Capítulo Onze – Problemas

O Ballet de la Lumière era o espetáculo bruxo mais visto em toda a Europa. Quando o espetáculo finalmente estreou, em setenta e oito, a audiência francesa foi ao delírio e a bailarina principal foi elevada ao status de diva.

No início da década de oitenta, a maioria do elenco original francês havia sido substituída em sua maioria por russos, italianos e ingleses que seguiam com o grupo por toda a Europa. Feiticeiros de várias nacionalidades com habilidades raras para a dança haviam sido contratados e foram educados na fina arte do balé performático. Os dois bailarinos principais ainda eram os mesmos, mas quase todo o elenco de apoio havia mudado.

A notícia de que o espetáculo chegaria à Inglaterra naquele verão animou a high society. Boa parte já havia visto o original, mas a versão que agora estava em turnê era nova e, diziam os críticos, melhor. As famílias mais nobres reservaram grandes camarotes do Teatro de Saint Patrick, onde seriam realizadas as três únicas apresentações do grupo na ilha, deixando para as outras o trabalho de guerrear pelos ingressos restantes.

Harry Prince havia reservado um camarote para sua família. Severus, apesar de estar cometendo o grande erro de namorar uma rejeitada nos últimos anos, ainda era considerado uma parte dela, principalmente porque o Lorde das Trevas parecia gostar do rapaz. Então, Harry dispusera-se a esquecer que o neto andava de caso com a garota rejeitada dos Malfoy e até mesmo enviara convites para o casal.

Severus os encontrou já dentro do camarim, devidamente vestido com uma bata negra e longa de seda. Os cabelos foram penteados e presos por uma fita da mesma cor nas costas. Os olhos que pareciam túneis sem fim registraram as roupas caras e bem talhadas do casal.

Severus sorriu consigo mesmo ao lembrar que sua própria veste era uma transfiguração de uma roupa mais velha e encardida do que seria recomendável. Estava ficando sem dinheiro, mas não queria pedir mais ao avô. Sabia que se o velho visse seu guarda-roupa, sentir-se-ia mais afrontado do que quando descobrisse o estado da sua conta em Gringotes.

- O espetáculo começa em meia-hora – Severus informou. Passou os olhos por alto no pergaminho que descrevia a programação da noite, apenas captando os horários. – Algum progresso em relação à profecia?

A mudança súbita de assunto quase pegou Harry desprevenido. O homem abriu a boca para responder, mas então a fechou e olhou irritado para o neto.

- Você sabe muito bem que não posso lhe contar isso!

Severus sorriu. Ainda não recebera a Marca Negra devido a uma manobra muito esperta da namorada. Kevin havia declarado ao Lorde das Trevas que Dumbledore jamais os veria como aliados se encontrasse a tatuagem em seus braços. Era óbvia a lógica da afirmação, e se Kevin pretendia saber os segredos mais importantes da Ordem da Fênix, não poderia levantar suspeitas sobre si mesma.

Para Severus o motivo era diverso. Ele não poderia se aplicar em Gandhara ou tirar a licença de professor no Ministério com uma Marca Negra. Seus planos de entrar em Hogwarts como um segundo espião seriam frustrados. Além do mais, era um mestiço. A maioria dos Comensais da Morte o detestava. Só receberia a marca quando provasse seu valor, ou seja, conseguisse ser contratado para trabalhar em Hogwarts.

Ele se maravilhava com a criatividade e inteligência da namorada a cada novo dia. Ela os mantinha intactos para o caso dos prognósticos da guerra, até agora favoráveis ao lorde, mudassem. Poderiam sair incólumes e provar sua inocência enquanto não tivessem a Marca Negra, e sempre havia a Maldição Imperius para culpar.

Severus podia desejar sinceramente que o Lorde das Trevas vencesse, mas não estava tão cego pelo poder a ponto de acreditar que aquilo era uma verdade consumada. A fuga da mãe dele provava isso. Mesmo que estivesse morta, Eileen era uma prova de que mesmo entre o Partido das Trevas havia pontos fracos e vulneráveis que poderiam significar uma derrota.

- Eu consegui essa informação, Harry. Tenho o direito de receber uma resposta.

