Capítulo XI — Signum — Sinal
Lauren trincou os dentes quando Chris segurou seu braço, e, quando se virou para encará-lo, Kane a fitava com uma expressão que expressava claramente o quão confuso estava. E não era para menos. Depois de sair, após tomar o café da manhã, Cohan simplesmente se negou a voltar e se pôs a caminhar e ignorou quando ele a chamou. Andaram mata adentro, e agora o sol já se punha, e a garota não dava sinais de que pretendia voltar.
– O que foi? – a loura bufou, irritadiça.
– Vai me dizer o motivo daquilo tudo, ou vai ficar fazendo mistério? – o moreno arqueou uma sobrancelha de maneira irônica, arrancando um suspiro longo da menina.
Christian realmente não queria forçá-la a dizer nada, mas conhecia a moça desde que eram pivetes. Havia crescido com Lauren, conhecia cada mania e significado dos gestos da Cohan. E sabia que há muito algo a estava perturbando. A loura não era o tipo de pessoa que simplesmente fica em silêncio e abaixa a cabeça quando vê algo de errado acontecendo; principalmente quando isso envolve preconceito entre iguais.
– "Vai me dizer o motivo daquilo tudo, ou vai ficar fazendo mistério?" – Lauren imitou a voz do rapaz de maneira teatral, e logo em seguida suspirou longamente. – Eu estou cansada. Cansada de ver e ouvir essas atrocidades, o tempo todo; o tempo inteiro com indiretas e motivos pelos quais ele não deveria estar aqui. Mas que porra! Não é como se nós nunca tivéssemos sido calouros algum dia! Não é como se nunca tivéssemos sido novatos no acampamento! E eu simplesmente não entendo o motivo de com ele ser diferente!
–... Você sabe que não é disso que eu estou falando. – delicadamente, o moreno tomou as mãos trêmulas entre as suas, e observou com naturalidade: – Está nervosa. Irritadiça e impaciente. Vamos lá: fale para mim o que está te perturbando.
Cohan se afastou nos primeiros cinco segundos, e logo em seguida o abraçou; incapaz de se conter. Kane afagou suas costas com carinho e a embalou com suavidade, ignorando o fato de ela não responder sua pergunta de imediato. Sabia que a loura era uma criaturinha difícil de compreender, uma garota difícil de interpretar. Não se importava de verdade, apenas queria saber o que havia de errado.
– Você não está com a sensação de que tem algo errado, Chris? – Lauren sussurrou num tom baixo, como se temesse ser ouvida por outra pessoa. – Não tem a sensação de que tem alguma coisa à espreita, só esperando para atacar? Alguma coisa... Maligna?
Christian demorou alguns minutos para responder, tentando formular uma frase coerente. A loura tinha a nítida impressão de que ele achava tudo aquilo uma loucura; não havia nada de errado na floresta, no fim das contas. Mas simplesmente não conseguia conter o impulso de prender a respiração toda vez que se voltava para observar as árvores. E talvez fosse apenas sua mente lhe pregando peças, mas sempre tinha a sensação de que algo se movia. Estaria ela ficando louca, ou era verdade?
– Depende do que você quer dizer com isso, apesar de a hipótese me soar um tanto quanto insana... Quase completamente, na verdade. – Kane admitiu por fim.
A garota sacudiu a cabeça e se afastou novamente, mas, dessa vez, não como se o estivesse mandando ir embora, mas sim como se precisasse de espaço, de tempo para pensar. O moreno a conhecia por anos o suficiente para saber que era melhor deixá-la sozinha, ou acabaria por piorar a situação; que já se encontrava demasiadamente estranha.
– Nos encontramos na casa? – perguntou num tom solidário.
– Pode ir. – Lauren mordeu o lábio inferior. – Eu vou daqui a pouco.
Christian suspirou pesadamente, mas assentiu e saiu dali a passos lentos. Talvez tivesse a esperança de que ela mudasse de opinião antes de desaparecer na mata, mas Cohan não tinha tanta certeza. Assim que ele sumiu de vista, a loura contou dez minutos antes de começar a andar naquela direção. Não pretendia ficar a "céu aberto" durante a noite — afinal, escurecia perigosamente rápido —, principalmente com as impressões sobre o que vinha tendo. Enquanto caminhava, Lauren se concentrava em cada mínimo barulho da floresta, controlando a respiração acelerada. Talvez essa fosse sua maneira de garantir a si mesma que estava a salvo das "coisas sombrias".
