Shina e Afrodite estavam na cozinha. Ela já havia aberto um novo maço de cigarros enquanto observava a situação patética do outro, encostado no armário da pia e com um olhar perdido. Não sabia como as pessoas conseguiam se enganar por algo tão bobo. Soltou mais um pouco de fumaça e atendeu o celular, que estava tocando.

- Alô? Sim. Sim. Pode deixar. – desligou o aparelho – Vamos, Afrodite.

Nenhuma reação.

- Afrodite?

Nessa hora, a mente do sueco estava longe. Nem se quisesse poderia retomar a razão. Estava perdido na própria confusão de pensamentos.

- Ai... – disse Shina aborrecida e indo para a outra sala – Máscara da Morte, solte a maluca. Mitsumasa quer ver todo mundo na sala do lago.

- QUEM É A MALUCA AQUI???!!! – berrou Marin, se debatendo, mas a moça de cabelos esverdeados a ignorou completamente. Ainda precisava avisar June.

oOo

Shaka corria pelos corredores da empresa desesperadamente. Não encontrava nenhuma saída. Apenas portas, portas e portas... E cômodos diferentes. Tinha a impressão que estava andando em círculos. Já não tinha idéia para onde ir.

Estava cansado e apenas queria ir embora dali. Ir embora e nunca mais voltar.

Foi então que entrou em um corredor. Analisou bem o local: não havia móveis, quadros ou enfeites. Apenas o teto cheio de lâmpadas fluorescentes. Era totalmente diferente dos outros lugares da empresa.

Sim, a saída! Tinha que ser ali!

Correu de uma extremidade a outra do corredor e logo viu o fim dele se abrindo como as outras portas faziam, porém, não havia saída. Mas sim uma surpresa bastante desagradável.

- Ora, você é muito mal agradecido, Shaka-san! Fui buscar roupas limpinhas e você fugiu!

O loiro ficou paralisado. June estava à porta, vestida com uma roupa que lembrava os trajes dos antigos samurais. Carregava uma espada que parecia ser bastante afiada.

- Bom, se você queria ir embora, vai ter que espera mais um pouco. Mitsumasa-san quer nos ver na sala do lago.

- Eu não vou! – ele disse, desesperado.

- Não seja um mau menino, Shaka-san! Ou Sailor June vai castigar você em nome da lua! – gritou, fazendo a pose da heroína dos mangás.

A garota começou a se aproximar a passos lentos, o que fez Shaka ficar ainda mais apavorado. Não queria ver Mitsumasa ou qualquer um outro daquele local. Não queria... Virou-se de costas e pôs-se a correr de volta.

- Se você não vai por bem... – empunhou a espada, pronta para o golpe – Vai por mal! Estilo Hitten Mitsurugi! Noryou-sen!

June então saiu correndo atrás dele, mas não precisou andar muito: poucos passos à frente, Shaka tropeçou e caiu.

- Como diria a Shina-san, "você é patético!"

-Não precisa ficar me lembrando... – disse ele, desanimado. A garota então lhe sorriu e atirou algumas roupas.

– Se vista rapidinho! Todos estão esperando!

oOo

E finalmente, todos se reuniram no cômodo do lago artificial...

- Senhor Mitsumasa! – berrava a ruiva, às margens do lago – Eu vou salvar você!

- Não se preocupe, Marin! Está tudo bem! – ele respondeu com um sorriso calmo.

- Quem colocou o senhor no barco? Me diga!

- Acalme-se. Não há motivos para balburdia.

Enquanto a enfermeira se desesperava, os outros observavam sem saber o que fazer. Afrodite mantinha seus olhos fixos em Máscara da Morte, que por sua vez, olhava perplexo para o escândalo que Marin estava fazendo.

Perto deles, Aldebaran observava tudo paralisado, como se estivesse em transe. Mu não sabia se puxava o outro pela mão ou se esperava para ver o que aconteceria. O monstro da curiosidade atacava novamente!

Mais afastadas, Shina e June também assistiam aquele bizarro espetáculo.

- Maluca... – sussurrou a fumante.

- Eu nunca vi a Marin-san tão estranha... – disse June, que estava ao lado dela e segurava Shaka pelo braço.

O loiro não estava entendendo mais nada. À beira do lago, a ruiva enlouquecida gritava e implorava para que Mitsumasa voltasse sem fazer nenhuma loucura. Virou o rosto tentando esquecer aquela cena, mas sem querer acabou parando seu olhar sobre Mu, que estava próximo a Aldebaran. Então ele também era cliente da empresa...

- Por favor, senhor Mitsumasa! – berrava Marin, entre lágrimas e soluços – Não faça nenhuma besteira!

O velho continuava calmo e sorridente. Remou mais algumas vezes chegando ao centro do lago. Ignorava tudo à sua volta: os gritos da ruiva, os olhares perplexos de seus empregados e clientes... e todo o resto... Ergueu a cabeça e começou a analisar o teto minuciosamente, como se procurasse algo de especial naquele concreto cinza e triste.