- Não, você não tem – ele replicou, ácido. O neto andava "esquecendo" o tratamento respeitoso para com ele nos últimos tempos. – Se acha que tem, então pergunte ao mestre os nomes das pessoas – sibilou baixinho, com medo que ouvidos alheios os ouvissem.

- Quer dizer que ele já os tem? – Severus perguntou, prazeroso.

Harry quis morder a língua, se a expressão dele valia alguma pista para como se sentia. Sabendo que concluíra seu trabalho de importunar discretamente os avós, despediu-se. Não pretendia passar meia-hora somente na companhia deles nunca mais na sua vida. Saiu do camarote e ganhou os corredores do teatro.

A grande maioria das pessoas que circulavam era de famílias de sangues puros. Boa parte delas sabia quem ele era. Aquilo significava muitos olhares de desdém enquanto ele descia as escadas. Severus apenas devolveu os sorrisos falsos com seus próprios sorrisos debochados enquanto remexia na varinha ilegal que nunca deixava em casa quando saía.

Seu olhar parou sobre a figura alta que conversava com outra mais baixa num canto da sala. Remus Lupin nunca fora de seu agrado, muito menos quando conversava com sua namorada. Kevin sorria condescendente para o homem, o vestido longo e branco delineando as curvas generosas que passaram tanto tempo escondidas sob um uniforme escolar.

Com sua empatia, Kevin descobrira logo que o ex-gryffindor era um lobisomem, apesar de nunca ter contado a Severus. O ex-slytherin não precisava de empatia para descobrir o motivo pelo qual a namorada protegera o ex-colega dele por tantos anos. Endurecendo a postura, seguiu para o casal e postou-se ao lado dela.

- Ora, ora, o sumido Lupin está de volta!

O homem remexeu-se, desconfortável. Desde um "incidente" no quinto ano dos três, em que Severus quase acabara morto por causa do licântropo, Lupin não se sentia confortável com a presença dele, que antes apenas ignorava.

- Como vai, Snape? – forçou-se a responder, estendendo a mão para o homem.

Cínico, Severus apertou a mão do outro com força.

- Onde estão Potter e Black? Pensei que nunca o deixariam desprotegido... – insinuou, erguendo uma sobrancelha.

A mão de Kevin deslizou pelas suas costas... apenas para beliscá-lo de leve.

- Severus, querido, seus avós não estão nos aguardando? – perguntou, querendo tirá-lo de lá.

- Eles sabem que eu vou demorar um pouco – ele replicou, passando um braço pela cintura dela, o olhar nunca deixando o de Lupin.

Viu o lupino lançar um olhar que envolvia os dois ao mesmo tempo e a boca dele tremer.

- Sirius provavelmente está aprontando alguma, como sempre – respondeu, atravessado. – James está com Lily em St. Mungus.

Severus teve que conter o ímpeto de arregalar os olhos. Sentiu Kevin tremer, o que também não era bom.

- O que ela estaria fazendo em St. Mungus? – perguntou, irônico. – Até onde eu saiba, a sangue-ruim era saudável como uma vaca.

Lupin remexeu-se, inquieto, certamente querendo azará-lo.

- Não admito que trate a Lily como lixo na minha presença, Snape. Não estamos mais em Hogwarts – o outro homem resmungou, ofendido. – E se quer mesmo saber, ela entrou em trabalho de parto ontem.

A mão dele se fechou com mais força em torno da cintura de Kevin.

- Adoraria convidá-lo para se juntar a nós em nosso camarote, Lupin, mas meu avô não aceitaria a idéia de bom grado – Severus comentou, zombeteiro. Viu o outro homem ranger os dentes. – Se nos dá licença, temos mais pessoas com quem falar.

Ele puxou Kevin consigo antes que a mulher pudesse protestar ou despedir-se do outro. Kevin lançou um olhar de desculpas para Lupin por cima do ombro e virou-se para fitar o namorado, enraivecida.

- Que diabos pensa que está fazendo? – murmurou, os olhos lançando dardos sobre ele.

Severus não respondeu, caminhando apressado e puxando-a pela cintura. Interpelou uma dupla de homens que seguia para o banheiro masculino e passou na frente deles. Os dois soltaram exclamações de irritação quando o jovem trancou a porta.

- Severus, o que está acontecendo? – Kevin perguntou, preocupada. Ele não a puxava para banheiros masculinos frequentemente.