Era extremamente cuidadosa e silenciosa — fazendo o mínimo barulho possível enquanto pisoteava as folhas e galhos secos espalhados sobre a terra —, e foi por isso que ouviu: um estalido agudo e estranho, bizarramente parecido com o de uma pessoa descontando sua raiva na primeira coisa que enxergava; o que, consequentemente, era uma árvore de tronco duro e antigo, que fazia um som peculiar quando socada. Estando ali há tantos anos, conhecia os menores detalhes da floresta.
Em suma, não era curiosa demais, mas aquilo despertou algo dentro de si e a alertou que deveria se esconder. Isso significava sair da trilha e correr o risco de escorregar ou pisar em falso, e acabar caindo em algum barranco. Cohan não deu à mínima, fugindo para trás do primeiro arbusto grande que encontrou, encolhendo-se o suficiente para que ninguém pudesse vê-la ali.
Escurecia rapidamente, mas a garota conseguia enxergar o vulto de um rapaz, que se movia apressadamente pela trilha, praticamente correndo. Imediatamente o reconheceu: Justin. O que ele estaria fazendo ali, àquela hora, ainda mais no meio da floresta? Lauren estava ali por um motivo, mas não conseguia pensar em nenhum para o rapaz.
O que você está aprontando, Hartley?
A expressão do rapaz era indecifrável, mas ele estava estranhamente pálido. Cohan não era a melhor pessoa do mundo para identificar os sentimentos alheios, entretanto, viu uma centelha de medo nos olhos escuros do garoto. Sua feição torceu-se em confusão, e a garota tentou entender o motivo de ele andar em círculos, entre o susto e o pânico a cada novo barulho na mata. Parecia esperar por alguma coisa... Mas o quê? Será que Justin não sabia que a floresta poderia ser perigosa, dependendo de onde estivessem? Ainda mais naquele momento, com a chuva começando a cair.
Estranho. Lauren não se lembrava de o tempo estar muito ruim quando saiu da casa. Agora, porém, parecia que uma tempestade se aproximava. As gotículas d'água logo se chocavam contra seu rosto, causando um formigar desconfortável na pele da loura, que estreitou ainda mais os olhos, puxando o capuz do moletom para proteger a face. Definitivamente, não esperaria mais que meia hora debaixo daquela chuva, apenas para saber o que Hartley faria. Se aquilo demorasse mais que isso, iria embora e agiria como se nada houvesse ocorrido.
Porém, sua curiosidade logo foi aplacada, pois Justin parou de se mover e suspirou, estremecendo; como se já soubesse o que iria acontecer, e estivesse com medo. Os ombros se curvaram, como que na defensiva, mas ele não moveu um único músculo. E então, quando Cohan estava quase desistindo da idéia de ficar ali escondida — o louro não lhe faria mal, no fim das contas —, eles apareceram. Sorrateiramente, mesclando-se à paisagem como se todos fossem um só, sem emitir qualquer som que pudesse identificar sua chegada.
Lobos. Lobos imensos.
Todos tinham pelagem escura, entre o preto e o marrom, de maneira com que, na escuridão da floresta, só se via os olhos; amarelos e meio esverdeados, felinos. Como um predador que acabou de encontrar sua caça, indefesa, sem ter como se defender.
Lauren teria gritado — sim — a plenos pulmões, mas sua voz morreu na garganta, sem que tivesse a chance de usá-la; o corpo paralisado, as mãos trêmulas e o coração batendo acelerado. Ela ouviu os uivos, e viu até certo ponto o que aconteceu; até os clamores tornarem-se nada mais do que ganidos selvagens enquanto os ossos estalavam, uma vez que eram separados da carne. Talvez houvesse gritado enquanto via aquilo, talvez não, ela não tinha certeza. Depois disso, fugiu sorrateiramente por alguns metros. E logo em seguida correu. Correu como se não houvesse amanhã, sem se importar com o barulho que causava enquanto pisoteava os galhos e escorregava na terra, que parecia barro molhado, ainda mais com as folhas.
A chuva impedia que enxergasse pouco mais do que alguns metros à frente, e, de repente, Cohan viu-se perdida na mata. Não sabia onde estava a trilha que a levaria de volta para casa, não sabia onde estavam os lobos, não sabia para onde ir. Os olhos encheram-se de lágrimas, que correram sem o menor pudor pela extensão de seu rosto; gotas d'água que só se diferenciavam da chuva na questão de temperatura. Se isso já não bastasse, anuviavam-lhe a visão, de maneira com que acabou sem saber nem mesmo a direção que seguia. Só sabia que estava próxima a um barranco
E então, escorregou.
