O Bardo e o Pardal

Capítulo 11


1 mês depois...


- Ei! O que pensam que estão fazendo?

- Ih! Vamos embora! É aquele homem de novo!

Os garotos largaram as pedras que tinham nas mãos e saíram correndo.

- E não voltem mais aqui! Entenderam? – gritou Ikki, buscando se fazer ouvir, apesar da distância que já o afastava do grupo de garotos que saíram correndo dali.

- Crianças endiabradas. – bufou Ikki, para depois dirigir seu olhar ao coelho que, assustado, fora refugiar-se dentro de um tronco seco.

Olhou para o céu. Estava escurecendo. Lasho já devia ter chegado. Estava na hora de voltar para a cabana...


- Ah. Aí está você. – falou o pajem, com a voz impessoal, quando Ikki abriu a porta.

Ikki não se deu ao trabalho de cumprimentar Lasho. Entrou na cabana sem dar qualquer importância para o outro que estava sentado à mesa, com o livro Azul aberto a sua frente. Retirou a capa que vestia e dirigiu-se para seu quarto. Antes, porém, que entrasse em seu simplório aposento, ouviu a pergunta do pajem, que também sequer se dera ao trabalho de olhar para o rapaz de cabelos azulados, visto que parecia mais interessado em sua leitura:

- Quanto tempo mais de neve?

- Uma semana.

- Bom saber. – respondeu Lasho, com os olhos no livro.

- E Natássia?

- Estável.

O moreno suspirou e entrou no quarto, fechando a porta.

Ikki caminhou pesadamente até sua cama para, em seguida, sentar-se nela e permanecer um tempo assim, parado, olhando para um ponto invisível da parede. Suas feições eram duras e frias, mas seus olhos traziam algo de melancólico.

Já fazia um mês. Um mês sem sentir aquela presença reconfortante. Um mês que conseguira fazer com que Ikki esquecesse, quase por completo, como era sentir-se feliz. Os únicos sentimentos que ainda residiam no moreno eram os de tristeza, amargura... saudade. Esses sentimentos traziam dor ao rapaz, mas ele não lutava contra essas sensações... As lembranças com Hyoga eram o que o faziam conseguir levantar-se pela manhã e passar por mais um dia. Era isso que ainda o mantinha vivo.

Deitou-se na cama. Havia acabado de escurecer, mas Ikki já desejava dormir. Era assim que vinha vivendo seus dias. Dormia cedo, acordava tarde. Preferia passar o máximo de tempo possível inconsciente. E durante o período em que permanecia desperto, Ikki passava essas horas vagando pelos arredores da cabana. Andava pelos lugares a que costumava ir com Hyoga quando treinavam juntos e, depois, sempre acabava indo ao lugar onde antes ficavam as ervas medicinais que, durante algum tempo, ajudaram a melhorar a saúde de Natássia. O moreno tinha clara predileção por aquele lugar. Fora ali que vira Hyoga pela primeira vez...

Entretanto, nos últimos dias, algo vinha perturbando esses passeios solitários de Ikki. Algumas crianças começaram a aparecer naquele campo que, por ficar distante de suas casas, era o lugar ideal para poderem aprontar todo tipo de traquinagem. Dessa vez, surpreendera-as atirando pedras em um coelho. Mas não era a primeira vez que as vira maltratando animais. Já tinha expulsado essas crianças dali uma vez, uns dois dias atrás, quando as viu atirando pedras em alguns pássaros. Lembrou-se de que Hyoga reprovaria por completo aquela atitude, pois o loiro, na primeira vez em que se encontraram, repreendeu o moreno, que usava pardais como alvos móveis para treinar sua mira. Por isso, Ikki não permitiria que aquelas crianças profanassem o campo que, por guardar a memória de Hyoga, havia se tornado uma espécie de santuário para ele.