Certificando-se que não havia mais ninguém ali, Severus deixou os braços caírem sobre uma pia, onde se apoiou. A cabeça pendeu, fazendo os cabelos presos numa fita tombarem sobre o ombro. O rosto foi ao encontro do espelho sobre a pia, onde bateu com um pouco mais de força do que o recomendável.

Kevin, entendendo tudo, aproximou-se dele e simplesmente colocou uma mão sobre seu ombro. O homem levantou a cabeça e fitou-a, um brilho de desapontamento em seus olhos.

- Levante a cabeça, Snape – ela falou.

Era uma ordem.

Ele fez como ela dizia, endireitando também a postura.

- Metade das pessoas nesse teatro gostaria de nos ver mortos, e a outra metade simplesmente não liga. Se você sair daqui derrubado desse jeito, eles vão estranhar. Até o mestre pode ficar sabendo. E do jeito que você e Remus queriam se mostrar machos, o tom da conversa foi alto o bastante para as pessoas próximas ouvirem. Isso não vai agradar ao Lorde das Trevas, não acha?

- Não sei – ele endureceu a expressão, irritado. – Você está certa ao dizer que eu não devo sair daqui daquele jeito, entretanto.

Ela respirou fundo, fechou os olhos, abriu-os de novo e sorriu.

- Recomponha-se. Temos de encontrar seus avós.

A lembrança do casal foi tudo que ele precisou para endurecer a expressão ainda mais. Segurou o braço da namorada antes que ela alcançasse a porta.

- Só mais uma coisa, Kevin, não quero você perto do Lupin.

Ela respirou fundo, contando até dez, antes de responder.

- Esqueça o Remus, Severus – ela falou. Desta vez era apenas um pedido.

- Não quero você perto dele – ele sibilou de volta. Puxou um relógio de bolso e verificou as horas. – Cinco minutos para o espetáculo começar.

Kevin apenas meneou a cabeça, exasperada, e seguiu-o para fora do banheiro, onde os dois cavalheiros lançaram-lhes olhares mortais.

Chegaram ao camarote justo a tempo. Tiveram que parar para cumprimentar Lucius e Narcisa Malfoy pelo nascimento de seu filho, Draco.

- Dá para acreditar que um dia eu achei que ela fosse minha amiga? – Kevin sussurrou quando finalmente entraram. As luzes já estavam apagadas e os dois tomaram seus acentos depois de a mulher trocar breves cumprimentos e agradecimentos falsos com os avós de Severus.

- Você nunca teve amigos de verdade, meu bem – ele respondeu, no mesmo tom.

Ela calou-se, mais porque era verdade que pelo fato do espetáculo estar começando. Os dois concentraram-se na clássica história trágica, típica de espetáculos de balé, protagonizada por um casal. A bailarina principal era fantástica e fez Kevin querer ser um pouco mais feminina para arrancar todos os resmungos baixos de adoração que ouvia pela platéia.

Severus, normalmente um desdenhador de tanto sentimentalismo, sentiu-se preso à cadeira pela próxima meia-hora. O entra e sai de bailarinos acompanhava o ritmo da história, que ia ficando mais intensa, principalmente com a ajuda de alguns efeitos especiais bruxos. Não era difícil se deixar levar pelo enredo e a atmosfera que havia sido criada desde o começo.

Quando uma nova troca do elenco de apoio foi feita, seus olhos se arregalaram. Desencostando da cadeira e semicerrando os olhos na tentativa de obter uma visão mais acurada, tentou convencer a si mesmo que era um engano, mas não conseguiu. Sim, dançando naquele palco, com um collant da cor de sua pele pálida e os cabelos loiros esvoaçando com os movimentos de seu corpo, estava ela.

Theodora Elizabeth McFusty.

Céus! Ele achava que nunca mais fosse vê-la. Soubera que ela saíra do país anos atrás para fugir da guerra e perseguir sonhos que tinha desde criança. Sonhos que ele não conhecia. Sonhos que, pelo visto, a haviam colocado de volta em sua vida depois de ter tentado esquecê-la com todas as forças.

