora.

- Eu não ia bater. Interrompi sua linha de pensa mento?

Ele moveu a cabeça para fitá-la por sobre os óculos estreitos. Gina ficara encantada ao descobrir que Harry usava óculos quando passava longos períodos escrevendo. Provocara-o dizendo que parecia um "verdadeiro escritor", mas ele se vingara usando os óculos quando fizeram amor, forçando-a a admitir que ficava incrivelmente sexy.

- Quer a resposta educada ou a verdade?

- A resposta educada, por favor - disse ela, abrin do mais a porta.

Harry tirou os óculos.

- Algum problema?

- Parece que não tenho água.

- Maré baixa se classifica como emergência, ago ra? - perguntou ele, o semblante divertido. - Se es perar 12 horas, tudo voltará ao normal.

- Quero dizer na casa. Fui tomar banho e a água não desceu do chuveiro. As torneiras também não funcionam. O corretor ligou para um encanador, mas, aparentemente, ele não trabalha nos finais de semana. Você se importa se eu usar seu chuveiro?

Ele lhe lançou um olhar impaciente.

- Você sabe que nem precisa perguntar, pode tomar banho aqui quando quiser, ou relaxar na banheira. - Os olhos de Harry brilharam. - Sei que você gosta de um longo banho, para deixar a pele suave e depois usar hidratante no corpo.

Harry já passara hidratante nela mais de uma vez, revelando um grande talento para massagens eróticas.

- Obrigada - murmurou Gina. - Passei a manhã toda na praia e acho que trouxe metade da areia comigo,

Ele observou-lhe o bonito bronzeado.

- Não está feliz porque persuadi Draco a lhe dar um mês extra de férias?

- Persuadiu? Foi mais uma chantagem. - Ela riu. Era impossível acreditar que inicialmente rejeitara a sugestão de Harry de passar mais algumas semanas na praia, mas ele fora insistente, e não tinha hesitado em atingir seu ponto mais vulnerável.

- Você passou por uma experiência emocional di fícil. Merece se recuperar completamente antes de voltar ao trabalho - disse ele. – A médica não falou que seu nível de estresse interfere na parte hormonal? Draco vai levá-la ao máximo do estresse, se não se cuidar. Mais um mês não é pedir demais quando você trabalha para ele há tanto tempo, e sua saúde está em risco.

- Bem, suponho que posso ligar e pedir... - mur murou ela incerta, tentada pela idéia de mais alguns dias sozinha com o seu amor, mas, ao mesmo tempo, preocupada que aquilo indicasse irresponsabilidade.

- Não peça a ele, comunique!

E quando ela negou-se, ele balançou os ombros e pareceu desistir.

Mas no momento em que pegou o telefone de Harry para ligar, descobriu que Draco estava estra nhamente afável, rindo e garantindo que seu emprego iria esperá-la, independentemente do tempo que fi casse fora, e que se quisesse fazer alguma pesquisa para um cliente particular enquanto estivesse de férias, ele não fazia objeção.

- Você agiu nas minhas costas! - Gina acusou Harry assim que desligou o telefone, tentando ardua mente ficar brava.

- Foi para o seu bem. Alguém precisava fazer algo.

- Gostaria que eu negociasse um de seus contratos sem lhe contar? - perguntou ela.

- Fique à vontade, querida. Detesto as negociações. Além disso, eu poderia despedir meu editor e econo mizar vinte por cento.

A outra coisa que Harry decidiu foi que era uma bobagem ela continuar pagando o aluguel da casa quando passava quase todas as noites com ele.

- Já que está passando tanto tempo aqui, você pode ficar pelas próximas semanas - convidou casualmente.

- Sobretudo porque, com as férias chegando, talvez você nem consiga alugar a casa por mais um mês.

- Acho melhor manter meu próprio espaço. Se eu não puder alugar, volto para minha casa - disse Gina decidida, triste por rejeitar o convite. Mas não ia tomar mais nenhuma decisão baseada em tolas suposições. Sabia muito bem o quanto um desejo forte podia ser perigoso, e a oferta de Harry era apenas para que ela ficasse hospedada lá, não para que morasse com ele.

- Além disso, sei o quanto sua privacidade é vital. - relembrou a ele. -Assim, obrigada pela oferta, mas é melhor para nós dois.