Virou-se para o lado. Não estava conseguindo adormecer. Quando as lembranças com Hyoga vinham com mais força, ficava muito agitado. Não conseguia frear as memórias, que vinham aos borbotões. E então ficava pensando em como sua vida mudara tanto nas últimas semanas.

Desde que despertara do acidente, vira o conde Muldovar apenas uma vez. Ao que parecia, seu padrinho estava muito ocupado com questões acerca de sua nomeação para o cargo de vizir real e por isso precisava ficar mais no castelo, sem tempo para visitá-lo. Mas Ikki não se importava. Não fazia a menor questão de ver o conde. A única coisa que lhe interessava era saber se Natássia estava bem e essas notícias ele recebia por Lasho, que ainda aparecia na cabana todas as noites, partindo ao amanhecer como sempre fizera. Contudo, o moreno se perguntava por que o pajem ainda se dava ao trabalho de ir até lá. A rotina de ambos tinha mudado. Ikki não estava mais treinando. Não praticava mais feitiçaria nem estudava técnicas de combate. Nos primeiros dias, enquanto se recuperava do acidente, pensara que o conde permitira a ele um período de descanso em virtude dos últimos acontecimentos. Porém, os dias foram passando e Lasho, que continuava aparecendo à noite, não lhe perguntava se havia treinado durante o dia, como sempre fizera. Apenas chegava, certificava-se de que Ikki estava lá e pronto. Não trocavam qualquer palavra. No máximo, o criado lhe dava alguma notícia sobre Natássia – isso se o moreno não tocasse no assunto antes. Depois, o pajem abria algum livro de feitiçaria e ficava estudando. E deixava Ikki em paz.

Na única vez em que Muldovar aparecera, há duas semanas, ele sequer ficou o dia inteiro, como era de costume. Veio apenas para saber como Ikki estava. E ficou satisfeito ao ver que seu afilhado estava inteiro. Ao menos, fisicamente, já que o rapaz sentia-se destroçado por dentro. De todo modo, isso era o que menos importava ao conde. Muldovar nunca demonstrou se preocupar com o lado emocional de Ikki, contanto que, por fora, o rapaz estivesse sempre forte. Nessa visita, tendo confirmado o que buscava, não falou a respeito de treinos ou sobre Hyoga. Na verdade, não falou sobre nada. Disse apenas que estaria muito ocupado nas próximas semanas, que Ikki se cuidasse e que Lasho continuaria vindo à cabana para saber se ele estava bem. O moreno, por sua vez, também não quis muita conversa. Indagou apenas a respeito de Natássia, no que recebeu a mesma resposta que Lasho sempre lhe dava: que o conde estava fazendo tudo a seu alcance, mas o máximo que conseguira fora deixá-la estável, porém ainda desacordada. Mesmo assim, Ikki insistiu em dizer que quando ela despertasse, levassem-no o quanto antes para conversar com ela. O rapaz acreditava que se Natássia teria de receber a notícia de que seu filho havia falecido, era ele quem deveria dizê-lo a ela.

"Não se preocupe. Se ela despertar, levarei você até ela." Essa tinha sido a resposta do conde. Ikki não gostara muito do "se" nessa resposta, mas ele sabia que Muldovar estava sendo apenas realista. Todavia, o moreno desejava muito que Natássia vivesse, como se assim alguma parte de Hyoga pudesse permanecer viva. Desejava também que a mãe de Hyoga vivesse porque sentia grande simpatia por ela, e porque sabia que ela seria a única que compreenderia o tamanho de sua dor, já que certamente também sentiria muito a perda de Hyoga. Mas, principalmente... desejava que ela vivesse porque sabia quão árdua fora a luta do loiro para mantê-la viva. E não queria deixar que a existência de Hyoga, a qual, em grande parte, fora em prol da vida de sua mãe, tivesse sido em vão.

