DIA 11
- BOTÃO ERRADO -
Num bocejo, Alex se alongou no sofá.
O mesmo sofá frio e
desconfortável de sempre.
Ainda não havia ninguém no salão.
Talvez eu tenha chegado um pouco cedo...
bem, era de se esperar, já que eu fiquei a noite
toda escrevendo o relatório da minha missão
no Castelo do Esquecimento, que durou até
ontem. E só porque eu passei a noite toda
escrevendo o relatório, isso não significa que
eu tenha feito corpo mole durante a missão.
Sentado no sofá, Alex se virou para a janela, observando Kingdom Hearts, que flutuava naquele céu noturno.
?: Chegou cedo, huh?
Ouvindo aquela voz, Alex desviou o olhar de Kingdom Hearts. Ele se deparou com Asïx, parado diante de si.
Alex: Oh, é você.
Asïx: É que você sempre costuma chegar atrasado.
E com suas palavras, Asïx seguiu para o lugar aonde sempre ficava.
Então já tá na hora.
Alex deu outro longo bocejo, alongando-se. E então, outra pessoa apareceu. Era Onix.
Alex: E aí, Onix.
Onix: — Bom dia...
Evitando olhar para Alex, Onix passou diretamente por ele. Ela logo seguiu na direção de Asïx, sem ao menos dar uma chance para que Alex continuasse. As costas que ela virou para Alex pareciam rejeitá-lo.
Onix: Asïx. Qual é a minha missão de hoje?
Asïx: Coletar corações na Cidade Crepuscular.
Onix: Entendido.
Sem uma única palavra desnecessária deixar seus lábios, Onix partiu em um Corredor das Trevas que abrira no canto do salão.
Parando para pensar, eu não vi
a Onix na torre do relógio
ontem, nem mesmo anteontem.
Alex: ...
Alex encarou o ponto de onde Onix desaparecera. Como se notasse o olhar de Alex, Asïx se aproximou.
Asïx: — Você ficou sabendo, não é?
Alex: Fiquei sabendo? Não, eu não falo com a Onix desde que voltei.
Asïx: Uhm...
Talvez o Asïx esteja
pensando que falou demais.
Asïx: Ficou claro para nós que Onix foi um erro. Apenas isso.
Alex: E o que isso quer dizer?
No exato momento em que Alex fez a pergunta, Lexci entrou no salão. Alex conteve sua língua.
Lexci: Você chegou cedo, Alex.
Alex: É...
Evasivamente, Alex consentiu, voltando seu olhar para Asïx, que continuava sem qualquer expressão no rosto.
Asïx: Hoje precisamos que você extermine um Sem-Coração poderoso na Cidade Crepuscular.
Lexci: Entendido.
Asïx: Vá preparado.
Lexci consentiu, voltando-se para Alex.
Lexci: Beleza, Alex. A gente se vê.
Alex: A-Aham.
Lexci logo entrou em um Corredor das Trevas, como Onix fizera.
Onix e Lexci foram para o mesmo
mundo em suas missões... e o fato de ser
na Cidade Crepuscular também é bem
interessante, mas eu não tenho uma razão
em particular para perguntar sobre isso.
Entretanto — foi Asïx quem abriu a boca.
Asïx: Você tem dúvidas, não é?
Ele se certificou de lhe questionar isso depois que Lexci havia desaparecido por completo. Alex o encarou, dando um breve suspiro.
Alex: A Onix e o Lexci estão com a mesma missão?
Asïx: Cada um tem a sua própria missão, uma delas é derrotar um Sem-Coração e a outra é coletar corações. Mas eu lhes dei a chance de se encontrarem por lá.
Alex: Deu? De propósito? Pra quê?
Asïx: Ainda é necessário manter a amizade deles a um certo nível.
Alex: Como assim?
Asïx: — Fique fora disso. Não se envolva demais com eles.
Alex: O que você quer dizer com isso? Não vai dizer mais nada?