- Marin... – ele disse calmamente, fazendo o desespero da enfermeira cessar magicamente – Eu gostaria de fazer um céu sobre esse lago...

- Um céu? – ela perguntou, enxugando o rosto com a camiseta – Como assim?

- Acho que podemos usar alguns computadores para criar um céu sobre o lago, o que acha?

- Eu? Eu acho que... é uma boa idéia – ela respondeu sem ter muita certeza.

- Um céu ensolarado para o dia e uma noite estrelada quando o sol se fosse...

- Ia ser muito bonito, senhor...

- Que bom que concorda! – ele disse, entusiasmado – Eu gostaria que vocês fossem lá fora e descrevessem o céu para mim... Você está com seu celular aí, não é, Shina?

- É, tô – disse enquanto pegava o aparelho.

- Então, podem fazer isso? É um favor que eu peço a vocês.

- Faremos sim, senhor! – e então voltou-se para os outros com um olhar ameaçador – Vocês concordam, não é?

- Sim! – disse June, animada.

- Que seja... – respondeu Shina.

Máscara da Morte deu aceno positivo desanimado com a cabeça e Aldebaran permaneceu calado, assim como Mu e Afrodite. Iam aproveitar a ocasião para ir embora.

- Saiam pela entrada principal! Me liguem quando chegarem lá em cima!

oOo

Todos deixaram Mitsumasa sozinho naquele local. Marin foi à frente, conduzindo-os até a entrada principal. Aquele lugar tinha um sabor especial para a ruiva: fora por ali que ela havia entrado pela primeira vez na empresa, a convite de Mitsumasa... Aquele lugar todo era apenas deles dois. Mas logo chegaram os clientes... e o os outro empregados...

Não demorou muito para que ela tomasse o celular de Shina. Não ia deixar que outra pessoa contasse ao seu querido patrão como estava o céu naquele dia. Mas a moça de cabelos esverdeados não se importava: não estava nem aí para o que ia acontecer.

Mitsumasa certificou-se que nenhum deles mais estava no local. Então abaixou-se com alguma dificuldade e pegou a corda que era usada para prender o barco à margem e amarrou seu corpo à cadeira de rodas.. Deu nós bem apertados para ter certeza de que ficaria bem preso.

Não demorou muito e o celular tocou...

- Alô? – perguntou ele, atendendo o telefone.

- Senhor Mitsumasa, é a Marin. Estamos aqui fora.

- Certo... Me descrevam como o céu está. Quero imaginar como seria vê-lo daqui de dentro e ver como posso projetar tudo.

- Bom, o dia está ensolarado...

O velho colocou o celular no colo sem escutar mais nada. Retirou do bolso do quimono um controle remoto. Pensou mais uma vez se aquilo era o certo a fazer... Mas do jeito que estava, não podia continuar. Apertou um botão e uma voz computadorizada saindo do aparelho avisou: "Portas e passagens da asa leste trancadas".

- ... algumas nuvens...

Um novo botão... "Portas e passagens da asa oeste trancadas".

- O senhor está me ouvindo? Senhor Mitsumasa?

Outro botão. "Entrada principal fechada".

- Senhor Mitsumasa? Senhor Mitsumasa? – Marin gritava ao celular, enquanto os outros se mantinham calados. Quando deram por si, a porta por onde haviam saído estava se fechando – Não! Não faça isso! Senhor Mitsumasa!

De dentro da empresa, ele sentiu uma pontada de dor ao ouvir a voz da ruiva pelo telefone. Tinha que ser forte! Não era hora de voltar atrás.

"Cabine telefônica de transporte desativada".

O desespero da mulher ficou ainda maior quando ela viu a cabine telefônica emergir por uma passagem que se abriu do chão.

- Senhor Mitsumasa... – caiu de joelhos, chorando.

"Fluxo de água cortado".

Os outros observavam tudo assustados. Nem mesmo os outros empregados faziam idéia do que estava havendo. Mas fosse o que fosse, não ia acabar bem para Marin...

"Energia desligada".

Não havia mais nada a ser feito. Não havia mais como voltar atrás. Ninguém nunca mais entraria ou sairia da empresa.

- Senhor Mitsumasa... o senhor está aí? – chamou a voz angustiada do outro lado da linha.

- Adeus, Marin. Muito obrigado por tudo.

Desligou o celular e o atirou na água. Fez o mesmo com o controle remoto e então usou a pouca força que ainda lhe restava para balançar o barco. Como não obteve resultados, pegou novamente o remo e o pressionou contra o fundo da embarcação, fazendo a cadeira se mover lentamente até a beirada dela. Olhou novamente para a água... Tão calma, tão cristalina... Que ali fosse seu túmulo.

- Perdão, meu Deus.

Fez força uma última vez e caiu na água. Sentiu a água invadindo aos poucos seu pulmões. Mas isto era o certo... Tinha que pagar por seus erros, pelos seus assassinatos... O peso da cadeira de rodas o fez afundar mais rápido, diminuindo sua dor.

Logo, as bolhas de ar não subiram mais à superfície.