Murmurou um feitiço que fez sua varinha ganhar um pequeno e discreto ponto de luz na ponta e desenrolou o pergaminho da programação. Não prestara atenção antes, mas sabia que o nome dos dançarinos estava impresso ali. Kevin, curiosa ao ver o pontinho de luz acesso, inclinou-se para seguir a varinha dele que escaneava o pergaminho rapidamente. Quando o objeto parou iluminando o nome da ex-hufflepuff escrito com tinta roxa, ela soltou um muxoxo, mas calou-se.



Quando o intervalo entre o primeiro e o segundo ato do espetáculo soou, ela correu para o banheiro. Quando voltou à porta do camarote, ele não estava mais lá. Murmurando uma desculpa aos avós dele, deixou-os no local e percorreu os corredores.

Ela sabia exatamente aonde ele fora, mas não sabia se queria enfrentar as conseqüências que aquilo trazia para sua vida.

Ele nem mesmo pensou no que fazia. Uma urgência sem tamanho o tomou quando ouviu o sinal do fim do primeiro ato e, assim que a namorada saiu do camarote, ele escapuliu também. Simplesmente tinha que vê-la, chegar mais perto, conversar com ela. Por Merlin, ele empenhara a própria vida para manter a dela salva! Queria falar com ela, só isso, disse a si mesmo.

Não foi difícil entrar no camarim. Tendo furtivamente entrado e saído de vários lugares durante toda a infância e adolescência, Severus já era um perito naquilo. O camarim dela era dividido com outros bruxos ingleses. Alguns ele reconheceu, outros não. Os poucos que o reconheceram de volta certamente se assustaram, perguntando-se o que ele fazia ali.

Ela o viu pelo espelho, através do qual arrumava a maquiagem. Raciocinando rápido, como sempre tinha feito, apenas apanhou um robe e conduziu-o para fora do camarim. Os dois se alojaram num armário abandonado e Severus murmurou Lumus para sua varinha, que se acendeu em seguida.

Ela não sorria.

- O que você quer, Severus? – perguntou, impaciente.

- Somente saber de você – ele deu de ombros, com a impaciência que lhe era característica quando ela estava por perto.

- Eu estou bem – ela resmungou. Se soubesse que ele viria ao espetáculo naquela noite, teria arranjado uma desculpa para não se apresentar. – Fico feliz que tenha vindo me ver – murmurou, com um sorriso amarelo.

Os olhos continuavam frios.

- Thea...

- McFusty – ela o corrigiu. Olhou para outro lado do armário. – Pra você, é McFusty.

Aquilo serviu como uma punhalada para ele. Não esperava ser bem recebido, já que a tinha ignorado ostensivamente por anos a fio, mas também não esperava aquele tratamento. Não dela.

- Thea... – repetiu, e simplesmente ignorou quando ela se virou para ele com uma careta. – Não poderia ter sido. Nunca ia dar certo.

Ele não sabia ao certo se falava apenas da antiga amizade ou de algo mais. O coração dela, entretanto, pareceu entender, pois o olhar dela enterneceu-se.

- Por que você sempre afasta as pessoas de você deliberadamente, Severus? – perguntou, angustiada. Não queria vê-lo, muito menos ter aquela conversa. – Você nunca me deu uma chance de decidir se valeria a pena tentar ou não.

Ah, agora estavam falando decididamente de amor. Ele supirou, e seu olhar perdeu a frieza e distância habitual. Mostrava apenas a pureza de emoções que o invadiam sempre que encontrava com ela.



- Thea... – ele murmurou pela terceira vez, mas antes que pudesse falar mais alguma coisa, ela ergueu uma mão para pedir silêncio.

- Chega, Severus. Não adianta ficar lamentando – ela comentou, o olhar novamente distante.

Ele avistou um brilho incomum e agarrou a mão dela. Arregalou os olhos ao ver o anel de brilhantes pequeno e delicado colocado no dedo anelar.

- Você vai casar?! – ele esganiçou, confuso. Algo caiu em seu estômago como uma pedra.

- Sim, Severus. Eu vou casar.

O aperto na mão dela tornou-se maior.

- Com quem?

- Não interessa!

- Com quem, Theodora?

Ela respirou fundo e contou até dez para se acalmar antes de responder:

- Com o Remus.

- Lupin? Remus Lupin?! Ele é um lobisomem, pelo amor de Deus!

- E o que você tem a ver com isso? – ela perguntou, irritada, soltando a mão da dele. – Absolutamente nada.