Asïx: Você logo compreenderá. Muito bem, agora é hora da sua missão de hoje. O homem vestindo o casaco da Organização — não, creio que talvez seja melhor que eu o chame de Yami.
Alex: — Você já leu o meu relatório?
Asïx: Sou capaz de supor sem tê-lo lido.
Uma das coisas sobre as quais eu fui
investigar no Castelo do Esquecimento eram
os casacos. Mas os casacos não haviam
desaparecido. Isso significa que alguém pôs
suas mãos em um de alguma outra forma.
Tem um número limitado de pessoas
que seriam capazes de fazer algo assim.
Alex escrevera o nome de Yami, cuja localização era desconhecida, em seu relatório, mas citara que era apenas um palpite.
Isso não quer dizer que eu não tenha bases
para acreditar que seja ele, mas me
parece que o Asïx pensa o mesmo que eu.
Asïx: Descubra sua localização. Mas não o confronte numa luta. Onix perdeu.
Alex: A Onix perdeu...?
Então era por isso que
ela parecia estar tão deprimida.
Asïx: Mas isso só quer dizer que aquela coisa é um erro.
Alex: Acho que dizer que a Onix é um erro é demais, tendo em vista que é possível que seu oponente tenha sido o Yami.
O Yami que eu havia conhecido não
me parecia tão forte assim. Mas o Yami
tinha aquela coisa dentro de si. O poder da
escuridão... não o poder do Vourath. Mas
ele não era capaz de controlar esse poder,
no Castelo do Esquecimento. Só que
o tempo se passou desde então. Eu não
sei como é que ele está atualmente.
Asïx: — Será mesmo?
Alex: Ei, por quê —
Asïx o interrompeu.
Asïx: Pode ir para qualquer mundo. Mesmo se encontrar apenas a presença dele, já estará bom. Quero que você descubra mais sobre ele. Dessa forma, poderemos encontrar pistas sobre a localização do herói.
Então ele não vai me responder
mais nada. Por que você
não gosta da Onix tanto assim...?
Alex: Entendido.
Alex consentiu, seus olhos voltados para Asïx.
Asïx: Como eu disse, fique fora disso. Não se envolva demais com a Onix.
Ouvindo-o repetir aquelas palavras, Alex voltou as costas para Asïx, como se para testá-lo.
Alex: Isso é uma ordem... ou um aviso?
Asïx não respondeu.
{ . . . }
A missão de hoje também parecia ser fácil. Completamente exausta, Onix se arrastava na direção do Sem-Coração que era seu alvo. A missão era em um lugar bastante familiar — a Cidade Crepuscular.
Ontem, e anteontem, eu não fui para
a torre do relógio. Eu não tenho
falado com o Lexci e com o Alex. Eu
não quero falar com ninguém.
Eu não sei o que dizer. E, é claro,
eu não sei o que devo fazer.
Além disso, eu não consigo dormir.
Eu sonho. É assustador. Eu não
Me lembro sobre o que são os sonhos,
mas eles de fato são assustadores.
Onix parou de andar. Ele podia ouvir o sino da torre do relógio tocar ao longe.
O que eu devo fazer?
?: Ei, Onix!
Ouvindo o repentino chamado, Onix arfou, virando-se. Aquela voz era de — Lexci. Ele estava sorrindo, correndo em sua direção.
Onix: Lexci...?
O Lexci está diante de mim, que
estou sem fôlego. Isso não
pode ser... uma coincidência, não.
Será que ele me seguiu?
Onix: Você não tem uma missão?
Lexci: Tenho. Me mandaram pra cá, hoje.
Onix: Sério? Também me mandaram pra cá...
Nós não costumamos ter missões separadas
no mesmo mundo, então isso me parece
estranho. Talvez possa ser, sim, uma mera
coincidência. Ou será que foi o Lexci
que fez com que isso acontecesse? Eu não
acho que o Asïx se daria ao trabalho de
fazer isso. E eu não sei o que dizer ao Lexci.
Onix olhou para o pôr-do-sol.
Mas tem que ser dito.