Por tudo isso, Ikki sentia que não estava agindo corretamente contentando-se em receber apenas notícias diárias sobre o estado de Natássia por meio de Lasho. Não; lá no fundo, ele sabia que deveria ir atrás dela, exigir mais do que um simples "ela está bem" por parte do pajem, encontrar um meio de vê-la, mesmo que ainda estivesse desacordada. No entanto, não tomava qualquer atitude nesse sentido. E ele sabia bem por quê. Mesmo que Natássia estivesse adormecida, mesmo que não pudesse encará-lo nos olhos... Ikki não conseguia se imaginar diante da mãe do viajante. Ele sentia-se culpado pela morte de Hyoga. Que ideia absurda aquela, a de congelar o lago! Ele ainda não dominava seus poderes tão bem; o que o fez pensar que realmente conseguiria congelar toda aquela água? Não; aquele acidente não fora uma fatalidade. Fora um castigo para que Ikki lembrasse sempre de não ser tão arrogante a ponto de achar que poderia efetuar um feitiço daquela magnitude. E quem pagou o preço por sua atitude irresponsável fora Hyoga. Ikki jamais seria capaz de se perdoar por isso...

E, em meio a todos esses sentimentos de culpa, angústia, saudade e solidão, o atormentado rapaz adormeceu.


Na manhã seguinte...

- Já acordou? – perguntou Lasho, ao ver Ikki saindo da cabana.

- Não consegui dormir direito essa noite. – respondeu o moreno, um tanto mal-humorado.

- Certo. – falou o pajem, não demonstrando grande interesse no que Ikki dissera – Bem, já estou indo. – e, dito isso, terminou de amarrar suas coisas a seu cavalo, montou no animal e partiu dali como fazia todas as manhãs.

Ao se ver sozinho, Ikki decidiu sair para dar uma caminhada. Como não treinava mais, seus dias resumiam-se em andar a esmo por lugares próximos à sua cabana, dar água e comida para os cavalos, entre algumas outras tarefas domésticas.

Enquanto caminhava, percebeu que a quantidade de neve sobre o solo estava diminuindo. E, sabia ele, essa neve já não duraria mais que uma semana. Ikki, apesar de não praticar ou estudar mais feitiçaria, não desaprendera o que já conhecia. E uma das coisas que ele aprendera era saber, com exatidão, quanto tempo choveria, ou nevaria, ou faria calor. Seus estudos sobre o controle de temperatura permitiam que ele percebesse certos elementos na natureza que lhe indicavam as respostas para essas questões.

Assim, fazia seu passeio solitário como todos os dias e, como sempre, acabou indo parar no campo onde, antes, encontravam-se as ervas, mas na qual, agora, só havia uma grossa camada de neve.

Foi andando por aquela região que algo saltou a seus olhos. No meio de todo aquele branco, ele conseguiu visualizar uma pequena armadilha para pássaros, já um pouco encoberta pela neve. Aproximando-se mais da armação, que se assemelhava a uma pequena gaiolinha de madeira, percebeu que havia um pássaro preso ali. Era um pardal.

Ikki correu a desenterrar a gaiola, que estava parcialmente afundada naquela neve. O pardal permanecia imóvel e o rapaz acreditava que o animalzinho devia estar quase morto devido ao frio. No entanto, tão logo ele abriu a armadilha, o pequeno pássaro voou velozmente para longe dali.

O rapaz julgou então que o pássaro estivera imóvel devido ao medo, e por isso também fugiu tão rápido quanto pôde ao se ver livre. Estava assustado. Contudo, Ikki não deixou de ficar impressionado... pela quantidade de neve que encobria parte da gaiola, o pardal não ficara preso ali por pouco tempo. Como sobrevivera ao frio? Sim; ele sabia que pardais sobrevivem bem ao inverno e à neve, mas isso porque eles costumam se enterrar bem fundo na grossa camada de neve que fica sobre o solo, protegendo-se em uma espécie de bolsão de ar que os isola termicamente do frio ao redor. Porém, preso naquela armadilha, o pássaro não tinha como se enterrar na neve para se proteger, ficando então exposto a todo aquele frio.

