Capítulo 10
Acabei o dever de casa cedo no sábado. Eu estava um pouco entediada. Kouga viajou, foi visitar uns primos com a família.
Sentei no meu quarto, ouvindo a música que vinha lá de baixo. Papai estava sintonizado na estação Metropolitan Opera. Ele sempre gostava de ouvi-la bem alto. A porta do meu quarto estava trancada, mas eu podia ouvir a música como se estivesse na sala com ele.
Do lado de fora da janela, o céu se abria, azul e bem claro. Um monte de neve se formou no peitoril, amontoando-se contra a janela. Nevou durante dois dias. O sol, finalmente, saiu.
Olhei para baixo, para um desenho do rosto do rapaz. Olhei para seus olhos sérios. Olhei para a cicatriz que dividia sua sombrançelha.
Quem era ele?
Por que eu o vivia desenhando?
Por que o Dr. Bankotsu não me contava? E por que o Dr. Bankotsu perdeu a calma? Por que ele ficou com uma expressão tão consternada no rosto quando mostrei o desenho a ele?
Perguntas. Perguntas.
Eu tinha muitas perguntas. Mas poucas respostas.
Eu ainda olhava para o rosto do rapaz quando a porta do meu quarto se abriu, e Sango e Kikyou entraram correndo.
- E ai? – falou Kikyou.
- Você não pode ficar em casa. Precisa vir com a gente – insistiu Sango.
As duas usavam casacos azuis por cima de suas calças jeans desbotadas. As duas trouxeram uma espécie de trenó, uns escorregadores arredondados, vermelhos de plástico. As bochechas delas estavam quase tão vermelhas quanto os trenós.
- Hã? O que está acontecendo? – perguntei. Soltei o desenho em cima da mesa.
- Está maravilhoso lá fora! – exclamou Sango. – É o dia mais bonito do inverno!
- Está perfeito para andar de trenó – Kikyou falou emocionada. – Parece que a neve congelou. Há uma camada de gelo em cima dela. Você precisa ir até a Miller Hill conosco, Kagome!
Olhei espantada para elas duas. Elas agiam como meninas de dez anos de idade.
- Como é? Vocês querem andar de trenó?
As duas riram de mim. Eu sei que parecia uma idiota, mas eu estava surpresa demais.
- Por que não podemos nos divertir? – perguntou Sango. – Você sabe, como antigamente, antes de ficarmos mais velhas. Antes de só podermos agir o tempo todo como gente legal.
- Vamos, Kagome – Kikyou me puxou da cadeira. – Pegue o seu casaco. Nem está tão frio lá fora. Vamos! Trouxemos um trenó extra.
- Vamos apostar corrida – sugeriu Sango. Ela ajudou Kikyou a me empurrar até a porta. – Vamos expulsar aqueles garotos de oito anos de idade da colina e ficar com ela todinha só para nós!
- Ei, por que não? – finalmente falei. Descemos a escada, uma empurrando a outra, acompanhando a ópera do papai, cantando tão alto que ele gritou para que parássemos, o que nos fez rir e cantar ainda mais alto.
Por que eu não deveria me divertir?, pensei. Por que eu deveria ficar sentada no meu quarto, olhando para aquele desenho assustador?
Percebi que eu não me divertia... Que não me divertia de verdade desde o acidente. Desde que perdi a memória.
Peguei o meu casaco para a neve, um par de luvas de lã grossas e segui minhas duas amigas até a porta da frente. Elas estavam certas. Era uma bela tarde. O ar está frio e agradável. A brilhante luz do sol fazia a neve brilhar como ouro.
Fomos andando até a Miller Hill, carregando nossos escorregadores redondos, rolando-os como se fossem arcos, fazendo que um batesse no outro.
Perto da parte mais alta da rua, Kikyou escorregou e caiu. Sango e eu pulamos em cima dela e enfiamos seu rosto na neve.
Ela cuspiu e se levantou rindo, iniciando uma luta livre que nos deixou molhadas e cobertas de neve.
Rindo, ofegantes por causa da nossa cansativa batalha, tiramos a neve uma das outras. Pegamos nossos discos, que haviam deslizado para o meio da rua. E continuamos a caminhar.