Felizmente, quando ela contatou o corretor de imóveis, descobriu que poderia alugar a casa por mais um mês.

- Por que eu não vou ver qual é o problema com a sua água? - disse Harry desligando o computador e levantando-se.

- Mas sua porta estava fechada - murmurou Gina arrependida, seguindo-o para o andar de baixo com Prince.

- E teria ficado fechada se eu não estivesse num momento de impasse. - Ele pegou algumas ferramen tas na garagem e guardou-as nos bolsos do jeans.

- Seu trabalho vai indo mal? - perguntou ela an siosa.

Ele a fitou.

- Não, no geral, está indo muito bem. O mesmo não poderia ser dito sobre o banho de Gina.

- Você entende alguma coisa de encanamento? - indagou ela duvidosa, vendo-o mexer no chuveiro e praguejar.

- Ajudei a construir sistemas de irrigação no de serto - replicou ele irritado. - O que você acha?

Gina balançou os ombros.

- Só estou perguntando. -Após uma pausa, acres centou: - Vou deixá-lo com isso, então - e saiu do banheiro.

Algum tempo depois, Harry a encontrou na sala, lendo, com Koshka no colo.

- Não adianta. Você não vai ter água tão cedo. Sua bomba entupiu.

Gina colocou a gata adormecida no sofá.

- Mas não tem conserto?

- Sim, mas mesmo que o encanador saiba fazer o serviço, provavelmente terá de esperar por peças.

- O que acha que devo fazer?

- Não há nada que possa fazer no momento. Ob viamente, não pode continuar aqui sem água. Amenos que queria encher um balde na minha casa toda vez que quiser usar a descarga - acrescentou sarcasticamente e observou-a abrir a boca para protestar.

Em uma hora, Gina tinha arrumado as malas e se instalado no quarto do térreo da casa de Harry, que agora a observava pendurar as roupas no armário.

- Isso é temporário. Só até que a bomba seja con sertada - disse ela.

- Certo. - Ele esboçou um sorriso presunçoso. - Acho que vou voltar ao trabalho. Você conhece a casa. Fique à vontade.

Gina entendeu o motivo do sorriso presunçoso quando encontrou o encanador, que não foi capaz de estimar quanto tempo levaria o conserto, e, uma se mana depois, ela estava somando o dinheiro que o proprietário reembolsaria.

E adorando morar com Harry.

No começo, ficara nervosa, temendo passar dos li mites, mas essa sensação diminuiu quando ele lhe pediu casualmente que fizesse uma pesquisa sobre a história geopolítica dos Bálcãs. Gina se entregou à tarefa de corpo e alma, usando a imensa biblioteca dele e o laptop extra para buscar mais informações na Internet. Harry ficou impressionado tanto com o entusiasmo dela como com que velocidade sintetizava os fatos.

- Isso vai me poupar muito tempo de leitura - mur murou ele no momento em que se sentou para almoçar e encontrou mais uma folha de pesquisa ao lado do prato. - Desculpe-me por fazê-la trabalhar nas férias.

- Estou feliz que ainda me sobra tempo para cozi nhar - brincou ela.

- O que você faz maravilhosamente bem. - Gina enrubesceu.

- Que bom que gosta de minha comida. Talvez eu deva cobrar de você - provocou. - Draco sugeriu que eu pedisse uma comissão.

- Deve ser porque eu disse a ele que poderia me beneficiar de sua especialidade - admitiu Harry com um sorriso nos olhos. - Draco, praticamente, delirou com a idéia que eu poderia entregar meu livro um segundo antes do prazo. E se você quiser me ver feliz, querida, é só me tocar do jeito que me tocou ontem à noite...

Ela adorava as noites, e não apenas pelos jantares íntimos e pela excitação com o ato de amor, mas pelo que vinha depois, quando eles se deitavam um nos braços do outro no escuro e conversavam.

Era quando Harry lhe contava sobre o ciúme pos sessivo da mãe, o qual transformara o amor numa doença obsessiva e lhe destruíra a vida, e, depois, transformara o próprio filho num inimigo, enquanto ele tentava lutar para que ela se livrasse das drogas.

Era na quietude da noite que o amor não declarado de Gina e sua serena aceitação eram recompensados pelos segredos do coração de Harry. Ele parecia achar mais fácil falar no escuro, e ela, certamente, achava mais fácil ouvir.