"Passarinho forte." Pensou Ikki. E, deixando esse assunto de lado, decidiu que era hora de regressar. Tinha de alimentar os cavalos. Já ele... não tinha fome. Apesar de não ter comido nada desde que acordara, não sentira vontade de fazer alguma refeição. Aliás, havia já um mês que ele não sentia vontade de fazer qualquer coisa...


- Mestre, por quanto tempo mais eu devo...

- Lasho, não me interrompa! Não vê que estou no meio de algo importante? – retrucou Muldovar, enquanto misturava algumas ervas em uma pequena vasilha.

- Senhor, é que... já estou aqui esperando para falar-lhe há algum tempo...

O conde bufou. Estava visivelmente impaciente. Olhou de forma fulminante para o jovem e perguntou, com olhos ameaçadores:

- O que tem para me dizer é mesmo importante? Porque se não for, Lasho, eu...

- Preciso saber até quando ficaremos assim, mestre. – interrompeu Lasho, para dizer logo o que queria – Já estou cansado disso; quero voltar a treinar, praticar feitiços e...

- Cale-se! – bradou o conde – Estúpido! Ainda não entendeu o que estamos fazendo aqui?

O pajem calou-se. Percebeu que havia despertado a ira de seu senhor.

- Estou muito perto de conseguir o que quero, e é justamente por isso que não posso errar em absolutamente nada agora! Cada passo meu deve ser dado com todo o cuidado! Não posso pôr tudo a perder, principalmente por conta dos caprichos de um criado...!

- Não são caprichos, mestre. O senhor prometeu que me treinaria, que faria de mim um feiticeiro...

- E eu vou cumprir minha promessa! – respirou fundo, para se controlar – Lasho, vou dizer pela última vez... Você terá de ser paciente. Você só vai conseguir o que deseja quando eu alcançar o meu objetivo. Será assim tão impossível para você entender o que eu digo?

- Eu entendo tudo o que diz, mestre. – respondeu o pajem, algo revoltado – Mas estou com dificuldades para acreditar. Queria uma prova de que tudo realmente ocorrerá como o senhor diz...

- Eu estou dizendo que tudo irá sair como eu quero. Essa é a única prova de que precisa.

- Não sei como poder ter tanta certeza...

- Está querendo dizer alguma coisa com isso, Lasho? – inquiriu o conde, que não gostou do tom de voz usado pelo pajem.

- Na verdade, estou sim, mestre. Eu não confio em Hyoga. Tenho minhas dúvidas se ele está realmente nos ajudando.

- Ele está nos ajudando. Quanto a isso, não há com que se preocupar.

- Como pode saber, mestre? Tudo o que Hyoga faz é chegar aqui, à noite, para lhe dizer o próximo passo que o senhor deve seguir. E o senhor sequer questiona o que ele diz, faz o que ele manda e ainda espera que eu aceite que isso está bem?

- Sim. – respondeu Muldovar, que já havia voltado sua atenção novamente para a vasilha com ervas.

- E se ele estiver mentindo? E se estiver tentando nos enganar? Quem pode garantir que o que ele fala é verdade...?

- Eu posso, Lasho. Ou você se esqueceu de que a mãe dele está em minhas mãos?

- Ainda assim, senhor. Acho arriscado confiar nele. Creio que estamos depositando muita confiança em alguém que não me parece merecedor disso...

- Guarde suas desconfianças para você, Lasho. O rapaz sabe muito bem o que pode acontecer se ele me trair ou não seguir minhas regras. E agora, em vez de me atrapalhar, seja útil. Preciso de mais destas ervas. Vá buscar uma boa porção delas no bosque, porque preciso desta poção pronta o quanto antes...


- Mas será possível? Vocês outra vez?