Adequadamente.
Onix desviou o olhar para Lexci.
Onix: Lexci — eu sinto muito.
Ela respirou profundamente.
Onix: Eu não devia ter saído correndo daquele jeito, ontem.
Lexci: Tudo bem, não me incomodou.
Onix se sentiu um pouco aliviada.
Por que será que eu saí correndo,
naquela hora...? Acho que eu
estava com medo de alguma coisa.
Onix olhou para suas mãos.
Onix: Eu estava chateada. Eu me saí muito mal em uma missão.
Por alguma razão, eu sinto
minhas mãos geladas.
Onix: Você já ficou sabendo sobre o cara que finge ser um de nós? O impostor da Organização? Eu recebi ordens para eliminá-lo... mas não fui capaz de derrota-lo. O Asïx ficou tão bravo que disse que eu era um "erro".
Com uma expressão de infelicidade estampada em seu rosto, Lexci franziu as sobrancelhas.
Sabe, Lexci — nós dois não devíamos
ter corações, então por que você
acha que isso é tão doloroso para nós?
Lexci: Oh... putz, eu sinto muito...
Onix: Não sinta. Aquele idiota pode dizer o que quiser. Eu aguento.
Com as palavras dela, Lexci segurou o que ia dizer.
É, ele pode dizer o que quiser.
Eu não ligo. Mas o meu peito dói...
Onix observou o pôr-do-sol. E então, Lexci se voltou para ela.
Lexci: Ei, Onix... por que não trabalhamos juntos hoje?
Onix: Huh? Como?
Lexci sorria.
Lexci: Vamos dividir nossas missões. Se trabalharmos juntos, podemos acabar com o trabalho mais rápido.
Talvez você esteja
certo... talvez.
Onix: Bem... tá certo. Talvez a gente termine com tudo mais cedo, e tenhamos mais tempo pra tomar picolé.
Onix parecia pensativa.
Como daquela vez... quando eu
não conseguia usar a minha
Chave-Espada. O Lexci está
sempre me ajudando com tudo.
Lexci: Vem, Onix.
Onix consentiu.
{ . . . }
Depois de derrotarem dois Sem-Corações gigantes e comprarem picolé, eles seguiram para a torre do relógio — o ponto de encontro. Lexci tomava seu picolé.
Lexci: Aonde será que está o Alex? Acho que a gente terminou com o trabalho um pouco rápido demais, né?
O Lexci está com um fraco sorriso no
rosto... mas eu não consigo sorrir.
Onix olhava vagamente para seu picolé, que já estava na metade.
Sabe, eu aposto que o Lexci poderia
ter derrotado aquele cara, não é?
Hoje, parecia que o Lexci era quem
estava fazendo a maior parte do meu
trabalho. Aquele impostor da
Organização... eu não sei o nome
dele. Eu não sei... mas eu senti que já
havia visto o seu rosto antes. Por
que será? Será que a minha Chave-
Espada... é uma fraude, como
ele disse? Fraude, inútil, mentira...
um erro que não devia ter sido cometido.
Lexci: Onix? Ei... Onix!
Num impulso, Onix ergueu o olhar, ouvindo a voz de Lexci.
Lexci: Qual é o problema com você, hoje?
Onix: Desculpa... minha cabeça tá longe...
Tem tantas coisas sobre as
quais eu tenho que pensar. Tantas,
mas tantas coisas. O Lexci não
pensa, não é? Sobre nós dois, sobre
os Incorpóreos em geral, sobre
Kingdom Hearts... sobre o coração.
Por que isso é tão doloroso?
Onix: Ei, Lexci.
Lexci: Hm?
Onix: Por que fazemos tudo isso? Por que trabalhamos para a Organização?
Lexci: Como assim, por quê?
O sorriso desaparecera do rosto de Lexci. Ele pareceu pensar um pouco, e só então lhe deu uma resposta.
Lexci: Para que possamos recuperar os nossos corações, não é?
Sua resposta parecia decorada de um livro.