Uma noite, ele voltou da cidade com um pacote debaixo do braço.

- É de Draco - anunciou, sentando no banco do bar para abrir o grande envelope e pegar um bilhete e um outro pequeno envelope listrado do correio.

Gina parou de cortar os legumes para o jantar.

- Pensei que ele não soubesse onde você mora.

- Ele sabe agora. Pelo menos, tem o número da caixa postal da loja - murmurou Harry, estudando a escrita na parte da frente e na de trás do envelope.

- Bem, ele não descobriu por mim - disse ela ra pidamente.

- Não, por mim. - Ele olhou para cima e sorriu por causa da expressão de Gina. - Foi parte de nossa negociação para seu mês extra de férias: satisfazer a curiosidade de Draco e tornar-me mais acessível.

Gina estava atônita.

- E, então, você simplesmente contoua ele? - mur murou emocionada. - Por mim?

Harry deu de ombros.

- Era inevitável que eu acabasse contando, de qual quer forma. Estou pensando em me mudar para cá definitivamente. Agora que tenho segurança financeira para manter-me, posso me concentrar mais em escrever e deixar a parte da publicidade para Draco.

Ele estava pensando em se mudar para Oyster Beach! O choque da notícia fez Gina estremecer. Como ficaria diante daquela situação?

- Quando você está pensando em se mudar?

- Ainda não planejei - murmurou ele, desencora jando a conversa.

0s olhos de Gina foram para o envelope que ele girava nas mãos.

- Por que você não o abre?

- Porque sei de quem é. - Ele empurrou o envelo pe para que ela visse o endereço do remetente. Era de Perth, Austrália.

James John Richardson.

Richardson?

Ela ergueu os olhos para encará-lo.

- Isso é...

Harry sorriu.

- Tenho certeza de que existe mais de um James John Richardson no mundo, mas Draco diz que este em particular alega ser meu pai há muito tempo de saparecido. Ele enviou uma carta a Enright, pedindo que este envelope chegasse às minhas mãos.

- Você acha que é ele?

- Sei que é ele. Procurei sempre saber o paradeiro dele, mas preferi que ele nunca soubesse do meu.

- Você vai ler?

Harry se levantou, o corpo tenso com rejeição.

- Ele não significa nada para mim. Não tenho o menor interesse em me comunicar com ele.

- Mas pode ser importante.

- Não! - Harry virou-se. - Leia você, se está tão interessada. Tenho trabalho a fazer.

Depois que ele saiu, Gina contemplou o envelope por um longo tempo, antes de pegá-lo e abri-lo. Den tro, havia uma única folha digitada.

Quando foi para o escritório, Harry estava em pé tia varanda, olhando para a praia, os braços apoiados sobre o parapeito. Ele não a olhou quando Gina posi cionou-se do seu lado, a carta aberta na mão.

- Ele quer dinheiro, é claro - afirmou Harry. Ela assentiu.

- Ele disse que viu sua foto num livro e o reconheceu, pois você se parece muito com os outros filhos dele. Fez algumas pesquisas e diz que a imprensa se interessaria pela história que tem a contar, se você não ajudá-lo em suas dificuldades financeiras. Como você sabia?

- Porque jamais seria uma carta de reconciliação ou remorso. - Harry sorriu com amargura. - Ele nunca teve remorso pelo que fez. Quero que vá para o inferno!

- Mas e se ele vender a história?

- Deixe-o fazer isso. Segundo Draco, qualquer tipo de publicidade é bom, certo? O escândalo pode até aumentar minhas vendas.

- Harry. - Ela tocou-lhe o ombro e ele se afastou com um movimento brusco.

- Meu nome verdadeiro é Michael James Richardson. Fui ensinado a ter orgulho de meu pai, a fazer tudo que pudesse para ser um bom filho. Mas não adiantou. Porque, após partir, meu pai teve outro filho, e o ba tizou de Michael James Richardson. Tirou até mesmo minha identidade, como se eu não existisse. Ele não existe para mim. E não tirará um centavo meu!

Naquela noite, ele a tomou quase com ferocidade, e depois, quando estavam aconchegados na cama, Harry lhe contou sobre seu irmão mais novo, Ross, que nasceu quando ele tinha nove anos.