Ele abriu a boca para protestar, mas calou-se ao não encontrar palavras.

- Remus é um homem maravilhoso e tem me deixado muito feliz. Conheço sua condição e a aceito junto com tudo o mais que o concerne. Você não vai estragar isso, Severus. Não desta vez.

Os olhos do homem cresceram, arregalados. Sua boca abriu-se mais uma vez e então se fechou. Suas feições endureceram e seus olhos passaram a ela aquela conhecida sensação de frio cortante e solidão.

- Acabou?

Era uma pergunta simples, mas com complexos significados e respostas mais complexas ainda.

- Acabou – ela repetiu, assentindo.

- Nox.

Não houve pensamentos naquele ato. Ele apenas a puxou para si e colou a boca na dela do mesmo jeito que já fizera centenas de vezes, em sonhos. Ela se mexeu, tentando soltar-se, mas ele a prendeu firme junto a si. Em pouco tempo ela parou de protestar, mas tampouco respondeu ao seu beijo. Simplesmente imobilizou-se, e todo o sonho que ele tinha com ela desvaneceu-se.

Não era um gosto doce que ele tinha na boca. Não era calor que sentia vindo dela. Não havia palavras ou atos de carinho. Também não havia rubor ou vergonha. Nem mesmo um sentimento de culpa.

Não havia nada.

- Eu acabei, também – ele murmurou, soltando-a por fim e saindo do armário.

Thea tentou segui-lo, mas Remus estava vindo do outro lado do corredor. Viu os dois homens trocando olhares assassinos, mas eles não se confrontaram. Snape sumiu em uma curva do corredor e Remus logo a alcançou, abraçando-a.

- O que ele queria com você? – o lupino perguntou, preocupado.

Ela não respondeu de imediato. Ficou observando o local onde o vira desaparecer. A imagem que tinha em sua mente não era a de um homem crescido, independente e envolvido com as Artes das Trevas até o pescoço.

A imagem que ela tinha era a de um garoto de sete anos sentado ao lado dela num cemitério. Um garoto com quem dividira seu coração, e que dividira o seu próprio com ela antes de ser obrigado a aprender que aquilo era proibido. Um garoto que rira com ela antes de acreditar que ela era uma traidora do sangue. Um garoto que a abraçara quando se despediu dela e foi morar com os avós, e que ela jurara jamais esquecer.

Mas ela quebrara a promessa. Ela o esquecera, distanciara-se dele. Destruira o que restara do menino que fora seu primeiro amigo quando se recusou a continuar tentando quebrar o gelo que ele solidificara ao redor do coração. Ela sabia que ele jamais conseguiria lutar contra si mesmo ou contra o que fora inserido forçosamente em sua cabeça até que ele simplesmente começou a aceitar passivamente. Ele já fora machucado demais para voltar a ter a inocência infantil que um dia poderiam ter compartilhado.

Ele nunca a amara de verdade. Disso ela tinha certeza.

- Apenas se despedir – ela respondeu, num murmúrio, soltando-se de Lupin. – Apenas se despedir – repetiu, e o peso da frase finalmente caiu sobre si.

Severus voltou como um trovão para o corredor dos camarotes. Kevin o interpelou pouco antes de alcançarem a porta do camarote dos Prince. Quando viu os olhos em fúria dele, simplesmente agarrou sua mão e endureceu o olhar. Não havia tempo ou local apropriados para consolo enquanto não saíssem dali.

Deixando a mão dela entrelaçada à sua, ele caminhou para a porta. Abriu-a vagarosamente, não querendo assustar os avós, mas uma voz o fez parar de se mexer antes de escancará-la. Chamou Kevin, que também pôs o ouvido na pequena abertura que ele abrira, e ouviu a voz de seu avô.

-... para o Lorde concluir suas pesquisas. Os Potter acabaram de ser removidos de St. Mungus para algum outro lugar. Não sabemos ainda qual. Pelas informações que temos, podem muito bem estar em algum local implotável, ou sob um Fidelius.

- Ou em Hogwarts – a voz de Rabastan Lestrange os alcançou também, séria. O homem era um Comensal da Morte bem quisto entre os demais, e para o Lorde também. – Dumbledore não teria tempo de fazer um feitiço Fidelius tão rápido. O pirralho Potter nasceu ontem, perto da meia-noite.