A queda pareceu-lhe uma eternidade, rasgando a pele das mãos enquanto tentava — em vão — se segurar em algum lugar. Era um turbilhão de coisas confusas: a terra, os galhos, o gosto da chuva em seus lábios, misturando-se ao sal das lágrimas. O corpo doía quando finalmente parou, e o ar que entrava em seus pulmões poderia se comparar a facadas, arquejando e inspirando com dificuldade. Gemeu baixinho enquanto se encolhia no chão, levando as mãos machucadas até os ouvidos, tentando bloquear os sons. Era como se escutasse tudo com clareza sobrenatural, enquanto as imagens passeavam por entre suas pálpebras fechadas.
Um verdadeiro tormento.
Balbuciou coisas desconexas por alguns instantes, antes de uma confortável escuridão tomá-la. Não era o suficiente para a dor desaparecer por completo, mas o bastante para que seu subconsciente não a deixasse irrequieta. Embora a chuva continuasse a cair implacável, fustigando-lhe a face pálida, Lauren não despertou.
Estranhamente, não havia nuvens encobrindo a lua naquela noite.
X-x-x-x—x-x-x-X
São seis ao todo; dois novatos e quatro antigos. Há dez anos, havia apenas um. Há oito, já havia dois. Há seis, opa, havia quatro. E há pouco menos de um semestre, chegaram outros dois. Cada um possui algo peculiar, alguma coisa que os define acima de tudo. Pode ser um sorriso, um olhar, quem sabe uma raiva incontrolável, ou até uma timidez absurda. Eles não são escolhidos a esmo, como suas vítimas. Não, todos precisam merecer estar ali.
Todo ano, desde o primeiro, existe uma espécie de regra: alguém sobrevive. Não é como nas lendas, onde eles não têm consciência do que estão fazendo. Se fosse simples assim, não haveria um líder. Pois, ora essa, seria um desrespeito às vítimas escolhê-las antecipadamente. Elas iriam morrer de uma maneira ou de outra, mas continuaria sendo um desrespeito. Eles as observavam por algum tempo, assim que eram definidos os escolhidos. Uma pesquisada aqui, uma invasão de privacidade ali, e pronto. Já tinham um segredo em mãos.
Mesmo que não fosse algo demasiadamente "bombástico", essas pessoas tentavam mantê-los em absoluto sigilo. Havia estática em quase todos os quartos da casa. Quase. Por isso os celulares não funcionavam. A interferência era grande demais para que pudesse existir um sinal. Mas havia duas exceções, é claro. No quarto do escolhido — onde tocaria pela primeira vez —, e no quarto do líder. Sim. Ele estava lá desde o começo, apenas à espreita. Parecia totalmente inocente, mas estava perigosamente envolvido com todos os "desastres" ocorridos durante o acampamento.
Naquele ano, o escolhido que tinha um segredo complicado era Justin Hartley. Os seis sabiam de sua fama: amigo até todos os interesses desaparecerem. Eles usaram aquilo contra Hartley, assim como, há tantos anos, usaram o aborto de Adrianne contra ela, para que manipulasse os amigos.
Seria tão mais simples trancá-los todos e matá-los de uma vez! Mas não. O líder deixava bem claro que seria um por noite, e que deveria haver sobreviventes. Claro que um deles não contava, não exatamente, mas ambos precisariam ser transformados plenamente para que fizessem parte naquele picadeiro onde os mais fortes sobreviveriam. Eles não sabiam, mas os "jogos" começaram a partir do momento em que aceitaram ir ao acampamento. As brincadeiras, as risadas, as conversas até mesmo pessoais; tudo aquilo foi visto e avaliado pelos seis. Escolheram os mais fortes, e os outros seriam descartados.
Justin não passou no teste, pois era um mentiroso de marca maior. Mark teria sido escolhido para fazer parte da brincadeira, se não tivesse agido como um boboca no momento da escolha de parceiros para os quartos. Christian era fiel demais aos amigos para ser considerado como uma boa hipótese. Sandra era uma patricinha que não ligava para outra coisa que não moda; iria enlouquecê-los, com toda a certeza. Lauren... Ah, ela teria sobrevivido... Se, no café da manhã, não tivesse surpreendido a todos com sua noção do certo e do errado. Ela daria com a língua nos dentes e arrumaria complicações para todos.
Jared, Misha, Jensen e Jeff, por outro lado... Bom, não poderiam ser todos. Não haveria alimento o suficiente, e mais mortes atrairiam muita atenção para a cidade. Que lutassem entre si — mesmo que não tão literalmente —, então, para ver quem seria o sobrevivente final e líder do restante. Claro que dois deles não contavam.
Era apenas um jogo, afinal. Um rei precisava cair para que o exército se desfizesse num grande e insignificante nada.
E que — nessa guerra — vença o mais forte.