- Não sei quem era o pai, mas, provavelmente, um dos traficantes de minha mãe. Ela alegou que James tinha voltado e quis que ela tivesse o bebê, e isso a fez se conter por um tempo, mas só durou até após o nasci mento. Então, eu cuidei de Ross. Alimentava-o e troca va-o.

A escuridão tornou Gina supersensível à crescen te tensão do corpo de Harry, e ela fechou a mão ao redor do pulso forte quando percebeu o que estava para vir.

- Só que eu não podia estar lá o tempo todo - continuou ele. - E quando Ross tinha quatro anos, ficou doente e minha mãe estava muito drogada para notar. Quando cheguei da escola, era tarde demais. Ele havia contraído meningite. Morreu na manhã seguinte.

Gina sentiu o primeiro tremor e virou-se, envolvendo-o nos braços enquanto Harry enterrava o rosto em seus cabelos.

- Impressionante, Gina, tudo aconteceu tão rápido!

- Ela sentiu o pescoço molhado, ouviu a voz chorosa de Harry. - Um dia ele estava lá, e no seguinte era como se nunca tivesse existido. Exatamente como meu pai. Assim como minha mãe, quando se matou seis meses depois. Ross teve uma chance de viver, e essa chance fui eu, mas eu não estava lá para ajudá-lo. Eu era seu pai substituto e o deixei morrer. Por isso tenho tanto medo de ser responsável por uma outra criança.

Gina o abraçou apertado enquanto ele chorava silenciosamente. Ela sussurrou seu amor sem palavras. Não era o momento de afirmar que Ross poderia ter morrido de qualquer forma, que meningite era uma doença cruel que, às vezes, até os médicos falhavam em reconhecer a tempo.

Em sua mente, Harry sabia disso, mas seu coração ainda carregava a culpa e a dor de um menino de 13 anos. Um remorso que o impedia de amar, fazendo-o rejeitar qualquer coisa que ameaçasse a perda de um ser amado.

Gina não sabia se a noite fora catártica para Harry, pois ele já estava trabalhando quando ela acordou na manhã seguinte, e eles não tocaram mais no assunto. Havia um outro assunto importante sobre o qual não tinham conversado ainda: era o fato de Harry ter violado uma de suas regras fundamentais. Apenas uma vez.

Talvez ele ainda não percebesse seu equívoco inexplicável, ou o tivesse bloqueado da mente, mas para Gina o lapso começara a agigantar-se, e agora assumia um significado crítico.

Por isso, foi para Whitianga, com a desculpa de fazer compras, para consultar a médica novamente. Seu ciclo menstrual não viera de novo, e dessa vez não ia ficar na incerteza. Apenas uma vez.

Apenas uma vez sem preservativo ou nenhuma outra forma de contracepção. Quais eram as chances para uma mulher cujo corpo por causa do estresse já havia parado de menstruar? Uma vez, questionou-se, enquanto dirigia. Mínimas. Não estivera grávida da última vez, e, desta, não seria diferente. Apenas uma vez.

- Sim - concordou a médica alegremente quando lhe deu uma receita para vitaminas pré-natais. - Basta ape nas uma vez. Por isso existem tantas adolescentes grávidas. Você está somente de quatro semanas, mas tudo corre bem até agora. Deve estar feliz que aconteceu dessa vez... você falou que desejava muito um bebê.

Surpresa, Gina começou a chorar.

Após muitos lenços de papel e congratulações, deixou a clínica. Ainda meio entorpecida, foi para o centro da cidade e fez as compras que justificariam a viagem.

Felizmente, quando chegou em casa e abriu a porta, descobriu um bilhete de Harry lembrando-a de levar Prince para vacinar, de modo que ficou aliviada por estar sozinha.

Precisava se acalmar e recuperar seu autocontrole.

Levou as compras para o quarto e colocou-as sobre a cama, franzindo o cenho quando viu a quantidade de sacolas. Comprara tanto assim?

Koshka pulou na cama e enfiou o focinho em uma das sacolas.

- Você quer ver, não quer? - Gina virou a sacola e mostrou à gata um macacão listado de verde e branco.

- Isso é porque não sabemos se é menino ou menina - acrescentou, dobrando a minúscula peça e pegando uma outra sacola. - Mas também tenho algumas coi sas cor-de-rosa e outras azuis.