- Sei que teve um segundo casal dando à luz um menino nos últimos dias.

- Sim – Rabastan confirmou. – Os Longbottom tiveram um menino também. Foram removidos de St. Mungus logo após o parto, já que a mãe e o bebê estavam saudáveis. Também não sabemos sua localização, mas eles não podem se esconder por muito tempo. São Aurores ativos e precisarão comparecer ao Ministério da Magia mais cedo ou mais tarde.



Alice. Severus tremeu mais uma vez, assustado. Por que diabos ele tinha que ver duas ex-amigas envolvidas naquela sujeira da profecia daquele jeito? O que ele fizera para desviar as atenções dos Comensais da Morte delas não adiantara nada? A mão de Kevin apertou a sua. Provavelmente a namorada sentira a oscilação de sentimentos. Respirou fundo e controlou-se.

- A peça vai recomeçar em menos de um minuto – Rabastan despediu-se e seguiu para a porta.

Ao ouvir os passos pesados, Severus fechou a porta, puxou Kevin para junto de si e beijou-a com toda a indecência de que foi capaz. Sentiu a porta ser aberta novamente e desta vez escancarada. Houve um silêncio espantado por um longo minuto e depois um pigarro forte, que os obrigou a se separar.

- Rab... Rabastan? – Kevin gaguejou, com seu melhor olhar de sexualmente faminta. Ajeitou as pregas do vestido, um sorriso malicioso em seu rosto. – Não sabíamos que estava aí.

- Percebe-se – o homem murmurou, um pouco ruborizado.

Trocou um olhar rápido com Snape, que parecia um coelho no cio, e saiu de lá constrangido. Ainda mantendo o disfarce, os dois olharam para dentro do camarote, onde os Prince os observavam com desgosto.

- Acho que fiquei com fome de repente – Severus desculpou-se, um sorriso lascivo em seu rosto enquanto deslizava a mão pela cintura da namorada e deixava-a cair mais um pouco, sobre os quadris dela.

Sophie deu-lhes as costas, entre envergonhada e insultada. Harry parecia um pouco invejoso de ver o neto com uma beldade e toda a energia sexual entre eles, esquecido de que não gostava da garota. Simplesmente resmungou um "Entrem e fechem a porta!" e voltou a olhar para a frente.

Os dois sentaram-se novamente em seus assentos, mas o espetáculo, para eles, já havia terminado.

Quando voltaram para a casa, ele estava novamente tenso. Kevin deixou-o tomar um banho antes dela e só voltou a falar quando saiu de seu próprio banho.

- Sinto muito, Severus – ela murmurou, amarrando o robe de seda ao redor da cintura e sentando ao lado dele na cama.

O namorado usava a calça do pijama e mais nada. Deitado, fitava o teto do quarto com um olhar vago.

- Sei que você ainda se importa muito com elas. – Ele abriu a boca para protestar, mas ela o interrompeu: – Quero lembrá-lo que se mentir pra mim, morre.

Ele resmungou ao ser lembrado do Voto Perpétuo que haviam feito.

- Muito bem, eu me importo. E daí? Tudo o que eu fiz serviu para alguma coisa? Elas estão mais ferradas do que eu jamais poderia deixá-las se continuasse nossa amizade!

- Elas estão vivas, Severus – Kevin objetou, dura. – Não estariam se vocês estivessem se vendo frequentemente.

- Como você pode ter certeza?

- O Lorde mantém vigias sobre nós dois, Severus. Somos espiões, e isso por si só nos torna alvo da desconfiança de qualquer um dos lados para os quais trabalhamos.

- Estamos vivos, não estamos? – ele replicou, usando o próprio argumento dela.

- Não estou reclamando! – bufando, ela segurou o rosto dele entre as mãos. – Mas se o Lorde das Trevas descobrir sobre sua antiga amizade com aquelas três garotas, Severus, você será um homem morto. E eu também.

- Você pode alegar que não sabia de nada.

Ela riu, mas não era de alegria.

- Como se ele fosse engolir! – sibilou, irônica. – Me diz uma coisa, por que você acha que eu nunca te conto quase nada do que faço?

- Porque eu não pergunto?