- Olha! É aquele homem de novo.

Um dos garotos aproximou-se de Ikki e, apesar da considerável diferença de tamanho entre eles, encarou o moreno nos olhos:

- Foi você quem mexeu na nossa armadilha que estava aqui? – perguntou o menino, muito sério.

- Ah. Foram vocês que montaram aquela armadilha. Devia ter imaginado.

- Então, foi você quem mexeu nela? – voltou a perguntar o garoto.

- Sim, fui eu. Havia um pardal preso ali e eu o libertei.

- Você fez o quê? – replicaram os meninos, claramente revoltados.

- Libertei aquele pássaro. E, agora, sabendo que tinham sido vocês quem montaram a armadilha, estou ainda mais satisfeito de tê-lo feito.

As crianças olharam para Ikki, bastante emburradas. O moreno permanecia impassível diante delas e, como se entendessem que não havia mais o que se dizer ali, os garotos deram meia-volta e iam se retirando quando o garoto que havia encarado Ikki antes (aparentemente, o mais velho deles), olhou firmemente para o homem de cabelos azulados, mais uma vez, e disse-lhe:

- Não se intrometa mais com as nossas coisas, ouviu?

Ikki admirou-se com a ousadia do garoto. Mas não respondeu nada. Então, os outros meninos, que já haviam se afastado deles, gritaram:

- Vamos embora, Racom! Hoje a gente não vai conseguir mais nada e já está na hora de voltarmos!

O menino então olhou uma última vez de forma ameaçadora para Ikki e depois saiu em disparada com seus companheiros.

- Já vi que esses meninos vão me dar ainda muito trabalho... – suspirou Ikki, sem imaginar o quanto de verdade havia nessas palavras.


Três dias depois...


Ikki fazia seu passeio matinal, como de hábito, pelo campo coberto de neve. Entretanto, essa caminhada estava longe de ocorrer pelos motivos que antes o levavam a passar por lá. O moreno, nos últimos dias, percebera que aquelas crianças estavam sempre ali por perto, rondando, esperando algo. Não vieram mais confrontá-lo, apesar de o mais velho às vezes lançar a ele um olhar que tentava mostrar que não tinha medo de Ikki. Assim, compreendendo que aqueles garotos estavam aprontando alguma coisa, o rapaz decidiu que ficaria de olho neles. Por isso, começou a ir até aquele campo com mais frequência, deixando claro para os meninos que os estava vigiando.

No entanto, nessa manhã em particular, não havia nem sinal dos garotos. Ikki já estava andando por lá há algum tempo e nada. O rapaz estranhou... Afinal, nos últimos dias, os meninos estiveram sempre por ali. Isso definitivamente não devia ser bom sinal...

De repente, Ikki ouviu o zunido de uma flecha. Sobressaltou-se; quem poderia estar caçando por lá? Seguiu para onde achava ter ido a flecha e lá encontrou, caído na neve, um pardal ferido, com a flecha em sua asa.

Aproximou-se do pássaro e pôde constatar que estava vivo. Entretanto, o animalzinho estava um tanto agitado; mesmo ferido, tentava voar e fugir do moreno.

- Ei, calma... Eu não quero machucar você... – falava Ikki, tentando acalmar o pardal, enquanto buscava tomá-lo em suas mãos.

Nesse momento, o grupo de garotos chegou ao local. Ao ver Ikki com o pequeno pássaro em suas mãos, os meninos ficaram exaltados:

- Ei! Esse pardal é nosso!

Ikki percebeu que foram esses garotos os autores da flechada, uma vez que traziam em suas mãos arco e flechas. Levantou-se, segurando com cuidado o pardal em suas mãos, e disse:

- Esse pardal não pertence a ninguém. – e, dito isso, virou-se para ir embora dali.

- Não escutou o que dissemos? Ele é nosso, sim! Nós o acertamos, não está vendo? – gritou enraivecido o menino mais velho.