Onix: E por quê? Pra quê precisamos de um coração?
Lexci inclinou a cabeça.
Lexci: Eu não sei. Mas quando tivermos um, estaremos numa posição melhor para julgar. Certo?
É, a resposta do Lexci parece algo que
lhe foi dito, é claro. Com essa resposta, não
me parece que ele pensa a respeito de
nada. É só parar de pensar — apenas isso.
Quando tivermos corações, tudo será
resolvido... mas será que isso é verdade?
Onix murmurou.
Onix: Talvez.
Com olhos ansiosos, Lexci a observou. Ela abaixou o olhar.
Onix: Eu só queria saber por que estava fazendo tudo isso. Como cheguei aqui...
Como cheguei aqui? Por que estou
aqui? E por que é que eu tenho
que coletar corações com a Chave-
Espada? Uma fraude... por
que é que eu me importo tanto
assim com o que aquele cara disse?
Onix: Eu comecei a ter uns sonhos muito estranhos.
Lexci: Sério?
Onix: Eu nunca consigo me lembrar sobre o que eles são. Eu simplesmente acordo sentindo que... que algo está muito errado.
É... eu definitivamente sonho com ele,
também. Eu sinto que já me encontrei com
ele nos meus sonhos. Aquele cara...
quem é ele? Mas — eu não me lembro de
nada. Eu não consigo me lembrar dos
meus sonhos. É doloroso. É como se essas
coisas obscuras estivessem sempre
aninhadas dentro de mim... no meu peito.
Lexci: Bem, se isso te faz sentir melhor, o Braxig disse que você e eu somos bem especiais. "Excepcionais", foi o que ele disse.
Lexci parecia animado ao dizer aquilo, e Onix ergueu o olhar.
Onix: — Ser especial significa ser diferente. É porque eu sou um erro.
Lexci começou a negar, um olhar preocupado em seu rosto.
Lexci: Você não é um erro.
Ei, qual é a dessa negação toda?
O Lexci também acha que eu sou um
erro, não acha? O que será especial em
mim, afinal? O fato de eu poder usar
a Chave-Espada? Mesmo assim...
Onix se levantou, olhando para o céu.
Onix: Bem, podemos ambos sermos excepcionais, Lexci. Mas eu não acho que nós sejamos iguais.
Lexci: Onix.
Lexci segurou a mão dela. Por um instante — ela viu algo.
O pôr-do-sol... vermelho. O céu —
Eu me lembro. Um caminho que
nunca acabava. Uma encruzilhada... e
a lua. A lua, flutuando no — céu.
Onix: Solte-me —
Ela livrou sua mão de Lexci.
Lexci: Onix!
E então, Onix deixou o ponto de encontro sem olhar para trás.
{ . . . }
No fim, Alex não fora capaz de encontrar nenhuma pista sobre o homem que vestia o casaco da Organização — Yami.
Alex: Um picolé de sal marinho, por favor.
Após comprar um picolé na loja de doces, Alex seguiu para a torre do relógio.
Eu já não esperava que fosse encontrar
o Yami. Aposto que o Asïx também
pensava o mesmo. Mas é bem provável
que o Asïx vá ficar com aquela cara
horrível de sempre e jogar um ou dois
esculachos na minha cara, dizendo que eu
"não consegui encontra-lo". Mas essa é a
"personalidade" do Asïx, afinal. Resumindo,
para fingir ser humano, o Asïx apenas
faz isso. E muito. Isso não quer dizer que
ele realmente esteja sentindo qualquer
tipo de desgosto. Isso também é
natural, afinal, ele não tem um coração.
Alex: É tão salgado...
Murmurando o mesmo de sempre, Alex chupava seu picolé enquanto subia a colina que levava até a estação.
Seja como for... se a Onix perdeu pro Yami, isso
quer dizer que eles dois entraram em contato.
Será que o Yami viu o rosto da Onix? Se viu, pode
ser que ele tenha sentido alguma coisa, já
que o rosto dela se parece tanto com o da Maiko.