A Miller Hill é o lugar favorito para se andar de trenó em Shadyside. É uma colina íngreme, com alguns desníveis e se estica até um campo amplo e vazio. A neve sempre parece ser mais profunda e escorregadia na Miller Hill. É uma subida íngreme até lá em cima, mas a descida é longa, rápida e totalmente emocionante.
Hoje, a colina brilhava como uma montanha prateada. Sango, Kikyou e eu paramos ao pé da colina e olhamos lá para cima. Dezenas de crianças, de todas as idades, escorregavam até lá embaixo. Usando todos os tipos de escorregadores! Tampas de latas de lixo, bóias infláveis competiam com trenós de estilo antigo, feitos de madeira e aço.
Que bela cena!
Usando seus casacos vermelhos, azuis e violeta, toucas e chapéus coloridos, as crianças pareciam enfeites de Natal em uma grande árvore branca.
Eu sei. Eu sei. Estou começando a parecer uma poetisa ou coisa parecida.
Mas aquela foi uma visão emocionante. Era uma cena muito inocente. Acho que aquilo me fez pensar em quando era mais jovem. Isso me fez lembrar de uma época muito mais feliz.
- Como a colina parece estar muito maior do que costumava ser? – Sango perguntou, saindo do caminho de dois menininhos que vinham descendo em cima de dois sacos de lixo.
- Não vá amarelar agora! – Kikyou brigou com ela. – A colina está com o mesmo tamanho de sempre. Vamos.
Escorregando e deslizando, nos inclinamos para enfrentar o vento e subimos a colina. No meio do caminho, o vento arrancou o escorregador de plástico da minha mão, e tive de sair correndo atrás dele.
Finalmente, cheguei ao topo.
Onde estavam Sango e Kikyou?
Protegi meus olhos da brilhante luz do sol com a minha mão coberta pela luva e as procurei.
Elas já estavam se preparando para escorregar. Acharam um lugar vazio de um lado, logo depois de um grupo de meninos de cara fechada. Agora, elas estavam sentando nos escorregadores.
Sango estava sentando no dela. Kikyou se jogou de barriga em cima do disco de plástico.
Corri, querendo pegar Kikyou de surpresa ao dar um empurrão nela.
Mas elas foram rápidas demais para mim.
As duas partiram dando gritos de felicidade. Os trenós desciam depressa.
Sango bateu em uma saliência. O trenó dela voou, mas ela conseguiu segurar.
Kikyou chegou lá embaixo, mas continuou escorregando. O trenó levou-a até o meio do campo ao final da colina.
Eu ri. Que belo passeio!
É a minha vez, falei a mim mesma.
Tentei lembrar da última vez em que eu estava em pé na Miller Hill, da última vez em que desci até lá embaixo.
Acho que tinha uns dez ou onze anos.
Bem, por que só as crianças de dez anos deviam se divertir tanto?
Olhei lá para baixo na colina e vi Kikyou e Sango em pé, juntas, com os trenós ao seu lado. Kikyou tirou sua touca de esquiar e estava tirando a neve de seus cabelos escuros. As duas estavam olhando para mim. Esperando que eu fosse me juntar a elas.
- Lá vou eu! – gritei, colocando as mãos cobertas pelas luvas em volta da boca. Acho que elas não conseguiram me ouvir.
Uma corrente de vento me deu um forte empurrão por trás.
Coloquei meu trenó na neve, na beira da colina. Depois, me ajoelhei.
Agarrei os lados do disco e me joguei em cima dele.
Outro golpe de vento me fez começar a escorregar antes que eu estivesse pronta.
Eu quase caí do disco enquanto escorregava. Ganhei velocidade. Dei um salto depois de bater em uma pequena elevação. Eu me segurei.
Gritei.
Ah, não.
A neve branca passava zumbindo. Uma nevasca branca.
Muito branca. Branca e fria.
Uma fria parede branca.
Não. Não.
Estou enterrada nela. Estou enterrada no branco.
Caindo mais fundo, mais fundo...
Agora, percebi que estava gritando.
Não gritava de alegria. Não gritava de felicidade.
Eu gritava de medo.
Gritava aterrorizada.
Gritei até sentir que meus pulmões iam explodir.
E continuei gritando.
Gritei demais. Gritei alto demais.
E as paredes brancas se fecharam.
Enquanto eu gritava. Gritava. Gritava de pavor.
Eu sabia que não conseguiria parar.
Eu sabia que nunca pararia.