- Sim, estou vendo. E é por isso mesmo que vocês devem aproveitar para sair correndo agora. Já disse que não queria mais vê-los por aqui maltratando animais indefesos.

- Ah é? – provocou o garoto – E se nós não sairmos correndo, o que você vai fazer?

- Garoto, escute bem... Você não quer me ver nervoso. Entendeu?

Racom continuava encarando o moreno, apesar de em seus olhinhos miúdos já não haver a mesma firmeza de antes. Os outros meninos, entretanto, algo assustados com as feições severas de Ikki, chamaram o amigo:

- Racom, é melhor irmos embora. Vamos, vamos agora! - e assim, puxando o amigo pelo braço, correram para longe dali.

Ikki observou o grupo de meninos afastando-se do local. Depois, vendo-se finalmente a sós com o pássaro, disse:

- É... você está bem machucado. Mas vamos já cuidar disso.

E, com um bonito sorriso, afagou o pardal que agora repousava, sem inquietação, nas suas mãos.


- Pronto. Viu só? Eu disse que não ia doer muito.

Ikki observava o pardal como quem admira um belo trabalho. Havia conseguido retirar a flecha da asa do pássaro com cuidado, causando, acreditava ele, o mínimo de dor possível para o animalzinho.

Depois, improvisando com um pedaço de madeira uma espécie de tala, enfaixou a asa do pardal. E, durante todo esse trabalho, que executou com bastante delicadeza para não ferir o pequeno pássaro ainda mais, ia falando com ele, em tom de voz suave, como se isso pudesse acalmá-lo, apesar da avezinha não parecer mais assustada.

- É... Em um par de dias você deverá ficar bom. Felizmente, aqueles garotos não lhe causaram qualquer ferimento mais grave.

E, observando o pássaro que andava em voltas sobre sua cama, mexendo a asa ferida como quem está tentando verificar o quanto ainda consegue movimentar um membro machucado, o moreno disse:

- O que esses meninos querem com você? Porque você é o mesmo pássaro que eu libertei outro dia da armadilha, não é? – e fez um afago no peito da pequena ave – Essa plumagem dourada que você tem aqui é bem diferente... Será por isso que estão atrás de você?

O passarinho parecia olhar para Ikki com quem entende o que ele diz.

- É um bonito pardal, realmente... Deve ser por isso mesmo que o estão caçando. Mas não se preocupe; não deixarei que lhe façam qualquer mal.

E, percebendo que o pardal permanecia quieto, olhando para ele atentamente, Ikki riu:

- Céus... a que ponto cheguei... estou conversando com um pardal! – e passou a mão pelos cabelos azulados – O que não faz a solidão com uma pessoa...

Levantou-se da cama. O sol já estava bem alto e era hora de alimentar os animais, retirar água do poço...

- Preciso ir agora. Tenho muitas coisas para fazer. – disse, dirigindo-se ao pássaro, enquanto se levantava – E aqui estou eu, falando com você de novo. – e sorriu – Mas também... você fica olhando para mim como se entendesse o que eu digo. – e olhou fixo para a ave, que continuava parada, sobre a cama, olhando para ele – Mas será mesmo só impressão? Eu poderia jurar que você realmente... – e levou a mão ao rosto, como quem se sente embaraçado com algo – É melhor eu parar com isso. Já estou imaginando coisas. Quando dizem que a solidão pode enlouquecer uma pessoa, não estão mentindo. – e, rindo de si mesmo, deixou o quarto.

Fora da cabana, ia puxando água para fora do poço quando, ao dar um passo para trás ao puxar a corda da caçamba, escutou um pio que o assustou; havia quase pisado sobre o pardal que estava no chão, atrás dele.

- Ei! O que está fazendo aqui? – falou Ikki, enquanto tomava rapidamente o animalzinho em suas mãos, para assegurar-se de que não o havia ferido.