Logo a cama estava repleta de roupas de bebê, e Koshka deitou-se sobre as roupas, parecendo entediada com a variedade de cores. Incapaz de resistir, Gina pôs um pequeno gorro nas orelhas pretas e riu quan do o felino emitiu um som ofendido. Então, começou a sentir que uma explosão de emoções estava prestes a ser liberada.

- Acho que fiquei meio louca- disse Gina, pegando o gorro que a gata jogara longe com sua pata. - Inteira mente louca - corrigiu-se, organizando tudo em pilhas. Pegou uma mala vazia do fundo do armário e abriu-a sobre a cama. - Completamente louca, na verdade.

- Gina? - O chamado coincidiu com a batida de uma porta em algum lugar da casa.

Gina gemeu assustada. Rapidamente, pegou tudo de cima da cama e enfiou na mala, fechando-a no exato momento em que Harry entrou no quarto.

Os olhos dele dirigiram-se para a mala.

- O que é isso? O que está fazendo?

- Nada - disse ela apressada, com medo que ele tentasse olhar.

Harry a encarou, percebendo a mentira.

- Fazendo as malas. Você vai embora, Gina? -Eu...

-Vai me deixar assim? Sem discussão... sem di reito a defesa? - murmurou ele furioso. - O que você ia fazer? Deixar um bilhete na minha mesa?

-Não...

- Como pode fazer isso? Depois da noite passada? Depois do que lhe contei? - O semblante dele era sofrido. - Ou é exatamente por isso? Tem medo que eu possa ter herdado a instabilidade mental de minha mãe?

- Não...

- Ou a desumanidade de meu pai?

- Não, Harry, não é nada disso.

Ele pegou-lhe as mãos e puxou-a para mais perto.

- Então, diga-me, o que foi? O que eu fiz de er rado?

Ela suspirou.

- Você não fez nada de errado.

O suspiro dela pareceu alarmá-lo mais do que qualquer outra coisa. Entrelaçou os dedos nos de Gina, apertando-os com força.

- Não vá. Seja o que for, Gina, não me abandone. -Gina nunca o ouvira suplicar antes e seu coração se comprimiu. Mesmo na noite anterior, com a emoção à flor da pele, ele não falara com tanto desespero.

- Fale comigo, por favor - continuou ele. - Diga-me o que fazer para detê-la. Contei-lhe o pior de mim, mas não pode me julgar somente pelo que fui. Posso mudar, Gina... Estas últimas semanas não lhe mostra ram isso? Eu a deixei entrar na minha vida, não feche a porta da sua para mim agora! Pode me dizer qualquer coisa. Com o que acha que não sou capaz de lidar?

- Com o fato que eu amo você, para começar - de clarou ela.

- Eu sei. Você me disse isso ontem à noite. Mas não é a única coisa, é?

Gina ficou tensa.

- Você sabe? Issoé tudo que tem a dizer? - Ele apertou-lhe mais os dedos.

- Não sou bom com palavras. Ela arregalou os olhos.

- Harry... você é escritor.

- Quero dizer, não sou bom em dizê-laspara você. Outras pessoas não importam.

O desconforto de Harry a fez sorrir.

- Você também é famoso por sua inteligência.

- Inteligência é uma arma. Amor é... perigoso.

Amar pessoas é perigoso.

- Eu sei, mas, às vezes, temos de fazer isso. - Harry enrubesceu.

- Por favor, Gina, você deve saber há muito tempo que eu a amo - admitiu. - Eu lhe disse que não queria nenhuma mulher na minha vida, mas agora não posso mais lutar contra isso. Você é a única mulher que eu sempre quis ter permanentemente, aquela com quem quero morar. Você gosta de Oyster Beach, não gosta? Podemos vir morar aqui, você pode trabalhar como freelance e eu escrever, podemos ser livres... os dois...

- Um bebê faz três de nós - murmurou ela, espe rando o inevitável recuo.

Ele a olhou fixamente.

- Está dizendo que não vai se casar comigo se eu não lhe der filhos?

-Eu... Casar?

- É o que as pessoas que se amam fazem, não é?

- Não... não pensei que você fosse do tipo que se casaria.

- Você já se enganou sobre mim antes. Não acre dita que posso amá-la na alegria e na tristeza? Por que você voltou à médica hoje, Gina?

Ela arregalou os olhos.

- Você me viu?

Ele meneou a cabeça.

- A recepcionista de Ken. Estamos em uma cidade pequena, querida. Por que não me contou que ia lá? É muito particular?