Chegando ao topo da torre do relógio, Alex viu apenas uma pessoa sentada por lá — Lexci.
Ele não tava trabalhando
junto com a Onix?
Alex: E aí, Lexci!
Lexci se virou, uma expressão um tanto deprimida em seu rosto.
Lexci: Oi, Alex...
Fingindo não saber de nada, Alex se sentou ao seu lado.
Alex: A Onix não pôde vir de novo, hoje?
Lexci abaixou o olhar.
Lexci: Você não viu ela por pouco. Ela acabou de ir embora...
Parece que aconteceu
alguma coisa.
Sem saber se devia dizer alguma coisa ou não, Alex se sentiu agoniado. Mas resolveu ficar quieto. Até o próprio Alex não sabia se estava ou não obedecendo as ordens de Asïx.
Mas — ainda sinto que eu devia
dizer algo agora, só isso.
Alex deu uma mordida em seu picolé, ao lado de um silencioso Lexci.
Lexci: Acho que eu também vou embora...
Lexci se levantou.
Alex: O quê, mas já? Depois de eu ter vindo pra cá?
Lexci: Há, há... há, uhm... acho que você tá certo. Foi mal.
Lexci logo voltou a se sentar novamente. Alex voltou o olhar para ele, dando mais uma mordida em seu picolé.
Vendo o rosto dele desse jeito... eu
não consigo NÃO me envolver.
Alex: Aconteceu alguma coisa?
Lexci: Nah, não é nada...
Ele não sabe mentir. Dá pra notar
direitinho. Mas acho que isso
não é uma prova concreta de que
alguma coisa tenha acontecido.
Seja lá o que tenha acontecido, me
parece que o Lexci também não
conseguiu entender o motivo. É como
uma emoção... que está bem no
fundo das minhas memórias.
Alex murmurou.
Alex: — Garotas são mesmo complicadas, huh?
Surpreso, Lexci olhou para ele.
Lexci: Como você sabia que era nisso que eu tava pensando?
É meio hilário vê-lo perguntar isso com
um rosto tão sério. Com todas as
evidências mostradas aqui, não era de
se acreditar que o Lexci estivesse
pensando em outra coisa, se não na Onix.
Alex: É porque você não é tão complicado. Mas não leve isso pro lado pessoal. Em geral, os Incorpóreos não são.
Sem perceber que o que Alex havia dito era meio que uma piada, Lexci nem ao menos riu, e lhe fez outra pergunta, um olhar sério em seu rosto.
Lexci: Quer dizer... que pessoas reais são mais complexas do que nós?
Alex respirou fundo, abrindo um breve sorriso.
Alex: Bem, é claro. Principalmente quando são reais e mulheres ao mesmo tempo. Isso é como uma dose dupla de complicação.
Lexci: Então… e quando um Incorpóreo é uma garota, como a Onix?
Alex: Daí é uma dose só de complicação.
Lexci inclinou a cabeça.
Lexci: Estou tão perdido.
Bem, é claro que você não vai
entender muito bem, vendo
a forma como estou te explicando.
Alex: Bem, o que é importante de se lembrar quando estiver lidando com garotas é que não se pode apertar os botões errados. Deu pra memorizar?
Alex abriu um sorriso. Ele não parecia pensar naquilo como um assunto que fosse muito sério — e falava desta maneira para que o mesmo passasse a valer para Lexci.
Lexci: Uhm... saquei... queria que você tivesse me dito isso antes.
Lexci deu um grande suspiro.
Alex: Bem, é só dar um tempo pra ela.
Lexci parecia um tanto descontente.
Lexci: Por quê?
Alex: Porque se você se apressar e sair tentando consertar as coisas sozinho, vai acabar apertando mais botões.
Lexci deu outro suspiro, abaixando a cabeça. Ele se sentia derrotado.
Lexci: Tá bem. Que seja.
Ele é que nem um humano.
Alex achou engraçado, e deu uma risada. E então, sem pensar, ele se voltou para Lexci.