Ela ergueu uma sobrancelha, impaciente.

- Eu teria que responder com sinceridade se você perguntasse, mas não é isso. Nunca encorajei você a perguntar nada sobre minha missão.

- Agora que você falou... – ele resmungou, espantado de nunca ter prestado atenção àquilo. – Por quê?

- Porque o Lorde das Trevas acha que você sabe algo – ela respondeu, séria. – Ele vasculha sua mente à procura de alguma confidência que eu possa ter feito "no calor da paixão"... – ela explicou, amuada.

Ele sorriu.

- Ótima expressão – zombou, e a viu sorrir um pouco. Aquilo o acalmou. – Eu sei que ele me vasculha cada vez que me vê. Mas nunca pensei que fosse porque queria saber se você é fiel.

- Nós não temos a Marca Negra, Severus. Ele não tem como nos localizar, ou como nos transportar até ele quando quiser. Temos horários certos para procurá-los, e mesmo assim somos deixados no escuro sobre para onde estamos indo até o último minuto – concluiu, voltando à seriedade. – Nossa insistência de que precisamos permanecer não-marcados apenas o deixa mais desconfiado.

- Ele está querendo me marcar – Severus confessou, puxando-a para perto depois de sentir um súbito frio com aquela lembrança. – Vem insinuando o fato em cada conversa que temos... Diz que em breve eu serei digno de carregar seu símbolo.

Kevin estremeceu, assustada.

- Você não pode aceitar, Severus. Não pode!

- Acho que ele só está esperando que eu passe nos exames para ensinar em Hogwarts e entrar para Gandhara antes de me dar a marca. Ele sabe que eu vou dar um jeito de escondê-la quando não houverem mais testes.

- Não aceite – ela meneou a cabeça, uma certa urgência em sua voz. – Por favor, Severus.

Ele franziu o rosto, confuso.

- Kevin, você está traindo o Lorde das Trevas?



A mulher arregalou os olhos. Infelizmente não podia mentir para ele sobre aquilo. A raiva que a consumiu pela simples constatação a fez segurar mais uma vez o rosto dele entre as mãos, antes de berrar:

- É claro que estou, seu idiota! Por que você acha que eu sempre quis ser espiã?

- Para agradar ao seu tio e ao Lorde.

Ela meneou a cabeça, desapontada. Um dia contaria a ele a história de sua vida, e um dia ele a entenderia. Mas não podia ser naquele momento.

- Não posso te dar meus motivos, Severus. Você já estará em apuros suficientes para esconder do Lorde que eu não o apoio.

- E quem disse que eu vou esconder?

Um arrepio correu pela espinha dela ao ouvir a pergunta. Seus olhos se encontraram com os olhos negros dele. Estavam totalmente isentos de emoções ou respostas às suas perguntas. Ela, entretanto, foi firme ao responder:

- Você vai.

- Me dê um motivo.

- Se você não fizer isso, eu vou morrer.

Ele considerou a resposta por um momento, pensativo.

- Boa. Mais alguma coisa?

Ela reprimiu um sorriso. Conhecia aquele homem com a palma de sua mão, e cada inflexão de voz dele.

- Você ia passar um bom tempo sem sexo.

- Ótimo. Mais?

- Você me adora.

- Talvez. Algo mais consistente?

Ela perdeu o sorriso ao continuar, respirando fundo:

- Você sabe que ele te mataria se tivesse sequer uma evidência de traição, fosse sua ou minha.

Ele sentiu a preocupação dela e perguntou-se como conseguira ter quatro garotas que gostavam tanto de se importar com ele, em graus diferentes.

- Nossas cabeças estarão a prêmio no dia em que ele souber disso – ele disse.

- Ele não vai vencer a guerra, Severus.

- Como você pode ter tanta certeza disso?

- Dumbledore – ela respondeu. – As aulas que tive com ele serviram para muitas coisas, inclusive isso. – Sorriu brevemente, e uma idéia entrou em sua mente. – Gostaria que viesse comigo quando fosse vê-lo da próxima vez.



- Quê? – o homem exclamou, atônito.

- Venha comigo quando eu for me reportar a Dumbledore, Severus. Pode ser que você mude de idéia – ela repetiu. Seus olhos encontraram os deles mais uma vez, esperançosos. – Venha.