- Aqui fora é perigoso para você! Enquanto estiver impossibilitado de voar, não pode ficar andando assim por aqui.

Voltou então para a cabana e deixou novamente o pardal sobre sua cama:

- É para você ficar aqui, entendeu?

Deixou então seu quarto, mas quando ia saindo outra vez da cabana, percebeu que o passarinho tinha mais uma vez pulado de sua cama para o chão e o ia seguindo.

- Mas como você é teimoso! Pelo menos, agora tenho a certeza de que não entende o que eu digo. Era só impressão minha, mesmo.

E levou o pássaro mais uma vez para a cama. Porém, mal colocou o pardal sobre seu leito e a ave já pulou mais uma vez para o chão, colocando-se a seu lado, como se desse a entender que o seguiria de qualquer jeito.

- Hum... Está bem. Acho que entendi. Não quer ficar aqui, preso nesse quarto, não é?

E pegou o pássaro em suas mãos.

- Mas não posso deixá-lo andando por aí, sem poder voar. Isso faz de você uma presa fácil.

E, olhando para o animalzinho, que parecia fitá-lo com muita atenção, falou:

- Vamos ver se minha ideia funciona. – e então colocou o pardal em seu ombro – Será que você aceita ficar aqui ou vai continuar pulando para o chão?

Permaneceu um tempo parado para ver a reação do pássaro. O pardal, entretanto, não se moveu. Ficou sobre o ombro de Ikki sem fazer qualquer menção de que desceria dali.

- Bom. Ao menos, você ficará mais seguro desse jeito.

Assim, deixou a cabana com o passarinho e pôde, sem problemas, executar suas tarefas. O pardal, que permanecia tranquilo sobre seu ombro, deixou o rapaz surpreso com a naturalidade com que ele ficava ali. Naturalidade que Ikki também sentiu e, gostando realmente da companhia da ave consigo, continuou a conversar com ela enquanto realizava seus trabalhos.

Dessa forma, o dia foi passando com uma leveza que há algum tempo Ikki não experimentava. A presença da ave era agradável. E, sem mais se repreender, deixou-se conversar com o pardal como se ele realmente o compreendesse. Se estivesse ficando louco, quem se importaria?

Então, depois de realizar as tarefas domésticas, resolveu dar um passeio pela região, como sempre fazia. Até esse momento, já havia conversado muito com o pássaro. Falara sobre sua vida, sobre seus pais, sobre Muldovar... era uma verdadeira catarse. Sem que percebesse, ia falando sobre os rumos que sua vida fora tomando e como ele ia vivendo sem ter pleno controle de suas ações.

Quando finalmente dirigiu-se ao campo de que tanto gostava, começou a falar de Hyoga. Era um verdadeiro desabafo. Falava com o pardal, mas falava para si mesmo também:

- Sim, eu imagino o que está pensando. Acha que sou um fraco, um covarde, não é mesmo? Bem, não o culpo. Penso isso de mim também. Reclamo que Muldovar me trouxe para uma vida com a qual não me identifico nem um pouco, porém... o que fiz de fato para mudar isso? Nada. Devo ter me acomodado. Ou melhor, fugido. É, acho que fugi do mundo. Nem Esmeralda sabe de meu paradeiro. Ela deve achar até que morri ou algo do tipo, para ter desaparecido dessa maneira. E fui vivendo assim muito tempo, sem me questionar sobre minhas atitudes... ia apenas aceitando o destino que me foi imposto.

Sentou-se um pouco sobre um tronco seco e tomou o pardal em suas mãos:

- E isso não é viver, concorda? É... eu não estava vivendo, mas nem me importava. Acho que não sabia o que estava perdendo. Ou, pelo menos, não queria enxergar. Já não desejava mais sonhar, ser feliz tinha se tornado algo desnecessário para mim...