Alex: Você é uma figura, garoto!
Bravo, Lexci fez um bico, encarando Alex.
Lexci: Não me chame de "garoto"!
Ver isso foi ainda mais engraçado, e Alex não conseguiu parar de rir.
Lexci: Para de rir de mim!
De alguma forma, Alex conseguiu conter a risada, um sorriso ainda formado em sua boca.
Alex: Você vai se acertar com ela. Confia em mim. A Onix pode se cuidar sozinha.
Lexci: Espero que sim.
Lexci desviou o olhar para o pôr-do-sol.
Vai ficar tudo bem — a Onix
pode se cuidar sozinha.
{ . . . }
Ei, quem é você? Ei,
você sabe quem sou eu?
Onix girava e se virava em sua cama.
Será que eu acabei de acordar de um
sonho? Ou será que ainda estou
sonhando? Eu não sei. Eu tenho que
me levantar... mas sinto o meu
corpo tão pesado. Bom, acho que
logo eu melhoro. Isso me lembra, o que
era "aquilo" que eu vi ontem? Quando
eu deixei o Lexci... "aquilo". Um céu todo
negro. Mas já não consigo me lembrar
muito bem. Cenas dos sonhos... eu
não sei bem se isso me é familiar. Tá bem,
agora eu tenho que me levantar. Tá...
é, eu tô na minha cama, como sempre.
E hoje... eu não posso mais perder.
{ . . . }
Hoje, eu estou investigando um mundo
chamado Cidade do Halloween. O Lexci também
já deve ter vindo pra cá, alguns dias atrás.
Essa era a primeira vez que Alex ia para este mundo. Ele sentia que aquele mundo empoeirado combinava bastante com os membros da Organização.
Alex olhava ao redor enquanto destruía Sem-Corações. Parecia haver uma passagem escondida perto de uma tumba — mas de repente, um Sem-Coração em forma de fantasma apareceu, jogando Alex de volta ao chão.
Alex: Yow —!
Alex lançou um chakram contra ele.
Que saco. Também não tem nenhum sinal do
Yami nesse mundo. Aonde ele se meteu, afinal?
{ . . . }
Lexci vagamente se sentou na torre do relógio, tomando um picolé.
O Alex ainda não chegou, hoje.
E eu não posso me encontrar com a Onix.
Lexci: O botão errado, uhm...
Murmurando, Lexci tomava seu picolé.
?: Sozinho de novo?
Lexci nem ao menos se virou.
Lexci: Aham.
Eu não preciso me virar para
saber de quem é essa voz.
Alex se sentou ao lado de Lexci, começando a tomar seu próprio picolé.
Isso é... chato. Entediante. Será que
é porque a Onix não tá aqui?
Lexci suspirou. Alex viu, e abriu um pequeno sorriso.
Alex: Eles tem me dado um monte de trabalho ultimamente. Pra Onix também.
Lexci: Pois é, não é brinquedo não.
Alex: Qual foi, qual é a dessa cara?
Lexci: Que cara —?
Se eu estou fazendo uma cara,
é porque eu quero, não é?
Lexci abaixou o olhar.
O pôr-do-sol da Cidade Crepuscular
nunca muda. Ele nunca muda,
mas a Onix não está aqui para vê-lo.
Lexci vagamente observou o sol que afundava no horizonte.
{ . . . }
Vendo uma figura seguindo para o salão, Alex parou por um segundo, e logo chamou por ela.
Alex: Onix!
A figura parou, enrijecida, e não se moveu. Nem mesmo se virou.
Alex: Oi, já faz um tempo.
Onix: Faz, não é...?
Onix respondera numa voz bastante baixa, sem olhar para Alex nos olhos.
Alex: Pois é. A gente não toma picolé junto desde que eu voltei.
Onix: Oh, verdade — é, você tá certo.
Alex: Mas eu te vejo de vez em quando, no salão.
Onix: Aham... sinto muito, mas eu tô com pressa.
E quando ela estava para partir, Alex a segurou pelo braço.