Ela tentou afastar-se, mas Harry não permitiu.

- Não tenha medo de me contar. Você está grávida, Gina?

Ela engoliu em seco.

- O que o faz dizer isso?

- Porque eu estava sem preservativo naquela vez que você chorou nos meus braços. Foi a primeira vez que fiz amor sem proteção - admitiu ele, acariciando-lhe o rosto. - Esqueci, até o momento que estava dentro de você, mas gostei tanto que fui inca paz de me afastar. Nunca imaginei que pudesse ser tão intenso. Eu sabia que você não estava tomando pílulas, e depois do que acabou de passar, eu precisa va cuidar de você. Sei que ainda não menstruou. E você está radiante, Gina. Não pode ver isso, mas está resplandecente, de dentro para fora.

Gina estava confusa pelo orgulho de Harry, pela profunda satisfação que ele parecia sentir.

- Pensei... que você não quisesse filhos.

- Isso porque eu não sabia que o amor proporcio nava uma cura milagrosa. Sim, tenho medo de grandes responsabilidades, dos erros que possa cometer, mas com você ao meu lado, para compartilhar tantas preo cupações quando gratificações... Bem, você faz eu me sentir forte, Gina, me faz acreditar em mim mesmo como jamais acreditei. - Ele parou, parecendo insegu ro. -A menos que você ache que não sou capaz de ser um bom pai... Não tive um bom exemplo, afinal.

- Eu também não tive - disse Gina. - E você me disse que posso ser uma boa mãe. Assim que eu receber o reembolso do proprietário da casa, vou com prar uma pilha de livros sobre como ser um bom pai - brincou ela, aliviada.

Ele olhou para o teto.

- Na verdade, você não vai receber reembolso, porque o proprietário acha que você e sua gata apro veitaram a casa o suficiente.

Ela o olhou, confusa, mas então entendeu.

- Vocêé o proprietário da casa vizinha?

- Possuo várias casas em Oyster Beach.

- Você sabia que eu estava vindo? - Gina o acu sou.

- Eu sabia que a casa estava alugada, mas não pedi detalhes. Não sabia quem era o inquilino até você che gar. Fiquei zangado no começo, mas somente porque você desperta sentimentos profundos em mim. Sempre despertou. Porém, uma vez que estava aqui - ele sorriu -, era uma oportunidade boa demais para perder.

- Você poderia ter me colocado para fora a qual quer momento - afirmou ela.

- Havia um contrato de aluguel.

Gina de repente lembrou-se do problema da água.

- A bomba d'água nunca esteve quebrada - adivi nhou.

- E novíssima - respondeu ele sem arrependi mento.

- Você é louco! - Ela bateu-lhe no peito.

- Então, é justo que eu me case com uma mulher equilibrada e perspicaz, não é? - murmurou Harry inclinando a cabeça para beijá-la.

O beijo foi longo e profundo, enquanto Harry acariciava o ventre que carregava seu filho, e depois tocava os seios perfeitos para o prazer, quando, de repente, parou e virou a cabeça.

- O que foi isso?

- O quê?

- Esse barulho que lembra um miado. Dentro da mala. - Ele lhe lançou um olhar incrédulo. - Não me diga que você ia levar o gato na mala.

- Meu Deus! - Ela devia ter pegado Koshka junta mente com as roupas do bebê. Tocou a mala com he sitação, lembrando-se de seu conteúdo, mas Harry se adiantou e abriu-a, vendo Koshka no ninho de roupas. Ele pegou um sapatinho do rabo preto da gata.

- Fui às compras - contou Gina sem graça quando Koshka pulou da mala e saiu pela porta do quarto.

- Estou vendo. - Harry encaixou o minúsculo sapato no polegar e ergueu-o no ar. - Para nossa filha? - perguntou suavemente.

- Ou para nosso filho. - Ela o olhou com carinho, ansiosa por todo o amor que ainda estava por vir. - Po demos chamá-lo de Ross, se você quiser - acrescen tou com os olhos cheios de lágrimas.

Harry passou o braço ao redor da cintura dela e deitou-a na cama para cobri-la de beijos.

- E se for menina, podemos chamá-la de Felicida de, em sua homenagem. Por que é isso que você me traz, meu amor. - Com um beijo ardente, prometeu:

- Felicidade agora e para sempre.

********FIM*******