E então, um sorriso triste estampou-se naquele rosto moreno:

- Até que ele apareceu em minha vida... – e suspirou – Como uma pessoa pode mudar tão completamente a nossa vida? Eu fico até hoje impressionado... Eu acho que nunca me senti tão vivo como quando fiquei com ele...

Os olhos azuis de Ikki brilharam como há um mês não acontecia.

- Ele me fez ver tantas coisas... aprender outras tantas... ele...

E algumas lágrimas brotaram do canto de seus olhos:

- Mas de que importa? Ele não está mais aqui. – e levantou-se do tronco bruscamente. Recomeçou a caminhar, mas já não dizia mais nada. Permanecia em um silêncio pesado.

Então, após um tempo nesse silêncio desconfortável, o pardal começou a cantar, despertando Ikki, que até então estivera perdido em pensamentos obscuros:

- Você... canta? – surpreendeu-se o rapaz – Oras... e ficou calado o dia inteiro?

Parou para apreciar melhor o canto do pardal. Era um canto melodioso, agradável... trazia serenidade a Ikki.

- Você não canta como os outros pardais... – sorriu o moreno – É muito mais bonito...

Deixou que o pássaro pousasse sobre seus dedos e o apreciou por mais algum tempo. Subitamente, porém, o passarinho parou de cantar. Tentando entender o que se passava, Ikki voltou seu olhar ao redor e viu, um pouco distante, o grupo de meninos debaixo de algumas árvores, observando-o.

- Entendi. Vamos embora daqui. – falou Ikki, olhando para os garotos de modo que eles entendessem que deviam mesmo permanecer à distância – Fique tranquilo; não deixarei que se aproximem de você.

De volta à cabana, Ikki colocou algumas frutas sobre a mesa para que o pardal se alimentasse. A ave, porém, não tocava no alimento. Parecia olhar para Ikki, como se esperasse por algo.

- O que foi? Por que não come?

O pardal continuava quieto, observando Ikki.

- O que está esperando? Vamos, é para você comer.

O animalzinho continuava parado e seu silêncio parecia insistir em algo.

- Você... está querendo que eu coma junto com você?

Ikki sentia que devia estar ficando louco mesmo. A ele, pareceu que o passarinho quis dizer sim, ao movimentar as asas após sua pergunta.

- Não estou com fome.

O olhar do pássaro tornou-se intenso. Ikki ficou sem reação. Acabou acedendo:

- Está bem. Eu vou comer também. Como você é teimoso... – e sorriu.

Após a refeição, Ikki foi sentar-se à beira da janela. Colocou o pardal sobre o parapeito e ficou a observar o fim de tarde.

- Logo, o sol vai se pôr. É muito bonito de se ver daqui. Só é uma pena que esse seja o momento em que Lasho chegue. Estraga a beleza do espetáculo.

Ikki mal tinha pronunciado essas palavras, quando percebeu que o passarinho voltou a ficar agitado. Durante todo o dia ele não tinha demonstrado esse alvoroço. O moreno olhou para fora, tentando ver se havia algum predador por perto que pudesse estar assustando a pequena ave. Mas não viu nada.

De repente, o pardal saltou da janela para fora da cabana. Ikki, que não esperava por isso, correu atrás dele:

- Aonde você vai? Já disse que é perigoso aqui fora! Você ainda não pode voar e...

E, nesse exato momento, o pequeno pássaro, que corria para ganhar velocidade, alçou voo, surpreendendo o moreno mais uma vez:

- Como... como pôde recuperar-se tão rápido...?

E, passando a mão pelas mechas azuis, viu o pardal voar cada vez mais alto, afastando-se dali muito rápido. O sol começava a se pôr nesse instante e o céu avermelhava-se cada vez mais. Ikki sentiu-se triste e isso o impediu de apreciar o belo espetáculo que se apresentava diante dele. E esse fato, dessa vez, nada teve a ver com a chegada de Lasho, que se aproximava nesse exato momento da cabana...

Continua...