Alex: Espera.
Onix: Me solta —
Enquanto tentava escapar, Onix sentiu seu corpo estremecer, e só conseguiu se manter de pé porque Alex a segurava pelo braço.
Alex: Opa.
Alex deu uma olhada no rosto dela — Onix estava completamente pálida.
Alex: Cê tá se sentindo mal?
Onix balançou a cabeça.
Onix: Não é nada... eu sinto muito.
Ela saiu correndo.
"A Onix pode se cuidar sozinha."
Percebendo o quão perigosas tinham sido as palavras que ele dissera para Lexci, Alex foi atrás de Onix.
Alex: Eu falei pra esperar.
Ele a segurou pelo braço novamente.
Onix: Sinto muito, me deixe ir.
Alex: O impostor da Organização —
Onix ergueu o olhar. Seus olhos estavam arregalados.
Onix: Você sabe sobre ele?
Alex: Todos sabem sobre ele, se é isso que você quer dizer.
Onix: Oh — acho que você tem razão...
Ela desviou o olhar, abaixando a cabeça.
Talvez ela esteja digerindo o fato de que
todo mundo sabe que ela perdeu.
Alex soltou o braço de Onix, olhando para ela.
Alex: Eu estive investigando sobre a localização dele.
Onix rapidamente desviou o olhar para ele.
Onix: Mesmo?
Alex: Aham.
Alex lhe virou as costas, dando um pequeno passo.
Alex: O nome dele é Yami.
Os lábios de Onix tremeram, num sussurro.
Onix: — Yami...
Então ela não sabia seu nome.
Onix: Você sabe o que ele é?
Alex consentiu.
Alex: ...aham.
Onix: E sabe aonde ele está?
Alex: Não... ainda não.
Onix: Certo...
Onix desviou o olhar novamente.
Alex: Onix... aconteceu alguma coisa?
Onix: Não é nada! Eu só perdi... pro Yami... só isso.
Alex: Não, isso não é tudo. Não é mesmo?
Onix: — Foi só isso!
Ela provavelmente tá mentindo.
É bem diferente do Lexci, que não sabe
mentir. É uma mentira mais séria.
Alex: Que seja. Onix — ele é especial. Não é estranho que você tenha perdido.
Onix: Como você pode saber sobre algo assim?
Alex: Esse cara —
E então, quando eles finalmente haviam chego ao Q da questão — alguém os interrompeu.
?: Andem logo, já está na hora das suas missões.
Não preciso tentar adivinhar quem é
que sempre me interrompe nessas horas —
Alex: — Asïx...
Asïx: Sejam rápidos.
Onix saiu correndo, exatamente como se tentasse escapar. Alex ainda tentou segurá-la, mas tudo que suas mãos alcançaram foi o ar. Ele suspirou.
Asïx: Eu já disse duas vezes pra você ficar fora disso.
Alex: — Mas eu nem tava me envolvendo tanto assim.
Asïx: O que diabos você estava fazendo, dando suas informações praquela coisa? Não faz sentido.
Alex: Não faz sentido, você diz — se é assim, então por que você colocou o Lexci e a Onix juntos, depois de ela ter perdido pro Yami?
A Onix ficou estranha depois da batalha
com o Yami. E depois disso, o Asïx
fez com que a Onix e o Lexci entrassem
em contato de propósito. E a Onix e
o Lexci tiveram problemas depois dessa
missão — o que o Asïx pretende?
Asïx brevemente balançou a cabeça.
Asïx: Eu não posso te responder isso agora.
Diante deste comportamento, Alex bufou.
Alex: Não vai nem me dizer por que a mudança repentina?
Asïx: Não — oh, é verdade. Do jeito que as coisas estão, creio que precisarei que aqueles dois entrem em contato novamente. Mas você contar pra Onix e pro Lexci sobre o Yami é algo inteiramente diferente.
Alex: — Eu não te entendo.
Asïx: Eu apenas quero que você seja claro. Seja como for, não se envolva demais. Isso é tudo.
Asïx se foi. Num suspiro, Alex o observou.
{ . . . }
O nome dele é Yami. Yami é o nome
dele. Eu tenho que derrotá-lo...
Onix golpeou um Sem-Coração com a sua Chave-Espada. Ele desapareceu, um coração saindo flutuando de seu corpo.
Eu não quero derrotar esses Sem-Corações
fracos... eu quero derrotá-lo — ele, que
é muito mais forte. Yami... eu não vou mais
perder pro Yami. Eu tenho que ficar mais forte
que o Yami, e depois... e depois? Eu —?
{ . . . }
E de novo, eu não encontrei
nem sinal do Yami, hoje. Acho
que se eu o encontrasse, poderia
melhorar um pouco a situação.
Sentado na torre do relógio, como sempre, Alex notou uma presença atrás de si, e dando uma mordida em seu picolé, deu o seu melhor para tentar improvisar a voz mais resplandecente possível.
Alex: Olha, lá vem o árduo trabalhador!
Mas Lexci simplesmente se sentou ao lado de Alex, em silêncio.
Lexci: A Onix tá por aí?
Alex: Não a vi.
Lexci abaixou o olhar.
Lexci: Oh...
Alex: Alguém tem que falar com aquela garota.
Lexci balançou a cabeça.
Lexci: É escolha dela, querer vir conosco ou não.
Alex: Acho que cê tá certo... é justo.
Isso não parece algo que o
Lexci normalmente diria.
Os dois começaram a tomar seus picolés, um ao lado do outro. O pôr-do-sol continuava tão belo e vermelho quanto sempre. Quando já havia chego na metade de seu picolé, Lexci se voltou para Alex.
Lexci: Alex, preciso te perguntar uma coisa.
Alex: Que foi? Aconteceu alguma coisa?
Lexci: Nah, é que... vai parecer bobagem.
Lexci inclinou a cabeça, como se procurasse pelas palavras.
Lexci: Você sabe o que é o amor?
Alex: Como é?
Lexci: Eu descobri sobre o amor na missão de hoje — que é algo poderoso.
Lexci parecia muito sério.
Amor... não é —
Alex: É verdade. É sim. Mas eu nunca vou poder experimentá-lo.
Não creio que eu seja o mais apto
para explicar isso direito. Mas eu quero
responder da melhor forma possível
todas as perguntas que o Lexci e a Onix
possam ter sobre o coração humano.
Lexci: Incorpóreos não podem amar?
Alex: É preciso um coração, véi.
Lexci: Certo...
Lexci parecia perdido em pensamentos.
Alex: Amor é o que acontece quando se tem algo realmente especial entre duas pessoas.
Lexci: Então, é tipo quando... são melhores amigos?
Alex: Bem, é possível ter um laço similar com os amigos, mas não é isso o que eu quero dizer.
Alex procurava por palavras que fizessem Lexci entender mais facilmente.
Lexci: Então... o amor fica, tipo, um degrau acima da amizade?
Encarando-o, Alex imaginava como poderia explicar.
Alex: Sim... bem, não... não tem "degraus".
Lexci: Eu não entendo.
É, parece que não tem como eu
conseguir explicar isso direito.
Alex: Por que isso importa? Nós nunca saberemos a diferença.
Lexci: Se eu tivesse um coração, você acha que eu seria capaz de amar alguém?
Alex: Quando completarmos Kingdom Hearts, você poderá fazer todo tipo de coisa.
Parece que essas são as palavras
mágicas. Nós poderemos saber de tudo
quando Kingdom Hearts estiver
completo... mas será mesmo? Ninguém
nunca viu Kingdom Hearts completo
antes. Mas não nos resta nada além de
acreditar. Esses Sem-Corações,
tão deploráveis, coletando corações
sem qualquer negligência...
Num murmuro, Lexci observou o pôr-do-sol.
Lexci: Isso é bom.
Alex observou o perfil de seu rosto, dando um quieto suspiro.
